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quinta-feira, 8 de abril de 2010

OITAVA DA PÁSCOA - QUINTA-FEIRA - Chamei-os pela graça e apoiei-os com o Meu Amor




QUINTA-FEIRA NA OITAVA DA PÁSCOA

At 3, 11-26
Sl 8
Lc 24,35-48


"Chamei-os pela graça e apoiei-os com o Meu Amor. Não receeis, sou Eu mesmo."

A Judéia rebelde tinha expulsado a paz da terra e lançado o universo no caos primordial. Também entre os discípulos a guerra causava estragos; a fé e a dúvida atacavam-se furiosamente uma à outra. Os corações destes homens, onde a tempestade rugia, não eram capazes de encontrar uma enseada de paz, um porto de calma.

Perante este espetáculo, Cristo, que sonda os corações, que manda nos ventos, que domina as tempestades, que, com um simples gesto, transforma a borrasca em céu sereno, firmou-os na sua paz, dizendo: "A paz esteja convosco! Sou Eu; não temais. Sou Eu, o crucificado, o morto, o sepultado. Sou Eu, o vosso Deus, feito homem por vós. Sou Eu. Não sou um espírito revestido de corpo, mas a própria verdade feita carne. Sou Eu, vivo entre os mortos, descido dos céus ao coração dos infernos. Sou Eu, de quem a morte fugiu, a quem os infernos temeram. No seu pavor, o inferno proclamou-Me Deus. Não receies, Pedro, tu que me negaste, nem tu, João, tu que fugiste, nem todos vós que Me abandonastes, que só pensastes em Me trair, que ainda não credes em Mim, embora Me vejais. Não receeis, sou Eu mesmo. Chamei-vos pela graça, escolhi-vos pelo perdão, sustentei-vos com a Minha compaixão, apoiei-vos com o Meu amor, e tomo-vos hoje, pela Minha pura bondade".


São Pedro Crisólogo, Bispo e Doutor
Sermão 81

domingo, 13 de dezembro de 2009

ADVENTO – 3º DOMINGO – O amor que deseja a face do Amado



DOMINGO III DO ADVENTO

«O amor que deseja a face do Amado»

Vendo o mundo oprimido pelo temor, Deus procura continuamente chamá-lo com amor, convidá-lo com a sua graça, segurá-lo com a caridade, abraçá-lo com afeto. Por isso, purifica com o castigo do dilúvio a terra que se tinha inveterado no mal; chama Noé para gerar um mundo novo; encoraja-o com palavras afetuosas, concede-lhe sua confiante amizade, o instrui com bondade acerca do presente e anima-o com sua graça a respeito do futuro. E já não se limita a dar-lhe ordens, mas tomando parte no seu trabalho, encerra na arca toda aquela descendência que havia de perdurar por todos os tempos, para que esta aliança de amor acabasse com o temor da servidão esse conservasse na comunhão de amor o que fora salvo com a comunhão de esforços.

Por esse motivo chama Abraão dentre os pagãos, engrandece seu nome, torna-o pai dos crentes, acompanha-o em sua viagem, protege-o entre os estrangeiros, cumula-o de bens, exalta-o com vitórias, dá-lhe a garantia de suas promessas, livra-o das injúrias, torna-se seu hóspede, maravilha-o com o nascimento de um filho que ele já não podia esperar. Tudo isso a fim de que, cumulado de tantos benefícios, atraído pela grande doçura da caridade divina, aprendesse a amar a Deus e não mais temê-lo, a honrá-lo com amor e não com medo.

Por isso também consola em sonhos a Jacó quando fugia, desafia-o para um combate em seu regresso e na luta aperta-o nos braços, para que não temesse, porém, amasse o instigador do combate. Por isso ainda, chama Moisés na própria língua e fala-lhe com afeto paterno, convidando-o a ser o libertador de seu povo.

Em todos esses fatos que relembramos, de tal modo a chama da caridade divina inflamou o coração dos homens e o inebriamento do amor de Deus penetrou os seus sentidos que, cheios de afeto, começaram a desejar ver a Deus com os olhos do corpo. Deus, que o mundo não pode conter, como o olhar limitado do homem o abrangeria? Mas, o que deve ser, o que é possível, não é a regra do amor. O amor ignora as leis, não tem regra, desconhece medida. O amor não desiste perante o impossível, não desanima diante das dificuldades. O amor, se não alcança o que deseja, chega a matar o que ama; vai para onde é atraído, e não para onde deveria ir. O amor gera o desejo, cresce com ardor e pretende o impossível. E que mais? O amor não poderia deixar de ver o que ama. Por isso todos os santos consideravam pouca coisa toda recompensa , enquanto não vissem a Deus. Por isso mesmo, o amor que deseja ver a Deus, vê-se impelido, para além de todo raciocínio, pelo fervor da piedade. Por isso Moisés se atreve a dizer: “Se encontrei graça na vossa presença, mostrai-me o vosso rosto” (Ex 33,13.18). Por isso, diz também o Salmista: “Não me escondais a vossa face” (Sl 26,9). Por isso, enfim, até os próprios pagãos, no meio de seus erros, modelaram ídolos, para poderem ver com seus próprios olhos o objeto de seu culto.


São Pedro Crisólogo, Bispo de Ravena
Sermo 147: PL, 52, 594-595


quinta-feira, 30 de julho de 2009

São Pedro Crisólogo – O nome de Cristo é Paz



30 DE JULHO

«O nome de Cristo é Paz»

“Por ocasião da vinda de nosso Senhor e Salvador, e de sua presença num corpo, os anjos que dirigiam os coros celestes davam a boa nova aos pastores, dizendo: «Eu vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo» (Lc 2, 10). Portanto, nós também, tomando emprestada a voz desses santos anjos, vos anunciamos uma grande alegria. Hoje a Igreja está em paz; hoje a barca da Igreja está no porto; hoje, caríssimo, o povo de Cristo é exaltado e os inimigos da verdade são humilhados; hoje Cristo se alegra e o diabo chora; hoje os anjos exultam e os demônios se confundem.

Que mais diremos? Hoje Cristo, que é o rei da paz, saindo com a sua paz, afugentou todo conflito, repeliu as dissensões, lançou fora a discórdia. E, tal como o esplendor do sol ilumina o céu, assim ele ilumina a Igreja com o fulgor da paz. Porque «nasceu-vos hoje o Salvador do mundo» (Lc 2, 11).

Como é desejável esse nome de paz, estável fundamento da fé cristã e celeste ornamento do altar do Senhor! E que poderíamos dizer que fosse digno dessa paz? O próprio nome de Cristo é paz, como diz o Apóstolo: «Cristo é a nossa paz, de ambos os povos fez um só» (Ef 2, 14). Pois bem: assim como, quando o rei está para sair, as ruas são limpas e toda a cidade é ornada com flores e enfeites variados, de modo que não haja nada menos digno de se mostrar a ele, também agora, à chegada de Cristo, rei da paz, seja retirado tudo o que é triste; e, ao brilhar a verdade, seja afugentada a mentira, cesse o conflito, resplandeça a concórdia.

Por isso, se também na terra a paz é louvada pelos santos, o esplendor do seu louvor é realizado no céu, onde os anjos a louvam, dizendo: «Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens que ele ama» (Lc 2, 14). Vede, irmãos, como os habitantes do céu e da terra trocam entre si os presentes da paz: enquanto os anjos do céu anunciam a paz na terra, os santos da terra louvam a Cristo, que é a nossa paz e está nos céus, e todos cantam juntos em místicos coros: «Hosana nas alturas!»”

Digamos, portanto, também nós com os anjos: Glória a Deus nas alturas, glória a Deus que humilhou o diabo e exaltou o seu Cristo, que repeliu a discórdia e estabeleceu a paz”.

S.Pedro Crisólogo, Bispo e Doutor
Sermo 149(Patrologia Latina 52)

São Pedro Crisólogo – A Chama da Caridade Divina



30 DE JULHO

«Muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes»

“Quando viu o mundo transtornado pelo medo, Deus pôs em ação o seu amor para o chamar a Si, a sua graça para o convidar, o seu afeto para o abraçar. Quando do dilúvio, chama Moisés a gerar um mundo novo, encoraja-o por meio de doces palavras, dá-lhe uma confiança de predileto, instrui-o com bondade sobre o presente e consola-o com a sua graça relativamente ao futuro. Participa no seu labor e encerra na arca o germe do mundo inteiro, a fim de que o amor pela sua aliança banisse o medo.

Em seguida, Deus chama Abraão do meio das nações, eleva o seu nome e faz dele pai dos crentes. Acompanha-o pelo caminho, protege-o no estrangeiro, cumula-o de riquezas, honra-o com vitórias, confirma-o com as suas promessas, arranca-o às injustiças, consola-o na sua hospitalidade e maravilha-o com um nascimento inesperado, a fim de que, atraído pela doçura do amor divino, ele aprenda a adorar a Deus amando-O e já não temendo-O.

Mais tarde, Deus consola Jacob em fuga por meio de sonhos. No regresso, provoca-o para um combate e, durante a luta, estreita-o nos braços, a fim de que ele ame o Pai dos combates e deixe de O temer. Depois, chama Moisés e fala-lhe com o amor de um pai, para o convidar a libertar o seu povo.

Em todos estes acontecimentos, a chama da caridade divina abrasou o coração dos homens e estes, de alma ferida, começaram a desejar ver a Deus com os olhos da carne. O amor não admite não ver aquilo que ama. Não é verdade que todos os santos consideraram pouca coisa tudo quanto obtinham quando não viam a Deus? Que ninguém pense, pois, que Deus fez mal em vir ter com os homens por meio de um homem. Ele tomou carne entre nós para ser visto por nós”.

S.Pedro Crisólogo, Bispo e Doutor
Sermo 147(Patrologia Latina 52)

São Pedro Crisólogo – Servos inúteis que, livres, servirão somente a Deus



30 DE JULHO

«Livre em face do universo, o homem servirá somente a Deus»

“Assim também vós: quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: Somos servos inúteis! (Lc 17, 10). Assim também vós? Mas onde está a semelhança? Não haverá antes diferença, e grande diferença? O homem não deverá a Deus senão o que pode dever a um homem? É evidente que não! A relação das situações não é a mesma, o fundamento da obrigação é diferente, o compromisso da pessoa é inteiramente diverso. Deus fez o homem existir, Deus mandou-o nascer, Deus lhe deu a vida, Deus lhe dá o conhecimento. Deus lhe fez presente do tempo, dividindo-o em épocas, que lhe concede em vista da sua glória. Deus fez do homem uma criatura aberta à honra, colocou-o à frente dos animais, e colocou-o como senhor da terra inteira, segundo a lei que pronunciou e o tempo que estabeleceu. E como esses dons originais se haviam perdido, Deus os restabeleceu de novo, amplificando-os até a divindade, elevando-os até o céu. Desde homem, a quem ele dera a terra como morada, fez um cidadão do céu.

Assim, o homem poderá conservar, em sua nova condição agora garantida, tudo o que perdera em sua incerta liberdade. Assim, finalmente, livre em face do universo, o homem servirá somente a Deus. Esse serviço, que o homem devia ao Autor do seu primeiro estado e da sua própria existência, ele o deve agora, segundo o Apóstolo, porque Deus o adquiriu, porque Deus o resgatou: «De fato, fostes comprados, e por preço muito alto!» (1Cor 6, 20). «Não vos torneis, pois, escravos de seres humanos» (1Cor 7, 23).

«Senhor», diziam os discípulos, «até os demônios nos obedecem por causa do teu nome» (Lc 10, 17). Mas Jesus os acalma: «Não vos alegreis porque os espíritos se submetem a vós. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos nos céus» (Lc 10, 20). E para que o orgulho deles não lhes retirasse o que haviam ganho com seus esforços, para que evitassem atribuírem a si o que haviam obtido de Deus, Jesus os convida, por meio de uma comparação, à humildade, mãe de toda ciência verdadeira: «Se alguém de vós tem um servo que trabalha a terra ou cuida dos animais, quando ele volta do campo, lhe dirá: Vem depressa para a mesa?» (Lc 17, 7).

Após os trabalhos realizados e o testemunho de múltiplos milagres, os apóstolos se haviam julgado, a si próprios, servos de grande utilidade. Eles esqueciam o peso da terra, do barro de que seus corpos eram feitos. Sua inutilidade, que eles não enxergavam, a traição de Judas tornará manifesta. Ainda mais: Pedro o renega, João foge, todos o abandonam. Então, contemplamos, sozinho, o único no qual subsiste, o único do qual procede a utilidade do servo”.

São Pedro Crisólogo, Bispo e Doutor
Sermo 162(Patrologia Latina 52)

terça-feira, 3 de março de 2009

Oração, jejum e misericórdia são inseparáveis



Oração, jejum e misericórdia são inseparáveis

Dos Sermões de São Pedro Crisólogo, Bispo e Padre da Igreja

A oração chama, o jejum intercede, a misericórdia recebe


“Três são, irmãos, os meios que fazem que a fé se mantenha firme, a devoção seja constante e a virtude permanente. Estes três meios são: a oração, o jejum e a misericórdia. Porque a oração chama, o jejum intercede e a misericórdia recebe. Oração, misericórdia e jejum constituem uma só e única coisa e se vitalizam reciprocamente.

O jejum, com efeito, é a alma da oração e a misericórdia é a vida do jejum. Que ninguém trate de dividi-los pois não podem separar-se. Quem possui um só dos três, se ao mesmo tempo não possui os outros, não possui nenhum. Portanto, quem reza que jejue; quem jejue que se compadeça. Que escute a quem lhe suplica; que escute àquele que ao suplicar deseja que lhe ouçam, pois Deus escuta a quem não fecha os ouvidos a quem lhe suplica.

Que o que jejue entenda bem o que é o jejum; que preste atenção ao faminto, quem quer que Deus preste atenção a sua fome; que se compadeça quem espera misericórdia; que tenha piedade quem a busca; que responda quem deseja que Deus lhe responda. É indigno suplicante quem pede para si o que nega ao outro.

Dita a ti mesmo a norma da misericórdia de acordo com a maneira, a quantidade e a rapidez com que quer que tenham misericórdia contigo. Compadece-te tão de imediato quanto queiras que os outros se compadeçam de ti.

Em conseqüência, a oração, a misericórdia e o jejum devem ser como um único intercessor em favor nosso ante Deus, uma única chamada, uma única e tripla petição.



Recobremos com jejuns o que perdemos por desprezo. Imolemos nossas almas com jejuns porque não há nada melhor que possamos oferecer a Deus, de acordo com o que o Profeta disse: ‘ Meu sacrifício é um espírito quebrantado: um coração quebrantado e humilhado Tu não o desprezas’. Homem, oferece a Deus tua alma e oferece a oblação do jejum para que seja uma hóstia pura, um sacrifício santo, uma vítima viva, proveitosa para ti e aceita por Deus. Quem não dê isso a Deus não terá desculpa porque não há ninguém que não se possua a si mesmo para dar-se.

Mas, para que essas oferendas sejam aceitas, tem que vir depois da misericórdia. O jejum não germina se a misericórdia não o fecunda: o que é a chuva para a terra, assim o é a misericórdia para o jejum. Por mais que aperfeiçoe seu coração, purifique sua carne, desarraigue os vícios e semeie as virtudes, como não produza caudais de misericórdia, o que jejua não colherá fruto algum.

Tu que jejuas, pensa que teu campo cai em jejuns se a tua misericórdia jejua. O que semeias em misericórdia, transborda em teu celeiro. Para que não percas a força de guardar, recolhe a força de repartir. Ao dar ao pobre, fazes esmola a ti mesmo porque o que deixas de dar ao outro não o terás tampouco para ti”.

Do Ofício das Leituras
Quaresma