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sexta-feira, 10 de abril de 2009

Tríduo Pascal - Sábado Santo – O amor de Cristo foi mais poderoso na morte


«Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito» (Jo 3,16).

“Este Filho único «foi oferecido», não porque os seus inimigos tenham prevalecido, mas porque assim «aprouve ao Senhor» (Is 53, 10-11). «Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» (Jo 13,1). O fim, é a morte aceite por aqueles que Ele ama; eis o fim de toda a perfeição, o fim do amor perfeito, porque «ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15,13).

Este amor de Cristo foi mais poderoso na morte de Cristo do que o ódio dos seus inimigos; o ódio apenas pôde fazer o que o amor lhe permitia. Judas, ou os inimigos de Cristo, entregaram-no à morte, devido a um terrível ódio. O Pai entregou o seu Filho, e o Filho entregou-se a si mesmo por amor (Rm 8,32; Ga 2,20). O amor não é porém culpado de traição; é inocente, mesmo quando Cristo morre por amor. Porque só o amor pode impunemente fazer o que lhe apraz. Só o amor pode forçar a Deus e, como Ele, guiar-nos. Foi o amor que o fez descer dos céus e o pôs na cruz, que fez jorrar o sangue de Cristo pela remissão dos pecados, num ato tão inocente quanto salutar. Qualquer ação de graças pela salvação do mundo é devida ao amor, portanto. E o amor incita-nos, a amar a Cristo”.

Balduíno de Ford, Abade Cisterciense
O Sacramento do altar, II, 1

segunda-feira, 30 de março de 2009

Dai-me, Senhor, um coração puro!



5º Domingo da Quaresma - Ano B : Jn 12,20-33

Salmo 50, 3-4; 12-15; 18-19

“Tende piedade de mim, ó meu Deus, misericórdia! Na imensidão de vosso amor,purificai-me, cancelai o meu pecado! Lavai-me todo inteiro do pecado e apagai completamente a minha culpa!
Cria em mim, ó Deus, um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido. Ó Senhor, não me afasteis da vossa face, nem retireis de mim o vosso Espírito! Devolve-me a alegria de ser salvo, e confirmai-me com espírito generoso! Ensinarei vossos caminhos aos que erram e a Vós voltarão os pecadores.
Pois não Vos agrada o sacrifício e, se vos ofereço holocaustos, não os aceitais. Sacrifício para Deus é um espírito contrito; não desprezais, ó Deus, um coração contrito e humilhado”.

Cria em mim, ó Deus, um coração puro (Sl 50, 12)

«Grava-me como um selo em teu coração, porque o amor é forte como a morte» (Ct 8,6). Forte como a morte é o amor porque o amor de Cristo é a morte da morte. Da mesma forma, o amor com que amamos a Cristo é, também ele, forte como a morte, porque constitui, à sua maneira, uma morte: uma morte que põe fim à vida velha, em que os vícios são abolidos e as obras mortas são abandonadas. De fato, o amor que temos a Cristo – mesmo estando longe de igualar aquele que Cristo tem por nós – é à imagem e semelhança do seu. Cristo, de fato, «amou-nos primeiro» (1Jo 4,19) e, através do exemplo que nos deu, tornou-se para nós um selo, a fim de que nos tornemos conformes à sua imagem.



É por isso que Ele nos diz: «Grava-me como um selo em teu coração», como se dissesse: «Ama-me como Eu te amo. Guarda-me no teu espírito, na tua memória, no teu desejo, nos teus suspiros, nos teus gemidos, nos teus soluços. Lembra-te, homem, de que natureza te criei: de quanto te preferi às outras criaturas, de que dignidade de enobreci, de que glória e de que honra te coroei e como te fiz pouco inferior aos anjos e como tudo coloquei sob os teus pés (Sl 8,6-7). Lembra-te, não apenas de tudo o que fiz por ti, mas ainda de tudo aquilo que, de fato, suportei da tua parte, em sofrimento e desprezo. E vê se não és injusto para comigo, não me amando. Quem, de fato, te amou como Eu? Quem te criou, se não Eu? Quem te resgatou, se não Eu?»



Senhor, arranca de mim este coração de pedra, este coração gelado, este coração incircunciso. E dá-me um coração novo, um coração de carne, um coração puro (Ez 36,26). Tu, que purificas o coração e que amas o coração puro, vem possuir e habitar o meu coração; envolve-o e enche-o, Tu que ultrapassas tudo o que sou e que me és mais interior e íntimo do que eu mesmo. Tu, o modelo da beleza e o selo da santidade, confirma o meu coração à tua imagem, marca o meu coração com a tua misericórdia, Deus do meu coração, meu refúgio e minha herança para sempre (Sl 72,26)”.


Balduíno de Ford, Abade Cisterciense
Homilia X, sobre Ct 8, 6