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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Quaresma– Chiara Lubich: Esforçar-nos para entrar pela porta estreita



QUARESMA 2010


Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir (Lc 13, 24)


«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

Várias vezes, Jesus comparou o Paraíso a uma festa de casamento, a uma reunião de família à volta da mesa. De fato, na nossa experiência humana, são estes os melhores momentos e os mais serenos. Mas quantos entrarão no Paraíso, quantos se sentarão na “sala do banquete”?

É a pergunta que, um dia, alguém dirige a Jesus: “Senhor, são poucos os que se salvam?”. Como já tinha feito outras vezes, Jesus vai para além da discussão e coloca cada um diante da decisão que deve tomar. Convida-o a entrar na casa de Deus.

Mas isso não é fácil. A porta para entrar é estreita e fica aberta por pouco tempo. Na verdade, para seguir Jesus é necessário renegar-se, renunciar – pelo menos espiritualmente – a si mesmo, às coisas, às pessoas. Mais ainda: é preciso pegar na cruz, como Ele fez. Um caminho difícil, sem dúvida, mas que todos – com a graça de Deus – podem percorrer.


«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

É mais fácil entrar pela “porta larga” e pelo “caminho espaçoso” de que Jesus fala noutro lugar, mas esse caminho pode conduzir à “perdição”. Neste nosso mundo secularizado, saturado de materialismo, de consumismo, de hedonismo, de vaidades, de violência, tudo parece ser permitido. Tende-se a satisfazer todas as exigências, a ceder a todos os compromissos para atingir a felicidade.

Mas nós sabemos que só se obtém a verdadeira felicidade amando. E também que a renúncia é a condição necessária para o amor. É preciso sermos podados para dar bons frutos. É preciso morrermos a nós mesmos para viver. É a lei de Jesus, um Seu paradoxo. A mentalidade corrente invade-nos como a enchente de um rio e nós devemos ir contra a corrente: saber renunciar, por exemplo, à avidez de possuir, à rivalidade preconcebida, à difamação do adversário. Mas também realizar o nosso trabalho com honestidade e generosidade, sem lesar os interesses dos outros. Saber discernir aquilo que se pode ver na televisão ou aquilo que se pode ler, etc.


«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

Para quem se deixa levar por uma vida fácil e não tem a coragem de enfrentar o caminho proposto por Jesus, abre-se um futuro triste. Também isto é mencionado no Evangelho. Jesus fala-nos do sofrimento daqueles que serão deixados de fora. Não bastará vangloriarmo-nos de pertencer a uma certa religião ou contentarmo-nos com um cristianismo de tradição. É inútil dizermos: “Comemos e bebemos contigo...”. A salvação é, antes de mais, uma dádiva de Deus, mas que cada um deve conquistar com esforço.

Será duro ouvir dizer: “(Não vos conheço), não sei de onde sois”. Será solidão, desespero, absoluta falta de relacionamentos, o desgosto enorme de ter tido a possibilidade de amar e de já não poder amar. Um tormento do qual não se vê o fim porque nunca terá fim: “pranto e ranger de dentes”.

Jesus avisa-nos porque deseja o nosso bem. Não é Ele que fecha a porta. Somos nós que nos fechamos ao Seu amor. Ele respeita a nossa liberdade.


«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

Se a porta larga conduz à perdição, a porta estreita abre-se de par em par à verdadeira felicidade. Depois de cada Inverno desponta a Primavera. Sim, devemos viver com prontidão a renúncia que o Evangelho exige, pegar todos os dias na nossa cruz. Se soubermos sofrer com amor, em unidade com Jesus que assumiu todas as nossas dores, experimentaremos um paraíso antecipado.

Foi assim também para Roberto, quando esteve na última audiência do processo contra quem tinha causado a morte do pai, quatro anos antes. Depois da sentença de condenação, o autor do atropelamento, juntamente com a mulher e o pai, mostrava-se muito deprimido. “Gostaria de me aproximar daquele homem, vencendo o orgulho que me dizia que não; fazer-lhe sentir que estava com ele”.

Mas a irmã disse-lhe: “São eles que nos devem pedir desculpa...”. Roberto convence-a e, juntos, vão ter com a família “adversária”: “Se isto puder aliviar o vosso espírito, saibam que não temos nenhum rancor para convosco”. Apertam as mãos uns dos outros com força. “Sinto-me invadido pela felicidade: soube aproveitar a ocasião para olhar para o sofrimento dos outros, esquecendo o meu”.


Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares
Palavra de vida, Ago de 2004

QUARTA-FEIRA DE CINZAS – Esta cruz não é de quarenta dias, mas de toda a vida



QUARESMA 2010

4ª FEIRA DE CINZAS


«Esta cruz não é de quarenta dias, mas de toda a vida»


Iniciamos hoje a observância da Quaresma, como acontece todos os anos. É nosso dever dirigir-vos uma solene exortação, a fim de que a palavra de Deus, proferida por nosso ministério pastoral, alimente o coração daqueles que submeterão seus corpos ao jejum. Possa assim o homem interior, reconfortado por tal alimento, praticar a mortificação exterior, suportando-a com mais coragem. Com efeito, estando nós para celebrar a Paixão do Senhor, já tão próxima, convém à nossa devoção que façamos também para nós uma cruz, para nela refrearmos os prazeres.

Desta cruz deve pender continuamente o cristão no decorrer da vida tão cheia de tentações. Efetivamente, este não é um tempo oportuno para arrancarmos os cravos mencionados num Salmo: Penetras minha carne com os cravos de teu temor (Sl 118 [119], 120: Vulg.). A carne são os maus desejos; os cravos, os preceitos da justiça. Por meio deles, o temor do Senhor prega os nossos maus desejos, crucificando-nos como um sacrifício que lhe é agradável.

Por isso, diz também o Apóstolo: Eu vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (Rm 12, 1). Eis, pois, a cruz na qual não somente o servo de Deus não é confundido, mas também se gloria, dizendo: Quanto a mim, que eu me glorie somente na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo. Por ele, o mundo está crucificado para mim, como eu estou crucificado para o mundo (Gl 6, 14).

Esta cruz não deve permanecer apenas durante quarenta dias, mas por toda a vida. Moisés, Elias e o próprio Senhor jejuaram também quarenta dias. Eles, que representavam a Lei, os Profetas e o próprio Evangelho, indicam-nos desta maneira que não devemos nos conformar nem nos afeiçoar a este mundo, mas, sim, crucificar o velho homem.

Vive sempre desse modo, ó cristão, aqui no mundo. Se não quiseres afundar no limo da terra, não desças dessa cruz. Ora, se é assim que devemos proceder a vida inteira, quanto mais nestes dias da Quaresma! Cumpre, pois, não restringir a cruz a esses quarenta dias, mas transportá-la por toda a vida.


Santo Agostinho
Sermo 205, 1
Patrologia Latina 38, 1039-1040

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

ADVENTO – Chiara Lubich: Esforçar-nos para entrar pela porta estreita



Esforçar-nos para entrar pela porta estreita

«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir» (Lc 13, 24)

Várias vezes, Jesus comparou o Paraíso a uma festa de casamento, a uma reunião de família à volta da mesa. De fato, na nossa experiência humana, são estes os melhores momentos e os mais serenos. Mas quantos entrarão no Paraíso, quantos se sentarão na “sala do banquete”?

É a pergunta que, um dia, alguém dirige a Jesus: “Senhor, são poucos os que se salvam?”. Como já tinha feito outras vezes, Jesus vai para além da discussão e coloca cada um diante da decisão que deve tomar. Convida-o a entrar na casa de Deus.

Mas isso não é fácil. A porta para entrar é estreita e fica aberta por pouco tempo. Na verdade, para seguir Jesus é necessário renegar-se, renunciar – pelo menos espiritualmente – a si mesmo, às coisas, às pessoas. Mais ainda: é preciso pegar na cruz, como Ele fez. Um caminho difícil, sem dúvida, mas que todos – com a graça de Deus – podem percorrer.

«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

É mais fácil entrar pela “porta larga” e pelo “caminho espaçoso” de que Jesus fala noutro lugar, mas esse caminho pode conduzir à “perdição”. Neste nosso mundo secularizado, saturado de materialismo, de consumismo, de hedonismo, de vaidades, de violência, tudo parece ser permitido. Tende-se a satisfazer todas as exigências, a ceder a todos os compromissos para atingir a felicidade.

Mas nós sabemos que só se obtém a verdadeira felicidade amando. E também que a renúncia é a condição necessária para o amor. É preciso sermos podados para dar bons frutos. É preciso morrermos a nós mesmos para viver. É a lei de Jesus, um Seu paradoxo. A mentalidade corrente invade-nos como a enchente de um rio e nós devemos ir contra a corrente: saber renunciar, por exemplo, à avidez de possuir, à rivalidade preconcebida, à difamação do adversário. Mas também realizar o nosso trabalho com honestidade e generosidade, sem lesar os interesses dos outros. Saber discernir aquilo que se pode ver na televisão ou aquilo que se pode ler, etc.

«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

Para quem se deixa levar por uma vida fácil e não tem a coragem de enfrentar o caminho proposto por Jesus, abre-se um futuro triste. Também isto é mencionado no Evangelho. Jesus fala-nos do sofrimento daqueles que serão deixados de fora. Não bastará vangloriarmo-nos de pertencer a uma certa religião ou contentarmo-nos com um cristianismo de tradição. É inútil dizermos: “Comemos e bebemos contigo...”. A salvação é, antes de mais, uma dádiva de Deus, mas que cada um deve conquistar com esforço.

Será duro ouvir dizer: “(Não vos conheço), não sei de onde sois”. Será solidão, desespero, absoluta falta de relacionamentos, o desgosto enorme de ter tido a possibilidade de amar e de já não poder amar. Um tormento do qual não se vê o fim porque nunca terá fim: “pranto e ranger de dentes”.

Jesus avisa-nos porque deseja o nosso bem. Não é Ele que fecha a porta. Somos nós que nos fechamos ao Seu amor. Ele respeita a nossa liberdade.

«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

Se a porta larga conduz à perdição, a porta estreita abre-se de par em par à verdadeira felicidade. Depois de cada Inverno desponta a Primavera. Sim, devemos viver com prontidão a renúncia que o Evangelho exige, pegar todos os dias na nossa cruz. Se soubermos sofrer com amor, em unidade com Jesus que assumiu todas as nossas dores, experimentaremos um paraíso antecipado.

Foi assim também para Roberto, quando esteve na última audiência do processo contra quem tinha causado a morte do pai, quatro anos antes. Depois da sentença de condenação, o autor do atropelamento, juntamente com a mulher e o pai, mostrava-se muito deprimido. “Gostaria de me aproximar daquele homem, vencendo o orgulho que me dizia que não; fazer-lhe sentir que estava com ele”.

Mas a irmã disse-lhe: “São eles que nos devem pedir desculpa...”. Roberto convence-a e, juntos, vão ter com a família “adversária”: “Se isto puder aliviar o vosso espírito, saibam que não temos nenhum rancor para convosco”. Apertam as mãos uns dos outros com força. “Sinto-me invadido pela felicidade: soube aproveitar a ocasião para olhar para o sofrimento dos outros, esquecendo o meu”.


Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares
Palavra de vida, Ago de 2004

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

SÃO RAFAEL ARNÁIZ/ SAN RAFAEL ARNÁIZ – OCULTO EM DEUS/ OCULTO EN DIOS




CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

SÃO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN


14 de dezembro de 1936 - 25 anos
Mi cuaderno - San Isidro

”Um dos encantos, melhor dizendo, consolos da vida monacal, é o estar oculto aos olhares do mundo. Isto o compreenderá quem gostar de meditar na vida de Cristo. Para dedicar-se a uma arte, para aprofundar-se em uma ciência, o espírito necessita solidão e isolamento, necessita recolhimento e silêncio. Agora, para a alma enamorada de Deus, para a alma que já não vê mais arte nem mais ciência que a vida de Jesus, para a alma que encontrou na terra o tesouro escondido, o silêncio não lhe basta, nem seu recolhimento em solidão. É necessário ocultar-se de todos, é necessário ocultar-se com Cristo, buscar um lugar na terra onde não cheguem os olhares profanos do mundo, e alí estar a sós com seu Deus.

O segredo do Rei como que se mancha e perde o brilho ao ser revelado. Esse segredo do Rei há que se ocultar para que ninguém o veja. Esse segredo que muitos crêem ser comunicações divinas e consolos sobrenaturais, esse segredo do Rei que invejamos nos Santos, se reduz muitas vezes a uma Cruz.

Não coloquemos a luz debaixo de uma vasilha, nos diz Jesus no Evangelho. Divulguemos as grandezas de Deus. Façamos chegar ao coração de nossos irmãos os tesouros de graças que Deus derrama abundantemente sobre nós. Divulguemos aos quatro ventos nossa fé, enchamos o mundo de gritos de entusiasmo por termos um Deus tão bom. Não nos cansemos de pregar seu Evangelho e dizer a todos que nos queiram ouvir, que Cristo morreu amando aos homens, cravado em um madeiro. Que morreu por mim, por ti, por eles... E se nós deveras lhe amamos, não lhe ocultemos, não ponhamos a luz que pode iluminar a outros, debaixo de uma vasilha.

Mas em troca, bendito Jesus, levemos, bem dentro e sem que ninguém se inteire, esse divino segredo... Esse segredo que Tu dás às almas que mais te querem... Essa pequenina parte de tua Cruz, de tua sede, de teus espinhos.

Ocultemos no último lugar da terra nossas lágrimas, nossas penas e nossos desconsolos. Não enchamos o mundo de tristes gemidos, nem levemos a ninguém nem a mais pequenina parte de nossas aflições.

Sejamos egoístas para sofrer e generosos na alegria. Façamos a felicidade dos que nos rodeiam e não turvemos o ambiente com caras tristes quando Deus nos mande alguma prova.

Ocultemo-nos para estar com Jesus na Cruz. Não busquemos mitigação à dor no consolo das criaturas, pois estaremos fazendo duas coisas que não são ruins, mas que não são perfeitas. Primeiro, ao deixar a Deus pelo que não é Deus, pois não é consolo seu o que Dele não vem, e se Ele não quer dá-lo, ao buscar fora Dele, perdemos a Ele, e também perdemos muitas vezes o mérito do sofrimento. Segundo, em nosso egoísmo, fazemos ou pelo menos queremos fazer participantes aos demais, do nosso sofrimento, para assim aliviar-nos, e conseguirmos com isso alívio fictício e falso, pois se te dói um dente, te seguirá doendo quer o digas ou não.

Em resumo, quase sempre é um ato de egoísmo e também falta de humildade, dar importância ao nosso sofrimento, como se por ser nosso fosse importante. Em troca, não buscando nada nas criaturas e sim tudo em Deus, se chega a amar a Cruz, mas a Cruz a sós e escondido... Na Cruz, ocultos com Deus e longe dos homens.

Ocultemos nossa vida, se nossa vida é penar. Ocultemos o sofrer, se o sofrer nos causa pena. Ocultemo-nos com Cristo para só a Ele fazer-lhe partícipe do que, pensando bem, só é Dele: o segredo da Cruz.

Aprendamos de uma vez, meditando em sua vida, em sua Paixão e em sua morte, que só há um caminho para se chegar a Ele..., o caminho da Santa Cruz”.


São Rafael Arnáiz Barón
Vida y Escritos del Beato Fray María Rafael Arnáiz Barón
Mi cuaderno, pp.374-376

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Santa Clara de Assis - O amor esponsal em Clara



Festa 11 de agosto

“O amor esponsal em Clara”

“Santa Clara fez-se esposa do Senhor dos senhores porque se sentiu profundamente afeiçoada pelo Seu irrestrito amor. Por divina inspiração, Clara renunciou a todos os outros amores possíveis para poder entregar-se inteiramente ao único esposo Jesus Cristo. Em outras palavras, com todas as fibras do seu coração, procurou evitar que ‘toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo’(RSC 10,6) desviassem o seu coração do único necessário: Jesus Cristo. Assim, conservando o seu corpo casto e virginal, sem nada de próprio, acolhe Jesus no claustro de seu seio. Por conseguinte, Clara revive espiritualmente o mistério da mãe do Senhor, que humildemente dispôs-se à ação transformadora do Espírito Santo e tornou-se efetivamente a mãe do Filho do altíssimo Pai.

Clara retrai-se do corre-corre da ‘cidade’ e recolhe-se no santuário de sua alma para ali, na mais pessoal e individual solidão, encontrar-se a sós com o Amado. No tálamo do seu coração, no silêncio dos sentidos e do intelecto deixa-se enlevar tanto pelo amor do Amado, ou melhor, do Amante, que todo o seu afeto, amor, carinho, atenção e serviço às suas Irmãs, aos pobres e doentes são manifestações concretas de sua uniformidade com o Espírito de Cristo.

Parte da Segunda Carta de Santa Clara a Santa Inês de Praga:

‘Agradeço ao Doador da graça, do qual cremos que procedem toda dádiva boa e todo dom perfeito (Tg 1,17), pois adornou-a com tantos títulos de virtude e a fez brilhar em sinais de tanta perfeição, para que, feita imitadora atenta do Pai perfeito (cf. Mt 5,48), mereça ser tão perfeita que seus olhos não vejam em você nada de imperfeito (cf. Sl 138,16).

É essa perfeição que vai uni-la ao próprio Rei no tálamo celeste, onde se assenta glorioso sobre um trono estrelado. Desprezando o fausto de um reino da terra, dando pouco valor à proposta de um casamento imperial, você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrimônio.

Veja como por você ele (o Cristo pobre) se fez desprezível e siga-o, sendo desprezível por ele neste mundo. Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens (Sl 44,3), feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz. Se você sofrer com Ele, com Ele vai reinar’ (Fontes Franciscanas e Clarianas)”.

Cit.por franciscanos.org

Edith Stein: fenomenologia e espiritualidade



Festa 09 de agosto

Edith Stein: fenomenologia e espiritualidade!


O teor espiritual da vida de Edith Stein foi ascendente, culminando, na última etapa de sua curta estada existencial – quando fora ‘hóspede’ de Hitler em Auschwitz – numa vida contemplativa. Esta elevação silenciosa, como a subida do Monte Carmelo, foi cada vez mais apurada e, inclusive, podemos dizer que tal acuidade espiritual revestiu, plenamente, sua existência (1). Esta ascensão purificadora, como o caminhar da alma às escuras da noite (2) é o que define o caminho da ascética à mística (3). A dimensão espiritual de sua vida foi, pouco a pouco, revelada através do caráter dinâmico de sua obra. Seus escritos se desenvolvem, verdadeiramente, a partir dos mais profundos anseios espirituais de uma vida intima e dinamicamente voltada para Deus. E esta veemência, longe de afastá-la do real, acercou-a ainda mais do mundo fenomênico a ponto de desejá-lo, entendê-lo e questioná-lo, objetivamente, mediante uma percepção cada vez mais apurada do mesmo.

Ela nos diz que é no seu íntimo, na sua essência, que a alma se encontra em casa. Por meio da atividade natural de suas faculdades, ela sai de si própria e vai ao encontro do mundo exterior, exercendo uma atividade sensível que é inferior à ela mesma (4). Tudo isso, mediante expressões sensíveis, sensações, sons, palavras, ações e obras, que correspondem certa manifestação interior, espontânea ou não, consciente ou inconsciente (5). Sua intensa preocupação acerca de uma teoria do conhecimento que desse conta do estabelecimento desta ponte é o marco de sua incansável busca. Mesmo os seus interesses mais comuns permearam-se com este ardor espiritual de uma vida interior (6). Independente de sua proeminente formação acadêmica edificava-se nela um natural interesse objetivo pelo mundo, mediante uma profunda e perspicaz visão subjetiva do mesmo. Nascera-lhe o desejo filosófico, mediante uma percepção natural.

Este amor à sabedoria a levaria questionar o modo como teria que se edificar uma ponte entre a maneira como este denso mundo pessoal –subjetivo marcado fortemente por uma atividade espiritual– percebe o mundo aparente e o modo como este mundo aparente –objetivo e caracterizado intensamente por uma objetividade corpórea– se apresenta à percepção subjetiva da consciência. Este modo subjetivo de considerar a realidade a aproximou da filosofia e de uma intensa percepção filosófica do mundo objetivo. Não obstante, esta cercania se deu a partir da própria tensão de seu mundo subjetivo, ou seja, de sua visão ‘pessoal’ e subjetiva do real.


Nestes termos seria plausível supor que a densidade espiritual de sua percepção subjetiva do mundo objetivo a impulsionaria, necessariamente, entendê-lo, a partir desta mesma subjetividade. Podemos dizer que a finura espiritual de sua vida a incentivou à percepção filosófica subjetiva de um mundo objetivo. Esta espiritualidade lhe exigia, em sua dimensão cognoscitiva, uma explicação. Era necessário, para um melhor entendimento do mundo, compreender-se a si mesma, mediante a compreensão do modo como sua própria consciência opera. Esta exigência passava pela compreensão de uma teoria do conhecimento que se arquitetasse sobre princípios norteadores da consciência, determinando-lhe a intencionalidade da percepção objetiva. Neste caso, qual filosofia, senão a de Edmund Husserl, poderia oferecer-lhe naquele momento, respostas mais adequadas à busca de compreensão do modo como se estruturava e operava a consciência, subjetivamente, na consideração objetiva do mundo? Sua aproximação à fenomenologia de Husserl foi inevitável.

E ela buscava, primeiramente, compreender e logo viabilizar, mediante a percepção filosófica subjetiva, esta ponte entre a percepção intencional da consciência e a objetividade do mundo real, a partir de um vivo diálogo da percepção do ego – a subjetividade – com o mundo – a objetividade. Não foi a intensidade da fenomenologia de Husserl que a fez desvelar-se em sua densidade subjetiva espiritual e convertê-la ao Catolicismo, mas ao contrário, foi a sua própria intensa vida espiritual, que a aproximou da fenomenologia de Husserl, vendo nesta uma possibilidade de arquitetar um modelo filosófico para a compreensão de como a consciência subjetiva e intencional opera sobre o real objetivo.

Foi esta veemência espiritual que a fez ver, cada vez mais, no Cristianismo, uma efetiva resposta às suas mais profundas aspirações intelectuais e espirituais, que a própria fenomenologia não lhe poderia oferecer. Este clamor de uma vida contemplativa não pressupôs a filosofia, antes, ao contrário, foi este ardor místico que a fez amar a filosofia e denotar, mediante ela, sua vocação sobrenatural. Não há dúvida que a filosofia colaborara para uma melhor visão cristã do mundo. Se a filosofia a fez chegar ao Cristianismo, a própria ciência do Cristianismo – a qual denominou ciência da cruz – lhe proporcionaria descobrir a intensa vida do Evangelho, cristalizadas em obras de espiritualidade e de teologia, como as de mística de São João da Cruz, Santa Teresa de Ávila e a Filosofia e Teologia de Tomás de Aquino. Eis as descobertas que lhe marcariam profundamente, no que se refere ao seu modo de ser e ao modo de pensar o mundo.

1 E. Stein, Chemins vers le silence intérieur. Textes choisis et présentés par Vincent Aucante. Saint-Maur, Parole et Silence, 1998, p. 11-69.
2 S. João da Cruz, Subida do Monte Carmelo, Liv. I. Cap. II, n. 1. [Obras Completas, 7ª edição. Petrópolis, Vozes, 2002, p. 143].
3 R. Garrigou-Lagrange, Les trois âges de la vie intérieure, prélude de celle du Ciel. Tome Ier. Paris, Les Éditions du Cerf, 1938, p. 16-29.
4 E. Stein, A Ciência da Cruz. Tradução de D. Beda Kruse. São Paulo, Edições Loyola, 2002, p. 127.
5 E. Stein, A Ciência da Cruz. Op. cit., p. 130.
6 E. Stein, Chemins vers le silence intérieur. Op. Cit. p. 11-69.


Professor Dr. Paulo Faitanin
Departamento de Filosofia –UFF
Cit.por aquinate.com

sábado, 25 de julho de 2009

NOSSA SENHORA DO CARMO – Maria, modelo das almas interiores



Festa 16 de julho

“Ó Maria, sois modelo das almas interiores, das criaturas por Deus escolhidas para viverem no seu íntimo, num profundo abismo. Com que paz, com que recolhimento vos aproximáveis de alguma coisa, fazíeis qualquer coisa! Aliás, as mais comuns, eram por vós divinizadas! Em tudo e por tudo vivíeis em adoração do dom de Deus! O que não vos impedia de vos dedicardes aos outros, quando se tratava de praticar a caridade.

Como me pareceis bela quando vos contemplo durante vosso longo martírio, tão serena em vossa majestade, que revela ao mesmo tempo força e doçura! Bem haveis aprendido do Verbo como hão de sofrer os que chama o pai a serem vítimas! Os que decidiu associar à grande obra da Redenção, os que ‘conheceu e predestinou a serem conformes a Cristo’ crucificado por amor.

Permaneceis de pé, junto à cruz, forte, heróica, e diz-me o Mestre: ‘Eis tua mãe’. Assim vos deu a mim por mãe. Agora, que voltou ao Pai, colocou-me em seu lugar na cruz para que ‘sofra em meu corpo o que falta à sua Paixão em benefício de seu Corpo que é a Igreja’. E Vós, ó Virgem Santa, estás também junto à minha cruz para ensinar-me a sofrer com Ele, para transmitir-me os últimos cânticos de sua alma que somente Vós pudestes perceber”.

Beata Elizabeth da Trindade, ocd
Retiro I, 10,1; Retiro II, 15

terça-feira, 9 de junho de 2009

ANO SACERDOTAL – Ano para mostrar amor da Igreja aos sacerdotes (II)



Entrevista com o Cardeal Claudio Hummes, Prefeito da Congregação para o Clero

Cardeal: Ano para mostrar amor da Igreja aos sacerdotes (II)


Continuação da entrevista


CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 5 de junho de 2009 (ZENIT.org)- No próximo dia 19 de junho, o Papa Bento XVI inaugurará na Basílica de São Pedro o Ano Sacerdotal, com o tema: “Fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote”. Durante este ano, Bento XVI proclamará São João Maria Vianney como “padroeiro de todos os sacerdotes do mundo”. Também será publicado o “Diretório para os confessores e diretores espirituais”, assim como uma recopilação de textos do Papa sobre temas essenciais da vida e da missão sacerdotal na época atual. Zenit conversou com o Cardeal brasileiro Claudio Hummes, O.F.M., Prefeito da Congregação do Clero e Bispo emérito de São Paulo, que apresenta este Ano como “propositivo” e como uma oportunidade para que os sacerdotes recordem que “a Igreja os ama, que se preocupa com eles”. A primeira parte desta entrevista foi publicada em 04 de junho.

– Como o senhor acha que deve ser a formação de um seminarista nos âmbitos pessoal, espiritual, intelectual e litúrgico? Que aspectos acha que não podem faltar?

– Cardeal Hummes: A Igreja fala de quatro dimensões que devem ser cultivadas com os candidatos.

Em primeiro lugar, a dimensão humana, a afetiva – toda questão de sua pessoa –, sua natureza, sua dignidade e uma maturidade afetiva normal. Isso é importante, porque é a base.

Depois está a dimensão espiritual. Hoje nos encontramos diante de uma cultura que já não é nem cristã nem religiosa. Portanto, é ainda mais necessário desenvolver bem a espiritualidade nos candidatos.

Existe também a dimensão intelectual. É necessário estudar filosofia e teologia para que os sacerdotes sejam capazes de falar e de anunciar Jesus Cristo e sua mensagem hoje, de modo que se evidencie toda a riqueza do diálogo entre a fé e a razão humana. Deus é o Logos de tudo e Jesus Cristo é sua explicação.

Depois, obviamente, está a dimensão de apostolado, ou seja, deve-se preparar estes candidatos para ser pastores no mundo de hoje. Neste âmbito pastoral, hoje é muito importante a identidade missionária. Os sacerdotes devem ter não só uma preparação, mas também um estímulo forte para não limitar-se só a receber e oferecer o serviço àqueles que vem para vê-los, mas também para sair em busca das pessoas que não vão à Igreja, sobretudo daqueles batizados que se afastaram porque não foram suficientemente evangelizados, e que têm o direito de sê-lo, porque prometemos levar Jesus Cristo, educar na fé. Isso muitas vezes não se fez ou se fez muito pouco. O sacerdote deve ir em missão e preparar sua comunidade para que vá anunciar Jesus Cristo às pessoas, ao menos àqueles que estão no território de sua paróquia, mas também mais além desta. Hoje, esta dimensão missionária é muito importante. O discípulo se converte em missionário com sua adesão entusiasta, alegre a Cristo, capaz de revestir d’Ele incondicionalmente toda sua vida. Devemos ser como os discípulos: fervorosos, missionários, alegres. Nisto consiste a chave, o segredo.


– Que atividades especiais vão realizar neste ano, tanto para os jovens como para os próprios sacerdotes?

– Cardeal Hummes: Haverá iniciativas no âmbito da Igreja universal, mas o ano do sacerdote deve ser celebrado também a nível local. Ou seja, nas igrejas locais, nas dioceses e nas paróquias, porque os sacerdotes são os ministros do povo e devem incluir as comunidades. As dioceses devem impulsionar iniciativas tanto de aprofundamento como de celebração, para levar aos sacerdotes a mensagem de que a Igreja os ama, respeita, admira e se sente orgulhosa deles.

O Papa abrirá o Ano Sacerdotal em 19 de junho, na Festa do Sagrado Coração de Jesus, porque é a Jornada Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes. Haverá vésperas solenes celebradas na basílica vaticana, estará presente a relíquia do Cura d’Ars. Seu coração estará na Basílica como sinal da importância que o Papa quer dar aos sacerdotes. Esperamos que muitos sacerdotes estejam presentes.

O encerramento acontecerá um ano depois. Ainda está por definir-se a data exata do grande encontro do Papa com os sacerdotes, ao qual estão convidadas todas as dioceses. Haverá outras muitas iniciativas. Estamos pensando também em realizar um congresso teológico internacional nos dias precedentes ao encerramento. Também haverá exercícios espirituais. Esperamos também poder envolver as universidades católicas, para que possam aprofundar no sentido do sacerdócio, na teologia do sacerdócio e em todos os temas que são importantes para os sacerdotes.

– O senhor poderia falar-nos agora dos desafios que um sacerdote enfrenta nesta sociedade tão anti-religiosa? Como crê que pode permanecer fiel a sua vocação?

– Cardeal Hummes: Em primeiro lugar, a Igreja, através de seus seminários e formadores, deve fazer uma seleção muito rigorosa dos candidatos. Depois, é necessário ter uma boa formação, fundamentalmente na dimensão humana, intelectual, espiritual, pastoral e missionária. É fundamental recordar que o sacerdote é discípulo de Jesus Cristo e estar seguro de que tenha tido este encontro pessoal e comunitário intenso com Jesus Cristo, tenha lhe dado sua adesão. Cada missa pode ser um momento muito forte para este encontro. Mas também a leitura da Palavra de Deus.

Como dizia João Paulo II, há muitas oportunidades para testemunhar o encontro com Jesus Cristo. É fundamental ser um missionário capaz de renovar este zelo sacerdotal, de sentir-se alegre e convencido de sua missão e de conscientizar-se de que isso tem um sentido fundamental para a Igreja e para o mundo.

Sempre digo que os sacerdotes não são importantes só pelo aspecto religioso dentro da Igreja. Desempenham também um grandioso trabalho na sociedade, porque promovem os grandes valores humanos, estão muito perto dos pobres com a solidariedade, a atenção pelos direitos humanos. Creio que devemos ajudá-los para que vivam esta vocação com alegria, com muita lucidez e também com coração, para que sejam felizes, dado que se pode ser feliz no sacrifício e no cansaço.

Ser feliz não está em contradição com o sofrimento. Jesus não era infeliz na cruz. Sofria tremendamente, mas estava feliz, porque sabia que o fazia por amor e que isto tinha um sentido fundamental para a salvação do mundo. Era um gesto de fidelidade a seu Pai.

– Que outros santos o senhor acha acha que podem ser modelos para o sacerdote de hoje?

– Cardeal Hummes: Obviamente, o grande ideal é sempre Jesus Cristo, o Bom Pastor. No caso dos apóstolos, sobretudo São Paulo. Celebramos o Ano Paulino. Vê-se que ele era uma figura realmente impressionante e que pode ser sempre uma grande inspiração para os sacerdotes, sobretudo em uma sociedade que já não é cristã. Cruzou as fronteiras de Israel para ser apóstolo dos gentios, dos pagãos. Em um mundo que está se afastando tanto de qualquer manifestação religiosa, seu exemplo é fundamental. São Paulo tinha esta consciência muito forte: Jesus veio para salvar, não para condenar. É a mesma consciência que devemos ter nós diante do mundo de hoje.

Cardeal Dom Cláudio Hummes
Prefeito da Congregação para o Clero
Em entrevista a Zenit

sábado, 25 de abril de 2009

FESTA DO BEATO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN, OCSO



FESTA EM 26 DE ABRIL

Rafael Arnáiz Barón nasceu em Burgos, Espanha, em 09 de abril de 1911 e aí passa os seus primeiros anos. É o primogênito de quatro filhos de uma família enriquecida por profundas convicções cristãs, que calaram fundo na personalidade de Rafael. Foi educado em colégios dirigidos pela Companhia de Jesus, tanto em Burgos como em Olviedo, cidade para a qual se mudou a sua família em 1922, por exigências profissionais de seu pai.

Ao chegar à adolescência, se revela em Rafael uma notável riqueza humana, intelectual e espiritual, que se manifesta em sua pessoa aberta e positiva e em sua profunda sensibilidade, que vai se desenvolvendo por entre inquietudes e em contato com a natureza, a pintura e as demais artes. A harmoniosa integração em sua personalidade deste conjunto de elementos com a visão e o sentido cristão de vida e da realidade fazem cristalizar nele, mesmo depois de haver iniciado a faculdade de arquitetura, a vocação monástica cisterciense, pela qual opta – segundo suas próprias palavras: “seguindo os ditames de seu coração até Deus e a ânsia de ser preenchido e tomado por Ele”. Estudava Arquitetura em Madri quando se sentiu chamado por Deus e, renunciando ao brilhante futuro que lhe era oferecido, ingressou no Mosteiro Cisterciense de San Isidro de Dueñas, em Palencia, no dia 15 de janeiro de 1934, levando como única bagagem “um coração muito alegre e com muito amor a Deus”. Ali se entregou com alegria e generosidade a Deus na vida monástica, a qual amava de modo especial.



A partir da entrada de Rafael na Trapa, parece que tudo se precipitou em sua vida, tanto pessoalmente quanto espiritualmente. Só lhe restam 4 anos de vida, passados em temporadas alternadas entre a casa de seus pais e a comunidade monástica, por causa de um implacável diabetes manifestado repentinamente depois de 4 meses de seu ingresso na vida monástica. A enfermidade, que constituiu o crisol do seu caminho de fé, lhe obriga a deixar o noviciado e marcou, com sua evolução, as distintas saídas e reingressos na Trapa, que põem em evidência a firmeza de sua convicção vocacional e a generosidade de sua entrega até morrer na enfermaria do Mosteiro, aos 27 anos, em 26 de abril de 1938. Sua cruz, como chamava a grave doença com todas as suas conseqüências, elevou seu espírito às alturas, levando-o a se apaixonar sempre mais por Cristo e a segui-lo fielmente "agarrado" a esta cruz com muito amor e carinho; cruz essa que considerava tudo no caminho para Deus.



Em face da brevidade e do particular desenvolvimento de sua vida e vocação, e como se sua evolução espiritual se houvesse realizado sob pressão devida a essa mesma brevidade e às circunstâncias excepcionais, Rafael aparece como a realização plena da graça vocacional cisterciense: polarizado por Deus, como reflexa a sua expressão característica, “Solo Dios!”, “Só Deus!’. Rafael testemunha e é testemunho da transcendência e do absoluto de Deus. Não tanto de um Deus sobre Quem se sabe muitas coisas, mas de um Deus experimentado na própria vida como Amor absoluto. A única aspiração da existência de Rafael foi “viver para amar”, amar a Jesus, amar a Maria, amar à Cruz, amar seu querido Mosteiro. Esta é a nota sobressalente de sua pessoal e rica espiritualidade. Seu próprio sofrimento, aceito como Graça de Deus foi o despojo final que expressou este amor e o purificou ao preparar Rafael para a visão definitiva de Deus.

O Irmão María Rafael foi proclamado, pelo Papa João Paulo II, como modelo para todos os jovens de todo o mundo em 19 de agosto de 1989, em Santiago de Compostela e proclamou-o Beato em 27 de setembro de 1992. Em 7 de dezembro de 2008, o Papa Bento XVI aprovou o milagre que levará o Hermano Rafael Arnáiz aos altares.


Beato Rafael, intercedei por nós!


Fonte: Blog do Beato Rafael Arnáiz


terça-feira, 7 de abril de 2009

Terça-feira Santa - A Semana Santa



“Na tragédia da Paixão, consuma-se a nossa própria vida e toda a história humana. A Semana Santa não pode reduzir-se a uma simples recordação, porque é a consideração do mistério de Jesus Cristo, que se prolonga em nossas almas; o cristão está obrigado a ser alter Christus, ipse Christus, outro Cristo, o próprio Cristo. Pelo Batismo, todos fomos constituídos sacerdotes da nossa própria existência, para oferecer vítimas espirituais, que sejam agradáveis a Deus por Jesus Cristo, para realizar cada uma de nossas ações em espírito de obediência à vontade de Deus, e assim perpetuarmos a missão do Deus Homem.

Por contraste, essa realidade nos leva a deter-nos nas nossas desditas, nos nossos erros pessoais. É uma consideração que não nos deve desanimar nem colocar-nos na atitude cética de quem renunciou às grandes esperanças, porque o Senhor reclama-nos tal como somos, para que participemos da sua vida, para que lutemos por ser santos.

A santidade: quantas vezes pronunciamos esta palavra como se fosse um som vazio! Para muitos, chega a ser um ideal inacessível, um lugar comum da ascética, mas não um fim concreto, uma realidade viva. Não pensavam assim os primeiros cristãos, que usavam os nomes dos santos para se chamarem entre si, com toda a naturalidade e com grande freqüência: Todos os santos vos saúdam, saudai a todos os santos em Cristo Jesus.

Situados agora perante o momento do Calvário, em que Jesus já morreu e ainda se não manifestou a glória do seu triunfo, temos uma excelente ocasião para examinarmos os nossos desejos de vida cristã, de santidade; para reagirmos com um ato de fé perante as nossas fraquezas e, confiantes no poder de Deus, fazermos o propósito de depositar amor nas coisas do nosso dia-a-dia. A experiência do pecado tem que nos conduzir à dor, a uma decisão mais amadurecida e mais profunda de ser fiéis, de nos identificarmos deveras com Cristo, de perseverar custe o que custar nessa missão sacerdotal que Ele confiou a todos os seus discípulos sem exceção, e que nos impele a ser sal e luz do mundo.


O pensamento da morte de Cristo traduz-se num convite para que nos situemos com absoluta sinceridade perante os nossos afazeres diários e tomemos a sério a fé que professamos. A Semana Santa não pode, pois, ser um parêntesis sagrado no contexto de um viver motivado exclusivamente por interesses humanos; deve ser uma ocasião de adentrar nas profundezas do Amor de Deus, para assim podermos mostrá-lo aos homens, com a palavra e com as obras.

A vida, a própria alma, é o que o Senhor nos pede. Se somos fátuos, se nos preocupamos apenas com a nossa comodidade pessoal, se encaramos a existência dos outros e inclusive do mundo por referência exclusiva a nós mesmos, não temos o direito de nos chamarmos cristãos e de nos considerarmos discípulos de Cristo. A entrega tem que se realizar com obras e com verdade, não apenas com a boca. O amor a Deus convida-nos a levar a cruz a pulso, a sentir também sobre nós o peso da humanidade inteira, e a cumprir, dentro das circunstâncias próprias do estado e do trabalho de cada um, os desígnios ao mesmo tempo claros e amorosos da vontade do Pai. Na passagem que comentamos, Jesus prossegue: E aquele que não carrega a sua cruz e me segue, também não pode ser meu discípulo (Lc 14, 27).

Temos que aceitar a vontade de Deus sem medo, precisamos formular sem vacilações o propósito de edificar toda a nossa vida de acordo com o que nossa fé nos ensina e exige. Não há dúvida de que encontraremos luta, sofrimento e dor, mas, se possuímos uma fé verdadeira, nunca nos consideraremos infelizes: mesmo com penas e até com calúnias, seremos felizes, com uma felicidade que nos impelirá a amar os outros e a fazê-los participar da nossa alegria sobrenatural”.

São José Maria Escrivá
É Cristo que passa 96, 97

sábado, 7 de março de 2009

Oração de Quaresma do Beato Rafael Arnáiz



“Ajoelhado aos pés da Tua Santíssima Cruz, Te peço paciência, humildade e mansidão. Tu, desde Tua Cruz, me ensinaste a perdoar. Que me ensinarão os homens que não me ensines Tu desde Tua Cruz?

Somente aos pés da Tua Cruz se aprende a perdoar...A lição que Tu me ensinas desde a Cruz me dá forças para tudo.

Que doce é a Cruz de Jesus! Que Bom é Deus que me ensina desde Sua Santa Cruz!”


Dos escritos de Rafael