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quinta-feira, 1 de abril de 2010

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – Se Eu não te lavar, não terás parte Comigo



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


“Se Eu não te lavar, não terás parte Comigo”

“Sabendo Jesus que o Pai depositara nas Suas mãos todas as coisas e que havia saído de Deus e ia para Deus, levantou-Se da mesa.” O que não estivera outrora nas mãos de Jesus é colocado pelo Pai nas Suas mãos: não certas coisas, à excepção de outras, mas todas as coisas. David tinha dito: “Palavra do Senhor ao meu Senhor: ‘Senta-te à minha direita enquanto ponho os teus inimigos por escabelo dos teus pés’.” (Sl 109, 1). Com efeito, os inimigos de Jesus faziam parte deste tudo que Ele sabia que o Pai Lhe dava. Por causa daqueles que se tinham afastado de Deus, Ele afastou-Se de Deus, Ele que, por natureza, não quer sair do Pai. Ele saiu de Deus a fim de que tudo quanto se afastou de Deus regresse com Ele às Suas mãos, para junto de Deus, segundo o Seu desígnio eterno.

O que fazia, pois, Jesus, lavando os pés dos discípulos? Lavando-lhos e enxugando-lhos com a toalha que tinha posto à cintura, Jesus embelezava-lhes os pés para o momento em que eles teriam de anunciar a boa nova. Foi então que se cumpriu, segundo me parece, a palavra profética: “Que formosos são os pés do mensageiro que traz a boa nova!” (Is 52, 7; Rom 10, 15). Mas se, ao lavar os pés aos discípulos, Jesus os embeleza, como exprimir a verdadeira beleza daqueles que Ele mergulha por completo no “fogo do Espírito Santo” (Mt 3, 11)? Os pés dos apóstolos tornaram-se belos a fim de que eles pudessem avançar pela via santa, caminhando naquele que disse “Eu sou o Caminho” (Jo, 14, 6). Porque só aquele a quem Jesus lavou os pés segue este caminho vivo que conduz ao Pai; caminho onde não há lugar para pés manchados. Para seguir este caminho vivo e espiritual (Heb 10, 20), há que ter os pés lavados por Jesus, que Se despiu das Suas vestes a fim de tomar no Seu próprio corpo a impureza dos seus pés, com essa toalha que era a Sua única veste, pois “ele tomou sobre si as nossas doenças” (Is 53, 4).

Jesus, vinde, tenho os pés imundos. Fazei-vos servo meu. Derramai água na bacia; vinde, lavai-me os pés. Bem o sei, temerário é o que vos digo, mas temo a ameaça de vossas palavras: “Se não te lavar os pés, não terás parte comigo”. Lavai-me, portanto, os pés para que tenha parte convosco. Mas, que digo, lavai-me os pés? Pôde dizê-lo Pedro que necessitava de lavar só os pés, porque estava todo limpo. Eu, ao contrário, uma vez lavado, preciso daquele batismo do qual Vós, ó Senhor, dizeis: “Quanto a mim, com outro batismo devo ser batizado”.


Orígenes, Sacerdote e Teólogo
Comentário sobre São João, § 32, 25-35.77-83
Das orações dos primeiros cristãos, 63

domingo, 13 de dezembro de 2009

ADVENTO – 3º DOMINGO – Sejamos um edifício firme, invulnerável às tempestades



DOMINGO III DO ADVENTO

«Sejamos um edifício firme, invulnerável às tempestades»

O batismo de João é um batismo com o Espírito Santo e com o fogo (Lc 3, 16). Se fores santo, serás batizado no Espírito; se pecador, mergulharás no fogo. E assim, um mesmo batismo se tornará condenação e fogo para os indignos e pecadores, enquanto os santos, que se convertem ao Senhor com toda fé, receberão a graça do Espírito Santo e a salvação.

Ora, aquele que batiza com o Espírito Santo e com o fogo tem a pá em sua mão; limpará a sua eira e recolherá o trigo em seu celeiro; a palha, porém, ele a queimará num fogo inextinguível. Quero descobrir por que razão nosso Senhor tem a pá em sua mão, e que vento é esse que ao soprar dispersa a palha leve, enquanto o grão de trigo, mais pesado, se junta num só lugar; com efeito, sem vento não se pode separar a palha do trigo.

Suponho que por vento podemos entender as tentações que, num grupo indistinto de fiéis, fazem ver que uns são palha e outros trigo. Quando tua alma foi vencida por alguma tentação, não é que ela te tenha transformado em palha, mas porque já eras palha, isto é, leviano e incrédulo, a tentação revelou a tua natureza latente. Quando, ao contrário, suportas a prova com coragem, não é a tentação que te faz fiel e paciente; ela apenas traz à tona a virtude de paciência e fortaleza que em ti estava escondida. “Pensas, diz o Senhor, que falando-te assim eu teria outra intenção que não fosse a de manifestar tua justiça?” E, em outro lugar: Eu te afligi e despojei, a fim de conhecer o que tinhas no coração (cf. Dt 8, 2).

Do mesmo modo, a tempestade não deixa de pé o edifício construído sobre a areia; se queres, pois, edificar, edifica sobre a rocha. Quando se levantar a tempestade, o que estiver fundado sobre a rocha não ruirá, mas o que estiver sobre a areia vacilará, provando que não estava bem fundado. Por isso, antes que a tempestade comece, antes que os ventos levantem e as correntes intumesçam, enquanto tudo ainda está em silêncio, dediquemos todo nosso empenho às fundações do edifício, edifiquemos nossa casa com as pedras firmes e variadas dos preceitos de Deus. E assim, quando a perseguição recrudescer e o terrível furacão se levantar contra os cristãos, mostremos ter nosso edifício construído sobre a rocha que é Cristo Jesus.

Se alguém, no entanto, negar a Cristo – o que não aconteça – saiba que não o negou no momento em que foi visto negando, mas que as sementes e as raízes de sua negação já eram antigas. Naquele instante, apenas veio a lume e se tornou conhecido o que havia em seu interior. Roguemos, pois, ao Senhor, para que sejamos um edifício firme, invulnerável às tempestades, fundado sobre a rocha que é nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual sejam dadas a glória e o império, pelos séculos dos séculos. Amém.


Orígenes, Presbítero
In Lucam, Homilia 26, 3-5
Sources Chrétiennes 87


ADVENTO – 3º DOMINGO – Que o seu Advento se realize todos os dias em nós



DOMINGO III DO ADVENTO

«Que o seu Advento se realize todos os dias em nós para que possamos dizer: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim»

Está escrito sobre João: “Uma voz grita no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitar as suas veredas”. Mas o que vem a seguir diz respeito exclusivamente ao Senhor, nosso Salvador. Porque não foi João quem “aplanou os vales”, mas o Senhor, nosso Salvador.

Considere cada um o que era antes de ter fé; e constatará que era um vale profundo, a pique, mergulhado nos abismos. Mas veio o Senhor Jesus, e enviou o Espírito Santo em seu lugar; foi então que “os vales foram aplanados”. Foram aplanados com as boas obras e os frutos do Espírito Santo. A caridade não deixa subsistir em ti vale algum e, se possuíres a paz, a paciência e a bondade, para além de deixares de ser vale, também começarás a ser montanha de Deus.

“As montanhas e as colinas serão abaixadas”. Nestas montanhas e nestas colinas abaixadas, podemos ver os poderes inimigos que se erguiam contra os homens. Com efeito, para que os vales de que falamos sejam aplanados, os poderes inimigos, as montanhas e as colina s, terão de ser abaixados.

Mas vejamos se a profecia seguinte, que diz respeito ao advento de Cristo, se realizou. Com efeito, o texto diz em seguida: “E todos os caminhos tortuosos serão endireitados”. Todos nós éramos tortuosos – pelo menos se estivermos a falar do que éramos e não daquilo que somos hoje – e a vinda de Cristo que se realizou na nossa alma endireitou tudo quanto era tortuoso.

Rezemos para que o seu advento se realize todos os dias em nós, e para que possamos dizer: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20).


Orígenes, Presbítero
In Lucam, Homilia 22, 1-3
Sources Chrétiennes 87


domingo, 22 de novembro de 2009

CRISTO REI, A LUZ DO MUNDO



CRISTO REI DO UNIVERSO

SOLENIDADE

«Eu sou a luz, vim ao mundo para que aquele que crê em mim não permaneça nas trevas»

Cristo é «a Luz do mundo» (Jo 8, 12) e Ele ilumina a Igreja com a sua Luz. E, tal como a lua recebe a sua luz do sol a fim de iluminar a noite, assim também a Igreja, recebendo a Luz de Cristo, ilumina todos aqueles que se encontram na noite da ignorância. É, pois, Cristo que é «a verdadeira Luz que ilumina todo o homem vindo a este mundo» (Jo 1,9), e a Igreja, recebendo a sua Luz, torna-se, ela própria, luz do mundo, «iluminando aqueles que caminham nas trevas» (Rom 2,19), de acordo com esta Palavra de Cristo aos seus discípulos: «Vós sois a luz do mundo» (Mt 5,14). Do que se conclui que Cristo é a luz dos apóstolos, e os apóstolos, por sua vez, a luz do mundo.


Orígenes, Presbítero
Homilias sobre o Gênesis, 1, 5-7

sábado, 16 de maio de 2009

Quem recebe aquele que eu enviei recebe a mim Jo 13, 20



Jo 13, 20

“Em verdade, em verdade vos digo: quem recebe aquele que eu enviei recebe a mim; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou”.

“Porque o que recebe ao que Jesus envia, recebe ao mesmo Jesus que existe em seu enviado. E o que recebe Jesus, recebe ao Pai. Logo, o que recebe ao que Jesus envia recebe o Pai que envia. Também pode entender-se deste outro modo: o que recebe a quem Eu enviarei, se faz digno de receber-me a mim. E o que me recebe, não por intermediação do apóstolo que eu enviarei, mas me recebe quando me dirijo às almas, recebe também o Pai, de tal modo que não só Eu moro nele mas também o Pai”.

Orígenes
In Ioannem tract., 32
Catena Aurea


“Onde Jesus diz: «Meu Pai e Eu somos uma só coisa» ( Jn 10,30), não deixa nenhuma dúvida quanto à distância. E ao aceitar agora estas palavras do Senhor, «Quem me recebe, recebe aquele que me enviou» (Jo 13, 20), ao entender que uma mesma é a natureza do Pai e do Filho, seria lógico que na locução «Se recebe ao que Eu enviar, recebe a mim», se entendesse também que uma mesma é a natureza do Filho e a do apóstolo. E assim, parece que se devia dizer: «Quem recebe ao que Eu enviar, recebe a mim como homem, e o que me recebe como Deus, recebe o Pai me enviou». Mas quando dizia isto não fazia alusão à unidade de natureza, senão que recomendava a sua própria autoridade que reside no enviado. Se, pois, atendes a Cristo em Pedro, verás o Mestre no discípulo; e se olhas ao Filho no Pai, verás o Pai no Unigênito”.


Santo Agostinho de Hipona
In Ioannem tract., 59
Catena Aurea


sexta-feira, 10 de abril de 2009

Tríduo Pascal - Sábado Santo - Um Deus tão grande, que sofre por amor!



“O Filho de Deus desceu à terra por compaixão pelo gênero humano. Sim, padeceu os nossos sofrimentos ainda antes de ter sofrido na cruz, antes mesmo de ter tomado a nossa carne. Se não tivesse sofrido, não teria vindo dividir conosco a vida humana. Primeiro Ele padeceu, depois desceu.

Mas, que paixão é esta que Ele sofreu por nós? É a paixão do amor. E o próprio Pai, o Deus do universo, lento para a ira e grande no amor, será que não sofre, também Ele, de algum modo? Ou será que tu ignoras que quando se ocupa das coisas humanas, Ele sofre uma paixão humana? Ele sofre uma paixão de amor!

Com efeito, no deserto, o Senhor teu Deus te levou, como um homem leva o próprio filho. Como o Filho de Deus levou os nossos sofrimentos, assim Deus nos leva no nosso caminho.

Nem mesmo o Pai é impassível. Quando lhe suplicamos, Ele tem piedade e se compadece, experimenta algo da paixão de amor, experimenta ‘ternuras’ que a soberana majestade pareceria não lhe permitir”.

Orígenes, Presbítero
Das Homilias sobre Ezequiel