quinta-feira, 1 de abril de 2010

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – A oração no Getsemani – Parte II



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


A ORAÇÃO NO GETSEMANI

PARTE II

4. Encontro da vontade humana com a vontade de Deus

Esta oração é, no fundo, um encontro entre a vontade humana de Jesus Cristo e a vontade eterna de Deus, que nesse momento se manifesta como vontade do Pai em relação a seu Filho. O Filho fez-se homem justamente para que este encontro fosse cheio da verdade sobre a humana vontade e sobre o coração humano, que querem evitar o mal, o sofrimento, o julgamento, a flagelação, a coroa de espinhos, a cruz e a morte. Ele se fizera homem a fim de que, sobre a base dessa verdade, se revelasse toda a grandeza do Amor, que se exprime através do “dom de si mesmo” no sacrifício: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único” (Jo 3,16). Nesta hora, o Amor eterno deve ser comprovado pelo sacrifício do co¬ração humano. E fica realmente comprovado! O Filho não renuncia à possibilidade de dar o próprio coração para que se torne um altar, um lugar de aniquilamento completo, antes mesmo que a Cruz faça dele isto.

A vontade humana, a vontade do Homem, encontra-se com a vontade de Deus. A vontade humana fala por meio do coração e exprime a verdade humana: “Se é possível, que passe de mim...”. E, ao mesmo tempo, a vontade do homem se doa à vontade de Deus, como se ultrapassasse a verdade humana, e como se superasse o pedido do coração: é como se tomasse sobre si mesma não só o juízo eterno do Pai e do Filho na unidade do Espírito Santo, mas também o poder, que jorra de Deus, da vontade de Deus, do Deus que é amor (1Jo 4,8).

Em última análise, a oração é um encontro da vontade humana com a vontade de Deus, é um fruto particular da obediência do Filho ao Pai: “Seja feita a tua vontade”. E a obediência não significa apenas a renúncia à própria vontade, mas uma abertura de visão e de escuta espirituais para o Amor, que é o próprio Deus, Deus que amou tanto o mundo a ponto de sacrificar por causa dele o Filho unigênito (cf. Jo 3,16).

“Eis o Homem”. Jesus Cristo, Filho de Deus, de¬pois da oração no Getsemani, levanta-se mais forte para enfrentar aquela obediência através da qual reencontrou o Amor como dom do Pai ao mundo e a todos os homens. Levanta-se e volta aos seus discípulos dizendo: “Vamos! Eis que o meu traidor está chegando” (Mc 14,42).


5. O mistério da Redenção

É já a terceira vez que ele volta a procurar os seus, interrompendo a sua oração. E, como das outras vezes, também desta encontra-os dormindo. Ele já os havia admoestado: “Como assim? Não fostes capazes de vigiar comigo por uma hora! Vigiai e orai, para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 40-41). No entanto, tais palavras não conseguiram mantê-los acordados, Os três não sabiam corresponder ao convite de adesão à oração que Jesus lhes havia dirigido à entrada do Getsemani. As palavras que ele pronunciou por uma segunda e, depois, por uma terceira vez transformaram-se em uma repreensão, repreensão que se dirige a cada um dos discípulos de Cristo. De certo modo, toda a Igreja continua a ouvir as mesmas palavras: a reprovação feita por Cristo a Pedro, Tiago e João, ela a aceita como se fosse dirigida a si própria, e procura compensar o tempo perdido enquanto Jesus permaneceu sozinho no Getsemani. Os Apóstolos não souberam corresponder ao convite de participação na oração do Redentor e deixaram-no absolutamente sozinho. Deste modo, manifestou-se o sentido do mistério da Redenção, em que o Filho devia permanecer a sós com o Pai. Esta solidão cria uma dimensão bem específica do mistério divino, que é, ao mesmo tempo, a obra humana do Filho do Homem.

E a Igreja procura sempre a hora do Getsemani —a hora perdida por Pedro, Tiago e João — para reparar esta falta, para compensar esta solidão do Mestre, que aumentou o sofrimento de sua alma. É impossível reproduzir esta hora na sua identidade histórica: ela pertence ao passado e permanece para sempre na eternidade do próprio Deus. Mas o desejo de reencontrá-la tornou-se uma necessidade para muitos corações, especialmente para aqueles que vivem profundamente o mistério do Coração divino. O Senhor Jesus permite que nos encontremos com ele nessa hora que, no plano humano, já está passada de maneira irrevogável; como então, porém, ele nos convida para participar da oração do seu coração: “Cogitationes Cordis Eius in generationem et generationem, ut eruat a morte animas eorum et alat eos in fame” (Intróito da Missa do S. Coração de Jesus). E quando, “de geração em geração”, entramos nos desígnios do seu Co¬ração, deste jorra -- acima de toda fragilidade humana -- a unidade mística do Corpo de Cristo.

Oh, como se torna então cheio de significado aquele “Vigiai!” de Jesus: “Vigiai, para não cairdes em tentação!...”. Cristo transfere para nós essa hora da grande provação, que nunca deixou de ser ao mesmo tempo provação para os seus discípulos e para a sua Igreja.

“Eu sou a videira...”, diz o Senhor, e estas palavras estão bem de acordo com a situação do Getsemani. “Eu sou a videira e vós os ramos... Como o ramo não pode dar fruto, por si mesmo, se não permanece na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim...” (Jo 15, 5.4). “Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor. Todo ramo em mim que não produz fruto ele o corta, e todo o que produz fruto ele o poda, para que produza mais fruto ainda” (Jo 15,1-2).

A oração do Getsemani perdura ainda. Diante de qualquer provação do homem e de qualquer provação da Igreja, é sempre bom voltar ao Getsemani para pôr em prática a participação na oração de Cristo Senhor. Esta oração - segundo o critério e o raciocínio humanos - não foi atendida. No entanto, ao mesmo tempo, em virtude do princípio: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem o vosso proceder é como o meu” (Is 55,8), ela assinalou o início da grande conquista, o início da obra redentora por que tanto suspiram tanto o homem quanto o mundo, já que na Redenção se manifestou e se manifesta continuamente como e quanto Deus amou o homem e o mundo (cf. Jo 3,16).

E, sob este prisma, a oração do Getsemani foi atendida de uma vez por todas.


Karol Wojtyla
Sinal de contradição(Meditações), no.17 pp. 173-180

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – Oração na Quinta-Feira Santa - Com Jesus no Jardim da Agonia



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


«Com Jesus no Jardim da Agonia»

Abbá! Pai!
É noite.
Noite fechada.

Minha alma está prostrada na poeira.
Sinto invadir-me a tristeza e a angústia de morte...
Pai! Procuro teu rosto, procuro a luz da tua face...
E, no entanto, por companheiros só tenho as trevas!

Nas minhas trevas, Pai bendito,
Sei que estão as trevas do mundo:
Do pobre que não tem o que comer,
Do triste que já não encontra a alegria,
Do doente que se sente machucado pela vida,
Do solitário que não encontra quem o ame,
Do drogado que já não tem o gosto da vida,
Do escravizado pelas paixões que já não tem o gosto de ser livre,
Do que não crê e já não vê um sentido para a vida,
Do menino de rua que não tem a chance de uma infância inocente,
Do moribundo que se encontra às portas do momento decisivo da existência...

Pai! Abbá! Papai querido!
A morte me apavora, porque é morte pelo pecado do mundo!
Pecado danado, feio, medonho, pesado,
Que ata feito corrente,
Que aliena, que faz a pobre humanidade cega, louca, insensata,
Presa a tantas paixões e vítima de tantos desencontros...

Pai, eu vim para fazer tua vontade,
Eu sempre busquei somente a ti –
Tu foste sempre o meu Tudo, o meu Sentido, a minha Paixão!
Ó Pai querido, agora, nesta noite de agonia,
Escura pelo pecado do mundo –
É a hora das trevas que não acolheram a Luz! –
Agora, mais uma vez, mais que nunca,
Com infinita confiança, com incondicional abandono,
Com total doação de amor,
Eu, teu Filho, coloco minha vida nas tuas mãos benditas!

Pai, chegou a Hora!
Pai, glorifica o teu Nome!
Pai, seja feita a tua vontade!


Dom Henrique Soares da Costa
Bispo Titular de Acúfica e Auxiliar de Aracaju

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – Podemos fazer algo pelo Jesus que agoniza hoje



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


«Podemos fazer algo pelo Jesus que agoniza hoje»


Em agonia até o fim do mundo

De Jesus no horto das oliveiras, está escrito: «Começou a sentir tristeza e angústia. Disse-lhes: ‘Minha alma está triste até o ponto de morrer; fiquem aqui e velem comigo’». Um Jesus irreconhecível! Ele, que dava ordens aos ventos e aos mares e estes o obedeciam, que dizia a todos que não tivessem medo, agora é vítima da tristeza e da angústia. Qual é a causa? Ela está toda contida em uma palavra, o cálice. «Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice!». O cálice indica toda a sorte de sofrimento que está a ponto de cair sobre Ele. Mas não só isso. Indica sobretudo a medida da justiça divina que os homens culminaram com seus pecados e transgressões. É «o pecado do mundo» que Ele tomou sobre si e que pesa sobre seu coração como uma pedra.

O filósofo Pascal disse: «Cristo está em agonia, no horto das oliveiras, até o fim do mundo. Não se pode deixá-lo só todo este tempo». Agoniza lá onde haja um ser humano que luta com a tristeza, o pavor, a angústia, em uma situação sem saída como Ele aquele dia. Não podemos fazer nada pelo Jesus agonizante de então, mas podemos fazer algo pelo Jesus que agoniza hoje. Ouvimos diariamente tragédias que se consomem, às vezes em nossa própria vizinhança, na porta da frente, sem que ninguém perceba nada.

Quantos hortos das oliveiras, quantos Getsêmanis no coração de nossas cidades! Não deixemos sozinhos os que estão dentro.

Translademo-nos agora ao Calvário. «Clamou Jesus com forte voz: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’. Dando um forte grito, expirou». Estou a ponto de dizer agora quase uma blasfêmia, mas me explicarei logo depois. Jesus na cruz passou a ser ateu, o «sem Deus». Há duas formas de ateísmo. O ateísmo ativo, ou voluntário, de quem rejeita Deus, e o ateísmo passivo, ou padecido, de quem é rejeitado (ou sesente rejeitado) por Deus. Em um e em outro existem os «sem Deus». O primeiro é um ateísmo de culpa, o segundo um ateísmo de pena e de expiação. A esta última pertence o «ateísmo» da Madre Teresa de Calcutá, de quem tanto se falou por ocasião da publicação de seus escritos pessoais.

Na cruz, Jesus expiou antecipadamente todo o ateísmo que existe no mundo; não só o dos ateus declarados, mas também o dos ateus práticos, aqueles que vivem «como se Deus não existisse», relegando-o ao último lugar na própria vida. «Nosso» ateísmo, porque, neste sentido, todos somos – uns mais, outros menos – ateus, «indiferentes» diante de Deus. Deus é também hoje um «marginalizado», marginalizado da vida da maioria dos homens.

Igualmente aqui se deve dizer: «Jesus está na cruz até o fim do mundo». Ele está em todos os inocentes que sofrem. Está pregado na cruz dos enfermos graves. Os pregos que ainda o atam à cruz são as injustiças que se cometem com os pobres. Em um campo de concentração nazista, enforcaram um homem. Alguém, assinalando a vítima, perguntou a um crente que tinha ao lado: «Onde está o teu Deus agora?». «Não o vês? – respondeu-lhe. Está aí, na forca».

Em todas as «deposições da cruz», sobressai a figura de José de Arimatéia. Representam todos os que também hoje desafiam o regime ou a opinião pública para aproximar-se dos condenados, dos excluídos, dos portadores do HIV, e se empenham em ajudar algum deles a descer da cruz. Para algum destes «crucificados» de hoje, o «José de Arimatéia» designado e esperado bem poderá ser eu, ou poderá ser você.


Frei Raniero Cantalamessa
Cantalamessa.org

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – Sacrifício da Paixão, Sacrifício da Missa



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


«Sacrifício da Paixão, Sacrifício da Missa»

Recordamos hoje piedosamente a véspera da Paixão do Senhor. Recordamos o dia sagrado em que ele quis tomar uma refeição com seus discípulos e, em sua bondade, aceitou padecer tudo o que fora escrito e predito em relação a seus sofrimentos e sua morte, a fim de nos libertar. Devemos, pois, celebrar dignamente tão grandes mistérios de modo que, por nossa participação voluntária a sua Paixão, mereçamos ter parte em sua ressurreição.

Com efeito, todos os ritos sagrados do Antigo Testamento atingiram sua plena realização em Cristo, quando entregou a seus discípulos o pão que é seu corpo e o vinho que é seu sangue. Assim fez para que eles os oferecessem nos mistérios sagrados, quando os deu em alimento a todos os fiéis para o perdão de suas faltas.

Essa Paixão, ele sofreu em seu corpo, por nosso amor, para nos livrar da morte eterna e nos preparar o caminho do reino celeste. Mostrou-nos assim que queria sofrê-la cotidianamente todas as vezes que celebrássemos esse mesmo mistério do sacrifício do santo altar, a fim de nos conduzir junto com ele para a vida eterna.

Eis porque ele diz a seus discípulos: Tomai, isto é o meu corpo, e este é o cálice do meu sangue, que será derramado para muitos, em remissão dos pecados (cf. Mt 26, 26-28). Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, fazei-o em memória de mim (1Cor 11, 24.26).

Por conseguinte, Cristo está presente sobre a mesa; Cristo foi condenado à morte e sacrificado; Cristo é recebido em seu corpo e em seu sangue. Ele que, neste dia, deu o pão e o cálice aos discípulos, consagre-os também hoje. Não, na verdade, não é um homem que pode consagrar o corpo e o sangue de Cristo postos à mesa, mas o próprio Cristo, que foi crucificado por nós. As palavras são pronunciadas pela boca do sacerdote; o corpo e o sangue são consagrados pelo poder e a graça de Deus.

Guardemos puros em todas as coisas nosso espírito e nosso pensamento, pois temos um sacrifício puro e santo. Por esse motivo devemos igualmente nos dedicar a santificar nossas almas. Então, celebraremos com simplicidade os mistérios, prestando atenção a essas recomendações, e nos aproximaremos da mesa de Cristo com as disposições convenientes, tomando parte eternamente na vida de Cristo, ele que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.


Santo Agostinho
Sermo Mai 143, 1-3
Patrologiæ Latinæ Supplementum 2, 1238-1239

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – Sabendo que a sua hora tinha chegado, Jesus amou-os até ao fim



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


«Sabendo que a sua hora tinha chegado, Jesus amou-os até ao fim»

Sede obedientes até à morte, a exemplo do Cordeiro sem mancha que obedeceu a seu Pai até à morte vergonhosa da cruz. Pensem que Ele é o caminho e a regra que deveis seguir. Tende-o sempre presente diante dos olhos do vosso espírito. Vede como Ele é obediente, este Verbo, a Palavra de Deus! Ele não recusa transportar o fardo das dores de que seu Pai o encarregou; pelo contrário, Ele lança-se, animado de um grande desejo.

Não é isso que Ele manifesta na Ceia de quinta-feira santa quando diz: "Tenho ardentemente desejado comer convosco esta Páscoa, antes de padecer" (Lc 22,15)? Por "comer a Páscoa", Ele entende o cumprimento da vontade do Pai e do seu desejo. Não vendo quase mais nenhum tempo à sua frente (Ele via-se já no fim, quando devia sacrificar o seu corpo por nós), Ele exulta, rejubila e diz com alegria: " Desejei ardentemente". Aqui está a Páscoa de que Ele falava, aquela que consistia em se dar a si próprio em alimento, a imolar o seu próprio corpo para obedecer ao Pai.

Jesus tinha celebrado muitas outras Páscoas com os discípulos, mas nunca esta, ó Indizível, Doce e Ardente Caridade! Tu não pensas nem nas tuas dores nem na tua morte ignominiosa; se tivesses pensado nisso, não terias sido tão feliz, não lhe terias chamado uma Páscoa. O Verbo viu que foi Ele próprio que foi escolhido, Ele próprio que recebeu por esposa a nossa humanidade. Pediram-lhe que nos desse o seu próprio sangue a fim de que a vontade do Pai se cumprisse em nós, a fim de que seja o seu sangue que nos santifica. Vede bem a doce Páscoa que aceita este Cordeiro sem mancha (Ex 12, 5), e é com um grande amor e um grande desejo que ele cumpre a vontade do Pai e que observa inteiramente o seu desejo. Que doce Amor indizível!...

É por isso, meus bem-amados, que vos peço que nunca tenham medo de nada e que coloquem toda a vossa confiança no sangue de Cristo crucificado. Que qualquer temor servil seja banido do vosso espírito. Direis com S. Paulo: Por Cristo crucificado, tudo posso, pois Ele está em mim por desejo e por amor, e fortalece-me (Fil 4,13; Gal 2,20). Amai, amai, amai! Pelo seu sangue, o doce Cordeiro fez da vossa alma um rochedo inabalável.


Santa Catarina de Sena
Carta 129

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – Se Eu não te lavar, não terás parte Comigo



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


“Se Eu não te lavar, não terás parte Comigo”

“Sabendo Jesus que o Pai depositara nas Suas mãos todas as coisas e que havia saído de Deus e ia para Deus, levantou-Se da mesa.” O que não estivera outrora nas mãos de Jesus é colocado pelo Pai nas Suas mãos: não certas coisas, à excepção de outras, mas todas as coisas. David tinha dito: “Palavra do Senhor ao meu Senhor: ‘Senta-te à minha direita enquanto ponho os teus inimigos por escabelo dos teus pés’.” (Sl 109, 1). Com efeito, os inimigos de Jesus faziam parte deste tudo que Ele sabia que o Pai Lhe dava. Por causa daqueles que se tinham afastado de Deus, Ele afastou-Se de Deus, Ele que, por natureza, não quer sair do Pai. Ele saiu de Deus a fim de que tudo quanto se afastou de Deus regresse com Ele às Suas mãos, para junto de Deus, segundo o Seu desígnio eterno.

O que fazia, pois, Jesus, lavando os pés dos discípulos? Lavando-lhos e enxugando-lhos com a toalha que tinha posto à cintura, Jesus embelezava-lhes os pés para o momento em que eles teriam de anunciar a boa nova. Foi então que se cumpriu, segundo me parece, a palavra profética: “Que formosos são os pés do mensageiro que traz a boa nova!” (Is 52, 7; Rom 10, 15). Mas se, ao lavar os pés aos discípulos, Jesus os embeleza, como exprimir a verdadeira beleza daqueles que Ele mergulha por completo no “fogo do Espírito Santo” (Mt 3, 11)? Os pés dos apóstolos tornaram-se belos a fim de que eles pudessem avançar pela via santa, caminhando naquele que disse “Eu sou o Caminho” (Jo, 14, 6). Porque só aquele a quem Jesus lavou os pés segue este caminho vivo que conduz ao Pai; caminho onde não há lugar para pés manchados. Para seguir este caminho vivo e espiritual (Heb 10, 20), há que ter os pés lavados por Jesus, que Se despiu das Suas vestes a fim de tomar no Seu próprio corpo a impureza dos seus pés, com essa toalha que era a Sua única veste, pois “ele tomou sobre si as nossas doenças” (Is 53, 4).

Jesus, vinde, tenho os pés imundos. Fazei-vos servo meu. Derramai água na bacia; vinde, lavai-me os pés. Bem o sei, temerário é o que vos digo, mas temo a ameaça de vossas palavras: “Se não te lavar os pés, não terás parte comigo”. Lavai-me, portanto, os pés para que tenha parte convosco. Mas, que digo, lavai-me os pés? Pôde dizê-lo Pedro que necessitava de lavar só os pés, porque estava todo limpo. Eu, ao contrário, uma vez lavado, preciso daquele batismo do qual Vós, ó Senhor, dizeis: “Quanto a mim, com outro batismo devo ser batizado”.


Orígenes, Sacerdote e Teólogo
Comentário sobre São João, § 32, 25-35.77-83
Das orações dos primeiros cristãos, 63

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – Oh, meu Senhor, por que preço resgataste o meu serviço inútil!



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


"Oh, meu Senhor, por que preço resgataste o meu serviço inútil"

"Tende em vós os mesmos sentimentos da Jesus Cristo". "Ele, que é de condição divina", igual a Deus por natureza uma vez que partilha do Seu poder, a Sua eternidade e o Seu próprio ser, cumpriu o ofício de servo "humilhando-se e fazendo-se obediente ao Pai até à morte, e morte de cruz" (Fl 2,5-8). Poder-se-ia considerar de somenos que, sendo Seu Filho e Seu igual, Ele tenha servido o Pai como um servo; melhor, serviu o Seu próprio servo mais do que qualquer outro servo. Porque o homem tinha sido criado para servir o seu criador; que haverá de mais justo para ti do que servir Aquele que te criou, sem o qual tu nem existirias? E que haverá de mais feliz do que servi-lo, uma vez que servi-lo é reinar? Mas o homem disse ao seu Criador: "Não servirei" (Jr 2,20).

"Pois bem, servir-te-ei eu!" diz o Criador ao homem. "Senta-te à mesa; farei eu o serviço; lavar-te-ei os pés. Descansa; tomarei os teus males sobre os meus ombros; carregarei todas as tuas fraquezas. Se estiveres fatigado ou carregado, levar-te-ei, a ti a à tua carga, a fim de ser o primeiro a cumprir a minha lei: 'Levai os fardos uns dos outros' (Gal 6,2). Se tiveres fome ou sede, eis-me pronto a ser imolado para que possas comer a minha carne e beber o meu sangue. Se te levarem para o cativeiro ou te venderem, eis-me aqui; resgato-te dando o preço que conseguires com a minha venda; dou-me a mim mesmo como preço. Se estiveres doente, se receares a morte, morrerei em vez de ti para que, do meu sangue, faças remédio para a vida".

Oh, meu Senhor, por que preço resgataste o meu serviço inútil! Com que arte plena de amor, de doçura e de benevolência recuperaste e submeteste este servo rebelde, triunfando do mal pelo bem, confundindo o meu orgulho com a Tua humildade, cumulando o ingrato com os Teus benefícios! Eis aí o triunfo da Tua sabedoria!


Beato Guerric d'Igny, Abade Cisterciense
1º Sermão para os Ramos

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – Maria colaborou para obter a graça da salvação de toda a humanidade



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


«Maria colaborou para obter a graça da salvação de toda a humanidade»

Aplicado a Maria, o termo "cooperadora" assume um significado específico. A colaboração dos cristãos na salvação atua-se depois do evento do Calvário, cujos frutos eles se empenham em difundir mediante a oração e o sacrifício. O concurso de Maria, ao contrário, atuou-se durante o evento o próprio evento do Calvário e a título de Mãe; estende-se, portanto, à totalidade da obra salvífica de Cristo.

Somente Ela esteve associada deste modo à oferta redentora, que mereceu a salvação de todos os homens. Em união com Cristo e submetida a Ele, Maria colaborou para obter a graça da salvação de toda a humanidade.


Papa João Paulo II
Audiência Geral de 09 de abril de 1997

TRÍDUO PASCAL - QUINTA-FEIRA SANTA – As Horas da Paixão de Nosso Senhor



QUINTA-FEIRA SANTA

Ex 12,1-8.11-14
Sl 115
1Cor 11,23-26
Jo 13,1-15


O que são as Horas da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo?

Com a idade de 17 anos, a Serva de Deus Luísa Picarretta fez uma novena de preparação para o Natal com nove horas de meditação, e depois de a ter terminado, Nosso Senhor convidou-a a meditar de forma contínua as últimas 24 horas da Sua Paixão, a partir do momento em que Ele se despediu da Sua Mãe (antes de instituir a Eucaristia), até ao momento em que foi sepultado.

Em cada Hora da Sua Paixão, o próprio Nosso Senhor, nos convida a fazer-Lhe companhia e a consolá-lo com o nosso amor, pois pouco a pouco, à medida que vamos penetrando em cada cena, palavra, verdade, sofrimento iremos compreendendo como foi grande o Amor do nosso Deus e, por isso mesmo, ser-nos-á impossível não O amar como merece ser amado. Aprenderemos a descobrir e a conhecer não só a Paixão externa, que Jesus viveu, mas também todos aqueles sofrimentos íntimos e escondidos aos olhos de todas as criaturas ou seja a Sua Paixão interior.

Portanto, meditar uma Hora da Paixão significa unirmo-nos a Jesus, para fazer o mesmo que Ele fazia, em cada momento da Sua Paixão, como por exemplo: as orações e reparações que Ele fazia ao Seu Pai, no Seu interior, quando era flagelado, coroado de espinhos, crucificado, etc, e para isso, servimo-nos deste livro: “As Horas da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo”. A fim de que, cada vez que lermos, meditarmos, penetrarmos ou aprofundarmos cada Hora da Sua Paixão, procuremos fazer nossas as Suas orações, intenções, reparações, para podermos, juntamente, com Ele elevá-las ao Pai pela salvação e bem de toda a Humanidade.

Depois de viver de forma contínua estas Horas da Paixão, por mais de trinta anos, o Padre Aníbal Maria di Francia, tendo sido nomeado pela autoridade competente Revisor Eclesiástico para os escritos da Serva de Deus Luísa Piccarreta, impôs-lhe, em virtude da Santa Obediência, que escrevesse estas meditações, as quais deram origem a este Livro do Céu. Vendo a riqueza do seu conteúdo e vislumbrando todo o bem que fariam, o próprio Padre Aníbal se encarregou da sua publicação em quatro edições: (1915, 1916, 1917, 1924).

Depois de Luísa terminar de escrever o manuscrito original, enviou-o ao Padre Aníbal, juntamente, com uma carta. Nela fala-lhe da complacência que Jesus sente quando se meditam estas Horas, pois é ela mesma que diz: é “como se Jesus escutasse a Sua própria voz e as Suas próprias orações que Ele dirigiu ao Pai durante as últimas 24 horas da Sua dolorosa Paixão”. Deste modo, junto com o manuscrito e a dita carta, Luísa enviou-lhe algumas notas nas quais incluía os efeitos e promessas de Jesus àqueles e àquelas que meditem estas Horas da sua Paixão.


Serva de Deus Luisa Picarretta
Horas da Paixão.org

quarta-feira, 31 de março de 2010

SEMANA SANTA- 4ª-FEIRA - É em tua casa que quero celebrar a Páscoa



QUARTA-FEIRA DA SEMANA SANTA

Evangelho segundo S. Mateus 26,14-25


«O meu tempo está próximo; é em tua casa que quero celebrar a Páscoa»

Queres, sem dúvida, que te demonstrem que Cristo veio voluntariamente para a Paixão? Os outros morrem de má vontade, pois morrem nas trevas, mas Ele dizia antes da Sua Paixão: «Eis que o Filho do Homem se entregou para ser crucificado» (Mt 26,2). Sabes por que é que este misericordioso não fugiu à morte? Para evitar que o mundo inteiro sucumbisse nos seus pecados. «Eis que subimos a Jerusalém e o Filho do Homem vai ser entregue e crucificado» (Mt 20,13) e ainda: «Ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém ».

Queres também saber claramente que a cruz é, para Jesus, uma glória? Ouve-o a Ele dizer-te, e não a mim. Judas, invadido de ingratidão para com o seu hospedeiro, ia entregá-lo; acabava de sair da mesa e de beber do cálice da bênção, e em jeito de agradecimento por esta bebida da salvação, decidiu verter um sangue inocente. Ele que comera o pão do seu Mestre, agradecia-lhe de modo vergonhoso fazendo-o cair... Depois Jesus disse: «É chegada a hora em que o Filho do Homem será glorificado» (Jo 12,23). Vês como Ele sabe que a cruz é a Sua glória?... Não que antes Ele tenha existido sem glória, pois fora glorificado «com a glória que tinha antes da fundação do mundo» (Jo 17,5). Mas, como Deus, era glorificado eternamente, enquanto que agora era glorificado por ter merecido a coroa pela Sua constância na prova.

Ele não foi obrigado a deixar a vida. Ele não foi forçado a imolar-se, Ele avança livremente. Escuta o que Ele diz: « Tenho o poder de entregar a minha vida e tenho o poder de a retomar» (Jo 10,18); É da minha inteira vontade que cedo aos meus inimigos, pois se Eu não quisesse, nada aconteceria». Ele veio portanto voluntariamente para a Paixão, contente da sua ação, sorrindo à coroa, feliz por salvar a humanidade.9,51).


S. Cirilo de Jerusalém, Bispo e Doutor
Catequese Batismal

SEMANA SANTA- 4ª-FEIRA - Participemos da Festa da Páscoa em atitude de eternidade



QUARTA-FEIRA DA SEMANA SANTA

Evangelho segundo S. Mateus 26,14-25


«Participemos da Festa da Páscoa em atitude de eternidade»

Vamos participar na Festa da Páscoa. Voltaremos a fazê-lo de maneira simbólica, mas já de maneira mais clara do que sob a antiga Lei, porque essa Páscoa era, se assim ouso exprimir-me, uma imagem obscura do próprio símbolo.

Participemos nesta festa ritual de maneira evangélica, e não literária, de maneira perfeita, e não inacabada, em atitude de eternidade, e não de instante. Tomemos como capital, não a Jerusalém terrena, mas a cidade celeste, não a que é hoje esmagada aos pés pelos exércitos, mas a que é glorificada pelos anjos. Não sacrifiquemos os jovens touros e os novilhos com chifres e unhas (Sl 68, 32), mais mortos do que vivos e desprovidos de inteligência, mas ofereçamos a Deus um sacrifício de louvor (Sl 49, 14), no altar celeste e em união com os coros do céu. Afastemos o primeiro véu, avancemos até ao segundo, ergamos o olhar para o Santo dos Santos. Direi antes: imolemo-nos a nós próprios a Deus; melhor, ofereçamos-Lhe diariamente todas as nossas ações. Aceitemos tudo por causa do Verbo. Subamos com pressa até à cruz, cujos cravos são doces, ainda que sejam extremamente dolorosos. Mais vale sofrer com Cristo e por Cristo, do que viver em delícias com outros.

Se fores Simão de Cirene, toma a cruz e segue Cristo. Se fores crucificado com Ele como um ladrão, faz como o bom ladrão: reconhece a Deus. Se fores José de Arimatéia, reclama o corpo a quem o mandou crucificar; faz tua a purificação do mundo. E, se fores Nicodemos, o servidor noturno de Deus, vem depositar este corpo no túmulo e perfumá-lo com mirra. E se fores Maria, ou Salomé, ou Joana, chora desde o começo do dia. Sê a primeira a ver a pedra do túmulo afastada, talvez mesmo os anjos, ou o próprio Jesus.


São Gregório de Nazianzo, Bispo e Doutor
Sermão 45, 23-24

SEMANA SANTA- 3ª-FEIRA – Deixar que os olhares sagrados de Nosso Senhor penetrem no nosso coração



TERÇA-FEIRA DA SEMANA SANTA

Evangelho segundo S. João 13,21-33.36-38


«Deixar que os olhares sagrados de Nosso Senhor penetrem no nosso coração»

S. Pedro, um dos apóstolos, fez um grande dano ao seu Mestre, porque ele negou e jurou que não o conhecia, e, não contente com isso, maldisse e blasfemou, protestando não saber quem ele era (Mt 26,69s) Grande acidente este, o qual rasgou o coração de Nosso Senhor! Pobre S. Pedro, que fazeis e que dizeis? Não sabeis quem ele é, não o conheceis, vós que fostes chamado pela sua própria boca ao apostolado, vós que haveis confessado que ele era o Filho do Deus vivo? (Mt 16,16). Ah! Miserável homem que vós sois, como ousais dizer que não o conheceis? Não foi ele que há pouco esteve a vossos pés para os lavar, que vos alimentou do seu Corpo e do seu Sangue?...

Que ninguém presuma das suas boas obras nem pense não ter nada de que recear, uma vez que S. Pedro, que tinha recebido tantas graças, que tinha prometido seguir Nosso Senhor até à prisão e mesmo até à morte, contudo negou-o ao mínimo sussurro de uma criada.

S. Pedro, ouvindo o galo cantar, lembrou-se do que tinha feito e do que tinha dito acerca do seu bom Mestre; e reconhecendo a sua falta, saiu e chorou tão amargamente que recebeu por isso remissão dos todos os seus pecados. O bem aventurado S. Pedro que por uma tal contrição recebeu o perdão geral de uma tão grande deslealdade... Eu bem sei que foram os olhares sagrados de Nosso Senhor que penetraram no seu coração e lhe abriram os olhos para o fazer reconhecer o seu pecado... Depois disto, ele nunca mais deixou de chorar, principalmente quando ouvia o galo à noite e de manhã... Por este meio, de grande pecador que era tornou-se num grande santo.


S. Francisco de Sales, Bispo e Doutor
O livro dos quatro amores

SEMANA SANTA- 3ª-FEIRA – O benefício que Pedro tirou das suas lágrimas



TERÇA-FEIRA DA SEMANA SANTA

Evangelho segundo S. João 13,21-33.36-38


«O benefício que Pedro tirou das suas lágrimas»

Voltando-se, o Senhor fixa o olhar em Pedro. E Pedro, tomando consciência do que acaba de dizer, arrepende-se e chora: funde em lágrimas e permanece mudo (Lc 22,61-61).

Sim, as lágrimas são orações mudas; merecem o perdão sem o reclamar; obtêm misericórdia sem defender a sua causa. As palavras podem não conseguir exprimir uma oração, as lágrimas nunca; as lágrimas exprimem sempre o que sentimos, ao passo que as palavras podem ser impotentes. Eis porque Pedro já não recorre às palavras: as palavras tinham-no levado as trair, a pecar, a renegar a sua fé. Prefere confessar o seu pecado com lágrimas, ele que com palavras tinha renegado.

Imitemo-lo, contudo, no que diz quando o Senhor lhe pergunta três vezes: "Simão, amas-me?" (Jo 21,17) Por três vezes responde: "Senhor, tu sabes que te amo". O Senhor diz-lhe então: "Apascenta as minhas ovelhas", e isso por três vezes. Esta palavra compensa o seu desvario precedente; aquele que tinha três vezes renegado o Senhor, três vezes o confessa; por três vezes se tinha tornado culpado, por três vezes obtém a graça pelo seu amor. Vede pois que benefício tirou Pedro das suas lágrimas!... Antes de derramar lágrimas, era um traidor; tendo derramado lágrimas, foi escolhido como pastor: aquele que se tinha portado mal recebeu o encargo de conduzir os outros.


São Máximo de Turim, Bispo
Sermão 76

SEMANA SANTA- 2ª-FEIRA – Espalhar o perfume da compaixão nos pés de Cristo



SEGUNDA -FEIRA DA SEMANA SANTA

Evangelho segundo S. João 12,1-11


«Espalhar o perfume da compaixão nos pés de Cristo»

Já vos falei dos dois perfumes espirituais: o da contrição, que se estende a todos os pecados — é simbolizado pelo perfume que a pecadora espalhou nos pés de Jesus: «toda a casa ficou cheia desse cheiro»; há também o da devoção que consolida todas as mercês de Deus... Mas há um perfume que ultrapassa de longe estes dois; chamar-lhe-ei o perfume da compaixão. Compõe-se, com efeito, dos tormentos da pobreza, das angústias em que vivem os oprimidos, das inquietudes da tristeza, das faltas dos pecadores, em resumo, de toda a dor dos homens, mesmo dos nossos inimigos. Estes ingredientes parecem indignos e, contudo, o perfume em que entram é superior a todos os outros. É um bálsamo que cura: «Felizes os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia» (Mt 5,7).

Assim, um grande número de misérias reunidas sob um olhar compassivo são as essências preciosas... Feliz a alma que cuidou de aprovisionar estes aromas, de neles espalhar o óleo da compaixão e de os pôr a ferver no fogo da caridade! Quem é, no vosso entender, «o homem feliz que tem piedade e empresta os seus bens» (Sl 111,5), inclinado à compaixão, pronto a socorrer o seu próximo, mais contente com dar do que com receber? Quem é esse homem que perdoa facilmente, resiste à cólera, não permite a vingança, e em todas as coisas olha como suas as desgraças dos outros? Quem quer que seja essa alma impregnada do orvalho da compaixão, de coração transbordante de piedade, que se dá inteira a todos, que não é, ela mesma, senão um vaso rachado onde nada é invejosamente guardado, essa alma, tão morta para si mesma que vive unicamente para os outros, tem a felicidade de possuir esse terceiro perfume que é o melhor. As suas mãos destilam um bálsamo infinitamente precioso (cf. Ct 5,5), que não se esgotará na adversidade e que os lumes da perseguição não conseguirão secar. É que Deus lembrar-se-á sempre dos seus sacrifícios.


São Bernardo de Claivaux
Sermão 12 sobre o Cântico dos Cânticos

SEMANA SANTA- 2ª-FEIRA – Exalar no mundo o perfume do Amor de Deus



SEGUNDA-FEIRA DA SEMANA SANTA

Evangelho segundo S. João 12,1-11


«Exalar no mundo o perfume do Amor de Deus»

A gratidão de Maria levou-a a oferecer a Jesus o que de mais valioso ela possuía. A gratidão significa o nosso reconhecimento de tudo que o Senhor tem realizado em nós e no nosso meio.

Ao derramar o seu perfume precioso e caríssimo nos pés de Jesus e enxugá-los com seus cabelos ela entregava a Ele o que tinha de melhor, a sua vida e com ela, todo o seu amor. Jesus sabia que estava prestes a ser entregue e que vivia os seus últimos momentos aqui na terra e já se despedia dos seus amigos, por isso, aceitou de bom grado aquele presente mesmo sob o protesto de Judas que querendo confundir os outros falava da necessidade de pessoas pobres. Jesus soube argumentar: “pobres, sempre terei convosco, mas a mim nem sempre me tereis”.

Neste Evangelho nós aprendemos com Maria e com Jesus. Com Maria nós apreendemos que a vida atual aqui na terra é o momento propício para que nós também façamos a oferta de tudo quanto temos de precioso: o perfume da nossa oração, da nossa adoração, mas também dos nossos atos concretos de amor, de despojamento. O Senhor nos chama para exalar no mundo o perfume do Seu Amor! Por isso, Ele nos ensina a perceber os sinais de misericórdia que Deus nos dá quando estamos nos momentos cruciais da nossa vida e a aceitar os presentes e as dádivas que vêm do céu por meio das pessoas que nos oferecem algo precioso. Com certeza, o gesto de Maria foi para Jesus como o perdão que damos a quem nos ofende, a reconciliação que promovemos na nossa família, a compreensão que temos com os erros dos nossos irmãos, o tempo que dedicamos às causas justas. Assim, portanto, nós ainda temos oportunidade de também derramar aos pés de Jesus o que temos de tão precioso, o tempo em que vivemos para demonstrar a alguém a nossa gratidão, perdão e reconciliação, enfim, o perfume do nosso amor.

Como temos aproveitado o tempo que estamos vivendo? A quem temos nos dedicado? Temos cuidado somente das nossas “coisas” ou temos tido interesse pela vida de alguém mais? Temos oferecido a Deus o momento presente da nossa vida? Temos nos preocupado com os pobres? Como poderemos exalar no mundo o perfume do Amor de Deus? Pensemos nisto!


Helena Colares Serpa
Fundadora da Comunidade Católica Um Novo Caminho

domingo, 28 de março de 2010

DOMINGO DE RAMOS – Oração no Domingo de Ramos



DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR
28 DE MARÇO


TU SABES, SENHOR!

Tu sabes, Senhor,
Que com tua entrada em Jerusalém, com jumento e tudo,
se cumpre o anunciado pelos profetas.
Que os que hoje te aclamamos e te exaltamos,
ainda recordando teus milagres e sinais,
tuas palavras e teu consolo
logo, logo, ao virar a esquina,
trocaremos as palmas pelo “Crucifica-o! Crucifica-o!”.

Tu sabes, Senhor,
Que, como Pedro, hoje prometemos amizade eterna,
te cantamos hinos e louvores
e, amanhã, fingiremos não ter te conhecido
ou esconderemos nossos rostos
com a intenção de não complicarmos nossa vida.

Tu sabes, Senhor,
Que o triunfal monumento que hoje levantamos
logo o ofereceremos ao melhor impostor,
aos simples reis da terra,
aos que, sem ter palavras eternas,
nos seduzem e nos confundem,
nos afastam de Ti e nos separam da tua Graça.

Tu sabes, Senhor,
Que a coroa que te espera
não é de ouro, mas forjada com espinhos.
Que o trono que te aguarda
não está talhado em madeira de ébano,
mas esculpido na cruz que produz vertigem e pranto.

Tu sabes, Senhor,
Que o nosso sim amanhã será um não.
Que os nossos cantos se converterão em silêncios.
Que nossas aclamações darão lugar a deserções.
Que nossos gritos se transformarão em timidez.

Tu sabes, Senhor,
Que tua entrada em Jerusalém
é o início de uma aventura tingida de sofrimento,
de sacrifício, prova e morte…
Mas com a redenção final.

TU SABES, SENHOR!



Padre Javier Leoz
Site Javier Leoz

DOMINGO DE RAMOS – Acompanha o Senhor e segue-O sempre



DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR
28 DE MARÇO


Acompanha o Senhor montado num jumentinho e segue-O sempre


“Ó Jesus, prevendo a turba que viria ao vosso encontro, montastes no jumento e destes exemplo de admirável humildade entre os aplausos do povo que acorria, cortava ramos e atapetava a estrada. Enquanto a multidão cantava hinos de louvor, Vós, jamais esquecendo vossa compaixão, chorastes o morticínio de Jerusalém.

Levanta-te agora, ó serva do Salvador, e no cortejo das filhas de Sião, vai ver teu verdadeiro Rei. Acompanha o Senhor do céu e da terra montado num jumentinho, segue-O sempre com ramos de oliveira, com obras de piedade e com virtudes triunfantes”.


São Boaventura
Il legno della vita 15, Op.mist,pp.98-99


DOMINGO DE RAMOS – Bendito seja o que vem em nome do Senhor



DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR
28 DE MARÇO


"Bendito seja o que vem em nome do Senhor"

É sob dois aspectos bem diferentes que a festa de hoje apresenta aos filhos dos homens Aquele que a nossa alma deseja (Is 26,9), “o mais belo dos filhos dos homens” (Sl 44,3). Ele atrai o nosso olhar sob esses dois aspectos; amamo-lo sob um e sob o outro, porque num e noutro Ele é o Salvador dos homens.

Se considerarmos ao mesmo tempo a procissão de hoje e a Paixão, vemos Jesus, por um lado sublime e glorioso, por outro humilhado e doloroso. Porque, na procissão, Ele recebe as honras reais e, na Paixão, vemo-lo castigado como um malfeitor. Aqui cercam-no a glória e a honra; além, “não tem aparência nem beleza” (is 53,2). Aqui, temos a alegria dos homens e o orgulho do povo; além, temos “a vergonha dos homens e o desprezo do povo” (Sl 21,7). Aqui, aclamam-no: “Hosana ao Filho de David. Bendito seja o rei de Israel que vem!” Além, vociferam que merece a morte e escarnecem dele porque se fez rei de Israel. Aqui, correm para Ele com palmas; além, flagelam-lhe o rosto com as mesmas palmas e batem-lhe na cabeça com uma cana.. Aqui, cumulam-no de elogios; além, afogam-no em injúrias. Aqui, disputam-se para juncar-lhe o caminho com as vestes dos outros; além, despojam-no das suas próprias vestes. Aqui, recebem-no em Jerusalém como o rei justo e o Salvador; além, é expulso de Jerusalém como um criminoso e um impostor. Aqui, montam-no sobre um burro, rodeado de homenagens; além, é pendurado da cruz, rasgado pelos chicotes, trespassado de chagas e abandonado pelos seus.

Senhor Jesus, quer o Teu rosto apareça glorioso quer humilhado, sempre nele vemos brilhar a sabedoria. Do Teu rosto irradia o fulgor da luz eterna (Sb 7,26). Que brilhe sempre sobre nós, Senhor, a luz do Teu rosto (Sl 4,7) nas tristezas como nas alegrias... Tu és a alegria e a salvação de todos, quer te vejam montado sobre o burro, quer suspenso do madeiro da cruz.


Beato Guerric d'Igny
Abade cisterciense
Sermão sobre os Ramos