sexta-feira, 2 de abril de 2010

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA – Tu nos amaste primeiro para que nós Te amássemos



SEXTA -FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

Is 52, 13-53, 12
Sl 30
Hb 4, 14-16; 5, 7-9
Jo 18, 1-19, 42


«Tu nos amaste primeiro para que nós Te amássemos»

Sim, Tu nos amaste primeiro, para que nós Te amássemos. Tu não necessitas do nosso amor, mas só poderemos atingir os Teus desígnios amando-Te. Por isso, «muitas vezes e de muitos modos falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Seu Filho», (Hb 1, 1), o Seu Verbo. Foi por Ele que «a palavra do Senhor criou os céus, e o sopro da Sua boca, todos os astros» (Sl 32, 6). Para Ti, falar através do Teu Filho não é outra coisa que mostrares, fazeres ver com brilho quanto e como nos amas, dado que não poupaste o Teu próprio Filho, mas O entregaste por todos nós (Rm 8, 32). E também Ele nos amou e a Si mesmo se entregou por nós (Gal 2, 20).

Tal é a Palavra, o Verbo Todo Poderoso que nos diriges, Senhor. Enquanto todos mergulhavam no silêncio, ou seja, na profundidade do erro, Ele desceu das moradas reais (Sab 18, 14), para abater duramente o pecado e enaltecer suavemente o amor. E tudo quanto fez, tudo quanto disse na terra, até os opróbrios, até os escárnios e as bofetadas, até a cruz e o sepulcro, não eram mais que a Tua palavra pelo Teu Filho, palavra que nos incita ao amor, palavra que desperta em nós o amor por Ti.

Sabias com efeito, Deus, Criador das almas, que as almas dos filhos dos homens não podem ser forçadas a esta afeição, mas que é necessário provocá-las. Porque, onde houver constrangimento, não há liberdade; e onde não há liberdade, não há justiça. Quiseste que Te amássemos, porque em justiça não podíamos ser salvos sem Te amar. E não podíamos amar-Te a menos que o amor partisse de Ti. Por conseguinte, Senhor, como apóstolo do Teu amor o digo, Tu amaste-nos primeiro (1Jo 4, 10), e primeiramente amas todos os que Te amam. Mas nós, nós amamos-Te pela afeição de amor que puseste em nós.


Guilherme de Saint-Thierry, Abade
De contemplando Deo, 10, cf. SC 61, pp. 91ss

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA – Cristo Crucificado é o Verbo que não passa e bate ao coração de cada homem



SEXTA -FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

Is 52, 13-53, 12
Sl 30
Hb 4, 14-16; 5, 7-9
Jo 18, 1-19, 42


«Cristo, precisamente como Crucificado, é o Verbo que não passa, é o que está à porta e bate ao coração de cada homem»

Os acontecimentos da Sexta-Feira Santa e, ainda antes, a oração no Getsêmani, introduzem uma mudança fundamental em todo o processo da revelação do amor e da misericórdia, na missão messiânica de Cristo. Aquele que andou fazendo o bem e curando a todos (At 10, 38) e curando todo tipo de doença e de enfermidade (Mt 9, 35) mostra-se ele próprio, agora, digno da maior misericórdia e parece apelar para a misericórdia, quando é preso, ultrajado, condenado, flagelado, coroado de espinhos, quando é pregado na cruz e expira no meio de tormentos atrozes. É então que ele se apresenta particularmente digno da misericórdia dos homens a quem fez o bem; e não a recebe. Até aqueles que lhe são mais próximos não o sabem proteger e arrancar da mão de seus opressores. Nesta fase final do desempenho da função messiânica cumprem-se em Cristo as palavras dos profetas e, sobretudo, as de Isaías, proferidas a respeito do Servo de Javé: Suas feridas foram o preço de nossa cura (Is 53, 5).

Cristo, enquanto homem, que sofre realmente e de modo terrível no Jardim das Oliveiras e no Calvário, dirige-se ao Pai, àquele Pai cujo amor pregou aos homens e de cuja misericórdia deu testemunho com todo o seu agir. Mas não lhe é poupado, nem sequer a ele, o tremendo sofrimento da morte na cruz: Aquele que não cometeu pecado, Deus o fez pecado por nós (2Cor 5, 21), escreveria São Paulo, resumindo em poucas palavras toda a profundidade do mistério da cruz e, ao mesmo tempo, a dimensão divina da realidade da Redenção. É precisamente essa redenção a última e definitiva revelação da santidade de Deus, que é a plenitude absoluta da perfeição: plenitude da justiça e do amor, pois a justiça funda-se no amor, dele emana e para ele tende.

A cruz de Cristo sobre o Calvário surge no caminho daquele admirabile commercium, daquela comunicação admirável de Deus ao homem, que encerra, ao mesmo tempo, o chamamento dirigido ao homem para que, dando-se a si mesmo a Deus e oferecendo consigo todo o mundo visível, participe da vida divina e, como filho adotivo, se torne participante da verdade e do amor que estão em Deus e provêm de Deus.

A cruz é o modo mais profundo de a divindade se debruçar sobre a humanidade e sobre tudo aquilo que o homem – especialmente nos momentos difíceis e dolorosos – considera o seu próprio destino infeliz. A cruz é como que um toque do amor eterno nas feridas mais dolorosas da existência terrena do homem, é o cumprir-se cabalmente do programa messiânico, que Cristo um dia tinha formulado na sinagoga de Nazaré e que repetiu depois diante dos enviados de João.

No centro desse programa está sempre a cruz, porque nela a revelação do amor misericordioso atinge seu ponto culminante. Enquanto não passarem as coisas antigas (Ap 21, 4), a cruz permanecerá como aquele “lugar”, a que se poderiam referir ainda outras palavras do Apocalipse de São João: Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e tomaremos a refeição, eu com ele e ele comigo (Ap 3, 20). Deus revela também, de modo particular, a sua misericórdia, quando solicita o homem, por assim dizer, a exercitar a misericórdia para com seu próprio Filho, para com o Crucificado.

Cristo, precisamente como Crucificado, é o Verbo que não passa, é o que está à porta e bate ao coração de cada homem, sem coagir sua liberdade, mas procurando fazer irromper dessa mesma liberdade o amor; um amor que é, não apenas ato de solidariedade para com o Filho do homem que sofre, mas também, de certo modo, uma forma de “misericórdia”, manifestada a cada um de nós para com o Filho eterno do Pai.


Papa João Paulo II
“Dives in misericordia”, cap. V, 7.8

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA – O Filho único de Deus oferece-se livremente à Cruz



SEXTA -FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

Is 52, 13-53, 12
Sl 30
Hb 4, 14-16; 5, 7-9
Jo 18, 1-19, 42


«O Filho único de Deus oferece-se livremente à Cruz»

Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então compreendereis que Eu Sou (Jo 8,28)

Vinde, vós todos que amais a Deus e vede o que Nosso Senhor fez por vós. Vinde, vós todos que fostes resgatados pelo Sangue puríssimo do Cordeiro inocente; vede e compreendei o que Ele sofreu por causa do nosso pecado. Hoje abre-se para nós o Livro da Vida, os sete selos são quebrados (Ap 6). A verdade resplandece e nela se manifestam os tesouros da sabedoria e da ciência (Rm 11,33); brota a fonte que contém os mistérios de Deus.

Hoje rompe-se o antigo véu (Mt 27.51), todas as aparências dão lugar à realidade. O Santo dos Santos abre-se de par em par, graças a Jesus, o Sumo Sacerdote (He 2,17). O sacrifício que Ele oferece não é senão o seu próprio sangue. Hoje, em Jesus Cristo, é revelado o sentido de todos os símbolos, são descobertos todos os mistérios. Hoje abre-se o tesouro imenso do pai de família do qual fruirão plenamente todos os pobres, todos os fracos, todos os oprimidos. Cada um pode beber nas chagas do Senhor a graça de que mais necessita.

Hoje manifestou-se, acima de todas as coisas, o admirável mistério: o Rei dos homens faz-se o rebutalho da humanidade; o Altíssimo faz-se o último de todos; o Filho único de Deus oferece-se livremente à Cruz pelos pobres pecadores que somos nós. Ele quer pregar o pecado na cruz, matar a morte e, pelo seu sangue precioso, destruir a nota da dívida onde estão registradas as nossas faltas (Cl 2,14).

Não foi Ele que disse: “Quando eu for elevado, atrairei tudo a mim” (Jo 12,32)? Tudo, quer dizer, todos os homens, em quem tudo se reúne. Muitos homens encontram a cruz; entre muitas tribulações, Deus leva-os a essa cruz, para os atrair a Ele. Então eles carregam de bom grado a sua própria cruz e assim tornam-se verdadeiros amigos de Deus.


Johannes Tauler, O.P. (Juan Tauler)
Místico Dominicano do século XIV
Da Meditação sobre a Paixão

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA – Em união a Tua Paixão, Senhor, e pelo Teu Amor



SEXTA -FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

Is 52, 13-53, 12
Sl 30
Hb 4, 14-16; 5, 7-9
Jo 18, 1-19, 42


«Em união a Tua Paixão, Senhor, e pelo Teu Amor»


Ó Doce Jesus, coloco-me aos vossos pés, certo como estou de que sabeis cumprir o que nem imaginar posso. Servir-vos quero até onde quiserdes, a todo custo, com qualquer sacrifício. Nada sei fazer, não sei humilhar-me, só sei dizer e vos digo com firmeza: Quero humilhar-me, quero amar a humilhação, o pouco caso da parte do próximo para com minha pessoa. Lanço-me de olhos fechados, com alegria, naquele dilúvio de desprezos, padecimentos, abjeções em que vos aprouver colocar-me. Sinto repugnância, o coração dilacerado ao dizê-lo, mas vos prometo: Por vosso amor, quero padecer e ser desprezado. Não sei o que fazer, aliás, não confio em mim, mas não desisto de querê-lo, com toda a energia da alma: sofrer, sofrer e ser desprezado, por amor de vós.


Papa João XXIII
O Diário da Alma, 1903, p.180

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA – O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo



SEXTA -FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

Is 52, 13-53, 12
Sl 30
Hb 4, 14-16; 5, 7-9
Jo 18, 1-19, 42


«O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo»

No Apocalipse, o apóstolo João escreve: «Eis o que vi: diante do trono...havia um Cordeiro, de pé e como que imolado» (Ap 5,6). Enquanto contemplava esta visão, uma recordação permanecia nele ainda bem viva: a do dia inesquecível em que, na margem do Jordão, João Batista tinha designado Jesus como «o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo».

Mas porque é que o próprio Senhor tinha escolhido o cordeiro para ser o seu símbolo por excelência? Porque é que se mostrava mais uma vez sob esta aparência no trono eterno da glória? Porque era inocente como um cordeiro e humilde como um cordeiro, e porque tinha vindo para «deixar-se conduzir ao matadouro como um cordeiro» (Is 53,7).

Também isso tinha contemplado o apóstolo João, quando o Senhor tinha deixado que lhe atassem as mãos no Jardim das Oliveiras e se tinha deixado pregar na cruz no Gólgota. Ali, no Gólgota, o verdadeiro sacrifício da reconciliação tinha sido consumado. Os antigos sacrifícios tinham perdido a sua força e, tal como antigo sacerdócio, cessaram em breve quando o templo foi destruído. Tudo isto João tinha-o vivido. Por isso, não se admirou ao ver o Cordeiro no trono.

Tal como o Cordeiro tinha de ser morto para ser elevado ao trono da glória, assim também, para todos os que foram escolhidos para «a boda das núpcias do Cordeiro» (Ap 19,9), o caminho para a glória passa pelo sofrimento e pela cruz. Aqueles que querem unir-se ao Cordeiro devem deixar-se pregar com ele na cruz. Todos os que estão marcados com o sangue do Cordeiro (cf. Ex 12,7) a isso são chamados - e são todos os batizados. Mas nem todos compreendem o apelo e nem todos o seguem.


Santa Teresa Benedita da Cruz
As Bodas do Cordeiro, 1940

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA – Ó Paixão, purificação do universo!



SEXTA -FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

Is 52, 13-53, 12
Sl 30
Hb 4, 14-16; 5, 7-9
Jo 18, 1-19, 42


«Ó Paixão, purificação do universo!
Ó morte, princípio de imortalidade e origem da vida!»

Hoje se realizaram os oráculos proféticos. Hoje o inferno vai cuspir seu veneno mortal e a morte receber um morto que está sempre vivo. Hoje as cadeias que a Serpente forjara no Paraíso vão ser destruídas e os escravos libertados. Hoje o ladrão irá assaltar o Paraíso defendido há milhares de anos por um querubim armado com uma espada de fogo. Hoje a luz que brilha nas trevas (Jo 1, 5), vai esvaziar o tesouro da morte. Hoje é a entrada do rei na prisão. Hoje ele arrombou as portas de bronze e quebrou as trancas de ferro (Sl 106 [107], 16). E aquele que aceitou a morte como simples mortal devasta seu império, pois ele é o Deus-Verbo. Adão se erguerá e Abel sairá são e salvo, e os que a morte havia devorado e gemiam sob o seu teto, exclamam: Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó inferno, o teu aguilhão (cf. 1Cor 15, 55).

Que dizes sobre isso, tu que olhas para a cruz com desprezo e zombas da Paixão? Achas graça na morte, apontas o túmulo; mas, presta também atenção à vitória. Admiras Abel. Ele morreu. Fala-me de Noé. Mas ele também conheceu a corrupção. Citas ainda Enoque: ele não escapou da Lei. Então me falas de Abraão; mas Abraão também morreu. Fazes menção de Isaac, ele caiu e não mais se levantou. O patriarca Jacó também se tornou pó. Lembras-te da história dos ossos de José? Quanto a Moisés, nem se sabe onde foi enterrado. Junta todos os profetas, lembra-te onde estão todos os seus túmulos e cala-te. A morte os devorou e não devolveu nenhum.

Mas hoje está em pé diante do tribunal aquele que vem destruir a maldição. Os profetas reunidos interrogam o Senhor: Que chagas são estas em tuas mãos? (Zc 13, 6: Vulgata). Como a Paixão ousa te atingir? Ele responde: Eu transplantei minha vinha da terra do Egito, reguei-a na travessia do mar, cerquei-a com um muro, protegi-a pela circuncisão, os profetas e a lei a guardaram. Eu contava com uvas de verdade, mas ela produziu uvas selvagens; eu esperava frutos de justiça, e eis a injustiça (Is 5, 4.7). Então eu me tornei como um homem caído que jaz no sepulcro (Sl 87 [88], 6).

Ó Paixão, purificação do universo! Ó morte, princípio de imortalidade e origem da vida! Ó descida à mansão dos mortos que lança uma ponte a fim de que eles passem ao reino da vida. Ó meio-dia da morte de Cristo, recordação daquele meio-dia no Paraíso em que Eva colheu o fruto. Ó cravos que fixam o mundo para Deus e traspassam a morte! Ó espinhos, fruto da videira má! Ó fel, que dás a doçura da fé! Ó esponja, que lavas o mundo de seu pecado! Ó instrumento, que inscreves os fiéis no livro da vida!

Ó sinal, contradição para os infiéis, mas clareza para os fiéis! Ó mistério, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Mas, para nós, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus; e, como afirma o Apóstolo Paulo: O que é loucura de Deus é mais sábio que os homens (1Cor 1, 23-25). Nosso Senhor Jesus Cristo destruiu a morte, despojou a mansão dos mortos, deu a vida àqueles que estavam mortos. A ela a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.


São Proclo de Constantinopla, Bispo
Sermo 11, in sancta ac magna Paresceve
Patrologia Grega 65, 783-788

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA – Tome a sua cruz e siga-Me



SEXTA -FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

Is 52, 13-53, 12
Sl 30
Hb 4, 14-16; 5, 7-9
Jo 18, 1-19, 42


«Tome a sua cruz e siga-Me»

A união com Cristo é a nossa bem-aventurança e o aprofundamento dessa união com Ele traz-nos a felicidade terrena. Portanto, o amor à cruz não está, de forma nenhuma, em contradição com a alegria de sermos filhos de Deus. Ajudar a levar a cruz de Cristo dá uma alegria forte e pura aos que são chamados e são capazes de o fazer. Dessa forma, os verdadeiros filhos de Deus participam na edificação do Seu Reino.

Assim, a predileção pelo caminho da cruz também não significa que nos desagrade ver ultrapassada a Sexta-feira Santa e cumprida a Obra da Redenção. Só os resgatados, só os filhos da graça podem verdadeiramente carregar a cruz de Cristo. Só através da união com a divina Cabeça é que o sofrimento humano adquire a sua potencialidade redentora.

Sofrer e sentir-se bem-aventurado no sofrimento, permanecer firme de pé, seguir pelos caminhos poeirentos e pedregosos desta terra e estar ao mesmo tempo sentado com Cristo à direita do Pai (cf. Col 3, 1), rir-se e chorar com as crianças deste mundo sem deixar de cantar com os coros angélicos os louvores de Deus, eis a vida do cristão, até que rompa a aurora da eternidade.


Santa Teresa Benedita da Cruz
A expiação mística - Amor à cruz, 1934
T.Source Cachée, 1999, p. 234

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA – Escolhamos amar Jesus abandonado



SEXTA -FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

Is 52, 13-53, 12
Sl 30
Hb 4, 14-16; 5, 7-9
Jo 18, 1-19, 42


«Escolhamos amar Jesus abandonado»

É sempre uma grande descoberta ver que se pode dar o nome de Jesus abandonado a qualquer provação na vida.

Tememos? Jesus na cruz, no seu abandono, não pareceu também temer o esquecimento do Pai? Deparamo-nos com o desânimo, o abatimento. No seu abandono, Jesus parece Ele também ser invadido pela sensação de Lhe faltar o conforto do Pai e parece perder a coragem para ir até ao fim da sua terrível provação. Mas Ele diz: ‘Pai, em tuas mãos, entrego o meu espírito’ (Lc 23,46).

Os acontecimentos nos desconcertam? Jesus na sua grande dor pareceu não entender o que Lhe acontecia, pois Ele gritou: ‘Porquê?’ (Mt 27,46; Mc 15,34).

Somos criticados? No seu abandono, o Pai não pareceu aprovar a obra do Filho.

Somos acusados? Jesus na cruz talvez pensou receber uma queixa, uma acusação vinda do céu.

Ao ver suceder-se algumas provações na vida, não nos acontece dizer: isto é demais, está a passar do limites? O cálice amargo que Jesus bebeu no seu abandono não estava cheio, mas transbordava. A sua provação ultrapassou qualquer medida.

Quando o desespero nos agarra, feridos por um azar imprevisto, uma doença, uma situação absurda, podemos sempre recordar o sofrimento de Jesus abandonado que personificou todas as provações. Ele está presente em todas as dores. Todo o sofrimento tem o seu nome.

Escolhemos amar Jesus abandonado. Para conseguir, habituamos a chamar pelo seu nome nas provações da vida. Damos-Lhe assim o nome de Jesus abandonado-solidão, Jesus abandonado-dúvida, Jesus abandonado-ferido, Jesus abandonado-provação, Jesus abandonado-desamparado, e outros mais. Chamando pelo seu nome, descobrimo-l’O atrás de cada dor e Ele nos responderá com um amor engrandecido; se o abraçamos, Ele será para nós paz, conforto, coragem, equilíbrio, saúde, vitória. Ele será a explicação e a solução de tudo.


Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares
Nos passos do Ressuscitado

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA – A cruz é a coroa da vitória



SEXTA -FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

Is 52, 13-53, 12
Sl 30
Hb 4, 14-16; 5, 7-9
Jo 18, 1-19, 42


«A cruz é a coroa da vitória»

A cruz é a coroa da vitória. Trouxe luz para os cegos pela ignorância. Libertou os escravizados pelo pecado. De fato, redimiu toda a humanidade. Portanto, não tenha vergonha da cruz de Cristo, ao contrário, glorifica-a. Porque não foi meramente um homem que morreu por nós, mas o Filho de Deus, Deus feito homem. Na lei mosaica o sacrifício de um carneiro baniria o destruidor. Mas agora é o Cordeiro de Deus que assume o pecado do mundo. Com muito mais facilidade ele nos libertará de nossos pecados.

Ele não foi forçado a dar sua vida. Ele estava desejoso de ser sacrificado. Ouçam suas próprias palavras. Eu tenho o poder de dar minha vida e tomá-la outra vez (Jo 10,17-18). Sim, Ele livremente desejou submeter-se à sua própria paixão. Ele alegrou-se com seu objetivo; na salvação do homem Ele regozijou-se. Ele não se envergonhou na cruz, porque através dela Ele estava salvando o mundo. Não, não era um homem de baixa categoria que sofria, mas Deus encarnado.

Ele esticou suas mãos na cruz para que pudesse abraçar até o fim do mundo. Ele estendeu para frente mãos humanas, aquelas mãos espirituais que estabeleceram os céus, e elas foram presas com pregos. Sua humanidade trazia os pecados dos homens e foi pregada no madeiro a fim de que, uma vez morto, o pecado morresse com Ele, e para que nós pudéssemos nos levantar outra vez corretamente.

Certamente em tempos de tranquilidade a cruz deve lhe dar alegria. Mas mantenha a mesma fé em tempos de perseguição. De outra forma você se tornará um amigo de Jesus em tempos de paz e seu inimigo em tempos de guerra. Agora você recebeu o perdão de seus pecados e o generoso dom da graça de seu Rei. Quando a guerra vier, mantenha-se corajosamente com Ele. Jesus nunca pecou e entretanto, foi crucificado por você. Não é você quem dá presentes; você os recebeu antes. Por sua vida Ele foi crucificado no Gólgota. Agora você devolve o favor, você paga o débito que tem com Ele”.


São Cirilo de Jerusalém, Bispo
Das Catequeses

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA – Perto da cruz de Jesus estava sua mãe



SEXTA -FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

Is 52, 13-53, 12
Sl 30
Hb 4, 14-16; 5, 7-9
Jo 18, 1-19, 42


«Perto da cruz de Jesus estava sua mãe»

Nós não atingimos a plenitude do amor da Mãe de Deus e é por isso que também não podemos compreender plenamente a sua dor. O seu amor era perfeito. Ela amava imensamente o seu Deus e o seu filho, mas amava também os homens com um grande amor. Que teria ela sofrido quando os homens, que tanto amava e cuja salvação queria até ao fim dos tempos, crucificaram o seu filho bem-amado?

Não o podemos compreender, porque o nosso amor por Deus e pelos homens é demasiado fraco. Porque o amor da Mãe de Deus não tem medida e ultrapassa a nossa compreensão, tal como a sua dor é imensa e impenetrável para nós.


São Siluane de Athos, Monge
Dos Escritos Espirituais
Pe. Sofronio, o Sterets
“São Siluan, o Antonita”

PAPA JOÃO PAULO II – João Paulo II: movido pelo amor



PAPA JOÃO PAULO II

02-04-2005
02-04-2010


João Paulo II: movido pelo amor, recorda Bento XVI

O Papa polonês que se converteu em companheiro de viagem para o homem de hoje

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 29 de março de 2010 (ZENIT.org) - O que movia João Paulo II era o amor a Cristo, explicou Bento XVI na Missa presidida hoje por ocasião do 5º aniversário do seu falecimento.

Em um ambiente de grande recolhimento, na Basílica Vaticana, seu sucessor sintetizou a vida de Karol Wojtyla (1920-2005) como um caminho “de caridade, da capacidade de doar-se de forma generosa, sem reservas, sem medidas, sem cálculos”.

Roma reviveu a emoção do dia 2 de abril de 2005 – neste ano a data coincide com a Sexta-Feira Santa, motivo pelo qual a lembrança litúrgica foi antecipada –, quando a multidão acompanhou, sob a janela do Papa polonês, seu último alento.

Para esta ocasião, entre os purpurados que estavam ao redor do Altar da Confissão, encontrava-se seu fiel secretário durante 40 anos, o atual cardeal Stanislaw Dziwisz, Arcebispo de Cracóvia, assim como peregrinos dos 5 continentes, especialmente da Polônia, muitos dos quais fizeram fila durante o dia para visitar o túmulo nas grutas vaticanas.

Durante a homilia, em meio a um grande silêncio, o Papa explicou o segredo de João Paulo II: “O que o movia era o amor a Cristo, a quem havia consagrado sua vida, um amor sobreabundante e incondicional”.

“Foi precisamente porque se aproximou cada vez mais de Deus no amor que ele pôde tornar-se companheiro de viagem para o homem de hoje, derramando no mundo o perfume do Amor de Deus”, acrescentou.

Seu sucessor e íntimo colaborador recordou os últimos dias do seu sofrimento: “A progressiva fraqueza física, de fato, não corroeu jamais sua fé rochosa, sua luminosa esperança, sua fervente caridade”.

“Ele se deixou consumir por Cristo, pela Igreja, pelo mundo inteiro: seu sofrimento foi vivido até o final por amor e com amor”, sublinhou, acrescentando: “esse amor de Deus, que vence tudo”.

O Papa falou em italiano durante a homilia. O único momento em que utilizou a língua polonesa foi para assegurar aos seus compatriotas que “a vida e a obra de João Paulo II, grande polonês, pode ser um motivo de orgulho para vós”.

“Mas é preciso que recordeis que esta é também um grande convite a ser testemunhas fiéis da fé, da esperança e do amor, que ele nos ensinou ininterruptamente”, acrescentou na língua vernácula de Wojtyla.

Durante a oração dos fiéis, elevou-se em polonês esta súplica: “Pelo venerável Papa João Paulo II, que serviu a Igreja até o limite das suas forças, para que, do céu, interceda para infundir a esperança que se realiza plenamente participando da glória da ressurreição”.

Também se rezou em alemão por Bento XVI, “para que continue, seguindo os passos de Pedro, desempenhando o seu ministério com perseverante mansidão e firmeza, para confirmar os irmãos”.

Bento XVI aprovou, no dia 19 de dezembro de 2009, o decreto que reconhece as virtudes heróicas de Karol Wojtyla. O estudo do suposto milagre experimentado por uma religiosa francesa que padecia de Parkinson, atribuído à intercessão de João Paulo II, continua o processo estabelecido pela Congregação para as Causas dos Santos, segundo foi confirmado no mês passado.

Ainda que Bento XVI tenha permitido que não esperassem os 5 anos exigidos para começar a causa de beatificação de João Paulo II, o processo está sendo submetido a todas as exigências requeridas para qualquer outro caso, entre as quais se encontra o reconhecimento de uma cura inexplicável por parte de uma comissão médica, reconhecida depois como “milagre” por parte de uma comissão teológica, uma comissão de cardeais e bispos e do próprio Papa.


Papa Bento XVI
Missa do 5º aniversário do falecimento de João Paulo II

PAPA JOÃO PAULO II – Cinco anos sem João Paulo II



PAPA JOÃO PAULO II

02-04-2005
02-04-2010


Santo Padre João Paulo II,
Servo dos Servos de Deus!

A Igreja inteira hoje te recorda, saudosa e comovida.

Foste um radiante Farol para os Discípulos de Cristo e para o mundo inteiro, um Sinal vivo do amor a Cristo Jesus, o Filho eterno do Pai, Rosto visível de Deus.

Amaste apaixonadamente o teu Senhor; ensinaste-nos a abrir para Ele, par em par, as portas do nosso coração e de toda a nossa vida.

Reavivaste admiravelmente na Igreja a devoção Àquela a quem chamaste “Mãe do meu Mestre”.

Contigo, a Igreja tornou-se mais mariana, mais feminina, mais maternal.

Amaste apaixonadamente a Santa Igreja, Esposa do Cristo nosso Deus.

Defendeste sua Tradição apostólica, reafirmaste sem meias palavras a fé católica.

Corajosamente, pagaste o preço da crítica e das incompreensões.

Foste fidelíssimo!

Obrigado, Padre Santo!

Todos nós, hoje, que te recordamos comovidos, temos a nítida consciência de termos vivido nos dias de um dos maiores Papas da história.

Tu, no teu ministério, foste Magno, como São Leão I, como São Gregório I...


João Paulo Magno,
Modelo de vida cristã,
Zeloso Pastor da Igreja de Cristo
Orgulho da Mãe Católica
e, agora, nosso Intercessor no céu.


Servo de Deus, João Paulo II Magno,
Roga por nós!


Dom Henrique Soares da Costa
Bispo Titular de Acúfica e Auxiliar de Aracaju

quinta-feira, 1 de abril de 2010

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – A oração no Getsemani – Parte I



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


A ORAÇÃO NO GETSEMANI

PARTE I


1. Participação na oração de Cristo

Nesta meditação retomaremos um assunto que já foi abordado: a oração. Agora, porém, mais do que falar da oração desejaríamos, de acordo com as nossas possibilidades humanas e com a ajuda da graça, participar da oração do próprio Jesus Cristo.

Sabemos com que freqüência ele rezava sozinho, se afastava dos seus discípulos e se entretinha em colóquio com o Pai. Na maioria das vezes, fazia-o enquanto os outros repousavam: “E passou a noite inteira em oração a Deus” — pernoctans in oratione Dei (Lc 6,12), como lemos no Evangelho. Só houve um caso em que Jesus pediu claramente aos Apóstolos que participassem da sua oração, e foi exatamente no Getsemani, para onde o Mestre ¬havia ido junto com eles na noite da quinta-feira santa. Todos eles ainda conservavam diante dos olhos e no coração o que Jesus havia feito e dito na última ceia. E eis que, deixando os outros Apóstolos à entrada do Getsemani, ele tomou consigo três: Pedro, Tiago e João, os mesmos que tinha levado ao Tabor, e disse-lhes: “Ficai aqui e vigiai comigo”. E, afastando-se um pouco deles, prostrou-se por terra e orou (cf. Mt 26,38-39). No caso, tratou-se de um evidente convite para participar da sua oração.

Por que justamente naquele momento? Por que justamente daquela vez? Talvez porque já os havia introduzido em uma particular participação no seu mistério: tinha-lhes dado como alimento o pão dizendo: “Isto é o meu corpo que é dado por vós” (Lc 22,19), e como bebida o vinho dizendo: “Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado em favor de vós” (Lc 22,20), e, finalmente, recomendando: “Fazei isto em minha memória” (Lc 22,19). Deste modo, havia-os introduzido nas profundezas do seu mistério.

2. O grande conhecimento do homem

Jesus começa a sua oração. Afastando-se dos três, começa — como já o havia feito tantas vezes — o seu colóquio com o Pai. Desta vez, porém, o colóquio é decisivo: ele tem início nas profundezas da alma de Jesus e revela toda a verdade da sua humanidade, manifestando também a intensidade de sua angústia naquele momento concreto da vida do Filho do Homem; ao mesmo tempo, entretanto, ele se apresenta igualmente como uma síntese de todas as preocupações daquele que dizia a respeito de si mesmo: “Eu sou o bom pastor: o bom pastor dá sua vida por suas ovelhas” (Jo 10,11). Jesus entrega-se a esta oração com a incomensurável e universal ansiedade que experimenta diante de cada indivíduo e de todos os homens: “Conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem” (Jo 10,14). Esta oração reflete o grande conhecimento de Jesus a respeito do homem e da humanidade inteira, mergulhada na dramática cisão ocorrida depois do pecado original, dando lugar a um progressivo afastamento da Vontade do Pai, afastamento que, por sua vez, acarretará efeitos mais espantosos do que os da desobediência original.

Esta é a oração que revela o grande conhecimento sobre o homem, porque pronunciada por aquele de quem disse a Escritura: “Não necessitava de que o informassem sobre homem algum, porque conhecia o que havia no homem” (Jo 2,25).


3. “Meu Pai se é possível, que passe de mim este cálice”

Com que palavras pronunciou tal oração? Conhecemo-las muito bem: são palavras lapidares, mas, ao mesmo tempo, transbordantes do peso daquela hora, isto é, da hora em que o servo de Iahveh deve cumprir a profecia de Isaías, dizendo o seu “sim”. “Jesus Cristo... não foi sim e não, mas unicamente sim” (2Cor 1, 19).

As palavras de Cristo no Getsemani são simples, até mesmo aquelas mediante as quais se exprimem as verdades mais profundas e as decisões mais importantes. Jesus disse: “Meu Pai, se é possível, que passe de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26,39). Observemos que esse cálice, de agora em diante, não vai mais poder ser afastado dele, porque no cenáculo já havia sido transmitido à Igreja, já se havia tornado o “cálice da nova e eterna Aliança” e o cálice do sangue “que será derramado” (Mc 14,24 e paralelos). Apesar de tudo isto, Jesus diz: “Se é possível, que passe de mim...”.

Que significa: “Se é possível”? Não é esta a oração do Filho de Deus que, com toda a verdade da sua humanidade “sonda todas as coisas, até mesmo as profundidades de Deus” (1Cor 2,10) no Espírito Santo? Ele, participando da maneira mais completa do mistério da liberdade de Deus, sabe que não deve ser necessariamente assim; e, ao mesmo tempo, participando do Amor divino, sabe que não pode ser de maneira diferente. No fundo, ele viera ao Getsemani para receber o Julgamento, emitido desde muito, ou melhor, desde a eternidade (cf. Cl 2,14). Assim mesmo, veio: ajoelha-se e reza, como se o Julgamento, emitido desde toda a eternidade, tivesse de ser pronunciado ali e naquele momento. “Se é possível, que passe de mim este cálice...”.

A oração é sempre uma redução maravilhosa da eternidade à dimensão de um momento concreto, uma redução da Sabedoria eterna à dimensão do conhecimento humano, ao modo concreto de compreender e de sentir, uma redução do amor eterno à dimensão do coração humano concreto, que às vezes não é capaz de lhe acolher a riqueza e que parece despedaçar-se.

Durante a oração no Getsemani, o suor que apareceu sob a forma de gotas de sangue sobre a fronte de Jesus é sinal de um tormento agudíssimo por que passa o seu coração humano. “É ele que, nos dias de sua vida terrestre, apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamores e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte...” (Hb 5,7).


Karol Wojtyla
Sinal de contradição(Meditações), no.17 pp. 173-180

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – A oração no Getsemani – Parte II



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


A ORAÇÃO NO GETSEMANI

PARTE II

4. Encontro da vontade humana com a vontade de Deus

Esta oração é, no fundo, um encontro entre a vontade humana de Jesus Cristo e a vontade eterna de Deus, que nesse momento se manifesta como vontade do Pai em relação a seu Filho. O Filho fez-se homem justamente para que este encontro fosse cheio da verdade sobre a humana vontade e sobre o coração humano, que querem evitar o mal, o sofrimento, o julgamento, a flagelação, a coroa de espinhos, a cruz e a morte. Ele se fizera homem a fim de que, sobre a base dessa verdade, se revelasse toda a grandeza do Amor, que se exprime através do “dom de si mesmo” no sacrifício: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único” (Jo 3,16). Nesta hora, o Amor eterno deve ser comprovado pelo sacrifício do co¬ração humano. E fica realmente comprovado! O Filho não renuncia à possibilidade de dar o próprio coração para que se torne um altar, um lugar de aniquilamento completo, antes mesmo que a Cruz faça dele isto.

A vontade humana, a vontade do Homem, encontra-se com a vontade de Deus. A vontade humana fala por meio do coração e exprime a verdade humana: “Se é possível, que passe de mim...”. E, ao mesmo tempo, a vontade do homem se doa à vontade de Deus, como se ultrapassasse a verdade humana, e como se superasse o pedido do coração: é como se tomasse sobre si mesma não só o juízo eterno do Pai e do Filho na unidade do Espírito Santo, mas também o poder, que jorra de Deus, da vontade de Deus, do Deus que é amor (1Jo 4,8).

Em última análise, a oração é um encontro da vontade humana com a vontade de Deus, é um fruto particular da obediência do Filho ao Pai: “Seja feita a tua vontade”. E a obediência não significa apenas a renúncia à própria vontade, mas uma abertura de visão e de escuta espirituais para o Amor, que é o próprio Deus, Deus que amou tanto o mundo a ponto de sacrificar por causa dele o Filho unigênito (cf. Jo 3,16).

“Eis o Homem”. Jesus Cristo, Filho de Deus, de¬pois da oração no Getsemani, levanta-se mais forte para enfrentar aquela obediência através da qual reencontrou o Amor como dom do Pai ao mundo e a todos os homens. Levanta-se e volta aos seus discípulos dizendo: “Vamos! Eis que o meu traidor está chegando” (Mc 14,42).


5. O mistério da Redenção

É já a terceira vez que ele volta a procurar os seus, interrompendo a sua oração. E, como das outras vezes, também desta encontra-os dormindo. Ele já os havia admoestado: “Como assim? Não fostes capazes de vigiar comigo por uma hora! Vigiai e orai, para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 40-41). No entanto, tais palavras não conseguiram mantê-los acordados, Os três não sabiam corresponder ao convite de adesão à oração que Jesus lhes havia dirigido à entrada do Getsemani. As palavras que ele pronunciou por uma segunda e, depois, por uma terceira vez transformaram-se em uma repreensão, repreensão que se dirige a cada um dos discípulos de Cristo. De certo modo, toda a Igreja continua a ouvir as mesmas palavras: a reprovação feita por Cristo a Pedro, Tiago e João, ela a aceita como se fosse dirigida a si própria, e procura compensar o tempo perdido enquanto Jesus permaneceu sozinho no Getsemani. Os Apóstolos não souberam corresponder ao convite de participação na oração do Redentor e deixaram-no absolutamente sozinho. Deste modo, manifestou-se o sentido do mistério da Redenção, em que o Filho devia permanecer a sós com o Pai. Esta solidão cria uma dimensão bem específica do mistério divino, que é, ao mesmo tempo, a obra humana do Filho do Homem.

E a Igreja procura sempre a hora do Getsemani —a hora perdida por Pedro, Tiago e João — para reparar esta falta, para compensar esta solidão do Mestre, que aumentou o sofrimento de sua alma. É impossível reproduzir esta hora na sua identidade histórica: ela pertence ao passado e permanece para sempre na eternidade do próprio Deus. Mas o desejo de reencontrá-la tornou-se uma necessidade para muitos corações, especialmente para aqueles que vivem profundamente o mistério do Coração divino. O Senhor Jesus permite que nos encontremos com ele nessa hora que, no plano humano, já está passada de maneira irrevogável; como então, porém, ele nos convida para participar da oração do seu coração: “Cogitationes Cordis Eius in generationem et generationem, ut eruat a morte animas eorum et alat eos in fame” (Intróito da Missa do S. Coração de Jesus). E quando, “de geração em geração”, entramos nos desígnios do seu Co¬ração, deste jorra -- acima de toda fragilidade humana -- a unidade mística do Corpo de Cristo.

Oh, como se torna então cheio de significado aquele “Vigiai!” de Jesus: “Vigiai, para não cairdes em tentação!...”. Cristo transfere para nós essa hora da grande provação, que nunca deixou de ser ao mesmo tempo provação para os seus discípulos e para a sua Igreja.

“Eu sou a videira...”, diz o Senhor, e estas palavras estão bem de acordo com a situação do Getsemani. “Eu sou a videira e vós os ramos... Como o ramo não pode dar fruto, por si mesmo, se não permanece na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim...” (Jo 15, 5.4). “Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor. Todo ramo em mim que não produz fruto ele o corta, e todo o que produz fruto ele o poda, para que produza mais fruto ainda” (Jo 15,1-2).

A oração do Getsemani perdura ainda. Diante de qualquer provação do homem e de qualquer provação da Igreja, é sempre bom voltar ao Getsemani para pôr em prática a participação na oração de Cristo Senhor. Esta oração - segundo o critério e o raciocínio humanos - não foi atendida. No entanto, ao mesmo tempo, em virtude do princípio: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem o vosso proceder é como o meu” (Is 55,8), ela assinalou o início da grande conquista, o início da obra redentora por que tanto suspiram tanto o homem quanto o mundo, já que na Redenção se manifestou e se manifesta continuamente como e quanto Deus amou o homem e o mundo (cf. Jo 3,16).

E, sob este prisma, a oração do Getsemani foi atendida de uma vez por todas.


Karol Wojtyla
Sinal de contradição(Meditações), no.17 pp. 173-180

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – Oração na Quinta-Feira Santa - Com Jesus no Jardim da Agonia



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


«Com Jesus no Jardim da Agonia»

Abbá! Pai!
É noite.
Noite fechada.

Minha alma está prostrada na poeira.
Sinto invadir-me a tristeza e a angústia de morte...
Pai! Procuro teu rosto, procuro a luz da tua face...
E, no entanto, por companheiros só tenho as trevas!

Nas minhas trevas, Pai bendito,
Sei que estão as trevas do mundo:
Do pobre que não tem o que comer,
Do triste que já não encontra a alegria,
Do doente que se sente machucado pela vida,
Do solitário que não encontra quem o ame,
Do drogado que já não tem o gosto da vida,
Do escravizado pelas paixões que já não tem o gosto de ser livre,
Do que não crê e já não vê um sentido para a vida,
Do menino de rua que não tem a chance de uma infância inocente,
Do moribundo que se encontra às portas do momento decisivo da existência...

Pai! Abbá! Papai querido!
A morte me apavora, porque é morte pelo pecado do mundo!
Pecado danado, feio, medonho, pesado,
Que ata feito corrente,
Que aliena, que faz a pobre humanidade cega, louca, insensata,
Presa a tantas paixões e vítima de tantos desencontros...

Pai, eu vim para fazer tua vontade,
Eu sempre busquei somente a ti –
Tu foste sempre o meu Tudo, o meu Sentido, a minha Paixão!
Ó Pai querido, agora, nesta noite de agonia,
Escura pelo pecado do mundo –
É a hora das trevas que não acolheram a Luz! –
Agora, mais uma vez, mais que nunca,
Com infinita confiança, com incondicional abandono,
Com total doação de amor,
Eu, teu Filho, coloco minha vida nas tuas mãos benditas!

Pai, chegou a Hora!
Pai, glorifica o teu Nome!
Pai, seja feita a tua vontade!


Dom Henrique Soares da Costa
Bispo Titular de Acúfica e Auxiliar de Aracaju

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – Podemos fazer algo pelo Jesus que agoniza hoje



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


«Podemos fazer algo pelo Jesus que agoniza hoje»


Em agonia até o fim do mundo

De Jesus no horto das oliveiras, está escrito: «Começou a sentir tristeza e angústia. Disse-lhes: ‘Minha alma está triste até o ponto de morrer; fiquem aqui e velem comigo’». Um Jesus irreconhecível! Ele, que dava ordens aos ventos e aos mares e estes o obedeciam, que dizia a todos que não tivessem medo, agora é vítima da tristeza e da angústia. Qual é a causa? Ela está toda contida em uma palavra, o cálice. «Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice!». O cálice indica toda a sorte de sofrimento que está a ponto de cair sobre Ele. Mas não só isso. Indica sobretudo a medida da justiça divina que os homens culminaram com seus pecados e transgressões. É «o pecado do mundo» que Ele tomou sobre si e que pesa sobre seu coração como uma pedra.

O filósofo Pascal disse: «Cristo está em agonia, no horto das oliveiras, até o fim do mundo. Não se pode deixá-lo só todo este tempo». Agoniza lá onde haja um ser humano que luta com a tristeza, o pavor, a angústia, em uma situação sem saída como Ele aquele dia. Não podemos fazer nada pelo Jesus agonizante de então, mas podemos fazer algo pelo Jesus que agoniza hoje. Ouvimos diariamente tragédias que se consomem, às vezes em nossa própria vizinhança, na porta da frente, sem que ninguém perceba nada.

Quantos hortos das oliveiras, quantos Getsêmanis no coração de nossas cidades! Não deixemos sozinhos os que estão dentro.

Translademo-nos agora ao Calvário. «Clamou Jesus com forte voz: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’. Dando um forte grito, expirou». Estou a ponto de dizer agora quase uma blasfêmia, mas me explicarei logo depois. Jesus na cruz passou a ser ateu, o «sem Deus». Há duas formas de ateísmo. O ateísmo ativo, ou voluntário, de quem rejeita Deus, e o ateísmo passivo, ou padecido, de quem é rejeitado (ou sesente rejeitado) por Deus. Em um e em outro existem os «sem Deus». O primeiro é um ateísmo de culpa, o segundo um ateísmo de pena e de expiação. A esta última pertence o «ateísmo» da Madre Teresa de Calcutá, de quem tanto se falou por ocasião da publicação de seus escritos pessoais.

Na cruz, Jesus expiou antecipadamente todo o ateísmo que existe no mundo; não só o dos ateus declarados, mas também o dos ateus práticos, aqueles que vivem «como se Deus não existisse», relegando-o ao último lugar na própria vida. «Nosso» ateísmo, porque, neste sentido, todos somos – uns mais, outros menos – ateus, «indiferentes» diante de Deus. Deus é também hoje um «marginalizado», marginalizado da vida da maioria dos homens.

Igualmente aqui se deve dizer: «Jesus está na cruz até o fim do mundo». Ele está em todos os inocentes que sofrem. Está pregado na cruz dos enfermos graves. Os pregos que ainda o atam à cruz são as injustiças que se cometem com os pobres. Em um campo de concentração nazista, enforcaram um homem. Alguém, assinalando a vítima, perguntou a um crente que tinha ao lado: «Onde está o teu Deus agora?». «Não o vês? – respondeu-lhe. Está aí, na forca».

Em todas as «deposições da cruz», sobressai a figura de José de Arimatéia. Representam todos os que também hoje desafiam o regime ou a opinião pública para aproximar-se dos condenados, dos excluídos, dos portadores do HIV, e se empenham em ajudar algum deles a descer da cruz. Para algum destes «crucificados» de hoje, o «José de Arimatéia» designado e esperado bem poderá ser eu, ou poderá ser você.


Frei Raniero Cantalamessa
Cantalamessa.org

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – Sacrifício da Paixão, Sacrifício da Missa



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


«Sacrifício da Paixão, Sacrifício da Missa»

Recordamos hoje piedosamente a véspera da Paixão do Senhor. Recordamos o dia sagrado em que ele quis tomar uma refeição com seus discípulos e, em sua bondade, aceitou padecer tudo o que fora escrito e predito em relação a seus sofrimentos e sua morte, a fim de nos libertar. Devemos, pois, celebrar dignamente tão grandes mistérios de modo que, por nossa participação voluntária a sua Paixão, mereçamos ter parte em sua ressurreição.

Com efeito, todos os ritos sagrados do Antigo Testamento atingiram sua plena realização em Cristo, quando entregou a seus discípulos o pão que é seu corpo e o vinho que é seu sangue. Assim fez para que eles os oferecessem nos mistérios sagrados, quando os deu em alimento a todos os fiéis para o perdão de suas faltas.

Essa Paixão, ele sofreu em seu corpo, por nosso amor, para nos livrar da morte eterna e nos preparar o caminho do reino celeste. Mostrou-nos assim que queria sofrê-la cotidianamente todas as vezes que celebrássemos esse mesmo mistério do sacrifício do santo altar, a fim de nos conduzir junto com ele para a vida eterna.

Eis porque ele diz a seus discípulos: Tomai, isto é o meu corpo, e este é o cálice do meu sangue, que será derramado para muitos, em remissão dos pecados (cf. Mt 26, 26-28). Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, fazei-o em memória de mim (1Cor 11, 24.26).

Por conseguinte, Cristo está presente sobre a mesa; Cristo foi condenado à morte e sacrificado; Cristo é recebido em seu corpo e em seu sangue. Ele que, neste dia, deu o pão e o cálice aos discípulos, consagre-os também hoje. Não, na verdade, não é um homem que pode consagrar o corpo e o sangue de Cristo postos à mesa, mas o próprio Cristo, que foi crucificado por nós. As palavras são pronunciadas pela boca do sacerdote; o corpo e o sangue são consagrados pelo poder e a graça de Deus.

Guardemos puros em todas as coisas nosso espírito e nosso pensamento, pois temos um sacrifício puro e santo. Por esse motivo devemos igualmente nos dedicar a santificar nossas almas. Então, celebraremos com simplicidade os mistérios, prestando atenção a essas recomendações, e nos aproximaremos da mesa de Cristo com as disposições convenientes, tomando parte eternamente na vida de Cristo, ele que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.


Santo Agostinho
Sermo Mai 143, 1-3
Patrologiæ Latinæ Supplementum 2, 1238-1239

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – Sabendo que a sua hora tinha chegado, Jesus amou-os até ao fim



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


«Sabendo que a sua hora tinha chegado, Jesus amou-os até ao fim»

Sede obedientes até à morte, a exemplo do Cordeiro sem mancha que obedeceu a seu Pai até à morte vergonhosa da cruz. Pensem que Ele é o caminho e a regra que deveis seguir. Tende-o sempre presente diante dos olhos do vosso espírito. Vede como Ele é obediente, este Verbo, a Palavra de Deus! Ele não recusa transportar o fardo das dores de que seu Pai o encarregou; pelo contrário, Ele lança-se, animado de um grande desejo.

Não é isso que Ele manifesta na Ceia de quinta-feira santa quando diz: "Tenho ardentemente desejado comer convosco esta Páscoa, antes de padecer" (Lc 22,15)? Por "comer a Páscoa", Ele entende o cumprimento da vontade do Pai e do seu desejo. Não vendo quase mais nenhum tempo à sua frente (Ele via-se já no fim, quando devia sacrificar o seu corpo por nós), Ele exulta, rejubila e diz com alegria: " Desejei ardentemente". Aqui está a Páscoa de que Ele falava, aquela que consistia em se dar a si próprio em alimento, a imolar o seu próprio corpo para obedecer ao Pai.

Jesus tinha celebrado muitas outras Páscoas com os discípulos, mas nunca esta, ó Indizível, Doce e Ardente Caridade! Tu não pensas nem nas tuas dores nem na tua morte ignominiosa; se tivesses pensado nisso, não terias sido tão feliz, não lhe terias chamado uma Páscoa. O Verbo viu que foi Ele próprio que foi escolhido, Ele próprio que recebeu por esposa a nossa humanidade. Pediram-lhe que nos desse o seu próprio sangue a fim de que a vontade do Pai se cumprisse em nós, a fim de que seja o seu sangue que nos santifica. Vede bem a doce Páscoa que aceita este Cordeiro sem mancha (Ex 12, 5), e é com um grande amor e um grande desejo que ele cumpre a vontade do Pai e que observa inteiramente o seu desejo. Que doce Amor indizível!...

É por isso, meus bem-amados, que vos peço que nunca tenham medo de nada e que coloquem toda a vossa confiança no sangue de Cristo crucificado. Que qualquer temor servil seja banido do vosso espírito. Direis com S. Paulo: Por Cristo crucificado, tudo posso, pois Ele está em mim por desejo e por amor, e fortalece-me (Fil 4,13; Gal 2,20). Amai, amai, amai! Pelo seu sangue, o doce Cordeiro fez da vossa alma um rochedo inabalável.


Santa Catarina de Sena
Carta 129