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sexta-feira, 2 de abril de 2010

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA – O Filho único de Deus oferece-se livremente à Cruz



SEXTA -FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

Is 52, 13-53, 12
Sl 30
Hb 4, 14-16; 5, 7-9
Jo 18, 1-19, 42


«O Filho único de Deus oferece-se livremente à Cruz»

Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então compreendereis que Eu Sou (Jo 8,28)

Vinde, vós todos que amais a Deus e vede o que Nosso Senhor fez por vós. Vinde, vós todos que fostes resgatados pelo Sangue puríssimo do Cordeiro inocente; vede e compreendei o que Ele sofreu por causa do nosso pecado. Hoje abre-se para nós o Livro da Vida, os sete selos são quebrados (Ap 6). A verdade resplandece e nela se manifestam os tesouros da sabedoria e da ciência (Rm 11,33); brota a fonte que contém os mistérios de Deus.

Hoje rompe-se o antigo véu (Mt 27.51), todas as aparências dão lugar à realidade. O Santo dos Santos abre-se de par em par, graças a Jesus, o Sumo Sacerdote (He 2,17). O sacrifício que Ele oferece não é senão o seu próprio sangue. Hoje, em Jesus Cristo, é revelado o sentido de todos os símbolos, são descobertos todos os mistérios. Hoje abre-se o tesouro imenso do pai de família do qual fruirão plenamente todos os pobres, todos os fracos, todos os oprimidos. Cada um pode beber nas chagas do Senhor a graça de que mais necessita.

Hoje manifestou-se, acima de todas as coisas, o admirável mistério: o Rei dos homens faz-se o rebutalho da humanidade; o Altíssimo faz-se o último de todos; o Filho único de Deus oferece-se livremente à Cruz pelos pobres pecadores que somos nós. Ele quer pregar o pecado na cruz, matar a morte e, pelo seu sangue precioso, destruir a nota da dívida onde estão registradas as nossas faltas (Cl 2,14).

Não foi Ele que disse: “Quando eu for elevado, atrairei tudo a mim” (Jo 12,32)? Tudo, quer dizer, todos os homens, em quem tudo se reúne. Muitos homens encontram a cruz; entre muitas tribulações, Deus leva-os a essa cruz, para os atrair a Ele. Então eles carregam de bom grado a sua própria cruz e assim tornam-se verdadeiros amigos de Deus.


Johannes Tauler, O.P. (Juan Tauler)
Místico Dominicano do século XIV
Da Meditação sobre a Paixão

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA – Encontro de um verdadeiro aperitivo da vida eterna



SAGRADA FAMÍLIA
FESTA
27 DE DEZEMBRO

«Sagrada Família, o encontro de um verdadeiro aperitivo da vida eterna»

Quando José estava no exílio com o Menino e sua mãe, soube pelo anjo, durante o sono, que Herodes tinha morrido; mas, ao ouvir dizer que o seu filho Arquelau reinava no país, continuou a ter grande receio de que o Menino fosse morto. Herodes, que perseguia o Menino e o queria matar, é o mundo que, sem dúvida alguma, mata o Menino, o mundo de onde é necessário fugir se se quer salvar o Menino. Mas, uma vez que se fugiu exteriormente do mundo..., eis que Arquelau se levanta e reina: há ainda todo um mundo em ti, um mundo do qual tu não triunfarás sem muita aplicação e sem o socorro de Deus.

Porque há três inimigos fortes e encarniçados a vencer em ti e é com dificuldade se alguma vez se triunfa deles. Serás atacado pelo orgulho do espírito: queres ser visto, considerado, escutado... O segundo inimigo é a tua própria carne que te provoca pela impureza corporal e espiritual... O terceiro inimigo é aquele que te ataca, inspirando-te a malvadez, os pensamentos amargos, as suspeitas, os julgamentos malévolos, a raiva e os desejos de vingança... Queres tornar-te cada vez mais querido de Deus? Deves renunciar completamente a tais atitudes, porque tudo isso é Arquelau, o malvado. Receia e fica atento; na verdade, ele quer matar o Menino...

José foi avisado pelo anjo e chamado a regressar ao país de Israel. Israel significa «terra da visão»; Egito quer dizer «trevas»... É durante o sono, é só num verdadeiro abandono e na verdadeira passividade que receberás o convite para sair delas, tal como aconteceu a José... Podes então dirigir-te para a Galiléia, que quer dizer «passagem». Ali está-se acima de todas as coisas, tudo se atravessou, e chegou-se a Nazaré, «a verdadeira floração», o país onde desabrocham flores para a vida eterna.

Ali está-se certo de encontrar um verdadeiro aperitivo da vida eterna; ali está toda a segurança, a paz inexprimível, a alegria e o repouso; ali só chegam os que se abandonam, os que se submetem a Deus até que Ele os liberte e que não procuram libertar-se a si mesmos pela violência. São esses os que alcançam essa paz, essa floração, Nazaré, e ali encontram o que lhes dará a alegria eterna. Que isso seja a nossa partilha comum, que a isso nos ajude o nosso Deus, digno de todo o amor!


Johannes Tauler, O.P. (Juan Tauler)
Místico Dominicano do século XIV
Sermo II de Vigilia Epiphaniae


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

NATAL DE NOSSO SENHOR – Silenciar para que o Verbo nascido seja pronunciado em nós



NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO

«Silenciar para que o Verbo nascido seja pronunciado em nós»

"«Quando tudo estava envolvido em profundo silêncio, o teu Verbo todo-poderoso desceu.» (Sb 18,14-15) É deste Verbo que se trata hoje... Qual é então o lugar em que Deus vem pronunciar a sua Palavra e gerar o seu Filho? O coração em que tal nascimento deve cumprir-se há de guardar uma grande pureza, viver uma intensa vida interior, um profunda união com Deus. Se não se dispersar com o exterior mas permanecer recolhido, unido a Deus no mais profundo do seu ser, aí Deus escolhe habitar.

Como cooperar para este nascimento, para esta inspiração misteriosa do Verbo? Como
merecer que ele se realize em nós? Temos que nos aplicar a isso através de imagens ou de pensamentos acerca de Deus? Podemos apressar este novo nascimento de Deus em nós? Ou será melhor, pelo contrário, esvaziarmo-nos de qualquer pensamento, de qualquer palavra, de qualquer ação e de qualquer imagem e postarmo-nos diante de Deus no silêncio total para O deixarmos agir em nós?... A própria Palavra respondeu: "Foi no meio do silêncio que uma palavra secreta me foi dirigida." (Jb 4,16)

Recolhe-te pois, se o podes fazer; esquece tudo na tua oração; liberta-te das imagens de que estás cheio. Quanto mais esqueceres o resto, mais és capaz de receber esta Palavra que é para ti tão misteriosa... Evita pois a atividade e os pensamentos que te agitam, porque eles impedem a paz interior. Para que Deus fale o seu Verbo em nós, é preciso que nós mesmos estejamos na paz e no silêncio. Assim, Ele pode fazer-nos ouvir a sua Palavra - Ele próprio se fala em nós.

No Natal festejamos um triplo nascimento. O primeiro e mais sublime nascimento é o do Filho único gerado pelo Pai celeste na essência divina, sendo nisso distinto das pessoas. O segundo nascimento é o que se deu numa mãe que na fecundidade guardou a pureza absoluta da sua castidade virginal. O terceiro é aquele pelo qual Deus, todos os dias, à mesma hora, nasce em verdade, espiritualmente, pela graça e pelo amor, numa alma boa.

Para que seja possível este terceiro nascimento, permitamo-nos apenas a procura simples e pura de Deus, e abdiquemos de qualquer outro desejo que não nos seja próprio, tendo apenas como única vontade a de Lhe pertencermos, de Lhe darmos lugar da maneira mais digna e elevada, em total intimidade com Ele, para que possa realizar a sua obra, para que possa nascer em nós sem o menor obstáculo. Por isso nos diz Santo Agostinho : «Esvazia-te para que possas ficar completo; sai para que possas entrar», e diz ainda noutro texto: «Ó tu, alma nobre, nobre criatura, porque procuras fora de ti o que está em ti próprio, tão inteiro, da maneira mais verdadeira e manifesta? E, pois que participas da natureza divina, porque te hás-de importar com as coisas criadas, que tens tu a ver com elas?» Se o homem preparasse assim um lugar no mais profundo do seu ser, Deus, sem dúvida, seria obrigado a ocupá-lo e completamente; o próprio céu romper-se-ia para o fazer. Deus não pode deixar as coisas vazias; tal seria contrário à sua natureza, à sua justiça.

É por isso que deves calar-te; o Verbo deste nascimento poderá então ser pronunciado em ti e poderás ouvi-lo. Mas fica certo de que, se quiseres falar, Ele calar-se-á. A melhor maneira de servirmos o Verbo é calarmo-nos e escutarmo-Lo. Portanto, se saíres por completo de ti próprio, Deus entrará completo em ti; o quanto de ti próprio tu saíres, será o quanto Ele em ti entrará, nem mais, nem menos.


Johannes Tauler, O.P. (Juan Tauler)
Místico Dominicano do século XIV
Sermão para a celebração do Natal


sábado, 14 de novembro de 2009

CAMINHO ESPIRITUAL - AO ENCONTRO DO SENHOR




AO ENCONTRO DO SENHOR

Temos que nos dispor para sair ao encontro do Senhor. Saiamos agora para fora e avancemos por cima de nós mesmos até Deus. É preciso renunciar a todo querer, desejar o atuar próprio. Nada mais que a intenção pura e desnuda de buscar só a Deus, sem o mínimo desejo de buscar-se a si próprio nem coisa alguma que possa redundar em seu proveito. Com vontade plena de ser exclusivamente para Deus, de conceder-lhe a morada mais digna, a mais íntima para que Ele nasça ali e leve a cabo sua obra em nós, sem sofrer impedimento algum.

Com efeito, para que duas coisas se fundam é necessário que uma seja paciente e a outra se comporte como agente. Unicamente quando o olho está limpo é que poderá ver um quadro pendurado na parede ou qualquer outro objeto. Impossível seria se houvesse outra pintura gravada na retina. O mesmo ocorre com o ouvido: enquanto um ruído lhe ocupa, está impedido de captar outro. Como conclusão, o recipiente é tanto mais útil quanto mais puro e vazio.

A esse sossego do espírito se refere o cântico da Missa que começa: “Quando um sossegado silêncio tudo envolvia” (Sb 18, 14). Em pleno silêncio, toda a criação calava na mais alta paz da meia noite. Então, oh Senhor, a Palavra onipotente deixou seu Trono para acampar em nossa tenda (Liturgia de Natal). Será então, no ponto culminante, no apogeu do silêncio, quando todas as coisas ficaram submersas na calma, somente então, se fará sentir a realidade desta Palavra. Porque, se queres que Deus fale, faz falta que tu cales. Para que Ele entre, todas as coisas deverão ter saído”.

A isto se referia Santo Agostinho quando dizia: "Esvazia-te para seres preenchida, sai para entrar". E em outro lugar: "Oh tu, alma nobre, nobre criatura, por que buscas fora a Quem está plena y manifestamente dentro de ti? És partícipe da natureza divina".


Johannes Tauler OP (Juan Tauler/1300-1361)
Instituciones, Temas de oración, CI 9


domingo, 24 de maio de 2009

ASCENSÃO DO SENHOR - As verdadeiras e fiéis testemunhas de Cristo



Solenidade

“Não são poucos os que querem ser testemunhas do Senhor da paz, enquanto tudo corre conforme seus desejos. Querem de boa vontade ser santos, mas sem trabalho, sem tédio, sem tribulações, sem prejuízos. Desejam, pois, conhecer a Deus, saboreá-lo, senti-lo, mas sem amargura alguma. Se efetivamente devem trabalhar e se lhes produz amargura, tristeza, trevas e árduas tentações, se Deus se lhes esconde e se vêem desprovidos de consolos interiores ou exteriores, num instante se desvanecem seus bons propósitos. Não são as verdadeiras testemunhas que o Senhor exige.

Quem há que não busque a paz, quem que não queira ter a paz em tudo o que faz? E, entretanto, este modo de buscar esta paz deve sem dúvida ser descartado. Devemos esforçar-nos em ter paz em todo o tempo, inclusive nas adversidades com não pouco esforço. Daí deve nascer a verdadeira paz, estável, segura. Verdadeiramente qualquer outra coisa que busquemos ou queiramos será um engano. Se, em troca, nos esforçamos enquanto nos seja possível, por estar alegres na tristeza e nos mantivermos tranqüilos na tribulação, simples nas dificuldades e alegres na angústia, então seremos verdadeiras testemunhas de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A tais discípulos, o mesmo Cristo, vivo e ressuscitado dentre os mortos, desejava a paz. Estes em sua vida terrena nunca encontraram uma paz externa; mas lhes foi dada uma paz essencial, a verdadeira paz nas tribulações, a felicidade nos insultos, a vida na morte. Se alegravam e exultavam quando os homens lhes odiavam, quando os entregavam aos tribunais, quando eram condenados à morte. Tais são as verdadeiras testemunhas de Deus”.


Frei Johannes Tauler, O.P.
Místico Dominicano do século XIV
Sermón en la fiesta de la Ascensión del Señor
Cit.por dominicos.org

sábado, 28 de março de 2009

A Voz do silêncio



"A Voz do silêncio

Introversão

É de todo necessário a volta ao interior, entrar dentro de nós mesmos, para que Deus nasça na alma. Urge alcançar um forte impulso de recolhimento, recolher e introduzir todas as nossas potências, inferiores e superiores, e trocar a dispersão pela concentração, pois, como dizem, a união faz a força. Quando um atirador pretende um golpe certeiro no branco, fecha um olho para fixar melhor com o outro. Assim também quem quer conhecer algo a fundo necessita que todos os seus sentidos convirjam a um mesmo ponto a fim de dirigi-los ao centro da alma de onde saíram.

Ao encontro do Senhor

Assim, nos teremos disposto para sair ao encontro do Senhor. Saiamos agora e avancemos por cima de nós mesmos até Deus. É necessário renunciar a todo querer, desejar ou atuar próprio. Nada mais que a intenção pura e desnuda de buscar só a Deus, sem o mínimo desejo de buscar-se a si mesmo nem coisa alguma que possa redundar em seu proveito. Com vontade plena de ser exclusivamente para Deus, de conceder-lhe a morada mais digna, a mais íntima a fim de que Ele nasça e leve a cabo a sua obra em nós, sem impedimento algum.

Com efeito, para que haja fusão entre duas coisas é necessário que uma seja paciente e a outra se comporte como agente. Unicamente quando o olho está limpo é que poderá ver um quadro pregado na parede ou qualquer outro objeto. Isso seria impossível se houvesse outra pintura gravada na retina. O mesmo ocorre com o ouvido: enquanto um ruído lhe ocupa, está impedido de captar outro. Como conclusão, o recipiente é tanto mais útil quanto mais puro e vazio.

A isto se referia Santo Agostinho quando disse: “Esvazia-te para seres preenchido, sai para entrar”. E em outro lugar: “Oh, tu, alma nobre, nobre criatura, porque buscas fora a quem está plena e manifestadamente dentro de ti? És partícipe da natureza divina, porque então escravizar-te às criaturas?”.


Vazio e plenitude

Se de tal modo o homem preparasse a sua morada, o fundo da alma, Deus o preencheria sem dúvida alguma, se lhe daria em abundância. Romperiam-se os céus para preencher o vazio.

A nossa natureza tem horror ao vazio, dizem. Então, quanto seria contrário ao Criador e à sua justiça, abandonar uma alma assim disposta! Escolhe pois um dos dois: calar, tu, e falar Deus ou falar, tu, para que Ele se cale. Deves fazer silêncio.

Então, será outra vez pronunciada a Palavra que tu poderás entender e nascer: Deus na alma. Em troca, tens por certo que se tu insistires em falar, nunca ouvirás a sua Voz. Manter nosso silêncio, aguardando a escuta do Verbo é o melhor serviço que lhe podemos prestar. Se saíres de ti completamente, Deus de novo se te dará em plenitude. Porque à medida que tu sais, Ele entra. Nem mais nem menos.

Silêncio da alma

A esse sossego do espírito se refere o cântico da Missa que começa: “Quando um sossegado silêncio tudo envolvia” (Sb 18, 14). Em pleno silêncio, toda a criação calava na mais alta paz da meia noite. Então, oh Senhor, a Palavra onipotente deixou seu Trono para acampar em nossa tenda (Liturgia de Natal). Será então, no ponto culminante, no apogeu do silêncio, quando todas as coisas ficaram submersas na calma, somente então, se fará sentir a realidade desta Palavra. Porque, se queres que Deus fale, faz falta que tu cales. Para que Ele entre, todas as coisas deverão ter saído”.


Johannes Tauler, O.P. (Juan Tauler/1300-1361)
Instituciónes, Temas de oración