domingo, 28 de fevereiro de 2010

A Quaresma e o Silêncio – Chave para o Coração de Deus



QUARESMA 2010

«O verdadeiro silêncio é a chave para o imenso Coração chamejante de Deus»

“O único meio que pode ajudar o homem a encontrar resposta sobre si mesmo e sobre Aquele que o fez à sua imagem é o silêncio, a solidão — numa palavra, o deserto. O homem de hoje precisa destas coisas muito mais do que os eremitas de outrora.

Se quisermos estar preparados para dar testemunho de Cristo nas ruas, praças e mercados, onde nossa presença cristã está em contínua demanda, precisamos de silêncio. Se quisermos estar disponíveis, não só fisicamente, mas sobretudo espiritualmente, pela simpatia, pela amizade, compreensão e doação total da caridade, precisamos de silêncio. Se pretendemos dar aos outros a verdadeira e completa hospitalidade que não se contenta com a oferta de casa e alimento, mas abre também as portas da mente, do coração e do espírito, precisamos de silêncio. O verdadeiro silêncio é o homem em busca de Deus!

O verdadeiro silêncio é uma ponte suspensa que o espírito, enamorado de Deus, constrói sobre a escuridão e os abismos de sua própria mente; sobre as assustadoras ravinas e precipícios da tentação; sobre as gargantas escuras dos medos e terrores que o impedem de chegar a Deus.

O verdadeiro silêncio é a linguagem dos amantes. Somente quem ama compreende toda a sua beleza e alegria. O verdadeiro silêncio é um jardim fechado onde — e somente aí! — o espírito floresce com Deus e para Deus. É uma fonte selada que somente o coração pode desvendar e abrir para saciar sua sede do infinito.

O verdadeiro silêncio é a chave para o imenso Coração chamejante de Deus. É o começo de um "namoro" que só terminará na união final e definitiva com o Amado. Um tal silêncio é santo; é a oração que paira acima de todas as preces e chega à oração final da constante presença de Deus, atingindo as alturas da contemplação, quando o espírito, finalmente em paz total, vive alimentado apenas pela vontade do Ser Supremo que ele ama.

Este silêncio sai para fora em forma de caridade que transborda no serviço do próximo, sem considerar o custo e a dificuldade. Testemunhando Cristo em toda parte, o silêncio, em forma de disponibilidade, se tornará fácil e agradável, porque a alma começa a ver a face do seu Amor em cada pessoa. A hospitalidade será profunda e real porque um coração em silêncio é um coração que ama e um coração que ama é um imenso abrigo aberto para o mundo inteiro.

Um silêncio assim não é prerrogativa exclusiva de mosteiros e conventos. Deveria existir em todas as pessoas que amam a Deus, em cada cristão que se volta para o mistérios da sua redenção, em cada judeu que escuta, dentro de si, as vozes dos antigos profetas, em cada alma, enfim, que se levanta e parte em busca da verdade, em busca de Deus. Porque Deus não está no meio do barulho e da confusão quando estes dois se instalam no próprio coração do homem.

Desertos, silêncio, solidão não são necessariamente lugares, mas sim um estado de espírito e de coração. Como tal podem ser encontrados em pleno bulício das cidades, a qualquer hora ou qualquer dia. Basta que sintamos a tremenda necessidade que deles temos e saiamos a sua procura. Serão, talvez, pequenos desertos, pequenos "poços de silêncio" na imensa vastidão do barulho, mas se estivermos dispostos a descer até eles, hão de trazer-nos uma experiência santificante e alegre como a que sentiram os primeiros ermitães, nos desertos da Tebaida, algo parecido com a solidão infinitamente rica, fecunda e fervilhante de forças criadoras, na qual o próprio Deus se refugia. Porque somente Deus torna santos, alegres e fecundos todos os silêncios e todos os desertos”.



Serva de Deus Catherine de Hueck Doherty
Fundadora de Madonna House
Deserto Vivo:Poustínia, pp.28-30
Ed.Loyola, São Paulo, 1989

A Quaresma e o Silêncio – O silêncio espiritual nasce da procura do Deus vivo



QUARESMA 2010


« O silêncio espiritual nasce da procura do Deus vivo »


“O silêncio espiritual nasce do desejo de cumprir o mandamento de Cristo: «Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças» (Mt 12,33). Esse silêncio nasce da procura do Deus vivo, naquele que se quer libertar das tentações deste mundo para encontrar o Senhor na plenitude do amor, para viver em sua presença na pura oração. Senhor, como poderia eu não te procurar? Tu revelaste-te à minha alma de uma forma tão incrível! Fizeste-a prisioneira do teu amor, ela não pode esquecer-te. Com efeito, repentinamente, a alma reconhece o Senhor no Espírito Santo; quem pode descrever esta alegria e esta consolação? O Espírito Santo age no homem todo, na inteligência, na alma e no corpo; por isso, Deus é reconhecido na terra como no céu. Na sua infinita bondade, o Senhor concedeu-me esta graça, a mim que sou pecador, para que os homens o conheçam e se voltem para ele”.


São Siluane de Athos
Dos Escritos Espirituais
Pe. Sofronio, o Sterets
“São Siluan, o Antonita”

A Quaresma e o Silêncio – O silêncio interior é imprescindível a nossa vocação de união com Deus



QUARESMA 2010

«O silêncio interior é imprescindível a nossa vocação de união com Deus»

Silêncio não significa só exclusão de palavras e não pode ser considerado somente no seu aspecto negativo. Silêncio não é um estado de esquecimento, de vazio, de “nada”; ao contrário, o silêncio ao qual nos referimos distingue-se pelo seu caráter positivo, é uma linguagem que transborda de uma presença impregnada de vida, de solicitude, de oblação.

O silêncio a que aludimos, “faz falar pouco para ouvir muito”. A necessidade de se derramar em palavras inúteis vai diminuindo progressivamente, porque existe uma vida interior cada vez mais intensa, que se vai impregnando da pura atenção ao OUTRO que é Deus...É o silencio do egoísmo, das susceptibilidades, das vontades e dos caprichos. Este silêncio é o comportamento indispensável para escutar Deus e para acolher a sua comunicação, é a atmosfera VITAL da Oração, da Salmodia e de todo Culto Divino.

Este silêncio é progressivo, amassado primeiramente em muito domínio, quer da língua, quer da imaginação e da memória. É deixar-se avassalar por uma Presença que não é outra senão Deus e daqui radica o silencio do coração.

A necessidade e o valor do silêncio da língua – que é o mais elementar - encontram na Sagrada Escritura um precioso testemunho. A necessidade e o valor do silêncio da língua – que é o mais elementar - encontram na Sagrada Escritura um precioso testemunho. Jesus, ao calar-se diante de Pilatos, eleva o silêncio a uma virtude heróica. Ele recorda com os seus ensinamentos a importância do silêncio. Retira-se para lugares desérticos e silenciosos para passar a “noite em oração” (Lc. 6,12).

O silêncio da palavra e das manifestações exigentes (violentas) do egoísmo dá passo ao silencio interior. Segundo a Patrística citaremos apenas alguns Padres da Igreja a saber:

1-S.Gregório de Nazianzo recorda o “ deserto como fonte de progresso para Deus, de Vida Divina” e chama ao Louvor a “ filha do Silêncio”.
2-S.Basílio recorda o valor purificador e a vantagem da “solidão silenciosa” para o encontro com Deus
3-S.João Clímaco insere o silêncio na “escala de perfeição” (10º, 11º e 12º)
4- Sto.Ambrósio fala da “taciturnidade como remédio da alma” e compara a “quem fala muito com uma vasilha furada incapaz de conservar os segredos do Rei”
5-Sto.Agostinho fala da “alegria de escutar silenciosamente”

Na tradição Monástica o costume de retirar-se para o deserto para escutar Deus, praticado pelos primeiros eremitas e monges, já remonta aos tempos de Moisés, Elias e os demais profetas Tanto na vida eremítica como na vida cenobítica e vidas mistas, o silêncio é um elemento fundamental para se criar um clima de atenção a Deus. Na vida cenobítica, desde os primeiros séculos, o silêncio aparece como preceito de perfeição, moralmente indispensável. Cassiano prescreve observar o silêncio rigoroso durante a noite, à mesa, no Coro e em todo o tempo que se emprega a cantar o Ofício Divino.

No nosso tempo temos exemplos luminosos de uma atração particular pelo silêncio: Santa Teresinha do Menino Jesus, Charles de Foucauld, mas principalmente a Beata Isabel da Trindade, chamada também a “Santa do Silêncio”, que sentiu em si a missão de atrair as almas ao silêncio e ao recolhimento interior.

O Silêncio interior

O silêncio interior, como se depreende da palavra que o classifica, é aquele que diz respeito ao nosso mundo interior, íntimo, que pode ser ajudado, só minimamente, pelo silêncio exterior. Apesar daquele não poder, de modo algum depender deste, acontece muitas vezes que se desencadeia o crescimento do silêncio interior a partir do exterior, porque o exterior criou um certo ambiente que propiciou a atração da alma para o interior. Mas prestemos atenção ao reino interior, que há que pacificar e silenciar:

a)Silêncio da Imaginação e da memória: Enquanto o ser humano tem poder para “implantar” o silêncio nos seus movimentos exteriores, nos ruídos que a sua atividade pode suscitar, aqui, no ‘reino interior, tem pouco poder. É todo um mundo em que só à força de paciência, perseverança e constantes esforços, poderá conseguir alguma coisa. À partida, temos de saber que o verdadeiro silêncio só pode ser outorgado por Deus, e normalmente isto acontece só depois de muitos esforços da nossa parte. Ele é um dom para a Contemplação.

O encontro com Deus exige a exclusão das dissipações da atividade interior, exercendo sobre a mesma um controle efetivo. O homem, em primeiro lugar, tem de criar o ‘vazio’ nas suas ‘potências’ interiores desocupar a alma de uma forma muito ativa, esforçar-se constantemente por dominar – quanto dele possa depender - pensamentos, desejos, que normalmente se vão fixar naquilo que ama ou teme. É o “desocupar o Palácio da alma” de Santa Teresa, de recordações interiores que perturbam a paz, empregando todas as suas forças para entrar no recolhimento ativo. Todo este trabalho de ‘silenciamento’ das nossas faculdades ‘sensíveis’ é muito necessário e até imprescindível para que o homem se encontre nas condições mínimas da verdadeira escuta.

b)Silêncio com as criaturas e Silencio do coração: Este silêncio é um dos mais necessários para aquele que procura “ver” a Deus, possuir o coração puro requerido para a pura contemplação. É também chamado o silêncio do amor vigilante, que consiste em reagir, vigorosa e energicamente, contra todo o afeto puramente natural que se manifesta em pensamentos, conversas “interiores”, desejos demasiado ardentes, porque demasiado sensíveis, ‘à flor da pele’, como se costuma dizer, para se dirigir, com um movimento de fé e amor, para Deus. O homem deve vigiar o desejo de satisfações contrárias à Vontade de Deus : prazeres, gostos, preferências, simpatias absorventes, etc, tudo aquilo que dificulta a adesão total ao Senhor É necessário fazer calar estes desejos que dividem o coração humano através do exercício do ‘amor virginal’, desinteressado e disposto a renunciar a esses ‘objetos amados’, desejados, sacrificando as próprias exigências egoístas pelo bem alheio, através do dom generoso de si mesmo.

Ao nível sobrenatural, há que mortificar a devoção demasiado ardente, sensível, simplificar a sua relação com Deus (não multiplicar as orações, as penitências) e aceitar em paz as purificações que se manifestam de mil e uma maneiras no dia-a-dia, e tudo aquilo que, na Providência de Deus, Ele permite para nos livrar cada vez mais dos nossos apegos e maus hábitos a fim de estarmos livres para o Amor.

c) Silêncio do espírito e do juízo: A vida contemplativa do homem, quando chega a um certo nível de perfeição, pode resumir-se num só ato: abrir-se e escutar Deus, para receber a irradiação da Sua Luz, que só será possível se a inteligência permanecer livre e vazia de raciocínios, “razões” e juízos naturais, de investigações intelectuais e de intenções alheias a Deus . Este silêncio de que nos fala S.João da Cruz na Noite do Espírito significa o despojamento total do intelecto, é o "nescivi" (nada sei) de S.Paulo e o “apagar qualquer outra luz” de Isabel da Trindade. Antes que Deus intervenha poderosamente com as suas purificações, o homem tem que fazer todo o possível por se purificar ativamente, só assim é que ELE poderá agir, numa alma que se dispôs com o seu próprio trabalho.

O Silêncio Divino

Este silêncio é o silêncio mais precioso que o homem pode alcançar. Ele brota de uma vontade já totalmente decidida de se estar sempre unido com Deus, na mais completa abnegação pessoal. É um dom oferecido pelo próprio Deus a todo aquele que se deixou trabalhar pelo seu FOGO (grandes ou pequenas purificações; aquelas descritas por João da Cruz ou aquelas de que o Santo não fala; tudo o que faz parte da nossa vida pode transformar-se em momento privilegiado de purificação = santificação).

O grande teólogo P. Lacordaire Lagrange, deixou escrito que este silêncio representa o supremo esforço da alma que sair de si mesma, sem saber nem poder já expressar-se. A pessoa, para atingir este nível que lhe é oferecido por Deus, deverá antes ter-se abeirado do último e supremo esforço humano na colaboração com o trabalho de Deus; só depois é que as ‘núpcias espirituais’ acontecem.

Este silêncio não deve ser um silêncio qualquer, mas um silêncio amoroso, porque relacionado diretamente com a Pessoa Divina.

Quando a intimidade divina é profunda, o silêncio distingue-se pela sua “pureza”, onde os ídolos e os desejos alheios a Deus começam a estar ausentes. O silêncio do coração torna-se em ‘puro desejo de Deus’, ' saudades de Deus ', reflexo de um coração não dividido. O silêncio que se vai alastrando a todo o ser da pessoa, é o próprio Deus que avança na posse da alma.

Assim, o silêncio interior é como o nosso ‘oxigênio’, é imprescindível a nossa vocação esponsal, vocação de pura união com Deus.


O Silêncio
Carmelo da SS. Trindade da Guarda

A Quaresma e o Silêncio – Manter-se em silêncio na presença de Deus



QUARESMA 2010


«Manter-se em silêncio na presença de Deus»


"A mais alta perfeição nesta vida, diz um piedoso autor, consiste em ficar de tal modo unido a Deus, que a alma com todas as suas faculdades e suas potências fique recolhida em Deus; que suas afeições unidas nas alegrias do amor não encontrem descanso senão na posse do criador. A imagem de Deus imprensa na alma é com efeito constituída pela razão, pela memória e pela vontade. Enquanto estas faculdades não trazem a imagem perfeita de Deus, elas não se assemelham a Ele como no dia da Criação. A forma da alma é Deus, que deve imprimir-se ai como o carimbo na cera, como a marca em seu objeto. Ora, isto só se realiza plenamente se a razão estiver plenamente esclarecida pelo conhecimento de Deus; se a vontade estiver presa ao amor do Bem soberano; se a memória estiver totalmente absolvida na contemplação e no gozo da eterna felicidade. E como a glória dos bem-aventurados não é outra coisa senão a perfeita posse desse estado, fica claro que a posse começa desde bens constitui a perfeição nesta vida. Para realizar este ideal, é preciso manter-se recolhido dentro de si mesmo, manter-se em silêncio na presença de Deus, enquanto a alma se abisma, se dilata, se inflama, se derrete Nele com uma plenitude sem limites".


Beata Elisabete da Trindade
Obras completas, Ed.Vozes,1994

A Quaresma e o Silêncio – O valor do silêncio, um momento único de encontro com Deus



QUARESMA 2010

«O valor do silêncio, um momento único de encontro com Deus»


O valor do silêncio

Três vezes por dia, tudo pára na colina de Taizé: o trabalho, os estudos bíblicos, os intercâmbios. Os sinos chamam à igreja para rezar. Centenas, por vezes milhares de jovens de países muito diversos através do mundo, rezam e cantam com os irmãos da Comunidade. A Bíblia é lida em várias línguas. No centro de cada oração comunitária, um longo tempo de silêncio é um momento único de encontro com Deus.

Silêncio e oração

Se nos deixarmos guiar pelo mais antigo livro de oração, os Salmos bíblicos, nós encontramos aí duas formas principais de oração: por um lado o lamento e o pedido de socorro, por outro o agradecimento e o louvor. De forma mais oculta, há um terceiro tipo de oração, sem súplicas nem louvor explícito. O Salmo 131, por exemplo, não é senão calma e confiança: «Estou sossegado e tranquilo. Espera no Senhor, desde agora e para sempre!».

Por vezes a oração cala-se, pois uma comunhão tranquila com Deus pode abster-se de palavras. «Estou sossegado e tranquilo, como uma criança saciada ao colo da mãe; a minha alma é como uma criança saciada.» Como uma criança saciada que parou de gritar, junto da sua mãe, assim pode estar a minha alma na presença de Deus. Então a oração não precisa de palavras, nem mesmo de reflexões.

Como chegar ao silêncio interior? Por vezes calamo-nos, mas, por dentro, discutimos muito, confrontando-nos com interlocutores imaginários ou lutando conosco mesmos. Manter a sua alma em paz pressupõe uma espécie de simplicidade: «Já não corro atrás de grandezas, ou de coisas fora do meu alcance.» Fazer silêncio é reconhecer que as minhas inquietações não têm muito poder. Fazer silêncio é confiar a Deus o que está fora do meu alcance e das minhas capacidades. Um momento de silêncio, mesmo muito breve, é como um repouso sabático, uma santa pausa, uma trégua da inquietação.

A agitação dos nossos pensamentos pode ser comparada com a tempestade que sacudiu o barco dos discípulos, no Mar da Galiléia, enquanto Jesus dormia. Também nos acontece estarmos perdidos, angustiados, incapazes de nos apaziguarmos a nós mesmos. Mas Cristo também é capaz de vir em nosso auxílio. Da mesma forma que falou imperiosamente ao vento e ao mar e que «se fez grande calma», ele pode igualmente acalmar o nosso coração quando está agitado pelo medo e pelas inquietações (Mc 4).

Fazendo silêncio, pomos a nossa esperança em Deus. Um salmo sugere que o silêncio é mesmo uma forma de louvor. Nós lemos habitualmente o primeiro verso do Salmo 65: « A ti, ó Deus, é devido o louvor ». Esta tradução segue a versão grega, mas na verdade o texto hebreu diz: «Para Vós, ó Deus, o silêncio é louvor». Quando cessam as palavras e os pensamentos, Deus é louvado no enlevo silencioso e na admiração.

A Palavra de Deus: trovão e silêncio

No Sinai, Deus falou a Moisés e aos Israelitas. Trovões, relâmpagos e um som de trompa cada vez mais forte, precediam e acompanhavam a Palavra de Deus (Êxodo 19). Séculos mais tarde, o profeta Elias volta à mesma montanha de Deus. Ali revive a experiência dos seus antepassados: tempestade, tremores de terra e fogo, e ele prontifica-se a escutar Deus falando-lhe no trovão. Mas o Senhor não está nos fenômenos tradicionais do seu poder. Quando o grande barulho pára, Elias ouve «o murmúrio de uma brisa suava», e então Deus fala-lhe (1 Reis 19).

Deus fala com voz forte ou numa brisa de silêncio? Temos de tomar como modelo o povo reunido ao pé do Sinai ou o profeta Elias? Provavelmente isto é uma falsa alternativa. Os fenômenos terríveis que acompanham o dom dos dez mandamentos sublinham a sua importância. Guardar os mandamentos ou rejeitá-los é uma questão de vida ou de morte. Quem vê uma criança correr em direção a um carro que passa, tem muitas razões para gritar tão alto quanto consiga. Em situações análogas, os profetas anunciaram a palavra de Deus de forma a fazer zumbir as orelhas.
Palavras ditas com voz forte fazem-se ouvir, impressionam. Mas sabemos bem que elas quase não tocam os corações. Em lugar de acolhimento, elas encontram resistência. A experiência de Elias mostra que Deus não quer impressionar, mas ser compreendido e acolhido. Deus escolheu «o murmúrio de uma brisa suave» para falar. É um paradoxo:

Deus é silencioso e no entanto fala

Quando a palavra de Deus se faz «o murmúrio de uma brisa suave», ela é mais eficaz do que nunca para transformar os nossos corações. A tempestade do monte Sinai abria fendas nos rochedos, mas a palavra silenciosa de Deus é capaz de quebrar os corações de pedra. Para o próprio Elias, o silêncio súbito era provavelmente mais temível do que a tempestade e o trovão. As poderosas manifestações de Deus eram-lhe, em certo sentido, familiares. É o silêncio de Deus que desconcerta, porque é muito diferente de tudo o que Elias conhecia até então.

O silêncio prepara-nos para um novo encontro com Deus. No silêncio, a palavra de Deus pode atingir os recantos escondidos dos nossos corações. No silêncio, ela revela-se «mais penetrante do que uma espada de dois gumes, penetra até à divisão da alma e do corpo» (Hebreus 4,12). Fazendo silêncio, deixamos de esconder-nos diante de Deus, e a luz de Cristo pode atingir, curar e mesmo transformar aquilo de que temos vergonha.

Silêncio e amor

Cristo diz: «É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei» (João 15,12). Precisamos de silêncio para acolher estas palavras e pô-las em prática. Quando estamos agitados e inquietos, temos tantos argumentos e razões para não perdoar e para não amar facilmente. Mas quando temos «a nossa alma em paz e silêncio», estas razões desaparecem. Talvez por vezes evitemos o silêncio, preferindo-lhe qualquer barulho, palavras ou distrações quaisquer que elas sejam, porque a paz interior é uma questão arriscada: torna-nos vazios e pobres, dissolve a amargura e as revoltas e leva-nos ao dom de nós mesmos. Silenciosos e pobres, os nossos corações são conquistados pelo Espírito Santo, cheios de um amor incondicional. De forma humilde mas certa, o silêncio leva a amar.


Comunidade de Taizé
http://www.taize.fr/pt

A Quaresma e o Silêncio – Escutar o silêncio a fim de ser perfeito



QUARESMA 2010


«Escutar o silêncio a fim de ser perfeito»


“É melhor calar e ser, do que falar e não ser. É bom ensinar, se aquele que fala, faz. De fato, há um único mestre, Aquele que disse e era. E o que Ele fez, calando, são coisas dignas do Pai.

Aquele que possui verdadeiramente a Palavra de Jesus pode escutar também seu silêncio, a fim de ser perfeito, para realizar o que diz ou para ser conhecido pelo seu silêncio. Nada está escondido para o Senhor, mas até nossos segredos estão junto dele. Portanto, façamos tudo como se Ele morasse dentro de nós, para sermos templos dele e Ele próprio ser o nosso Deus dentro de nós, como o é de fato e como aparecerá diante de nossa face, se o amarmos justamente”.


Santo Inácio de Antioquia
Carta de Sto.Inácio aos Efésios, Cap.XV
Padres Apostólicos, Vol.I, Coleção Patrística, Ed. Paulus

A Quaresma e o Silêncio – Aprender a ouvir Jesus no Seu Silêncio



QUARESMA 2010

«Descobrir no Silêncio a Palavra»

"Quem possui a palavra de Jesus, este em verdade, pode ouvir o seu silêncio, a fim de ser perfeito". Esta encantadora afirmação de Santo Inácio de Antioquia, Bispo e Mártir do século I, é cheia de profundo significado.

Estamos acostumados a buscar o Senhor na sua Palavra. Obviamente, Palavra do Senhor são as Escrituras Santas. Mas, palavras do Senhor para nós, de certo modo, é tudo quanto nos vai acontecendo e nos fazendo divisar a presença de Deus, que conduz a nossa vida. Isso é um grande passo: aprender a escutar o Senhor nas suas palavras.

Mas, há ainda um passo maior, mais perfeito: é quando não compreendemos, quando tudo parece sem sentido, noite fechada, quando tudo parece silêncio de Deus para nós... Quando, angustiados e quase sufocados, exclamamos: "Onde está Deus? Cristo meu, por que te escondes?" O silêncio de um fracasso, de uma doença absurda, de uma humilhação, de uma falta, de uma chaga moral... Também aí, é necessário aprender a escutar Aquele que nos fala na Palavra e nos fala no Silêncio: "Quem possui a palavra de Jesus, este em verdade, pode ouvir o seu silêncio, a fim de ser perfeito" - este o sentido da frase de Santo Inácio. Quando escreveu tal pérola preciosa, ele mesmo estava sendo levado para Roma por dez soldados, para ser jogado às feras. Ele, santo Bispo e Mártir de Cristo, foi perfeito, pois soube escutar o Senhor na Palavra e no tremendo Silêncio. Aliás, para isso escutamos tanto a Palavra do Senhor: para na hora do seu Silêncio aprendermos a ouvi-lo também aí.

Concede-nos, Cristo-Deus, esta graça! A ti a glória!


Dom Henrique Soares da Costa
Bispo Titular de Acúfica e Auxiliar de Aracaju

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Quaresma, um "Banquete cristão"



QUARESMA 2010


«Quaresma, um banquete cristão»


“Até os momentos mais sombrios da Liturgia são cheios de alegria, e a Quarta-feira de Cinzas, início do jejum quaresmal, é um dia de felicidade, um banquete cristão. Não pode ser de outro modo, uma vez que faz parte do grande ciclo Pascal.

O Mistério Pascal é, acima de tudo, o mistério da vida no qual a Igreja, ao celebrar a morte e a ressurreição de Cristo, penetra no Reino de Vida que Ele implantou, de uma vez por todas, por meio de sua vitória definitiva sobre o pecado e a morte. Devemos lembrar-nos do sentido original da Quaresma, ver sacrum, a “fonte sagrada” da Igreja na qual os catecúmenos eram preparados para o batismo, e os penitentes públicos purificados, pela penitência, para a restauração da sua vida sacramental em comunhão com o resto da Igreja. Portanto, a Quaresma, é mais tempo de cura do que de punição”.


Thomas Merton, OCSO
Tempo e Liturgia, p.116
Ed.Vozes, Petrópolis

Quaresma 2010 – Mensagem para a Quaresma 2010 do Papa Bento XVI



QUARESMA 2010

Queridos irmãos e irmãs,

Todos os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma revisão sincera da nossa vida á luz dos ensinamentos evangélicos. Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões sobre o tema vasto da justiça, partindo da afirmação Paulina: A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cf Rm 3,21 – 22 ).

Justiça: “dare cuique suum”

Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra “justiça” que na linguagem comum implica “dar a cada um o que é seu – dare cuique suum”, segundo a conhecida expressão de Ulpiano, jurista romana do século III. Porém, na realidade, tal definição clássica não precisa em que é que consiste aquele “suo” que se deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa não lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência em plenitude, precisa de algo mais intimo que lhe pode ser concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado á sua imagem e semelhança. São certamente úteis e necessários os bens materiais – no fim de contas o próprio Jesus se preocupou com a cura dos doentes, em matar a fome das multidões que o seguiam e certamente condena a indiferença que também hoje condena centenas de milhões de seres humanos á morte por falta de alimentos, de água e de medicamentos -, mas a justiça distributiva não restitui ao ser humano todo o “suo” que lhe é devido. Como e mais do que o pão ele de fato precisa de Deus. Nora Santo Agostinho: se “a justiça é a virtude que distribui a cada um o que é seu…não é justiça do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus” (De civitate Dei, XIX, 21).

De onde vem a injustiça?

O evangelista Marcos refere às seguintes palavras de Jesus, que se inserem no debate de então acerca do que é puro e impuro: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do interior do coração dos homens, que saem os maus pensamentos” (Mc 7,14-15.20-21). Para além da questão imediata relativo ao alimento, podemos entrever nas reações dos fariseus uma tentação permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa exterior. Muitas das ideologias modernas, a bem ver, têm este pressuposto: visto que a injustiça vem “de fora”, para que reine a justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a sua atuação: Esta maneira de pensar - admoesta Jesus – é ingênua e míope. A injustiça, fruto do mal, não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal. Reconhece-o com amargura o Salmista: ”Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-se no pecado” (Sl. 51,7). Sim, o homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, adverte dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o egoísmo, consequência do pecado original. Adão e Eva, seduzidos pela mentira de Satanás, pegando no fruto misterioso contra a vontade divina, substituíram á lógica de confiar no Amor aquela da suspeita e da competição; á lógica do receber, da espera confiante do Outro, aquela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho (cf Gn 3,1-6) experimentando como resultado uma sensação de inquietação e de incerteza. Como pode o homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao amor?

Justiça e Sedaqah

No coração da sabedoria de Israel encontramos um laço profundo entre fé em Deus que “levanta do pó o indigente (Sl 113,7) e justiça em relação ao próximo. A própria palavra com a qual em hebraico se indica a virtude da justiça, sedaqah, exprime-o bem. De fato sedaqah significa, dum lado a aceitação plena da vontade do Deus de Israel; do outro, equidade em relação ao próximo (cf Ex 29,12-17), de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao órfão e á viúva (cf Dt 10,18-19). Mas os dois significados estão ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais é senão a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da miséria do seu povo. Não é por acaso que o dom das tábuas da Lei a Moisés, no monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar Vermelho. Isto é, a escuta da Lei, pressupõe a fé no Deus que foi o primeiro a ouvir o lamento do seu povo e desceu para o libertar do poder do Egito (cf Ex s,8). Deus está atento ao grito do pobre e em resposta pede para ser ouvido: pede justiça para o pobre (cf. Ecl 4,4-5.8-9), o estrangeiro (cf Ex 22,20), o escravo (cf Dt 15,12-18). Para entrar na justiça é portanto necessário sair daquela ilusão de auto – suficiência , daquele estado profundo de fecho, que á a própria origem da injustiça. Por outras palavras, é necessário um “êxodo” mais profundo do que aquele que Deus efetuou com Moisés, uma libertação do coração, que a palavra da Lei, sozinha, é impotente a realizar. Existe portanto para o homem esperança de justiça?

Cristo, justiça de Deus

O anúncio cristão responde positivamente á sede de justiça do homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: “Mas agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus… mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os crentes. De fato não há distinção, porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como vitima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé” (3,21-25).

Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os outros. O fato de que a “expiação” se verifique no “sangue” de Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si “a maldição” que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que toca a Deus (cf Gl 3,13-14). Mas isto levanta imediatamente uma objeção: que justiça existe lá onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira cada um não recebe o contrário do que é “seu”? Na realidade, aqui manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante. Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidencia que o homem não é um ser autárquico, mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto-suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência – indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.

Compreende-se então como a fé não é um fato natural, cômodo, obvio: é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitencia e da Eucaristia. Graças á ação de Cristo, nós podemos entrar na justiça “maior”, que é aquela do amor (cf Rm 13,8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar.

Precisamente fortalecido por esta experiência, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.

Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Tríduo Pascal, no qual também este ano celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autentica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar a justiça. Com estes sentimentos, a todos concedo de coração, a Bênção Apostólica.


Papa Bento XVI
Mensagem Quaresma 2010

Quaresma– Chiara Lubich: Esforçar-nos para entrar pela porta estreita



QUARESMA 2010


Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir (Lc 13, 24)


«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

Várias vezes, Jesus comparou o Paraíso a uma festa de casamento, a uma reunião de família à volta da mesa. De fato, na nossa experiência humana, são estes os melhores momentos e os mais serenos. Mas quantos entrarão no Paraíso, quantos se sentarão na “sala do banquete”?

É a pergunta que, um dia, alguém dirige a Jesus: “Senhor, são poucos os que se salvam?”. Como já tinha feito outras vezes, Jesus vai para além da discussão e coloca cada um diante da decisão que deve tomar. Convida-o a entrar na casa de Deus.

Mas isso não é fácil. A porta para entrar é estreita e fica aberta por pouco tempo. Na verdade, para seguir Jesus é necessário renegar-se, renunciar – pelo menos espiritualmente – a si mesmo, às coisas, às pessoas. Mais ainda: é preciso pegar na cruz, como Ele fez. Um caminho difícil, sem dúvida, mas que todos – com a graça de Deus – podem percorrer.


«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

É mais fácil entrar pela “porta larga” e pelo “caminho espaçoso” de que Jesus fala noutro lugar, mas esse caminho pode conduzir à “perdição”. Neste nosso mundo secularizado, saturado de materialismo, de consumismo, de hedonismo, de vaidades, de violência, tudo parece ser permitido. Tende-se a satisfazer todas as exigências, a ceder a todos os compromissos para atingir a felicidade.

Mas nós sabemos que só se obtém a verdadeira felicidade amando. E também que a renúncia é a condição necessária para o amor. É preciso sermos podados para dar bons frutos. É preciso morrermos a nós mesmos para viver. É a lei de Jesus, um Seu paradoxo. A mentalidade corrente invade-nos como a enchente de um rio e nós devemos ir contra a corrente: saber renunciar, por exemplo, à avidez de possuir, à rivalidade preconcebida, à difamação do adversário. Mas também realizar o nosso trabalho com honestidade e generosidade, sem lesar os interesses dos outros. Saber discernir aquilo que se pode ver na televisão ou aquilo que se pode ler, etc.


«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

Para quem se deixa levar por uma vida fácil e não tem a coragem de enfrentar o caminho proposto por Jesus, abre-se um futuro triste. Também isto é mencionado no Evangelho. Jesus fala-nos do sofrimento daqueles que serão deixados de fora. Não bastará vangloriarmo-nos de pertencer a uma certa religião ou contentarmo-nos com um cristianismo de tradição. É inútil dizermos: “Comemos e bebemos contigo...”. A salvação é, antes de mais, uma dádiva de Deus, mas que cada um deve conquistar com esforço.

Será duro ouvir dizer: “(Não vos conheço), não sei de onde sois”. Será solidão, desespero, absoluta falta de relacionamentos, o desgosto enorme de ter tido a possibilidade de amar e de já não poder amar. Um tormento do qual não se vê o fim porque nunca terá fim: “pranto e ranger de dentes”.

Jesus avisa-nos porque deseja o nosso bem. Não é Ele que fecha a porta. Somos nós que nos fechamos ao Seu amor. Ele respeita a nossa liberdade.


«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

Se a porta larga conduz à perdição, a porta estreita abre-se de par em par à verdadeira felicidade. Depois de cada Inverno desponta a Primavera. Sim, devemos viver com prontidão a renúncia que o Evangelho exige, pegar todos os dias na nossa cruz. Se soubermos sofrer com amor, em unidade com Jesus que assumiu todas as nossas dores, experimentaremos um paraíso antecipado.

Foi assim também para Roberto, quando esteve na última audiência do processo contra quem tinha causado a morte do pai, quatro anos antes. Depois da sentença de condenação, o autor do atropelamento, juntamente com a mulher e o pai, mostrava-se muito deprimido. “Gostaria de me aproximar daquele homem, vencendo o orgulho que me dizia que não; fazer-lhe sentir que estava com ele”.

Mas a irmã disse-lhe: “São eles que nos devem pedir desculpa...”. Roberto convence-a e, juntos, vão ter com a família “adversária”: “Se isto puder aliviar o vosso espírito, saibam que não temos nenhum rancor para convosco”. Apertam as mãos uns dos outros com força. “Sinto-me invadido pela felicidade: soube aproveitar a ocasião para olhar para o sofrimento dos outros, esquecendo o meu”.


Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares
Palavra de vida, Ago de 2004

Quaresma, um farol que adverte e ilumina o horizonte da Páscoa



QUARESMA 2010


«Quaresma, um farol que adverte e ilumina o horizonte da Páscoa»


Começamos a Santa Quaresma. Este tempo não é um fim mas um caminho. Sua máxima está em nos prepararmos para a grande Festa da Páscoa.

Se queremos que a Semana Santa tenha algum impacto em nós temos de procurar fazer destas semanas uma sensibilização para viver o que nos espera no horizonte de Jerusalém, na mesa do Cenáculo, no Monte do Gólgota ou detrás da pedra deslocada do Sepulcro na manhã da Páscoa. Todo acontecimento notável merece uma preparação não menos importante.

Não podemos ficar, como aqueles turistas que, olhando absortos o farol que piscava luz não percebiam que, às suas costas, tinham todo o mar. A Quaresma é essa possibilidade que Deus nos oferece para que, através da sua Palavra, da conversão e da penitência, da oração e das obras de caridade, trabalhemos um bom terreno no coração e na alma de cada um para que Jesus não passe ao largo.

Não podemos contentar-nos com o rito mágico das cinzas e ignorar a mensagem do Evangelho: convertei-vos e crede no Evangelho!

Não é suficiente buscar com o dedo um rastro de cinza a nossa frente e não mergulhar no coração para ver no que tenho que mudar.

Não é aceitável levantar a mão até o cabelo para comprovar se o sacerdote nos impôs cinza em abundância e não elevá-la para ajudar nas situações de desamparo ou em outras de urgente necessidade.

A Quaresma, com a quarta-feira de cinzas como início, é um tempo com um duplo movimento: até Deus e até o irmão.

Até Deus, porque necessitamos de sua Presença. Por isso temos de intensificar nossa assiduidade à eucaristía, nossa busca por espaços de silêncio em uma Igreja aberta.

Até o irmão, porque, se Deus desceu à terra, por sua Encarnação em Maria, na pessoa de Jesus, não foi somente para recordar-nos que existia um céu mas também que somos irmãos e que o espírito das bem-aventuranças tem de marcar o itinerário da nossa existência. Se Deus deu um tão grande salto vertiginoso, não poderíamos nós dar um também, embora menor, de uma vida medíocre para uma uma existência melhor?

A Quaresma, nesse sentido, pode nos ajudar a usar o metro com nós mesmos antes de utilizar o metro e meio com os demais. A cinza é queimar as folhas e o artificio para que Deus possa em verdade fazer grandes obras em nós.

A Quaresma, que por isso mesmo não tem mais brilho que o conduzir-nos à Páscoa, é esse exercicio de saúde mental, espiritual e até física que todos nós, cristãos, temos que realizar para viver e contemplar em toda a sua intensidade a vida de Jesus de Nazaré: sua Paixão, Morte e Resurreição.

Mas mau será, voltando ao exemplo do turista e do farol, que fiquemos sacudindo a cinza do rosto, encurvados na via crucis, preocupados pelo pescado e despreocupados com revestir nossa vida e convertê-la com a Palavra de Deus durante estes próximos quarenta dias. Deus nos quer renovados, firmes em nossa fé, dispostos inclusive a passar pelo deserto e, sobretudo, a valorizar esse ato de loucura de Seu grande Amor que se deixará cravar em uma cruz.

Nesse sentido, não se estará mal, se depois de recebermos as cinzas, beijarmos o lecionário ou a Biblia, e nos persignarmos com água benta com o desejo de ser novas pessoas para viver em primeiro plano a Paixão, Morte e Resurreição de Jesus.


Padre Javier Leoz
Site Javier Leoz

Quaresma, um tempo para conhecer Jesus



QUARESMA 2010

«Quaresma, um tempo para conhecer Jesus»


Jesus, o centro da Quaresma

O sagrado tempo da Quaresma, tempo de caminho para bem celebrar a santa Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Jesus é o centro da Quaresma: é para nos unir a Ele no seu deserto que entramos neste caminho, é para ter seus sentimentos e atitudes e poder, assim, participar plenamente da celebração de sua Páscoa que caminhamos nestes quarenta dias de combate!

Portanto, viver com seriedade o tempo quaresmal é colocar-se espiritualmente a caminho para crescer naquele conhecimento interior de Jesus, conhecimento saboroso, conhecimento ungido pelo Santo Espírito, conhecimento que ultrapassa de muito o simples conhecimento exterior adquirido pelo estudo. Deste conhecimento bendito falou-nos a oração da Missa de hoje, que pedia a Deus: “que ao longo desta Quaresma possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder ao seu amor por uma vida santa”.


Combate espiritual para conhecer Jesus

Não se chega a este conhecimento amoroso de Jesus sem combate espiritual, sem entrar com Ele no deserto para lutar, sem com Ele vencer nossas tentações.

Escutamos que o nosso Salvador lutou, queremos seguir o Salvador sem lutar? Escutamos que Ele jejuou, e desejamos ser seu discípulo numa vida fácil e sem disciplina interior e exterior, espiritual e corporal?

Vejamos como o Senhor combateu! Satanás propõe ao nosso Jesus um caminho que não é o do Pai, mas sim o da lógica humana: a facilidade de transformar pedra em pão e, assim, saciar-se, escapando da disciplina e da obediência na busca da vontade de Deus; propõe o caminho da aliança com os grandes, com os poderes do mundo para ser aceito e triunfar, ao invés do caminho da fidelidade humilde e trabalhosa ao desígnio do Senhor Deus; propõe o sucesso fácil, a qualquer custo, a busca do aplauso, ao invés da humildade de deixar que Deus seja o centro de nossa existência.

Em uma palavra: a grande tentação de Jesus era ser um Messias do seu jeito, do jeito de uma lógica humana e não do jeito de Deus! Mas, não é esta também a nossa tentação, não é este o nosso desafio: viver do nosso modo ao invés de viver do modo de Deus? Fazer do nosso jeito ao invés de convertermo-nos ao jeito do Senhor?

Eis o trabalho quaresmal: converter nossa vida ao Senhor, deixando-nos a nós, como Jesus deixou-se a si mesmo para abraçar o querer de Deus, como Jesus, por causa de Jesus e em Jesus! Isto é converter-se, isto é mudar de vida, isto é ser cristão real e verdadeiramente! Mas, não faremos tal passo sem reconhecer realmente que nossa vida é dom do Senhor e somente nele poderá ser plena.

Pensemos no fiel israelita da primeira leitura de hoje, que reconhece ser dom de Deus tudo quanto tem e, assim, humildemente, tudo coloca nas mãos do Senhor: “Por isso, agora eu trago as primícias da terra que tu me deste, Senhor!” – assim dizia o judeu piedoso, inclinando-se em adoração ante o Senhor! Assim também tu, cristão, deves fazer, confessando que Jesus é de verdade o Senhor – o teu Senhor – e crendo de verdade que Ele ressuscitou dos mortos! Se tu verdadeiramente fizeres de Jesus o teu rochedo e teu batente, se o invocares no caminho de tua vida, se não teimares em caminhar do teu modo, tu encontrarás em Jesus a salvação e com Ele vencerás toda a tentação e todo o mal. Cumprir-se-á em ti, então, a palavra do Salmista: “Nenhum mal há de chegar perto de ti, nem a desgraça baterá à tua porta!”.


Dom Henrique Soares da Costa
Bispo Titular de Acúfica e Auxiliar de Aracaju

QUARTA-FEIRA DE CINZAS – Esta cruz não é de quarenta dias, mas de toda a vida



QUARESMA 2010

4ª FEIRA DE CINZAS


«Esta cruz não é de quarenta dias, mas de toda a vida»


Iniciamos hoje a observância da Quaresma, como acontece todos os anos. É nosso dever dirigir-vos uma solene exortação, a fim de que a palavra de Deus, proferida por nosso ministério pastoral, alimente o coração daqueles que submeterão seus corpos ao jejum. Possa assim o homem interior, reconfortado por tal alimento, praticar a mortificação exterior, suportando-a com mais coragem. Com efeito, estando nós para celebrar a Paixão do Senhor, já tão próxima, convém à nossa devoção que façamos também para nós uma cruz, para nela refrearmos os prazeres.

Desta cruz deve pender continuamente o cristão no decorrer da vida tão cheia de tentações. Efetivamente, este não é um tempo oportuno para arrancarmos os cravos mencionados num Salmo: Penetras minha carne com os cravos de teu temor (Sl 118 [119], 120: Vulg.). A carne são os maus desejos; os cravos, os preceitos da justiça. Por meio deles, o temor do Senhor prega os nossos maus desejos, crucificando-nos como um sacrifício que lhe é agradável.

Por isso, diz também o Apóstolo: Eu vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (Rm 12, 1). Eis, pois, a cruz na qual não somente o servo de Deus não é confundido, mas também se gloria, dizendo: Quanto a mim, que eu me glorie somente na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo. Por ele, o mundo está crucificado para mim, como eu estou crucificado para o mundo (Gl 6, 14).

Esta cruz não deve permanecer apenas durante quarenta dias, mas por toda a vida. Moisés, Elias e o próprio Senhor jejuaram também quarenta dias. Eles, que representavam a Lei, os Profetas e o próprio Evangelho, indicam-nos desta maneira que não devemos nos conformar nem nos afeiçoar a este mundo, mas, sim, crucificar o velho homem.

Vive sempre desse modo, ó cristão, aqui no mundo. Se não quiseres afundar no limo da terra, não desças dessa cruz. Ora, se é assim que devemos proceder a vida inteira, quanto mais nestes dias da Quaresma! Cumpre, pois, não restringir a cruz a esses quarenta dias, mas transportá-la por toda a vida.


Santo Agostinho
Sermo 205, 1
Patrologia Latina 38, 1039-1040

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

NOSSA SENHORA DE LOURDES – As aparições em Lourdes - Parte I




NOSSA SENHORA DE LOURDES
11 de Fevereiro
Memória Facultativa

AS APARIÇÕES EM LOURDES

Parte I

O dia 11 de fevereiro de 1858 foi o dia escolhido para que o céu se fizesse presente na terra. Esse dia mudaria para sempre, não só a vida de Bernardete, mas marcaria o começo de uma fonte de graça que brotou para toda a humanidade. Fonte que só aumenta com o tempo.

A mãe de Bernardete permitiu que ela fosse, com sua irmã menor chamada Maria e com outra menina, ao campo para buscar lenha seca. O lugar preferido para recolher lenha era um campo que havia em frente à gruta. Bernardete por sua fragilidade física ficou para trás.

As companheiras haviam já atravessado o riacho mas Bernardete não se atrevia a entrar na água porque estava muito fria. As outras insistiam e quando ela começou a descalçar-se, um ruido muito forte, parecido a um vento impetuoso, a obrigou a levantar a cabeça e olhar para todos os lados.

Que é isto?,perguntava. As árvores estavam imóveis.

O ruido do vento começou de novo e mais forte ainda no lado da gruta. Y ali, no fundo da gruta, uma maravilhosa aparição se destacava diante dela. Nesse momento começaram a soar os sinos da Igreja paroquial e se ouvia o canto do Angelus.

Primera Aparição

Numa luz resplandecente como a do sol, mas doce e aprazível como tudo o que vem do céu, uma Senhora prodigiosamente bela se deixou ver por Bernardete. Vestia um traje branco, brilhante e de um tecido desconhecido, ajustado com uma cinta azul; um longo véu branco caía até os seus pés envolvendo todo o corpo. Os pés, de uma limpeza virginal e descalços, pareciam apoiarem-se sobre um roseiral silvestre. Duas rosas brilhantes, da cor de ouro, cobriam a parte superior dos pés da Santíssima Virgem. As suas mãos juntas sobre o peito estavam numa posição de oração fervorosa; tinha entre os dedos um longo rosário branco e dourado com uma bela cruz de ouro.

Tudo Nela irradiava felicidade, majestade, inocência, bondade, doçura e paz. A fronte era lisa e serena, os olhos eram azul celeste cheios de amor e os lábios mostravam suavidade e mansidão. A Senhora parecia saludá-la ternamente enquanto se inclinava ante Bernardete.

Bernardete buscou seu rosário (que trazia sempre em seu bolso), fazendo, como que para defender-se, o sinal da cruz, mas sua mão ficou paralisada. Nesse momento a Virgem tomou a cruz do rosário e fez o sinal da cruz e mostrou a Bernardete que fizesse como ela.

Nesse momento seu braço paralisado ficou livre. A Senhora começou a passar as contas do rosário entre seus dedos e Bernardete começou a rezar o seu. Ao terminar, a Virgem lhe fez sinais com o dedo para que se aproximasse e, entendendo o braço, se inclinou docemente e sorriu como que despedindo-se de Bernardete. A Visião havia desaparecido!

Bernardete perguntou às outras meninas se haviam visto algo e ao responderem que não, lhes contou sua experiência e lhes pediu silêncio. Mas a irmã de Bernardete contou a sua mãe, que não acreditou e ordenou à Bernardete que deixasse de imaginações e lhe proibiu regressar à gruta.
Nessa noite, enquanto rezavam o rosário em família, Bernardete rompeu em prantos, repetindo sua invocação favorita: "Oh, Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós".

Segunda Aparição

No dia 14 de fevereiro, as meninas insistieram em que a mãe lhes desse permissão para voltar à gruta. Todos pensavam que o que havia se passado com Bernardete era um engano do mal, e então lhe disseram que fosse à gruta e aspergisse água benta. Assim afastaria o mal e ficariam tranquilos.

Quando chegaram à gruta, Bernardete lhes pediu que se ajoelhassem para rezar o Rosário. Apareceu de novo a Virgem. O rosto de Bernardete se transfigurou. Esta tirou a àgua benta e disse: "Se vens da parte de Deus, aproxima-te de nós". A água benta chegou até os pés da Virgem e sonrrindo com mais doçura se aproximou de Bernardete. Tomou o rosário e se persignou com ele. Começaram ambas a rezá-lo.

Ao entardecer já todo o povoado comentava as maravilhas que ocurriam na gruta de Lourdes, mas aos comentários se juntavam as troças, desprezos e insultos.

Terceira Aparição

Os pais de Bernardete começaram então a acreditar que ela jamais havia mentido pois sempre obedecia. Além disso a sua naturalidade os convenceu, a naturalidade com que ela descrevia os acontecimentos e seus menores detalhes.

Em 18 de fevereiro, uma senhora e uma religiosa desejavam acompanhar Bernardete à gruta. Foram com ela primeiro à Santa Missa das 5:30h e dali se dirigieram à gruta. Bernardete caminhava tão rápido que parecia como se uma força superior a empurrasse até lá.

Se ajoelhou, começou a oração do rosário, lançando então um grito de júbilo ao ver no fundo da gruta a Senhora. Perguntou-Lhe se suas duas acompanhantes podiam ficar e a Virgem disse que sim. Elas também se ajoelharam e se puseram a rezar enquanto acendiam uma vela benta.

Bernardete passou um papel à Virgem pedindo-Lhe que escrevesse qualquer coisa que desejava comunicar-lhes.

A Virgem lhe disse: "O que tenho que comunicar não é necessário escrever. Faz-me unicamente o favor de vir aqui durante quinze dias seguidos". Bernardete prometeu e a Virgem respondeu: "Eu também te prometo fazer-te feliz, não certamente neste mundo, mas no outro".

A QUINZENA MILAGROSA

A notícia das aparições se espalhou rapidamente e uma grande multidão acudiu à gruta.

19 de fevereiro: Bernardete chegou à gruta acompanhada de seus pais e uma centena de pessoas. A partir deste dia, ia a todas as aparições com uma vela acesa.

20 de fevereiro: Por volta de 500 pessoas a acompanhavam.

21 de fevereiro: Milhares de pessoas enchiam todos os arredores da gruta. Houve um momento em que a aparição parecia estar mais para trás, como que a fundir-se no interior da roca. Para não perdê-la de vista, Bernardete foi aproximando-se de joelhos. Observou que a Virgem tinha ficado triste e lhe perguntou: O que acontece?, O que posso fazer? A Virgem respondeu: "Roga pelos pecadores".

Bernardete era objeto de toda classe de zombarias, perseguições e ofensas. Inclusive as autoridades civis se envolveram no assunto. O comissário chegou a detê-la para um longo exame. Ameaçou-a com a prisão se continuasse indo à gruta. Um dos principais médicos de Lourdes se dedicou a estudá-la, observá-la e examiná-la, chegando à conclusão de que em Bernardete não havia nenhum sinal de alucinação, histeria ou fuga da realidade. Disse assim: "Aqui há um fato extraordinário, totalmente desconhecido à ciência e à medicina".

Entretanto, as perseguições não terminaram; a polícia continuou tratando-a indignamente. O Pároco de Lourdes a defendeu energicamente. E em tudo isso Bernardete se manteve firme mas com humildade, nunca tomando uma posição defensiva, nem de ataque contra ninguém.

22 de fevereiro: A Virgem não apareceu. Todos fizeram troça de Bernardete. Ela chorava pensando que talvez havia cometido alguma falta e que por isso a Virgem não lhe havia aparecido. Mas tinha a firme esperança de voltar a vê-la.

Uma das coisas que mais surpreendia as pessoas era ver a uma humilde e simples pastorzinha, carente de adequada educação, saudar com graça e dignidade à Virgem no término da aparição. Uma vez lhe perguntaram: "Diga-me, quem te ensinou a fazer saudações tão graciosas?". "Ninguém, respondeu, não sei como fiz, apenas trato de fazer como faz a Senhora e ela me saúda deste modo quando vai embora."


Fonte:
Corazones

(CONTINUA)

NOSSA SENHORA DE LOURDES – As aparições em Lourdes - Parte II



NOSSA SENHORA DE LOURDES
11 de Fevereiro
Memória Facultativa

AS APARIÇÕES EM LOURDES

Parte II

(Continuação)

23 de fevereiro: Primeira vez em que a Virgem formula uma ordem concreta. Ante 10 mil perssoas a Virgem dá a Bernardete um segredo que só a ela concerne e que não pode revelar a ninguém. Também lhe ensinou uma oração que lhe fazia repetir, mas que não quis que a desse a conhecer.

A Virgem lhe disse: "E agora, filha minha, vá dizer aos sacerdotes que aqui, neste lugar, deve levantar-se um Santuário, e que a ele devem vir em procissão". Bernardete se dirigiu imediatamente até a Igreja para dar a mensagem ao Pároco. O sacerdote lhe perguntou o nome da Senhora, e Bernardete lhe respondeu que não sabia.

Despois de escutá-la, o Pároco lhe disse: "Podes comprender que não pode bastar-me apenas o teu testemunho; diga a essa grande Senhora que se dê a conhecer; se á a Virgem, que l manifeste mediante um grande milagre. Não dizes que te aparece encima de um roseiral silvestre? Então diga-lhe de minha parte, que se quiser um Santuário, que faça florescer o roseiral¨.

24 de fevereiro: Todos quiseram saber o que aconteceria com o pedido do Pároco e se a Virgem faria o milagre do roseiral. Bernardete como sempre chegou à gruta e se ajoelhou, sem prestar nenhuma atenção às pessoas que iam por curiosidade. Bernardete contou à Virgem o que o sacerdote lhe havia pedido. A Virgem só sorriu, sem dizer uma palavra. Despois mandou- a rogar pelos pecadores, exclamando três vezes: Penitência, Penitência, Penitência! E fez Bernadete repetir estas palabras e Bernadete o fazia enquanto se arrastava de joelhos até o fundo da gruta. Ali, a Senhora lhe revelou um segredo perssoal e depois desapareceu.

Bernardete por humildade não relatou todos os detalhes, mas testemunhas contaram que também a viram beijar a terra a intervalos. A Virgem lhe havia dito: "Rogarás pelos pecadores. Beijarás a terra pela conversão dos pecadores". Como a Visão retrocedia, Bernardete a seguia de joelhos beijando a terra, e em um momento se voltou para as pessoas e lhes fez sinais: "Beijem também a terra".

Desde então foi encomendada a Bernardete a penitência pelos pecadores. Um dia a Virgem a mandou subir e descer várias vezes a gruta de joelhos. A Virgem tinha um rosto triste. "A Virgem me mandou por mim y pelos demais" disse ela.

25 de fevereiro: A Visão lhe disse: "Filha minha, quero confiar-te e somente a ti, o último segredo. Como os outros dois, não revelarás a nenhuma pessoa deste mundo".

Depois de um momento de silêncio, a Virgem disse: “E agora, vá beber e lavar os pés na fonte, e come da erva que há ali”. Bernardete olhou ao redor e, não vendo nenhuma fonte, pensou que era o riacho e se dirigiu para lá. Mas a Virgem a deteve e lhe disse: "Não lá, mas na fonte que está aqui", mostrando-lhe o fundo da gruta. Para lá foi e buscou com a vista a fonte, não encontrando-a. Querendo obedecer, olhou a Virgem. A um novo sinal se inclinou e, cavando a terra com a mão, fez um buraco. De repente o fundo daquela cavidade se umedeceu e, vindo de profundidades desconhecidas através das pedras, apareceu uma água que logo encheu o buraco. Bernardete então levou a água misturada com terra, três vezes a boca, sem bebê-la. Mas vencendo sua natural repugnância, bebeu e molhou também o rosto. Todos começaram a rir dela e a dizer que tinha ficado louca. Mas, misteriosos desígnios de Deus, com sua débil mão acabava Bernardete de abrir, sem saber, o manancial das curas e dos milagres que tanto comoveram a humanidade.

A água milagrosa de Lourdes foi analisada por grandes químicos:

É uma água virgem, muito pura, uma água natural, que carece de toda propriedade térmica. Ademais tem a peculiaridade que nenhuma bactéria sobrevive nela. - Símbolo da Imaculada Conceição, em cujo ser nunca houve mancha de pecado original nem pessoal.

26 de fevereiro: A água milagrosa fez o primeiro milagre. O bom Pároco de Lourdes havia pedido um sinal, e em vez do muito pequeno sinal que ele havia pedido, a Virgem acabava de dar-lhe um muito maior, e não só para ele, mas para todo o povoado.

O primeiro milagre de cura

Havia em Lourdes um pobre operário de pedreira, chamado Bourriette, que 20 anos antes havia tido o olho esquerdo horrivelmente mutilado pela explosão de uma mina. Era um homem muito honrado e muito cristão. Mandou a filha buscar a água da nova fonte e se pôs a rezar. E mesmo suja, esfregou-a no olho. Começou a gritar de alegria. As trevas haviam desaparecido e só no havia um ligeiro nublado, que foi sumindo ao seguir lavando. Os médicos haviam dito que ele jamais se curaria. Ao ser examinado de novo não restou mais que chamar ao sucedido de: milagre. E o maior de tudo foi que o milagre havia deixado as cicatrices e lesões da ferida, mas ainda assim devolvido a visão.

A primeira vela na gruta de Lourdes

Um dia no final da aparição, Bernardete pediu uma vela a sua tia que a acompanhava para deixá-la acesa na gruta. Então se dirigiu ao fundo da gruta e a deixou acesa na pedra. Esta vela talvez naquele momento tenha sido a única, mas agora são milhões as que ardem constantemente ante a imagem da Virgem. A vela acesa é um belo símbolo: a cera branca e virgem de que é feita sempre representou a humanidade que Cristo tomou de Maria, e que unida à Divinidade é a Luz do mundo. Como a cera da vela, esta humanidade sagrada se consumirá diante de Deus em adoração, súplicas e ação de graças. A luz da vela resplandecente e radiante simboliza a Divinidade do Filho de Maria. A vela acesa representa igualmente o cristão que, iluminado pela fé deve consumir-se diante de Deus como vítima de amor.

2 de março: Bernardete foi de novo ver o Pároco de Lourdes, recordando-lhe a petição da Virgem de se levantar um Santuário no lugar das aparições. O Pároco respondeu que isso era obra do Bispo, que já estava inteirado da petição e seria o encarregado de cumprir o desejo celestial da Visão.

4 de março: seguindo seu costume, Bernardete, antes de dirigir-se à gruta, assistiu a Santa Missa. Ao final da aparição, teve uma grande tristeza, a tristeza da separação. Voltaria a ver a Virgem?

A Virgem, sempre generosa, não quis que o dia terminasse sem uma manifestação de sua bondade: um grande milagre, um milagre maternal, coroação da quinzena de aparições: um menino de dois anos, chamado Justino, estava já agonizando. Desde que nasceu tinha uma febre que ia pouco a pouco consumindo sua vida. Seus pais, nesse dia, o acreditavam morto. O menino não dava sinais de vida. A mãe em seu desespero o levou à fonte e o meteu 15 minutos na água que estava muito fria. Ao chegar em casa, notou que se ouvia com normalidade a respiração do menino. No dia seguinte, Justino despertou com a tez fresca e viva, seus olhos cheios de vida, pedindo comida e suas pernas fortalecidas. Este fato comoveu toda a comarca e logo toda a França e Europa; três médicos de grande fama certificaram o milagre, chamando-o de primeira ordem.

Então o governador reuniu a todos os alcaldes da zona para dar instruções precisas de proibir de imediato a ida de todo cidadão à gruta. Tudo foi em vão; cada dia acudiam mais peregrinos de todas as partes.

Não obstante as perseguições, as troças e as injúrias, Bernardete continuava visitando a Gruta. Ia rezar o Rosário com os peregrinos. Mas a doce visão não aparecia. Ela já estava resignada a não voltar a ver a Virgem.

Em 25 de Março, dia da Anunciação, Bernardete se sentiu fortemente movida a ir à Gruta. Muito contente obedeceu a esse chamado de seu coração e foi imediatamente. Como era uma data solene, os peregrinos tinham a esperança de que a Virgem aparecesse e quando chegou Bernardete se assombrou com a quantidade de pessoas que encontrou. Este dia 25, na história das aparições, foi um dia de glória. Bernardete voltou a perguntar à Senhora: "Queres ter a bondade de dizer-me quem és e qual é teu nome?". A Visão resplandecia mais que nunca, sorrindo sempre e sendo seu sorriso a única resposta. Bernardete insistiu: " Queres dizer-me quem és?, eu te suplico Senhora minha". Então, a Senhora afastou sua vista de Bernardete, separou suas mãos, fez deslizar em seu braço o rosário que tinha em seus dedos, levantou ao mesmo tempo suas mãos e sua cabeça radiante e, juntando suas mãos diante do peito, sua cabeça mais resplandecente que a luz do sol, dirigiu o olhar ao céu e disse: "EU SOU A IMACULADA CONCEIÇÃO", E assim desapareceu, deixando em Bernardete esta imagem e este nome.

Bernardete, ouvia pela primeira vez essas palavras. Enquanto se dirigia à casa paroquial, para contar ao Pároco, ela ia por todo o caminho repetindo "Imaculada Conceição", essas palavras tão misteriosas e difíceis para uma menina analfabeta. Quando o Pároco ouviu o relato de Bernardete ficou assombrado. Como podia uma menina sem nenhuma instrução religiosa saber o Dogma que só uns 4 anos antes a Igreja havia promulgado? Em 1854, o Papa Pio IX havia definido o Dogma da Imaculada Conceição. O sacerdote comprovou que Bernardete não se havia enganado, era Ela, a Virgem Santíssima, a Soberana Mãe de Deus quem lhe aparecia na gruta.

5 de Abril: Bernardete volta à gruta, rodeada de uma verdadeira multidão de pessoas que rezavam com ela. Ajoelhada como de costume, tinha na mão esquerda, a vela acesa que lhe acompanhava em todas as ocasiões e a apoiava no chão. Absorta na contemplação da Rainha dos céus, sabendo agora que era a Virgem Santíssima, levantou suas mãos e as deixou cair um pouco, sem notar que as tinha sobre a chama da vela, que começou a passar entre seus dedos e a elevar-se acima deles, oscilando de um lado para o outro, segundo o vento. Os que estavam ali gritavam: "se queima". Mas ela permanecia imóvel. Um médico que estava perto de Bernardete olhou o relógio comprovando que por mais de um quarto de hora a mão esteve em meio à chama, sem fazer ela nenhum movimento. Todos gritavam: Milagre! O médico comprovou que a mão de Bernardete estava ilesa. Despois que a aparição terminou, um dos espectadores aproximou da mão de Bernardete a chama da mesma vela acesa e ela exclamou: "Oh, que quer, queimar-me?.

Última Aparição

Foi no dia 16 de Julho, dia da Virgem do Carmo. Bernardete se sente de novo movida a ir à gruta, que está cercada, vigiada e proibida. Vai acompanhada de uma tia e umas senhoras. Ao chegarem se ajoelham o mais perto possível da gruta mas sem poder chegar a ela. Bernardete recebe a última visita da Virgem e disse: "Nunca havia aparecido tão gloriosa".

Bernardete havia cumprido sua missão com grande amor e valentia ante todos os sofrimentos que teve que enfrentar e ante todos os obstáculos que teve que vencer. Seu confessor disse repetidamente: "A melhor prova das aparições é a própria Bernardete e sua vida".


Fonte:
Corazones

NOSSA SENHORA DE LOURDES – Resumo da Mensagem da Virgem de Lourdes



NOSSA SENHORA DE LOURDES
11 de Fevereiro
Memória Facultativa

RESUMO DA MENSAGEM DA VIRGEM DE LOURDES

A Mensagem que a Santíssima Virgem deu em Lourdes, na França, em 1858, pode ser resumida assim:

1-É um agradecimento do céu pela definição do Dogma da Imaculada Conceição, que havia sido declarado quatro anos antes (1854), ao mesmo tempo que assim se apresenta Ela mesma como Mãe e modelo de pureza para o mundo que está tão necessitado desta virtude.

2-É uma exaltação às virtudes da pobreza e humildade aceitas cristãmente ao escolher a Bernardete como instrumento de sua mensagem.

3-Uma mensagem importantíssima em Lourdes é a da Cruz. A Santíssima Virgem repete que o importante é ser feliz na outra vida, embora para isso seja preciso aceitar a cruz.

4-Importância da oração, do rosário, da penitência e humildade (beijando o solo como sinal disso); também uma mensagem de misericórdia infinita para os pecadores e de cuidado dos enfermos.

Alguns pontos de reflexão sobre os sinais visíveis da primeira aparição

Nesses sinais há um grande ensinamento espiritual:

1-Rodeada de luz: é o símbolo da luz da fé, a qual nos abrimos pelo Batismo. A fé é a luz da vida com a qual devemos brilhar ante o mundo. Devemos fazer resplandecer a fé pela santidade de nossas vidas.

2-A luz era tranquila e profunda: na fé cristã acharemos o repouso para nossa alma.

3-De beleza incomparável, não há nada igual aqui na terra: trabalhar intensamente para adquirir a verdadeira beleza que é a da alma, a fim de que Deus possa contemplar-nos com agrado.

4-Roupa tão branca, tão pura, tão delicada que jamais tela alguma pôde reproduzir: de que pureza tão perfeita e delicada há de estar revestida nossa alma diante de Deus, já que o pecado mancha nossas roupas brancas.

5-Pés desnudos, brilhando e sobre cada um deles uma rosa luminosa: Os pés desnudos nos pregam a pobreza evangélica, esta bela e sublime virtude a qual Jesus prometeu o Reino dos Céus. As rosas luminosas: Jesus nos envia a difundir por todas as partes o bom odor de Cristo, o divino perfume do Evangelho.

6-As mãos sempre juntas, com o santo rosário: em fervorosa oração, rezando sempre e sem interrupção. A oração é nosso alimento constante, a respiração da alma, pois todas as virtudes nascem em uma alma que reza.

Inúmeras Curas

Há pelo menos 66 histórias clínicas que documentam cientificamente os milagres. Inúmeras mais sem dúvida ocorreram e continuam ocorrendo mas não tomam parte da documentação do Santuário, a qual é rigorosa ao extremo. Também há inumeráveis curas da alma que são as mais importantes.

Fonte:
Corazones

NOSSA SENHORA DE LOURDES – Orações antigas



NOSSA SENHORA DE LOURDES
11 de Fevereiro
Memória Facultativa

ORAÇÃO ANTIGA I

Sede para sempre Bendita, Puríssima Virgem, que vos dignastes aparecer até oito e dez vezes, muito resplandecente de luz, doçura e formosura na solitária gruta, e dizer à humilde menina que vos contemplava extasiada: "Eu sou a Imaculada Conceição".

Sede para sempre Bendita por todos os extraordinários favores que não cessais de derramar nesse lugar.

Pela ternura de vosso Imaculado Coração, oh Maria, e pela glória que destes à Santa Igreja, vos conjuramos para realizeis as esperanças de paz que fez nascer a proclamação do Dogma de vossa Imaculada Conceição.

_______


ORAÇÃO ANTIGA II

Puríssima Rainha dos anjos; Águia Real que chegaste a contemplar tão imediatamente ao Sol de incriada Justiça, Jesus Cristo Nosso Senhor; Aurora da Eterna Luz, vestida sempre com os fulgores da graça; Centro do Amor Divino, onde achou sua complacência a Trindade Beatíssima; Cidade Santa, onde não entrou coisa manchada, e fundada sobre os mais altos montes da santidade; Jerusalém Celestial, idealizada na mesma glória e iluminada com a Claridade de Deus.

Por estes títulos de tua Concepção Puríssima, eu te suplico, Rainha minha, que como Águia Real me ampares debaixo das asas de tua proteção piedosa; como Aurora da graça esclareças e ilumines com teus fulgores a minha alma; como Centro do Amor acendas minha vontade para que arda no Divino; e que me admitas benigna como tua fiel moradora na Jerusalém triunfante, da que és Rainha excelsa.

Ouvi, Senhora, meus rogos, e pelo grande privilégio de tua Concepção em graça, concede-me fortaleza para vencer minhas paixões, e especialmente a que mais me combate; pois com tua intercessão e com o auxílio da graça, proponho empreender a luta até alcançar a vitória. Virgem Santíssima que da dura pedra fizeste brotar água milagrosa, que cura as enfermidades do corpo e da alma! Arranca, poderosíssima Senhora, de nosso endurecido coração, lágrimas de verdadeira penitência, para que lavem a lepra da alma, a fim de que o Senhor nos perdoe. Por meu Senhor Jesus Cristo que vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.


NOTA: Ambas as orações foram recolhidas de um antigo devocionário em espanhol, publicado em Paris ao final do século XIX, pouco tempo depois das aparições de Lourdes, em 1858. A primeira recebeu a aprovação do Bispo de Tarbes em 30 de outubro de 1867.


Fonte:
Devocionário Católico


FESTA DE NOSSA SENHORA DE LOURDES – Vídeo Salve Regina de Lourdes



NOSSA SENHORA DE LOURDES
11 de Fevereiro
Memória Facultativa


VÍDEO SALVE REGINA DE LOURDES







FESTA DE NOSSA SENHORA DE LOURDES – Pedidos de oração direto à Gruta de Lourdes por email


NOSSA SENHORA DE LOURDES
11 de Fevereiro
Memória Facultativa


PEDIDOS DE ORAÇÃO DIRETO
À GRUTA DE LOURDES POR EMAIL

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WEBCAM DIRETO DE LOURDES

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Doce Senhora de Lourdes, rogai por nós!


sábado, 6 de fevereiro de 2010

A santidade é simples - Parte I



A santidade é simples-Parte I

«Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade, graça e fidelidade» Sl 24, 10

Sede perfeitos, sede santos, nos diz a todos sem exceção o Senhor. Sabia bem Deus a quem dava este preceito, pois somos suas criaturas, obra de suas mãos: ‘Tuas mãos me fizeram e me plasmaram’ (Jó 10, 8). Embora as condições humanas sejam tão diversas, Deus não faz nenhuma exceção e nos diz a todos igualmente: Sede santos. Se em meio a tão diversas situações como nos encontramos, Deus, Sabedoria por essência, nos manda a todos ser santos sem fazer distinção, não há de ser a santidade tão difícil como à primeira vista parece.

Se os santos são poucos é porque a maior parte dos cristãos não tem um conhecimento exato da santidade. ‘As vias do Senhor são todas misericórdia e verdade’ (Sl 24, 10). Somente por falta de uma segura convicção de que são estes unicamente os caminhos de Deus, é que muitas almas não chegam à santidade.

As misericórdias do Senhor são sem número e Ele as derramou sem medida nos caminhos por onde Ele mesmo nos manda caminhar para ir até Ele.

Deus é Verdade. Seu Reino está fundado na verdade, só pode reinar nas almas que andam em verdade. Andar em verdade quer dizer estimar a santidade pelo que ela é e não pelo que imaginamos que seja. Assim não pareceria a muitos tão difícil alcançá-la.

Estejamos certos de que nesses formosos caminhos de santidade, traçados pelas paternais mãos de Deus, cheios todos de luz, de misericórdia e de verdade, não há as dificuldades que parece haver. Somos nós que os fazemos difíceis por não conhecê-los bem. Se se conhecesse com todos os seus atrativos, então os santos seriam coisa comum. Especialmente entre religiosos que vivem em um estado mais propício à santidade e também entre os leigos que não vivem segundo as máximas do mundo, senão que colocam acima de tudo os seus interesses eternos, buscando a Deus e sua justiça.

Por que não é assim? Por que são tão poucas as pessoas cheias do Espírito de Deus, junto às quais se respira santidade? O que falta a tantas almas boas para que exalem esse perfume celestial e atraiam a todos os que se aproximam, levando-os a Deus? O que lhes falta se são tão boas que não se sabe o que mais desejar nelas? O que lhes falta é que o Senhor as tenha feito gostar das ternuras de seu amor, que as tenha admitido às intimidades ocultas, inexplicáveis, que transformam e divinizam a pobre criatura que, ao ver-se tão amada por Deus, não lhe sobra mais que a admiração e o silêncio, desejo ardente de que todos provem estas divinas delícias, uma vez que depois já não lhe apetecem outras coisas e logo perde o gosto por tudo o mais.

Almas boas, almas santas!...Todas as que sentem ânsias de Deus, da perfeição, de ir adiante nos caminhos do Senhor. Almas santas sois pois por tais os tem o Coração de Jesus. Mas Ele sofre por não poder estreitá-los contra seu peito, fazê-los experimentar seus abraços divinos. E não pode. Se encontra detido por vossa pusilanimidade.

Deste Fogo Divino está encarregada a Virgem Maria de distribuí-lo e comunicá-lo às almas. Quanto não deverá sofrer esta Mãe de amor e misericórdia ao ver quão pouco é o que impede a tantas almas o ser incendiadas e por esse Fogo abrasadas e transformadas em Jesus, seu Divino Filho?

Senhor, permita que, em união com Maria, me compadeça de tua dor na sede de amor que te consome! Quanto sofres pelas almas! E só pelas más, mas também pelas boas, pelas que são teu povo escolhido.


J. Pastor
“La Santidad es amor”
Libro I, pp. 21-24
Eds.Anaya, Salamanca, 1973

(Continua)

A santidade é simples - Parte II



A santidade é simples-Parte II


O QUE PEDE O SENHOR

O que pede Jesus às almas? Amor! ‘Se alguém me ama, meu Pai o amará e viremos a ele e nele faremos nossa morada’ (Jo 14, 23).

Se me amas... Eis aqui a única condição que nos pede o Senhor para sermos amados e visitados por Ele, para vir a nossa alma e estabelecer nela a sua morada. Isso é a verdadeira santidade: união com Deus. E esta união só se realiza amando. Amor é a única coisa que o Senhor nos pede para poder realizá-la.

A maior parte das pessoas boas e também dos religiosos, se fixam mais no acidental da santidade que no essencial, que é esta união da alma com Deus. Bem entendida esta verdade, se simplifica sumamente e se faz mais fácil o trabalho da própria santificação. Quanto trabalha e que pouco se adianta quem que não dá a esta verdade a importância que merece e se dedica a obras exteriores, trabalhos, fadigas e penas. Esses meios nem sempre são necessários para se chegar ao fim que se busca: a santidade.

Na teoria, todos sabem e dizem que é assim. Mas na prática, são muito poucos os que conhecem e entendem que a santidade é coisa tão íntima e secreta que alguém pode ser santo e muito santo sem que nada apareça de extraordinário em seu exterior.

A maioria das pessoas, embora piedosas, quando ouvem falar que alguém é ‘um santo’, se sentem movidas pelo desejo de vê-lo, e o observam para comprovar se, como os demais, come, dorme e fala. Que mentirosos são os homens em seus louvores! ‘Como um sopro são os homens; uma mentira os filhos dos homens’ (Sl 61, 10). Coisa boa é ver e desejar, conhecer e viver com pessoas santas. Mas a maior parte que tem este desejo, o tem por carecer de um conhecimento exato do que é a santidade. É uma curiosidade inútil pois de nada lhes servirá; e bem o demonstram as suas obras depois de satisfeito seu desejo.

Se estivéssemos convencidos de que a santidade é algo espiritual, interior, íntimo, como é a união de nossa alma com Deus, não haveria tanto afã como há por estas exterioridades e por querer medir, segundo estas, a maior ou menor santidade.

Quão bom e necessário é pedir a miúdo ao Senhor que nos mostre seus caminhos e nos ensine os meios que a ele conduzem: ‘Mostra-me, Senhor, os teus caminhos; adestra-me em tuas sendas’ (Sl 24, 4). Quantos poderiam voar pela via do amor e ser logo admitidos às intimidades do Senhor, se se despojassem dessas idéias errôneas. Quão bom e quão agradável seria a Deus que todos disséssemos frequentemente, do mais fundo do coração: Senhor, me bastam vossos divinos ensinamentos, os exemplos que por Vós mesmo e por vossos santos me haveis dado para conhecer o caminho que hei de seguir para santificar-me. Bastam-me os infinitos prodígios que fizestes para atrair-me ao vosso amor. Permanecestes escondido sob a cortina da fé nas humilhações de vossa Paixão e Morte no Sacramento do altar, nas ocultas operações de vossa graça na santificação das almas.

Já fizestes bastante, já nos destes provas suficientes de vosso amor que nos obriguem a amá-Lo.

Já creio, Jesus meu, creio em vosso amor por mim e vos amo com todo o meu coração. Eu vos amo e quero amar-vos, servir-vos e adorar-vos em ‘espírito e verdade’, tomando por guia vosso Santo Evangelho e por companheiros de meu caminho a Fé e o Amor.

A Fé e o Amor descobrirão então grandes prodígios, sem necessidade de ir buscá-los longe. Assistindo a Missa, em menos de meia hora, se realizarão ante nossos olhos os mais estupendos prodígios que possa fazer um Deus. À voz de uma pobre criatura, descerá o Verbo Eterno do mais alto dos céus para morrer misticamente outra vez, como sobre o Calvário, Vítima de nossos pecados, para fazer-se nosso alimento e permanecer em sua prisão de amor, e ser nosso companheiro, nosso guia, nossa luz no difícil caminho da vida.


J. Pastor
“La Santidad es amor”
Libro I, pp. 21-24
Eds.Anaya, Salamanca, 1973

(Continua)

A santidade é simples - Parte III



A santidade é simples-Parte III


DISPONHAMOS A ALMA

Quando deixar a matéria do corpo, nosso espírito, livre de erro e mentira, conhecerá tal como é em Deus em verdade; então, veremos quanto nos equivocamos em julgar segundo as aparências ou conforme o sentir humano. Conheceremos então, quanta diferença haverá no grau de santidade entre aqueles a quem vimos praticar o que todos praticam, entre aqueles que levaram uma vida de sacrifícios, que moraram na mesma casa ou na mesma religião.

Abramos os olhos porque, todavia, ainda há tempo; mas esse tempo é curto. A graça não nos falta e não falta a ninguém. Está em nossas mãos se quisermos. Que não se diga de nós o que disse o Apóstolo São João: ‘A luz resplandece em meio às trevas e as trevas não Lhe receberam’ (Jo 1, 5). Todos os que andam em erro andam em trevas. Deus manda sua Luz não para iluminar somente alguns, mas para todo homem que vem a este mundo. Recebamo-la, pelo menos nós, seu povo escolhido. Que não se aplique a nós essa amarga repreensão do Apóstolo: ‘veio a sua própria casa e os seus não o receberam’(Jo 1, 11).

Receber ao Senhor é abrir os olhos e aceitar a verdade. Uma vez recebida a verdade, Deus está em sua casa. As coisas espirituais se hão de julgar segundo o espírito e não segundo os sentidos. A fé nos levará até Deus. E Ele, que nada deseja tanto quanto revelar-nos estes mistérios de amor e de verdade, logo dirá com sua voz criadora às trevas que obscurecem nossa alma: ‘Faça-se a Luz’ (Gn 1, 3). E tudo ficará iluminado ante nossos olhos e se nos apresentarão em seguida as coisas sob um aspecto muito
diferente.

O que a nós pertence no trabalho de nossa santificação é dispor nossa alma para a união com Deus. Este trabalho não é tão difícil como parece, se se entende bem. A muitos parece muito difícil por acreditarem que é preciso fazer muito, e por isso desanimam e não conseguem entregar-se a ele com a generosidade necessária. Mas não é assim. Em vez de ter que acrescentar ao que fazíamos, tem que ir tirando os impedimentos para que Deus possa fazer o que fazíamos. Pois aqui se fala daqueles que já praticam obras boas e daqueles em que não há nada grave que se tire.

Não tenhamos medo. Jesus é Bom, quer amor e deixa cada um seguir as suas inclinações, suas tendências e atrativos naturais e adquiridos.

Suave é o Senhor em sua obra. Em nada violentará a nossa vontade. Embora nos queira todos para si, o fará com uma suavidade tal que apenas nos daremos conta de que é a sua mão divina que opera em nós.

O que Ele quer é que em tudo o que façamos vamos pouco a pouco suprimindo o defeituoso, o imperfeito; e isso o Espírito do Senhor nos irá mostrando à medida que façamos a nossa parte.


J. Pastor
“La Santidad es amor”
Libro I, pp. 21-24
Eds.Anaya, Salamanca, 1973