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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

CANONIZAÇÃO/CANONIZACIÓN São Rafael Arnáiz Barón – O silêncio




CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

SÃO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN

O silêncio

“Das coisas que nos consolam na vida monástica, uma delas é o silêncio.

Sobretudo, há certas horas em que o silêncio se impõe pela necessidade; precisa-se dele; é o consolo do trapista; é o refúgio do aflito e desconsolado; é o recreio do que está alegre, e faz a felicidade do enamorado de Deus.

No silêncio é onde o monge encontra o bálsamo de suas dores e de suas, algumas vezes, desolações; no silêncio monacal é onde a alma que goza de Deus esconde suas delícias; no silêncio se ama melhor a Deus; com o silêncio o sofrimento é mais eficaz; no silêncio é onde muitas vezes se encontra o consolo que não podem dar as criaturas.

Que formoso e agradável é o silêncio!
Como ajuda a alma a buscar a Deus!
E como, uma vez que a Deus se encontrou, nos ajuda a conservá-lo e a não profanar sua presença!

Alguns dias, a alma de certo trapista encontra sua felicidade em conservar seu silêncio. Este trapista não trocaria de lugar com ninguém pois o que para o mundo é uma penitência, para ele é o seu céu na terra.

Quando lentamente transcorrem as horas da noite, dessa noite que o monge utiliza para rezar diante de Deus, quando toda a natureza dorme e a escuridão convida a alma ao recolhimento e à oração, quando nessas horas serenas esse fradezinho se aproxima do altar de Deus e recebe em seu coração o Autor da noite, ao Deus que fez os céus cobertos de estrelas, então, quando a alma se encontra rodeada de paz por fora e de luz por dentro, quando a escuridão envolve o Mosteiro e divinos resplendores iluminam o coração, então é quando se precisa do silêncio.

O sol, como que envergonhado de perturbar a paz da noite, vai aparecendo pouco a pouco no horizonte; uma tênue neblina rodeia o que há na paisagem; a Criação vai despertando, tudo vai se inundando de luz pouco a pouco; a Igreja do convento tem uma janela por cima do Altar Maior, e por esta janela entra a luz; esta luz suave do amanhecer fere e acaricia a imagem da Virgem Maria, chega até o Sacrário e entra no Coro.

Já se pode ler claramente nos grandes livros. À medida que a luz que Deus envia ao mundo cada manhã vai tomando tudo, a alma do monge vai se inundando também de alegria, de paz, de agradecimento ao Senhor que é tão bom com o homem. Então, quando tudo começa a viver, quando os pássaros aturdem com seus cantos, quando o sossego da oração é trocado pelos instrumentos de trabalho manual, quando o monge começa sua jornada, quem sabe se a padecer, então a alma deste homem, dando-se conta de que a vida sobre a terra é luta, de que ainda está no desterro, eleva seu coração sobre todas as coisas, pede auxílio a Deus, a quem oferece as obras do dia, se abraça à cruz de cada dia e, com o pensamento na Virgem, se refugia no silêncio, nesse silêncio que lhe ajuda a conservar a oração da noite. E nesse silêncio, oferece a Deus, umas vezes o suor de sua fronte, outras o frio, e sempre seu trabalho, seja qual for.

Que formoso é esse silêncio do trapista durante o seu trabalho!...A alma se dilata ao abismar-se na grandeza de Deus, manifestada nos céus embaixo do qual esse monge trabalha.

A Criação inteira está sujeita à mão do homem; tudo canta as glórias de Deus, os trigos, as flores, os montes e o céu, tudo é um concerto sublime de harmonia; nada falta e nada sobra; tudo o que Deus faz está feito.

A alma deste trapista algumas vezes está na terra, e outras está no céu bendizendo a Deus, mas sempre em silêncio. Embora algumas vezes, silêncio esse interrompido para cantar à Virgem, e eu conheço um desses casos”.


São Rafael Arnáiz Barón
Vida y Escritos del Beato Fray María Rafael Arnáiz Barón
Meditações de um Trapista, pp.306-308


SÃO RAFAEL ARNÁIZ/ SAN RAFAEL ARNÁIZ – OCULTO EM DEUS/ OCULTO EN DIOS




CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

SÃO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN


14 de dezembro de 1936 - 25 anos
Mi cuaderno - San Isidro

”Um dos encantos, melhor dizendo, consolos da vida monacal, é o estar oculto aos olhares do mundo. Isto o compreenderá quem gostar de meditar na vida de Cristo. Para dedicar-se a uma arte, para aprofundar-se em uma ciência, o espírito necessita solidão e isolamento, necessita recolhimento e silêncio. Agora, para a alma enamorada de Deus, para a alma que já não vê mais arte nem mais ciência que a vida de Jesus, para a alma que encontrou na terra o tesouro escondido, o silêncio não lhe basta, nem seu recolhimento em solidão. É necessário ocultar-se de todos, é necessário ocultar-se com Cristo, buscar um lugar na terra onde não cheguem os olhares profanos do mundo, e alí estar a sós com seu Deus.

O segredo do Rei como que se mancha e perde o brilho ao ser revelado. Esse segredo do Rei há que se ocultar para que ninguém o veja. Esse segredo que muitos crêem ser comunicações divinas e consolos sobrenaturais, esse segredo do Rei que invejamos nos Santos, se reduz muitas vezes a uma Cruz.

Não coloquemos a luz debaixo de uma vasilha, nos diz Jesus no Evangelho. Divulguemos as grandezas de Deus. Façamos chegar ao coração de nossos irmãos os tesouros de graças que Deus derrama abundantemente sobre nós. Divulguemos aos quatro ventos nossa fé, enchamos o mundo de gritos de entusiasmo por termos um Deus tão bom. Não nos cansemos de pregar seu Evangelho e dizer a todos que nos queiram ouvir, que Cristo morreu amando aos homens, cravado em um madeiro. Que morreu por mim, por ti, por eles... E se nós deveras lhe amamos, não lhe ocultemos, não ponhamos a luz que pode iluminar a outros, debaixo de uma vasilha.

Mas em troca, bendito Jesus, levemos, bem dentro e sem que ninguém se inteire, esse divino segredo... Esse segredo que Tu dás às almas que mais te querem... Essa pequenina parte de tua Cruz, de tua sede, de teus espinhos.

Ocultemos no último lugar da terra nossas lágrimas, nossas penas e nossos desconsolos. Não enchamos o mundo de tristes gemidos, nem levemos a ninguém nem a mais pequenina parte de nossas aflições.

Sejamos egoístas para sofrer e generosos na alegria. Façamos a felicidade dos que nos rodeiam e não turvemos o ambiente com caras tristes quando Deus nos mande alguma prova.

Ocultemo-nos para estar com Jesus na Cruz. Não busquemos mitigação à dor no consolo das criaturas, pois estaremos fazendo duas coisas que não são ruins, mas que não são perfeitas. Primeiro, ao deixar a Deus pelo que não é Deus, pois não é consolo seu o que Dele não vem, e se Ele não quer dá-lo, ao buscar fora Dele, perdemos a Ele, e também perdemos muitas vezes o mérito do sofrimento. Segundo, em nosso egoísmo, fazemos ou pelo menos queremos fazer participantes aos demais, do nosso sofrimento, para assim aliviar-nos, e conseguirmos com isso alívio fictício e falso, pois se te dói um dente, te seguirá doendo quer o digas ou não.

Em resumo, quase sempre é um ato de egoísmo e também falta de humildade, dar importância ao nosso sofrimento, como se por ser nosso fosse importante. Em troca, não buscando nada nas criaturas e sim tudo em Deus, se chega a amar a Cruz, mas a Cruz a sós e escondido... Na Cruz, ocultos com Deus e longe dos homens.

Ocultemos nossa vida, se nossa vida é penar. Ocultemos o sofrer, se o sofrer nos causa pena. Ocultemo-nos com Cristo para só a Ele fazer-lhe partícipe do que, pensando bem, só é Dele: o segredo da Cruz.

Aprendamos de uma vez, meditando em sua vida, em sua Paixão e em sua morte, que só há um caminho para se chegar a Ele..., o caminho da Santa Cruz”.


São Rafael Arnáiz Barón
Vida y Escritos del Beato Fray María Rafael Arnáiz Barón
Mi cuaderno, pp.374-376

Irmão/Hermano Rafael Arnáiz Barón – Papel encontrado em um dos bolsos da sua túnica quando morreu




CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

São Rafael Arnáiz Barón


Papel encontrado em um dos bolsos da sua túnica, quando morreu o Irmão Rafael Arnáiz Barón

Ao morrer o jovem Monge Trapista, Frei Maria Rafael Arnáiz Barón, em um dos bolsos de seu hábito, escrito com lápis e muito desgastado, os monges encontraram, um pequeno papel, um capítulo de faltas:


• Subir escada batendo pé [Marcado].
• Não fazer saudação no Capítulo [Marcado].
• Correr sem respeito na Igreja [Marcado].
• Gestos durante o grande silêncio [Marcado]
• Voltar a cabeça na Missa [Marcado].
• Gestos falados com um professo [Marcado].
• Não obedecer imediatamente à campainha [Marcado].
• Equivocar-me no Coro, não fazer prostração [Marcado].
• Dar mostras externas de impaciência [Marcado].
• Perder tempo trabalho [Marcado].
• Perder tempo olhar janelas [Marcado].
• Perder tempo intervalos [Marcado].
• Acenar exageradamente como leigo [Marcado].
• Descuidado com quarto da enfermaria.
• Descuidado com fazer ruído na escada
e com as portas.
• Distrair-me no Coro e não fazer a tempo
as inclinações.


Vida y Escritos del Beato Fray María Rafael Arnáiz Barón
Pp.603-604
Do Blog Irmão Rafael Arnáiz, OCSO


quarta-feira, 29 de abril de 2009

FESTA DE SANTA CATARINA DE SENA, Virgem, Mística e Doutora da Igreja – 1ª Parte



Festa 29 de abril

1ª Parte

Catarina de Sena, uma das mulheres que marcaram profundamente a história da Igreja, nasceu em 25 de março de 1347, na cidade de Sena, na Toscana, em um bairro chamado Fontebranda. Pertenceu a uma numerosa família de classe média alta e era a vigésima quarta de 25 irmãos. Após a morte de sua irmã Joana, que morreu nos primeiros anos de vida, passou a ser a caçula da família. O pai, Tiago Benincasa, é um bem-sucedido comerciante, e a mãe, Lapa, é a filha do poeta Nuccio Piagenti. Na família Benincasa não faltava o necessário e era uma família que tinha uma profunda consciência religiosa e um forte sentido político de defesa à cidade. Embora os filhos fossem numerosos, o casal recebeu em sua casa um primo órfão, Tomás della Fonte que, mais tarde, tornando-se Dominicano, teve grande influência na vida de Catarina, sendo o seu primeiro confessor e diretor espiritual.

Catarina era uma pérola de menina. Caráter dócil, sempre pronta e disponível a ponto de ser apelidada de “Eufrosina”, que quer dizer “amável”. Desde cedo revelou sinais de vocação para a vida consagrada. Os primeiros biógrafos, na chamada “Legenda Maior”, relatam-nos sua infância totalmente marcada pela forte presença de Deus.

Com apenas seis anos, quando voltava para casa, no bairro Vale Piatta, em companhia de seu irmão Estevão, aparece-lhe Jesus Cristo no alto da Igreja de São Domingos, vestido com roupas sacerdotais, rodeado por vários personagens, entre os quais é possível reconhecer São Pedro, São Paulo, e São João. Aos sete anos consagrou a sua virgindade a Deus.


Aos doze iniciam-se os conflitos familiares. A mãe, D. Lapa, preocupada com o futuro de Catarina, pensa em arrumar-lhe um bom matrimônio. Não compreende as atitudes espirituais da filha. Catarina, num gesto corajoso demonstrando a sua recusa em aceitar um matrimônio e revelando autonomia, corta os cabelos, manifestando o desejo de se entregar a Deus numa ordem religiosa. Desde então, Catarina inicia uma vida austera, passando horas e horas num pequeno quarto, transformado em cela conventual, no seio da própria família.

Os familiares olham este gesto com suspeita. Tentam arrancá-la de sua solidão confiando-lhe o trabalho mais pesado e duro a fim de que desistisse da sua intenção. Perturbam a sua oração e silêncio. E, especialmente, proíbem-lhe de fazer penitências que sejam prejudiciais à saúde. Catarina não se revolta. Aceita tudo com plena docilidade, criando uma "cela interior” em seu coração, onde ninguém a podia perturbar nos seus íntimos colóquios com Deus.

Escreverá mais tarde aos seus discípulos:

“Fazei uma cela no coração, de onde nunca podereis sair”

Será por este período, aos quinze anos, depois de uma visão em São Domingos, que Catarina decide ser Dominicana e ingressar na Ordem Terceira de São Domingos. A docilidade de Catarina vence a dureza dos pais e dos irmãos. Especialmente, por decisão do pai, a situação se acalma e Catarina poderá dedicar-se livremente à oração. Como era alma que sempre tendia à oração, ao silêncio e à penitência, preferiu não entrar em uma Congregação e continuar no seu cotidiano dos serviços domésticos, a servir a Cristo e Sua Igreja, já que tudo o que fazia, oferecia pela salvação das almas.


Em 1363, Catarina faz o pedido para entrar na Ordem Terceira Dominicana, na confraria das “Manteladas”, assim chamadas por causa de um longo manto preto que colocavam por cima do hábito branco dominicano. Embora tenha apenas dezesseis anos, após varias tentativas e resistências, é admitida na comunidade das “Manteladas”. No ambiente religioso, favorável aos seus desejos de santidade, Catarina caminha com passos de gigante pela via da perfeição, iniciando uma vida de muitos sacrifícios, pois aí pode dedicar-se inteiramente à oração e à penitência. Mesmo sem viver num Claustro, Catarina encarou a sua clausura em casa com seriedade e vivia encerrada no seu próprio quarto, onde, por intermédio da oração e do diálogo, afirmava que “estava sempre com e em Cristo”. Mas a vida de oração não a impede de visitar doentes leprosos. Costumava visitar os doentes do leprosário São Lázaro, totalmente dedicada aos trabalhos que lhes são confiados. Certa vez, para vencer a repugnância para com um leproso que cheirava mal, inclinou-se e beijou-lhe as chagas.

Com seu caráter corajoso e decidido, consegue dominar os desejos mundanos e Deus a recompensa com o dom da contemplação: visões e êxtases unidos a uma vida de penitência e dedicação ao serviço dos mais pobres e necessitados. Lentamente, o nome de Catarina corre de boca em boca pela cidade de Sena e pelos povoados vizinhos. O povo começa a procurá-la para perdir-lhe orações e conselhos. Durante as orações contemplativas, entrava em êxtase de tal forma que só esse fato possibilitou a conversão de centenas de almas durante a sua juventude.

(Continua)

FESTA DE SANTA CATARINA DE SENA, Virgem, Mística e Doutora da Igreja – 2ª Parte



Festa 29 de abril

2ª Parte

Apesar de ser admirada por muitos, surgem, por outro lado, a inveja e o ciúme de outros que vão provocar calúnias e dificuldades à mística de Sena. No Clero, os religiosos olham o fenômeno “Catarina” com um certo desprezo e incredulidade. Não é raro encontrar isso entre os próprios dominicanos que uma vez a colocaram à força para fora da Igreja durante uma oração contemplativa, deixando-a no chão, meio que morta, ainda sob efeito dos êxtases.

As “Manteladas” sentem-se também perturbadas, quase agredidas pela santidade de Catarina. Quase se arrependem de tê-la recebido entre elas. As calúnias e as incompreensões chovem sobre sua vida como uma verdadeira tempestade, mas Catarina, mergulhada no seu doce Cristo, não se abala e nem se apavora. Tudo suporta por amor ao Senhor. É na oração e no exercício da caridade que ela encontra a sua força. Sofrimentos familiares, como a morte do pai e uma grave doença da mãe, aumentam a cruz de Catarina, que tudo oferece ao Senhor pela salvação dos pecadores.

A sua pequena casa de Fontebranda transforma-se num cenáculo, onde amigos e simpatizantes se reúnem para rezar e refletir. São pessoas de famílias nobres e importantes de Sena, Florença, Pisa, Arezzo, entre outras. Catarina, jovem e analfabeta, mesmo assim é conselheira e orientadora de professores e teólogos famosos. Deus se serve dos pequenos para tocar os corações dos sábios e doutos do mundo.


Avança pela senda espiritual com o Senhor instruindo-a como um mestre a sua aluna, e descobria-lhe pouco a pouco "aquelas coisas que lhe fossem úteis à alma". O progresso espiritual atingiu o auge, em 1367, com as núpcias espirituais na fé. Jesus lhe aparece junto com a Virgem Maria e outros santos numa noite, entregando-lhe o anel do matrimônio espiritual, sendo celebrado assim o matrimônio místico com Cristo. Essa graça podia parecer o selo de uma vida consagrada ao isolamento e à contemplação. Pelo contrário, ao dar-lhe o anel invisível, Jesus pretendia uni-la a Si nas empresas do Seu reino.

A moça do povo de vinte anos via isto como sinal de separação entre ela e o Esposo celestial, mas Este pelo contrário assegurou-lhe que “pretendia uni-la mais a Si por meio da caridade com o próximo”, isto é, ao mesmo tempo no plano da mística interior e no da ação exterior ou da mística social, como foi dito.

Foi como que um impulso para espaços mais altos, que se lhe abriam diante da mente e da iniciativa. Passou da conversão de pecadores isolados à reconciliação entre pessoas ou famílias adversárias; e à pacificação entre cidades e repúblicas. Não receou passar entre facções armadas nem se deteve perante o alargar-se dos horizontes, o que no princípio a tinha aterrado até a fazer chorar. O impulso do Mestre divino manifestou nela como que uma humanidade de acréscimo. Um dia, conta ela mesma, o Senhor pôs-lhe "a cruz às costas e uma oliveira na mão", para as levar a um e outro povo, o cristão e o infiel, como se Cristo a erguesse às próprias dimensões universais da salvação.


Embora analfabeta, Catarina ditou mais de 300 cartas endereçadas a todo o tipo de pessoas, desde Papas, aos Reis e líderes, como também ao povo humilde, orientando suas atitudes, convocando para a caridade, o entendimento e a paz, e onde lutava pela unificação da Igreja e a pacificação dos Estados Papais. As cartas que ela dita aos seus secretários deixam o “silêncio” e percorrem as várias cidades da Itália e da Europa. Através de suas cartas, profundas e sábias, embora analfabeta e de frágil constituição física, conseguia mover homens para a reconciliação e a paz como um gigante.

As críticas aumentam. A inveja e o ciúme se encarregam de atacar Catarina de Sena e seus discípulos. O seu corajoso empenho social e político suscitou não poucas perplexidades entre muitas pessoas e entre seus próprios superiores. A Ordem Dominicana sente-se ameaçada pela presença indiscreta e cada vez mais projetada de Catarina. O Capítulo Geral dos Dominicanos se reunindo em Florença, chama-a para que explique sua teologia e doutrina diante dos teólogos. No dia 21 de maio de 1374, Catarina é sabatinada pelos capitulares a fim de prestar esclarecimentos de sua conduta. Suas respostas os satisfazem. Não há nada de herético. O Capítulo encarrega, então, Frei Raimundo de Cápua para acompanhar o desenvolvimento teológico e espiritual de Catarina e ser seu diretor espiritual.


Ainda em 1374, a peste se alastrou por toda a Europa causando mortes e desespero em Sena, e matando pelo menos um terço da população européia. Catarina, neste momento voltando de Florença, dedica-se aos doentes e abandonados, tendo praticado grandes atos de caridade e enfrentado a calamitosa situação serenamente e com grande firmeza. Ela tanto lutou pelos doentes, tantos curou com as próprias mãos e orações, que converteu mais algumas centenas de pagãos. Suas atitudes não deixaram de causar perplexidade em seus contemporâneos. Estava à frente, muitos séculos, dos padrões de sua época, quando a participação da mulher na Igreja era quase nula ou inexistente.

Para a tornar mais conforme ao Seu mistério de redenção e prepará-la para um incansável apostolado, Catarina recebe o sinal mais intimo do seu amor para com Cristo e do amor de Cristo para com ela: o Senhor concede-lhe o dom dos Estigmas. Aconteceu quando estava em oração na Igreja de Santa Cristina, em Pisa, no dia 1° de Abril de 1375 e, em uma visão, Cristo lhe diz que daquele momento em diante ela trabalharia pela paz e mostraria a todos que “uma mulher fraca pode envergonhar o orgulho dos fortes”. A sua configuração com Cristo de agora em diante será total.


(Continua)

FESTA DE SANTA CATARINA DE SENA, Virgem, Mística e Doutora da Igreja – 3ª Parte



Festa 29 de abril

3ª Parte

Santa Catarina viveu na época do grande Cisma que reinou na Igreja do Ocidente. A Igreja passava naquela época por um período difícil. Os cismas dividem-na e repartem o corpo místico de Cristo com anti-papas, que atraem multidões de fiéis enganados por motivos políticos e religiosos. A Sede do Papado de Roma havia sido transferida para Avignon, França. Catarina recebe de Jesus uma missão quase impossível: lutar para que a Sede do Papado volte para Roma. Ela sente-se chamada ao apostolado. Ela, que escolhera permanecer escondida na oração e no silêncio, será de agora em diante a peregrina e nômade de Deus pelas cidades da Itália, convidando todos a renovarem sua fé em Deus e sua adesão à Igreja e ao Papa, o seu “doce Cristo na terra”, como o chamava. Nesta época, dois Papas disputavam o Trono de Pedro, dividindo a Igreja e fazendo sofrer a população católica em todo o mundo.

No ano 1376, quando toda a Itália estava envolvida em graves disputas políticas à volta do Papado, organizaram-se nas cidades de Peruggia, Florença, Pisa e em toda a Toscana, milícias e revoltas contra o poder político do Papa Gregório XI. Florença está descontente com o Papa e por isso faz uma aliança com todos seus inimigos. Catarina tenta, com todos os esforços, que a rebelião seja circunscrita, mas os florentinos, chamados “o grupo dos oito santos” promovem a guerra. O Papa lança a excomunhão contra todos. Diante desta situação, os florentinos recorrem à Catarina de Sena, que é enviada como embaixatriz para Avignon. Fazia setenta anos que o Papado estava em Avignon e não em Roma, e a Cúria sofria influências francesas. Catarina foi enviada com a missão de se encontrar com o Papa Gregório XI para o convencer a regressar a Roma, pois que tal seria fundamental para a unidade da Igreja e pacificação da Itália. Em junho, Catarina é recebida pelo Papa e permanece sua hóspede por três meses. Consegue que seja retirada a excomunhão mas, mudanças no governo de Florença, não levam a sério os resultados de Catarina.


Catarina emprega todos os seus esforços para tentar convencer o Papa a voltar a Roma para retomar a sua posição. O piedoso Pontífice, que se demorava em tomar a última decisão, houve de convencer-se que pela boca dela falava realmente o Senhor e o certificava da Sua vontade. Assim, o Papa Gregório XI deixou definitivamente Avignon a 13 de Setembro de 1376 e entrou em Roma, entre o delírio do povo em festa, a 17 de Janeiro de 1377. Catarina obtém esse grande sucesso e o acompanha e o encoraja para que não volte atrás nesta decisão. Chegando a Sena, Catarina é recebida com muitas honras, mas permanece na mais profunda humildade. Na sua luta por ajudar a Santa Igreja, ela viajou por toda a Itália e diversos países, ditou cartas a Reis, Príncipes, e governantes católicos, Cardeais e Bispos. Continua sua luta a fim de ver Florença em paz definitiva com o Papa e suas esperanças aumentam em 1378, quando Urbano VI é eleito Papa.

Acontecimento inédito para aquele tempo foi o convite que o Papa Urbano VI fez a Catarina, chamando-a no Consistório para falar aos Cardeais que haviam permanecido fiéis a Igreja. As suas palavras foram de uma força extraordinária.


Em meio a tudo isso, deixou obras literárias ditadas e editadas de alto valor histórico, místico e religioso. A sua tão profunda comunhão com o Pai dá origem à sua grande obra: “O Diálogo”, de grande inspiração divina e que, segundo a Santa, são ensinamentos dados a ela pelo próprio Deus. Foi em Sena, no recolhimento de sua cela, que ditou o "Diálogo sobre a Divina Providência" para render a Deus o seu último canto de amor. "O Diálogo", como é comumente chamado, é um livro lido, estudado e respeitado na atualidade, e ainda hoje considerado como um dos maiores testemunhos do misticismo cristão e uma exposição clara de suas idéias teológicas e espiritualidade.

O que mais se admira na vida de Santa Catarina de Sena não é tanto o papel incomum que ela teve na história de seu tempo, mas a maneira singularmente feminina com a qual desenvolveu este papel. Ao Papa, que ela chamava com o nome de “doce Cristo na terra”, reprovava terna mas firmemente pela escassa coragem e convidava-o a abandonar Avignon para voltar a Roma com palavras delicadíssimas como estas: “Eia, virilmente, pai! Eu lhe digo que não precisa temer.” A um jovem condenado à morte, que ela acompanhou até sobre o patíbulo, disse no último instante: “Giuso! Às núpcias, meu doce irmão! Logo estará na vida eterna”.

Era de uma sensibilidade extraordinária, percebendo sentimentos íntimos e tendo uma noção real e imediata das situações que a rodeavam. Quando se sentava à mesa com seus discípulos, prestava atenção para não suscitar os ciúmes de ninguém e não raramente, como faz a mãe com a criança melindrosa, dava um bocado com a sua própria colher a quem se sentia por ela esquecido. Depois, a voz submissa da mulher mudava de tom e se traduzia freqüentemente naquele: “eu quero”, que não admitia hesitações quando se tratava do bem da Igreja ou da concórdia dos cidadãos.

(Continua)


FESTA DE SANTA CATARINA DE SENA, Virgem, Mística e Doutora da Igreja – 4ª Parte



Festa 29 de abril

4ª Parte

Catarina declara seus últimos meses de vida à sua família religiosa e aos seus discípulos, aos quais exorta a serem fiéis à Igreja e voltarem a viver uma vida de maior austeridade e oração. Ela prediz que Frei Raimundo de Cápua será o novo Geral da Ordem Dominicana, o que de fato aconteceu poucos meses depois de sua morte. O número de discípulos e discípulas de Catarina foi aumentando incessantemente e sua doutrina difundiu-se por toda parte.

Respondendo a um apelo do Papa Urbano VI, foi para Roma porque o Papa ali a quis ainda no grave momento de crise do cisma. Lá, debaixo de um ano e meio de trabalho extenuante e orações apaixonadas: "Ó Deus eterno, recebe o sacrifício da minha vida neste corpo místico da santa Igreja", ficou doente e, extenuada pelos muitos e exaustivos trabalhos, rodeada pelos seus numerosos amigos e discípulos, aos quais recomendou que se amassem uns aos outros e exortou todos a viverem com fidelidade o amor para com Deus e com a Igreja, entregou sua alma a Deus, após sofrer um derrame. Disse a eles antes de morrer: “Nunca que vos esqueçais, meus filhos dulcíssimos, deixando o corpo, na verdade, eu dei toda a minha vida para a Igreja e pela Igreja, o que me dá grande alegria”. Era o dia 29 de abril de 1380. Morria tendo feito há um mês 33 anos, como o seu Esposo Crucificado. Sua cabeça está em Sena, onde se mantém sua casa, e seu corpo está em Roma, na Igreja de Santa Maria Sopra Minerva.


Quando a noticia da morte de Catarina se espalhou, o povo exclamou unido: “morreu a santa!”. Houve um corre-corre no convento dos Dominicanos. Por precaução, fecharam os portões da Igreja de São Domingos, em Minerva, onde o corpo estava exposto. O Papa Urbano VI, como sinal de gratidão para com a mulher santa que havia lutado em favor do Pontificado, quis que fosse celebrado um funeral solene. Depois do enterro, iniciou-se uma constante peregrinação ao túmulo de Catarina.

Foi canonizada pelo Papa Pio II, com a bula Misericordias Domini, de 29 de Junho de 1461. Foi assim apontada solenemente à Igreja universal como modelo de santidade e exemplo de sublime grandeza, a que uma mulher simples do povo pode chegar com a graça do Todo Poderoso. O Beato Papa Pio IX, em 1866, a proclama Co-Padroeira de Roma e Padroeira das mulheres da Ação Católica. Em 1939, na véspera da Itália entrar em guerra, o Papa Pio XII a proclama Co-Padroeira da Itália junto com São Francisco de Assis, e em 1943 Protetora dos doentes. No dia 4 de outubro de 1970, o Papa Paulo VI proclamou-a Doutora da Igreja, sendo a única leiga a obter esta distinção. O Papa João Paulo II declarou-a Co-Padroeira da Europa, juntamente com Santa Brígida da Suécia e Santa Teresa Benedita da Cruz. Sua Festa litúrgica é celebrada no dia 29 de abril.


A vida de Catarina de Sena nos maravilha por sua intensa atividade apostólica, pela aceitação que teve nos ambientes eclesiásticos do seu tempo. A sua palavra era ouvida e procurada. Ela tinha a capacidade de reavivar amizades e restabelecer a paz. Uma jovem mulher, sem escolaridade, que se impõe pela força do seu carisma. Analfabeta nas letras humanas mas rica da sabedoria de Deus. A presença de Catarina e suas palavras foram decisivas na resolução de situações dramáticas para a Igreja, ameaçada de divisão. A sua palavra, doce e persuasiva; o seu exemplo de integridade e de amor a Cristo; a sua atuação livre de qualquer interesse fizeram-na mensageira estimada, seguida e amada por todos.


Catarina foi uma real e forte presença de unidade para Igreja e entregou sua alma a Deus repetindo: "Se morrer, sabeis que morro de paixão pela Igreja!”.


Santa Catarina de Sena, rogai por nós!


Fontes: Lettres de Sainte Catherine de Sienne, trad. E. Cartier; Nöele M. Denis-Boulet, La Carrière Politique de Sainte Catherine de Sienne; Robert Fawtier, Sainte Catherine de Sienne, essai de critique des sources ; Sources hagiographiques, 1921 ; Carta Apostólica Amantissima Providentia, I.


sexta-feira, 20 de março de 2009

Trapistas - Ordem Cisterciense da Estrita Observância, OCSO


Claustro da Abadia de Claraval


Histórico da Ordem Cisterciense da Estrita Observância (OCSO)


“A vida monástica é, por sua natureza, um chamado ao perfeito seguimento de Cristo. Portanto, nas comunidades monásticas que vivem segundo a Regra de São Bento, patriarca dos monges do Ocidente, sempre têm surgido iniciativas de reforma, no sentido de uma entrega mais profunda e generosa às exigências da Regra. Às vezes, esta reforma se realiza dentro de uma comunidade existente; outras vezes, um grupo de monges sai do seu mosteiro para comprometer-se num novo ambiente monástico à observância íntegra da Regra.

O século XI, estimulado pela visão do Papa Gregório VII, testemunhou muitas tentativas deste tipo. Uma delas foi o estabelecimento do "Novo Mosteiro" de Cister (Borgonha,França) no ano 1098 por vinte e um monges provenientes do mosteiro beneditino de Molesme. Depois de alguns anos difíceis, os Cistercienses começaram a receber numerosas vocações, e até o fim do século XII espalharam-se por toda a Europa em centenas de mosteiros masculinos e femininos. Simultaneamente, desenvolveram a própria espiritualidade mística, que se exprimia tanto nas obras dos grandes teólogos cistercienses como São Bernardo de Claraval, quanto na arquitetura de suas igrejas e até na direção da economia das comunidades. Foi o século de ouro de Cister.


Nos séculos seguintes, apesar de esforços de manter a vida espiritual e ascética no mesmo nível, houve um certo afastamento dos ideais das origens cistercienses. Nos séculos XV e XVI, sobretudo na França, vários abades buscaram iniciar uma reforma nas suas comunidades, e na Ordem como tal. No século XVII, o abade francês Dom Jean Armand de Rancé, conseguiu realizar na sua comunidade de La Trappe (Normandia) um programa de reforma, enfatizando os valores de separação do mundo, silêncio, trabalho manual, renúncia e obediência. Em diversos aspectos sua reforma, inspirou-se profundamente da vida eremítica do deserto egípcio (séc. III - V) talvez mais do que na própria Regra. Outros mosteiros juntaram-se à forma da vida de La Trappe. Estas comunidades continuaram parte da Ordem Cisterciense (embora criando "congregações" distintas dentro da mesma) até o ano 1892. Naquele ano, seguindo a orientação do Papa Leão XIII, três congregações "trapistas" (Sept-Fons, Melleray e Westmalle) agregaram-se juridicamente para formar uma nova Ordem, a Ordem Cisterciense da Estrita Observância (Trapistas).


Neste período, grandes nomes merecem destaque como o de Dom Sebastien Wyart, eleito em 1892 como 1º abade geral dos trapistas. Também devemos muito aos esforços de Dom Jean-Baptiste Chautard, abade de Chambarand e posteriormente de Sept-Fons, ambos na França. Por sua iniciativa, e fugindo das perseguições políticas na França, ele fundou o primeiro mosteiro trapista do Brasil em 1904, na cidade de Tremembé-SP. Esta fundação trouxe enorme desenvolvimento econômico e cultural, bem como auxilio religioso a toda a região do Vale do Paraíba. Este mosteiro permaneceu até 1934, quando seus monges retornaram para a Europa. Durante o século XX, os Trapistas expandiram, fazendo fundações em todos os continentes. Atualmente, há 100 comunidades de monges e 70 de monjas, sendo 13 na América Latina. Hoje em dia, tentamos viver como nossos antepassados, buscando viver em fidelidade com os grandes impulsos da nossa história - a composição da Regra, o nascimento de Cister e a reforma de La Trappe. Acima de tudo, tentamos manter-nos atentos ao impulso do Espírito, Aquele que, através desta tradição, nos convida à sempre redescobrir e mais plenamente viver o carisma monástico no coração da Igreja”.


Fonte: Monges da Abadia Nossa Senhora do Novo Mundo
(Abadia Trapista no Brasil)