quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

SÃO JOÃO DA CRUZ – Senhor, dai-me fixar os olhos em Vós!



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«Senhor, dai-me fixar os olhos em Vós!»

“A viva esperança em Vós, ó Deus, confere à alma tanta vivacidade e ânimo, e tanta elevação às coisas da vida eterna, que toda coisa da terra, em comparação a tudo quanto espera alcançar no céu, lhe parece murcha, seca e morta, como na verdade é, e de nenhum valor.

Fazei, ó Senhor, que em virtude dessa esperança eu me despoje completamente de todas as vestes e costumes do mundo, tirando o coração de tudo isto, sem nada esperar do mundo, vivendo vestido unicamente de esperança da vida eterna...

Dai-me erguer os olhos para olhar-vos a Vós só, sem esperar bem algum de qualquer outra parte. Como os olhos da escrava estão postos nas mãos de sua senhora, assim se fixem os meus em Vós, Senhor Deus, até que tenhais misericórdia de mim que espero em Vós.

Dai-me fixar sempre em Vós os olhos sem ver outra coisa. Fazei-me não querer outra paga para o meu amor senão Vós só, e então, vos agradarei tanto que alcançarei de Vós tanto quanto espero”.


São João da Cruz
Noite II, 21, 6-8


SÃO JOÃO DA CRUZ – Ó Senhor, põe-me como selo sobre teu coração!



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«Ó Senhor, põe-me como selo sobre teu coração!»

“Ó Senhor, ‘ponde-me como selo sobre vosso coração, como selo sobre vosso braço, porque o amor – o ato e as obras de amor – é forte como a morte, e o zelo do amor é tenaz como o inferno’. Fazei, ó Senhor, que, de modo algum, busque eu consolação e gosto em Vós ou em qualquer coisa criada. Nem ande também a desejar mercês, pois já as recebi grandíssimas. Seja todo o meu cuidado dar-vos gosto e servir-vos de algum modo, ainda que isto me custasse muito, pelo que mereceis, e em agradecimento das misericórdias de Vós recebidas.

Deus e Senhor meu, quantas almas estão sempre a buscar em Vós consolo e gosto, graças e mercês! E quão poucas pretendem agradar-vos e oferecer-vos algo à própria custa, deixando de lado seu interesse!

Amado meu, para mim todas as coisas ásperas e trabalhosas, e para Vós todo o suave e saboroso!”


São João da Cruz
Noite II, 19,4; Ditos, 2, 52


SÃO JOÃO DA CRUZ – Ó Deus meu, fazei minha alma enamorada de Vós!



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«Ó Deus meu, fazei minha alma bem enamorada de Vós!»

“Porquanto, para buscar-Vos, ó Deus meu, se requer um coração despojado e forte, livre de todos os males e bens que não são puramente Deus, ajudai-me a não colher as flores que encontrar pelo caminho, isto é, a não admitir os gostos, contentamentos e deleites que se me apresentarem nesta vida e que poderiam impedir-me a passagem.

Não apegarei meu coração às riquezas e vantagens que me oferecer o mundo; não aceitarei os prazeres da carne nem tampouco prestarei atenção aos gostos e consolações do espírito, para que nada disto me detenha na busca de meus amores, ó Deus meu, pelos montes das virtudes e dos trabalhos. E a fim de que tal me seja possível, fazei minha alma bem enamorada de Vós, que vos estime sobre todas as coisas, confiando em vosso amor e auxílio”.


São João da Cruz
Cântico 3, 5.8


SÃO JOÃO DA CRUZ – Tender exclusivamente para a honra e a glória de Deus!



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«Tender exclusivamente para a honra e a glória de Deus!»

Primeiramente: tenha sempre a alma o desejo contínuo de imitar a Cristo em todas as coisas, conformando-se à sua vida que deve meditar para sabre imitá-la, e agir em todas as circunstâncias como ele próprio agiria.

Em segundo lugar, para bom poder fazer isto, se lhe for oferecida aos sentidos alguma coisa de agradável que não tenda exclusivamente para a honra e a glória de Deus, renuncie e prive-se dela pelo amor de Jesus Cristo, que, durante a sua vida, jamais teve outro gosto, nem outra coisa quis senão fazer a vontade do Pai, a que chamava sua comida e manjar. Por exemplo: se acha satisfação em ouvir coisas em que a glória de Deus não está interessada, rejeite esta satisfação e mortifique a vontade de ouvir. Se tem prazer em olhar objetos que não levam a Deus, afaste este prazer e desvie os olhos. Igualmente nas conversações e em qualquer outra circunstância, deve fazer o mesmo. Em uma palavra, proceda deste modo, na medida do possível, em todas as operações dos sentidos; no caso de não ser possível, basta que a vontade não queira gozar desses atos que lhe vão na alma. Desta maneira há de deixar logo mortificados e vazios de todo o gosto, e como às escuras. E com este cuidado, em breve aproveitará muito.

Para mortificar e pacificar as quatro paixões naturais que são gozo, esperança, temor e dor, de cuja concórdia e harmonia nascem inumeráveis bens, trazendo à alma grande merecimento e muitas virtudes, o remédio universal é o seguinte:

Procure sempre inclinar-se não ao mais fácil, senão ao mais difícil. Não ao mais saboroso, senão ao mais insípido. Não ao mais agradável, senão ao mais desagradável. Não ao descanso, senão ao trabalho. Não ao consolo, mas à desolação. Não ao mais, senão ao menos. Não ao mais alto e precioso, senão ao mais baixo e desprezível. Não a querer algo, e sim a nada querer. Não a andar buscando o melhor das coisas temporais, mas o pior; enfim, desejando entrar por amor de Cristo na total desnudez, vazio e pobreza de tudo quanto há no mundo.

Abrace de coração essas práticas, procurando acostumar a vontade a elas. Porque se de coração as exercitar, em pouco tempo achará nelas grande deleite e consolo, procedendo com ordem e discrição.

O homem espiritual deve:

1.º Agir em seu desprezo e desejar que os outros o desprezem.

2.º Falar contra si e desejar que os outros também o façam.

3.º Esforçar-se por conceber baixos sentimentos de sua própria pessoa e desejar que os outros pensem do mesmo modo.


São João da Cruz
Subida do Monte Carmelo I, Cap XIII, §3-7; 9


SÃO JOÃO DA CRUZ – ELE, O ESPOSO, TE AMA!



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«ELE, O ESPOSO, TE AMA!»

«O Esposo está com eles» Mt 9, 14-17

“Uma pessoa que ama outra e que lhe faz bem ama-a e faz-lhe bem segundo as suas qualidades, segundo as suas propriedades pessoais. É assim que age o teu Esposo, que em ti reside enquanto onipotente: ama-te e faz-te bem segundo a Sua onipotência.

Infinitamente Sábio, Ele ama-te e faz-te bem segundo a extensão da Sua sabedoria.
Infinitamente Bom, Ele ama-te e faz-te bem segundo a extensão da Sua bondade.
Infinitamente Santo, Ele ama-te e faz-te bem segundo a extensão da Sua santidade.
Infinitamente Justo, Ele ama-te e concede-te as Suas graças segundo a extensão da Sua justiça.
Infinitamente Misericordioso, Clemente e Compassivo, Ele faz-te experimentar a Sua clemência e a Sua compaixão.
Forte, Delicado, Sublime em Seu ser, Ele ama-te de maneira forte, delicada e sublime.
Infinitamente Puro, ama-te segundo a extensão da Sua pureza.
Soberanamente Verdadeiro, ama-te segundo a extensão da Sua verdade.
Infinitamente Generoso, ama-te e cumula-te de graças, segundo a extensão da Sua generosidade, sem qualquer interesse pessoal e visando apenas fazer-te bem.
Soberanamente Humilde, ama-te com humildade soberana e com soberana estima.

Eleva-te até Si, a ti Se descobre alegremente, com uma face cheia de graça, nesta via dos conhecimentos que te dá. E tu ouve-Lo dizer-te: «Sou teu e por ti; alegro-me por ser o que sou, a fim de Me dar a ti e de ser teu para sempre».

Quem poderá exprimir o que sentes, alma bem-aventurada, vendo-te amada a este ponto, vendo-te tida por Deus em semelhante estima?”


São João da Cruz
Chama Viva do Amor, 3, 6

SÃO JOÃO DA CRUZ – É no silêncio da alma que Ele se faz ouvir



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«É no silêncio da alma que Ele se faz ouvir»

O Pai celeste disse uma única palavra: é o Seu Filho. Disse-a eternamente e num eterno silêncio. É no silêncio da alma que Ele se faz ouvir.

Falai pouco e não vos metais em assuntos sobre os quais não fostes interrogados.

Não vos queixeis de ninguém; não façais perguntas ou, se for absolutamente necessário, que seja com poucas palavras.

Procurai não contradizer ninguém e não vos permitais uma palavra que não seja pura.

Quando falardes, que seja de modo a não ofender ninguém e não digais senão coisas que possais dizer sem receio diante de toda a gente.

Tende sempre paz interior assim como uma atenção amorosa para com Deus e, quando for necessário falar, que seja com a mesma calma e a mesma paz.

Guardai para vós o que Deus vos diz e lembrai-vos desta palavra da Escritura: "O meu segredo é meu" (Is 24,16)...

Para avançar na virtude, é importante calar-se e agir, porque falando as pessoas distraem-se, ao passo que, guardando o silêncio e trabalhando, as pessoas recolhem-se.

A partir do momento em que aprendemos com alguém o que é preciso para o avanço espiritual, não é preciso pedir-lhe que diga mais nem que continue a falar, mas pôr mãos às obras, com seriedade e em silêncio, com zelo e humildade, com caridade e desprezo de si mesmo.

Antes de todas as coisas, é necessário e conveniente servir a Deus no silêncio das tendências desordenadas, bem como da língua, a fim de só ouvir palavras de amor.


São João da Cruz
Conselhos e Máximas

SÃO JOÃO DA CRUZ – São João da Cruz e a Subida do Monte Carmelo



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

« São João da Cruz e a Subida do Monte Carmelo»

São João da Cruz, o grande místico e poeta espanhol, nasceu em Fontiveros, nas proximidades de Ávila, na Espanha, no ano de 1542. Filho de pais pobres e tendo ele mesmo conhecido prematuramente a orfandade paterna, a fome e as demais inseguranças que atingiam os pobres de sua época, soube transformar todo esse “material humano” em húmus fertilíssimo do qual brotou toda a sua obra e espiritualidade, lida e cultivada em todos os recantos do mundo.

Apropriando-se de símbolos mais do que expressivos, o santo espanhol expressa a relação do ser humano com Deus, ou a tentativa dessa relação-aproximação, por meio de elementos da natureza, entre outros:

A NOITE ( NOITE ESCURA),
O FOGO (CHAMA VIVA DE AMOR),
A ÁQUA (CÂNTICO ESPIRITUAL),
O MONTE (SUBIDA DO MONTE CARMELO)

Homem de grande sensibilidade, abertura de coração e generosidade, João da Cruz soube apoderar-se do melhor da literatura e da mística de sua época, produzindo assim uma obra ímpar e insubstituível. Mantendo os pés bem plantados na realidade castelhana de seu tempo, sorveu dos versos populares, da literatura de cordel, dos cantores de feiras e mercados, o estilo com o qual plasmou seus versos e sonetos.

Uma de suas obras mais densas é, sem dúvida alguma, a Subida do Monte Carmelo. Nesta obra o autor vai comentando e descrevendo, parte por parte, qual o itinerário que o ser humano deve percorrer para chegar a Deus. A Subida ao Monte é a meta principal e final da perfeição, sabendo-se que para atingir-se tal finalidade, o ser humano deverá passar por situações de escuridão, trevas, privações... É o caminho árduo proposto pelo místico espanhol, que não engana com facilidades aquelas pessoas que queiram verdadeiramente fazer uma profunda experiência de Deus.

Nenhum viajante, ao partir, carrega uma mochila pesada demais, porque senão as suas forças poderiam faltar-lhe brevemente. Ainda mais quando alguém se propõe a subir uma montanha, deve mais ainda, tornar-se leve e ágil para a escalada, sabendo que o excesso de “coisas”que leva consigo, podem tornar-se empecilho para a missão.

Pensamentos, sentimentos, gostos próprios, são exemplos das “coisas” que podem dificultar nossa ascensão ao cume do monte da perfeição. Daí a necessidade do esvaziamento do “negar-se a si mesmo” – ‘quem não renunciar a si mesmo...’ – para se chegar ao TUDO QUE É DEUS.

A caridade, como nos descreve 1 Cor.13,4-7 é o parâmetro para avaliarmos se esse esvaziamento, essa humildade e caridade de fato acontecem em nossas vidas. Não querer nada para si mesmo, eis a norma, mas querer tudo para os demais.

Num mundo de competição, ganância e desvalorização da vida humana como tal, num mundo mercantilizado como o que vivemos, parece impossível se chegar a viver esse ideal pregado por São João da Cruz. No entanto, ontem como hoje, o cristão que esteja verdadeiramente revestido de fé, esperança e caridade, poderá sim trilhar esse caminho árduo e estreito e chegar ao cume da perfeição aonde, como diz João da Cruz, “AQUI JÁ NÃO EXISTE CAMINHO”, ele já não se faz necessário, porque O PRÓPRIO DEUS HABITA NESSE “MONTE”E ELE É O CAMINHO.


Frei Osmar Vieira Branco O.Carm.


domingo, 13 de dezembro de 2009

ADVENTO – 3º DOMINGO – Te entregarei o amor do meu coração



DOMINGO III DO ADVENTO

«Oferecer-Te-ei por inteiro a minha alma que Tu resgataste, entregar-Te-ei o amor do meu coração»

Tu, que por mim fizeste tão grandes e belas coisas, que me obrigaste a ficar ao Teu serviço para sempre, que Te darei eu por tão grandes benefícios? Que louvores, que ações de graças poderia oferecer-Te, ainda que me gastasse mil vezes? O que sou eu, pobre criatura, em comparação Contigo, que és a minha abundante redenção? Assim, pois, oferecer-Te-ei por inteiro a minha alma que Tu resgataste, entregar-Te-ei o amor do meu coração. Sim, transporta a minha vida em Ti, leva-me toda inteira em Ti e, encerrando-me em Ti, faz com que eu seja uma única coisa Contigo.

Ó amor, o teu ardor divino abriu-me o doce coração do meu Jesus. Ó coração fonte de doçura, coração transbordante de bondade, coração superabundante de caridade, coração de onde corre, gota a gota, a benevolência, coração cheio de misericórdia, coração tão amado, peço-te que absorvas todo o meu coração em ti. Pérola preciosíssima do meu coração, convida-me para o Teu festim que dá vida; serve-me os vinhos da consolação, a fim de que as ruínas do meu espírito se encham da Tua caridade divina, e de que a abundância do Teu amor supra a pobreza e a miséria da minha alma.

Ó coração amado acima de todas as coisas, tem piedade de mim. Suplico-Te que a doçura da Tua caridade dê coragem ao meu coração. Que, pela Tua bondade, as entranhas da Tua misericórdia se comovam a meu favor; porque os meus deméritos são numerosos, e nulos são os meus méritos. Meu Jesus, que o mérito da Tua morte preciosa, que foi o único que teve o poder de compensar a dívida universal, me redima de todo o mal que eu fiz; que ele me atraia a Ti, de maneira tão poderosa que, totalmente transformada pela força do Teu amor divino, eu encontre graça a Teus olhos. E concede-me, querido Jesus, que Te ame, só a Ti em todas as coisas, que a Ti me ligue com fervor, que espere em Ti e não coloque limites à minha esperança.


Santa Gertrudes de Helfta
Esercizi Spirituali, 7


ADVENTO – 3º DOMINGO – Coisa alguma pode distrair de Vós quem age só por Vós



DOMINGO III DO ADVENTO


«Coisa alguma pode distrair de Vós quem age só por Vós»


Deus meu, parece-me que coisa alguma pode distrair de Vós quem age só por Vós, sempre na Vossa santa presença, sob Vosso olhar divino que penetra o mais íntimo da alma. Mesmo no meio do mundo, pode ouvir-nos o coração silencioso que quer ser só Vosso.

Tudo está na intenção com que podemos santificar as mínimas coisas, transformar as ações mais comuns da vida em ações divinas! A alma que vive unida a Vós, Deus meu, só pratica atos sobrenaturais, e as coisas mais banais, longe de separá-la, aproximam-na cada vez mais de Vós.


Beata Elizabeth da Trindade
Cartas 38; 261


ADVENTO – 3º DOMINGO – A Esperança da Vida Nova em Cristo



DOMINGO III DO ADVENTO

«A Esperança da Vida Nova em Cristo»

Afugenta, Senhor, com a luz diurna de tua sabedoria,
as trevas noturnas de nossa mente,
para que, iluminados por Ti,
te sirvamos com espírito renovado e puro.

A chegada do sol representa para os mortais
o início de seu trabalho;
Adorne, Senhor, em nossas almas uma mansão
em que possa continuar aquele dia
que não conhece o ocaso.

Faze que saibamos contemplar em nós
mesmos a vida da ressurreição,
e que nada possa separa nossas
mentesde teus deleites.

Imprime em nós, Senhor,
por nossa constante adesão a Ti,
o selo daquele dia que não depende
do movimento solar.

Cada dia te estreitamos em nossos braços
e te recebemos em nosso corpo por meio de
teus sacramentos; faze que sejamos dignos
de experimentar em nossa pessoa,
a ressurreição que esperamos.

Pela graça do batismo trazemos escondido
em nosso corpo o tesouro que tu nos deste;
que este mesmo tesouro vá crescendo na
mesa dos teus sacramentos;
faze que nos alegremos de teus dons.

Temos em nós, Senhor, o teu memorial,
recebido de tua mesa espiritual;
dá-nos que alcancemos sua realidade
plena, na renovação futura.

Pedimos-te, Senhor, que aquela
beleza espiritual que tua vontade imortal
faz brotar na mesma mortalidade nos faça
compreender nossa própria beleza.

Tua crucifixão, ó Salvador Nosso,
foi o término de tua vida mortal;
faz que crucifiquemos nossa mente
a fim de obter a vida espiritual.

Que tua ressurreição, ó Jesus,
faça crescer em nós o homem espiritual;
que a visão de teus sinais sacramentais,
nos ajude a conhecê-la.

Tuas disposições divinas, ó Salvador Nosso,
são figura do mundo espiritual
faze que nos movamos nele,
como homens espirituais.

Não prives, Senhor, a nossa mente
de tua manifestação espiritual,
e não separe de nós
o calor de tua suavidade.

A mortalidade latente em nosso corpo
derrama em nós a corrupção;
que a aspersão de teu amor espiritual
apague em nossos corações
os efeitos da mortalidade.

Concede-nos, Senhor, que caminhemos com presteza
para a nossa pátria definitiva
e que, como Moisés, do cume do monte,
possamos desde agora contemplá-la pela fé.


Santo Efren, o Sírio
Sermo 3, De fine et admonitione 2. 4-5:
Opera, edição Lamy 3, 216-222


ADVENTO – 3º DOMINGO – Ó Senhor, conduzi-me à posse de Vossa bem-aventurança



DOMINGO III DO ADVENTO

«Ó Senhor, dai-me pensamentos espirituais e conduzi-me a posse de Vossa bem-aventurança»

“Ó Senhor, não sou luz para mim mesmo: olho posso ser; luz, não. Que vale ter olhos perfeitos e abertos, quando falta a luz? A Vós elevo meu clamor e digo: sereis a luz de minha lâmpada, ó Senhor; com vossa Luz, ó Senhor, iluminareis minhas trevas. De minha parte, sou só trevas. Vós, ao contrário, sois luz que expulsa as trevas e me ilumina. Não de mim me vem a luz: só em Vós tenho luz.

Os sábios e prudentes deste mundo julgam-se luz e são trevas! E porque são trevas e se julgam luz, não podem ser iluminados. Mas os que são trevas, e trevas confessam ser, mantêm-se pequenos e não querem engrandecer-se, são humildes e não soberbos. Conhecem-se a si mesmos, louvam-Vos, ó Senhor, e não se desviam do caminho que conduz à salvação. Louvando-Vos, invocam-Vos e são libertados de seus inimigos.

Senhor, Deus Pai Onipotente, com sinceridade de coração, dirijo-me a Vós, tanto quanto me permite a minha pequenez, dou-vos alegremente vivíssimas e copiosas graças, implorando com toda a alma Vossa extraordinária bondade de acolher benevolamente minhas súplicas: com Vosso poder, expulsai de meus atos e pensamentos o inimigo, aumentai em mim a fé, governai-me a mente, dai-me pensamentos espirituais e conduzi-me a posse de Vossa bem-aventurança”.


Santo Agostinho
Sermo 67, 8-10


ADVENTO – 3º DOMINGO – Sejamos um edifício firme, invulnerável às tempestades



DOMINGO III DO ADVENTO

«Sejamos um edifício firme, invulnerável às tempestades»

O batismo de João é um batismo com o Espírito Santo e com o fogo (Lc 3, 16). Se fores santo, serás batizado no Espírito; se pecador, mergulharás no fogo. E assim, um mesmo batismo se tornará condenação e fogo para os indignos e pecadores, enquanto os santos, que se convertem ao Senhor com toda fé, receberão a graça do Espírito Santo e a salvação.

Ora, aquele que batiza com o Espírito Santo e com o fogo tem a pá em sua mão; limpará a sua eira e recolherá o trigo em seu celeiro; a palha, porém, ele a queimará num fogo inextinguível. Quero descobrir por que razão nosso Senhor tem a pá em sua mão, e que vento é esse que ao soprar dispersa a palha leve, enquanto o grão de trigo, mais pesado, se junta num só lugar; com efeito, sem vento não se pode separar a palha do trigo.

Suponho que por vento podemos entender as tentações que, num grupo indistinto de fiéis, fazem ver que uns são palha e outros trigo. Quando tua alma foi vencida por alguma tentação, não é que ela te tenha transformado em palha, mas porque já eras palha, isto é, leviano e incrédulo, a tentação revelou a tua natureza latente. Quando, ao contrário, suportas a prova com coragem, não é a tentação que te faz fiel e paciente; ela apenas traz à tona a virtude de paciência e fortaleza que em ti estava escondida. “Pensas, diz o Senhor, que falando-te assim eu teria outra intenção que não fosse a de manifestar tua justiça?” E, em outro lugar: Eu te afligi e despojei, a fim de conhecer o que tinhas no coração (cf. Dt 8, 2).

Do mesmo modo, a tempestade não deixa de pé o edifício construído sobre a areia; se queres, pois, edificar, edifica sobre a rocha. Quando se levantar a tempestade, o que estiver fundado sobre a rocha não ruirá, mas o que estiver sobre a areia vacilará, provando que não estava bem fundado. Por isso, antes que a tempestade comece, antes que os ventos levantem e as correntes intumesçam, enquanto tudo ainda está em silêncio, dediquemos todo nosso empenho às fundações do edifício, edifiquemos nossa casa com as pedras firmes e variadas dos preceitos de Deus. E assim, quando a perseguição recrudescer e o terrível furacão se levantar contra os cristãos, mostremos ter nosso edifício construído sobre a rocha que é Cristo Jesus.

Se alguém, no entanto, negar a Cristo – o que não aconteça – saiba que não o negou no momento em que foi visto negando, mas que as sementes e as raízes de sua negação já eram antigas. Naquele instante, apenas veio a lume e se tornou conhecido o que havia em seu interior. Roguemos, pois, ao Senhor, para que sejamos um edifício firme, invulnerável às tempestades, fundado sobre a rocha que é nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual sejam dadas a glória e o império, pelos séculos dos séculos. Amém.


Orígenes, Presbítero
In Lucam, Homilia 26, 3-5
Sources Chrétiennes 87


ADVENTO – 3º DOMINGO – Crer no excessivo amor de Deus



DOMINGO III DO ADVENTO


«Crer no excessivo amor de Deus para conosco»


Quando é o homem capaz de crer ‘no excessivo amor de Deus para com ele’, deste se pode dizer o que foi dito de Moisés: ‘Era inabalável na fé como se tivesse visto o invisível’.

Ó Senhor, jamais me detenha eu nos gostos e sentimentos; pouco me importe o sentir-Vos ou não Vos sentir, pouco me importe que me deixe glória ou sofrimento. Creio no Vosso amor.

Quanto mais provada, mais cresce a fé, porque sabe ir além de todos os obstáculos, para repousar no seio do amor infinito que só pode fazer obras de amor. A esta alma totalmente vigilante em sua fé podeis, ó Mestre, dizer-lhe no íntimo a palavra que dirigistes um dia a Maria Madalena: ‘Vai em paz, a tua fé te salvou’.


Beata Elizabeth da Trindade
1, Retiro 6,1


ADVENTO – 3º DOMINGO – Que o seu Advento se realize todos os dias em nós



DOMINGO III DO ADVENTO

«Que o seu Advento se realize todos os dias em nós para que possamos dizer: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim»

Está escrito sobre João: “Uma voz grita no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitar as suas veredas”. Mas o que vem a seguir diz respeito exclusivamente ao Senhor, nosso Salvador. Porque não foi João quem “aplanou os vales”, mas o Senhor, nosso Salvador.

Considere cada um o que era antes de ter fé; e constatará que era um vale profundo, a pique, mergulhado nos abismos. Mas veio o Senhor Jesus, e enviou o Espírito Santo em seu lugar; foi então que “os vales foram aplanados”. Foram aplanados com as boas obras e os frutos do Espírito Santo. A caridade não deixa subsistir em ti vale algum e, se possuíres a paz, a paciência e a bondade, para além de deixares de ser vale, também começarás a ser montanha de Deus.

“As montanhas e as colinas serão abaixadas”. Nestas montanhas e nestas colinas abaixadas, podemos ver os poderes inimigos que se erguiam contra os homens. Com efeito, para que os vales de que falamos sejam aplanados, os poderes inimigos, as montanhas e as colina s, terão de ser abaixados.

Mas vejamos se a profecia seguinte, que diz respeito ao advento de Cristo, se realizou. Com efeito, o texto diz em seguida: “E todos os caminhos tortuosos serão endireitados”. Todos nós éramos tortuosos – pelo menos se estivermos a falar do que éramos e não daquilo que somos hoje – e a vinda de Cristo que se realizou na nossa alma endireitou tudo quanto era tortuoso.

Rezemos para que o seu advento se realize todos os dias em nós, e para que possamos dizer: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20).


Orígenes, Presbítero
In Lucam, Homilia 22, 1-3
Sources Chrétiennes 87


ADVENTO – 3º DOMINGO – O amor que deseja a face do Amado



DOMINGO III DO ADVENTO

«O amor que deseja a face do Amado»

Vendo o mundo oprimido pelo temor, Deus procura continuamente chamá-lo com amor, convidá-lo com a sua graça, segurá-lo com a caridade, abraçá-lo com afeto. Por isso, purifica com o castigo do dilúvio a terra que se tinha inveterado no mal; chama Noé para gerar um mundo novo; encoraja-o com palavras afetuosas, concede-lhe sua confiante amizade, o instrui com bondade acerca do presente e anima-o com sua graça a respeito do futuro. E já não se limita a dar-lhe ordens, mas tomando parte no seu trabalho, encerra na arca toda aquela descendência que havia de perdurar por todos os tempos, para que esta aliança de amor acabasse com o temor da servidão esse conservasse na comunhão de amor o que fora salvo com a comunhão de esforços.

Por esse motivo chama Abraão dentre os pagãos, engrandece seu nome, torna-o pai dos crentes, acompanha-o em sua viagem, protege-o entre os estrangeiros, cumula-o de bens, exalta-o com vitórias, dá-lhe a garantia de suas promessas, livra-o das injúrias, torna-se seu hóspede, maravilha-o com o nascimento de um filho que ele já não podia esperar. Tudo isso a fim de que, cumulado de tantos benefícios, atraído pela grande doçura da caridade divina, aprendesse a amar a Deus e não mais temê-lo, a honrá-lo com amor e não com medo.

Por isso também consola em sonhos a Jacó quando fugia, desafia-o para um combate em seu regresso e na luta aperta-o nos braços, para que não temesse, porém, amasse o instigador do combate. Por isso ainda, chama Moisés na própria língua e fala-lhe com afeto paterno, convidando-o a ser o libertador de seu povo.

Em todos esses fatos que relembramos, de tal modo a chama da caridade divina inflamou o coração dos homens e o inebriamento do amor de Deus penetrou os seus sentidos que, cheios de afeto, começaram a desejar ver a Deus com os olhos do corpo. Deus, que o mundo não pode conter, como o olhar limitado do homem o abrangeria? Mas, o que deve ser, o que é possível, não é a regra do amor. O amor ignora as leis, não tem regra, desconhece medida. O amor não desiste perante o impossível, não desanima diante das dificuldades. O amor, se não alcança o que deseja, chega a matar o que ama; vai para onde é atraído, e não para onde deveria ir. O amor gera o desejo, cresce com ardor e pretende o impossível. E que mais? O amor não poderia deixar de ver o que ama. Por isso todos os santos consideravam pouca coisa toda recompensa , enquanto não vissem a Deus. Por isso mesmo, o amor que deseja ver a Deus, vê-se impelido, para além de todo raciocínio, pelo fervor da piedade. Por isso Moisés se atreve a dizer: “Se encontrei graça na vossa presença, mostrai-me o vosso rosto” (Ex 33,13.18). Por isso, diz também o Salmista: “Não me escondais a vossa face” (Sl 26,9). Por isso, enfim, até os próprios pagãos, no meio de seus erros, modelaram ídolos, para poderem ver com seus próprios olhos o objeto de seu culto.


São Pedro Crisólogo, Bispo de Ravena
Sermo 147: PL, 52, 594-595


ADVENTO – 3º DOMINGO – Mostra-me o Amado de minha alma



DOMINGO III DO ADVENTO

«Mostra-me o Amado de minha alma porque estou ferida de amor Ct 1,6»

Irmãos, sigamos a vocação que nos chama da vida para a fonte da vida, fonte não apenas de água viva, mas da eterna vida, fonte de luz e de claridade; dela tudo provém, sabedoria e vida, luz eterna.

Autor da vida, é fonte da vida; Criador da luz, fonte da luz. Portanto, desprezando o que se vê e ultrapassando o mundo até as alturas dos céus, busquemos, quais peixes muito inteligentes e espertos, a fonte da luz, a fonte da vida, a fonte de água viva, para bebermos a água viva que jorra para a vida eterna (cf. Jo 4,14).

Oxalá te dignes admitir-me a esta fonte, Deus misericordioso, bom Senhor, onde eu, com os que têm sede de ti, beberei da onda viva da fonte viva de água corrente. Refeito por sua indizível doçura, esteja sempre unido a ela e diga: “Quão doce é a fonte de água viva, donde nunca falta a água que jorra para a vida eterna!”

Ó Senhor, tu és esta fonte, sempre, sempre desejável, sempre, sempre a ser bebida. Dá-nos, sempre, Cristo Senhor, desta água, para que também em nós haja a fonte de água viva que jora para a vida eterna. Grande coisa peço, quem o duvida? Mas tu, rei da glória, sabes dar grandes coisas e grandes coisas prometeste; nada maior do que tu e te deste a nós, te deste por nós.

Rogamos-te então que conheçamos o que amamos, porque não te pedimos dar-nos nada além de ti. Tu és o nosso tudo, nossa vida, nossa luz, nossa salvação, nosso alimento, nossa bebida, nosso Deus. Rogo-te, nosso Jesus, inspira nossos corações com aquela brisa de teu Espírito e fere nossas almas com tua caridade. Que cada uma de nossas almas possa na verdade dizer: Mostra-me o amado de minha alma (cf. Ct 1,6), porque estou ferida de amor.

Desejo, Senhor, que se grave em mim esta ferida. Feliz a alma que assim foi ferida pela caridade; esta busca a fonte, esta bebe e, no entanto, sempre tem sede bebendo e sempre haure desejando aquela que sempre bebe sedenta. Assim sempre busca amando aquela que se cura ferindo. Que Deus e nosso Senhor Jesus Cristo, o bom médico eficaz, se digne ferir com a chaga da salvação o íntimo de nossa alma. A ele,com o Pai e com o Espírito Santo, pertence a unidade pelos séculos dos séculos.

Amém.

São Columbano, Abade
Instr.13, De Christo fonte vitae, 2-3:
Opera, Dublin1957,118-120


ADVENTO – 3º DOMINGO – Alegremo-nos: o nosso Deus é um Deus próximo



DOMINGO III DO ADVENTO

«Tende coragem: Jesus já vem. Alegremo-nos: o nosso Deus é um Deus próximo»

“Alegrai-vos sempre no Senhor! O Senhor está próximo!” Alegremo-nos porque o Senhor vem e sua vinda traz a salvação! Celebrando sua vinda no Natal, experimentaremos o quanto Deus é fiel às suas promessas e encher-nos-emos de alegria e ânimo para reconhecer suas vindas a cada dia, preparando-nos para o encontro com Ele no Final dos tempos, quando toda dor, todo pranto, toda morte serão vencidos!

Cuidado com o desânimo; cuidado com a tibieza, cuidado com a frieza de coração! Cuidado também com o espírito do mundo, com o paganismo em nossos pensamentos e ações! Cuidado para não descuidarmos das coisas de Deus, para não desacreditarmos de suas palavras e não fechar para Ele o nosso coração! Ele vem, e vem porque nos ama, e vem para salvar! Assim sendo, acolhamos as consoladoras palavras de Sofonias: “Canta de alegria, Sião; rejubila, Israel! Alegra-te exulta de todo coração! O Senhor está no meio de ti, nunca mais temerás o mal! Não temas, Sião; não te deixes levar pelo desânimo! O Senhor exultará de alegria por ti, movido por amor, como nos dias de festa”!

Que tristeza a vida se tivéssemos de vivê-la sozinhos, se não houvesse um Destino Bendito! Que tédio miserável a nossa existência, se não houvesse um Deus-Salvador que visse nosso caminhar, que recolhesse nossas lágrimas, que fosse nosso companheiro na solidão e na dor, no medo e na angústia de cada dia! A vida não pode ser somente viver e morrer; nosso caminho sobre a terra não pode ser uma passageira ilusão, uma distração alucinada para não nos lembrar que aqui estamos de passagem e que um dia morreremos.

Mas, não! Caminhamos para o Senhor que vem! E Ele vem mesmo, porque é fidelíssimo! Pois, alegremo-nos: o nosso Deus é um Deus próximo; Deus de perto e não de longe! Saibamos reconhecê-lo. Saibamos acolhê-lo! “Não vos inquieteis com coisa alguma! A paz de Deus, que ultrapassa todo entendimento, guardará os vossos corações e pensamento em Cristo Jesus!”


Dom Henrique Soares da Costa
Bispo Titular de Acúfica e Auxiliar de Aracaju


NOSSA SENHORA DE GUADALUPE – Oração do Papa João Paulo II



PADROEIRA DA AMÉRICA LATINA

FESTA
12 DE DEZEMBRO

SEMANA II DO ADVENTO

ORAÇÃO DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II À NOSSA SENHORA DE GUADALUPE

Ó Virgem Imaculada,
Mãe do verdadeiro Deus e Mãe da Igreja!
Vós, que, deste lugar, manifestais a vossa
clemência e a vossa compaixão por todos
os que imploram o vosso amparo:
ouvi a oração que com filial confiança
Vos dirigimos e apresentai-a ao vosso
Filho Jesus, único Redentor nosso.

Mãe de misericórdia, Mestra do sacrifício
escondido e silencioso, a Vós, que vindes ao
encontro de nós todos, pecadores, consagramos,
neste dia, todo o nosso ser e todo o nosso amor.
Consagramo-Vos também a nossa vida,
os nossos trabalhos, as nossas alegrias,
as nossas doenças e os nossos sofrimentos.

Dai a paz, a justiça e a prosperidade aos
nossos povos, já que tudo o que nós temos
e o que somos o deixamos ao vosso cuidado,
Mãe e Senhora nossa.

Queremos ser totalmente vossos
e convosco desejamos percorrer
o caminho de uma fidelidade plena a
Jesus Cristo na sua Igreja: não nos deixeis
desprender da vossa mão amorosa.

Virgem de Guadalupe, Mãe das Américas,
pedimo-Vos por todos os Bispos,
a fim de que eles conduzam os fiéis
por veredas de intensa vida cristã,
de amor e de humilde serviço
a Deus e às almas.

Contemplai esta seara imensa
e intercedei por que o Senhor infunda fome de santidade
em todo o Povo de Deus e conceda abundantes vocações
de sacerdotes e religiosos fortes na fé e zelosos
dispensadores dos mistérios de Deus.

Concedei aos nossos lares a graça
de amarem e respeitarem a vida nascente,
com o mesmo amor com que Vós em vosso
seio concebestes a vida do Filho de Deus.

Virgem Santa Maria, Mãe do Amor Formoso,
protegei as nossas famílias, para que elas
estejam sempre muito unidas, e abençoai
a educação dos nossos filhos.

Esperança nossa,
olhai-nos com compaixão
ensinai-nos a ir continuamente para Jesus
e, se cairmos, ajudai-nos a levantarmo-nos
e a voltarmos para Ele, mediante a confissão
das nossas culpas e dos nossos pecados no
sacramento da Penitência que traz sossego à alma.

Suplicamo-Vos que nos concedais
um amor muito grande a todos os santos
Sacramentos que são como que as marcas
que o vosso Filho nos deixou na terra.

Assim, nossa Mãe Santíssima,
com a paz de Deus na consciência,
com os nossos corações livres do mal e de ódios,
poderemos levar a todos a alegria verdadeira
e a verdadeira paz, as quais vêm do Vosso Filho,
Nosso Senhor Jesus Cristo que, com Deus Pai e
com o Espírito Santo, vive e reina
pelos séculos dos séculos.

Amen.


PAPA JOÃO PAULO II
Viagem Apostólica ao México
México, Janeiro de 1979

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

IMACULADA CONCEIÇÃO - Que por Vós seja-nos concedido ir ao Filho, ó Mãe da Salvação!




IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA

SOLENIDADE
08 DE DEZEMBRO


Que por Vós seja-nos concedido ir ao Filho, ó Mãe da Salvação!

“Que por Vós, Maria, seja-nos concedido ir ao Filho, ó Bendita, que encontrastes graça, que gerastes a vida e sois a Mãe da Salvação! Por vossa mediação, acolha-nos quem por vós se deu a nós, pecadores.

Vossa integridade compense diante dele a culpa da nossa corrupção e vossa humildade, tão agradável a Deus, alcance perdão para nossa vaidade.

Vossa grande caridade cubra a multidão dos nossos pecados e vossa gloriosa fecundidade nos alcance fecundidade de méritos.

Senhora, Medianeira e Advogada nossa, reconciliai-nos com vosso Filho! Recomendai-nos a Ele e a Ele apresentai-nos.

Pela graça que encontrastes, pelo privilégio que merecestes, pela Misericórdia que gerastes, fazei, ó Bendita, que quem, graças a Vós, dignou-se tornar-se participante da nossa enfermidade e miséria, graças ainda à vossa intercessão, faça-nos participantes da sua glória e bem-aventurança”.


São Bernardo de Claraval
In Adventu Domini, 2, 5: Opera omnia, Edit cisterc.


IMACULADA CONCEIÇÃO - Virgem Mãe, filha do teu Filho, cheia do Amor Encarnado de Deus




IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA

SOLENIDADE
08 DE DEZEMBRO

Virgem Mãe, filha do teu Filho, cheia do Amor Encarnado de Deus

Queridos irmãos e irmãs!

Celebramos hoje uma das Festas mais bonitas e populares da Bem-Aventurada Virgem: a Imaculada Conceição. Maria não só não cometeu pecado algum, mas foi preservada até da herança comum do gênero humano que é o pecado original. E isto devido à missão para a qual Deus a destinou desde o início: ser a Mãe do Redentor. Tudo isto está contido na verdade da fé da "Imaculada Conceição".O fundamento bíblico deste dogma encontra-se nas palavras que o Anjo dirigiu à jovem de Nazaré: "Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo" (Lc 1, 28).

"Cheia de graça" no original grego kecharitoméne é o nome mais bonito de Maria, nome que lhe foi conferido pelo próprio Deus, para indicar que ela é desde sempre e para sempre a amada, a eleita, a predestinada para acolher o dom mais precioso, Jesus, "o amor encarnado de Deus" (Enc. Deus caritas est, 12).

Podemos perguntar: por que, entre todas as mulheres, Deus escolheu precisamente Maria de Nazaré? A resposta está escondida no mistério insondável da vontade divina. Contudo há uma razão que o Evangelho ressalta: a sua humildade. Ressalta isto muito bem Dante Alighieri no último Canto do Paraíso: "Virgem Mãe, filha do teu Filho, / humilde e alta mais do que criatura, / fim firme do conselho eterno" (Par. XXXIII, 1-3). A própria Virgem no "Magnificat", o seu cântico de louvor, diz isto: "A minha alma glorifica o Senhor... porque pôs os olhos na humildade da sua serva" (Lc 1, 46.48). Sim, Deus foi atraído pela humildade de Maria, porque achou graça diante dos olhos de Deus (cf. Lc 1, 30). Tornou-se assim a Mãe de Deus, imagem e modelo da Igreja, eleita entre os povos para receber a bênção do Senhor e difundi-la a toda a família humana. Esta "bênção" mais não é do que Jesus Cristo. É Ele a Fonte da graça, da qual Maria foi repleta desde o primeiro momento da sua existência. Acolheu Jesus com fé e com amor o deu ao mundo. Esta é também a nossa vocação e a missão da Igreja: acolher Cristo na nossa vida e doá-lo ao mundo, "para que o mundo seja salvo por Ele" (Jo 3,17).

Queridos irmãos e irmãs, a hodierna festa da Imaculada ilumina como um farol o tempo do Advento, que é tempo de vigilante e confiante expectativa do Salvador. Enquanto nos encaminhamos ao encontro do Deus que vem, olhamos para Maria que "brilha como sinal de esperança segura e de consolação aos olhos do Povo de Deus peregrino" (Lumen gentium, 68). Com esta consciência convido-vos a unir-vos a mim quando, hoje à tarde, renovarei na Praça de Espanha o tradicional ato de homenagem a esta doce Mãe por graça e da graça. Dirijamo-nos agora a ela com a oração que recorda o anúncio do Anjo.


Papa Bento XVI
Angelus, 08 de Dezembro de 2006


IMACULADA CONCEIÇÃO - Mãe Imaculada, faz com que me mova exclusivamente o Amor!




IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA

SOLENIDADE
08 DE DEZEMBRO

Mãe Imaculada, faz com que me mova exclusivamente o Amor!

Nestes dias, vendo como tantos cristãos exprimem dos mais diversos modos o seu carinho à Virgem Santa Maria, também vós certamente vos sentis mais dentro da Igreja, mais irmãos de todos esses vossos irmãos.

É uma espécie de reunião de família, como quando os irmãos que a vida separou voltam a encontrar-se junto da Mãe, por ocasião de alguma festa. Ainda que alguma vez tenham discutido uns com os outros e se tenham tratado mal, naquele dia não; naquele dia sentem-se unidos, reencontram-se unidos, reencontram-se todos no afeto comum.

Como gostam os homens de que lhes recordem o seu parentesco com personagens da literatura, da política, do exército, da Igreja!... - Canta diante da Virgem Imaculada, recordando-Lhe:Ave, Maria, Filha de Deus Pai; Ave, Maria, Mãe de Deus Filho; Ave, Maria, Esposa de Deus Espírito Santo... Mais do que tu, só Deus!

Permite-me um conselho, para que o ponhas diariamente em prática: quando o coração te fizer notar as suas baixas tendências, reza devagar à Virgem Imaculada: - "Olha-me com compaixão, não me deixes, minha Mãe!". E aconselha-o a outros. João, o discípulo amado de Jesus, recebe Maria e introdu-la em sua casa, na sua vida. Os autores espirituais viram nestas palavras do Santo Evangelho um convite dirigido a todos os cristãos para que Maria entre também nas suas vidas.

Quando te vires com o coração seco, sem saber o que hás de dizer, recorre com confiança a Nossa Senhora. Se a invocares com fé, Ela far-te-á saborear - no meio dessa secura - a proximidade de Deus.

Diz-Lhe: "Minha Mãe Imaculada, intercede por mim!. Virgem Imaculada, Mãe!, não me abandones: olha como se enche de lágrimas o meu pobre coração. Não quero ofender o meu Deus!Já sei, e penso que nunca o esquecerei, que não valho nada: quanto me pesa a minha insignificância, a minha solidão! Mas... não estou sozinho: tu, Doce Senhora, e o meu Pai Deus não me deixais. Ante a rebelião da minha carne e ante as razões diabólicas contra a minha Fé, amo a Jesus e creio: Amo e Creio. Meu Deus, só desejo ser agradável aos teus olhos, tudo o resto não me importa. Mãe Imaculada, faz com que me mova exclusivamente o Amor".


São Josemaría Escrivá
Caminho,496; Cristo que passa,139,140; Forja, 215,1028; Sulco,695,849


IMACULADA CONCEIÇÃO - Contemplar o rosto de Maria




IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA

SOLENIDADE
08 DE DEZEMBRO

Contemplemos o rosto de Maria, porque, mais do que qualquer outra criatura, a Mãe assemelha-se com o Filho Jesus

Caríssimos Irmãos e Irmãs,

Celebramos hoje a Solenidade da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria. Recordamos a intervenção extraordinária, mediante a qual o Pai celeste preservou do pecado original Aquela que seria a Mãe do seu Filho feito homem. Para Maria, que resplandece no Céu no centro da assembléia dos Beatos, se dirige hoje o olhar de todos os crentes.

Voltam à mente as palavras que Dante, no trigésimo segundo cântico do Paraíso, ouve dirigir a si por São Bernardo, última guia da sua peregrinação terrena: "Volta a olhar para o rosto que tem Cristo / quanto mais se parece: só a sua clareza / unicamente te pode dispor a ver Cristo" (vv. 85-87).

É o convite a contemplar o rosto de Maria, porque, mais do que qualquer outra criatura, a Mãe assemelha-se com o Filho Jesus. O esplendor que se irradia daquele rosto pode ajudar Dante a suster o impacto com a visão solene do rosto glorioso de Cristo.

Como é preciosa a exortação do Santo Doutor da Igreja para nós peregrinos na terra, enquanto comemoramos com alegria a "Toda Bela"! Mas a Imaculada convida-nos a não determos o nosso olhar sobre ela e a ir além, penetrando na medida do possível o mistério em que foi concebida: isto é, o mistério de Deus Uno e Trino, repleto de graça e de fidelidade.

Assim como a lua brilha com a luz do sol, também o esplendor imaculado de Maria é totalmente relativo ao do Redentor. A Mãe envia-nos para o Filho; passando através dela chega-se a Cristo. Por isso, oportunamente, Dante Alighieri observa: "só a sua clareza te pode dispor a ver Cristo".

Como todos os anos, hoje à tarde vou com alegria à Praça de Espanha, para me unir à homenagem tradicional que a cidade de Roma presta à Imaculada. A ela renovarei o ato de confiança da Igreja e da humanidade, neste difícil momento da história.

Para ganhar confiança e dar sentido à vida, os homens precisam de se encontrar com Cristo. E a Virgem é a orientação certa para a fonte de luz e de amor que é Jesus: prepara-nos para o encontro com Ele. O povo cristão compreendeu com sabedoria esta realidade de salvação e, dirigindo-se à "Toda Santa", com filial confiança a implora assim: "Iesum, benedictum fructum ventris tui, nobis post hoc exilium ostende. O clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria Mostra-nos, depois deste exílio, Jesus, o bendito fruto do teu ventre. Ó clemente, ó pia, ó doce Virgem Maria".


Papa João Paulo II
Angelus, 08 de Dezembro de 2001


IMACULADA CONCEIÇÃO - Ó Mãe de Deus, vos celebramos como Templo vivo!




IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA


SOLENIDADE
08 DE DEZEMBRO


Ó Mãe de Deus, vos celebramos como Templo vivo!

“Cantando vosso Filho, ó Mãe de Deus, todos vos celebramos como Templo vivo. Em vosso seio habitou o Senhor. Quem, nas próprias mãos, acolhe o universo, vos fez santa e rica de glória.

A todos ensinou a cantar: ‘Ave, Morada de Deus Pai e do Verbo! Ave, Santa maior que todos os santos! Ave, Arca revestida de ouro pelo Espírito Santo! Ave, Tesouro inexaurível de vida! Ave, Honra dos santos sacerdotes! Ave, inabalável Torre da Igreja! Ave, por Vós se exaltam os troféus! Ave, por Vós caem os inimigos! Ave, Saúde de meu corpo! Ave, de minha alma, salvação!

Ó Mãe, digna de todos os cantares, Genitora do Santíssimo Verbo mais santo do que todos os santos, recebei agora nossa oferta. A todos livrai de toda desventura, riscai da pena futura todos os que juntos proclamamos: Aleluia!”.


São Romano, o Melódio
Hino Acatístico, 234


IMACULADA CONCEIÇÃO – Câmara nupcial do Espírito, cidade do Deus vivo




IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA

SOLENIDADE
08 DE DEZEMBRO


Câmara nupcial do Espírito, cidade do Deus vivo

Hoje sopraram as brisas anunciadoras da alegria universal. Dá louvores, ó céu! Fica feliz, ó terra! (Is 49, 13). Que a natureza inteira exulte: vem ao mundo a ovelha pela qual o pastor revestirá o cordeiro e rasgará as túnicas da antiga mortalidade! Celebremos uma festa para a Mãe de Deus.

Canta, ó Ana estéril, tu que não mais dais à luz! Explode de alegria e dá vivas, tu que já não tens as dores do parto! (Is 54, 1).

Regozija-te, Joaquim, pois de tua filha, nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado. Seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, isto é, da salvação do universo, Deus Forte (Is 9, 5).

Se o menino é Deus, como não será Mãe de Deus aquela que o põe no mundo? “Quem não reconhece a Santíssima Virgem como Mãe de Deus, está separado da divindade”. Não é minha esta afirmação, mas ela me pertence; recebi-a como preciosa herança teológica de meu pai, Gregório, o Teólogo. Hoje é o começo da salvação para o mundo, porque no rebanho do Senhor nasce a Mãe de Deus, da qual quis nascer o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Hoje o Criador de todas as coisas, o Verbo divino, compôs um cântico novo, saído do coração do Pai, para ser escrito com uma pluma pelo Espírito, que é a linguagem de Deus.

Filha digna de Deus, beleza da natureza humana, reabilitação de Eva, nossa primeira mãe, Filha sempre virgem que pudeste conceber sem a intervenção humana, pois aquele que geraste tem um Pai eterno. Filha da raça humana que carregaste nos braços o Criador.

De fato, és mais preciosa que toda a criação, pois somente contigo o Criador partilhou as primícias de nossa humanidade. Sua carne foi feita de tua carne, seu sangue, do teu sangue; Deus se alimentou do teu leite, teus lábios tocaram os lábios de Deus. Na presciência da tua dignidade, o Deus do universo te amou; como te amou, te predestinou, e nos últimos tempos te chamou à existência e te estabeleceu mãe para dar à luz um Deus e alimentar seu próprio Filho, o Verbo. Por todo o teu ser és a câmara nupcial do Espírito, a cidade do Deus vivo, toda bela e próxima de Deus, alegrada pelas torrentes do rio que são as ondas dos carismas do Espírito.

Virgem cheia da graça divina, templo santo de Deus, teu adorno não é de ouro nem de pedras mortas, mas é o Espírito quem te confere um esplendor bem maior que o do ouro. Como jóia tens a pérola mais preciosa, a chama da divindade: Cristo.

Deus Santo é o Pai que, em seu desígnio, quis que se cumprisse em ti o mistério que predestinara antes dos séculos.

Santo e Forte é o Filho unigênito de Deus, que te fez nascer para nascer de ti como Filho único de uma Virgem Mãe, primogênito de uma multidão de irmãos, semelhante a nós e participante, por teu intermédio, de nossa carne e de nosso sangue.

Santo e Imortal é o Espírito de toda santidade, que pelo orvalho de sua divindade te resguardou do fogo divino, que a sarça ardente de Moisés prefigurava. Amém! Amém!

Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo, bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre (Lc 1, 28.42), Jesus Cristo, o Filho de Deus. A ele, a glória pelos séculos dos séculos.


São João Damasceno
Homilia 6 in Nativitate Beatæ Mariæ Virginis, 4-12


IMACULADA CONCEIÇÃO – Maria, Estrela da esperança, Mãe nossa, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco




IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA


SOLENIDADE
08 DE DEZEMBRO

Maria, Estrela da esperança, Mãe nossa, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco

Com um hino do século VIII/IX, portanto com mais de mil anos, a Igreja saúda Maria, a Mãe de Deus, como « Estrela do mar »: Ave maris stella. A vida humana é um caminho. Rumo a qual meta? Como achamos o itinerário a seguir? A vida é como uma viagem no mar da história, com frequência enevoada e tempestuosa, uma viagem na qual perscrutamos os astros que nos indicam a rota. As verdadeiras estrelas da nossa vida são as pessoas que souberam viver com retidão. Elas são luzes de esperança. Certamente, Jesus Cristo é a luz por antonomásia, o sol erguido sobre todas as trevas da história. Mas, para chegar até Ele precisamos também de luzes vizinhas, de pessoas que dão luz recebida da luz d'Ele e oferecem, assim, orientação para a nossa travessia. E quem mais do que Maria poderia ser para nós estrela de esperança? Ela que, pelo seu « sim », abriu ao próprio Deus a porta do nosso mundo; Ela que Se tornou a Arca da Aliança viva, onde Deus Se fez carne, tornou-Se um de nós e estabeleceu a sua tenda no meio de nós (cf. Jo 1,14).

Por isso, a Ela nos dirigimos: Santa Maria, Vós pertencíeis àquelas almas humildes e grandes de Israel que, como Simeão, esperavam «a consolação de Israel» (Lc 2,25) e, como Ana, aguardavam a «libertação de Jerusalém» (Lc 2,38). Vós vivíeis em íntimo contacto com as Sagradas Escrituras de Israel, que falavam da esperança, da promessa feita a Abraão e à sua descendência (cf. Lc 1,55). Assim, compreendemos o santo temor que Vos invadiu, quando o anjo do Senhor entrou nos vossos aposentos e Vos disse que daríeis à luz Àquele que era a esperança de Israel e o esperado do mundo.

Por meio de Vós, através do vosso «sim», a esperança dos milênios havia de se tornar realidade, entrar neste mundo e na sua história. Vós Vos inclinastes diante da grandeza desta missão e dissestes «sim». «Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). Quando, cheia de santa alegria, atravessastes apressadamente os montes da Judéia para encontrar a vossa parente Isabel, tornastes-Vos a imagem da futura Igreja, que no seu seio, leva a esperança do mundo através dos montes da história. Mas, a par da alegria que difundistes pelos séculos, com as palavras e com o cântico do vosso Magnificat, conhecíeis também as obscuras afirmações dos profetas sobre o sofrimento do servo de Deus neste mundo.

Sobre o nascimento no presépio de Belém brilhou o esplendor dos anjos que traziam a boa nova aos pastores, mas, ao mesmo tempo, a pobreza de Deus neste mundo era demasiado palpável. O velho Simeão falou-Vos da espada que atravessaria o vosso coração (cf. Lc 2,35), do sinal de contradição que vosso Filho haveria de ser neste mundo. Depois, quando iniciou a atividade pública de Jesus, tivestes de Vos pôr de lado, para que pudesse crescer a nova família, para cuja constituição Ele viera e que deveria desenvolver-se com a contribuição daqueles que tivessem ouvido e observado a sua palavra (cf. Lc 11,27s).

Apesar de toda a grandeza e alegria do primeiro início da atividade de Jesus, Vós, já na Sinagoga de Nazaré, tivestes de experimentar a verdade da palavra sobre o «sinal de contradição» (cf. Lc 4,28s). Assim, vistes o crescente poder da hostilidade e da rejeição que se ia progressivamente afirmando à volta de Jesus até à hora da cruz, quando tivestes de ver o Salvador do mundo, o herdeiro de David, o Filho de Deus morrer como um falido, exposto ao escárnio, entre os malfeitores. Acolhestes então a palavra: «Mulher, eis aí o teu filho» (Jo 19,26). Da cruz, recebestes uma nova missão. A partir da cruz ficastes mãe de uma maneira nova: mãe de todos aqueles que querem acreditar no vosso Filho Jesus e segui-Lo.

A espada da dor trespassou o vosso coração. Tinha morrido a esperança? Ficou o mundo definitivamente sem luz, a vida sem objetivo? Naquela hora, provavelmente, no vosso íntimo tereis ouvido novamente a palavra com que o anjo tinha respondido ao vosso temor no instante da anunciação: «Não temas, Maria!» (Lc 1,30). Quantas vezes o Senhor, o vosso Filho, dissera a mesma coisa aos seus discípulos: Não temais! Na noite do Gólgota, Vós ouvistes outra vez esta palavra. Aos seus discípulos, antes da hora da traição, Ele tinha dito: «Tende confiança! Eu venci o mundo» (Jo 16,33). «Não se turve o vosso coração, nem se atemorize» (Jo 14,27). «Não temas, Maria!» Na hora de Nazaré, o anjo também Vos tinha dito: «O seu reinado não terá fim» (Lc 1,33). Teria talvez terminado antes de começar? Não; junto da cruz, na base da palavra mesma de Jesus, Vós tornastes-Vos mãe dos crentes. Nesta fé que, inclusive na escuridão do Sábado Santo, era certeza da esperança, caminhastes para a manhã de Páscoa. A alegria da ressurreição tocou o vosso coração e uniu-Vos de um novo modo aos discípulos, destinados a tornar-se família de Jesus mediante a fé. Assim Vós estivestes no meio da comunidade dos crentes, que, nos dias após a Ascensão, rezavam unanimemente pedindo o dom do Espírito Santo (cf. At 1,14) e o receberam no dia de Pentecostes. O «reino» de Jesus era diferente daquele que os homens tinham podido imaginar. Este «reino» iniciava naquela hora e nunca mais teria fim. Assim, Vós permaneceis no meio dos discípulos como a sua Mãe, como Mãe da esperança.

Santa Maria, Mãe de Deus, Mãe nossa, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco. Indicai-nos o caminho para o seu reino! Estrela do mar, brilhai sobre nós e guiai-nos no nosso caminho!


Papa Bento XVI
Carta Encíclica Spe Salvi 49-50
30 de Novembro do ano 2007


IMACULADA CONCEIÇÃO - Encantadoramente Imaculada!



IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA

SOLENIDADE
08 DE DEZEMBRO


Encantadoramente Imaculada!

Dentro do Advento, no 8 de dezembro, celebra-se a Concepção Imaculada de Maria, a Virgem. Trata-se de uma solenidade que calha bem neste tempo de preparação para o Natal do Senhor. Imaculada Concepção de Maria! O povo de Deus crê com todas as suas fibras que a Santa Virgem Maria, por ter sido escolhida por Deus para mãe do Cordeiro Imaculado que tira o pecado do mundo, fora, por força da paixão, morte e ressurreição do seu Filho, preservada desde o primeiro momento de sua existência humana, daquela solidariedade no pecado que envolve a nossa raça humana e a que chamamos “pecado original”.

Em Maria, a Virgem, não há aquela quebradura interior que todos nós experimentamos: aquele fechamento tão profundo para Deus, fechamento que aparece como desconfiança, às vezes como teimosia em fazer do nosso jeito, em descaso, falta de piedade, soberba, orgulho, e tantos outros vícios que sufocam a nossa liberdade e ferem o nosso coração. Nela não há aquele fechamento para os outros, que se manifesta em tantas e tão diversificadas formas de egoísmo: falta de compaixão, orgulho, sensualidade, frieza, ganância, maledicência, ira, ciúme, inveja... a lista é deveras extensa... Não! Na Mãe do Senhor não há sombra disso: Deus, o Pai, pelos méritos do Filho bendito, preservou-a de toda lama, de toda mácula! Da lama, Deus em Cristo nos arranca; pela lama, Deus em Cristo, sequer permitiu que a Virgem fosse tocada! Ela é aquela inimiga visceral da serpente: sem acordo, sem pacto sem trégua: ela é a Mulher do Gênesis, do Evangelho, do Apocalipse, em guerra de morte contra a antiga Serpente (cf. Gn 3,15; Jo 2,4; 19, 26; Ap 12,1.3s). Ela é aquela a quem Gabriel, chama com que com um nome novo, ao saudá-la: “Alegra-te, Cheia de Graça!” ou “Alegra-te, ó tu que tens o favor de Deus!”, ou “Alegra-te, Muito Favorecida, Agraciada!” ou “Alegra-te, tu que Foste e Permaneces Repleta da Graça Divina!” – as palavras de Gabriel podem ser traduzidas com toda esta riqueza de expressões e sentidos... afirmando a mesma realidade espantosa: na Virgem de Nazaré a graça de Deus, o favor de Deus, o amor de Deus habitou como em nenhuma criatura! – Em ti, Virgem Maria, não há o menor espaço para a “des-graça” do pecado! Deus, o Pai, pode dizer de ti: “Como és bela, minha amada, como és bela! És toda bela, minha amada, e não tens um só defeito!” (Ct 4,1.7).

Desde a antiguidade, os Santos Padres e Doutores da Igreja, contemplando este mistério tão grande, chamam a Virgem de “Toda Santa”! Toda Santa, toda inundada da graça que Deus nos dá em Cristo, toda santificada pela santidade de Cristo Jesus! Por isso, a Missa da Imaculada começa com as palavras de Isaías, colocadas pela Virgem Igreja na boca da Virgem Maria: “Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas jóias!” (Is 61,10).

A Imaculada! Que sonho! A Virgem Santíssima é imagem viva, sonho vivo, testemunho fiel daquilo que Cristo realiza em nós, pobre e frágil humanidade: Aquele que preservou sua Mãe do pecado, do pecado miserável nos arranca; Aquele que fez de sua Mãe a Primeira Redimida, primeira a ser salva (só Jesus salva, e salvou sua Mãe de modo admirável!), salva toda a humanidade e tira o pecado do mundo!

Maria, a Virgem! Maria, a Imaculada! Sonho lindo de Deus, sonho lindo do que deve ser a humanidade! A Imaculada! Quando a gente vê o mundo ferido, a humanidade angustiada, meio perdida... quando ligamos a televisão e vemos a violência dos traficantes, os descaminhos de tantos jovens, a terrível solidão no seio das famílias... quando vemos tanta feiúra: a guerra, a fome, a injustiça, as crises, a solidão, a morte... quando a gente vê tudo isso... e pensa na Imaculada (beleza, candura, pureza, paz, ternura, sorriso e encanto de Deus), então, tem a certeza que esse mundo tem jeito, que Deus não esquece de nós e, de tal modo nos purifica pelo seu Filho, que seremos todos imaculados (cf. Ef 1,4).

Maria, a Virgem, a Imaculada desde a concepção! Pensar em ti é tomar novo respiro e crer que Deus pode fazer em nós maravilhas: pode nos renovar, pode revigorar este mundo cansado e purificar sempre de novo nosso coração manchado... Imaculada: beleza de Deus, ternura de Deus, maravilha de Deus, sorriso de Deus, sonho lindo de Deus! Imaculada desde a conceição... doce aurora que anuncia o Dia – Jesus Cristo, nosso Deus, Aquele que celebraremos no Natal e acolheremos na Glória!

Imaculada! Hoje e sempre, Imaculada! Encantadoramente, Imaculada!


Dom Henrique Soares da Costa
Bispo Titular de Acúfica e Auxiliar de Aracaju


IMACULADA CONCEIÇÃO - Queres saber se Ela é a Virgem Santa?



IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA

SOLENIDADE
08 DE DEZEMBRO


Queres saber se Ela é a Virgem Santa?


São Filipe Néri era, freqüentemente, consultado pelos Bispos para o reconhecimento da autenticidade dos místicos. A prática da humildade e da obediência permitia-lhe testar com infalibilidade os falsos místicos, pois o demônio é orgulhoso e independente. Num dia, do ano de 1560, os Cardeais estavam divididos quanto à veracidade das visões de uma religiosa. Solicitaram, então, a opinião de Felipe. Ao vê-la chegar, ele a olhou calorosamente, e disse-lhe:

-Mas, não é a senhora que desejo ver; desejo ver a santa!
-Mas eu sou a santa, Padre!
-Ah! A senhora é a santa? Obrigado.
Ele virou-se para os Cardeais e disse:
-Isto não vem de Deus...

Noutra ocasião, um de seus penitentes confiou-lhe que a Virgem Santa costumava visitá-lo à noite, em seu quarto, e que isto o deixava pleno de alegria e de luz! Então, Felipe lhe disse:

-Ouça, a próxima vez que ela vier, cuspa-lhe no rosto.

Na noite seguinte, a aparição surgiu e lhe falou sobre Deus. Lembrando-se, porém, da promessa que fizera a seu Diretor espiritual, o rapaz começou a cuspir no rosto da visão. Esta desapareceu, imediatamente, envolta em uma nuvem de enxofre.

Na mesma noite, ele despertou e viu o quarto cheio de luz, com uma nova aparição a lhe sorrir. Desta vez, ela não estava sentada na cama, mas encontrava-se mais afastada e, como o jovem tencionava cuspir, novamente, a visão lhe disse:

-Pode cuspir, se você quiser.

Ele não conseguiu atingi-la porque ela não estava perto dele, mas a figura o felicitou porque ele havia obedecido a seu diretor espiritual.

Disse-lhe, então, o Padre Felipe Néri:

-Efetivamente, é a Virgem Maria!


São Felipe Neri
Trecho de L´Etoile Notre Dame nº 148

domingo, 6 de dezembro de 2009

ADVENTO – 2º DOMINGO – SENHOR, VINDE À MINHA ALMA!




DOMINGO II DO ADVENTO


SENHOR, VINDE À MINHA ALMA!

“Tendo eu consciência dos meus pecados, de que me adianta, Senhor, que venhais, se não vierdes à minha alma, se não voltardes ao meu espírito, se Vós, ó Cristo, não viveis em mim e não falais comigo? É a mim que deveis vir, é por mim que deverá realizar-se o vosso Advento. O vosso segundo Advento, Senhor, acontecerá no fim do mundo, quando pudermos dizer: ‘O mundo está crucificado para mim e eu para o mundo’.

Fazei, ó Senhor, que no fim do mundo, eu me encontre tal como será minha vida no céu. Então, para mim, realizar-se-á a presença da sabedoria, a presença da virtude, da justiça e da redenção. De fato Vós, ó Cristo, morrestes uma só vez pelos pecados do povo, a fim de resgatar, cada dia, o povo dos seus pecados”.


Santo Ambrósio
Comentário ao Evangelho de S.Lucas, X, 7-8


ADVENTO – 2º DOMINGO – Convosco, ó Deus, alegro-me e regozijo-me!




DOMINGO II DO ADVENTO


Convosco, ó Deus, alegro-me e regozijo-me!

“Eia, pois, ó alma formosíssima entre todas as criaturas, que tanto desejas saber o lugar onde está teu Amado, a fim de o buscares e a Ele te unires! Já te foi dito que és tu mesma o aposento onde Ele mora e o recôndito e esconderijo em que se oculta. Nisso tenho motivo de grande contentamento e alegria, vendo que todo o meu Bem e esperança se encontram tão perto de mim, a ponto de estar dentro de mim, ou, melhor dizendo, não posso estar sem Ele.

Que mais há de querer, ou buscar fora de mim, se tenho dentro de mim, minhas riquezas e meus deleites, minha satisfação, meu reino, isto é, meu Amado a quem desejo ardentemente? Convosco, ó meu Deus, alegro-me e me regozijo no meu recolhimento interior! Aqui vos desejo, adoro-vos, sem ir procurar-vos fora de mim, porque me distrairei, me cansarei, sem poder encontrar-vos nem gozar com maior segurança, nem mais depressa, nem mais perto do que dentro de mim”.


São João da Cruz
Cântico 1, 7-8

ADVENTO – 2º DOMINGO – Fica conosco, Senhor!




DOMINGO II DO ADVENTO


Fica conosco, Senhor!

“Ficai conosco, Senhor, porque chega a noite. Estou na noite do pecado e a luz da salvação só pode vir de Vós. Ficai, Senhor, comigo, porque sou pecador e estou desanimado ao ver tantas imperfeições que, a toda hora e a todo instante, continuamente cometo diante de Vós. Vós estais em mim; e diante de Vós, em Vós, da manhã à noite, a cada momento, cometo imperfeições.

Foi uma das coisas que contribuíram, por muito tempo, a impedir-me de procurar-vos em mim mesmo para adorar-vos e para pôr-me aos vossos pés. Faltava-me a coragem, ao perceber-vos tão dentro de mim, tão junto de minhas misérias, tão junto de minhas inumeráveis imperfeições”.


Beato Charles de Foucauld
Sulle feste dell’anno, Op. Sp., p.311

ADVENTO – 2º DOMINGO – Vejam-te meus olhos!



DOMINGO II DO ADVENTO


Vejam-te meus olhos!

Jesus bendito, minha esperança, meu desejo, meu amor, tenho uma coisa para te dizer, uma coisa a teu respeito, um assunto cheio de dor e de miséria.

Tu que és o Verbo, Unigênito do Pai que não foi gerado, tornado carne por mim, Palavra saída do coração do Pai, Palavra que Deus proferiu uma só vez (cf. Hb 9,26), Palavra pela qual «nos últimos dias» (Hb 1,2) o teu Pai celeste me falou, digna-te escutar, Tu, ó Palavra de Deus, a palavra que desejos abundantes fazem sair do meu coração!

Escuta e vê: a minha alma fica triste e toda perturbada quando me dizem cada dia: «Onde está o teu Deus?» (Sl 41,4). Não tenho nada a responder, receio que não estejas aí, não sinto a tua presença.

O meu coração arde, desejo ver o meu Senhor. Onde estão, na verdade, a minha paciência e a minha constância? És Tu o Senhor meu Deus e, eu, o que vou fazer? Procuro-te e não te encontro; desejo-te e não te vejo; corro atrás de ti e não te agarro. Qual é a minha força, para que possa suportar?Até onde posso resistir? Há alguma coisa mais triste do que a minha alma? Algo mais miserável? Algo mais provado? Acreditas, meu Amor, que a minha tristeza se mudará em alegria quando te vir (Jo 16,20)?...

«Fala, Senhor, que o teu servo escuta» (1Sm 3,9). Que eu possa escutar o que Tu dizes em mim, Senhor meu Deus. Dize à minha alma: «Sou a tua salvação!» (Sl 84,9; 34,3) Dize mais, Senhor, e fala de forma a que eu te ouça: «Meu filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu» (Lc 15,31). Ah! Verbo de Deus Pai! é isso que eu queria ouvir.


Hildebrando, Monge Cisterciense do século XIII
“Opúsculo Sobre a Contemplação”

ADVENTO – 2º DOMINGO – O Filho do Homem vem à nossa procura



DOMINGO II DO ADVENTO


O Filho do Homem vem à nossa procura

“Imaginai a desolação de um pobre pastor cuja ovelha se tresmalhou. Em todos os campos vizinhos só ouve a voz dessa infeliz que, tendo abandonado o grosso do rebanho, corre nas florestas e pelas colinas, passa pelas partes mais densas dos bosques e pelos silvados, lamentando-se e gritando com todas as forças e não podendo resolver-se a voltar sem ter encontrado a sua ovelha e a ter trazido para o redil.

Aqui está o que o Filho de Deus fez assim que os homens se desviaram pela sua desobediência à direção do seu Criador. Ele desceu à terra e não rejeitou nem cuidados nem fadigas para nos restabelecer no estado de que tínhamos decaído. É o que Ele faz ainda todos os dias com aqueles que se afastaram Dele pelo pecado. Ele segue-os, por assim dizer, não cessando de os chamar até que os tenha reposto no caminho da salvação. E seguramente, se não fizesse isso, vós sabeis o que seria feito de nós depois do primeiro pecado mortal: ser-nos-ia impossível retornar. É preciso que seja Ele a fazer tudo primeiro, que nos dê a sua graça, que nos procure, que nos convide a termos piedade de nós mesmos, sem o que não sonharíamos nunca em pedir-lhe misericórdia.

O ardor com que Deus nos procura é sem dúvida um efeito de uma enorme misericórdia. Mas a doçura que acompanha este zelo indica uma bondade ainda mais admirável. Não obstante o desejo extremo que Ele tem de nos fazer voltar, nunca usa de violência, não usa para isso senão os caminhos da doçura. Em toda a história do Evangelho não vejo nenhum pecador que tenha sido convidado à penitência a não ser por ternura e por benefícios”.


São Cláudio de la Colombière
Dos Sermões

ADVENTO – 2º DOMINGO – Um desígnio de amor



DOMINGO II DO ADVENTO


Um desígnio de amor

“Nenhum homem viu a Deus nem o conheceu, mas Ele mesmo se manifestou. Manifestou-se pela fé, pois só a ela é concedida a visão de Deus. O Senhor e Criador do universo, Deus, que fez todas as coisas e as dispôs em ordem, não só amou os homens, mas também foi paciente com eles. Deus sempre foi, é e será o mesmo: benigno e bom, isento de ira, veraz; só Ele é bom. E quando concebeu seu grande e inefável desígnio, só o comunicou a seu Filho.

Enquanto mantinha oculto e em reserva seu plano de sabedoria, parecia abandonar-nos e esquecer-se de nós. Mas, quando revelou por seu Filho amado e manifestou o que havia preparado desde o princípio, ofereceu-nos tudo ao mesmo tempo: participar de seus benefícios, ver e compreender. Quem de nós poderia jamais esperar tamanha generosidade?

Tendo Deus, portanto, tudo disposto em Si mesmo com o seu Filho, deixou-nos, até estes últimos tempos, seguir nossos impulsos desordenados, desviados do caminho reto pelos maus prazeres e paixões. Não que Ele tivesse algum gosto com nossos pecados; tolerando-os, não aprovava aquele tempo de iniqüidade, mas preparava este tempo de justiça.

Assim, convencidos de termos sido, naquele período, indignos da vida em razão de nossas obras, tornemo-nos agora dignos dela pela bondade de Deus. E depois de mostrar nossa incapacidade de entrar pelas próprias forças no Reino de Deus, nos tornemos capazes disso pelo poder divino”.


Epístola a Diogneto, 8
Texto do século III

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

ADVENTO – Chiara Lubich: acima de tudo, revesti-vos do amor



Acima de tudo, revesti-vos do amor

«Mas, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição.»

Estas palavras são decisivas para a nossa vida e o nosso testemunho no mundo. Para explicar a conduta do cristão, Paulo gosta muito de empregar a imagem das vestes que o seguidor de Cristo deve usar. E também aqui, na Carta aos Colossenses, ele compara as virtudes, que devem tomar lugar no nosso coração, a muitas peças de roupa. São elas: a misericórdia, a bondade, a humildade, a mansidão, a paciência, o suportar, o perdão.

Mas, "acima de tudo, revesti-vos do amor" - afirma Paulo, quase que imaginando o amor como uma cintura que une tudo e dá um perfeito caimento ao vestuário. Portanto, é necessário o amor porque para um cristão não basta ser bom, misericordioso, humilde, manso, paciente... Ele deve amar os irmãos e as irmãs.

Mas alguém poderá questionar: amar não é, por acaso, ser bons, misericordiosos, pacientes, saber perdoar? Sim, mas não é só isso.

O amor foi-nos ensinado por Jesus e amar consiste em dar a vida pelos outros. O ódio tira a vida dos outros ("quem odeia é homicida"), o amor lhes dá a vida. Somente morrendo a si mesmo pelos outros é que cada cristão possui o amor. E se ele tem o amor - diz Paulo -, será perfeito, e todas as suas demais virtudes alcançarão a perfeição.

«Mas, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição.»

Certamente alguns de nós podem ter uma boa disposição para com os irmãos e as irmãs, perdoando e suportando. Mas, se observarmos bem, aquilo que frequentemente nos falta pode ser justamente o amor. Mesmo com as mais santas intenções, a natureza nos leva a nos fecharmos em nós mesmos e, conseqüentemente, quando amamos os outros, usamos meias medidas.

Porém não somos cristãos se agirmos unicamente assim. É preciso elevar o nosso coração à tensão máxima. Diante de cada próximo que encontramos durante o dia (na família, no trabalho, em toda parte), devemos dizer a nós mesmos: "Coragem, responda a Deus; é o momento de amar, com um amor tão grande que põe em jogo também a vida".

«Mas, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo de perfeição.»

Esta Palavra do Apóstolo convida-nos, portanto, a examinar até que ponto nossa vida cristã é animada pelo amor, o qual, como vínculo de perfeição, é a ligação que nos leva à mais alta unidade com Deus e entre nós.

Agradeçamos, então, ao Senhor por ter derramado em nossos corações o seu amor, que nos torna sempre mais capazes de escutar, de identificar-nos com os problemas e com as preocupações dos nossos próximos; de partilhar com eles o pão, as alegrias e as dores; de derrubar certas barreiras, que ainda nos dividem; de deixar de lado certas atitudes de orgulho, de rivalidade, de inveja, de ressentimento por eventuais ofensas recebidas; de superar a terrível tendência à crítica negativa; de sair do nosso isolamento egoísta para colocar-nos à disposição de quem está em necessidade ou na solidão; de construir, por toda parte, a unidade que Jesus deseja.

É esta a contribuição que nós, cristãos, podemos dar à paz mundial e à fraternidade entre os povos, especialmente nos momentos mais trágicos da história.


Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares
Palavra de vida, Dez de 2001

ADVENTO – Chiara Lubich: Esforçar-nos para entrar pela porta estreita



Esforçar-nos para entrar pela porta estreita

«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir» (Lc 13, 24)

Várias vezes, Jesus comparou o Paraíso a uma festa de casamento, a uma reunião de família à volta da mesa. De fato, na nossa experiência humana, são estes os melhores momentos e os mais serenos. Mas quantos entrarão no Paraíso, quantos se sentarão na “sala do banquete”?

É a pergunta que, um dia, alguém dirige a Jesus: “Senhor, são poucos os que se salvam?”. Como já tinha feito outras vezes, Jesus vai para além da discussão e coloca cada um diante da decisão que deve tomar. Convida-o a entrar na casa de Deus.

Mas isso não é fácil. A porta para entrar é estreita e fica aberta por pouco tempo. Na verdade, para seguir Jesus é necessário renegar-se, renunciar – pelo menos espiritualmente – a si mesmo, às coisas, às pessoas. Mais ainda: é preciso pegar na cruz, como Ele fez. Um caminho difícil, sem dúvida, mas que todos – com a graça de Deus – podem percorrer.

«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

É mais fácil entrar pela “porta larga” e pelo “caminho espaçoso” de que Jesus fala noutro lugar, mas esse caminho pode conduzir à “perdição”. Neste nosso mundo secularizado, saturado de materialismo, de consumismo, de hedonismo, de vaidades, de violência, tudo parece ser permitido. Tende-se a satisfazer todas as exigências, a ceder a todos os compromissos para atingir a felicidade.

Mas nós sabemos que só se obtém a verdadeira felicidade amando. E também que a renúncia é a condição necessária para o amor. É preciso sermos podados para dar bons frutos. É preciso morrermos a nós mesmos para viver. É a lei de Jesus, um Seu paradoxo. A mentalidade corrente invade-nos como a enchente de um rio e nós devemos ir contra a corrente: saber renunciar, por exemplo, à avidez de possuir, à rivalidade preconcebida, à difamação do adversário. Mas também realizar o nosso trabalho com honestidade e generosidade, sem lesar os interesses dos outros. Saber discernir aquilo que se pode ver na televisão ou aquilo que se pode ler, etc.

«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

Para quem se deixa levar por uma vida fácil e não tem a coragem de enfrentar o caminho proposto por Jesus, abre-se um futuro triste. Também isto é mencionado no Evangelho. Jesus fala-nos do sofrimento daqueles que serão deixados de fora. Não bastará vangloriarmo-nos de pertencer a uma certa religião ou contentarmo-nos com um cristianismo de tradição. É inútil dizermos: “Comemos e bebemos contigo...”. A salvação é, antes de mais, uma dádiva de Deus, mas que cada um deve conquistar com esforço.

Será duro ouvir dizer: “(Não vos conheço), não sei de onde sois”. Será solidão, desespero, absoluta falta de relacionamentos, o desgosto enorme de ter tido a possibilidade de amar e de já não poder amar. Um tormento do qual não se vê o fim porque nunca terá fim: “pranto e ranger de dentes”.

Jesus avisa-nos porque deseja o nosso bem. Não é Ele que fecha a porta. Somos nós que nos fechamos ao Seu amor. Ele respeita a nossa liberdade.

«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

Se a porta larga conduz à perdição, a porta estreita abre-se de par em par à verdadeira felicidade. Depois de cada Inverno desponta a Primavera. Sim, devemos viver com prontidão a renúncia que o Evangelho exige, pegar todos os dias na nossa cruz. Se soubermos sofrer com amor, em unidade com Jesus que assumiu todas as nossas dores, experimentaremos um paraíso antecipado.

Foi assim também para Roberto, quando esteve na última audiência do processo contra quem tinha causado a morte do pai, quatro anos antes. Depois da sentença de condenação, o autor do atropelamento, juntamente com a mulher e o pai, mostrava-se muito deprimido. “Gostaria de me aproximar daquele homem, vencendo o orgulho que me dizia que não; fazer-lhe sentir que estava com ele”.

Mas a irmã disse-lhe: “São eles que nos devem pedir desculpa...”. Roberto convence-a e, juntos, vão ter com a família “adversária”: “Se isto puder aliviar o vosso espírito, saibam que não temos nenhum rancor para convosco”. Apertam as mãos uns dos outros com força. “Sinto-me invadido pela felicidade: soube aproveitar a ocasião para olhar para o sofrimento dos outros, esquecendo o meu”.


Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares
Palavra de vida, Ago de 2004