quarta-feira, 31 de março de 2010

SEMANA SANTA- 4ª-FEIRA - É em tua casa que quero celebrar a Páscoa



QUARTA-FEIRA DA SEMANA SANTA

Evangelho segundo S. Mateus 26,14-25


«O meu tempo está próximo; é em tua casa que quero celebrar a Páscoa»

Queres, sem dúvida, que te demonstrem que Cristo veio voluntariamente para a Paixão? Os outros morrem de má vontade, pois morrem nas trevas, mas Ele dizia antes da Sua Paixão: «Eis que o Filho do Homem se entregou para ser crucificado» (Mt 26,2). Sabes por que é que este misericordioso não fugiu à morte? Para evitar que o mundo inteiro sucumbisse nos seus pecados. «Eis que subimos a Jerusalém e o Filho do Homem vai ser entregue e crucificado» (Mt 20,13) e ainda: «Ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém ».

Queres também saber claramente que a cruz é, para Jesus, uma glória? Ouve-o a Ele dizer-te, e não a mim. Judas, invadido de ingratidão para com o seu hospedeiro, ia entregá-lo; acabava de sair da mesa e de beber do cálice da bênção, e em jeito de agradecimento por esta bebida da salvação, decidiu verter um sangue inocente. Ele que comera o pão do seu Mestre, agradecia-lhe de modo vergonhoso fazendo-o cair... Depois Jesus disse: «É chegada a hora em que o Filho do Homem será glorificado» (Jo 12,23). Vês como Ele sabe que a cruz é a Sua glória?... Não que antes Ele tenha existido sem glória, pois fora glorificado «com a glória que tinha antes da fundação do mundo» (Jo 17,5). Mas, como Deus, era glorificado eternamente, enquanto que agora era glorificado por ter merecido a coroa pela Sua constância na prova.

Ele não foi obrigado a deixar a vida. Ele não foi forçado a imolar-se, Ele avança livremente. Escuta o que Ele diz: « Tenho o poder de entregar a minha vida e tenho o poder de a retomar» (Jo 10,18); É da minha inteira vontade que cedo aos meus inimigos, pois se Eu não quisesse, nada aconteceria». Ele veio portanto voluntariamente para a Paixão, contente da sua ação, sorrindo à coroa, feliz por salvar a humanidade.9,51).


S. Cirilo de Jerusalém, Bispo e Doutor
Catequese Batismal

SEMANA SANTA- 4ª-FEIRA - Participemos da Festa da Páscoa em atitude de eternidade



QUARTA-FEIRA DA SEMANA SANTA

Evangelho segundo S. Mateus 26,14-25


«Participemos da Festa da Páscoa em atitude de eternidade»

Vamos participar na Festa da Páscoa. Voltaremos a fazê-lo de maneira simbólica, mas já de maneira mais clara do que sob a antiga Lei, porque essa Páscoa era, se assim ouso exprimir-me, uma imagem obscura do próprio símbolo.

Participemos nesta festa ritual de maneira evangélica, e não literária, de maneira perfeita, e não inacabada, em atitude de eternidade, e não de instante. Tomemos como capital, não a Jerusalém terrena, mas a cidade celeste, não a que é hoje esmagada aos pés pelos exércitos, mas a que é glorificada pelos anjos. Não sacrifiquemos os jovens touros e os novilhos com chifres e unhas (Sl 68, 32), mais mortos do que vivos e desprovidos de inteligência, mas ofereçamos a Deus um sacrifício de louvor (Sl 49, 14), no altar celeste e em união com os coros do céu. Afastemos o primeiro véu, avancemos até ao segundo, ergamos o olhar para o Santo dos Santos. Direi antes: imolemo-nos a nós próprios a Deus; melhor, ofereçamos-Lhe diariamente todas as nossas ações. Aceitemos tudo por causa do Verbo. Subamos com pressa até à cruz, cujos cravos são doces, ainda que sejam extremamente dolorosos. Mais vale sofrer com Cristo e por Cristo, do que viver em delícias com outros.

Se fores Simão de Cirene, toma a cruz e segue Cristo. Se fores crucificado com Ele como um ladrão, faz como o bom ladrão: reconhece a Deus. Se fores José de Arimatéia, reclama o corpo a quem o mandou crucificar; faz tua a purificação do mundo. E, se fores Nicodemos, o servidor noturno de Deus, vem depositar este corpo no túmulo e perfumá-lo com mirra. E se fores Maria, ou Salomé, ou Joana, chora desde o começo do dia. Sê a primeira a ver a pedra do túmulo afastada, talvez mesmo os anjos, ou o próprio Jesus.


São Gregório de Nazianzo, Bispo e Doutor
Sermão 45, 23-24

SEMANA SANTA- 3ª-FEIRA – Deixar que os olhares sagrados de Nosso Senhor penetrem no nosso coração



TERÇA-FEIRA DA SEMANA SANTA

Evangelho segundo S. João 13,21-33.36-38


«Deixar que os olhares sagrados de Nosso Senhor penetrem no nosso coração»

S. Pedro, um dos apóstolos, fez um grande dano ao seu Mestre, porque ele negou e jurou que não o conhecia, e, não contente com isso, maldisse e blasfemou, protestando não saber quem ele era (Mt 26,69s) Grande acidente este, o qual rasgou o coração de Nosso Senhor! Pobre S. Pedro, que fazeis e que dizeis? Não sabeis quem ele é, não o conheceis, vós que fostes chamado pela sua própria boca ao apostolado, vós que haveis confessado que ele era o Filho do Deus vivo? (Mt 16,16). Ah! Miserável homem que vós sois, como ousais dizer que não o conheceis? Não foi ele que há pouco esteve a vossos pés para os lavar, que vos alimentou do seu Corpo e do seu Sangue?...

Que ninguém presuma das suas boas obras nem pense não ter nada de que recear, uma vez que S. Pedro, que tinha recebido tantas graças, que tinha prometido seguir Nosso Senhor até à prisão e mesmo até à morte, contudo negou-o ao mínimo sussurro de uma criada.

S. Pedro, ouvindo o galo cantar, lembrou-se do que tinha feito e do que tinha dito acerca do seu bom Mestre; e reconhecendo a sua falta, saiu e chorou tão amargamente que recebeu por isso remissão dos todos os seus pecados. O bem aventurado S. Pedro que por uma tal contrição recebeu o perdão geral de uma tão grande deslealdade... Eu bem sei que foram os olhares sagrados de Nosso Senhor que penetraram no seu coração e lhe abriram os olhos para o fazer reconhecer o seu pecado... Depois disto, ele nunca mais deixou de chorar, principalmente quando ouvia o galo à noite e de manhã... Por este meio, de grande pecador que era tornou-se num grande santo.


S. Francisco de Sales, Bispo e Doutor
O livro dos quatro amores

SEMANA SANTA- 3ª-FEIRA – O benefício que Pedro tirou das suas lágrimas



TERÇA-FEIRA DA SEMANA SANTA

Evangelho segundo S. João 13,21-33.36-38


«O benefício que Pedro tirou das suas lágrimas»

Voltando-se, o Senhor fixa o olhar em Pedro. E Pedro, tomando consciência do que acaba de dizer, arrepende-se e chora: funde em lágrimas e permanece mudo (Lc 22,61-61).

Sim, as lágrimas são orações mudas; merecem o perdão sem o reclamar; obtêm misericórdia sem defender a sua causa. As palavras podem não conseguir exprimir uma oração, as lágrimas nunca; as lágrimas exprimem sempre o que sentimos, ao passo que as palavras podem ser impotentes. Eis porque Pedro já não recorre às palavras: as palavras tinham-no levado as trair, a pecar, a renegar a sua fé. Prefere confessar o seu pecado com lágrimas, ele que com palavras tinha renegado.

Imitemo-lo, contudo, no que diz quando o Senhor lhe pergunta três vezes: "Simão, amas-me?" (Jo 21,17) Por três vezes responde: "Senhor, tu sabes que te amo". O Senhor diz-lhe então: "Apascenta as minhas ovelhas", e isso por três vezes. Esta palavra compensa o seu desvario precedente; aquele que tinha três vezes renegado o Senhor, três vezes o confessa; por três vezes se tinha tornado culpado, por três vezes obtém a graça pelo seu amor. Vede pois que benefício tirou Pedro das suas lágrimas!... Antes de derramar lágrimas, era um traidor; tendo derramado lágrimas, foi escolhido como pastor: aquele que se tinha portado mal recebeu o encargo de conduzir os outros.


São Máximo de Turim, Bispo
Sermão 76

SEMANA SANTA- 2ª-FEIRA – Espalhar o perfume da compaixão nos pés de Cristo



SEGUNDA -FEIRA DA SEMANA SANTA

Evangelho segundo S. João 12,1-11


«Espalhar o perfume da compaixão nos pés de Cristo»

Já vos falei dos dois perfumes espirituais: o da contrição, que se estende a todos os pecados — é simbolizado pelo perfume que a pecadora espalhou nos pés de Jesus: «toda a casa ficou cheia desse cheiro»; há também o da devoção que consolida todas as mercês de Deus... Mas há um perfume que ultrapassa de longe estes dois; chamar-lhe-ei o perfume da compaixão. Compõe-se, com efeito, dos tormentos da pobreza, das angústias em que vivem os oprimidos, das inquietudes da tristeza, das faltas dos pecadores, em resumo, de toda a dor dos homens, mesmo dos nossos inimigos. Estes ingredientes parecem indignos e, contudo, o perfume em que entram é superior a todos os outros. É um bálsamo que cura: «Felizes os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia» (Mt 5,7).

Assim, um grande número de misérias reunidas sob um olhar compassivo são as essências preciosas... Feliz a alma que cuidou de aprovisionar estes aromas, de neles espalhar o óleo da compaixão e de os pôr a ferver no fogo da caridade! Quem é, no vosso entender, «o homem feliz que tem piedade e empresta os seus bens» (Sl 111,5), inclinado à compaixão, pronto a socorrer o seu próximo, mais contente com dar do que com receber? Quem é esse homem que perdoa facilmente, resiste à cólera, não permite a vingança, e em todas as coisas olha como suas as desgraças dos outros? Quem quer que seja essa alma impregnada do orvalho da compaixão, de coração transbordante de piedade, que se dá inteira a todos, que não é, ela mesma, senão um vaso rachado onde nada é invejosamente guardado, essa alma, tão morta para si mesma que vive unicamente para os outros, tem a felicidade de possuir esse terceiro perfume que é o melhor. As suas mãos destilam um bálsamo infinitamente precioso (cf. Ct 5,5), que não se esgotará na adversidade e que os lumes da perseguição não conseguirão secar. É que Deus lembrar-se-á sempre dos seus sacrifícios.


São Bernardo de Claivaux
Sermão 12 sobre o Cântico dos Cânticos

SEMANA SANTA- 2ª-FEIRA – Exalar no mundo o perfume do Amor de Deus



SEGUNDA-FEIRA DA SEMANA SANTA

Evangelho segundo S. João 12,1-11


«Exalar no mundo o perfume do Amor de Deus»

A gratidão de Maria levou-a a oferecer a Jesus o que de mais valioso ela possuía. A gratidão significa o nosso reconhecimento de tudo que o Senhor tem realizado em nós e no nosso meio.

Ao derramar o seu perfume precioso e caríssimo nos pés de Jesus e enxugá-los com seus cabelos ela entregava a Ele o que tinha de melhor, a sua vida e com ela, todo o seu amor. Jesus sabia que estava prestes a ser entregue e que vivia os seus últimos momentos aqui na terra e já se despedia dos seus amigos, por isso, aceitou de bom grado aquele presente mesmo sob o protesto de Judas que querendo confundir os outros falava da necessidade de pessoas pobres. Jesus soube argumentar: “pobres, sempre terei convosco, mas a mim nem sempre me tereis”.

Neste Evangelho nós aprendemos com Maria e com Jesus. Com Maria nós apreendemos que a vida atual aqui na terra é o momento propício para que nós também façamos a oferta de tudo quanto temos de precioso: o perfume da nossa oração, da nossa adoração, mas também dos nossos atos concretos de amor, de despojamento. O Senhor nos chama para exalar no mundo o perfume do Seu Amor! Por isso, Ele nos ensina a perceber os sinais de misericórdia que Deus nos dá quando estamos nos momentos cruciais da nossa vida e a aceitar os presentes e as dádivas que vêm do céu por meio das pessoas que nos oferecem algo precioso. Com certeza, o gesto de Maria foi para Jesus como o perdão que damos a quem nos ofende, a reconciliação que promovemos na nossa família, a compreensão que temos com os erros dos nossos irmãos, o tempo que dedicamos às causas justas. Assim, portanto, nós ainda temos oportunidade de também derramar aos pés de Jesus o que temos de tão precioso, o tempo em que vivemos para demonstrar a alguém a nossa gratidão, perdão e reconciliação, enfim, o perfume do nosso amor.

Como temos aproveitado o tempo que estamos vivendo? A quem temos nos dedicado? Temos cuidado somente das nossas “coisas” ou temos tido interesse pela vida de alguém mais? Temos oferecido a Deus o momento presente da nossa vida? Temos nos preocupado com os pobres? Como poderemos exalar no mundo o perfume do Amor de Deus? Pensemos nisto!


Helena Colares Serpa
Fundadora da Comunidade Católica Um Novo Caminho

domingo, 28 de março de 2010

DOMINGO DE RAMOS – Oração no Domingo de Ramos



DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR
28 DE MARÇO


TU SABES, SENHOR!

Tu sabes, Senhor,
Que com tua entrada em Jerusalém, com jumento e tudo,
se cumpre o anunciado pelos profetas.
Que os que hoje te aclamamos e te exaltamos,
ainda recordando teus milagres e sinais,
tuas palavras e teu consolo
logo, logo, ao virar a esquina,
trocaremos as palmas pelo “Crucifica-o! Crucifica-o!”.

Tu sabes, Senhor,
Que, como Pedro, hoje prometemos amizade eterna,
te cantamos hinos e louvores
e, amanhã, fingiremos não ter te conhecido
ou esconderemos nossos rostos
com a intenção de não complicarmos nossa vida.

Tu sabes, Senhor,
Que o triunfal monumento que hoje levantamos
logo o ofereceremos ao melhor impostor,
aos simples reis da terra,
aos que, sem ter palavras eternas,
nos seduzem e nos confundem,
nos afastam de Ti e nos separam da tua Graça.

Tu sabes, Senhor,
Que a coroa que te espera
não é de ouro, mas forjada com espinhos.
Que o trono que te aguarda
não está talhado em madeira de ébano,
mas esculpido na cruz que produz vertigem e pranto.

Tu sabes, Senhor,
Que o nosso sim amanhã será um não.
Que os nossos cantos se converterão em silêncios.
Que nossas aclamações darão lugar a deserções.
Que nossos gritos se transformarão em timidez.

Tu sabes, Senhor,
Que tua entrada em Jerusalém
é o início de uma aventura tingida de sofrimento,
de sacrifício, prova e morte…
Mas com a redenção final.

TU SABES, SENHOR!



Padre Javier Leoz
Site Javier Leoz

DOMINGO DE RAMOS – Acompanha o Senhor e segue-O sempre



DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR
28 DE MARÇO


Acompanha o Senhor montado num jumentinho e segue-O sempre


“Ó Jesus, prevendo a turba que viria ao vosso encontro, montastes no jumento e destes exemplo de admirável humildade entre os aplausos do povo que acorria, cortava ramos e atapetava a estrada. Enquanto a multidão cantava hinos de louvor, Vós, jamais esquecendo vossa compaixão, chorastes o morticínio de Jerusalém.

Levanta-te agora, ó serva do Salvador, e no cortejo das filhas de Sião, vai ver teu verdadeiro Rei. Acompanha o Senhor do céu e da terra montado num jumentinho, segue-O sempre com ramos de oliveira, com obras de piedade e com virtudes triunfantes”.


São Boaventura
Il legno della vita 15, Op.mist,pp.98-99


DOMINGO DE RAMOS – Bendito seja o que vem em nome do Senhor



DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR
28 DE MARÇO


"Bendito seja o que vem em nome do Senhor"

É sob dois aspectos bem diferentes que a festa de hoje apresenta aos filhos dos homens Aquele que a nossa alma deseja (Is 26,9), “o mais belo dos filhos dos homens” (Sl 44,3). Ele atrai o nosso olhar sob esses dois aspectos; amamo-lo sob um e sob o outro, porque num e noutro Ele é o Salvador dos homens.

Se considerarmos ao mesmo tempo a procissão de hoje e a Paixão, vemos Jesus, por um lado sublime e glorioso, por outro humilhado e doloroso. Porque, na procissão, Ele recebe as honras reais e, na Paixão, vemo-lo castigado como um malfeitor. Aqui cercam-no a glória e a honra; além, “não tem aparência nem beleza” (is 53,2). Aqui, temos a alegria dos homens e o orgulho do povo; além, temos “a vergonha dos homens e o desprezo do povo” (Sl 21,7). Aqui, aclamam-no: “Hosana ao Filho de David. Bendito seja o rei de Israel que vem!” Além, vociferam que merece a morte e escarnecem dele porque se fez rei de Israel. Aqui, correm para Ele com palmas; além, flagelam-lhe o rosto com as mesmas palmas e batem-lhe na cabeça com uma cana.. Aqui, cumulam-no de elogios; além, afogam-no em injúrias. Aqui, disputam-se para juncar-lhe o caminho com as vestes dos outros; além, despojam-no das suas próprias vestes. Aqui, recebem-no em Jerusalém como o rei justo e o Salvador; além, é expulso de Jerusalém como um criminoso e um impostor. Aqui, montam-no sobre um burro, rodeado de homenagens; além, é pendurado da cruz, rasgado pelos chicotes, trespassado de chagas e abandonado pelos seus.

Senhor Jesus, quer o Teu rosto apareça glorioso quer humilhado, sempre nele vemos brilhar a sabedoria. Do Teu rosto irradia o fulgor da luz eterna (Sb 7,26). Que brilhe sempre sobre nós, Senhor, a luz do Teu rosto (Sl 4,7) nas tristezas como nas alegrias... Tu és a alegria e a salvação de todos, quer te vejam montado sobre o burro, quer suspenso do madeiro da cruz.


Beato Guerric d'Igny
Abade cisterciense
Sermão sobre os Ramos

DOMINGO DE RAMOS – Eis que o teu Rei vem a ti



DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR
28 DE MARÇO


Eis que o teu Rei vem a ti

Coragem, filha de Sião, não temas: «Eis que o teu Rei vem a ti: Ele é justo e vitorioso, humilde, montado num jumento, sobre um jumentinho, filho de uma jumenta» (Zc 9, 9). Ele vem, Aquele que está em toda a parte e que enche o universo, Ele avança para realizar em ti a salvação de todos. Ele vem, Aquele que não veio chamar os justos, mas os pecadores (Lc 5, 32), para fazer sair do pecado os que nele se extraviaram. Não temas, pois: «Deus está no meio de ti, tu és inabalável» (Sl 45, 6). Acolhe, de mãos erguidas, Aquele cujas mãos desenharam as tuas muralhas. Acolhe Aquele que aceitou em Si mesmo tudo aquilo que é nosso, à exceção do pecado, para nos assumir Nele. Rejubila, filha de Jerusalém, canta e dança de alegria. «Levanta-te e resplandece, chegou a tua luz; a glória do Senhor levanta-se sobre ti!» (Is 60, 1).

Que luz é esta? É a luz que ilumina todo o homem que vem a este mundo (Jo 1, 9): é a luz eterna que apareceu no tempo; luz que Se manifestou na carne e que Se encontra oculta por esta natureza humana; a luz que envolveu os pastores e conduziu os magos; a luz que estava no mundo desde o princípio, pela qual o mundo foi feito, mas que o mundo não conheceu; a luz que veio aos Seus, mas que os Seus não receberam (Jo 1, 10-11).

E o que é a glória do Senhor? É sem dúvida nenhuma a cruz sobre a qual Cristo foi glorificado, Ele, o esplendor da glória do Pai. Ele mesmo o dissera, ao aproximar-se a Sua Paixão: «Agora foi glorificado o Filho do Homem e Deus foi glorificado Nele; e glorificá-Lo-á sem demora» (Jo 13, 31-32). A glória de que aqui se fala é a Sua subida à cruz. Sim, a cruz é a glória de Cristo e a Sua exaltação, como Ele próprio disse: «E Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim» (Jo 12, 32).


Santo André de Creta, Monge e Bispo
Sermão para os Ramos, p. 97

DOMINGO DE RAMOS – Aclamemos Jesus todos os dias



DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR
28 DE MARÇO


Em vez de ramos, prostremos nossa vida aos pés de Cristo

Vinde e corramos ao encontro de Cristo que se encaminha voluntariamente para aquela venerável e santa Paixão, a fim de realizar o mistério de nossa salvação.

Caminha o Senhor livremente para Jerusalém, ele que desceu do céu por nossa causa – prostrados que estávamos por terra – para elevar-nos consigo bem acima de toda autoridade, poder, potência e soberania ou qualquer título que se possa mencionar (Ef 1,21), como diz a Escritura.

O Senhor vem, mas não rodeado de pompa, como se fosse conquistar a glória. Ele não discutirá, diz a Escritura, nem gritará, e ninguém ouvirá sua voz (Mt 12,19; cf. Is 42,2). Pelo contrário, será manso e humilde, e se apresentará com vestes pobres e aparência modesta.

Acompanhemos o Senhor, que corre apressadamente para a sua Paixão e imitemos os que foram ao seu encontro. Não para estendermos à sua frente, no caminho, ramos de oliveira ou de palma, tapetes ou mantos, mas para nos prostrarmos a seus pés, com humildade e retidão de espírito, a fim de recebermos o Verbo de Deus que se aproxima, e acolhermos aquele Deus que lugar algum pode conter.

Alegra-se Jesus Cristo, porque deste modo nos mostra a sua mansidão e humildade, e se eleva, por assim dizer, sobre o acaso (cf. Sl 67,5) de nossa infinita pequenez; ele veio ao nosso encontro e conviveu conosco, tornando-se um de nós, para nos elevar nos reconduzir a si.

Diz um salmo que ele subiu pelo mais alto dos céus ao Oriente (cf. Sl 67,34), isto é, para a excelsa glória da sua divindade, como primícias e antecipação da nossa condição futura; mas nem por isso abandonou o gênero humano, porque o ama e quer elevar consigo a nossa natureza, erguendo-a do mais baixo da terra, de glória em glória, até torná-la participante da sua sublime divindade.

Portanto, em vez de mantos ou ramos sem vida, em vez de folhagens que alegram o olhar por pouco tempo, mas depressa perdem o seu verdor, prostremo-nos aos pés de Cristo. Revestidos de sua graça, ou melhor, revestidos dele próprio, - vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo (Gl 3,27) – prostremo-nos a seus pés como mantos estendidos.

Éramos antes como escarlate por causa de nossos pecados, mas purificados pelo batismo da salvação, nos tornamos brancos como a lã. Por conseguinte, não ofereçamos mais ramos e palmas ao vencedor da morte, porém o prêmio da sua vitória.

Agitando nossos ramos espirituais, o aclamemos todos os dias, juntamente com as crianças, dizendo estas santas palavras: “Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel”.


Santo André de Creta, Monge e Bispo
Homilia de Domingo de Ramos

DOMINGO DE RAMOS – A lição do Domingo de Ramos



DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR
28 DE MARÇO


A lição do Domingo de Ramos

Cristo faz sua entrada solene em Jerusalém, recebendo uma aclamação jamais vista na História. Surge então a grande questão: como é que Jesus sendo Deus e, portanto, sabendo que iria ser crucificado e objeto de escárnio daquele mesmo povo permitiu aquela consagração? Ele via por detrás dos braços que no ar o aplaudiam o fulgurar das espadas e o levantar de punhos cerrados a clamarem pela sua crucifixão.

Qual a razão pela qual Ele permitiu todo aquele alvoroço, toda aquela festa? Na resposta a grande lição deste Dia de Ramos. É que Ele queria ensinar que devemos sempre desconfiar dos louvores humanos . Ele desejava mostrar qual o verdadeiro valor do triunfo terreno. Ele almejava alertar seus seguidores sobre qual a autêntica conquista que deveriam buscar, oferecia uma autêntica filosofia de vida a seus epígonos.

É inato ao ser humano o anseio pela gratidão, pelo reconhecimento, pela glória. Isto, afastado o vão orgulho, a vaidade simplória, a detestável arrogância, a antipática petulância, não é, em si, um mal.. Com efeito, tais aspirações projetam a conquistas grandiosas que fazem os sábios, os heróis dos altares pátrios, os cientistas famosos, os gênios extraordinários que, olhos fixos na consagração de seus contemporâneos e pósteros pontilham o mundo com seus feitos memoráveis.

Os triunfos terrenos, porém, são ilusórios. São sombras que passam, névoa que os lábios da inveja logo dissipam, nuvens que se desfazem, seta luminosa que fende os ares e logo se apaga, meteoro que logo desaparece, flor que breve se emurchece. São passageiros e logo são olvidados, lançados no esquecimento.

O mesmo sol que os contempla pela manhã os vê fenecer à tarde. Os homens são sempre os mesmos: mudam-se rapidamente seus sentimentos, suas apreciações, suas atitudes e hosanas se transforma em clamores de morte, como aconteceu com Jesus. Eis aí a grande lição do dia de hoje.

Na terra misturam-se o bem com o mal, o encômio com a injúria, a ventura com o desar, a alegria com a tristeza, a aclamação com o ultraje, o elogio com a calúnia. A rainha das flores, a rosa, é bem o símbolo desta realidade. Os espinhos circundam a beleza desta flor como que patenteando a vida humana. Então, como não há nesta vida rosa sem espinho, nem pérola sem limo ou prata sem liga, nem sol sem sombras, nem céu sem nuvens, nem peixes sem espinhas assim não há glória terrena sem o travo das afrontas ou da invídia. O triunfo humano conhece sempre o fel da humana inveja.

Isto acontece com rapidez impressionante, pois se no decorrer do ano há inverno e verão e entre eles muitos meses; dia e noite e entre eles vinte e quatro horas, para existirem o elogio e o desprezo, hosanas e clamores de morte, loas e injúrias basta um instante.

É para esta inequívoca precariedade das vitórias, das glórias, das honras humanas que neste dia nos chama a atenção o Mestre divino. Ramos não assinalou Sua vitória verdadeira. Seu triunfo Ele o conheceria em outra manhã radiosa, no momento de sua gloriosa ressurreição.

Aqueles mesmos que o aclamaram hoje o levarão ao suplício da cruz. Cumpre então ter na devida conta os louvores. Tenhamos um conceito preciso dos bens terrenos. Almejemos não as frágeis e perecíveis conquistas nesta terra, mas sim a felicidade perene da Jerusalém celeste onde Cristo vitorioso está a nossa espera. Lá, sim, se encontram os louros que não emurchecem nunca e não são jamais atingidos pela traça destruidora da humana inveja.

Este anelo da apoteose da glória eterna, das alegrias perenes, do júbilo nos deslumbrantes palácios do Rei imortal dos séculos, nos projetará na posse de glória imperecível. Será este o dia do nosso grande triunfo que não terá ocaso pois estaremos por todo sempre juntos ao Redentor vitorioso.


Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Shalom.org

DOMINGO DE RAMOS – Cristo é o caminho para a luz, a verdade para a vida



DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR
28 DE MARÇO


Cristo é o caminho para a luz a verdade para a vida

Diz o Senhor: Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, não andará nas trevas, mas terá a luz da vida (Jo 8,12). Estas breves palavras contêm um preceito e uma promessa. Façamos o que o Senhor mandou, para esperarmos sem receio receber o que prometeu, e não nos vir ele a dizer no dia do Juízo: "Fizeste o que mandei para esperares agora alcançar o que prometi?" Responder-te-á: "Disse que me seguistes". Pediste um conselho de vida. De que vida, senão daquela sobre a qual foi dito: Em vós está a fonte da vida? (Sl 35,10).

Por conseguinte, façamos agora o que nos manda, sigamos o Senhor, e quebremos os grilhões que nos impedem de segui-lo. Mas quem é capaz de romper tais amarras se não for ajudado por aquele de quem se disse: "Quebrastes os meus grilhões? (Sl 115,7). E também noutro salmo: ''E o Senhor quem liberta os cativos, o Senhor faz erguer-se o caído (Sl 145,7.8).

Somente os que assim são libertados e erguidos poderão seguir aquela luz que proclama: Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, não andará nas trevas. Realmente o Senhor faz os cegos verem. Os nossos olhos, irmãos, são agora iluminados pelo colírio da fé. Para restituir a vista ao cego de nascença, o Senhor começou por ungir-lhe os olhos com sua saliva misturada com terra. Cegos também nós nascemos de Adão, e precisamos de ser iluminados pelo Senhor. Ele misturou sua saliva com a terra: E a Palavra se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). Misturou sua saliva com a terra, como fora predito: A verdade brotou da terra (cf. Sl 84,12). E ele próprio disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6).

A verdade nos saciará quando o virmos face a face, porque também isso nos foi prometido. Pois quem ousaria esperar, se Deus não tivesse prometido ou dado?

Veremos face a face, como diz o Apóstolo: Agora, conheço apenas de modo imperfeito; agora, nós vemos num espelho, confusamente, mas, então, veremos face a face (1Cor 13,12). E o apóstolo João diz numa de suas cartas: Caríssimos, desde já somo filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é (1Jo 3,2). Eis a grande promessa!

Se o amas, segue-o! "Eu o amo, dizes tu, mas por onde o seguirei?" Se o Senhor te houvesse dito: "Eu sou a verdade e a vida", tu que desejas a verdade e aspiras à vida, certamente procurarias o caminho para alcançá-la e dirias a ti mesmo: "Grande coisa é a verdade, grande coisa é a vida! Ah se fosse possível à minha alma encontrar o caminho para lá chegar!"

Queres conhecer o caminho? Ouve o que o Senhor diz em primeiro lugar: Eu sou o caminho. Antes de dizer aonde deves ir, mostrou por onde deves seguir. Eu sou, diz ele, o caminho. O caminho para onde? A verdade e a vida. Disse primeiro por onde deves seguir e logo depois indicou para onde deves ir. Eu sou o caminho, eu sou a verdade, eu sou a vida. Permanecendo junto do Pai, é verdade e vida; revestindo-se de nossa carne, tornou-se o caminho.

Não te é dito: "Esforça-te por encontrar o caminho, para que possas chegar à verdade e à vida". Decerto não é isso que te dizem. Levanta-te, preguiçoso! O próprio caminho veio ao teu encontro e te despertou do sono em que dormias, se é que chegou a despertar-te; levanta-te e anda!

Talvez tentes andar e não consigas, porque te doem os pés. Por que estão doendo? Não será pela dureza dos caminhos que a avareza te levou a percorrer? Mas o Verbo de Deus curou também os coxos. "Eu tenho os pés sadios, respondes, mas não vejo o caminho". Lembra-te que ele também deu a vista aos cegos.


Santo Agostinho, Bispo
Dos Tratados sobre o Evangelho de São João
Tract. 34,8-9; CCL 36,315-316

DOMINGO DE RAMOS – Hosana ao Filho de David







DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR
28 DE MARÇO


Hosana ao Filho de David.
Bendito o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel.
Hosana nas alturas.


Mt 21,9


sábado, 20 de março de 2010

SOLENIDADE DE SÃO JOSÉ - Pôr-se sempre à escuta do Senhor para compreender a Sua Vontade



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


Pôr-se sempre à escuta do Senhor, procurando compreender a sua vontade, para lhe obedecer com todo o coração e com todas as forças


Celebramos a Solenidade de São José, esposo da Virgem Maria e Padroeiro da Igreja universal. O extremo discernimento com que José desempenhou o papel que lhe foi confiado por Deus faz aumentar ainda mais a sua fé, que consiste em pôr-se sempre à escuta do Senhor procurando compreender a sua vontade, para lhe obedecer com todo o coração e com todas as forças. Por isso, o Evangelho o define como o homem "justo" (Mt 1, 19). De fato, o justo é a pessoa que reza, vive de fé, e procura praticar o bem em qualquer circunstância da vida.

A fé, alimentada pela oração: eis o tesouro mais precioso que São José nos transmite. Seguiram os seus passos gerações de pais que, com o exemplo de uma vida simples e laboriosa, imprimiram no coração dos filhos o valor inestimável da fé, sem a qual qualquer outro bem corre o risco de ser vão. Garanto desde já com prazer uma oração especial por todos os pais, no dia que lhes é dedicado: peço a Deus que sejam homens com uma sólida vida interior, a fim de cumprirem de modo exemplar a sua missão na família e na sociedade.


Papa João Paulo II
Angelus, 17 de Março de 2002

FESTA DE SÃO JOSÉ - São José, o Adorador Perpétuo



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


São José: Adorador Perpétuo

Em profunda adoração, São José uniu-se à graça especial de cada um dos eventos da vida de Jesus. Ele adorou o nosso Senhor em sua vida oculta e na Sua Paixão e Morte; ele adorou antecipadamente o Cristo Eucarístico em seus tabernáculos: não havia nada que o nosso Senhor pudesse esconder de São José. Com exceção da Virgem Maria, São José foi o primeiro e mais perfeito adorador do nosso Senhor.

Quão grandemente o Verbo encarnado foi glorificado pela adoração de Maria e José enquanto eles expiavam pela indiferença e ingratidão de Suas criaturas!

São José se juntava a Maria em adoração e unificava seu ser a Cristo. Seu coração vibrava com sentimentos de adoração, amor e louvor ao Pai, e de caridade para com os homens.

A adoração de São José acompanhou todas as fases da vida de nosso Senhor, aproveitando a graça, o espírito e a virtude de cada mistério. Na encarnação ele adorava o auto-aniquilamento do Filho de Deus; em Belém, adorava a pobreza; em Nazaré, o silêncio, a aparente fraqueza, a obediência, e todas as outras virtudes de Cristo. Conhecia-os bem e captou claramente a razão pela qual Cristo praticou-as - para o amor e glória de seu Pai Celestial.

Fé, humildade, pureza e amor, estas foram as chaves-mestras de sua adoração. Nenhum santo jamais vibrou com uma fé mais ardente ou rebaixou-se em mais profunda humildade. Nenhum anjo jamais brilhou com mais brilhante pureza. E quanto ao seu amor, nenhum santo ou anjo jamais tiveram nem nunca chegarão ao alcance da sua ardente caridade, através da qual expressou seu ser em plena devoção.

Porque a sua fé era tão forte, a mente e o coração de José, curvaram-se em perfeita adoração. Imite a sua fé enquanto você se ajoelha diante do Cristo humilde e aniquilado na Eucaristia. Rasgue o véu que cobre esta fornalha de amor e adore o Deus escondido. Ao mesmo tempo respeite do véu do amor e faça a imolação de sua mente e seu coração, a mais bela homenagem de fé.

Entre as graças que Jesus deu ao Seu pai adotivo - e Ele inundou-lhe com as graças anexadas a cada um dos Seus Mistérios - estava a especial graça para ser um adorador do Santíssimo Sacramento. Isso é o que devemos nos questionar sobre São José. Tenha confiança nele, uma forte confiança nele. Tome-o como patrono e modelo para sua vida de adoração.

Da estreita união com este santo adorador vou aprender a adorar o Senhor e a viver em intimidade com Ele. Eu então deverei ser o José da Eucaristia como ele era o José de Nazaré.


São Pedro Julião Eymard
A Divina Eucaristia

SOLENIDADE DE SÃO JOSÉ - Imploremos a São José por força espiritual e santidade



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


Imploremos a São José por força espiritual e santidade

Dezenove de Março é a solenidade de São José, Esposo de Maria Santíssima, Mãe de Cristo. Já no século X encontramos indicada em vários calendários esta festividade. O Papa Sisto IV recebeu-a no calendário da Igreja de Roma a partir do ano de 1479. Em 1621 foi inscrita no calendário da Igreja universal.

Dirigimo-nos hoje a esta figura tão querida e próxima do coração da Igreja e, na Igreja, de cada um e de todos os que procuram conhecer os caminhos da salvação, e segui-los na própria vida terrestre. Prepare-nos a meditação de hoje para a oração, a fim de que, reconhecendo as grandes obras de Deus naquele a quem Ele colmou os Seus mistérios, procuremos na nossa vida pessoal o reflexo vivo destas mencionadas obras para as completarmos com a fidelidade, humildade e nobreza de coração, que foram próprias de São José.

José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e pôr-lhes-ás o nome de Jesus; porque Ele salvará o povo dos seus pecados (Mt. 1, 20-21).

Encontramos estas palavras no capítulo 1 do Evangelho segundo Mateus. Elas — sobretudo na segunda parte — soam parecidas às que ouviu Maria, no momento da Anunciação. A narrativa da Anunciação encontra-se no Evangelho segundo Lucas.

Em seguida, Mateus nota de novo que, depois das núpcias de Maria com José, antes de coabitarem, achou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo (Mt. 1, 18.). Assim se realizou em Maria o mistério que tivera início no momento da Anunciação, no momento em que a Virgem respondeu às palavras de Gabriel: Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc. 1, 38).

À medida que o mistério da maternidade de Maria se revelava à consciência de José, ele, que era justo, não queria repudiá-la e resolveu deixá-la secretamente (Mt. 1, 19), assim se expressa adiante a descrição de Mateus. Exatamente então José, Esposo de Maria e perante a lei já seu marido, recebe a sua pessoal «Anunciação». Ouve durante a noite as palavras referidas acima, que são explicação e ao mesmo tempo convite da parte de Deus: Não temas receber Maria, tua esposa (Mt. 1, 20).

Ao mesmo tempo, confia Deus a José o mistério, cuja realização tinham esperado por tantas gerações a estirpe de David e toda a «casa de Israel», e ao mesmo tempo confia-Lhe tudo aquilo de que depende a realização de tal mistério na história do Povo de Deus. Desde o momento em que tais palavras chegaram à sua consciência, José torna-se o homem da divina eleição: o homem de particular confiança. E definido o seu lugar na história da salvação. José entra no desempenho deste lugar com a simplicidade e humildade, em que se manifesta a profundidade espiritual do homem; e ele enche-o completamente com a sua vida.

Despertando José do sono — lemos em Mateus — fez o que lhe ordenara o anjo do Senhor (Mt. 1, 24). Nestas poucas palavras está tudo. Toda a descrição da vida de José e a característica plena da sua santidade: «Cumpriu». José, pelo que sabemos do Evangelho, é homem de ação. E homem de trabalho. O Evangelho não conservou palavra alguma sua. Descreveu-lhe porém as ações: ações simples, quotidianas, que têm ao mesmo tempo significado límpido no que respeita ao cumprimento da Promessa divina na história do homem; obras cheias de profundidade espiritual e de simplicidade amadurecida.

Tal é a atividade de José, tais as suas obras, antes que lhe fosse revelado o mistério da Encarnação do Filho de Deus que -o Espírito Santo realizara na Sua Esposa. Tal é também a obra posterior de José, quando — já informado do mistério da maternidade virginal de Maria — permanece ao lado d'Ela no período que precedeu o nascimento de Jesus e sobretudo na circunstância da Natividade.

Depois vemos José no momento da apresentação no templo e da chegada do Oriente dos Reis Magos. Pouco depois inicia-se o drama dos recém-nascidos em Belém. José de novo é chamado e ensinado pela voz do Alto sobre como há de comportar-se. Realiza a fuga para o Egito com a Mãe e o Menino. Passado breve tempo, é o regresso à sua Nazaré. Lá finalmente encontra a casa e a oficina, à qual teria voltado sem dúvida mais cedo se não lho impedisse a crueldade de Herodes. Quando Jesus chega aos doze anos, vai com Ele e com Maria a Jerusalém.

No templo de Jerusalém, depois de ambos encontrarem Jesus perdido, José ouve estas palavras misteriosas: Não sabeis que devo ocupar-me das coisas do meu Pai? (Lc. 2, 49). Assim falou o jovem de doze anos, e José, assim como Maria, bem sabe de Quem fala. Apesar disso, na casa de Nazaré, Jesus estava-lhes submisso (Lc. 2, 51): a ambos, a José e Maria, assim como um filho é submisso aos pais. Passam os anos da vida oculta da sagrada Família de Nazaré. O Filho de Deus — mandado pelo Pai — está oculto ao mundo, oculto para todos os homens, mesmo para os mais próximos. Só Maria e José conhecem o Seu Mistério. Vivem à sua volta. Vivem este Mistério dia a dia. O Filho do Eterno Pai passa, no conceito dos homens, como filho deles; como filho do carpinteiro (Mt. 13, 55). Quando principiar o tempo da Sua missão pública, Jesus aplicar-Se-á na sinagoga de Nazaré as palavras de Isaías, que naquele momento se cumprem n'Ele, e os vizinhos e conterrâneos dirão: Não é o Filho de José? (Cfr. Mt. 4, 16-22). O Filho de Deus, o Verbo Encarnado, durante os 33 anos da vida terrena esteve oculto; escondeu-se à sombra de José.

Ao mesmo tempo, Maria e José permaneceram ocultos em Cristo, no Seu mistério e na Sua missão. Em particular José, que — segundo se pode concluir do Evangelho — deixou o mundo antes de Jesus se revelar a Israel, como Cristo, ficou despercebido no mistério d'Aquele que o Pai celeste lhe confiara quando estava ainda no ventre da Virgem, quando lhe fora dito por meio do anjo: Não temas receber Maria, tua esposa (Mt. 1, 20).

Eram necessárias almas profundas — como Santa Teresa de Jesus — e eram necessários os olhos penetrantes da contemplação, para que pudessem ser revelados os traços esplêndidos de José de Nazaré: Aquele de quem o Pai celeste quis fazer, na terra, o homem da Sua confiança. Todavia a Igreja sempre esteve persuadida, e hoje de modo particular o está, quão fundamental foi a vocação daquele Homem: do Esposo de Maria, d'Aquele que, diante dos homens, passava pelo Pai de Jesus e foi, segundo o espírito, uma encarnação perfeita da paternidade na família humana e sagrada ao mesmo tempo.

A esta luz, os pensamentos e o coração da Igreja, a sua oração e o seu culto dirigem-se a José de Nazaré. A esta luz, o apostolado e a pastoral encontram n'Ele apoio dentro do campo vasto e ao mesmo tempo fundamental que é a vocação matrimonial e de pais, toda a vida na família, cheia da solicitude simples e serviçal do marido para a mulher, do pai e da mãe para os filhos — a vida na família — naquela «Igreja mais pequena» sobre a qual se constrói cada Igreja.

A Igreja que, sendo sociedade do Povo de Deus, se chama também a si mesma a Família de Deus, vê ainda o lugar singular de S. José diante desta grande Família e reconhece-o como seu Padroeiro especial. Desperte em nós esta meditação a necessidade de orarmos tomando por intercessor Aquele em quem o Pai celeste expressou, na terra, toda a dignidade espiritual da paternidade. A meditação sobre a sua vida e as suas obras, tão profundamente ocultas no mistério de Cristo, e, ao mesmo tempo, tão simples e límpidas, ajude todos a encontrar o justo valor e a beleza da vocação, a que todas as famílias humanas vêm buscar a sua força espiritual e a santidade. Com estes sentimentos dirijamos agora a Deus a nossa oração.


Papa João Paulo II
Audiência Geral, 19 de Março de 1979

SÃO JOSÉ E SANTA TERESA DE ÁVILA



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


São José e Santa Teresa de Ávila

Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José e encomendei-me muito a ele. Vi claro que, tanto desta necessidade como de outras maiores, de perder a honra e perder a alma, este pai e senhor meu me livrou melhor do que eu lhe saberia pedir. Não me recordo, até agora, de lhe haver suplicado nada que não tenha deixado de fazer.

É coisa que espanta (que maravilha) as grandes mercês que me tem feito Deus por meio deste bem-aventurado santo, dos perigos que me tem livrado, tanto de corpo quanto de alma. A outros santos parece que o Senhor lhes deu graça para socorrer em uma necessidade; a este glorioso santo tenho experiência que socorre em todas e que quer o Senhor dar-nos a entender que assim como esteve submetido a ele na terra, que como tinha nome de pai - sendo custódio - podia mandar Nele, também no céu faz quanto lhe pedem. E isto o tem comprovado algumas pessoas, a quem eu dizia que se encomendassem a ele, também por experiência; e ainda há muitas que começaram a ter-lhe devoção havendo experimentando esta verdade.

Queria eu persuadir a todos para que fossem devotos deste glorioso santo, pela grande experiência que tenho dos bens que ele alcança de Deus. Não conheci pessoa que deveras lhe seja devota e faça particulares serviços, que não a vejamos mais adiantada nas virtudes porque muito aproveitam as almas que a ele se encomendam. Parece-me, já há alguns anos, que a cada ano, em seu dia, lhe peço uma coisa e sempre a vejo cumprida. Se o pedido segue meio torcido, ele o endereça para o meu bem.

Se fosse uma pessoa que tivesse autoridade no escrever, de bom grado me estenderia em dizer muito a miúdo as mercês que este glorioso santo tem feito a mim e a outras pessoas. Só peço, pelo amor de Deus, que o prove quem não me crê e verá por experiência o grande bem que é o encomendar-se a este glorioso Patriarca e ter-lhe devoção.

Pessoas de oração, em especial, sempre deveriam ser a ele afeiçoadas. Não sei como se pode pensar na Rainha dos Anjos, no tempo que passou com o Menino Jesus, e não se dar graças a São José pelo bem com o qual lhes ajudou. Quem não encontrar mestre que lhe ensine oração, tome este glorioso santo por mestre e não errará no caminho.


Santa Teresa de Jesus
Vida 6,6-8

SÃO JOSÉ - A propagação de São José por Santa Teresa de Jesus



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


A propagação de São José por Santa Teresa de Jesus

O que Santa Teresa escreve sobre sua pessoal e particular experiência com São José, de forma tão simples e tão vitalmente exposto, tem uma finalidade: propagá-lo aos demais. Quer que todos sejam devotos de São José e se encomendem a ele. E o conseguiu de amplo modo.

Não é possível ler as páginas em que Santa Teresa descreve suas experiências com São José e permanecer indiferente. Santa Teresa, cujas palavras sobre São José cabem em tão poucas páginas, se converteu em um apóstolo de primeira grandeza do Santo pela naturalidade, calor e amor com que as descreve.

Pelo que escreve do Santo, como exposição de sua experiência sobrenatural e desde a mesma, embora tão breve, entra no catálogo dos grandes apóstolos josefinos, também pelo que fez em sua obra de fundações. E isto não só para o Carmelo Teresiano mas também para a Igreja universal. O Padre Gracián em seu escrito Josefina cita quase todos os lugares em que a Santa fala de São José. E, depois dele, a maioria dos autores carmelitas quando se apresenta uma ocasião.

Os pregadores do século XVII, em grande número, citam as palavras do capítulo 6 da Vida, alinhando-a com Gersón e Isidoro de Isolanis. Santa Teresa entra em seguida no catálogo dos grandes apóstolos e propagadores da devoção a São José. Podemos aplicar a este aspecto concreto o que a Santa disse que o Senhor lhe prometeu sobre sua primeira casa de São José: ‘que seria uma estrela que daria de si grande esplendor’ (V 32,ll). São José de Ávila, a casa de São José, acendeu no céu da Igreja muitas estrelas de devoção e amor para com o Santo Patriarca, e segue e seguirá iluminando-as.

Como disse um autor francês, Lucot: "Os Papas encontraram um auxiliar poderoso para a propagação do culto de nosso Santo na célebre Reformadora do Carmelo. Gersón havia feito muito por ele; Teresa fez mil vezes mais por si mesma, pelos religiosos de sua Reforma e pelas religiosas de seu Carmelo. São José lhe é devedor, sobretudo, de sua glória sobre a terra.


Fonte: ocd.pcn.net

SÃO JOSÉ E OS SANTOS




SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


São José e os Santos

A devoção a São José se fundamenta no fato de que este homem "justo" foi escolhido por Deus para ser o esposo de Maria Santíssima e fazer as vezes de pai de Jesus na terra. Durante os primeiros séculos da Igreja, a veneração se dirigia principalmente aos mártires. Talvez se venerasse um pouco a São José para enfatizar a paternidade divina de Jesus. Mas, ainda assim, os Padres da Igreja (Santo Agostinho, São Jerônimo e São João Crisóstomo, entre outros), já nos falavam de São José. Segundo São Calisto, esta devoção começou no Oriente, onde existe desde o século IV, e relata também que na grande Basílica construída em Belém por Santa Helena havia um formoso oratório dedicado a São José.

No ocidente, referências a (Nutritor Domini) São José aparecem no século IX em martirológios locais e em 1129 aparece em Bolonha a primeira igreja a ele dedicada. Alguns santos do século XII começaram a popularizar a devoção a São José e entre eles se destacaram São Bernardo, Santo Tomás de Aquino, Santa Gertrudes e Santa Brígida da Suécia. Segundo Bento XIV (De Serv. Dei beatif., I, iv, n. 11; xx, n. 17), ‘A opinião geral dos conhecedores é que os Padres do Carmelo foram os primeiros a levar do Oriente ao Ocidente a louvável prática de oferecer pleno culto a São José’.

No século XV, merecem particular menção como devotos de São José os santos Vicente Ferrer (m.1419), Pedro d`Ailli (m.1420), Bernadino de Sena (m.1444) e Jehan Gerson (m.1429). Finalmente, durante o pontificado de Sixto IV (1471-84), São José é introduzido no calendário romano em 19 de Março. Desde então, sua devoção foi crescendo em popularidade. Em 1621, Gregório XV a elevou à festa obrigatória. Bento XIII introduziu São José na ladainha dos santos em 1726”.

São Pedro Crisólogo: "José foi um homem perfeito, que possuía todo gênero de virtudes. O nome de José em hebreu significa "o que vai crescendo. E assim se desenvolvia o caráter de José, crescia de virtude em virtude até chegar a uma excelsa santidade.

São Bernardino de Sena: "... sendo Maria a dispensadora das graças que Deus concede aos homens, com quanta profusão não é de crer que enriquecesse com elas a seu esposo São José, a quem tanto amava, e por quem era respectivamente amada? E assim, José crescia em virtude e em amor para com sua esposa e seu Filho, a quem carregava nos braços no início, e a quem logo ensinou seu ofício e com quem conviveu durante trinta anos”.

Santa Teresa de Jesus: "Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José e encomendei-me muito a ele". Irmã Isabel de la Cruz, monja carmelita, comenta sobre Santa Teresa: "era particularmente devota de São José e ouvi dizer que lhe apareceu muitas vezes e andava a seu lado".

"Não me recordo, até agora, de haver-lhe suplicado coisa que tenha deixado de fazer. É coisa que espanta as grandes mercês que me fez Deus por intermédio deste bem-aventurado santo. Não conheci pessoa que deveras lhe seja devota que não a veja mais adiantada em virtude, porque aproveitam de grande maneira as almas que a Ele se encomendam. Só peço por amor de Deus que o prove quem não lhe crê e verá por experiência o grande bem que é encomendar-se a este glorioso pai e ter-lhe devoção".

Santo Afonso Maria de Ligório nos faz refletir: "Quanto também deve ter-se aumentado a santidade de José no trato familiar que teve com Jesus Cristo, no tempo que viveram juntos? José durante esses trinta anos foi o melhor amigo, o companheiro de trabalho com quem Jesus conversava e rezava. José escutava as palavras de Vida Eterna de Jesus, observava seu exemplo de perfeita humildade, de paciência, e de obediência, aceitava sempre a ajuda serviçal de Jesus nos afazeres e responsabilidades diários. Por tudo isso, não podemos duvidar que enquanto José viveu na companhia de Jesus, cresceu tanto em méritos e santificação que superou todos os santos”.


Bibliografía:
Souvay, Charles L., Saint Joseph;
Catholic Encyclopedia;
ncyclopedia Press, Inc. 1913


SOLENIDADE DE SÃO JOSÉ – Os cinquenta privilégios de São José



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


Os 50 privilégios de São José

Frei Jerônimo Gracián é um carmelita descalço que, seguindo as pegadas de Santa Teresa de Jesus, escreveu sua “Josefina” no ano de 1609 para fazer um sumário dos dons e privilégios de São José. Trata-se de um livro clássico da piedade josefina de 132 páginas que, seguindo a tradição mística da época, usa símbolos um pouco estranhos para nosso tempo, palavras bonitas e até raciocínios divertidos a favor de São José.

Os 50 privilégios de São José:

1. José foi santificado no ventre de sua mãe.
2. José nasceu livre do “fomes pecati” e da concupiscência da sensualidade.
3. Nunca pecou mortalmente.
4. Foi confirmado em graça.
5. Em José, como fim dos patriarcas antigos, se resume todas as perfeições.
6. José é o primeiro cristão do mundo.
7. José foi eleito entre todos os mortais como esposo da Mãe de Deus.
8. José recebeu por dote de seus desponsórios os dons e talentos que são bênçãos de peitos e ventre.
9. José foi reverenciado pela Rainha do Céu a quem todos os demais reverenciam.
10. José exerceu ofício de pai, tutor, esposo, companheiro, guarda e conselheiro de Maria.
11. José é mestre e doutor porque conversou com Cristo por 30 anos.
12. José foi aio do Príncipe Celestial.
13. Padrinho por ordenação divina e revelação do anjo.
14. Tutor de quem se fez pequenino, sendo o dono do cosmos e de todo o universo.
15. São José, Pai Nutrício e “amo de leite” de Cristo Jesus.
16. Teve como súdito ao Senhor e Rei de todo o mundo.
17. Foi o primeiro a adorar, depois da Virgem, a Cristo Jesus.
18. Conservador da vida temporal de Deus, dando-Lhe comida e roupa com o trabalho de suas mãos.
19. Conselheiro da construção da Igreja, como carpinteiro experiente, já que ajudou a fazer os modelos, plantas e traços da Nova Jerusalém.
20. Foi amado de Jesus Cristo por razões gerais e algumas particulares.
21. Mereceu o renome de “justo”.
22. Soube imitar as virtudes, retidão e perfeição de Cristo.
23. São José se assemelhou, mais do que ninguém neste mundo, a Cristo e a Maria, “no semblante, palavra, compleição, costumes, inclinações e maneira de tratar com os outros”.
24. Por haver estado mais perto da Humanidade de Cristo: abraçou-O, beijou-O, falou-Lhe, O viu, conversou com Ele, etc., muito se uniu à sua Divindade.
25. Viu-se limpo do suor com as mãos de Jesus e recebeu d’Ele outros inefáveis regalos.
26. São José se encontrou em ocasiões de amor, nas quais, pedindo mercês a Deus, nenhuma coisa foi-lhe negada.
27. São José recebeu a graça dos sacramentos, apesar de não ter participado deles.
28. Sustentou com o próprio suor a vida de Cristo.
29. São José alcançou inefáveis regalos no trato familiar que teve com Cristo.
30. Foi bendito do Senhor, alcançando as bênçãos do Céu.
31. José fez o ofício de “anjo da guarda” de Cristo Jesus.
32. Como um “arcanjo” foi ministro das embaixadas divinas.
33. Governou a Cristo, “Anjo do grande conselho”.
34. Foi ministro do maior milagre: Deus feito menino.
35. No Egito foi instrumento de Deus para que caíssem os ídolos.
36. Excedeu às dominações em senhorio, pelo serviço do Rei e da Rainha do universo.
37. Fez o ofício de trono ao ter em seus braços a Jesus, Juiz Eterno.
38. Mereceu ser guarda do paraíso terreno, como querubim, pois guardou à Virgem soberana que é o Paraíso de Deleites com a Árvore da Vida, Cristo Jesus.
39. Teve consigo, ao propiciatório, o Rei da Bem-Aventurança.
40. Foi perfeitíssimo virgem, perfeitíssimo santo.
41. Aprendeu oração dos mais elevados espíritos: o de Jesus e o de Maria.
42. Conseguiu todos os fins da contemplação.
43. Morreu nos braços de Jesus.
44. Preparou-se para a hora da de sua morte, pois a soube com antecipação.
45. Ouviu os cantares angélicos, viu luzes e escutou música celestial dos espíritos bem-aventurados.
46. Viveu saudável: nem lhe faltou um dente e nem escureceu a vista.
47. Como precursor no limbo, adiantou as excelências do Messias prometido.
48. José ressuscitou com Cristo entre outros muitos santos.
49. Está em corpo e alma na bem-aventurança.
50. É o primeiro santo canonizado pela boca do Espírito Santo, escrevendo o processo e sentença de sua canonização os sagrados evangelistas. Então se canoniza um santo quando se declara ser justo, estimado de Deus, e haver padecido por Cristo e tido revelações, visões e bens sobrenaturais.


FREI JERÓNIMO GRACIÁN
“LA JOSEFINA”

ORAÇÃO A SÃO JOSÉ DO PAPA JOÃO XXIII



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


Oração a São José do Papa João XXIII


São José, guardião de Jesus e casto esposo de Maria, tu empregaste toda a tua vida no perfeito cumprimento de teu dever. Tu mantiveste a Sagrada Família de Nazaré com o trabalho de tuas mãos. Protege bondosamente aos que se voltam confiantemente para ti. Tu conheces suas aspirações e suas esperanças. Eles se dirigem a ti porque sabem que tu os compreendes e proteges. Tu também conheceste as provas, o cansaço e o trabalho. Mas, embora dentro das preocupações materiais da vida, tua alma estava cheia de profunda paz e cantou plena de verdadeira alegria devido ao íntimo trato que gozaste com o Filho de Deus que te foi confiado e a Maria, sua terna Mãe. Amém.


Papa João XXIII
Devocionário Católico

FESTA DE SÃO JOSÉ - O coração de São José só sabe fazer uma coisa: amar



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


O coração de São José só sabe fazer uma coisa: amar

Ao meditar sobre São José, o coração se enche de amor sem nenhum esforço porque deste homem emana somente amor. O seu coração só sabe fazer uma coisa: amar. Do coração de São José jorra amor em abundância. Este amor acontece tão suavemente em seu coração, como suavemente nasce o sol. Dentro do seu coração existem sentimentos tão nobres que se chega a pensar que o coração de São José não é igual ao dos outros homens.

É difícil não entrar em contemplação ao Pai diante de São José, pois ele verdadeiramente é um dos filhos mais nobres de Deus Pai. Pode-se concluir inclusive que não poderia ser outra pessoa aquele a quem o Pai confiou os seus dois maiores tesouros: Maria e Jesus.

O Pai, que só é amor, dá a seus filhos infinitas e maravilhosas graças. Dele só emana o que é belo, santo, bom, riquezas incalculáveis. Por isso, São José é mais uma prova do amor divino para com os homens. Ele foi escolhido pelo Pai para ser instrumento importante na salvação da humanidade. Mas foi preciso para isto que São José abdicasse de seus planos pessoais, de seus sonhos, de sua vida. E ele soube fazer isso com honra e dedicação. Ao tomar conhecimento do plano do Pai, ele esquece de si mesmo, e embora vivendo uma situação desconcertante, vai até o fim, sem medo, sem vacilar.

São José, homem temente a Deus, e por isso mesmo homem que perscruta o coração de Deus, que sabe qual é a Sua Vontade, homem que sabe exatamente o que não agrada ao seu Pai de amor. Esse temor o leva a afastar-se das ocasiões de pecado, porque o temor a Deus o leva a ter horror de ofendê-lo. Esse temor não é um temor servil, pelo contrário, é um dom infuso que capacita aquele que o tem a amar a Deus com amor profundo e comprometido, incondicional, sem divisão, esponsal.

Ao colocar Jesus em seus braços, São José compreendeu que a paternidade humana tem sua fonte na paternidade divina. Nenhum homem pode ser pai se não for um chamado divino e essa paternidade só é verdadeira se for vivida aos moldes da paternidade de Deus. São José compreendeu que havia sido escolhido por Deus para ser o pai adotivo de Jesus. Então, como São José viveu a paternidade?

Totalmente como o Pai do céu a viveria: sem egoísmo, sem dominação, com muita compreensão, esquecendo-se de si, sem violência, da forma que vive alguém que se reconhece pequeno, silencioso, sem nenhuma atitude que chame a atenção sobre si. Fiel a Deus e à sua família. Agradecido a Deus Pai pela paternidade que lhe confiara, por ter sido escolhido por Ele para ser o provedor de sua família, pelo pão de cada dia, por ter sido chamado a amar incondicionalmente, além de seus limites.

São José, esposo terno, compreensível, amoroso, que não pensa em si, que só sabe amar Maria, sua esposa, filha predileta de seu Deus. José, esposo de Maria, fiel e presente sempre, dom permanente de amor para os seus dois queridos que, livres das fraquezas e do pecado, acolhiam com caridade generosa suas imperfeições e fraquezas.

São José, esposo de Maria, que em toda prova foi fiel; ele, o mais fraco dos três, o único imperfeito, foi perfeito pai e esposo. Olhando para o homem de dois mil anos depois, encontramos facilmente esposos como São José? Capazes de amar suas esposas como Cristo amou a Igreja? De apresentá-las sem manchas nem rugas?...

São José, homem fiel ao ofício de carpinteiro, exercido para contribuir com o sustento de sua família, mas ao mesmo tempo consciente de que quem os sustentava era seu Pai de amor, que sustenta os pássaros do céu, que veste os lírios dos campos com vestes mais bonitas do que as do rei Salomão. São José, homem que confiava inteiramente na providência divina. Desapegado de tudo, apegado apenas em fazer a vontade de Deus e em fazer sua esposa e seu filho felizes.

São José, que nada possuía, abriu espaço para a visita da divina providência. Quem não se lançar nas mãos de Deus, quem não reconhece que tudo o que tem é providenciado por Deus, é incapaz de abrir espaço para esta nobre visita.

Não existe vida mais feliz do que a daquele que esquece-se de si para doar-se ao outro; que tudo faz para que o outro seja feliz; que sabe partilhar dores, bens, alegria, presença; que percebe dia após dia o crescimento dos filhos; que está atento às suas necessidades; que ama sem cobrança ou condições sua esposa ou esposo; que não cobiça os bens dos outros. Olhando para a vida do homem de hoje que vive na era do progresso, podemos afirmar que este progresso corresponde à sua felicidade e realização? Com certeza não. Podemos chamar de progresso o crescimento tecnológico, o desenvolvimento da ciência e de tantas outras coisas que você pode até saber mais do que eu? Sim. Mas paralelo a este progresso, infelizmente, humanamente o homem está regredindo, o homem não é feliz, existe dentro do seu coração um grande vazio.

Faça diferente, faça como São José, suplique sua ajuda, ele é o provedor, o intercessor das famílias, dos pais e esposos que anseiam por viver a vontade de Deus como ele: abandonando todo plano pessoal, obedecendo sempre ao Pai, amando sempre, servindo sempre. São José, pai de Jesus, casto esposo de Maria, rogai por nós!


Germana Perdigão
Consagrada da Comunidade Shalom

domingo, 14 de março de 2010

Chiara Lubich – Dois anos sem Chiara




Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares

14 de março de 2008
14 de março de 2010


“A ARTE DE AMAR

O amor que Deus
colocou nos nossos corações
não faz distinções,
é um amor dirigido a todos.

Não admite discriminações
entre o simpático ou o antipático,
o instruído ou o ignorante,
o amigo ou o inimigo...
Todos devem ser amados.

Mas existe uma medida nesse amor:
amar o próximo como a si mesmo.
Colocar o próximo no nosso mesmo nível.
Isto deve ser atuado ao pé da letra.

O amor cristão não é o do mundo,
onde muitas vezes amamos
porque somos amados...

O amor cristão é o primeiro a amar,
não espera ser amado.
Como Jesus, que morreu na cruz por nós.
Deu-nos a vida, por primeiro.

Esta é a grande arte de amar:
Amar todos.
Amar como a si mesmo.
Ser os primeiros a amar.

Existe ainda um modo típico e
prático para atuar este amor:
é "fazer-se um" com o próximo.
Sofrer com quem sofre,
alegrar-se com quem se alegra,
carregar os pesos dos outros.
Viver, num certo sentido, o outro;
como Jesus que, sendo Deus,
se tornou homem, por amor.

"Fazer-se um" com todos,
em tudo, exceto no pecado.
Viver o outro, viver os outros.

Este é um grande ideal”.


Chiara Lubich
Focolares


Chiara Lubich – Jesus convida-nos a ter o mesmo amor sem limites do Pai



Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares

14 de março de 2008
14 de março de 2009


Jesus convida-nos a ter o mesmo amor sem limites do Pai

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado» (Lc 15,32)

Esta frase se encontra no final da chamada parábola do filho pródigo - que certamente você conhece - e quer revelar-nos a grandeza da misericórdia de Deus. Ela conclui todo um capítulo do Evangelho de Lucas, no qual Jesus narra outras duas parábolas para ilustrar o mesmo assunto.

Lembra-se do episódio da ovelha desgarrada, em que o dono do rebanho procura aquela que se perdera, deixando as outras noventa e nove no deserto?

Lembra-se também da história da dracma perdida e da alegria da mulher que, após encontrá-la, chama as amigas e as vizinhas para se alegrarem com ela?

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado»

Estas palavras são um convite que Deus dirige a você, e a todos os cristãos, para rejubilar-se com ele, para festejar e participar da sua alegria pela volta do homem pecador que antes estava perdido e depois foi encontrado. E, na parábola, são estas as palavras dirigidas pelo pai ao filho mais velho que havia compartilhado toda a sua vida mas que, após um dia de trabalho duro, se recusa a entrar em casa, onde se festeja a volta de seu irmão.

O pai vai ao encontro do filho fiel - assim como foi ao encontro do filho perdido - e procura convencê-lo. Mas é evidente o contraste entre os sentimentos do pai e os sentimentos do filho mais velho: de um lado o pai, com seu amor sem limites e com sua grande alegria, da qual gostaria que todos participassem; do outro lado o filho, cheio de desprezo e de ciúmes de seu irmão, que ele não reconhece mais como irmão. Com efeito, falando dele, diz: "Este teu filho, que devorou teus bens".

O amor e a alegria do pai pelo filho que voltou evidenciam ainda mais o rancor do outro, rancor que indica um relacionamento frio - diríamos até falso - com o próprio pai. A este filho importa o trabalho, o cumprimento do seu dever; mas ele não ama o pai como um verdadeiro filho. Ao contrário, mais parece que lhe obedece como a um patrão.

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado»

Com estas palavras Jesus denuncia um perigo em que também você pode incorrer: viver apenas para ser uma "pessoa de bem", baseando sua vida na busca da perfeição e criticando os irmãos "menos perfeitos" que você. Na verdade, se você estiver "apegado" à perfeição, construirá o seu ego, ficará cheio de si mesmo, cheio de admiração pela própria pessoa. Será como o filho que permaneceu em casa, e que enumera ao pai os seus méritos: "Há tantos anos que eu te sirvo e jamais transgredi um só dos teus mandamentos".

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado»

Com estas palavras, Jesus censura aquela atitude segundo a qual a relação com Deus estaria fundamentada apenas na observância dos mandamentos, porque essa observância não é suficiente. Disso também a tradição judaica está bem consciente.

Nesta parábola Jesus põe em evidência o Amor divino, mostrando como Deus, que é Amor, dá o primeiro passo em direção ao homem sem levar em consideração se ele merece ou não; Deus quer que o homem se abra a ele para poder estabelecer uma autêntica comunhão de vida. Naturalmente, como você pode entender, o maior obstáculo diante de Deus-Amor é justamente a vida daqueles que acumulam ações, obras, enquanto Deus quer simplesmente o seu coração.

"Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado"

Com estas palavras, Jesus convida você a ter, diante do homem pecador, o mesmo amor sem limites que o Pai tem para com ele. Jesus o convida a não julgar segundo a sua própria medida o amor que o Pai tem para com qualquer pessoa. Convidando o filho mais velho a compartilhar a sua alegria pelo filho encontrado, o Pai pede também a você uma mudança de mentalidade: na prática, você deve acolher como irmãos e irmãs também aqueles homens e mulheres pelos quais nutriria apenas sentimentos de desprezo e de superioridade. Isto provocará em você uma verdadeira conversão, porque o purifica da sua convicção de ser "mais perfeito", evita que você caia na intolerância religiosa e o faz acolher como puro dom do amor de Deus a salvação que Jesus lhe proporcionou.


Chiara Lubich
Palavra de vida, Março de 2001
Focolares

Chiara Lubich – Deus deseja a misericórdia e não o sacrifício



Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares

14 de março de 2008
14 de março de 2010


«Ide, pois, aprender o que significa: 'Desejo a misericórdia e não o sacrifício'.» (Mt 9,13)

A atitude de Jesus era tão nova diante da mentalidade comum que, muitas vezes, por assim dizer, escandalizava as pessoas de bem. Como aconteceu quando ele convidou Mateus a segui-lo e depois foi almoçar com ele. Mateus era um cobrador de impostos. Por causa do seu ofício, o povo não só não gostava dele mas o considerava um pecador público, um inimigo a serviço do Império Romano.

Por que - questionam os fariseus - Jesus come com um pecador? Não é melhor manter distância de certas pessoas? Essa pergunta torna-se para Jesus uma ocasião de explicar que ele quer ir ao encontro justamente dos pecadores, assim como um médico vai ao encontro dos doentes; e ele conclui dizendo aos fariseus que procurem estudar o significado da palavra de Deus pronunciada no Antigo Testamento pelo profeta Oséias: "Desejo a misericórdia e não o sacrifício".

Por que Deus quer de nós a misericórdia? Porque deseja que sejamos como ele. Devemos assemelhar-nos a ele assim como os filhos se assemelham ao pai e à mãe. Ao longo de todo o Evangelho, Jesus nos fala do amor do Pai para com os bons e os maus, para com os justos e os pecadores. Deus ama cada um, não faz distinções e não exclui ninguém. Se ele tem alguma preferência, é por aqueles que, aparentemente, menos merecem ser amados, como é o caso do filho pródigo da parábola. "Sede misericordiosos - explica Jesus - como vosso Pai é misericordioso": esta é a perfeição.

«Ide, pois, aprender o que significa: 'Desejo a misericórdia e não o sacrifício'.»

Também hoje Jesus dirige a cada um de nós o convite: "Ide, pois, aprender…" Mas, ir para onde? Quem poderá nos ensinar o que significa ser misericordioso? Uma única pessoa: só ele, Jesus, que foi à procura da ovelha perdida, que perdoou aos que o tinham traído e crucificado, que deu sua vida pela nossa salvação. Para aprendermos a ser misericordiosos como o Pai, perfeitos como ele, precisamos olhar para Jesus, que é a plena revelação do amor do Pai. Ele disse: "Quem me viu, viu o Pai".

«Ide, pois, aprender o que significa: 'Desejo a misericórdia e não o sacrifício'.»

Por que a misericórdia e não o sacrifício? Porque o amor é o valor absoluto que dá sentido a todo o resto, também ao culto, também ao sacrifício. Com efeito, o sacrifício mais agradável a Deus é o amor concreto para com o próximo, que encontra a sua expressão mais alta na misericórdia.

Misericórdia que ajuda a ver sempre novas as pessoas com as quais vivemos a cada dia, na família, na escola, no trabalho, sem nos lembrarmos mais dos seus defeitos, dos seus erros; que não nos leva a julgar mas a perdoar as injustiças sofridas. Mais ainda: a esquecê-las.

O nosso sacrifício não consistirá tanto em fazer longas vigílias e jejuns, dormir no chão, mas em acolher sempre no nosso coração qualquer um que passe ao nosso lado, seja ele bom ou mau.

Foi isso que fez um senhor que trabalhava no setor de recepção e caixa de um hospital. O seu povoado tinha sido inteiramente incendiado pelos seus "inimigos". Um belo dia viu chegar um homem com um parente doente. Pelo seu sotaque descobriu logo que se tratava de um dos "inimigos". Ele estava assustado; não queria revelar a sua identidade para não ser mandado embora. O caixa não lhe pediu os documentos e lhe ajudou, apesar de ter que se esforçar para superar o ódio que há tempo remoía dentro dele. Nos dias seguintes teve a possibilidade de dar-lhe assistência em diversas ocasiões. No último dia de internação o "inimigo" foi pagar a conta e disse ao caixa: "Preciso lhe confessar uma coisa que você não sabe". E ele: "Desde o primeiro dia sei quem é você". "E por que você me ajudou, se eu sou um 'inimigo' seu?"

Assim como aconteceu com ele, também para nós a misericórdia nasce do amor que sabe sacrificar-se por quem quer que seja, conforme o exemplo de Jesus, que chegou ao ponto de dar a vida por todos.


Chiara Lubich
Palavra de vida, Junho de 2002
Focolares

Chiara Lubich – Sede bondosos e compassivos uns para com os outros



Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares

14 de março de 2008
14 de março de 2010


«Sede bondosos e compassivos, uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Cristo» (Ef 4,32)

É um programa de vida concreto e essencial. Só ele já bastaria para criar uma sociedade diferente, mais fraterna, mais solidária. Ele faz parte de um amplo projeto que o Apóstolo propõe aos cristãos da Ásia Menor. Naquela comunidade foi alcançada a paz entre judeus e gentios, os dois povos até então divididos que representavam a humanidade. A unidade, doada por Cristo, deve ser sempre reavivada e traduzida em comportamentos sociais concretos, inteiramente inspirados pelo amor mútuo. Daí a razão por que Paulo dá estas orientações sobre como devemos nos relacionar:

«Sede bondosos e compassivos, uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Cristo»

“Sede bondosos…”: ser bom, querer o bem do outro. É “fazer-nos um” com ele, aproximar-nos dele estando completamente vazios de nós mesmos, dos nossos interesses, das nossas idéias, dos muitos preconceitos que ofuscam o nosso olhar, para tomar sobre nós os seus pesos, suas necessidades, seus sofrimentos, para compartilhar as suas alegrias.

É entrar no coração daqueles que encontramos para entender a sua mentalidade, sua cultura, suas tradições e, de certo modo, fazê-las nossas; para entender realmente aquilo de que estão precisando e saber colher os valores que Deus derramou no coração de cada pessoa. Numa palavra: viver por quem está ao nosso lado.

“Sede compassivos…”: a compaixão. Acolher o outro tal como ele é; não como gostaríamos que fosse: com um caráter diferente, com as mesmas idéias políticas nossas, com as nossas convicções religiosas e sem os tais defeitos ou modos de fazer que tanto nos incomodam. Não. É preciso dilatar o coração e torná-lo capaz de acolher a todos na sua diversidade, com os seus limites e misérias.

“… perdoando-vos mutuamente": o perdão. Ver o outro sempre novo. Mesmo nas convivências mais agradáveis e serenas, na família, na escola, no trabalho, nunca faltam os momentos de atrito, as divergências, os desencontros. Às vezes se chega a não falar mais um com o outro, ou a evitar-se, isso quando não se estabelece no coração um verdadeiro ódio contra os que têm um ponto de vista diferente. A conquista mais forte e exigente é procurar ver cada dia o irmão e a irmã como se fossem novos, novíssimos, esquecendo-se completamente das ofensas recebidas e cobrindo tudo com o amor, com uma anistia total do nosso coração, imitando desta forma Deus, que perdoa e esquece.

E enfim, alcançamos a paz verdadeira e a unidade quando vivemos a bondade, a compaixão e o perdão não apenas como pessoas isoladamente, mas em conjunto, na reciprocidade.

E assim como acontece numa fogueira, onde as brasas são sufocadas pela cinza se não forem remexidas, da mesma forma as relações com os outros podem ser sufocadas pela cinza da indiferença, da apatia, do egoísmo, se não reavivarmos de tempo em tempo os propósitos de amor mútuo, os relacionamentos com todos.

«Sede bondosos e compassivos, uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Cristo»

Essas atitudes precisam ser traduzidas em fatos, em ações concretas.

O próprio Jesus demonstrou o que é o amor quando curou os doentes, quando saciou a fome das multidões, quando ressuscitou os mortos, quando lavou os pés dos discípulos. Fatos, fatos: isso é amar.

Lembro de uma mãe de família africana: viu a própria filha Rosângela perder um dos olhos, vítima da agressividade de um garoto que a feriu com um pedaço de pau e ainda continuava caçoando dela. Nem o pai nem a mãe do menino tinham pedido desculpas pelo acontecido. O silêncio, a falta de relacionamento com essa família a deixavam angustiada. “Fique tranqüila – dizia Rosângela, que já tinha perdoado –, ainda tive sorte: pelo menos posso ver com o outro olho!”

“Um dia, de manhã – conta a mãe de Rosângela –, a mãe daquele garoto mandou me chamar porque estava passando mal. A minha primeira reação foi: ‘Essa não! Ela tem tantos outros vizinhos, e agora vem pedir ajuda logo a mim, depois de tudo o que seu filho fez conosco!’.

Mas na hora me lembrei de que o amor não tem barreiras. Corri até a sua casa. Ela abriu a porta e desmaiou nos meus braços. Levei-a para o hospital e lá fiquei até que os médicos a atendessem. Depois de uma semana, quando ela teve alta, veio até em casa para me agradecer. Procurei acolhê-la de todo o coração. Consegui perdoá-la. Agora o relacionamento se recompôs. Ou melhor, começou totalmente novo”.

Podemos preencher também o nosso dia com serviços concretos, humildes e inteligentes, expressões do nosso amor. Veremos crescer ao nosso redor a fraternidade e a paz.


Chiara Lubich
Palavra de vida, Agosto 2006
Focolares