sábado, 22 de agosto de 2009

PORQUE A SANTIDADE É AMOR - Parte I



Parte I

«Sem mim nada podeis fazer» (Jo 15,5b)


A todos os homens Nosso Senhor dirige estas palavras: « Sem Mim nada podeis fazer » - mas de uma forma muito particular a quantos trabalham na própria santificação.

Na ordem natural, o homem pode agir sem Deus, quer dizer, sem Sua graça e Seu amor, embora jamais sem Seu concurso. Mas na ordem sobrenatural sua impotência é absoluta! Nada, absolutamente nada que seja proveitoso para sua alma e meritório para a vida eterna pode fazer a criatura sem que Deus, com Sua graça, esteja agindo com ela. Como nos assegura o Apóstolo S. Paulo « nem mesmo podemos, pronunciar devidamente o nome do Senhor Jesus, nem conceber sequer um bom pensamento ».

O homem é limitado em todas as coisas; não pode conseguir tudo o que pretende nem fazer tudo o que quer. Necessita sempre de algo ou de alguém em suas empresas. Às vezes isso lhe parece muito pesado e por isso gostaria de livrar-se do jugo de sua impotência. Sofre, se aborrece e se desgosta por ter de submeter-se a essa lei que se opõe à sua altivez e à sua soberba.

Mas quão distintamente pensa e sente a alma humilde que busca a santidade! Isso mesmo que para o homem orgulhoso é tão pesado e aborrecido, para ela é o mais doce dos consolos, por ser uma prenda do divino Amor.

A alma que deveras quer e busca a santidade « já tem algo do que busca » – nos diz Santo Agostinho. Ela já possui a graça santificante, o mais precioso de todos os bens, graça que é a « prenda ou o germe » da felicidade eterna. Por ela, participamos da própria natureza divina (cf. 2Pd 1,3-5). Buscando com a santidade ao Deus da santidade e doador de todo o bem, a alma procurará aumentar este tesouro incessantemente.

A GRAÇA ATUAL – Mas para isto a alma necessita, a cada instante, de outra graça: que Deus esteja agindo nela. Pois « sem Ele a alma nada pode fazer ». Doce e preciosa necessidade que nos obriga, para podermos amá-la ainda mais! Para viver na região do sobrenatural é mister, além da « graça santificante » – que nos dá todo o mecanismo da vida sobrenatural – a graça « atual » que põe esse mecanismo em movimento. É luz que Deus comunica à alma, em cada caso, para iluminar suas trevas, impulso que ele imprime à vontade para movê-la até que se torne ação. Essa graça « atual » é uma participação do próprio poder de Deus para que possamos ir chegando à perfeita semelhança com Ele, de modo que a alma assim em graça possa dizer que começa a « deificar-se » na terra; e o santo chega à deificação ou semelhança acabada no céu, quando todos nós seremos semelhantes a Ele (cf. Jo 3,2).

E como Deus é todo amor - « Deus charitas est » - a santidade consiste em deixar que Deus aja em nós e nós fiquemos, ao fim, como que transformados n’Ele. Eis por que « a santidade é amor ». Porque todos seus atos, mesmo os mais insignificantes, implicam certo trato amoroso com Deus, uma especial relação de intimidade com Ele, já que unicamente Ele é quem pode dar valor e mérito ao que fazemos.

J. Pastor
“La Santidad es amor”
Libro I, pp.16-17

(Continua)

PORQUE A SANTIDADE É AMOR - Parte II



Parte II

«Sem mim nada podeis fazer» (Jo 15,5b)


A criatura sozinha – mesmo depois de elevada à vida da graça –, sem uma nova graça « atual » em cada caso ou situação, nada pode fazer além dos limites do natural. E isto não é suficiente para santificar-nos. Deus, mandando-nos « ser santos e fazer sempre obras dignas da vida eterna », de certo modo obrigou-Se a vir Ele mesmo cumprir esses atos em nós, a unir-se à nossa débil vontade para mantê-la firme em seus propósitos. Deus obrigou-Se a nos dar força para que possamos ir adiante, sem desfalecer sob o peso de nossa fraqueza e nas lutas que temos de sustentar contra tantos inimigos.

Já pensaste, tu que desejas e buscas a santidade e que procuras fazer tudo por Deus, que enquanto estás fazendo isso - ou mesmo quando tão somente o pensas e o desejas - que Deus está contigo de um modo especial para dar-te Sua graça e se inclina para ti para que por Ele possas querer, desejar e executar tudo isso? Não o duvides, alma que suspiras pela santidade: quantas vezes sinceramente desejas a Deus ou praticas um ato bom, Deus está contigo, e te dá como um acréscimo de Si mesmo, cumprindo tudo em ti - « Cumpre tudo em todos » (Ef. 1,23).

Quando desejas mortificar-te ou quando tu modificas as tuas inclinações ou satisfações naturais, quando sofres, quando te imolas e calas, quando te sacrificas pelo bem dos outros ou padeces perseguições, oferecendo tudo ao Senhor; quando, por outra parte, recebes os sacramentos, procuras cumprir bem teus deveres, quando te humilhas e te arrependes depois de uma falta e continuas adiante, sem desanimar nem perder a paz; quando procuras que outros façam o mesmo, não só esses bons atos em si, mas também outros atos indiferentes como o falar, o recrear-se, o comer, o dormir etc.; se cuidas de purificar tua intenção, despojando-te do olhar humano e de todo interesse pessoal e buscas só a vontade de Deus e Sua glória, todos esses atos são sobrenaturais, pertencem àquela região onde sozinho tu não podes subir. O Senhor teve de vir em tua ajuda com uma graça « atual ». Assim, deves sempre invocar o auxílio divino com o olhar interior de tua alma voltado para Deus, purificando a intenção. Ao fazer apenas isto, obrigamos o paternal amor de Deus a inclinar-se para nós, suas pobres criaturas, a colher-nos em Seus braços, a elevar-nos acima do puramente natural e comunicar-nos algo de Seu ser divino, de Sua grandeza, de Seu poder, de Sua perfeição, de Sua luz e formosura. Quanto mais continuados e cumpridos com generoso amor sejam estes atos, a união com Deus se fará também mais íntima e habitual. Todos os homens estamos na presença de Deus, mas a alma não se aproxima d’Ele senão em proporção aos progressos que faz na caridade.

«NÃO TEMAIS» - Também se vê quão equivocadas andam tantas pobres almas que pensam que a santidade somente pode ser conseguida à força dos braços, com uma luta sem trégua nem descanso. Não! O Senhor, como Pai terno que é, não exige tanto; conhece nossa debilidade e por isso no Santo Evangelho não faz mais que repetir-nos a cada momento: « tende confiança »..., « não temais ». E ao fim de sua vida, para afiançar-nos ainda mais na confiança e assegurar-nos de Sua ajuda e proteção, acrescenta: « Eu estarei convosco » (Mt 18,20). Não deveis temer. Ficarei convosco para ajudar-vos, quando me chamardes, no trabalho de vossa santificação. E não só para ajudar-vos, mas também para vir, Eu mesmo, a vós pela Eucaristia, para levar a cabo essa grande obra que nunca conseguiríeis concluir sem Mim.

J. Pastor
“La Santidad es amor”
Libro I, pp.16-17

(Continua)

PORQUE A SANTIDADE É AMOR - Parte III



Parte III

«Sem mim nada podeis fazer» (Jo 15,5b)


A alma que ama a Deus pode, se quer, sempre, em tudo o que faz, diz e pensa, fazer com que Deus se una mais a ela, gozar de Seus abraços, do carinho de seu Deus. O Senhor, satisfeito do amor de Sua amada, sente-se como impelido e obrigado por esses pequenos cuidados e desejo de comprazer-se, inclinar para ela, estreitá-la contra Seu peito, infundir-lhe Seu amor e depois tomar assento estável em sua alma: « Nele estabeleceremos morada » (Jo 14,23b). Tudo isso – nos consola repeti-lo – é produzido apenas por um só ato sobrenatural, ainda que o menor, com maior ou menor eficácia, proporcional não ao mérito especial das obras, mas à força com as quais a intensidade do amor as eleva às alturas.

Assim, a santidade é toda obra de amor. « O bem sobrenatural de um só indivíduo supera o bem natural de todo o universo ». Supõe mais amor... A razão é clara: quando a criatura vive e age sobrenaturalmente, está unida a Deus, que lhe comunica algo de Seu divino ser e poder, e Ele mesmo age nela: « Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim » (Gl 2,20). « Não eu, mas a graça de Deus que está comigo » (1Cor 15, 10).

Mas para isto é necessário que nossas obras tenham sempre algo de seiva da divina videira, Jesus, nosso Salvador, ao Qual, como « ramos », estamos unidos. Quando o profeta Davi pronunciou aquela enfática expressão: « Eu declarei: vós sois deuses » (Sl 82[81], 6), certamente deve ter visto os homens sob o influxo da graça divina que os transforma e os possibilita « assimilar ao seu Criador ».

Quem poderia dizer quantos mistérios de amor encerra a graça que nos deifica! É necessária toda uma eternidade para agradecê-los... Se agora o compreendêssemos, morreríamos oprimidos sob o peso de tanto amor de nosso Deus para conosco.

« EU SOU A VIDEIRA E VÓS OS RAMOS » - Repete-me, Senhor, sem cessar, estas palavras que tanto me consolam: « sem mim nada podereis fazer ». Que gozo encontra minha alma em pensar que quando pratico o bem Tu estás sempre comigo para dar-lhe a vida, a eficácia, o valor! Assim facilmente me convenço de como pode sair algo de bom deste ser miserável e enfermo. Porque és Tu, centro de minha vida, Quem comunica algo de Tua vida divina e lhe dás o vigor, o movimento. Agora entendo por que algumas vezes seres pobres e débeis terem podido realizar coisas grandes, capazes de encher de assombro aos que não podiam entender a causa - por não saberem ir além dos limites naturais nos quais sustentavam toda sua grandeza e fortaleza.

Entendo por que tantas almas chegaram aos suplícios e à morte tão felizes; por que tantos jovens na flor de seus anos se entregam a uma vida de penitência e, renunciando ao mundo e aos prazeres que o mundo lhes oferece, perseveram até à morte lutando e triunfando generosamente contra as paixões e o pecado.

O mistério de todos estes prodígios é que Deus mora neles e os sustenta com a força sobrenatural de Sua graça: « Eu sou a videira e vós os ramos » (Jo 15,5), disse Jesus. Que união mais íntima podemos imaginar de Deus com nossa alma? Esta união supõe « certa comunicação de natureza » ¸ porque o tronco e os ramos formam uma só planta e recebem a mesma seiva das raízes. É preciso que a influência divina se difunda na alma para que possa conservar e aumentar suas energias e agir sobrenaturalmente.

J. Pastor
“La Santidad es amor”
Libro I, pp.16-17

(Continua)

PORQUE A SANTIDADE É AMOR - Parte IV



Parte IV

«Sem mim nada podeis fazer» (Jo 15,5b)


Quem, senão Ele, sustentou de pé, sem desfalecer, junto à Cruz do Filho moribundo, a mais terna de todas as mães, sem sentimentos de vingança ou de queixa contra os verdugos ou contra o céu? Não era, acaso, Maria uma criatura? Sim. Mas a união tão íntima e perfeitíssima que tinha com a Videira, da qual Ela também era um « ramo », e a perfeição e plenitude com que recebia Sua seiva, eram sua força – e podia dizer: « Para mim, a vida é Cristo » (Fl 1,21). « A mesma força que sustentava o Filho na Cruz sustentava a Mãe ao pé da Cruz », tranqüila e serena em sua profunda desolação.

« Sem mim nada podeis fazer! » Isto é o que eu quero, Senhor: não poder fazer nada senão contigo. Ter que fazer tudo unido a Ti, para que assim a glória de tudo o que faço seja só Tua, eterna origem de onde todo bem procede. « Sem mim nada podeis fazer! ». Logo, tudo o que os homens fazem sem Deus, embora aparente ser algo, ser grande, é um « nada », pois assim o chama a Eterna Verdade. Não há dúvida. Um « nada » é tudo o que o homem consegue fazer sem seu Deus, todas as obras puramente naturais - ainda que não sejam más - nas quais Deus não tem outra parte além do Seu concurso indispensável como Criador e conservador, independente da vontade da criatura, que às vezes direta ou indiretamente queria ainda subtrair-Lhe, como se isto lhe fosse possível.

Ao contrário, a alma que busca sua santificação se alegra e se oferece com rendida entrega a essa vontade suprema de Deus, pela qual unicamente é movida e quer agir, inclinando, desse modo, o próprio Deus a tomar parte de seu trabalho pela ação « graça atual », fazendo-o sobrenatural e meritório.

A santidade é amor e é obra de amor, que supõe e reclama sempre amor. Amor grande, terno, da parte de Deus, havendo-se Ele mesmo obrigado a realizá-la nas almas que se submetem ao domínio do Seu amor. Amor também da parte da alma, pois este delicioso « render-se » ao amoroso império de seu Deus em tudo o que faz não é outra coisa senão um movimento produzido pelo Amor na alma, Amor que a lança ao mundo sobrenatural onde a « santidade » se realiza.

J. Pastor
“La Santidad es amor”
Libro I, pp.16-17

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

SÃO BERNARDO DE CLARAVAL - Amo porque amo!



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

Hoje é memória litúrgica do grande Bernardo de Claraval, Abade cisterciense, Doutor da Igreja. Apaixonado pelo Cristo, devotíssimo da Virgem Maria, filho fidelíssimo da Igreja, mestre nas Sagradas Escrituras, monge exemplar! Bernardo é conhecido como Doutor Melífluo, pois seu coração e suas palavras são doces como o mel. O seu Comentário ao Cântico dos Cânticos, é puro mel... Mel que vem da doçura do coração de Deus!

D.Henrique Soares da Costa


“O amor basta-se a si mesmo, em si e por sua causa encontra satisfação. É seu mérito, seu próprio prêmio. Além de si mesmo, o amor não exige motivo nem fruto. Seu fruto é o próprio ato de amar. Amo porque amo, amo para amar!

Grande coisa é o amor, contanto que vá a seu Princípio, volte à sua Origem, mergulhe em sua Fonte, sempre beba donde corre sem cassar.

De todos os movimentos da alma, sentidos e afeições, o amor é o único com que pode a criatura, embora não condignamente, responder ao Criador e, por sua vez, dar-lhe outro tanto. Pois quando Deus ama não quer outra coisa senão ser amado, já que ama para ser amado; porque sabe que serão felizes pelo amor aqueles que o amarem.

O amor do Esposo, ou melhor, o Esposo-amor somente procura a resposta do amor e a fidelidade. Seja permitido à amada responder ao Amor! Por que a esposa - e esposa do Amor – não deveria amar? Por que não seria amado o Amor?

É justo que, renunciando a todos os outros sentimentos, única e totalmente se entregue ao amor, aquela que há de corresponder a ele, pagando amor com amor. Pois mesmo que se esgote toda no amor, que é isto diante da perene corrente do amor do outro?

Certamente não corre com igual abundância o caudal do amante e do Amor, da alma e do Verbo, da esposa e do Esposo, do Criador e da criatura; há entre eles mesma diferença que entre o sedento e a fonte.

E então? Desaparecerá por isto e se esvaziará de todo a promessa da desposada, o desejo que suspira, o ardor da que a ama, a confiança da que ousa, já que não pode de igual para igual correr com o gigante, rivalizar a doçura com o mel, a brandura com o cordeiro, a alvura com o lírio, a claridade com o sol, a caridade com aquele que é a caridade?

Não. Mesmo amando menos, por ser menor, se a criatura amar com tudo o que é, haverá de dar tudo. Por esta razão, amar assim é unir-se em matrimônio, porque não pode amar deste modo e ser menos amada, de sorte que no consenso dos dois haja íntegro e perfeito casamento. A não ser que alguém duvide ser amado primeiro e muito mais pelo Verbo”.


São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor

Sermo 83, 4-6 in Opera Omnia

(Editiones Cistercienses 2, 300-302)

SÃO BERNARDO - Se eu não tiver a caridade, nada sou



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

Se eu não tiver a caridade, nada sou


“Eu e o Pai, diz o Filho, «viremos a ele», isto é, ao homem santo, «e faremos nele a nossa morada» (Jo 14, 23). A ele, isto é, ao homem santo. Penso que também o Profeta não falou de outro céu quando disse: «Vós habitais na morada santa, ó louvor de Israel» (cf. Sl 21, 4: Vulgata). E o Apóstolo afirma claramente: «Cristo habita em vossos corações, pela fé» (Ef 3, 17).

Não é de admirar que o Senhor Jesus tenha prazer em habitar nesse céu. Para criá-lo, ele não disse simplesmente: «Faça-se», como às demais criaturas. Mas lutou para conquistá-lo, morreu para redimi-lo. Por isso, depois de ter sofrido, afirmou com mais ardor: «Eis o lugar do meu repouso para sempre, eu fico aqui: este é o lugar que preferi» (Sl 131 [132], 14). Feliz da alma à qual se diz: «Vem, minha amada; colocarei em ti o meu trono» (cf. Ct 2, 10.13: Vulgata).

«Por que, agora, te entristeces, ó minh’alma, e gemes no meu peito?» (Sl 41 [42], 6). Pensas que também em ti não poderás encontrar um lugar para o Senhor? E que lugar em nós será digno de sua glória e suficiente para sua majestade? Quem me dera merecesse pelo menos adorá-lo no lugar em que colocou seus pés! Quem me dera pudesse ao menos agarrar-me no mínimo às pegadas de alguma alma santa que «ele escolheu por sua herança» (Sl 32 [33], 12)! Oxalá ele se digne infundir em minha alma o óleo de sua misericórdia, de modo que também eu possa dizer: «De vossos mandamentos corro a estrada, porque vós me dilatais o coração» (Sl 118 [119], 32). Então poderei, talvez, também eu, mostrar em mim mesmo, se não um grande cenáculo preparado, em que Ele possa sentar-se à mesa com seus discípulos, pelo menos um lugar onde possa reclinar a cabeça.

Depois é necessário que a alma cresça e se dilate, para ser capaz de Deus. Ora, sua medida é seu amor, como diz o Apóstolo: «Dilatai-vos no amor» (cf. 2Cor 6, 13). De fato, embora a alma, sendo espírito, não ocupe uma extensão corporal, contudo a graça lhe concede o que lhe foi negado pela natureza. Cresce e se estende, mas espiritualmente. Cresce e aumenta, até «chegar ao estado de adulto, até chegar à estatura de Cristo em sua plenitude» (Ef 4, 13). Cresce até se tornar «um templo santo no Senhor» (Ef 2, 21).

Calcule-se, pois, a grandeza de cada alma pela medida de sua caridade: a que tem muita é grande, a que tem pouca é pequena, a que não tem nenhuma é nada, como diz São Paulo: «Se eu não tiver caridade, nada sou» (1Cor 13, 2)”.


São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Sermo 27, 8-10 in Cantica Canticorum
(Editiones Cistercienses 1, 187-189)

SÃO BERNARDO - Espalhar o perfume da compaixão nos pés de Cristo



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

«Espalhar o perfume da compaixão nos pés de Cristo»

“Já vos falei dos dois perfumes espirituais: o da contrição, que se estende a todos os pecados — é simbolizado pelo perfume que a pecadora espalhou nos pés de Jesus: «toda a casa ficou cheia desse cheiro»; há também o da devoção que consolida todas as mercês de Deus. Mas há um perfume que ultrapassa de longe estes dois; chamar-lhe-ei o perfume da compaixão.

Compõe-se, com efeito, dos tormentos da pobreza, das angústias em que vivem os oprimidos, das inquietudes da tristeza, das faltas dos pecadores, em resumo, de toda a dor dos homens, mesmo dos nossos inimigos. Estes ingredientes parecem indignos e, contudo, o perfume em que entram é superior a todos os outros. É um bálsamo que cura: «Felizes os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia» (Mt 5,7).

Assim, um grande número de misérias reunidas sob um olhar compassivo são as essências preciosas. Feliz a alma que cuidou de aprovisionar estes aromas, de neles espalhar o óleo da compaixão e de os pôr a ferver no fogo da caridade! Quem é, no vosso entender, «o homem feliz que tem piedade e empresta os seus bens» (Sl 111,5), inclinado à compaixão, pronto a socorrer o seu próximo, mais contente com dar do que com receber? Quem é esse homem que perdoa facilmente, resiste à cólera, não permite a vingança, e em todas as coisas olha como suas as desgraças dos outros? Quem quer que seja essa alma impregnada do orvalho da compaixão, de coração transbordante de piedade, que se dá inteira a todos, que não é, ela mesma, senão um vaso rachado onde nada é invejosamente guardado, essa alma, tão morta para si mesma que vive unicamente para os outros, tem a felicidade de possuir esse terceiro perfume que é o melhor. As suas mãos destilam um bálsamo infinitamente precioso (cf. Ct 5,5), que não se esgotará na adversidade e que os lumes da perseguição não conseguirão secar. É que Deus lembrar-se-á sempre dos seus sacrifícios”.

São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Sermones sobre el Cantar de los Cantares, 12
Obras completas, BAC, Madrid, 1987

SÃO BERNARDO - Três amores inevitáveis



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

Dom Bernardo Bonowitz, formado em Letras Clássicas no Columbia College de Nova York, em 1970, é Abade do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente (PR). É conhecido internacionalmente por seus artigos e livros sobre São Bernardo, Thomas Merton e Jean Armand de Rance. É ainda autor de vários livros sobre espiritualidade monástica.

“São Bernardo de Claraval considera que todo ser humano, ao longo de sua vida, se depara com três amores «inevitáveis»: o amor por si mesmo, o amor pelo outro e o amor a Deus. O caminho ascético que unifica esses três amores é um caminho para a construção da identidade pessoal de cada um.

Como um de seus mestres, S. Agostinho, Bernardo sempre viu a realidade como algo pessoal e relacional – poderíamos dizer, ele sempre experimentou o elo com a realidade como um elo de amor. O mundo das coisas, e mesmo o mundo da natureza, interessavam-lhe pouco. O que o cativava era a vivência por parte do ser humano de três amores «inevitáveis». Para Bernardo, há três amores inevitáveis porque há três pessoas com as quais estamos sempre e inescapavelmente em relação: eu mesmo, o outro e Deus. Nenhuma destas relações pode ser sacrificada, nenhuma delas deveria ser preferida à outra. É uma questão de se viver cada uma destas relações na verdade, e, de fato, cada uma destas relações tem um tipo particular de verdade e pede um tipo particular de ascese.

Comecemos com a relação eu-eu, que para S. Bernardo é sempre o ponto de partida. Para ele é claro que todos os nossos relacionamentos são altamente influenciados pela nossa experiência de nós mesmos. Todas as nossas outras experiências pessoais são filtradas através da experiência que temos de nós mesmos. É por isto que uma experiência purificada de si mesmo – uma experiência de nós mesmos na verdade – é tão inestimável. Até que atinjamos a verdade sobre nós mesmos, jamais tocaremos a verdade de nosso próximo, nem a verdade de Deus.

Quais são as práticas que nos levam à verdade de nós mesmos, a ser presentes a nós mesmos «em espírito e verdade»? Há muitos textos nos quais S. Bernardo insta seus monges a praticarem certa austeridade física e muitos aonde ele os encoraja a não se desanimarem por causa dos rigores da vida monástica. Mas de fato, para Bernardo, a ascese que conduz ao encontro com o eu tal como ele genuinamente é, é a «interioridade». Seu conselho mais básico para aqueles que querem «se encontrar» é de fazer tudo para não fugirem de si mesmos. Podemos ver isto como o centro do voto monástico de estabilidade. Alguns monges tem a estabilidade na sua cela (cartuxos), outros no claustro do mosteiro (cistercienses), alguns permanecem na sua comunidade de profissão até a sua morte, e outros vão a qualquer mosteiro da ordem para o qual sejam enviados, mas em todos estes casos, o propósito da estabilidade é o de unir-se a si mesmo.

S. Gregório Magno descreveu famosamente a S. Bento como o homem que «habitavit secum» – que vivia consigo mesmo – e esta não é uma tarefa fácil ou automática. Estar presente a si mesmo normalmente gera desconforto e o desejo de se tirar férias do conhecimento de si mesmo. Entretanto, como já foi dito, o objetivo primeiro de todas as práticas monásticas é a experiência da própria verdade. Concretamente, como chegar lá? Através das práticas de silêncio e solidão, através da leitura de textos sagrados e da oração. Acima de tudo, através da recusa de abandonar a si mesmo através da «curiositas». Cada xeretada desnecessária fora de nós mesmos é uma distração que freia e que torna menos efetivo o processo de se ir ao encontro da própria verdade. Vocês poderiam perguntar: «E o que dizer da minha responsabilidade para com meu próximo e a sociedade?» Nós dois, Bernardos, respondemos em uníssono: «Paciência». Isto fica para mais tarde.

O primeiro motivo pelo qual nos submetemos a uma disciplina e deixamos a distração de lado como estilo de vida é para nos conhecer a nós mesmos como somos – nobres e vis, capazes de tudo (mysterium sanctitatis et iniquitatis) – e de descobrir que este conhecimento é salvífico – porque é o Cristo espelhando-se em todos os cantos de nosso ser interior”.


Dom Bernardo Bonowitz
Abade do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo
Trechos da palestra proferida na PUC-SP em 05 de março de 2009

SÃO BERNARDO - Viremos a ele e nele faremos a nossa morada



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

"Viremos a ele e nele faremos a nossa morada"

"«O Pai e eu, dizia o Filho, viremos a casa dele, quer dizer, a casa do homem que é santo, e iremos morar junto dele». E eu penso que era deste céu que o profeta falava quando dizia: «Tu habitas entre os santos, tu, a glória de Israel» (Sl 21,4 Vulg). E o apóstolo Paulo dizia claramente: «Pela fé, Cristo habita nos nossos corações» (Ef 3,17). Não é, pois, de surpreender que Cristo se deleite em habitar nesse céu. Enquanto que para criar o céu visível lhe bastou falar, para adquirir esse outro teve de lutar, morreu para o resgatar. É por isso que, depois de todos os seus trabalhos, tendo realizado o seu desejo, Ele diz: «Eis o lugar do meu repouso para sempre, é ali a morada que eu tinha escolhido» (Sl 131,14).

Agora, portanto, «por que te desolares, ó minha alma, e gemeres sobre mim?» (Sl 41,6). Pensas que podes também encontrar em ti um lugar para o Senhor? Que lugar em nós é digno de tal glória? Que lugar chegaria para receber a sua majestade? Poderei ao menos adorá-lo nos lugares onde se detiveram os seus passos? Quem me concederá ao menos poder seguir o rastro de uma alma santa «que Ele tenha escolhido para seu domínio»? (Sl 31,12)

Possa Ele dignar-se derramar na minha alma a unção da sua misericórdia, para que também eu seja capaz de dizer: «Corro pelo caminho das tuas vontades, porque alargaste o meu coração» (Sl 118,32). Poderei talvez, também eu, mostrar-lhe em mim, senão «uma grande sala toda preparada, em que Ele possa comer com os seus discípulos» (Mc 14,15), pelo menos «um lugar em que Ele possa repousar a cabeça» (Mt 8,20)”.

São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Sermo 27, 8-10
Oeuvres mystiques de Saint Bernard , Paris, Seuil, 1953

SÃO BERNARDO - Senhor, que queres Tu que eu faça?



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

“Senhor, que queres Tu que eu faça?”

"São Paulo, convertido, tornou-se o instrumento da conversão do mundo. Muitos são aqueles que ele converteu a Deus pela sua pregação quando, outrora, vivia ainda na carne mas já não segundo a cerne. Hoje ainda, vivendo em Deus uma vida mais feliz, ele não deixa de trabalhar pela conversão dos homens pelo seu exemplo, a sua oração, a sua doutrina. Sua conversão é útil aos que lhe celebram a memória porque o pecador recebe uma esperança de perdão que o incita à penitência; ou quem já está convertido encontra o modelo de uma conversão perfeita. Como desesperar, seja qual for a enormidade das nossas faltas, quando ouvimos dizer que “Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor” (Act 9,1), foi subitamente transformado em vaso de eleição? Quem ousaria de dizer, sob o peso do seu pecado: “Eu não posso levantar-me para levar uma vida melhor”, quando, na própria estrada em que o seu coração estava totalmente cheio de veneno, o perseguidor encarniçado se tornou subitamente o mais fiel pregador? Só por si, esta conversão ilustra de forma magnífica a misericórdia de Deus e o poder da sua graça.

Eis então o modelo perfeito de conversão. “O meu coração está pronto, Senhor, o meu coração está pronto” (Sl 107,2). “Que queres que eu faça?” (Act 9,6). Palavras breves, mas tão plenas, vivas, eficazes e dignas de serem atendidas! Como se encontra tão pouca gente nesta disposição de obediência perfeita, que tenha renunciado à sua vontade a ponto de que mesmo o seu coração já não lhe pertence. Como se encontram tão poucos que, momento a momento, procurem não o que eles próprios querem mas o que Deus quer e lhe digam : “Que queres tu que eu faça?”

São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Sermón 1º en la Conversión de San Pablo, 1
Obras completas, BAC, Madrid, 1987


SÃO BERNARDO - Vai sentar-te no último lugar!



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

Vai sentar-te no último lugar!

“Se o conhecimento de nós mesmos gera o temor de Deus, e o conhecimento de Deus o amor de Deus, a ignorância de nós mesmos produz o orgulho, e a ignorância de Deus conduz ao desespero. O orgulho se enraíza na ignorância de nós mesmos, uma vez que um pensamento falso e enganador nos leva a imaginar-nos melhores do que somos. Porque o orgulho, raiz de todo pecado, consiste em sermos, aos nossos próprios olhos, maiores do que somos aos olhos de Deus, e na verdade.

Se soubéssemos claramente em que lugar Deus coloca cada um de nós, deveríamos conformar-nos a esta verdade, sem jamais nos colocarmos acima ou abaixo de tal lugar. Mas, na vida presente, os decretos de Deus estão envoltos em sombras e sua vontade, oculta: ninguém pode saber se é digno de amor ou desagrado. Por isto, é mais acertado, segundo o conselho da própria Verdade, escolher o último lugar, de onde irá tirar-nos, com honra para nós, a fim de dar-nos um lugar melhor. Isto é mais conveniente do que escolher um lugar elevado, do qual tenhamos de descer envergonhados.

Se passamos por uma porta cuja trave é muito baixa, podemos abaixar-nos quanto quisermos sem nada recear; mas se acaso nos erguemos, ainda que de um dedo apenas, acima da porta, bateremos com a cabeça. Assim não devemos temer um excesso de humildade, mas recear e detestar o menor movimento de presunção. Não vos compareis, nem aos que são maiores, nem aos que vos são inferiores, nem aos outros, nem a ninguém. Que podeis saber a respeito? Este homem, que vos parece o mais vil e o mais miserável de todos, cuja vida criminosa e particularmente repugnante vos horroriza, pensais poder desprezá-lo; não apenas em comparação convosco, que imaginais viver na sobriedade, na justiça e na piedade, mas também em comparação com todos os criminosos, como se fosse necessariamente o pior dentre eles. Tendes a certeza de que não estará um dia num lugar melhor que o vosso, e de que já não seja, desde agora, melhor aos olhos de Deus?

Por conseguinte, Deus não quis que tomássemos um lugar médio, nem mesmo o penúltimo; ele disse: «Vai sentar-te no último lugar!» (Lc 14, 10), a fim de estares sozinho no derradeiro lugar. Pois então não pensarás, já não digo em te julgares melhor, mas nem mesmo em te comparares com quem quer que seja. Eis o grande mal que resulta da ignorância de si mesmo: o orgulho, origem de todo pecado”.

São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Sermo 37, 6-7 super Cantica in Opera Omnia
(Edit. Cisterc. t. 2, 12-13)

SÃO BERNARDO – Vinde a Mim pelo caminho da humildade



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

«Para ir para onde eu vou, vós sabeis o caminho»

«Eu sou o caminho, a verdade e a vida»

“O caminho que conduz à verdade é a humildade. A humildade é o sofrimento; a verdade é o fruto do sofrimento. Tu poderás perguntar-me: como é que sabes que Ele fala de humildade, se apenas diz: «Eu sou o caminho»? Porém é Ele mesmo que responde quando acrescenta: «aprendei de mim que sou manso e humilde de coração» (Mt 11,29). Ele apresenta-se portanto como exemplo de humildade e de mansidão. Se tu o imitares, não andarás nas trevas mas terás a luz da vida (Jo 8, 12). O que é a luz da vida senão a verdade? Ela ilumina todo o homem que vem a este mundo (Jo 1,9); ela mostra-lhe a verdadeira vida.

Eu vejo o caminho, é a humildade; eu desejo o fruto, é a verdade. Mas que fazer se a estrada é demasiado difícil para que eu possa chegar até onde desejo? Escutai a Sua resposta: «Eu sou o caminho, quer dizer o viático que te sustentará ao longo desta estrada». Àqueles que se enganam e não conhecem o caminho, Ele exclama: «Sou eu que sou o caminho»; àqueles que duvidam e não acreditam: «Sou eu que sou a verdade»; aos que já estão em marcha mas se fatigam: «Eu sou a vida».

Escutai ainda isto: «Eu te bendigo Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste isto – esta verdade secreta - aos sábios e aos inteligentes, quer dizer aos orgulhosos, e as revelaste aos pequeninos, quer dizer aos humildes» (Lc 10,21) . Escutai a verdade a falar àqueles que a procuram: «Vinde a mim, vós que me desejais e sereis saciados com os meus frutos» (Ecl 24,19) e ainda «Vinde a mim, vós todos os que sofreis e tombais sob o peso do vosso fardo que eu vos aliviarei» ( Mt 11, 28). Vinde, diz Ele. Mas para onde? Até mim, a Verdade. Por onde? Pelo caminho da humildade”.

São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Tratado sobre los grados de humildad y soberbia
Obras completas, BAC, Madrid, 1987

sábado, 15 de agosto de 2009

Assunção de Nossa Senhora - Maria engrandece o Senhor pela singularidade de seu amor



15 de agosto

Maria engrandece o Senhor pela singularidade de seu amor


“A alma de Maria engrandece o Senhor porque ela foi por Ele primeiro engrandecida. Se não tivesse sido antes engrandecida pelo Senhor, a alma de Maria não teria podido engrandecê-lo. Engrandece, portanto, aquele por quem foi engrandecida, não somente pelo louvor de sua boca e pela integridade de seu corpo, mas pela singularidade de seu amor.

Muitos engrandecem pela língua, mas blasfemam por seu comportamento, procedendo com soberba de coração. A seu respeito é que foi escrito: ‘Afirmam que conhecem a Deus, mas o negam com seus atos’ (Tt 1, 16). Esses não engrandecem, antes diminuem o quanto podem o nome do Senhor. É a eles que se dirige o Apóstolo: ‘O nome de Deus é blasfemado entre as nações por causa de vós!’ (Rm 2, 24).

Em Maria, pelo contrário, a língua, a vida, a alma engrandecem o Senhor. A língua, narrando a santa magnificência da glória divina; a vida, tornando-se digna da mesma glória por suas obras; a alma, amando-o de maneira singular, atingindo-o pelas asas da contemplação, e contendo em seu espírito e em seu seio a incompreensível magnificência. Por isso, proclama: ‘Minha alma engrandece o Senhor’ (Lc 1, 46).

Como é que o engrandeces? Porventura, tornarias maior aquele cuja grandeza é infinita? ‘Grande é o Senhor e muito digno de louvores’ (Sl 144 [145], 3), exclama o salmista. Tão grande, tão grande, que sua grandeza não tem comparação nem medida. Como então o engrandeces, se de pequeno não o fazes grande, nem de grande maior ainda? Tu o engrandeces porque o louvas, porque, mais luminosa que o sol, mais bela que a lua, mais perfumada que a rosa, mais branca que a neve, fazes crescer o esplendor do conhecimento de Deus em meio às trevas deste mundo. Tu o engrandeces, portanto, não aumentando a sua grandeza sem limites, mas trazendo para as trevas deste mundo, que a desconhece, a luz da verdadeira Divindade. Pois o Senhor que engrandeces, assim como ignora o tempo por ser eterno, também não admite progresso, por ser perfeito.

Ele é eterno porque não tem começo nem fim. É perfeito porque nada falta a sua plenitude. E, contudo, tu o engrandeces quando, por teus méritos eminentes, és exaltada a ponto de receberes a plenitude da graça, de seres digna da visita do Espírito Santo, de dares à luz o Salvador do mundo que perecia, permanecendo virgem, e se tornando a Mãe do Filho de Deus”.


D. Adam de Perseigne, Abade
Epistula 2,13-15
(Sources Chrétiennes 66, 62-64)

Assunção de Nossa Senhora - A Esposa escolhida por Deus



15 de agosto

Era preciso que a Esposa escolhida por Deus habitasse a casa do céu

“Hoje a Virgem Imaculada, que não conheceu nenhuma das inclinações terrestres, mas alimentou-se de pensamentos do céu, não voltou ao pó da terra; sendo ela própria um céu vivo, é colocada nos celestes tabernáculos. Quem faltaria à verdade chamando-a de céu, a não ser por considerá-la superior aos céus por seus incomparáveis privilégios? Hoje o tesouro da vida, o abismo da graça nos é escondido por uma espécie de morte que dá vida. Sem receio Maria vê aproximar-se a morte, pois gerou Aquele que a destruiu, se é que podemos dar o nome de morte a essa luminosa partida de vida e de santidade. Pois, como poderia estar sujeita à morte aquela que deu ao mundo a verdadeira vida? Obedeceu, porém, à lei imposta por Aquele que Ela gerou, e, como filha do velho Adão, sofreu a sentença pronunciada contra o pai. Se seu Filho, que é a própria Vida, não recusou a morte, é justo que aconteça o mesmo com a mãe do Deus vivo.

Se o corpo santo e incorruptível que Deus, em Maria, unira a sua pessoa, ressuscitou do túmulo ao terceiro dia, é justo que também sua Mãe fosse arrancada ao túmulo e se juntasse a seu Filho. E, do mesmo modo que Ele descera até ela, foi elevada a um tabernáculo mais alto e mais precioso: o próprio céu. Era preciso, digo, que fosse colocada nos divinos tabernáculos de seu Filho quem abrigara em seu seio o Verbo de Deus. E, assim como o Senhor dissera estar em companhia dos que pertenciam a seu Pai, convinha igualmente que a Mãe permanecesse no palácio de seu Filho, na casa do Senhor e nos átrios de nosso Deus.

Pois, se lá habitam todos os que vivem na alegria, onde haveríamos de encontrar a causa de sua alegria? Era preciso que o corpo daquela que, ao dar à luz, conservara a virgindade, fosse também conservado após a morte. Era preciso que a Esposa escolhida por Deus habitasse a casa do céu. Era preciso que aquela que contemplara seu Filho na cruz e tivera o coração transpassado pelo gládio que lhe havia sido poupado ao dar à luz, o contemplasse sentado ao lado do Pai. Era preciso, enfim, que a Mãe de Deus possuísse tudo aquilo que seu Filho possuía, e fosse honrada por todas as criaturas”.

São João Damasceno
Homilia II in Dormitione Beatæ Mariæ Virginis, 2.13

Assunção de Nossa Senhora - Maria é a distribuidora de todas as graças



15 de agosto

“Com toda razão, depois da Assunção e de sua entrada na glória, Maria é a distribuidora de todas as graças. Da mesma forma que tantas mães santas sabem no céu as necessidades espirituais dos filhos que deixou na terra, Maria sabe as necessidades espirituais de todos os homens. E como Ela é uma excelente Mãe, reza por eles e, como Ela tem poder sobre o Coração de seu Filho, obtém para eles todas as graças, para todos que não persistem no mal. Ela é, como já foi dito, como um aqueduto de graças e, no corpo místico, como o virginal pescoço unindo a Cabeça aos membros”.

Réginald Garrigou-Lagrange, OP
The Three Ages of the Interior Life

Assunção de Nossa Senhora - Uma Mulher revestida de Sol



SOLENIDADE LITÚRGICA DA ASSUNÇÃO DA BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA

HOMILIA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II

15 de agosto de 2001

1. "O último inimigo a ser destruído será a morte" (1 Cor 15, 26).

As palavras de Paulo, que acabam de ser proclamadas na segunda leitura, ajudam-nos a compreender o significado da solenidade que hoje celebramos. Em Maria, que subiu ao Céu no termo da sua vida terrestre, resplandece a vitória definitiva de Cristo sobre a morte, que entrou no mundo em virtude do pecado de Adão. Foi Cristo, o "novo" Adão, que venceu a morte, oferecendo-se em sacrifício no Calvário, em atitude de amor obediente ao Pai. Assim, Ele resgatou-nos da escravidão do pecado e do mal. No triunfo da Virgem, a Igreja contempla Aquela que o Pai escolheu como verdadeira Mãe do seu Filho unigênito, associando-a intimamente ao desígnio salvífico da Redenção.

É por isso que Maria, como é bem evidenciado pela Liturgia, constitui um sinal consolador da nossa esperança. Olhando para Ela, arrebatada na exultação das plêiades angélicas, toda a existência humana, impregnada de luzes e de sombras, se abre para a perspectiva da bem-aventurança eterna. Se a experiência quotidiana nos faz sentir diretamente como a peregrinação terrestre se desenvolve sob o sinal da incerteza e da luta, a Virgem exaltada na glória do Paraíso assegura-nos que o socorro divino jamais nos faltará.

2. "Apareceu um grande sinal no Céu: uma mulher revestida de Sol" (Ap 12, 1).

Olhemos para Maria, caríssimos Irmãos e Irmãs que aqui vos encontrais reunidos num dia tão especial para a devoção do povo cristão. Saúdo-vos com grande afeto. Cumprimento de modo particular o Senhor Cardeal Angelo Sodano, meu primeiro colaborador, e o Bispo de Albano acompanhado do seu Auxiliar, e agradeço-lhes a sua presença. Além disso, saúdo o pároco com os sacerdotes que o assistem, os religiosos, as religiosas e todos os fiéis aqui presentes, de maneira especial os consagrantes salesianos, a Comunidade de Castelgandolfo e a das Vilas Pontifícias. Incluo no meu pensamento os peregrinos de várias línguas, que quiseram unir-se à nossa celebração. A cada um formulo votos para que viva com alegria a solenidade deste dia, rica de sugestões para a meditação.

Hoje aparece um sinal grandioso no Céu: a Virgem Maria! É dela que nos fala com linguagem profética o sagrado autor do livro do Apocalipse, na primeira leitura. Que prodígio extraordinário se apresenta diante dos nossos olhos estupefatos! Acostumados a olhar para as realidades da terra, somos convidados a elevar o nosso olhar para o Alto: rumo ao Céu, que é a nossa Pátria definitiva, onde a Santíssima Virgem espera por nós.

O homem moderno, talvez mais do que no passado, tem interesses e preocupações materiais. Busca segurança e não raro experimenta a solidão e a angústia. Além disso, que dizer do enigma da morte? A Assunção de Maria é um acontecimento que nos interessa de perto, precisamente porque cada homem é destinado a morrer. Todavia, a morte não é a última palavra. Ela garante-nos o mistério da Assunção da Virgem é a passagem para a vida, ao encontro do Amor. É a passagem para a bem-aventurança celestial, reservada a quantos se empenham em prol da verdade e da justiça, esforçando-se por seguir a Cristo.

3. "Desde agora, todas as gerações me hão de chamar ditosa" (Lc 1, 48).

Assim exclama a Mãe de Cristo no encontro com a idosa prima Isabel. O Evangelho acabou de nos propor de novo o Magnificat, que a Igreja canta todos os dias. Trata-se da resposta de Nossa Senhora às palavras proféticas de Santa Isabel: "Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor" (Lc 1, 45).

Em Maria, a promessa torna-se realidade: ditosa é a Mãe e felizes seremos nós, seus filhos se, como Ela, escutarmos e pusermos em prática a palavra do Senhor.

A solenidade deste dia abra o nosso coração para esta exaltante perspectiva da existência. Possa a Virgem, que hoje contemplamos resplandecente à direita do Filho, ajudar o homem contemporâneo a viver, acreditando "que terão cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor".

4. "Hoje, os filhos da Igreja na terra celebram com alegria a passagem da Virgem para a Cidade superna, a Jerusalém celeste" (Laudes et hymni, VI).

É assim que a Liturgia armênia canta no dia de hoje. Faço minhas estas palavras, pensando na peregrinação apostólica ao Cazaquistão e à Armênia que, se Deus quiser, realizarei daqui a pouco mais de um mês. Confio-te a Ti, Maria, o bom êxito desta nova etapa do meu serviço à Igreja e ao mundo. Confio-te a Ti o auxílio aos fiéis, a fim de que sejam sentinelas da esperança que não desilude e proclamem incessantemente que Cristo é o vencedor do mal e da morte. Ilumina, Mulher fiel, a humanidade do nosso tempo, para que compreenda que a vida de cada homem não se esgota num punhado de pó, mas é chamada a um destino de felicidade eterna.

Maria, "Tu que és o júbilo do céu e da terra", vela e intercede por nós e pelo mundo inteiro, agora e sempre!


Papa João Paulo II
Homilia da Solenidade da Assunção
15 de agosto de 2001

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Imitação de Cristo – Obter a liberdade de coração



"Da pura e completa renúncia de si mesmo para obter liberdade de coração”

Jesus: Filho, deixa-te a ti, e achar-me-ás a mim. Despe tua vontade e teu amor-próprio, e sempre tirarás lucro. Porque, logo que te entregares a mim sem reservas, se te acrescentará a graça

A alma: Senhor, em que devo renunciar-me, e quantas vezes?

Jesus: Sempre e a toda hora tanto no muito como no pouco. Nada excetuo, mas quero te achar despojado de tudo. De outra sorte, como poderás ser meu e eu teu, se não estiveres, exterior e interiormente, desapegado de toda vontade própria? Quanto mais prontamente isso fizeres, tanto melhor te acharás, e quanto mais pleno e sincero for teu sacrifício, tanto mais me agradarás e maior lucro terás.

Alguns há que se entregam a mim, mas com alguma reserva, porque não têm plena confiança em Deus, e por isso tratam de prover as próprias necessidades. Outros, a princípio, tudo oferecem, mas depois, combatidos pela tentação, volvem-se novamente às próprias comodidades, e eis por que quase não progridem nas virtudes. Estes nunca chegarão à verdadeira liberdade do coração puro, nem à graça de minha doce familiaridade, enquanto não renunciarem de todo a si mesmos, oferecendo-se em cotidiano sacrifício a Deus, sem o que não há nem pode haver união deliciosa comigo.

Muitas vezes te disse e agora te torno a dizer: deixa-te, renuncia a ti mesmo, e gozarás grande paz interior. Dá tudo por tudo, não busques, não reclames coisa alguma, persevera, pura e simplesmente, em mim, e me possuirás. Terás livre o coração e as trevas não te poderão oprimir. A isto te aplica, isto pede, isto deseja: ser despojado de todo amor próprio, para que possas seguir nu a Jesus desnudado, morrer a ti mesmo e viver eternamente. Então se dissiparão todas as vãs imaginações, penosas perturbações e supérfluos cuidados. Logo também desaparecerá o temor demasiado, e morrerá o amor desordenado."

Thomas de Kempis
Imitação de Cristo
Livro III, Cap. 37

Santa Clara de Assis - O amor esponsal em Clara



Festa 11 de agosto

“O amor esponsal em Clara”

“Santa Clara fez-se esposa do Senhor dos senhores porque se sentiu profundamente afeiçoada pelo Seu irrestrito amor. Por divina inspiração, Clara renunciou a todos os outros amores possíveis para poder entregar-se inteiramente ao único esposo Jesus Cristo. Em outras palavras, com todas as fibras do seu coração, procurou evitar que ‘toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo’(RSC 10,6) desviassem o seu coração do único necessário: Jesus Cristo. Assim, conservando o seu corpo casto e virginal, sem nada de próprio, acolhe Jesus no claustro de seu seio. Por conseguinte, Clara revive espiritualmente o mistério da mãe do Senhor, que humildemente dispôs-se à ação transformadora do Espírito Santo e tornou-se efetivamente a mãe do Filho do altíssimo Pai.

Clara retrai-se do corre-corre da ‘cidade’ e recolhe-se no santuário de sua alma para ali, na mais pessoal e individual solidão, encontrar-se a sós com o Amado. No tálamo do seu coração, no silêncio dos sentidos e do intelecto deixa-se enlevar tanto pelo amor do Amado, ou melhor, do Amante, que todo o seu afeto, amor, carinho, atenção e serviço às suas Irmãs, aos pobres e doentes são manifestações concretas de sua uniformidade com o Espírito de Cristo.

Parte da Segunda Carta de Santa Clara a Santa Inês de Praga:

‘Agradeço ao Doador da graça, do qual cremos que procedem toda dádiva boa e todo dom perfeito (Tg 1,17), pois adornou-a com tantos títulos de virtude e a fez brilhar em sinais de tanta perfeição, para que, feita imitadora atenta do Pai perfeito (cf. Mt 5,48), mereça ser tão perfeita que seus olhos não vejam em você nada de imperfeito (cf. Sl 138,16).

É essa perfeição que vai uni-la ao próprio Rei no tálamo celeste, onde se assenta glorioso sobre um trono estrelado. Desprezando o fausto de um reino da terra, dando pouco valor à proposta de um casamento imperial, você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrimônio.

Veja como por você ele (o Cristo pobre) se fez desprezível e siga-o, sendo desprezível por ele neste mundo. Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens (Sl 44,3), feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz. Se você sofrer com Ele, com Ele vai reinar’ (Fontes Franciscanas e Clarianas)”.

Cit.por franciscanos.org

São Lourenço - O Fogo do teu Amor, Senhor



Festa 10 de agosto

O Fogo do teu Amor, Senhor

“Foi o Fogo do teu Amor, Senhor, que permitiu ao Diácono São Lourenço permanecer fiel”

“O exemplo de São Lourenço encoraja-nos a dar a vida, ilumina a fé, atrai a devoção. Não são as chamas da fogueira, mas as chamas de uma fé viva, que nos consomem. O nosso corpo não foi queimado pela causa de Jesus Cristo, mas a nossa alma é transportada pelos ardores do seu amor, o nosso coração arde de amor por Jesus. Não foi o próprio Salvador que disse, acerca deste fogo sagrado: ‘vim lançar fogo sobre a terra; e que quero Eu senão que ele já se tenha ateado?’ (Lc 12, 49). Cleofas e o companheiro experimentaram os seus efeitos quando diziam: ‘Não estava o nosso coração a arder cá dentro, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?’ (Lc 24, 32).

Foi também graças a este incêndio interior que São Lourenço permaneceu insensível às chamas do martírio; arde em desejo de estar com Jesus, e não sente a tortura. Quanto mais cresce nele o ardor da fé, menos sofre a tortura. A força do braseiro divino que tem aceso no coração acalma as chamas do braseiro ateado pelo carrasco.”

Santo Agostinho
Bispo de Hipona e Doutor da Igreja
Sermo 206

São Lourenço - Semear com largueza



Festa 10 de agosto

“Hoje a Igreja celebra a Festa de São Lourenço, Diácono da Igreja de Roma, que no século III foi martirizado na perseguição do Imperador Valeriano. Segundo a tradição, foi queimado vivo. Fora intimado a entregar ao governo da Cidade os tesouros da Igreja. Dizem que tomou todos os pobres dos quais cuidava, sustentados pela obra de caridade da Igreja romana, e os apresentou à autoridade: “Eis aqui o tesouro da Igreja”.

Na leitura da sua Festa (2Cor 9,6-10), São Paulo diz que quem semeia com largueza colherá com largueza. Lourenço fez assim: semeou com largueza. Primeiro porque foi um cristão dedicado, exercendo fiel e generosamente seu diaconato, cuidando dos pobres com dedicação e verdadeira caridade, percebendo que eles são, realmente, o maior tesouro que a Igreja tem, porque nos recordam sempre o que somos diante de Deus – pobres – e nos permitem servir ao Senhor, presente neles, já que o que a eles fizermos, ao Senhor é que fazemos.

Mas, ele semeou com largueza também e ainda mais porque, abrasado de amor, entregou toda a existência por Cristo, até a morte, dando a vida por seu Amigo e Salvador. Lourenço, que tantas vezes no Altar Eucarístico serviu o Cristo, grão de trigo que morre para dar fruto de vida eterna, foi, ele próprio, esse grão que, morrendo, produziu fruto.

Hoje somos nós, de vida cômoda e morna, chamados a realmente semear com largueza, por amor de Cristo; semear na nossa vida, na carne da nossa existência, a verdade de nosso amor a Cristo. Perdoa-nos, Senhor, sermos tão comodistas, tão pouco diligentes nas tuas coisas, no teu santo serviço, no amor aos teus pobres. Perdoa-nos porque não queremos te dar nada nem morrer em nada por ti: afetos, amizades, prestígio, dinheiro, poder, bens materiais, prazer, comodidade, diversão... Queremos tudo, como os pagãos; nada queremos perder, como os que não te conhecem; de nada abdicamos, como os que não esperam na ressurreição, mas esperam somente para esta vida. E ainda ousamos dizer que somos cristãos. Que teu servo e nosso irmão Lourenço rogue por nós. Amém”.

D.Henrique Soares da Costa
Bispo auxiliar de Aracaju e titular de Acufida
Cit.por domhenrique.com

Santa Teresa Benedita da Cruz - Edith Stein, mestra de espiritualidade



Festa 09 de agosto

Entrevista com o Carmelita Jesús Castellano Cervera

«Edith Stein, mestra de espiritualidade»

Edith Stein (1891-1942), judia, filósofa, mártir, Carmelita santa e co-patrona da Europa, considerava-se «uma superlitúrgica». Quem explica isso a Zenit é o Padre Carmelita Jesús Castellano, ocd, que esta sexta-feira pela tarde ministra uma conferência sobre liturgia no Centro de Estudos Edith Stein de Lanciano (Itália).

«Era uma contemplativa sumamente ativa, antes e depois de seu ingresso no Carmelo, como demonstra sua atividade e seus escritos», sublinha este professor de espiritualidade na Faculdade Pontifícia Teológica Teresianum de Roma. O Padre Castellano é consultor, entre outros organismos vaticanos, da Congregação para a Doutrina da Fé e colabora em diversas revistas de teologia, liturgia e espiritualidade.

-Podemos considerar Edith Stein como precursora da espiritualidade litúrgica do Vaticano II?

-Castellano: Podemos afirmar sem dúvidas. Ela vive na alvorada do movimento litúrgico na Alemanha, conhece alguns protagonistas deste despertar eclesial, como Romano Guardini e Odo Casel, tem como pátria espiritual um dos centros propulsores do movimento litúrgico alemão, a Abadia de Beuron, onde o Abade Rafael Walzer é seu diretor espiritual.

Vive o fervor das celebrações de Natal e Semana Santa. Participa, como ela recorda, das «formas renovadas da piedade da Igreja» de seu tempo. Considera-se «uma superlitúrgica» por sua sensibilidade ante o mistério e o celebrar da liturgia. E contribui com seu livro «A oração da Igreja», um texto clássico sobre a Eucaristia, suas raízes judaicas e sua dimensão espiritual.

-Por que não se conhece a contribuição litúrgica de Edith Stein, ela que esteve na vanguarda com Guardini e com outros grandes mestres da liturgia de seu tempo?

-Castellano: Edith é uma figura polivalente. É admirada como fenomenóloga e filósofa como intérprete de São Tomás, de Teresa de Jesus e de João da Cruz. Seus escritos são numerosos. Este fragmento de sua espiritualidade, que é um fragmento que contém o todo, foi-se descobrindo pouco a pouco, sobretudo quando se tratou de contextualizar seu itinerário espiritual, as raízes de sua educação na liturgia judaica, seus influxos e sua participação na espiritualidade de sua época, e quando se trata de descobrir alguns escritos seus onde se manifesta, sobretudo, sua veia teológica e espiritual. Há ainda textos inéditos e outros não são muito conhecidos como o diário de seu retiro espiritual em preparação para sua profissão perpétua (10-21 de abril de 1938), uma verdadeira jóia de espiritualidade do mistério pascal vivido com Maria.


-Edith, antes de ser uma contemplativa, foi uma mulher de ação. Soube conjugar bem a oração litúrgica com a oração pessoal?

-Castellano: Nela não há dicotomias: tudo o que vive e aborda tem o toque de uma fenomenóloga que vai até o fundo vital da experiência. Vive isso desde a profundidade de seu ser, mas com toda a participação dos sentidos. Em um escrito de 1930, uma conferência para mulheres de Speyr, sobre a educação à vida eucarística, sublinha a aplicação da espiritualidade da Eucaristia à vida de cada um, tanto para os religiosos como para a mulher casada, como para as que, como ela, vivem só. E em seu livro «A oração da Igreja» faz uma maravilhosa apologia da imprescindível dimensão da oração pessoal e de seu valor eclesial. Até afirmar que toda oração pessoal é oração eclesial. Era uma contemplativa sumamente ativa, antes e depois de seu ingresso no Carmelo, como demonstra sua atividade e seus escritos.

-É exagero ver em Edith Stein um modelo de espiritualidade litúrgica feminina?

-Castellano: É evidente que toda a experiência de Edith tem o toque de seu olhar de mulher, seu coração e sua empatia feminina, com um toque de delicadeza e de profundidade. A seu modo, é um modelo de espiritualidade feminina se a entendemos como personificação do feminino da Igreja esposa, de sua atitude mariana, de seu recurso às mulheres santas, e valorizamos algumas expressões de fina poesia e sensibilidade como suas invocações ao Espírito Santo. Em seus escritos sobre a mulher e para a mulher nota-se esta peculiaridade em Edith, sem complexos nem polêmicas, com toda naturalidade.

-O que é a espiritualidade eucarística, segundo Edith Stein?

-Castellano: Algo tão simples como viver como resposta vital ante a consciência do dom que supõe a Eucaristia: ante a presença responder com a oração ante o Santíssimo e a eucaristia diária; ante o dom da comunhão com o agradecimento a quem nos nutre com sua carne e seu sangue «como uma mãe a seu filho», ante o sacrifício eucarístico acolhendo o dom e fazendo-o vida como oferenda espiritual. Trata-se de uma espiritualidade que se alimenta, em Edith Stein, com o exemplo e o testemunho, que se esclarece com o ensinamento e iniciação às riquezas do mistério, e passa pouco a pouco à vida e aos costumes até ser uma existência eucarística que impregna todo o ser e o viver.

-O que ensina Edith Stein a suas irmãs Carmelitas com seu testemunho?

-Castellano: Ensina a sentir com a Igreja totalmente no que se refere à liturgia, sem saudades do passado, com a alegria do presente e do futuro. Edith é modelo de seriedade na própria vocação contemplativa, tão aberta à liturgia como à contemplação, tão vibrante pela novidade da renovação litúrgica quanto ansiosa de transmitir a todos o viver e sentir com a Igreja. No fundo Edith é, por co-naturalidade, uma discípula de Teresa de Jesus também nisto, pois a Santa, em seu tempo, vibrava com a liturgia da Igreja e sua experiência mística tem páginas belas de comunhão com os mistérios e de entusiasmo pelas festas do Senhor, de Maria e dos Santos, de amor pela liturgia eclesial e pelo decoro das celebrações.Edith Stein contribuiu em tudo isto com a teologia de seu tempo e com a busca da excelência da celebração dos mistérios.

Padre Jesús Castellano, ocd
Consultor da Congregação para a Doutrina da Fé
Professor de espiritualidade na Faculdade Pontifícia Teológica Teresianum de Roma-Cit.por shalom.org

Santa Teresa Benedita da Cruz: Já não sou o que era



Festa 09 de agosto

JÁ NÃO SOU O QUE ERA

Tu, com imenso amor, fundes o Teu olhar no meu
e inclinas Teus ouvidos à minhas mudas palavras
e enche-me o coração de uma profunda paz.

Mas teu amor não acha satisfação
nesse intercâmbio, em que pode haver ainda separação:
Teu coração anseia por mais.

Como banquete matinal vens a mim toda a manhã,
Tua carne e Teu sangue se fazem comida e bebida para mim,
e acontecem maravilhas.

Teu corpo misteriosamente penetra o meu,
e Tua alma se une com a minha:
já não sou mais o que era!

Tu chegas e partes, permanece porém a semente
que lançaste para frutificar na glória futura,
escondida no corpo de barro.

Permanece o vínculo que une coração a coração,
a corrente vital que brota da Tua
e a todos os membros vivifica.

Como são admiráveis Teus amados milagres!
só nos resta assombrar-nos, balbuciar e calar,
pois a mente e a palavra aqui falham.

Santa Teresa Benedita da Cruz, ocd
Carmelo Santa Teresa-
Itajaí-SC
Mosteiro das Irmãs Carmelitas Descalças


Edith Stein: fenomenologia e espiritualidade



Festa 09 de agosto

Edith Stein: fenomenologia e espiritualidade!


O teor espiritual da vida de Edith Stein foi ascendente, culminando, na última etapa de sua curta estada existencial – quando fora ‘hóspede’ de Hitler em Auschwitz – numa vida contemplativa. Esta elevação silenciosa, como a subida do Monte Carmelo, foi cada vez mais apurada e, inclusive, podemos dizer que tal acuidade espiritual revestiu, plenamente, sua existência (1). Esta ascensão purificadora, como o caminhar da alma às escuras da noite (2) é o que define o caminho da ascética à mística (3). A dimensão espiritual de sua vida foi, pouco a pouco, revelada através do caráter dinâmico de sua obra. Seus escritos se desenvolvem, verdadeiramente, a partir dos mais profundos anseios espirituais de uma vida intima e dinamicamente voltada para Deus. E esta veemência, longe de afastá-la do real, acercou-a ainda mais do mundo fenomênico a ponto de desejá-lo, entendê-lo e questioná-lo, objetivamente, mediante uma percepção cada vez mais apurada do mesmo.

Ela nos diz que é no seu íntimo, na sua essência, que a alma se encontra em casa. Por meio da atividade natural de suas faculdades, ela sai de si própria e vai ao encontro do mundo exterior, exercendo uma atividade sensível que é inferior à ela mesma (4). Tudo isso, mediante expressões sensíveis, sensações, sons, palavras, ações e obras, que correspondem certa manifestação interior, espontânea ou não, consciente ou inconsciente (5). Sua intensa preocupação acerca de uma teoria do conhecimento que desse conta do estabelecimento desta ponte é o marco de sua incansável busca. Mesmo os seus interesses mais comuns permearam-se com este ardor espiritual de uma vida interior (6). Independente de sua proeminente formação acadêmica edificava-se nela um natural interesse objetivo pelo mundo, mediante uma profunda e perspicaz visão subjetiva do mesmo. Nascera-lhe o desejo filosófico, mediante uma percepção natural.

Este amor à sabedoria a levaria questionar o modo como teria que se edificar uma ponte entre a maneira como este denso mundo pessoal –subjetivo marcado fortemente por uma atividade espiritual– percebe o mundo aparente e o modo como este mundo aparente –objetivo e caracterizado intensamente por uma objetividade corpórea– se apresenta à percepção subjetiva da consciência. Este modo subjetivo de considerar a realidade a aproximou da filosofia e de uma intensa percepção filosófica do mundo objetivo. Não obstante, esta cercania se deu a partir da própria tensão de seu mundo subjetivo, ou seja, de sua visão ‘pessoal’ e subjetiva do real.


Nestes termos seria plausível supor que a densidade espiritual de sua percepção subjetiva do mundo objetivo a impulsionaria, necessariamente, entendê-lo, a partir desta mesma subjetividade. Podemos dizer que a finura espiritual de sua vida a incentivou à percepção filosófica subjetiva de um mundo objetivo. Esta espiritualidade lhe exigia, em sua dimensão cognoscitiva, uma explicação. Era necessário, para um melhor entendimento do mundo, compreender-se a si mesma, mediante a compreensão do modo como sua própria consciência opera. Esta exigência passava pela compreensão de uma teoria do conhecimento que se arquitetasse sobre princípios norteadores da consciência, determinando-lhe a intencionalidade da percepção objetiva. Neste caso, qual filosofia, senão a de Edmund Husserl, poderia oferecer-lhe naquele momento, respostas mais adequadas à busca de compreensão do modo como se estruturava e operava a consciência, subjetivamente, na consideração objetiva do mundo? Sua aproximação à fenomenologia de Husserl foi inevitável.

E ela buscava, primeiramente, compreender e logo viabilizar, mediante a percepção filosófica subjetiva, esta ponte entre a percepção intencional da consciência e a objetividade do mundo real, a partir de um vivo diálogo da percepção do ego – a subjetividade – com o mundo – a objetividade. Não foi a intensidade da fenomenologia de Husserl que a fez desvelar-se em sua densidade subjetiva espiritual e convertê-la ao Catolicismo, mas ao contrário, foi a sua própria intensa vida espiritual, que a aproximou da fenomenologia de Husserl, vendo nesta uma possibilidade de arquitetar um modelo filosófico para a compreensão de como a consciência subjetiva e intencional opera sobre o real objetivo.

Foi esta veemência espiritual que a fez ver, cada vez mais, no Cristianismo, uma efetiva resposta às suas mais profundas aspirações intelectuais e espirituais, que a própria fenomenologia não lhe poderia oferecer. Este clamor de uma vida contemplativa não pressupôs a filosofia, antes, ao contrário, foi este ardor místico que a fez amar a filosofia e denotar, mediante ela, sua vocação sobrenatural. Não há dúvida que a filosofia colaborara para uma melhor visão cristã do mundo. Se a filosofia a fez chegar ao Cristianismo, a própria ciência do Cristianismo – a qual denominou ciência da cruz – lhe proporcionaria descobrir a intensa vida do Evangelho, cristalizadas em obras de espiritualidade e de teologia, como as de mística de São João da Cruz, Santa Teresa de Ávila e a Filosofia e Teologia de Tomás de Aquino. Eis as descobertas que lhe marcariam profundamente, no que se refere ao seu modo de ser e ao modo de pensar o mundo.

1 E. Stein, Chemins vers le silence intérieur. Textes choisis et présentés par Vincent Aucante. Saint-Maur, Parole et Silence, 1998, p. 11-69.
2 S. João da Cruz, Subida do Monte Carmelo, Liv. I. Cap. II, n. 1. [Obras Completas, 7ª edição. Petrópolis, Vozes, 2002, p. 143].
3 R. Garrigou-Lagrange, Les trois âges de la vie intérieure, prélude de celle du Ciel. Tome Ier. Paris, Les Éditions du Cerf, 1938, p. 16-29.
4 E. Stein, A Ciência da Cruz. Tradução de D. Beda Kruse. São Paulo, Edições Loyola, 2002, p. 127.
5 E. Stein, A Ciência da Cruz. Op. cit., p. 130.
6 E. Stein, Chemins vers le silence intérieur. Op. Cit. p. 11-69.


Professor Dr. Paulo Faitanin
Departamento de Filosofia –UFF
Cit.por aquinate.com

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Transfiguração do Senhor - Esse Sol te fascinará com seu divino esplendor



FESTA DA TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR

Evangelho do dia: Mt 17, 1-9

Esse sol te fascinará com seu divino esplendor

“«Seu rosto brilhou como o sol» (Mt 17, 2). Por que admirar que o rosto de Jesus se tivesse tornado como o sol, se Ele era o próprio Sol? Era o Sol, mas dissimulado pela nuvem. Agora, a nuvem se afasta e Ele resplandece por um instante. Que nuvem é essa que se afasta? Não é a carne, mas a fraqueza da carne que, por um momento, desaparece. É a nuvem de que fala o Profeta: «Eis que vem o Senhor numa nuvem leve» (cf. Is 19, 1); leve, porque não carrega pecado algum; nuvem, porque dissimula o esplendor divino; leve, porque é assumida no esplendor eterno; nuvem, da qual diz o Cântico: «À sombra de quem tanto desejara me sentei» (Ct 2, 3); leve, porque é a carne do Cordeiro que tira os pecados do mundo. Uma vez que eles foram tirados, o mundo é elevado às alturas do céu, aliviado do peso de todos os seus pecados. O Sol velado por essa carne não é aquele que se levanta para os bons e os maus, mas «o Sol de justiça» (Ml 4, 2), que só se levanta para os que temem a Deus. Revestida dessa nuvem de carne, hoje, a Luz que ilumina todo homem resplandeceu. Hoje, ela glorifica essa mesma carne, mostra-a deificada aos apóstolos, para que estes a revelem ao mundo.

E tu, cidade bem-aventurada, gozarás eternamente da contemplação desse Sol, quando desceres do céu, adornada para Deus como a esposa para seu esposo; nunca mais em ti esse Sol se há de pôr: eternamente o mesmo, Ele fará brilhar uma eterna manhã. Esse Sol jamais será coberto por qualquer nuvem, e sua irradiação incessante te rejubilará com uma luz sem declínio. Esse Sol já não deslumbrará teus olhos, mas te dará a força de fixá-lo e te fascinará com seu divino esplendor. Esse Sol não conhecerá nenhum eclipse, e seu brilho não será empanado por nenhum sofrimento, pois a «morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem grito, nem dor» (Ap 21, 4) que possam diminuir o brilho que Deus te concedeu. Com efeito, João ouviu estas palavras vindas do céu: «As coisas anteriores passaram» (Ap 21, 4).

Eis o Sol de que fala o Profeta: «Não será mais o sol a luz do teu dia, nem será a lua que vai te iluminar à noite; o próprio Senhor será para ti luz permanente, e o teu brilho será o teu Deus» (Is 60, 19). Eis aquela luz eterna que resplandece em ti, na face do Senhor.

Ouves a voz do Senhor, contemplas a sua face resplandecente, e te tornas como o sol. Pois é pela face que se reconhece alguém e, reconhecê-lo, é ser por ele iluminado. Aqui tu crês, lá reconhecerás. Aqui compreendes pela inteligência, lá serás compreendido. Aqui vês como num espelho, lá verás face a face. Irradiado para sempre pelo brilho desse Sol eterno, tu o reconhecerás tal como ele é, e a alegria te iluminará. A face do Senhor resplandecerá sobre ti com tanto fulgor, que cumulará aquela aspiração do Profeta: «Que sua face resplandeça sobre nós!» (Sl 66 [67], 2)”.

São Pedro Venerável, Abade
Sermo 1, De Transfiguratione Domini
Patrologia Latina 189

Transfiguração: Jesus não é uma abstração; está ressuscitado e vivo



FESTA DA TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR

Transfigurou-se diante deles


Por que a fé e as práticas religiosas estão em declive e não parecem constituir, ao menos para a maioria, o ponto de força na vida? Por que o tédio, o cansaço, o incômodo ao cumprir os próprios deveres de crentes? Por que os jovens não se sentem atraídos? Por que, em resumo, esta monotonia e esta falta de alegria entre os crentes em Cristo? O maravilhoso episódio da transfiguração nos ajuda a dar uma resposta a estes interrogantes.

O que a transfiguração significou para os três discípulos que a presenciaram? Até então haviam conhecido Jesus em sua aparência externa, um homem não diferentes dos demais, de quem conheciam sua procedência, seus costumes, seu tom de voz... Agora conhecem outro Jesus, o verdadeiro Jesus, o que não se consegue ver com os olhos de todos os dias, à luz normal do sol, mas que é fruto de uma revelação imprevista, de uma mudança, de um dom.

Para que as coisas mudem também para nós, como para aqueles três discípulos no Tabor, é necessário que aconteça em nossa vida algo semelhante ao que ocorre a um rapaz ou a uma moça quando se apaixonam. No namoro o outro, o amado, que antes era um entre muitos, ou talvez um desconhecido, de repente se converte em único, o único que interessa no mundo. Todo o resto retrocede e se situa em um fundo neutro. Não se é capaz de pensar em outra coisa. Acontece uma autêntica transfiguração. A pessoa amada se contempla como em um raio luminoso. Tudo parece belo nela, até os defeitos. A pessoa pode até se sentir indigna diante do amado. O amor verdadeiro gera humildade. Algo muda também concretamente até nos hábitos de vida. Conheci jovens a quem de manhã seus pais não conseguiam tirar da cama para ir ao colégio; se encontravam um trabalho, em pouco tempo o abandonavam; ou descuidavam dos estudos sem chegar a formar-se nunca... Depois, quando se enamoraram de alguém e começam a namorar, de manhã pulam da cama, estão impacientes por finalizar os estudos, se têm um trabalho, cuidam muito dele. O que ocorreu? Nada, simplesmente o que antes faziam por constrição agora o fazem por atração. E a atração é capaz de fazer coisas que nenhuma constrição consegue; ela coloca asas nos pés. «Cada um, dizia o poeta Ovídio, é atraído pelo objeto do próprio prazer.»

Algo assim, dizia eu, deveria acontecer uma vez na vida para sermos verdadeiros cristãos, convencidos, alegres por sê-lo. «Mas a menina e o menino podemos ver, tocar!» Respondo: também a Jesus se vê e se toca, mas com outros olhos e com outras mãos: do coração, da fé. Ele está ressuscitado e está vivo. É um ser concreto, não uma abstração, para quem teve esta experiência e este conhecimento. Mais ainda, com Jesus as coisas são inclusive melhores. No namoro humano há artifício, atribuindo ao amado qualidades das quais talvez carece e com o tempo freqüentemente se está obrigado a mudar de opinião. No caso de Jesus, quanto mais se conhece e se está do seu lado, mais se descobre novos motivos para estar enamorado d’Ele e seguros da própria escolha.

Isso não quer dizer que se deva estar tranqüilos e esperar, também com Cristo, a clássica «flechada». Se um rapaz, ou uma moça, passa todo o tempo fechado em casa sem ver ninguém, jamais acontecerá nada em sua vida. Para namorar deve estar em contato! Se não está convencido, ou simplesmente começa a pensar que talvez conhecer Jesus deste modo diferente, transfigurado, é belo e vale a pena, então é necessário que comece a entrar em contato, a ler seus escritos. Suas cartas de amor estão no Evangelho! É aí onde Ele se revela, onde se «transfigura». Sua casa é a Igreja: é aí onde podemos encontrá-lo.

Pe. Raniero Cantalamessa
Pregador da Casa Pontifícia
Comentário em 15 de fevereiro de 2008
Cit. por Cantalamessa.org

SANTO CURA D’ARS - Segredo do Cura d’Ars: comunicar o que vivia internamente



Na audiência geral com os peregrinos, Bento XVI destaca amizade do santo com Cristo

ROMA, quarta-feira, 5 de agosto de 2009 (ZENIT.org)- Bento XVI afirmou hoje que o segredo do sucesso pastoral do Cura d’Ars foi comunicar aquilo que ele vivia internamente: sua amizade com Cristo.

O Pontífice dedicou a audiência geral desta quarta-feira, à figura de São João Maria Vianney. O Patrono dos sacerdotes e inspirador do Ano Sacerdotal teve sua festividade celebrada ontem pela Igreja, que recordou os 150 anos de seu falecimento.

Bento XVI, ao traçar uma breve biografia do santo francês, assinalou que ele nasceu na pequena aldeia de Dardilly, a 8 de maio de 1786, “de uma família camponesa, pobre em bens materiais, mas rica em humanidade e fé”.

Tendo dedicado os anos da infância e da adolescência ao trabalho no campo e ao pastoreio de animais, à idade de dezessete anos ainda era analfabeto.

“Chegou à ordenação presbiteral depois de muitas vicissitudes e incompreensões, graças à ajuda de sábios sacerdotes, que não se detiveram a considerar somente seus limites humanos, mas souberam olhar mais longe, intuindo o horizonte de santidade que se perfilava naquele jovem verdadeiramente singular”, disse o Papa.

Segundo o Santo Padre, o serviço pastoral “extraordinariamente fecundo” deste “anônimo pároco de uma longínqua aldeia do sul da França” é fruto de uma existência que foi “uma catequese viva”. Esta catequese “adquiria uma eficácia particularíssima quando as pessoas o viam celebrar a missa, deter-se em adoração diante do sacrário ou passar muitas horas no confessionário”.

Bento XVI explicou que o centro da vida de São João Maria Vianney foi a Eucaristia, que ele “celebrava e adorava com devoção e respeito”. Outra característica fundamental era o assíduo ministério da Confissão.

“Reconhecia na prática do sacramento da Penitência o natural cumprimento do apostolado sacerdotal, em obediência ao mandato de Cristo: ‘Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados’”.

De acordo com o Papa, São João Maria Vianney distinguiu-se como “ótimo e incansável confessor e diretor espiritual”. Passava, “com um único movimento interior, do altar ao confessionário, onde transcorria grande parte do dia”.

“Como poderia imitá-lo um sacerdote hoje, em um mundo tão mudado?”, questionou Bento XVI.

Apesar de mudarem os tempos e as pessoas apresentarem características particulares, “há no entanto um estilo de vida e um alento fundamental que todos somos chamados a cultivar”.

“Na verdade, o que fez santo o Cura d’Ars foi a sua humilde fidelidade à missão a que Deus o chamou, foi seu constante abandono, cheio de confiança, nas mãos da Divina Providência.”

“Ele conseguiu tocar o coração das pessoas não com a força de seus talentos humanos, ou através de um louvável esforço da vontade; conquistou as almas, mesmo as mais resistentes, comunicando-lhes aquilo que vivia internamente, que era a sua amizade com Cristo”, disse o Pontífice.

São João Maria Vianney foi um homem “apaixonado por Cristo”. Bento XVI afirmou que o testemunho deste pároco recorda que “a Eucaristia não é apenas um evento com dois protagonistas, um diálogo entre Deus e mim. A comunhão eucarística encaminha para uma transformação total da própria vida. Com toda força escancara o eu inteiro do homem e cria um novo nós".

Papa Bento XVI
Audiência geral, 05/08/2009

SANTO CURA D’ARS - A oração é uma união com Deus



FESTA 04 DE AGOSTO

«Até agora, ainda não pedistes nada. Pedi e recebereis; assim sereis cumulados de alegria».

“Vede, meus filhos: o tesouro do cristão não está na terra, mas no Céu. (Mt. 6, 20). Pois bem! O nosso pensamento deve estar onde está o nosso tesouro. O homem tem a bela função de rezar e amar. Vós rezais, e amais: eis a felicidade do homem sobre a terra.

A oração, outra coisa não é senão uma união com Deus. Quando se tem o coração puro e unido a Deus, sente-se um bálsamo, uma doçura que inebria, uma luz que encandeia, atrai, seduz. Nesta íntima união, Deus e a alma são como dois pedaços de cera fundidos entre si; jamais se podem separar. É uma coisa muito bela esta união de Deus com a sua pequena criatura. É uma felicidade que não se pode compreender. Nós não éramos dignos de rezar, mas Deus, na Sua bondade, permitiu que lhe falássemos. A nossa oração é um incenso que Deus recebe com um extremo, imenso prazer.

Meus filhos, vós tendes um coração pequeno, mas a oração dilata-o e torna-o capaz de amar a Deus. A oração é um ante gozo do Céu, um fluxo do paraíso. Ela nunca nos deixa sem doçura. É um mel que desliza pela alma e tudo dulcifica. Os sofrimentos, as dores derretem-se diante duma oração bem feita, como a neve diante do sol”.

S. João Maria Vianney
Catecismo sobre a oração