Mostrando postagens com marcador Penitência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Penitência. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de março de 2010

Quaresma – Somos pós sim, mas pós amados




« Somos pós sim, mas pós amados »


O itinerário quaresmal, pondo como seu fundamento a onipotência do amor de Deus, o seu absoluto senhorio sobre todas as criaturas, que se traduz em indulgência infinita, animada por constante e universal vontade de vida. De fato, perdoar alguém equivale a dizer-lhe: não quero que tu morras, mas que vivas; desejo sempre e só o teu bem.

Esta certeza absoluta apoiou Jesus durante os quarenta dias transcorridos no deserto da Judéia, depois do batismo recebido de João no Jordão. Aquele longo tempo de silêncio e de jejum foi para Ele um abandonar-se completamente ao Pai e ao seu desígnio de amor; foi ele mesmo um "batismo", isto é, uma "imersão" na sua vontade, e neste sentido uma antecipação da Paixão e da Cruz. Adentrar-se no deserto e permanecer nele por muito tempo, sozinho, significava expor-se voluntariamente aos assaltos do inimigo, o tentador que fez cair Adão e por cuja inveja a morte entrou no mundo (cf. Sb 2, 24); significava travar com ele a batalha em campo aberto, desafiá-lo sem outras armas a não ser a confiança ilimitada no amor onipotente do Pai. Basta-me o teu amor, alimento-me com a tua vontade (cf. Jo 4, 34): esta convicção habitava na mente e no coração de Jesus durante aquela sua "quaresma". Não foi um ato de orgulho, um empreendimento titânico, mas uma escolha de humildade, coerente com a Encarnação e com o batismo no Jordão, em continuidade com a obediência ao amor misericordioso do Pai, que "amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho único" (Jo 3, 16).

O Senhor Jesus fez tudo isto por nós. Fez para nos salvar, e ao mesmo tempo para nos mostrar o caminho para o seguir. De fato, a salvação é dom, é graça de Deus, mas para fazer efeito na minha existência exige o meu consentimento, um acolhimento demonstrado nos fatos, ou seja, na vontade de viver como Jesus, de caminhar atrás d'Ele. Seguir Jesus no deserto quaresmal é por conseguinte condição necessária para participar na sua Páscoa, no seu "êxodo". Adão foi afastado do Paraíso terrestre, símbolo da comunhão com Deus; agora, para voltar a esta comunhão e portanto à verdadeira vida, a vida eterna, é preciso atravessar o deserto, a prova da fé. Não sozinhos, mas com Jesus! Ele – como sempre – precedeu-nos e já venceu o combate contra o espírito do mal. Eis o sentido da Quaresma, tempo litúrgico que todos os anos nos convida a renovar a opção de seguir Cristo pelo caminho da humildade para participar na sua vitória sobre o pecado e sobre a morte.

Nesta perspectiva, compreende-se também o sinal penitencial das Cinzas, que são impostas sobre a cabeça de quantos iniciam com boa vontade o itinerário quaresmal. Essencialmente é um gesto de humildade, que significa: reconheço-me por aquilo que sou, uma criatura frágil, feita de terra e destinada à terra, mas também feita à imagem de Deus e destinada a Ele. Pó, sim, mas amado, plasmado pelo seu amor, animado pelo seu sopro vital, capaz de reconhecer a sua voz e de lhe responder; livre e, por isto, também capaz de lhe desobedecer, cedendo à tentação do orgulho e da auto-suficiência. Eis o pecado, doença mortal que muito depressa começou a poluir a terra abençoada que é o ser humano. Criado à imagem do Santo e do Justo, o homem perdeu a própria inocência e agora só pode voltar a ser justo graças à justiça de Deus, a justiça do amor que – como escreve São Paulo – "se manifesta por meio da fé em Cristo" (Rm 3, 22). Inspirei-me nestas palavras do Apóstolo para a minha Mensagem, dirigida a todos os fiéis por ocasião desta Quaresma: uma reflexão sobre o tema da justiça à luz das Sagradas Escrituras e do seu cumprimento em Cristo.

Também nas leituras bíblicas da Quarta-Feira de Cinzas está muito presente o tema da justiça. Em primeiro lugar, a página do profeta Joel e o Salmo responsorial – o Miserere – formam um díptico penitencial, que evidencia como na origem de cada injustiça material e social existe aquilo que a Bíblia denomina "iniquidade", ou seja o pecado, que consiste fundamentalmente numa desobediência a Deus, quer dizer, numa falta de amor. "Reconheço – confessa o Salmista – de verdade as minhas culpas / o meu pecado está sempre diante de mim. / Contra Vós apenas é que eu pequei / pratiquei o mal perante os vossos olhos" (Sl 50 [51] 5-6). Portanto, o primeiro ato de justiça consiste em reconhecer a própria iniquidade e admitir que ela está arraigada no "coração", no próprio cerne da pessoa humana. Os "jejuns", os "prantos" e as "lamentações" (cf. Jl 2, 12) e cada expressão penitencial tem valor aos olhos de Deus, só se for sinal de corações sinceramente arrependidos. Também o Evangelho, tirado do "sermão da montanha", insiste sobre a exigência de praticar a própria "justiça" – esmola, oração e jejum – não diante dos homens, mas unicamente aos olhos de Deus, que "vê o segredo" (cf. Mt 6, 1-6.16-18). A verdadeira "recompensa" não é a admiração dos outros, mas a amizade com Deus e a graça que dela deriva, uma graça que confere paz e força de realizar o bem, de amar até quem não merece, de perdoar quem nos ofendeu.

A segunda leitura, o apelo de Paulo a deixar-se reconciliar com Deus (cf. 2 Cor 5, 20), contém um dos célebres paradoxos paulinos, que remete toda a reflexão sobre a justiça ao mistério de Cristo. São Paulo escreve: "Aquele que não havia conhecido o pecado – ou seja, o seu Filho que se fez homem – Deus O fez pecado por nós, para que nele nos tornássemos justiça de Deus" (2 Cor 5, 21). No Coração de Cristo, isto é, no âmago da sua Pessoa divino-humana, desenrolou-se de maneira decisiva e definitiva todo o drama da liberdade. Deus levou às extremas consequências o seu desígnio de salvação, permanecendo fiel ao seu amor, mesmo à custa de entregar o seu Filho unigênito à morte, e morte de Cruz. Como escrevi na Mensagem quaresmal, "é aqui que se descerra a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana... Graças à ação de Cristo, podemos entrar na justiça "maior", que é a do amor (cf. Rm 13, 8-10)".

Estimados irmãos e irmãs, a Quaresma amplia o nosso horizonte, orienta-nos para a vida eterna. Estamos em peregrinação nesta terra, "não temos aqui uma cidade permanente, mas vamos em busca da futura" (Hb 13, 14). A Quaresma faz compreender a relatividade dos bens desta terra e assim torna-nos capazes de fazer as renúncias necessárias, livres para realizar o bem. Abramos a terra à luz do Céu, à presença de Deus no meio de nós.
Amém!


Papa Bento XVI
Missa de imposição das Cinzas
17 de fevereiro de 2010

Quaresma - Pai, tende piedade e misericórdia de nós, porque estamos sem a verdadeira luz




«Pai, tende piedade e misericórdia de nós, porque estamos cegos e sem a verdadeira luz»


“Pequei, Senhor, tende piedade de mim! Perdoai, ó Pai, perdoai a esta miserável e ingrata ante as infinitas graças recebidas de Vós. Confesso e que vossa bondade me conserve vossa esposa, apesar de vos ter sido sempre infiel com meus defeitos. Pequei, Senhor, tende piedade de mim!

E tu, que fazes, ó minha alma? Não sabes que está Deus continuamente olhando-te? Saibas que, aos olhos de Deus, jamais te poderás esconder, pois nada lhe é oculto. Acaba, de uma vez, com as tuas iniquidades e desperta-te.

Ó Deus eterno, ó piedoso e misericordioso Pai, tende piedade e misericórdia de nós, porque estamos cegos, e sem a verdadeira luz, sobretudo eu, pobre miserável. Ó Vós, verdadeiro Sol, entrai em minha alma e enchei-a de vossa Luz. Dissipai-lhe as trevas e trazei-lhe a Luz; destruí-lhe o gelo do amor-próprio e infundi-lhe o fogo de vossa caridade”.


Santa Catarina de Sena
Orações e Elevações, Pp.97.87.100-101
Preghiere Ed Elevazioni, Taurisano, Roma

segunda-feira, 9 de março de 2009

Quaresma: penitência é ato de amor



“Todas as maiores religiões do mundo conhecem o efeito purificante do jejum e da penitência Desde os tempos de outrora o homem tem entendido sua necessidade desta purificação.

Quaresma é um tempo de fazer limpeza interior. É um tempo de preparação para abrir nossos corações ao Amor, Jesus. Não é fácil segui-Lo. A vereda em que Ele caminha é muito estreita e íngreme e nós preferimos ir de carro numa rodovia... Não temos vontade de ir ao céu à pé, seguindo um Homem descalço... Assim, nós precisamos da Quaresma para treinar nossos músculos espirituais para subir montanhas, pois Ele nos chama a auges desconhecidos e significantes.

Precisamos da Quaresma para lubrificarmos as fechaduras enferrujadas de nossas almas, para que as chaves do amor, da compaixão e do serviço possam abrir facilmente, de novo, as portas de nossos corações. Precisamos da Quaresma para lavar toda a sujeira e renovar esta imagem de Deus que somos nós.

A penitência é um ato de amor. Sem amor não há penitência. Penitência quer dizer ser esbanjador de amor, no sentido do pai, na parábola do filho pródigo... Eu vejo meu irmão sofrendo, logo, faço tudo para aliviá-lo, como samaritano. Levo-o à estalagem do meu coração, ou ao hospital, e faço todo o necessário para cuidar das suas feridas e do seu sofrimento. Então, concluído isso, começo a pensar nos ladrões que reduziram aquele homem ao estado em que o encontrei. E em meu coração ouço a voz do Senhor: ‘Ame os inimigos’. Digo a mim mesmo: ‘Eu nem sei o nome daquelas pessoas. Nem sei de onde vieram nem pra onde vão. O que posso fazer por eles, pela penitência?’.


Ouvimos no noticiário a respeito de um povo refugiado e sofrido. Nós que pertencemos a Cristo podemos espiar os pecados dos que são responsáveis por esta catástrofe. Meu irmão é faminto...Posso comer até me saciar? Meu irmão dorme na lama...Posso dormir numa casa confortável? O Mestre não tinha aonde reclinar a cabeça...Meu irmão sofre dores...Posso recuar aquela dor que me faz parte da vida, que vem das dificuldades de viver em comunidade ou em matrimônio ou na vizinhança, ou no trabalho? Todos nós nos irritamos uns com os outros, às vezes...Posso reagir com raiva ao que me irrita ou, de repente, posso me lembrar daquela mulher que está dando à luz um filho na sujeira de uma favela e posso agüentar, com amor, o que está me irritando.

Há algo misterioso neste mundo que não podemos sondar. Mas quando eu amo o suficiente para oferecer meu corpo pelo outro, mesmo que de modo pequeno, tal como dormir no chão, ou comer só um pouco por um tempo, ou aceitar os desgostos e as mortificações que vem ao meu caminho, então alguma coisa realmente acontece...

Entre as mais misteriosas palavras que o Senhor deixou para nós, cristãos, estão estas: ‘Maiores milagres que Eu realizei, vocês vão realizar’. Esse é o milagre maior: que eu, completamente desconhecido naquela favela, ficando escondido num canto do Canadá, por meio de aceitar mortificações permitidas a mim, por meu diretor espiritual e as que vêm a mim pelas circunstanciais da vida, posso ajudar aquela mulher na favela. Como a tenho ajudado, não sei. Somente o amor sabe...E o Amor é Deus.

Se eu estou pronto para entrar no reino da fé porque amo o Senhor que me deu a fé, então ajudo aquele povo sofrido, onde Cristo sofre neles. Isto é o poder estranho da penitência e mortificação: ‘Carregai os fardos uns dos outros’.

Por outro lado, posso espiar por eles, que têm causado os sofrimentos dos outros. Posso espiar também por meus próprios pecados.

Deus é Misericordioso. Ele não está permitindo a espiação por motivo de temor, mas sim por amor, muito amor”.

Serva de Deus Catherine de Hueck Doherty
Fundadora de Madonna House


quarta-feira, 4 de março de 2009

Quaresma – Cinco vias de penitência



AS CINCO VIAS DA PENITÊNCIA SEGUNDO SÃO JOÃO CRISÓSTOMO

"Queres que cite as vias da penitência? São muitas, é certo, variadas e diferentes, mas todas levam ao céu:

PRIMEIRA VIA DA PENITÊNCIA: a reprovação dos pecados

Sê tu o primeiro a dizer teus pecados para seres justificado. O Profeta tam¬bém dizia: ‘Confesso contra mim mesmo minha injustiça ao Senhor, e tu perdoaste a impie¬dade de meu coração’. Reprova também tu aquilo em que pecaste; basta isto ao Senhor para desculpar¬-te. Quem reprova aquilo em que pecou, custará mais a recair. Excita o acusador interno, tua cons¬ciência, não venhas a ter acusador lá diante do tri¬bunal do Senhor. Esta primeira é ótima via de penitência.

SEGUNDA VIA DA PENITÊNCIA: o perdão das faltas do próximo

Não guardemos lembrança das injúrias recebidas dos inimigos, dominemos a cólera, perdoemos as faltas dos companheiros. Esta segunda via não é nada inferior à primeira. Com esta via, aquilo que se cometeu contra o Senhor será perdoado. Eis outra expiação dos pecados. ‘Se perdoardes a vossos devedores, também vos perdoará vosso Pai celeste’.

TERCEIRA VIA DA PENITÊNCIA: a oração

Nesta via, a oração deve ser muito ardente e bem feita; uma oração que brote do mais fundo do coração.

QUARTA VIA DA PENITÊNCIA: a esmola

A esmola possui muita e poderosa força no caminho para a conversão e transformação do coração. Leva à prática da caridade e ao desprendimento dos bens e de si mesmo.

QUINTA VIA DA PENITÊNCIA: a humildade

Ser modesto no agir e humilde, isto, não menos que tudo o mais, destrói os pecados. Testemunha é o publicano que não podia citar nada feito com retidão, mas em lugar disto ofereceu a humildade e depôs pesada carga de pecados.




Estão indicadas assim, as cinco vias da penitência. Não sejas preguiçoso, meu irmão, mas caminha todos os dias por elas. São fáceis e portanto, não podes nem mesmo objetar a pobreza, pois ainda que pela indigência leves vida dura, renunciar à ira e mostrar humildade está em teu poder, bem como rezar assiduamente e condenar os pecados. Em parte alguma a pobreza é impedimento. O que digo aqui, naquela via de penitência que consiste em dar dinheiro (falo de esmola) ou em observar os mandamentos, será obstáculo, a pobreza? A viúva que deu dois tostões já respondeu. Tendo, pois, aprendido o meio de curar nossas cha¬gas, usemos deste remédio. E com isso, recuperada a saúde, fruiremos com confiança da mesa sagrada e correremos gloriosos ao encontro de Cristo, Rei da glória, e alcançaremos os eternos bens, por graça, misericórdia e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo."

São João Crisóstomo