domingo, 4 de abril de 2010

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – Ó Cristo Ressuscitado, convosco também nós devemos ressuscitar





DOMINGO DE PÁSCOA
RESSURREIÇÃO DO SENHOR

At 10,34a.37-43
Sl 117
Cl 3,1-4 ou 1Cor 5,7b.-8a
Jo 20,1-9 ou, à tarde, Lc 24,13-35


«Ó Cristo Ressuscitado, convosco também nós devemos ressuscitar»


Ó Cristo Ressuscitado, convosco também nós devemos ressuscitar. Desaparecestes das vistas dos homens e devemos nós seguir-vos. Voltastes para o Pai, e devemos agir de modo que vossa vida “seja escondida convosco em Deus”. Dever e privilégio de todos os vossos discípulos é, ó Senhor, serem exaltados e transfigurados convosco! Privilégio nosso é vivermos no céu com o pensamento, tendências, aspirações, desejos e afetos, embora estejamos ainda na terra. Ensinai-nos a “buscar as coisas do alto” (Cl 3,1), testemunhando que vos pertencemos, que o nosso coração ressuscitou convosco e em Vós está escondida a nossa vida.


Cardeal John Henry Newman
Maturità Cristiana, pp.190-194, 1956

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – Contemplar o amor de Cristo



DOMINGO DE PÁSCOA
RESSURREIÇÃO DO SENHOR

At 10,34a.37-43
Sl 117
Cl 3,1-4 ou 1Cor 5,7b.-8a
Jo 20,1-9 ou, à tarde, Lc 24,13-35


«Contemplar o amor de Cristo»

O cristão sabe que está enxertado em Cristo pelo Batismo; habilitado a lutar por Cristo pela Confirmação; chamado a atuar no mundo pela participação que tem na função real, profética e sacerdotal de Cristo; feito uma só coisa com Cristo pela Eucaristia, Sacramento da unidade e do amor. Por isso, tal como Cristo, há de viver voltado para os outros homens, olhando com amor para todos e cada um dos que o rodeiam, para a Humanidade inteira.

A fé leva-nos a reconhecer Cristo como Deus, a vê-Lo como nosso Salvador, a identificarmo-nos com Ele, atuando como Ele atuou. O Ressuscitado, depois de arrancar das suas dúvidas o Apóstolo Tomé, mostrando-lhe as chagas, exclama: Bem-aventurados os que, sem me verem, acreditaram. Aqui - comenta S. Gregório Magno - fala-se de nós de um modo particular, porque nós possuímos espiritualmente Aquele a Quem corporalmente não vimos. Fala-se de nós, mas com a condição de que as nossas ações se conformem à nossa fé. Não crê verdadeiramente senão quem, no seu atuar, põe em prática o que crê. Por isso, a propósito daqueles que da fé não possuem mais do que as palavras, diz S. Paulo: professam conhecer Deus mas negam-no com as obras.

Não é possível separar em Cristo o ser de Deus-Homem e a sua função de Redentor. O Verbo fez-se carne e veio à Terra ut omnes homines salvi fiant, para salvar todos os homens. Com todas as nossas misérias e limitações pessoais, nós somos outros Cristos, o próprio Cristo, e somos também chamados a servir todos os homens.

É necessário que ressoe uma e outra vez aquele mandamento que continuará a ser novo através dos séculos: Caríssimos - escreve S. João - não vos escrevo um mandamento novo, mas um mandamento antigo, que recebestes desde o princípio. Este mandamento antigo é a palavra divina que ouvistes. E, no entanto, falo-vos de um mandamento novo, que é verdadeiro n'Ele mesmo e em vós porque as trevas já passaram e já resplandece a verdadeira luz. Quem diz que está na luz e aborrece o seu irmão, ainda está nas trevas. Quem ama o seu irmão permanece na luz e nele não há ocasião de queda.

Nosso Senhor veio trazer a paz, a boa nova, a vida a todos os homens. Não só aos ricos, nem só aos pobres; não só aos sábios, nem só à gente simples; a todos; aos irmãos, pois somos irmãos, já que somos filhos de um mesmo Pai, Deus. Não há, portanto, mais do que uma raça: a raça dos filhos de Deus. Não há mais que uma cor: a cor dos filhos de Deus. E não há senão uma língua: a que nos fala ao coração e à inteligência, sem ruído de palavras, mas dando-nos a conhecer Deus e fazendo que nos amemos uns aos outros.

É esse amor de Cristo que cada um de nós deve se esforçar por realizar na sua vida. Mas para ser ipse Christus é preciso mirar-se Nele. Não basta ter-se uma idéia geral do espírito que Jesus viveu; é preciso aprender com Ele pormenores e atitudes. É preciso contemplar a sua vida, sobretudo para daí tirar força, luz, serenidade, paz.

Quando se ama alguém, deseja-se conhecer toda a sua vida, o seu caráter, para nos identificarmos com essa pessoa. Por isso temos de meditar na vida de Jesus, desde o Seu nascimento num presépio até à Sua morte e à Sua Ressurreição. Nos primeiros anos do meu labor sacerdotal costumava oferecer exemplares do Evangelho ou livros onde se narra a vida de Jesus, porque é necessário que a conheçamos bem, que a tenhamos inteira na mente e no coração, de modo que, em qualquer momento, sem necessidade de nenhum livro, cerrando os olhos, possamos contemplá-la como um filme; de forma que, nas mais diversas situações da nossa vida, acudam à memória as palavras e os atos do Senhor.

Sentir-nos-emos assim metidos na sua vida. Na verdade, não se trata apenas de pensar em Jesus e de imaginar aqueles episódios; temos de meter-nos em cheio neles, como atores; temos de seguir Cristo tão de perto como Santa Maria, sua Mãe; como os primeiros Doze; como as santas mulheres; como aquelas multidões que se apertavam ao Seu redor. Se fizermos assim, se não criarmos obstáculos, as palavras de Cristo penetrarão até ao fundo da nossa alma e transformar-nos-ão. Porque a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes; introduz-se até à divisão da alma e do espírito, até às junturas e medulas; e discerne os pensamentos e intenções do coração.

Se queremos levar os outros homens ao Senhor, é necessário abrir o Evangelho e contemplar o amor de Cristo. Podíamos fixar as cenas-cume da Paixão, porque, como Ele mesmo disse, ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos. Mas também podemos considerar o resto da sua vida, o seu modo habitual de tratar com quem se cruzava com Ele.

Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, procedeu de um modo humano e divino para fazer chegar aos homens a Sua doutrina de salvação e para lhes manifestar o amor de Deus. Deus condescende com o homem, assume a nossa natureza sem reservas, exceto no pecado.

Dá-me uma grande alegria considerar que Cristo quis ser plenamente homem, com carne como a nossa. Emociona-me contemplar a maravilha de um Deus que ama com coração de homem.


São Josemaría Escrivá
Cristo que Passa, pontos 106- 107

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – Entra na alegria do teu Mestre



DOMINGO DE PÁSCOA
RESSURREIÇÃO DO SENHOR

At 10,34a.37-43
Sl 117
Cl 3,1-4 ou 1Cor 5,7b.-8a
Jo 20,1-9 ou, à tarde, Lc 24,13-35


«Entra na alegria do teu Mestre (Mt 25,23)»

Que todo o homem piedoso e amigo de Deus goze esta bela e luminosa festa! Que todo o servo fiel entre com júbilo na alegria do seu Senhor! (Mt 25,23) O que carregou o peso do jejum venha agora receber a sua recompensa. O que trabalhou desde a primeira hora receba hoje o seu justo salário (Mt 20,1s). O que chegou depois de passada a terceira hora celebre esta festa na acção de graças. O que chegou depois da sexta hora não tenha receio, não ficará prejudicado. Se alguém tardou até à nona hora, aproxime-se sem hesitar. Se houver quem se atrasou até à décima primeira hora, não tenha medo da sua perguiça porque o Mestre é generoso e recebe o último como ao primeiro, exerce misericórdia sobre aquele mas cumula este. Dá a um e agracia o outro.

Assim, pois, entrai todos na alegria do vosso Mestre! Primeiros e últimos, ricos e pobres, os que vigiaram e os que se deixaram dormir, vós que jejuastes e vós que não jejuastes, alegrai-vos hoje! O festim está pronto, vinde todos (Mt 22,4)! O vitelo gordo está servido, que ninguém se vá embora com fome. Saciai-vos todos no banquete da fé, vinde servir-vos do tesouro da misericórdia. Que ninguém lamente a sua pobreza, porque o Reino chegou para todos; que ninguém chore as suas faltas, porque o perdão brotou do túmulo; que ninguém receie a morte, porque a morte do Salvador dela nos libertou. Aquele que a morte tinha agarrado destruiu-a, aquele que desceu aos infernos despojou-os.

Isaías tinha-o predito ao dizer: "O inferno ficou consternado quando te encontrou" (14,9). O inferno ficou cheio de amargor porque foi arruinado; humilhado, porque foi entregue à morte; esmagado, porque foi aniquilado. Apoderou-se de um corpo e viu-se diante de Deus; agarrou-se à terra e encontrou o céu; apropriou-se do que via e foi derrotado por causa do Invisível. "Ó morte, onde está o teu aguilhão? Inferno, onde está a tua vitória?" (1 Co 15,55). Cristo ressuscitou e foste arruinado! Cristo ressuscitou e os demónios foram precipitados! Cristo ressuscitou e os anjos estão em júbilo! Cristo ressuscitou e já não há mortos nos túmulos porque Cristo, ressuscitado dos mortos, tornou-se as primícias dos que tinham adormecido. A Ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos! Amém!


São João Crisóstomo, Bispo e Doutor
Homilia da Liturgia Ortodoxa da Páscoa

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – Amar Cristo é amar a Igreja




DOMINGO DE PÁSCOA
RESSURREIÇÃO DO SENHOR

At 10,34a.37-43
Sl 117
Cl 3,1-4 ou 1Cor 5,7b.-8a
Jo 20,1-9 ou, à tarde, Lc 24,13-35


«Amar Cristo é amar a Igreja»

Como é possível separar o nosso amor a Jesus Cristo daquele que devemos à sua Igreja?

Jesus Cristo associou misticamente em si os filhos dos homens para formar com esses uma coisa só, deixando, todavia, subsistir a própria personalidade de todos aqueles que se teriam unido a ele. E como em Jesus Cristo não existe se não uma só pessoa, assim todos os cristãos devem formar com Ele um só corpo. Ele será a cabeça e esses os membros.

A Igreja é o preço do sangue de Jesus Cristo e o objeto do seu amor infinito pelos homens. Amou-a mais do que a sua vida e, através dele, esta é cara a Deus Pai que desde toda a eternidade a tinha amado até ao ponto de dar o seu Filho único: “Deus amou de tal modo a humanidade que lhe entregou o seu Filho único” (Jo 3,16).

Também o Espírito Santo, prometido pelo Salvador Divino, veio para se unir a ela e nunca mais se separar, para ser como que a sua alma, para inspirá-la, iluminá-la, dirigi-la, sustentá-la e realizar nela as grandes obras de Deus (cf. At 2, 11).

Todos aqueles que são membros da Igreja vivem na casa espiritual de Deus, ou melhor, são esses mesmos aquela casa, um templo imenso no qual todo o universo deve entrar e cujas pedras são todas vivas. Foi Deus mesmo que construiu esta casa com cimento divino.

Ora, queridos irmãos, perguntar-vos-emos: não amar com um amor filial a Esposa de Jesus Cristo, a qual nos foi dada por Ele como Mãe, não amar a família do Homem-Deus, a sua casa vivente, o seu templo santo, a sua cidade terrena, imagem da cidade eterna, o seu reino, o seu rebanho, a sociedade que Ele fundou, em suma a obra que foi objeto de toda a sua atividade e que é o objeto de todas as suas complacências aqui na terra, não é não querer amá-lo a Ele mesmo?

Não é desconhecer os planos da sua misericórdia, os direitos do seu amor e aqueles da sua potência?

Não é desconhecê-lo como Salvador, como Redentor dos homens, como vencedor do inferno e da morte, e como Senhor soberano ao qual foram dadas em posse todas as nações da terra? (cf. Sl 2, 8).


Santo Eugênio de Mazenod
Lettera pastorale per la quaresima

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – Este é o dia que o Senhor fez! Exultemos e cantemos de alegria!



DOMINGO DE PÁSCOA
RESSURREIÇÃO DO SENHOR

At 10,34a.37-43
Sl 117
Cl 3,1-4 ou 1Cor 5,7b.-8a
Jo 20,1-9 ou, à tarde, Lc 24,13-35


«Este é o dia que o Senhor fez! Exultemos e cantemos de alegria!»

«Este é o dia que o Senhor fez, exultemos e cantemos de alegria» (Sl 117, 24). Não é por acaso, meus irmãos, que lemos hoje este salmo em que o profeta nos convida à alegria, em que o santo David convida toda a criação a celebrar este dia; porque hoje a ressurreição de Cristo abriu a mansão dos mortos, os novos baptizados da Igreja rejuvenesceram a terra, o Espírito Santo mostrou o céu. O inferno, aberto, devolve os seus mortos; a terra, rejuvenescida, faz eclodir os ressuscitados; e o céu abre-se em toda a sua grandeza para acolher aqueles que a ele ascendem.

O ladrão subiu ao paraíso (Lc 23, 43); os corpos dos santos entram na cidade santa (Mt 27, 53). À ressurreição de Cristo, todos os elementos se elevam, com uma espécie de impulso, até às alturas. O inferno entrega aos anjos aqueles que mantinha presos, a terra envia para o céu aqueles que cobria, o céu apresenta ao Senhor aqueles que acolheu. A ressurreição de Cristo é vida para os defuntos, perdão para os pecadores, glória para os santos. Assim, o grande David convida toda a criação a festejar a ressurreição de Cristo, incita-a a exultar de alegria neste dia que o Senhor fez.

Dir-me-eis talvez que o céu e o inferno não foram estabelecidos no dia deste mundo; como podemos então pedir aos elementos que celebrem um dia com o qual nada têm de comum? O certo é que este dia que o Senhor fez tudo penetra, tudo contém, abraçando o céu, a terra e o inferno! A luz que é Cristo não foi detida pelas paredes, não foi abalada pelos elementos, não foi ensombrada pelas trevas. A luz de Cristo é um dia sem noite, um dia sem fim. Por toda a parte resplandece, por toda a parte brilha, em toda a parte permanece.


São Máximo de Turim, Bispo
Sermão 53, sobre o salmo 117 ; PL 57, 361, p. 126

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – A primeira pessoa a quem Jesus apareceu foi Maria




DOMINGO DE PÁSCOA
RESSURREIÇÃO DO SENHOR

At 10,34a.37-43
Sl 117
Cl 3,1-4 ou 1Cor 5,7b.-8a
Jo 20,1-9 ou, à tarde, Lc 24,13-35


«A primeira pessoa a quem Jesus apareceu foi Maria»

Nos Evangelhos, não encontramos nenhuma aparição de Jesus Ressuscitado à sua Mãe. Sem dúvida alguma, nós podemos atribuir este silêncio ao fato de que, tal testemunho não teria sido recebido por aqueles que negavam a ressurreição do Senhor. Por outro lado, os Evangelhos só nos passam o que é necessário, para que conheçamos a Salvação, por meio de Jesus Cristo. Porém, não podemos crer que a Virgem, presente na primeira comunidade dos discípulos, tivesse sido excluída dentre aqueles que tiveram a graça de rever seu Filho ressuscitado. Pelo contrário, é provável e verossímil que a primeira pessoa a quem Cristo Ressuscitado apareceu, tenha sido a sua Mãe. O fato de Maria não estar junto ao grupo de mulheres que, na aurora nascente, foram até o túmulo de Jesus, pode constituir um indício de que ela já teria reencontrado Jesus.

O caráter único e especial, de sua presença no Calvário, e a união perfeita vivida com o Filho, em seus sofrimentos, inigualáveis e exorbitantes, sugerem uma participação muito especial no mistério da Ressurreição.


Papa João Paulo II
Audiência Geral, 21 de maio de 1997

sábado, 3 de abril de 2010

TRÍDUO PASCAL – SÁBADO SANTO – VIGÍLIA PASCAL – Procuremos Aquele que o nosso coração ama



SÁBADO SANTO - VIGÍLIA PASCAL

Gn 1,1 – 2,2/Sl 103
Gn 22,1-18/Sl 15
Ex 14,15 – 15,1
Is 54,5-14/Sl 29
Is 55,1-11
Br 3,9-15.32-4,4/Sl 18
Ez 36,16-17a.18-28/Sl 41
Rm 6,3-11/Sl 117
Lc 24,1-12


«Procuremos Aquele que o nosso coração ama»


Maria, em lágrimas, inclina-se e olha para dentro do túmulo. Ela já tinha todavia constatado que estava vazio, e tinha anunciado o desaparecimento do Senhor. Porque se inclina então ainda? Porque quer ver de novo? Porque o amor não se contenta com um único olhar; o amor é uma conquista sempre mais ardente. Ela já O procurou, mas em vão; obstina-se e acaba por descobrir...

No Cântico dos Cânticos, a Igreja dizia do mesmo Esposo: «No meu leito, de noite, procurei aquele que o meu coração ama. Procurei-o, mas não o encontrei. Vou levantar-me e percorrer a cidade; pelas ruas e pelas praças, vistes aquele que o meu coração ama?» (Ct 3, 1-2). Duas vezes ela exprime a sua decepção: «Procurei-o, mas não o encontrei!» Mas o sucesso vem, por fim, coroar o esforço: «Os guardas encontraram-me, aqueles que fazem ronda pela cidade. Vistes aquele que o meu coração ama? Mal os ultrapassei, encontrei aquele que o meu coração ama» (Ct 3,3-4).

E nós, quando é que, nos nossos leitos, procuraremos o Amado? Durante os breves repousos desta vida, quando suspiramos na ausência do nosso Redentor. Nós procuramo-Lo na noite, pois apesar do nosso espírito já estar desperto para Ele, os nossos olhos só vêem a Sua sombra. Mas, como não encontramos nela o Amado, levantemo-nos; percorramos a cidade, ou seja, a assembléia dos eleitos. Procuremos de todo o coração. Procuremos nas ruas e nas praças, ou seja, nas passagens escarpadas da vida ou nos caminhos espaçosos; abramos os olhos, procuremos aí os passos do nosso Bem-Amado.

Esse desejo fez dizer a David: «A minha alma tem sede do Deus de vida. Quando irei ver a face de Deus? Sem descanso, procurai a Sua face» (Sl 42,3).


São Gregório Magno
Homila 25 sobre o Evangelho

TRÍDUO PASCAL – SÁBADO SANTO – VIGÍLIA PASCAL – Surrexit Dominus de sepulcro, qui pro nobis pependit in ligno. Alleluia!



SÁBADO SANTO - VIGÍLIA PASCAL

Gn 1,1 – 2,2/Sl 103
Gn 22,1-18/Sl 15
Ex 14,15 – 15,1
Is 54,5-14/Sl 29
Is 55,1-11
Br 3,9-15.32-4,4/Sl 18
Ez 36,16-17a.18-28/Sl 41
Rm 6,3-11/Sl 117
Lc 24,1-12


«Surrexit Dominus de sepulcro, qui pro nobis pependit in ligno. Alleluia!»

"Tendes à vossa disposição a guarda; ide e guardai-O como entenderdes" (Mt 27,65)

O túmulo de Jesus é fechado e sigilado. Para guardá-lo, foram colocados alguns soldados, como fora pedido pelos sumos sacerdotes e fariseus, a fim de que ninguém pudesse furtar o corpo (cf. Mt 27, 62-64). Este é o acontecimento que dá início a liturgia da Vigília Pascal. Vigiavam junto ao túmulo os que tinham querido a morte de Cristo, considerando-O um "impostor" (Mt 27,62). Seu desejo era que Ele e sua mensagem fossem sepultados para sempre. Não longe dali, vigiava Maria e, junto a ela, os Apóstolos e algumas mulheres. Conservavam estampada no coração a imagem desconcertante dos recentes acontecimentos.

Vigia esta noite a Igreja em cada canto da terra, e revive as etapas fundamentais da história da salvação. A solene liturgia que estamos a realizar é a expressão deste "vigiar" que, de certo modo, leva àquele mesmo Deus citado no Livro do Êxodo: "Essa noite, durante a qual o Senhor velara para os fazer sair do Egito, será de vigia [...], de geração em geração, em honra do Senhor" (12,42).

Com o seu amor providente a fiel, que ultrapassa o tempo e o espaço, Deus vigia o mundo. Assim canta o Salmista: "Não dorme, nem dormita / quem guarda Israel. / O Senhor é o teu guarda [...] O Senhor te guarda de todo o mal [...] agora e para sempre" (Sl 120,4-5.8).

Nesta Noite Santa, a Igreja enquanto está a vigiar, debruça-se sobre os textos da Sagrada Escritura, que descrevem o desígnio divino do Gênesis ao Evangelho e que, graças aos ritos litúrgicos do fogo e da água, conferem a esta celebração singular uma dimensão cósmica. Nesta noite, todo o universo criado está chamado a vigiar, junto ao túmulo de Cristo. Diante dos nossos olhos descortina-se a história da salvação, da criação à redenção, do êxodo à Aliança no Sinai, da antiga à nova e eterna Aliança. Nesta Noite Santa, cumpre-se o eterno projeto de Deus sobre a história do homem e do cosmo.

Na Vigília pascal, mãe de todas as vigílias, todo homem pode reconhecer também a própria pessoal história da salvação, que tem como ponto fundamental a renascimento em Cristo, através do Batismo. De modo particular, esta é a vossa experiência caríssimos Irmãos e Irmãs, que dentro de pouco recebereis os Sacramentos da iniciação cristã: o Batismo, o Crisma e a Eucaristia. Dentro de pouco, caríssimos, sereis inseridos no intimidade do mistério do amor de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Possa a vossa existência tornar-se um canto de louvor à Santíssima Trindade, e um testemunho de amor sem fronteiras.

"Ecce lignum Crucis, in quo salus mundi pependi: venite adoremus!". Assim cantou ontem a Igreja, mostrando o madeiro da Cruz "em que foi suspenso Cristo, Salvador do mundo". "Foi crucificado, morto e sepultado", recitamos no Credo.

O sepulcro! Eis o lugar onde O tinham depositado (cf. Mc 16,6). Espiritualmente, encontra-se ali a inteira Comunidade eclesial de toda a parte do mundo. Nós também estamos ali com as três mulheres que vão ao sepulcro antes da aurora, para ungir o corpo sem vida de Jesus (cf. Mc 16,1). Sua pressa é a nossa pressa. Com elas, descobrimos que a enorme pedra sepulcral foi retirada e o corpo já não se encontra ali.

"Não está aqui" anuncia o anjo, mostrando o sepulcro vazio e as faixas funerárias no chão. A morte já não tem domínio sobre Ele (cf. Rm 6,9).

Cristo ressuscitou! Anuncia, no fim desta noite de Páscoa, a Igreja, que ontem tinha proclamado a morte de Cristo sobre a Cruz. É anúncio de verdade e de vida.

"Surrexit Dominus de sepulcro, qui pro nobis pependit in ligno. Alleluia!". Ressuscitou do sepulcro o Senhor que, por nós, foi pregado na cruz.

Sim, Cristo realmente ressuscitou e nós somos testemunhas.

Dizemo-lo ao mundo aos gritos, para que a nossa alegria chegue a muitos outros corações, acendendo neles a luz da esperança que não defrauda.

Cristo ressuscitou, aleluia!


Papa João Paulo II
Homilia na Vigília Pascal
Sábado Santo, 22 de Abril de 2000

TRÍDUO PASCAL – SÁBADO SANTO – VIGÍLIA PASCAL – A Esperança da Vida Nova em Cristo



SÁBADO SANTO - VIGÍLIA PASCAL

Gn 1,1 – 2,2/Sl 103
Gn 22,1-18/Sl 15
Ex 14,15 – 15,1
Is 54,5-14/Sl 29
Is 55,1-11
Br 3,9-15.32-4,4/Sl 18
Ez 36,16-17a.18-28/Sl 41
Rm 6,3-11/Sl 117
Lc 24,1-12


«A Esperança da Vida Nova em Cristo»

Afugenta, Senhor, com a luz diurna de tua sabedoria,
as trevas noturnas de nossa mente,
para que, iluminados por Ti,
te sirvamos com espírito renovado e puro.
A chegada do sol representa para os mortais
o início de seu trabalho.

Adorne, Senhor, em nossas almas uma mansão
em que possa continuar aquele dia
que não conhece o ocaso.
Faze que saibamos contemplar em nós mesmos
a vida da ressurreição,
e que nada possa separa nossas mentes
de teus deleites.

Imprime em nós, Senhor,
por nossa constante adesão a Ti,
o selo daquele dia que não
depende do movimento solar.
Cada dia te estreitamos em nossos braços
e te recebemos em nosso corpo
por meio de teus sacramentos;

Faze que sejamos dignos de
experimentar em nossa pessoa,
a ressurreição que esperamos.
Pela graça do batismo
trazemos escondido em nosso corpo
o tesouro que tu nos deste;
que este mesmo tesouro
vá crescendo na mesa dos teus sacramentos;
faze que nos alegremos de teus dons.
Temos em nós, Senhor, o teu memorial,
recebido de tua mesa espiritual;
dá-nos que alcancemos sua realidade plena,
na renovação futura.

Pedimos-te, Senhor,
que aquela beleza espiritual
que tua vontade imortal faz brotar
na mesma mortalidade
nos faça compreender nossa própria beleza.
Tua crucifixão, ó Salvador Nosso,
foi o término de tua vida mortal;
faz que crucifiquemos nossa mente
a fim de obter a vida espiritual.

Que tua ressurreição, ó Jesus,
faça crescer em nós o homem espiritual;
que a visão de teus sinais sacramentais,
nos ajude a conhecê-la.
Tuas disposições divinas, ó Salvador Nosso,
são figura do mundo espiritual
faze que nos movamos nele,
como homens espirituais.

Não prives, Senhor, a nossa mente
de tua manifestação espiritual,
e não separe de nós
o calor de tua suavidade
A mortalidade latente em nosso corpo
derrama em nós a corrupção;
que a aspersão de teu amor espiritual
apague em nossos corações
os efeitos da mortalidade.

Concede-nos, Senhor,
que caminhemos com presteza
para a nossa pátria definitiva
e que, como Moisés, do cume do monte,
possamos desde agora contemplá-la pela fé.


Santo Efren
Sermo 3, De fine et admonitione 2. 4-5:
Opera, edição Lamy 3, 216-222

TRÍDUO PASCAL – SÁBADO SANTO – VIGÍLIA PASCAL – Dies Christi! O dia do Senhor ressuscitado!



SÁBADO SANTO - VIGÍLIA PASCAL

Gn 1,1 – 2,2/Sl 103
Gn 22,1-18/Sl 15
Ex 14,15 – 15,1
Is 54,5-14/Sl 29
Is 55,1-11
Br 3,9-15.32-4,4/Sl 18
Ez 36,16-17a.18-28/Sl 41
Rm 6,3-11/Sl 117
Lc 24,1-12


« Dies Christi! O dia do Senhor ressuscitado!

Este é o dia que o Senhor fez!»


“Este é o dia que o Senhor fez: seja para nós dia de alegria e de felicidade” (Sl 117, 24)

Irmãos, esperemos o Senhor e exultemos de alegria, a fim de O vermos e de rejubilarmos na Sua luz. Abraão exultou com a simples idéia de ver o dia de Cristo, e por isso mereceu vê-lo e rejubilar (Jo 8, 56). Também tu tens de velar todos os dias às portas da Sabedoria (Pr 8, 34), montar guarda, com Maria Madalena, à porta do túmulo de Cristo. E estou certo de que então compreenderás com ela quão verdadeiro é o que lemos nas Escrituras sobre a Sabedoria em pessoa, que é Cristo: «os que a amam descobrem-na facilmente. Ela antecipa-se a dar-se a conhecer aos que a desejam» (Sb 6, 12-13).

Foi Ele mesmo que o prometeu: «Amo os que Me amam; quem Me procura encontrar-Me-á» (Pr 8, 17). Foi assim que Maria encontrou Jesus na carne, pois velava, tendo ido ao túmulo antes de amanhecer. É verdade que tu já não O conhecerás segundo a carne (2Cor 5, 16), mas segundo o espírito. Mas encontrá-Lo-ás espiritualmente, se O procurares com um desejo semelhante ao de Maria: «A minha alma deseja-Vos de noite, e o meu espírito dentro de mim busca-Vos» (Is 26, 9). Diz com o salmista: «A minha alma está sedenta de Vós» (62, 2).

Velai, pois, irmãos, e rezai intensamente! Velai tanto mais quanto desponta já a aurora do dia que não tem ocaso. Sim, «já é hora de despertardes do sono, que a noite vai adiantada e o dia está próximo» (Rm 13, 11-12). Velai, pois, para que a Luz da manhã, Cristo, nasça para vós, pois «iminente como a aurora está a Sua vinda» (Os 6, 3); Ele está disposto a renovar muitas vezes o mistério da Sua ressurreição matinal em favor daqueles que para Ele velam. Então poderás cantar, de coração jubiloso: «O Senhor actuou neste dia, cantemos e alegremo-nos nele».


Beato Guerric d'Igny, Abade Cisterciense
3º Sermão para a Ressurreição
(SC 202, p.249s rev.)

TRÍDUO PASCAL – SÁBADO SANTO – VIGÍLIA PASCAL – Corramos como o cervo que anseia pelas fontes de água viva



SÁBADO SANTO - VIGÍLIA PASCAL

Gn 1,1 – 2,2/Sl 103
Gn 22,1-18/Sl 15
Ex 14,15 – 15,1
Is 54,5-14/Sl 29
Is 55,1-11
Br 3,9-15.32-4,4/Sl 18
Ez 36,16-17a.18-28/Sl 41
Rm 6,3-11/Sl 117
Lc 24,1-12


«Corramos como o cervo que anseia pelas fontes de água viva»

Num horto muito perto do Calvário, José de Arimatéia tinha mandado lavrar, na rocha, um sepulcro novo. E, por ser a véspera da grande Páscoa dos judeus, põem Jesus ali. Depois, José rolou uma grande pedra, para diante da boca do sepulcro, e retirou-se (Mt 27, 60).

Sem nada veio Jesus ao mundo e sem nada - nem sequer o lugar onde repousa - se nos foi.

A Mãe do Senhor - minha Mãe - e as mulheres que seguiram o Mestre desde a Galileia, depois de observar tudo atentamente, partem também. Cai a noite.

Agora consumou-se tudo. Cumpriu-se a obra da nossa Redenção. Já somos filhos de Deus, porque Jesus morreu por nós e a Sua morte resgatou-nos.

Empti enim estis pretio magno! (I Cor VI, 20), tu e eu fomos comprados por alto preço.

Temos de fazer vida nossa a vida e a morte de Cristo. Morrer pela mortificação e a penitência, para que Cristo viva em nós pelo Amor. E seguir, então, as pisadas de Cristo, com ânsia de co-redimir todas as almas.

Dar a vida pelos outros. Só assim se vive a vida de Jesus e nos fazemos uma só coisa com Ele.


PONTOS DE MEDITAÇÃO

1. Dos altos cargos que ocupam Nicodemos e José de Arimatéia - discípulos ocultos de Cristo - intercedem por Ele. Na hora da solidão, do abandono total e do desprezo, então expõem-se audacter (Mc 15, 43): valentia heróica!

Eu subirei com eles ao pé da Cruz, apertar-me-ei ao Corpo frio, cadáver de Cristo, com o fogo do meu amor, despregá-Lo-ei com os meus desagravos e mortificações, envolvê-Lo-ei com o lençol novo da minha vida limpa e enterrá-Lo-ei no meu peito de rocha viva, donde ninguém mO poderá arrancar; e, aí, Senhor, descansai!

Mesmo que todos Vos abandonem e desprezem, serviam!, servir-Vos-ei, Senhor.

2. Sabei que fostes resgatados da vossa vã conduta, não com prata ou ouro, que são coisas perecíveis, mas com o sangue precioso de Cristo (1 Pe 1, 18-19).

Não nos pertencemos. Jesus comprou-nos com a Sua Paixão e com a Sua Morte. Somos vida Sua. Só já há um único modo de viver na terra: morrer com Cristo para ressuscitar com Ele, até que possamos dizer com o Apóstolo: não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim (Gal 2, 20).

3. A Paixão de Jesus é manancial inesgotável de vida.

Umas vezes, renovamos o gozoso impulso que levou o Senhor a Jerusalém. Outras, a dor da agonia que culminou no Calvário. Ou a glória do Seu triunfo sobre a morte e o pecado. Mas, sempre, o amor - gozoso, doloroso, glorioso - do Coração de Jesus Cristo.

4. Pensa primeiro nos outros. Assim, passarás pela terra com erros, sim - que são inevitáveis -, mas deixando um rasto de bem.

E, quando chegar a hora da morte, que virá inexorável, acolhê-la-ás com júbilo, como Cristo, porque como Ele também ressuscitaremos para receber o prêmio do Seu Amor.

5. Quando me sinto capaz de todos os horrores e de todos os erros que cometeram as pessoas mais vis, compreendo bem que posso não ser fiel. Mas essa incerteza é uma das bondades do Amor de Deus, que me leva a estar, como uma criança, agarrado aos braços do meu Pai, lutando cada dia um pouco para não me afastar d'Ele.

Assim, tenho a certeza de que Deus não me largará da Sua mão.

Pode a mulher esquecer-se do fruto do seu ventre, não se compadecer do filho da suas entranhas? Pois, ainda que ela se esqueça, eu não te esquecerei (Is 49, 15).

Corremos como o cervo, que anseia pelas fontes das águas; com sede, gretada a boca, ressequida. Queremos beber nesse manancial de água viva. Sem esquisitices, mergulhamos ao longo do dia nesse veio abundante e cristalino de frescas linfas que saltam até a vida eterna. Sobram as palavras, porque a língua não consegue expressar-se; começa a serenar-se a inteligência. Não se raciocina, fita-se! E a alma rompe outra vez a cantar com um cântico novo, porque se sente e se sabe também fitada amorosamente por Deus, em todos os momentos.


São Josemaría Escrivá
Via Sacra, Cap 14
Amigos de Deus, pt.307

TRÍDUO PASCAL – SÁBADO SANTO – VIGÍLIA PASCAL – A noite que nos liberta do sono da morte



SÁBADO SANTO - VIGÍLIA PASCAL

Gn 1,1 – 2,2/Sl 103
Gn 22,1-18/Sl 15
Ex 14,15 – 15,1
Is 54,5-14/Sl 29
Is 55,1-11
Br 3,9-15.32-4,4/Sl 18
Ez 36,16-17a.18-28/Sl 41
Rm 6,3-11/Sl 117
Lc 24,1-12


«A noite que nos liberta do sono da morte»


Vigiemos, irmãos, porque até esta noite Cristo permaneceu no seu túmulo. Foi durante esta noite que se deu a ressurreição da carne. Sobre a cruz, ela foi alvo de irrisão; hoje, os céus e a terra a adoram. Esta noite faz já parte do nosso domingo. Era mesmo preciso que Cristo ressuscitasse durante a noite, uma vez que a Sua ressurreição iluminou as nossas trevas. Tal como a nossa fé, fortificada pela ressurreição de Cristo, afasta todo o sono, assim esta noite, iluminada pelas nossas velas, se enche de claridade. Ela faz-nos esperar, com a Igreja espalhada por toda a terra, que não havemos de ser surpreendidos a meio da noite (Mc 13, 33).

Em tantos países que esta festa, tão solene para todos, reúne em nome de Cristo, o sol já se pôs - mas o dia ainda não acabou; as luzes do céu deram lugar às luzes da terra. Aquele que nos deu a glória do Seu Nome (Sl 28, 2) iluminou também esta noite. Aquele a quem dizemos "Tu iluminas as minhas trevas" (Sl 18, 29) derrama a Sua claridade nos nossos corações. E, assim como os nossos olhos deslumbrados contemplam as velas acesas, assim o nosso espírito iluminado nos faz ver nesta noite.


Santo Agostinho, Bispo e Doutor
2ª Homilia para a Noite Santa

TRÍDUO PASCAL – SÁBADO SANTO – VIGÍLIA PASCAL – Desceu aos que estavam sentados nas trevas



SÁBADO SANTO - VIGÍLIA PASCAL

Gn 1,1 – 2,2/Sl 103
Gn 22,1-18/Sl 15
Ex 14,15 – 15,1
Is 54,5-14/Sl 29
Is 55,1-11
Br 3,9-15.32-4,4/Sl 18
Ez 36,16-17a.18-28/Sl 41
Rm 6,3-11/Sl 117
Lc 24,1-12


«Desceu aos que estavam sentados nas trevas»

Cristo está na cruz: aproximemo-nos dele, participemos dos seus sofrimentos para ter parte também em sua glória. Cristo jaz entre os mortos: morramos ao pecado a fim de viver para a justiça. Cristo repousa num túmulo novo: purifiquemo-nos do velho fermento, tornemo-nos uma massa nova e sejamos para ele um lugar de repouso. Cristo desce à mansão dos mortos: desçamos também com ele pela humilhação que exalta, a fim de ressuscitarmos, sermos exaltados e glorificados com ele, sempre vendo e sendo vistos por Deus. Vós que sois do mundo, sede livres; vós que estais amarrados, saí; vós que estais nas trevas, abri os olhos para a luz; vós que estais no cativeiro, libertai-vos; cegos, levantai os olhos. Desperta, Adão que dormes, levanta-te de entre os mortos, pois Cristo, nossa ressurreição, apareceu!

Aquele que se assenta sobre os querubins (Sl 79 [80], 2) foi pregado numa cruz como um condenado. Embora sendo a vida dos homens, os assassinos de Deus não acreditaram ao vê-lo suspenso no madeiro. Aquele que plasmou o homem com suas mãos divinas estendeu o dia inteiro suas mãos puras a um povo rebelde que seguia um caminho mau, e entregou sua alma nas mãos do Pai. Com uma lança perfuraram o lado daquele que criara Eva do lado de Adão; jorraram água e sangue divino, bebida de imortalidade e batismo de regeneração. Por isso o sol escureceu, não suportando ver maltratado o Sol de justiça. A terra estremeceu, aspergida com o sangue do Senhor, purificada da idolatria e saltando de alegria por essa purificação.

Aquele que soprara a vida em Adão para dele fazer um ser vivente foi depositado num túmulo, morto, sem vida. Aquele que condenara o homem a voltar à terra foi contado entre os esquecidos da terra. As portas de bronze são quebradas, as barras das portas destruídas, as portas eternas se abrem, o guardião da mansão dos mortos se apavora. Aquele que não tem pecado está entre os mortos. Aquele que desfizera as ligaduras de Lázaro é envolvido com ataduras, para desatar as amarras do homem morto por causa do pecado e enredado em seus laços, a fim de torná-lo livre. Agora o rei da glória desce à casa do tirano, ele o Forte nos combates sai de um extremo do céu e no outro termina a sua corrida, alegrando-se como um atleta a percorrer seu caminho.

Agora a mansão dos mortos torna-se céu, o Hades é iluminado, as trevas, que outrora amedrontavam, vão-se embora, e os cegos recobram a vista. Pois o Sol nascente, luz do alto, visita os que jazem nas trevas e na sombra da morte estão sentados (Lc 1, 78-79).

Escutemos, nós que não vemos, e acreditamos na boa-nova dos que anunciam a paz. Porque o braço de Deus e seu poder nos foram revelados. Se escutarmos, seremos glorificados, contemplando na humilhação, como num espelho, a glória do Senhor, e vendo, em seu aspecto desfigurado, a beleza que ultrapassa toda beleza. Se o vemos preso ao madeiro, sem beleza nem glória, morrendo por todos os homens, ele é, no entanto, o Esplendor da glória do Pai. Ele dá sua túnica aos soldados que a repartem, mas, ressuscitado dos mortos, enviará diante das nações os discípulos que escolheu, e ele mesmo será a túnica do batismo para os fiéis. Pois, vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo (Gl 3, 27).

Acima de tudo, tende os mesmos sentimentos de Cristo Jesus que nos amou quando ainda éramos inimigos. Pois a antiga liberdade nos será devolvida, nós celebraremos o Êxodo do Senhor Deus e a Igreja estará em paz. Então, com nossas lâmpadas acesas, iremos alegremente ao encontro do Esposo imortal vencedor da morte. E com o rosto descoberto, contemplaremos, como num espelho, a glória do Senhor, cuja beleza haveremos de gozar. A ele sejam dadas, honra, adoração e glória em união com o Pai e o Espírito Santo, agora e sempre, e por todos os séculos. Amém.


Das Homilias de São João Damasceno,
Presbítero, século VIII

TRÍDUO PASCAL – SÁBADO SANTO – VIGÍLIA PASCAL – Eia Mater, Fons Amoris: Stabat Mater Dolorosa



SÁBADO SANTO - VIGÍLIA PASCAL

Gn 1,1 – 2,2/Sl 103
Gn 22,1-18/Sl 15
Ex 14,15 – 15,1
Is 54,5-14/Sl 29
Is 55,1-11
Br 3,9-15.32-4,4/Sl 18
Ez 36,16-17a.18-28/Sl 41
Rm 6,3-11/Sl 117
Lc 24,1-12


«Ó Mãe, Fonte de Amor: Estava a Mãe dolorosa»

A Virgem das Dores é o Tabernáculo dos Sagrados Mistérios, a Porta do Coração chagado de Cristo, a Mestra do silêncio, a Mãe da nossa alegria. No Sábado Santo, quando a Igreja permanece unida à Virgem na espera da Ressurreição, os filhos devem estar imersos no silêncio da Mãe, devem estar a seu lado com o amoroso propósito de consolar Mãe tão terna e excelsa.


“Stabat Mater” - Caminho de união à Virgem das Dores na Paixão


O belíssimo “Stabat Mater”, do latim “Estava a Mãe”, é um hino, mais precisamente uma seqüência, católica do século XIII atribuído a Jacopone de Todi, apesar da questão ser controversa. Tal oração, que tem início com as palavras “Stabat Mater dolorosa” - “Estava a Mãe dolorosa” - medita sobre os sofrimentos de Maria, Mãe de Jesus, durante a Crucifixão e a Paixão de Cristo. A oração é recitada de maneira facultativa durante a Missa em memória de Nossa Senhora das Dores (15 de setembro) e as suas partes formam os hinos latinos da própria festa. Antes da Reforma litúrgica, era utilizada no ofício da Sexta-feira da semana da Paixão (Nossa Senhora das setes dores - sexta-feira precedente ao Domingo de Ramos). É um Hino muito popular, sobretudo, porque acompanha o rito da Via-Sacra, uma estrofe para cada estação, e a procissão da Sexta-feira Santa, sendo um canto muito amado pelos fiéis, assim como por inteiras gerações de músicos. O Stabat Mater, é um forte remédio para todos que, com uma disposição mais plena de fé, se aproximam da Paixão de Cristo a fim de consolar a Mãe cheia de dores em sua solidão, a Mãe, Fonte de amor.


STABAT MATER


"Estava a Mãe dolorosa
Junto da Cruz, lacrimosa
Vendo o Filho que pendia.

A sua alma agoniada
Se partia atravessada
No gládio da profecia.

Oh! Quão triste e aflita
Estava a Virgem bendita,
A Mãe do Filho Unigênito.

Quanta angústia não sentia
Mãe piedosa, quando via
As penas do Filho seu.

Quem não chora, vendo isto,
Contemplando a Mãe do Cristo
Num suplício tão enorme?

Quem haverá que resista,
Se a Mãe assim contrista,
Padecendo com seu Filho?

Por culpa de sua gente,
Viu a Jesus inocente
Aos flagelos submisso.

Viu seu Filho muito amado
Que morria abandonado,
Entregando o seu espírito.

Faze, ó Mãe, fonte de amor,
Que eu sinta a força da dor,
Para contigo chorar.

Faze arder meu coração,
Do Cristo Deus na paixão,
Para que o possa agradar.


Ó Santa Mãe, dá-me isto:
Trazer as chagas do Cristo
Gravadas no coração.

Do teu Filho, que por mim
Se entrega a uma morte assim,
Divide as penas comigo.

Oh! Dá-me, enquanto viver,
Com o Cristo compadecer,
Chorando sempre contigo.

Junto da Cruz quero estar,
Para assim me associar
Ao martírio do teu pranto.

Virgem das virgens, preclara,
Jamais me sejas avara,
Dá-me contigo chorar.

Traga em mim do Cristo a morte,
Da Paixão seja eu consorte,
Suas chagas celebrando.

Por elas seja eu rasgado,
Pela Cruz inebriado,
No sangue do Filho nutrido.

No Juízo, ó Virgem, consegue
Às chamas não ser entregue
Quem por ti é defendido.

Quando do mundo eu partir,
Dá-me, ó Cristo, conseguir,
Por tua Mãe, a vitória.

Quando o meu corpo morrer,
Possa a alma merecer
Do Reino celeste a glória.

Amém".

TRÍDUO PASCAL – SÁBADO SANTO – VIGÍLIA PASCAL – Não chores por mim, ó Mãe!



SÁBADO SANTO - VIGÍLIA PASCAL

Gn 1,1 – 2,2/Sl 103
Gn 22,1-18/Sl 15
Ex 14,15 – 15,1
Is 54,5-14/Sl 29
Is 55,1-11
Br 3,9-15.32-4,4/Sl 18
Ez 36,16-17a.18-28/Sl 41
Rm 6,3-11/Sl 117
Lc 24,1-12


«Não chores por mim, ó Mãe!»


Vendo sobre a cruz o Cordeiro,
o Pastor e Salvador do mundo,
Aquela que te concebeu diz, em suas lágrimas:
“O mundo se alegra por receber a redenção
E minhas entranhas se consomem à vista da crucifixão
Que tu sofres por nós, ó meu filho e meu Deus!”

“Infeliz de mim, filho meu!
Aquele que esperei como Rei,
agora o vejo condenado na cruz!”

“Ai! A profecia de Simeão realizou-se,
Porque a tua espada, ó Emanuel,
Transpassou o meu coração!”

Quando a tua Mãe imaculada viu a tua morte, ó Cristo,
Invocou-te em tom suplicante:
“Não permaneças, ó Vida, no reino dos mortos!”

“Não chores por mim, ó Mãe, que contemplas na tumba
O Filho que concebeste virginalmente no seio,
Visto que ressurgirei e serei glorificado!
E, na glória sem fim, glorificarei, na minha qualidade de Deus,
Os que te louvam com fé e amor!”

Tu que nasceste da Virgem e por nós sofreste a cruz,
Tu, que por tua morte venceste a morte
e nos revelaste a tua ressurreição,
Não rejeites aqueles que tua mão modelou!
Mostra-nos teu amor, ó Deus de misericórdia,
Atende as preces daquela que te concebeu,
E salva, Senhor, o povo que espera em ti!


Textos da Liturgia Bizantina

TRÍDUO PASCAL – SÁBADO SANTO – VIGÍLIA PASCAL – Ladainha de Nossa Senhora das Dores



SÁBADO SANTO - VIGÍLIA PASCAL

Gn 1,1 – 2,2/Sl 103
Gn 22,1-18/Sl 15
Ex 14,15 – 15,1
Is 54,5-14/Sl 29
Is 55,1-11
Br 3,9-15.32-4,4/Sl 18
Ez 36,16-17a.18-28/Sl 41
Rm 6,3-11/Sl 117
Lc 24,1-12


«Ladainha de Nossa Senhora das Dores»

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Deus Pai, que estais nos Céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, Redentor do Mundo, tende piedade de nós.
Espírito Santo Paráclito, tende piedade de nós.
Trindade Santa, Deus uno e Trino, tende piedade de nós.
Mãe de Jesus crucificado, rogai por nós.
Mãe do Coração Transpassado, rogai por nós.
Mãe do Cristo Redentor, rogai por nós.
Mãe dos discípulos de Jesus, rogai por nós.
Mãe dos redimidos, rogai por nós.
Mãe dos viventes, rogai por nós.
Virgem obediente, rogai por nós.
Virgem oferente, rogai por nós.
Virgem fiel, rogai por nós.
Virgem do silêncio, rogai por nós.
Virgem da espera, rogai por nós.
Virgem da Páscoa, rogai por nós.
Virgem da Ressurreição, rogai por nós.
Mulher que sofreu o exílio, rogai por nós.
Mulher forte, rogai por nós.
Mulher corajosa, rogai por nós.
Mulher do sofrimento, rogai por nós.
Mulher da Nova Aliança, rogai por nós.
Mulher da Esperança, rogai por nós.
Nova Eva, rogai por nós.
Colaboradora na salvação, rogai por nós.
Serva da reconciliação, rogai por nós.
Defesa dos inocentes, rogai por nós.
Coragem dos perseguidos, rogai por nós.
Fortaleza dos oprimeidos, rogai por nós.
Esperança dos pecadores, rogai por nós.
Consolação dos aflitos, rogai por nós.
Refúgio dos marginalizados, rogai por nós.
Conforto dos exilados, rogai por nós.
Sustento dos fracos, rogai por nós.
Alívio dos enfermos, rogai por nós.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.

- Rogai por nós, Santa Mãe de Deus,
- Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Amém.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA – Tu nos amaste primeiro para que nós Te amássemos



SEXTA -FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

Is 52, 13-53, 12
Sl 30
Hb 4, 14-16; 5, 7-9
Jo 18, 1-19, 42


«Tu nos amaste primeiro para que nós Te amássemos»

Sim, Tu nos amaste primeiro, para que nós Te amássemos. Tu não necessitas do nosso amor, mas só poderemos atingir os Teus desígnios amando-Te. Por isso, «muitas vezes e de muitos modos falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Seu Filho», (Hb 1, 1), o Seu Verbo. Foi por Ele que «a palavra do Senhor criou os céus, e o sopro da Sua boca, todos os astros» (Sl 32, 6). Para Ti, falar através do Teu Filho não é outra coisa que mostrares, fazeres ver com brilho quanto e como nos amas, dado que não poupaste o Teu próprio Filho, mas O entregaste por todos nós (Rm 8, 32). E também Ele nos amou e a Si mesmo se entregou por nós (Gal 2, 20).

Tal é a Palavra, o Verbo Todo Poderoso que nos diriges, Senhor. Enquanto todos mergulhavam no silêncio, ou seja, na profundidade do erro, Ele desceu das moradas reais (Sab 18, 14), para abater duramente o pecado e enaltecer suavemente o amor. E tudo quanto fez, tudo quanto disse na terra, até os opróbrios, até os escárnios e as bofetadas, até a cruz e o sepulcro, não eram mais que a Tua palavra pelo Teu Filho, palavra que nos incita ao amor, palavra que desperta em nós o amor por Ti.

Sabias com efeito, Deus, Criador das almas, que as almas dos filhos dos homens não podem ser forçadas a esta afeição, mas que é necessário provocá-las. Porque, onde houver constrangimento, não há liberdade; e onde não há liberdade, não há justiça. Quiseste que Te amássemos, porque em justiça não podíamos ser salvos sem Te amar. E não podíamos amar-Te a menos que o amor partisse de Ti. Por conseguinte, Senhor, como apóstolo do Teu amor o digo, Tu amaste-nos primeiro (1Jo 4, 10), e primeiramente amas todos os que Te amam. Mas nós, nós amamos-Te pela afeição de amor que puseste em nós.


Guilherme de Saint-Thierry, Abade
De contemplando Deo, 10, cf. SC 61, pp. 91ss

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA – Cristo Crucificado é o Verbo que não passa e bate ao coração de cada homem



SEXTA -FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

Is 52, 13-53, 12
Sl 30
Hb 4, 14-16; 5, 7-9
Jo 18, 1-19, 42


«Cristo, precisamente como Crucificado, é o Verbo que não passa, é o que está à porta e bate ao coração de cada homem»

Os acontecimentos da Sexta-Feira Santa e, ainda antes, a oração no Getsêmani, introduzem uma mudança fundamental em todo o processo da revelação do amor e da misericórdia, na missão messiânica de Cristo. Aquele que andou fazendo o bem e curando a todos (At 10, 38) e curando todo tipo de doença e de enfermidade (Mt 9, 35) mostra-se ele próprio, agora, digno da maior misericórdia e parece apelar para a misericórdia, quando é preso, ultrajado, condenado, flagelado, coroado de espinhos, quando é pregado na cruz e expira no meio de tormentos atrozes. É então que ele se apresenta particularmente digno da misericórdia dos homens a quem fez o bem; e não a recebe. Até aqueles que lhe são mais próximos não o sabem proteger e arrancar da mão de seus opressores. Nesta fase final do desempenho da função messiânica cumprem-se em Cristo as palavras dos profetas e, sobretudo, as de Isaías, proferidas a respeito do Servo de Javé: Suas feridas foram o preço de nossa cura (Is 53, 5).

Cristo, enquanto homem, que sofre realmente e de modo terrível no Jardim das Oliveiras e no Calvário, dirige-se ao Pai, àquele Pai cujo amor pregou aos homens e de cuja misericórdia deu testemunho com todo o seu agir. Mas não lhe é poupado, nem sequer a ele, o tremendo sofrimento da morte na cruz: Aquele que não cometeu pecado, Deus o fez pecado por nós (2Cor 5, 21), escreveria São Paulo, resumindo em poucas palavras toda a profundidade do mistério da cruz e, ao mesmo tempo, a dimensão divina da realidade da Redenção. É precisamente essa redenção a última e definitiva revelação da santidade de Deus, que é a plenitude absoluta da perfeição: plenitude da justiça e do amor, pois a justiça funda-se no amor, dele emana e para ele tende.

A cruz de Cristo sobre o Calvário surge no caminho daquele admirabile commercium, daquela comunicação admirável de Deus ao homem, que encerra, ao mesmo tempo, o chamamento dirigido ao homem para que, dando-se a si mesmo a Deus e oferecendo consigo todo o mundo visível, participe da vida divina e, como filho adotivo, se torne participante da verdade e do amor que estão em Deus e provêm de Deus.

A cruz é o modo mais profundo de a divindade se debruçar sobre a humanidade e sobre tudo aquilo que o homem – especialmente nos momentos difíceis e dolorosos – considera o seu próprio destino infeliz. A cruz é como que um toque do amor eterno nas feridas mais dolorosas da existência terrena do homem, é o cumprir-se cabalmente do programa messiânico, que Cristo um dia tinha formulado na sinagoga de Nazaré e que repetiu depois diante dos enviados de João.

No centro desse programa está sempre a cruz, porque nela a revelação do amor misericordioso atinge seu ponto culminante. Enquanto não passarem as coisas antigas (Ap 21, 4), a cruz permanecerá como aquele “lugar”, a que se poderiam referir ainda outras palavras do Apocalipse de São João: Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e tomaremos a refeição, eu com ele e ele comigo (Ap 3, 20). Deus revela também, de modo particular, a sua misericórdia, quando solicita o homem, por assim dizer, a exercitar a misericórdia para com seu próprio Filho, para com o Crucificado.

Cristo, precisamente como Crucificado, é o Verbo que não passa, é o que está à porta e bate ao coração de cada homem, sem coagir sua liberdade, mas procurando fazer irromper dessa mesma liberdade o amor; um amor que é, não apenas ato de solidariedade para com o Filho do homem que sofre, mas também, de certo modo, uma forma de “misericórdia”, manifestada a cada um de nós para com o Filho eterno do Pai.


Papa João Paulo II
“Dives in misericordia”, cap. V, 7.8

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA – O Filho único de Deus oferece-se livremente à Cruz



SEXTA -FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

Is 52, 13-53, 12
Sl 30
Hb 4, 14-16; 5, 7-9
Jo 18, 1-19, 42


«O Filho único de Deus oferece-se livremente à Cruz»

Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então compreendereis que Eu Sou (Jo 8,28)

Vinde, vós todos que amais a Deus e vede o que Nosso Senhor fez por vós. Vinde, vós todos que fostes resgatados pelo Sangue puríssimo do Cordeiro inocente; vede e compreendei o que Ele sofreu por causa do nosso pecado. Hoje abre-se para nós o Livro da Vida, os sete selos são quebrados (Ap 6). A verdade resplandece e nela se manifestam os tesouros da sabedoria e da ciência (Rm 11,33); brota a fonte que contém os mistérios de Deus.

Hoje rompe-se o antigo véu (Mt 27.51), todas as aparências dão lugar à realidade. O Santo dos Santos abre-se de par em par, graças a Jesus, o Sumo Sacerdote (He 2,17). O sacrifício que Ele oferece não é senão o seu próprio sangue. Hoje, em Jesus Cristo, é revelado o sentido de todos os símbolos, são descobertos todos os mistérios. Hoje abre-se o tesouro imenso do pai de família do qual fruirão plenamente todos os pobres, todos os fracos, todos os oprimidos. Cada um pode beber nas chagas do Senhor a graça de que mais necessita.

Hoje manifestou-se, acima de todas as coisas, o admirável mistério: o Rei dos homens faz-se o rebutalho da humanidade; o Altíssimo faz-se o último de todos; o Filho único de Deus oferece-se livremente à Cruz pelos pobres pecadores que somos nós. Ele quer pregar o pecado na cruz, matar a morte e, pelo seu sangue precioso, destruir a nota da dívida onde estão registradas as nossas faltas (Cl 2,14).

Não foi Ele que disse: “Quando eu for elevado, atrairei tudo a mim” (Jo 12,32)? Tudo, quer dizer, todos os homens, em quem tudo se reúne. Muitos homens encontram a cruz; entre muitas tribulações, Deus leva-os a essa cruz, para os atrair a Ele. Então eles carregam de bom grado a sua própria cruz e assim tornam-se verdadeiros amigos de Deus.


Johannes Tauler, O.P. (Juan Tauler)
Místico Dominicano do século XIV
Da Meditação sobre a Paixão

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA – Em união a Tua Paixão, Senhor, e pelo Teu Amor



SEXTA -FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

Is 52, 13-53, 12
Sl 30
Hb 4, 14-16; 5, 7-9
Jo 18, 1-19, 42


«Em união a Tua Paixão, Senhor, e pelo Teu Amor»


Ó Doce Jesus, coloco-me aos vossos pés, certo como estou de que sabeis cumprir o que nem imaginar posso. Servir-vos quero até onde quiserdes, a todo custo, com qualquer sacrifício. Nada sei fazer, não sei humilhar-me, só sei dizer e vos digo com firmeza: Quero humilhar-me, quero amar a humilhação, o pouco caso da parte do próximo para com minha pessoa. Lanço-me de olhos fechados, com alegria, naquele dilúvio de desprezos, padecimentos, abjeções em que vos aprouver colocar-me. Sinto repugnância, o coração dilacerado ao dizê-lo, mas vos prometo: Por vosso amor, quero padecer e ser desprezado. Não sei o que fazer, aliás, não confio em mim, mas não desisto de querê-lo, com toda a energia da alma: sofrer, sofrer e ser desprezado, por amor de vós.


Papa João XXIII
O Diário da Alma, 1903, p.180