sábado, 20 de março de 2010

SOLENIDADE DE SÃO JOSÉ - Pôr-se sempre à escuta do Senhor para compreender a Sua Vontade



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


Pôr-se sempre à escuta do Senhor, procurando compreender a sua vontade, para lhe obedecer com todo o coração e com todas as forças


Celebramos a Solenidade de São José, esposo da Virgem Maria e Padroeiro da Igreja universal. O extremo discernimento com que José desempenhou o papel que lhe foi confiado por Deus faz aumentar ainda mais a sua fé, que consiste em pôr-se sempre à escuta do Senhor procurando compreender a sua vontade, para lhe obedecer com todo o coração e com todas as forças. Por isso, o Evangelho o define como o homem "justo" (Mt 1, 19). De fato, o justo é a pessoa que reza, vive de fé, e procura praticar o bem em qualquer circunstância da vida.

A fé, alimentada pela oração: eis o tesouro mais precioso que São José nos transmite. Seguiram os seus passos gerações de pais que, com o exemplo de uma vida simples e laboriosa, imprimiram no coração dos filhos o valor inestimável da fé, sem a qual qualquer outro bem corre o risco de ser vão. Garanto desde já com prazer uma oração especial por todos os pais, no dia que lhes é dedicado: peço a Deus que sejam homens com uma sólida vida interior, a fim de cumprirem de modo exemplar a sua missão na família e na sociedade.


Papa João Paulo II
Angelus, 17 de Março de 2002

FESTA DE SÃO JOSÉ - São José, o Adorador Perpétuo



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


São José: Adorador Perpétuo

Em profunda adoração, São José uniu-se à graça especial de cada um dos eventos da vida de Jesus. Ele adorou o nosso Senhor em sua vida oculta e na Sua Paixão e Morte; ele adorou antecipadamente o Cristo Eucarístico em seus tabernáculos: não havia nada que o nosso Senhor pudesse esconder de São José. Com exceção da Virgem Maria, São José foi o primeiro e mais perfeito adorador do nosso Senhor.

Quão grandemente o Verbo encarnado foi glorificado pela adoração de Maria e José enquanto eles expiavam pela indiferença e ingratidão de Suas criaturas!

São José se juntava a Maria em adoração e unificava seu ser a Cristo. Seu coração vibrava com sentimentos de adoração, amor e louvor ao Pai, e de caridade para com os homens.

A adoração de São José acompanhou todas as fases da vida de nosso Senhor, aproveitando a graça, o espírito e a virtude de cada mistério. Na encarnação ele adorava o auto-aniquilamento do Filho de Deus; em Belém, adorava a pobreza; em Nazaré, o silêncio, a aparente fraqueza, a obediência, e todas as outras virtudes de Cristo. Conhecia-os bem e captou claramente a razão pela qual Cristo praticou-as - para o amor e glória de seu Pai Celestial.

Fé, humildade, pureza e amor, estas foram as chaves-mestras de sua adoração. Nenhum santo jamais vibrou com uma fé mais ardente ou rebaixou-se em mais profunda humildade. Nenhum anjo jamais brilhou com mais brilhante pureza. E quanto ao seu amor, nenhum santo ou anjo jamais tiveram nem nunca chegarão ao alcance da sua ardente caridade, através da qual expressou seu ser em plena devoção.

Porque a sua fé era tão forte, a mente e o coração de José, curvaram-se em perfeita adoração. Imite a sua fé enquanto você se ajoelha diante do Cristo humilde e aniquilado na Eucaristia. Rasgue o véu que cobre esta fornalha de amor e adore o Deus escondido. Ao mesmo tempo respeite do véu do amor e faça a imolação de sua mente e seu coração, a mais bela homenagem de fé.

Entre as graças que Jesus deu ao Seu pai adotivo - e Ele inundou-lhe com as graças anexadas a cada um dos Seus Mistérios - estava a especial graça para ser um adorador do Santíssimo Sacramento. Isso é o que devemos nos questionar sobre São José. Tenha confiança nele, uma forte confiança nele. Tome-o como patrono e modelo para sua vida de adoração.

Da estreita união com este santo adorador vou aprender a adorar o Senhor e a viver em intimidade com Ele. Eu então deverei ser o José da Eucaristia como ele era o José de Nazaré.


São Pedro Julião Eymard
A Divina Eucaristia

SOLENIDADE DE SÃO JOSÉ - Imploremos a São José por força espiritual e santidade



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


Imploremos a São José por força espiritual e santidade

Dezenove de Março é a solenidade de São José, Esposo de Maria Santíssima, Mãe de Cristo. Já no século X encontramos indicada em vários calendários esta festividade. O Papa Sisto IV recebeu-a no calendário da Igreja de Roma a partir do ano de 1479. Em 1621 foi inscrita no calendário da Igreja universal.

Dirigimo-nos hoje a esta figura tão querida e próxima do coração da Igreja e, na Igreja, de cada um e de todos os que procuram conhecer os caminhos da salvação, e segui-los na própria vida terrestre. Prepare-nos a meditação de hoje para a oração, a fim de que, reconhecendo as grandes obras de Deus naquele a quem Ele colmou os Seus mistérios, procuremos na nossa vida pessoal o reflexo vivo destas mencionadas obras para as completarmos com a fidelidade, humildade e nobreza de coração, que foram próprias de São José.

José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e pôr-lhes-ás o nome de Jesus; porque Ele salvará o povo dos seus pecados (Mt. 1, 20-21).

Encontramos estas palavras no capítulo 1 do Evangelho segundo Mateus. Elas — sobretudo na segunda parte — soam parecidas às que ouviu Maria, no momento da Anunciação. A narrativa da Anunciação encontra-se no Evangelho segundo Lucas.

Em seguida, Mateus nota de novo que, depois das núpcias de Maria com José, antes de coabitarem, achou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo (Mt. 1, 18.). Assim se realizou em Maria o mistério que tivera início no momento da Anunciação, no momento em que a Virgem respondeu às palavras de Gabriel: Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc. 1, 38).

À medida que o mistério da maternidade de Maria se revelava à consciência de José, ele, que era justo, não queria repudiá-la e resolveu deixá-la secretamente (Mt. 1, 19), assim se expressa adiante a descrição de Mateus. Exatamente então José, Esposo de Maria e perante a lei já seu marido, recebe a sua pessoal «Anunciação». Ouve durante a noite as palavras referidas acima, que são explicação e ao mesmo tempo convite da parte de Deus: Não temas receber Maria, tua esposa (Mt. 1, 20).

Ao mesmo tempo, confia Deus a José o mistério, cuja realização tinham esperado por tantas gerações a estirpe de David e toda a «casa de Israel», e ao mesmo tempo confia-Lhe tudo aquilo de que depende a realização de tal mistério na história do Povo de Deus. Desde o momento em que tais palavras chegaram à sua consciência, José torna-se o homem da divina eleição: o homem de particular confiança. E definido o seu lugar na história da salvação. José entra no desempenho deste lugar com a simplicidade e humildade, em que se manifesta a profundidade espiritual do homem; e ele enche-o completamente com a sua vida.

Despertando José do sono — lemos em Mateus — fez o que lhe ordenara o anjo do Senhor (Mt. 1, 24). Nestas poucas palavras está tudo. Toda a descrição da vida de José e a característica plena da sua santidade: «Cumpriu». José, pelo que sabemos do Evangelho, é homem de ação. E homem de trabalho. O Evangelho não conservou palavra alguma sua. Descreveu-lhe porém as ações: ações simples, quotidianas, que têm ao mesmo tempo significado límpido no que respeita ao cumprimento da Promessa divina na história do homem; obras cheias de profundidade espiritual e de simplicidade amadurecida.

Tal é a atividade de José, tais as suas obras, antes que lhe fosse revelado o mistério da Encarnação do Filho de Deus que -o Espírito Santo realizara na Sua Esposa. Tal é também a obra posterior de José, quando — já informado do mistério da maternidade virginal de Maria — permanece ao lado d'Ela no período que precedeu o nascimento de Jesus e sobretudo na circunstância da Natividade.

Depois vemos José no momento da apresentação no templo e da chegada do Oriente dos Reis Magos. Pouco depois inicia-se o drama dos recém-nascidos em Belém. José de novo é chamado e ensinado pela voz do Alto sobre como há de comportar-se. Realiza a fuga para o Egito com a Mãe e o Menino. Passado breve tempo, é o regresso à sua Nazaré. Lá finalmente encontra a casa e a oficina, à qual teria voltado sem dúvida mais cedo se não lho impedisse a crueldade de Herodes. Quando Jesus chega aos doze anos, vai com Ele e com Maria a Jerusalém.

No templo de Jerusalém, depois de ambos encontrarem Jesus perdido, José ouve estas palavras misteriosas: Não sabeis que devo ocupar-me das coisas do meu Pai? (Lc. 2, 49). Assim falou o jovem de doze anos, e José, assim como Maria, bem sabe de Quem fala. Apesar disso, na casa de Nazaré, Jesus estava-lhes submisso (Lc. 2, 51): a ambos, a José e Maria, assim como um filho é submisso aos pais. Passam os anos da vida oculta da sagrada Família de Nazaré. O Filho de Deus — mandado pelo Pai — está oculto ao mundo, oculto para todos os homens, mesmo para os mais próximos. Só Maria e José conhecem o Seu Mistério. Vivem à sua volta. Vivem este Mistério dia a dia. O Filho do Eterno Pai passa, no conceito dos homens, como filho deles; como filho do carpinteiro (Mt. 13, 55). Quando principiar o tempo da Sua missão pública, Jesus aplicar-Se-á na sinagoga de Nazaré as palavras de Isaías, que naquele momento se cumprem n'Ele, e os vizinhos e conterrâneos dirão: Não é o Filho de José? (Cfr. Mt. 4, 16-22). O Filho de Deus, o Verbo Encarnado, durante os 33 anos da vida terrena esteve oculto; escondeu-se à sombra de José.

Ao mesmo tempo, Maria e José permaneceram ocultos em Cristo, no Seu mistério e na Sua missão. Em particular José, que — segundo se pode concluir do Evangelho — deixou o mundo antes de Jesus se revelar a Israel, como Cristo, ficou despercebido no mistério d'Aquele que o Pai celeste lhe confiara quando estava ainda no ventre da Virgem, quando lhe fora dito por meio do anjo: Não temas receber Maria, tua esposa (Mt. 1, 20).

Eram necessárias almas profundas — como Santa Teresa de Jesus — e eram necessários os olhos penetrantes da contemplação, para que pudessem ser revelados os traços esplêndidos de José de Nazaré: Aquele de quem o Pai celeste quis fazer, na terra, o homem da Sua confiança. Todavia a Igreja sempre esteve persuadida, e hoje de modo particular o está, quão fundamental foi a vocação daquele Homem: do Esposo de Maria, d'Aquele que, diante dos homens, passava pelo Pai de Jesus e foi, segundo o espírito, uma encarnação perfeita da paternidade na família humana e sagrada ao mesmo tempo.

A esta luz, os pensamentos e o coração da Igreja, a sua oração e o seu culto dirigem-se a José de Nazaré. A esta luz, o apostolado e a pastoral encontram n'Ele apoio dentro do campo vasto e ao mesmo tempo fundamental que é a vocação matrimonial e de pais, toda a vida na família, cheia da solicitude simples e serviçal do marido para a mulher, do pai e da mãe para os filhos — a vida na família — naquela «Igreja mais pequena» sobre a qual se constrói cada Igreja.

A Igreja que, sendo sociedade do Povo de Deus, se chama também a si mesma a Família de Deus, vê ainda o lugar singular de S. José diante desta grande Família e reconhece-o como seu Padroeiro especial. Desperte em nós esta meditação a necessidade de orarmos tomando por intercessor Aquele em quem o Pai celeste expressou, na terra, toda a dignidade espiritual da paternidade. A meditação sobre a sua vida e as suas obras, tão profundamente ocultas no mistério de Cristo, e, ao mesmo tempo, tão simples e límpidas, ajude todos a encontrar o justo valor e a beleza da vocação, a que todas as famílias humanas vêm buscar a sua força espiritual e a santidade. Com estes sentimentos dirijamos agora a Deus a nossa oração.


Papa João Paulo II
Audiência Geral, 19 de Março de 1979

SÃO JOSÉ E SANTA TERESA DE ÁVILA



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


São José e Santa Teresa de Ávila

Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José e encomendei-me muito a ele. Vi claro que, tanto desta necessidade como de outras maiores, de perder a honra e perder a alma, este pai e senhor meu me livrou melhor do que eu lhe saberia pedir. Não me recordo, até agora, de lhe haver suplicado nada que não tenha deixado de fazer.

É coisa que espanta (que maravilha) as grandes mercês que me tem feito Deus por meio deste bem-aventurado santo, dos perigos que me tem livrado, tanto de corpo quanto de alma. A outros santos parece que o Senhor lhes deu graça para socorrer em uma necessidade; a este glorioso santo tenho experiência que socorre em todas e que quer o Senhor dar-nos a entender que assim como esteve submetido a ele na terra, que como tinha nome de pai - sendo custódio - podia mandar Nele, também no céu faz quanto lhe pedem. E isto o tem comprovado algumas pessoas, a quem eu dizia que se encomendassem a ele, também por experiência; e ainda há muitas que começaram a ter-lhe devoção havendo experimentando esta verdade.

Queria eu persuadir a todos para que fossem devotos deste glorioso santo, pela grande experiência que tenho dos bens que ele alcança de Deus. Não conheci pessoa que deveras lhe seja devota e faça particulares serviços, que não a vejamos mais adiantada nas virtudes porque muito aproveitam as almas que a ele se encomendam. Parece-me, já há alguns anos, que a cada ano, em seu dia, lhe peço uma coisa e sempre a vejo cumprida. Se o pedido segue meio torcido, ele o endereça para o meu bem.

Se fosse uma pessoa que tivesse autoridade no escrever, de bom grado me estenderia em dizer muito a miúdo as mercês que este glorioso santo tem feito a mim e a outras pessoas. Só peço, pelo amor de Deus, que o prove quem não me crê e verá por experiência o grande bem que é o encomendar-se a este glorioso Patriarca e ter-lhe devoção.

Pessoas de oração, em especial, sempre deveriam ser a ele afeiçoadas. Não sei como se pode pensar na Rainha dos Anjos, no tempo que passou com o Menino Jesus, e não se dar graças a São José pelo bem com o qual lhes ajudou. Quem não encontrar mestre que lhe ensine oração, tome este glorioso santo por mestre e não errará no caminho.


Santa Teresa de Jesus
Vida 6,6-8

SÃO JOSÉ - A propagação de São José por Santa Teresa de Jesus



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


A propagação de São José por Santa Teresa de Jesus

O que Santa Teresa escreve sobre sua pessoal e particular experiência com São José, de forma tão simples e tão vitalmente exposto, tem uma finalidade: propagá-lo aos demais. Quer que todos sejam devotos de São José e se encomendem a ele. E o conseguiu de amplo modo.

Não é possível ler as páginas em que Santa Teresa descreve suas experiências com São José e permanecer indiferente. Santa Teresa, cujas palavras sobre São José cabem em tão poucas páginas, se converteu em um apóstolo de primeira grandeza do Santo pela naturalidade, calor e amor com que as descreve.

Pelo que escreve do Santo, como exposição de sua experiência sobrenatural e desde a mesma, embora tão breve, entra no catálogo dos grandes apóstolos josefinos, também pelo que fez em sua obra de fundações. E isto não só para o Carmelo Teresiano mas também para a Igreja universal. O Padre Gracián em seu escrito Josefina cita quase todos os lugares em que a Santa fala de São José. E, depois dele, a maioria dos autores carmelitas quando se apresenta uma ocasião.

Os pregadores do século XVII, em grande número, citam as palavras do capítulo 6 da Vida, alinhando-a com Gersón e Isidoro de Isolanis. Santa Teresa entra em seguida no catálogo dos grandes apóstolos e propagadores da devoção a São José. Podemos aplicar a este aspecto concreto o que a Santa disse que o Senhor lhe prometeu sobre sua primeira casa de São José: ‘que seria uma estrela que daria de si grande esplendor’ (V 32,ll). São José de Ávila, a casa de São José, acendeu no céu da Igreja muitas estrelas de devoção e amor para com o Santo Patriarca, e segue e seguirá iluminando-as.

Como disse um autor francês, Lucot: "Os Papas encontraram um auxiliar poderoso para a propagação do culto de nosso Santo na célebre Reformadora do Carmelo. Gersón havia feito muito por ele; Teresa fez mil vezes mais por si mesma, pelos religiosos de sua Reforma e pelas religiosas de seu Carmelo. São José lhe é devedor, sobretudo, de sua glória sobre a terra.


Fonte: ocd.pcn.net

SÃO JOSÉ E OS SANTOS




SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


São José e os Santos

A devoção a São José se fundamenta no fato de que este homem "justo" foi escolhido por Deus para ser o esposo de Maria Santíssima e fazer as vezes de pai de Jesus na terra. Durante os primeiros séculos da Igreja, a veneração se dirigia principalmente aos mártires. Talvez se venerasse um pouco a São José para enfatizar a paternidade divina de Jesus. Mas, ainda assim, os Padres da Igreja (Santo Agostinho, São Jerônimo e São João Crisóstomo, entre outros), já nos falavam de São José. Segundo São Calisto, esta devoção começou no Oriente, onde existe desde o século IV, e relata também que na grande Basílica construída em Belém por Santa Helena havia um formoso oratório dedicado a São José.

No ocidente, referências a (Nutritor Domini) São José aparecem no século IX em martirológios locais e em 1129 aparece em Bolonha a primeira igreja a ele dedicada. Alguns santos do século XII começaram a popularizar a devoção a São José e entre eles se destacaram São Bernardo, Santo Tomás de Aquino, Santa Gertrudes e Santa Brígida da Suécia. Segundo Bento XIV (De Serv. Dei beatif., I, iv, n. 11; xx, n. 17), ‘A opinião geral dos conhecedores é que os Padres do Carmelo foram os primeiros a levar do Oriente ao Ocidente a louvável prática de oferecer pleno culto a São José’.

No século XV, merecem particular menção como devotos de São José os santos Vicente Ferrer (m.1419), Pedro d`Ailli (m.1420), Bernadino de Sena (m.1444) e Jehan Gerson (m.1429). Finalmente, durante o pontificado de Sixto IV (1471-84), São José é introduzido no calendário romano em 19 de Março. Desde então, sua devoção foi crescendo em popularidade. Em 1621, Gregório XV a elevou à festa obrigatória. Bento XIII introduziu São José na ladainha dos santos em 1726”.

São Pedro Crisólogo: "José foi um homem perfeito, que possuía todo gênero de virtudes. O nome de José em hebreu significa "o que vai crescendo. E assim se desenvolvia o caráter de José, crescia de virtude em virtude até chegar a uma excelsa santidade.

São Bernardino de Sena: "... sendo Maria a dispensadora das graças que Deus concede aos homens, com quanta profusão não é de crer que enriquecesse com elas a seu esposo São José, a quem tanto amava, e por quem era respectivamente amada? E assim, José crescia em virtude e em amor para com sua esposa e seu Filho, a quem carregava nos braços no início, e a quem logo ensinou seu ofício e com quem conviveu durante trinta anos”.

Santa Teresa de Jesus: "Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José e encomendei-me muito a ele". Irmã Isabel de la Cruz, monja carmelita, comenta sobre Santa Teresa: "era particularmente devota de São José e ouvi dizer que lhe apareceu muitas vezes e andava a seu lado".

"Não me recordo, até agora, de haver-lhe suplicado coisa que tenha deixado de fazer. É coisa que espanta as grandes mercês que me fez Deus por intermédio deste bem-aventurado santo. Não conheci pessoa que deveras lhe seja devota que não a veja mais adiantada em virtude, porque aproveitam de grande maneira as almas que a Ele se encomendam. Só peço por amor de Deus que o prove quem não lhe crê e verá por experiência o grande bem que é encomendar-se a este glorioso pai e ter-lhe devoção".

Santo Afonso Maria de Ligório nos faz refletir: "Quanto também deve ter-se aumentado a santidade de José no trato familiar que teve com Jesus Cristo, no tempo que viveram juntos? José durante esses trinta anos foi o melhor amigo, o companheiro de trabalho com quem Jesus conversava e rezava. José escutava as palavras de Vida Eterna de Jesus, observava seu exemplo de perfeita humildade, de paciência, e de obediência, aceitava sempre a ajuda serviçal de Jesus nos afazeres e responsabilidades diários. Por tudo isso, não podemos duvidar que enquanto José viveu na companhia de Jesus, cresceu tanto em méritos e santificação que superou todos os santos”.


Bibliografía:
Souvay, Charles L., Saint Joseph;
Catholic Encyclopedia;
ncyclopedia Press, Inc. 1913


SOLENIDADE DE SÃO JOSÉ – Os cinquenta privilégios de São José



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


Os 50 privilégios de São José

Frei Jerônimo Gracián é um carmelita descalço que, seguindo as pegadas de Santa Teresa de Jesus, escreveu sua “Josefina” no ano de 1609 para fazer um sumário dos dons e privilégios de São José. Trata-se de um livro clássico da piedade josefina de 132 páginas que, seguindo a tradição mística da época, usa símbolos um pouco estranhos para nosso tempo, palavras bonitas e até raciocínios divertidos a favor de São José.

Os 50 privilégios de São José:

1. José foi santificado no ventre de sua mãe.
2. José nasceu livre do “fomes pecati” e da concupiscência da sensualidade.
3. Nunca pecou mortalmente.
4. Foi confirmado em graça.
5. Em José, como fim dos patriarcas antigos, se resume todas as perfeições.
6. José é o primeiro cristão do mundo.
7. José foi eleito entre todos os mortais como esposo da Mãe de Deus.
8. José recebeu por dote de seus desponsórios os dons e talentos que são bênçãos de peitos e ventre.
9. José foi reverenciado pela Rainha do Céu a quem todos os demais reverenciam.
10. José exerceu ofício de pai, tutor, esposo, companheiro, guarda e conselheiro de Maria.
11. José é mestre e doutor porque conversou com Cristo por 30 anos.
12. José foi aio do Príncipe Celestial.
13. Padrinho por ordenação divina e revelação do anjo.
14. Tutor de quem se fez pequenino, sendo o dono do cosmos e de todo o universo.
15. São José, Pai Nutrício e “amo de leite” de Cristo Jesus.
16. Teve como súdito ao Senhor e Rei de todo o mundo.
17. Foi o primeiro a adorar, depois da Virgem, a Cristo Jesus.
18. Conservador da vida temporal de Deus, dando-Lhe comida e roupa com o trabalho de suas mãos.
19. Conselheiro da construção da Igreja, como carpinteiro experiente, já que ajudou a fazer os modelos, plantas e traços da Nova Jerusalém.
20. Foi amado de Jesus Cristo por razões gerais e algumas particulares.
21. Mereceu o renome de “justo”.
22. Soube imitar as virtudes, retidão e perfeição de Cristo.
23. São José se assemelhou, mais do que ninguém neste mundo, a Cristo e a Maria, “no semblante, palavra, compleição, costumes, inclinações e maneira de tratar com os outros”.
24. Por haver estado mais perto da Humanidade de Cristo: abraçou-O, beijou-O, falou-Lhe, O viu, conversou com Ele, etc., muito se uniu à sua Divindade.
25. Viu-se limpo do suor com as mãos de Jesus e recebeu d’Ele outros inefáveis regalos.
26. São José se encontrou em ocasiões de amor, nas quais, pedindo mercês a Deus, nenhuma coisa foi-lhe negada.
27. São José recebeu a graça dos sacramentos, apesar de não ter participado deles.
28. Sustentou com o próprio suor a vida de Cristo.
29. São José alcançou inefáveis regalos no trato familiar que teve com Cristo.
30. Foi bendito do Senhor, alcançando as bênçãos do Céu.
31. José fez o ofício de “anjo da guarda” de Cristo Jesus.
32. Como um “arcanjo” foi ministro das embaixadas divinas.
33. Governou a Cristo, “Anjo do grande conselho”.
34. Foi ministro do maior milagre: Deus feito menino.
35. No Egito foi instrumento de Deus para que caíssem os ídolos.
36. Excedeu às dominações em senhorio, pelo serviço do Rei e da Rainha do universo.
37. Fez o ofício de trono ao ter em seus braços a Jesus, Juiz Eterno.
38. Mereceu ser guarda do paraíso terreno, como querubim, pois guardou à Virgem soberana que é o Paraíso de Deleites com a Árvore da Vida, Cristo Jesus.
39. Teve consigo, ao propiciatório, o Rei da Bem-Aventurança.
40. Foi perfeitíssimo virgem, perfeitíssimo santo.
41. Aprendeu oração dos mais elevados espíritos: o de Jesus e o de Maria.
42. Conseguiu todos os fins da contemplação.
43. Morreu nos braços de Jesus.
44. Preparou-se para a hora da de sua morte, pois a soube com antecipação.
45. Ouviu os cantares angélicos, viu luzes e escutou música celestial dos espíritos bem-aventurados.
46. Viveu saudável: nem lhe faltou um dente e nem escureceu a vista.
47. Como precursor no limbo, adiantou as excelências do Messias prometido.
48. José ressuscitou com Cristo entre outros muitos santos.
49. Está em corpo e alma na bem-aventurança.
50. É o primeiro santo canonizado pela boca do Espírito Santo, escrevendo o processo e sentença de sua canonização os sagrados evangelistas. Então se canoniza um santo quando se declara ser justo, estimado de Deus, e haver padecido por Cristo e tido revelações, visões e bens sobrenaturais.


FREI JERÓNIMO GRACIÁN
“LA JOSEFINA”

ORAÇÃO A SÃO JOSÉ DO PAPA JOÃO XXIII



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


Oração a São José do Papa João XXIII


São José, guardião de Jesus e casto esposo de Maria, tu empregaste toda a tua vida no perfeito cumprimento de teu dever. Tu mantiveste a Sagrada Família de Nazaré com o trabalho de tuas mãos. Protege bondosamente aos que se voltam confiantemente para ti. Tu conheces suas aspirações e suas esperanças. Eles se dirigem a ti porque sabem que tu os compreendes e proteges. Tu também conheceste as provas, o cansaço e o trabalho. Mas, embora dentro das preocupações materiais da vida, tua alma estava cheia de profunda paz e cantou plena de verdadeira alegria devido ao íntimo trato que gozaste com o Filho de Deus que te foi confiado e a Maria, sua terna Mãe. Amém.


Papa João XXIII
Devocionário Católico

FESTA DE SÃO JOSÉ - O coração de São José só sabe fazer uma coisa: amar



SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA
SOLENIDADE
19 DE MARÇO


O coração de São José só sabe fazer uma coisa: amar

Ao meditar sobre São José, o coração se enche de amor sem nenhum esforço porque deste homem emana somente amor. O seu coração só sabe fazer uma coisa: amar. Do coração de São José jorra amor em abundância. Este amor acontece tão suavemente em seu coração, como suavemente nasce o sol. Dentro do seu coração existem sentimentos tão nobres que se chega a pensar que o coração de São José não é igual ao dos outros homens.

É difícil não entrar em contemplação ao Pai diante de São José, pois ele verdadeiramente é um dos filhos mais nobres de Deus Pai. Pode-se concluir inclusive que não poderia ser outra pessoa aquele a quem o Pai confiou os seus dois maiores tesouros: Maria e Jesus.

O Pai, que só é amor, dá a seus filhos infinitas e maravilhosas graças. Dele só emana o que é belo, santo, bom, riquezas incalculáveis. Por isso, São José é mais uma prova do amor divino para com os homens. Ele foi escolhido pelo Pai para ser instrumento importante na salvação da humanidade. Mas foi preciso para isto que São José abdicasse de seus planos pessoais, de seus sonhos, de sua vida. E ele soube fazer isso com honra e dedicação. Ao tomar conhecimento do plano do Pai, ele esquece de si mesmo, e embora vivendo uma situação desconcertante, vai até o fim, sem medo, sem vacilar.

São José, homem temente a Deus, e por isso mesmo homem que perscruta o coração de Deus, que sabe qual é a Sua Vontade, homem que sabe exatamente o que não agrada ao seu Pai de amor. Esse temor o leva a afastar-se das ocasiões de pecado, porque o temor a Deus o leva a ter horror de ofendê-lo. Esse temor não é um temor servil, pelo contrário, é um dom infuso que capacita aquele que o tem a amar a Deus com amor profundo e comprometido, incondicional, sem divisão, esponsal.

Ao colocar Jesus em seus braços, São José compreendeu que a paternidade humana tem sua fonte na paternidade divina. Nenhum homem pode ser pai se não for um chamado divino e essa paternidade só é verdadeira se for vivida aos moldes da paternidade de Deus. São José compreendeu que havia sido escolhido por Deus para ser o pai adotivo de Jesus. Então, como São José viveu a paternidade?

Totalmente como o Pai do céu a viveria: sem egoísmo, sem dominação, com muita compreensão, esquecendo-se de si, sem violência, da forma que vive alguém que se reconhece pequeno, silencioso, sem nenhuma atitude que chame a atenção sobre si. Fiel a Deus e à sua família. Agradecido a Deus Pai pela paternidade que lhe confiara, por ter sido escolhido por Ele para ser o provedor de sua família, pelo pão de cada dia, por ter sido chamado a amar incondicionalmente, além de seus limites.

São José, esposo terno, compreensível, amoroso, que não pensa em si, que só sabe amar Maria, sua esposa, filha predileta de seu Deus. José, esposo de Maria, fiel e presente sempre, dom permanente de amor para os seus dois queridos que, livres das fraquezas e do pecado, acolhiam com caridade generosa suas imperfeições e fraquezas.

São José, esposo de Maria, que em toda prova foi fiel; ele, o mais fraco dos três, o único imperfeito, foi perfeito pai e esposo. Olhando para o homem de dois mil anos depois, encontramos facilmente esposos como São José? Capazes de amar suas esposas como Cristo amou a Igreja? De apresentá-las sem manchas nem rugas?...

São José, homem fiel ao ofício de carpinteiro, exercido para contribuir com o sustento de sua família, mas ao mesmo tempo consciente de que quem os sustentava era seu Pai de amor, que sustenta os pássaros do céu, que veste os lírios dos campos com vestes mais bonitas do que as do rei Salomão. São José, homem que confiava inteiramente na providência divina. Desapegado de tudo, apegado apenas em fazer a vontade de Deus e em fazer sua esposa e seu filho felizes.

São José, que nada possuía, abriu espaço para a visita da divina providência. Quem não se lançar nas mãos de Deus, quem não reconhece que tudo o que tem é providenciado por Deus, é incapaz de abrir espaço para esta nobre visita.

Não existe vida mais feliz do que a daquele que esquece-se de si para doar-se ao outro; que tudo faz para que o outro seja feliz; que sabe partilhar dores, bens, alegria, presença; que percebe dia após dia o crescimento dos filhos; que está atento às suas necessidades; que ama sem cobrança ou condições sua esposa ou esposo; que não cobiça os bens dos outros. Olhando para a vida do homem de hoje que vive na era do progresso, podemos afirmar que este progresso corresponde à sua felicidade e realização? Com certeza não. Podemos chamar de progresso o crescimento tecnológico, o desenvolvimento da ciência e de tantas outras coisas que você pode até saber mais do que eu? Sim. Mas paralelo a este progresso, infelizmente, humanamente o homem está regredindo, o homem não é feliz, existe dentro do seu coração um grande vazio.

Faça diferente, faça como São José, suplique sua ajuda, ele é o provedor, o intercessor das famílias, dos pais e esposos que anseiam por viver a vontade de Deus como ele: abandonando todo plano pessoal, obedecendo sempre ao Pai, amando sempre, servindo sempre. São José, pai de Jesus, casto esposo de Maria, rogai por nós!


Germana Perdigão
Consagrada da Comunidade Shalom

domingo, 14 de março de 2010

Chiara Lubich – Dois anos sem Chiara




Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares

14 de março de 2008
14 de março de 2010


“A ARTE DE AMAR

O amor que Deus
colocou nos nossos corações
não faz distinções,
é um amor dirigido a todos.

Não admite discriminações
entre o simpático ou o antipático,
o instruído ou o ignorante,
o amigo ou o inimigo...
Todos devem ser amados.

Mas existe uma medida nesse amor:
amar o próximo como a si mesmo.
Colocar o próximo no nosso mesmo nível.
Isto deve ser atuado ao pé da letra.

O amor cristão não é o do mundo,
onde muitas vezes amamos
porque somos amados...

O amor cristão é o primeiro a amar,
não espera ser amado.
Como Jesus, que morreu na cruz por nós.
Deu-nos a vida, por primeiro.

Esta é a grande arte de amar:
Amar todos.
Amar como a si mesmo.
Ser os primeiros a amar.

Existe ainda um modo típico e
prático para atuar este amor:
é "fazer-se um" com o próximo.
Sofrer com quem sofre,
alegrar-se com quem se alegra,
carregar os pesos dos outros.
Viver, num certo sentido, o outro;
como Jesus que, sendo Deus,
se tornou homem, por amor.

"Fazer-se um" com todos,
em tudo, exceto no pecado.
Viver o outro, viver os outros.

Este é um grande ideal”.


Chiara Lubich
Focolares


Chiara Lubich – Jesus convida-nos a ter o mesmo amor sem limites do Pai



Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares

14 de março de 2008
14 de março de 2009


Jesus convida-nos a ter o mesmo amor sem limites do Pai

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado» (Lc 15,32)

Esta frase se encontra no final da chamada parábola do filho pródigo - que certamente você conhece - e quer revelar-nos a grandeza da misericórdia de Deus. Ela conclui todo um capítulo do Evangelho de Lucas, no qual Jesus narra outras duas parábolas para ilustrar o mesmo assunto.

Lembra-se do episódio da ovelha desgarrada, em que o dono do rebanho procura aquela que se perdera, deixando as outras noventa e nove no deserto?

Lembra-se também da história da dracma perdida e da alegria da mulher que, após encontrá-la, chama as amigas e as vizinhas para se alegrarem com ela?

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado»

Estas palavras são um convite que Deus dirige a você, e a todos os cristãos, para rejubilar-se com ele, para festejar e participar da sua alegria pela volta do homem pecador que antes estava perdido e depois foi encontrado. E, na parábola, são estas as palavras dirigidas pelo pai ao filho mais velho que havia compartilhado toda a sua vida mas que, após um dia de trabalho duro, se recusa a entrar em casa, onde se festeja a volta de seu irmão.

O pai vai ao encontro do filho fiel - assim como foi ao encontro do filho perdido - e procura convencê-lo. Mas é evidente o contraste entre os sentimentos do pai e os sentimentos do filho mais velho: de um lado o pai, com seu amor sem limites e com sua grande alegria, da qual gostaria que todos participassem; do outro lado o filho, cheio de desprezo e de ciúmes de seu irmão, que ele não reconhece mais como irmão. Com efeito, falando dele, diz: "Este teu filho, que devorou teus bens".

O amor e a alegria do pai pelo filho que voltou evidenciam ainda mais o rancor do outro, rancor que indica um relacionamento frio - diríamos até falso - com o próprio pai. A este filho importa o trabalho, o cumprimento do seu dever; mas ele não ama o pai como um verdadeiro filho. Ao contrário, mais parece que lhe obedece como a um patrão.

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado»

Com estas palavras Jesus denuncia um perigo em que também você pode incorrer: viver apenas para ser uma "pessoa de bem", baseando sua vida na busca da perfeição e criticando os irmãos "menos perfeitos" que você. Na verdade, se você estiver "apegado" à perfeição, construirá o seu ego, ficará cheio de si mesmo, cheio de admiração pela própria pessoa. Será como o filho que permaneceu em casa, e que enumera ao pai os seus méritos: "Há tantos anos que eu te sirvo e jamais transgredi um só dos teus mandamentos".

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado»

Com estas palavras, Jesus censura aquela atitude segundo a qual a relação com Deus estaria fundamentada apenas na observância dos mandamentos, porque essa observância não é suficiente. Disso também a tradição judaica está bem consciente.

Nesta parábola Jesus põe em evidência o Amor divino, mostrando como Deus, que é Amor, dá o primeiro passo em direção ao homem sem levar em consideração se ele merece ou não; Deus quer que o homem se abra a ele para poder estabelecer uma autêntica comunhão de vida. Naturalmente, como você pode entender, o maior obstáculo diante de Deus-Amor é justamente a vida daqueles que acumulam ações, obras, enquanto Deus quer simplesmente o seu coração.

"Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado"

Com estas palavras, Jesus convida você a ter, diante do homem pecador, o mesmo amor sem limites que o Pai tem para com ele. Jesus o convida a não julgar segundo a sua própria medida o amor que o Pai tem para com qualquer pessoa. Convidando o filho mais velho a compartilhar a sua alegria pelo filho encontrado, o Pai pede também a você uma mudança de mentalidade: na prática, você deve acolher como irmãos e irmãs também aqueles homens e mulheres pelos quais nutriria apenas sentimentos de desprezo e de superioridade. Isto provocará em você uma verdadeira conversão, porque o purifica da sua convicção de ser "mais perfeito", evita que você caia na intolerância religiosa e o faz acolher como puro dom do amor de Deus a salvação que Jesus lhe proporcionou.


Chiara Lubich
Palavra de vida, Março de 2001
Focolares

Chiara Lubich – Deus deseja a misericórdia e não o sacrifício



Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares

14 de março de 2008
14 de março de 2010


«Ide, pois, aprender o que significa: 'Desejo a misericórdia e não o sacrifício'.» (Mt 9,13)

A atitude de Jesus era tão nova diante da mentalidade comum que, muitas vezes, por assim dizer, escandalizava as pessoas de bem. Como aconteceu quando ele convidou Mateus a segui-lo e depois foi almoçar com ele. Mateus era um cobrador de impostos. Por causa do seu ofício, o povo não só não gostava dele mas o considerava um pecador público, um inimigo a serviço do Império Romano.

Por que - questionam os fariseus - Jesus come com um pecador? Não é melhor manter distância de certas pessoas? Essa pergunta torna-se para Jesus uma ocasião de explicar que ele quer ir ao encontro justamente dos pecadores, assim como um médico vai ao encontro dos doentes; e ele conclui dizendo aos fariseus que procurem estudar o significado da palavra de Deus pronunciada no Antigo Testamento pelo profeta Oséias: "Desejo a misericórdia e não o sacrifício".

Por que Deus quer de nós a misericórdia? Porque deseja que sejamos como ele. Devemos assemelhar-nos a ele assim como os filhos se assemelham ao pai e à mãe. Ao longo de todo o Evangelho, Jesus nos fala do amor do Pai para com os bons e os maus, para com os justos e os pecadores. Deus ama cada um, não faz distinções e não exclui ninguém. Se ele tem alguma preferência, é por aqueles que, aparentemente, menos merecem ser amados, como é o caso do filho pródigo da parábola. "Sede misericordiosos - explica Jesus - como vosso Pai é misericordioso": esta é a perfeição.

«Ide, pois, aprender o que significa: 'Desejo a misericórdia e não o sacrifício'.»

Também hoje Jesus dirige a cada um de nós o convite: "Ide, pois, aprender…" Mas, ir para onde? Quem poderá nos ensinar o que significa ser misericordioso? Uma única pessoa: só ele, Jesus, que foi à procura da ovelha perdida, que perdoou aos que o tinham traído e crucificado, que deu sua vida pela nossa salvação. Para aprendermos a ser misericordiosos como o Pai, perfeitos como ele, precisamos olhar para Jesus, que é a plena revelação do amor do Pai. Ele disse: "Quem me viu, viu o Pai".

«Ide, pois, aprender o que significa: 'Desejo a misericórdia e não o sacrifício'.»

Por que a misericórdia e não o sacrifício? Porque o amor é o valor absoluto que dá sentido a todo o resto, também ao culto, também ao sacrifício. Com efeito, o sacrifício mais agradável a Deus é o amor concreto para com o próximo, que encontra a sua expressão mais alta na misericórdia.

Misericórdia que ajuda a ver sempre novas as pessoas com as quais vivemos a cada dia, na família, na escola, no trabalho, sem nos lembrarmos mais dos seus defeitos, dos seus erros; que não nos leva a julgar mas a perdoar as injustiças sofridas. Mais ainda: a esquecê-las.

O nosso sacrifício não consistirá tanto em fazer longas vigílias e jejuns, dormir no chão, mas em acolher sempre no nosso coração qualquer um que passe ao nosso lado, seja ele bom ou mau.

Foi isso que fez um senhor que trabalhava no setor de recepção e caixa de um hospital. O seu povoado tinha sido inteiramente incendiado pelos seus "inimigos". Um belo dia viu chegar um homem com um parente doente. Pelo seu sotaque descobriu logo que se tratava de um dos "inimigos". Ele estava assustado; não queria revelar a sua identidade para não ser mandado embora. O caixa não lhe pediu os documentos e lhe ajudou, apesar de ter que se esforçar para superar o ódio que há tempo remoía dentro dele. Nos dias seguintes teve a possibilidade de dar-lhe assistência em diversas ocasiões. No último dia de internação o "inimigo" foi pagar a conta e disse ao caixa: "Preciso lhe confessar uma coisa que você não sabe". E ele: "Desde o primeiro dia sei quem é você". "E por que você me ajudou, se eu sou um 'inimigo' seu?"

Assim como aconteceu com ele, também para nós a misericórdia nasce do amor que sabe sacrificar-se por quem quer que seja, conforme o exemplo de Jesus, que chegou ao ponto de dar a vida por todos.


Chiara Lubich
Palavra de vida, Junho de 2002
Focolares

Chiara Lubich – Sede bondosos e compassivos uns para com os outros



Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares

14 de março de 2008
14 de março de 2010


«Sede bondosos e compassivos, uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Cristo» (Ef 4,32)

É um programa de vida concreto e essencial. Só ele já bastaria para criar uma sociedade diferente, mais fraterna, mais solidária. Ele faz parte de um amplo projeto que o Apóstolo propõe aos cristãos da Ásia Menor. Naquela comunidade foi alcançada a paz entre judeus e gentios, os dois povos até então divididos que representavam a humanidade. A unidade, doada por Cristo, deve ser sempre reavivada e traduzida em comportamentos sociais concretos, inteiramente inspirados pelo amor mútuo. Daí a razão por que Paulo dá estas orientações sobre como devemos nos relacionar:

«Sede bondosos e compassivos, uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Cristo»

“Sede bondosos…”: ser bom, querer o bem do outro. É “fazer-nos um” com ele, aproximar-nos dele estando completamente vazios de nós mesmos, dos nossos interesses, das nossas idéias, dos muitos preconceitos que ofuscam o nosso olhar, para tomar sobre nós os seus pesos, suas necessidades, seus sofrimentos, para compartilhar as suas alegrias.

É entrar no coração daqueles que encontramos para entender a sua mentalidade, sua cultura, suas tradições e, de certo modo, fazê-las nossas; para entender realmente aquilo de que estão precisando e saber colher os valores que Deus derramou no coração de cada pessoa. Numa palavra: viver por quem está ao nosso lado.

“Sede compassivos…”: a compaixão. Acolher o outro tal como ele é; não como gostaríamos que fosse: com um caráter diferente, com as mesmas idéias políticas nossas, com as nossas convicções religiosas e sem os tais defeitos ou modos de fazer que tanto nos incomodam. Não. É preciso dilatar o coração e torná-lo capaz de acolher a todos na sua diversidade, com os seus limites e misérias.

“… perdoando-vos mutuamente": o perdão. Ver o outro sempre novo. Mesmo nas convivências mais agradáveis e serenas, na família, na escola, no trabalho, nunca faltam os momentos de atrito, as divergências, os desencontros. Às vezes se chega a não falar mais um com o outro, ou a evitar-se, isso quando não se estabelece no coração um verdadeiro ódio contra os que têm um ponto de vista diferente. A conquista mais forte e exigente é procurar ver cada dia o irmão e a irmã como se fossem novos, novíssimos, esquecendo-se completamente das ofensas recebidas e cobrindo tudo com o amor, com uma anistia total do nosso coração, imitando desta forma Deus, que perdoa e esquece.

E enfim, alcançamos a paz verdadeira e a unidade quando vivemos a bondade, a compaixão e o perdão não apenas como pessoas isoladamente, mas em conjunto, na reciprocidade.

E assim como acontece numa fogueira, onde as brasas são sufocadas pela cinza se não forem remexidas, da mesma forma as relações com os outros podem ser sufocadas pela cinza da indiferença, da apatia, do egoísmo, se não reavivarmos de tempo em tempo os propósitos de amor mútuo, os relacionamentos com todos.

«Sede bondosos e compassivos, uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Cristo»

Essas atitudes precisam ser traduzidas em fatos, em ações concretas.

O próprio Jesus demonstrou o que é o amor quando curou os doentes, quando saciou a fome das multidões, quando ressuscitou os mortos, quando lavou os pés dos discípulos. Fatos, fatos: isso é amar.

Lembro de uma mãe de família africana: viu a própria filha Rosângela perder um dos olhos, vítima da agressividade de um garoto que a feriu com um pedaço de pau e ainda continuava caçoando dela. Nem o pai nem a mãe do menino tinham pedido desculpas pelo acontecido. O silêncio, a falta de relacionamento com essa família a deixavam angustiada. “Fique tranqüila – dizia Rosângela, que já tinha perdoado –, ainda tive sorte: pelo menos posso ver com o outro olho!”

“Um dia, de manhã – conta a mãe de Rosângela –, a mãe daquele garoto mandou me chamar porque estava passando mal. A minha primeira reação foi: ‘Essa não! Ela tem tantos outros vizinhos, e agora vem pedir ajuda logo a mim, depois de tudo o que seu filho fez conosco!’.

Mas na hora me lembrei de que o amor não tem barreiras. Corri até a sua casa. Ela abriu a porta e desmaiou nos meus braços. Levei-a para o hospital e lá fiquei até que os médicos a atendessem. Depois de uma semana, quando ela teve alta, veio até em casa para me agradecer. Procurei acolhê-la de todo o coração. Consegui perdoá-la. Agora o relacionamento se recompôs. Ou melhor, começou totalmente novo”.

Podemos preencher também o nosso dia com serviços concretos, humildes e inteligentes, expressões do nosso amor. Veremos crescer ao nosso redor a fraternidade e a paz.


Chiara Lubich
Palavra de vida, Agosto 2006
Focolares

Chiara Lubich – Jesus viveu por amor, irradiando amor, doando amor, trazendo a lei do amor



Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares

14 de março de 2008
14 de março de 2010


Jesus viveu por amor, irradiando amor, doando amor, trazendo a lei do amor

"Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14,6)

Talvez não exista nos Evangelhos uma definição mais elevada e mais completa de Jesus do que esta, a de que Ele, Jesus, dá de si mesmo. É uma síntese da sua missão e da sua identidade. E ela é comunicada a nós, para que possamos encontrar nele o caminho mais seguro, o único que leva ao Pai. Com efeito, o versículo se conclui com as palavras: "Ninguém vai ao Pai senão por mim". Com as suas palavras Jesus nos revela aquilo que Ele é em si mesmo, e o que Ele é para cada homem e mulher desta terra.

«Eu sou o caminho, a verdade e a vida»

De que modo Jesus nos revela que Ele é a verdade? Dando testemunho da verdade com a sua vida e seu ensinamento. "Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade" (Jo 18,37). Nós vivemos de acordo com a verdade, nós somos verdade, na medida em que somos a Palavra de Jesus. Mas, se Jesus é o caminho enquanto é a verdade, também é o caminho enquanto é vida para nós. "Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância" (Jo 10,10). Quando nos nutrimos dele feito Pão na Eucaristia, bem como quando nos nutrimos de sua Palavra, Cristo cresce em nós.

E para que esta vida que existe em nós não se apague, nós, por nossa vez, devemos comunicá-la do único modo que Jesus nos ensinou: oferecendo-a como um dom aos nossos próximos.

«Eu sou o caminho, a verdade e a vida»

"Preparai o caminho do Senhor" (Lc 3,4), gritava o Batista no deserto de Judá, fazendo eco ao profeta Isaías. E aí está Aquele que se apresenta como o Senhor-Caminho, como Deus feito homem para que tenhamos acesso ao Pai por meio de sua humanidade.
Mas, qual foi o caminho usado por Jesus?

Sendo Filho de Deus, que é Amor, Jesus veio a esta terra por amor, viveu por amor, irradiando amor, doando amor, trazendo a lei do amor, e morreu por amor. Depois, ressuscitou e subiu ao Céu, realizando o seu plano de amor. Pode-se dizer que o caminho percorrido por Jesus tem um só nome: amor. E que nós, para segui-lo, devemos caminhar por esse caminho: o caminho do amor.

Mas, o amor que Jesus viveu e que Ele trouxe é um amor especial, único. Não é filantropia, nem simplesmente solidariedade ou benevolência, nem mesmo apenas amizade ou afeto; nem sequer é somente não-violência. É algo de excepcional, de divino: é o próprio amor que arde em Deus. Jesus nos deu uma chama daquele infinito incêndio, um raio daquele imenso sol: amor divino aceso no nosso coração pelo batismo e pela fé, alimentado pelos outros sacramentos, que é um dom de Deus mas que pede toda a nossa parte, a nossa correspondência.

Devemos fazer frutificar esse amor. De que modo? Amando. Não somos plenamente cristãos sem esta nossa contribuição segura. Amando, seguiremos Jesus-Caminho e seremos, como Ele, caminho até o Pai, para muitos de nossos irmãos e irmãs. E seremos cristãos mais convincentes se vivermos juntos este mandamento do amor que Jesus nos deu.

Embora ainda não exista a plena unidade entre nós, entre todos os seguidores de Jesus, podemos demonstrar o amor recíproco com a vida. Com isto temos a possibilidade de ver realizada uma promessa de Jesus: "Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome - que alguns Padres da Igreja interpretam 'no meu amor' - ali estou eu no meio deles" (Mt 18,20).

Nós, cristãos, podemos gozar desde já deste dom da presença de Jesus, por exemplo entre um católico e um anglicano, entre uma ortodoxa e uma metodista, entre um valdense e um armênio. Jesus no meio dos seus! Desse modo será Ele a dizer ao mundo que ainda não o conhece: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida".

Neste mês, sejamos também mais conscientes de que, acima de tudo, a unidade dos cristãos é uma graça e que, portanto, é preciso pedir esse dom. Contemos com a oração feita em conjunto, porque Jesus disse: "Se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus" (Mt 18,19).


Chiara Lubich
Palavra de vida, Janeiro de 2001
Focolares

Quaresma - Ó Cristo, tu que és todo misericórdia, dá-nos a tua graça



Ó Cristo, tu que és todo misericórdia, dá-nos a tua graça

Senhor, a tua misericórdia é eterna. Ó Cristo, Tu que és todo misericórdia, dá-nos a tua graça; estende a tua mão e vem em auxílio de todos os que são tentados, Tu que és bom. Tem piedade de todos os teus filhos e vem em seu socorro; concede-nos, Senhor misericordioso, que nos refugiemos à sombra da proteção de tua misericórdia e sejamos libertos do mal e dos seus adeptos.

No tempo da desgraça e da perturbação, tornamo-nos como que refugiados e os nossos anos esmoreceram sob a miséria e as infelicidades. Senhor, Tu que acalmaste o mar só com uma palavra, apazigua também na tua misericórdia as perturbações do mundo, sustenta o universo que oscila sob o peso das suas faltas.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Senhor, que a tua mão misericordiosa repouse sobre os crentes e confirme a promessa que fizeste aos apóstolos: "Estou convosco todos os dias até ao fim do mundo" (Mt 28,20). Sê o nosso socorro como foste o deles e, pela tua graça, salva-nos de todo o mal; dá-nos a segurança e a paz, a fim de te rendermos graças e adoremos o teu Santo Nome em todo o tempo.


Santo Efren
Hino de Ofício II

Quaresma - Experimentar a Misericórdia Divina



«Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia»

A misericórdia de Cristo

«Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia». Partindo, como sempre, da afirmação de que as bem-aventuranças são o auto-retrato de Cristo, também desta vez nos propomos imediatamente a pergunta: como Jesus viveu a misericórdia? O que a sua vida nos diz sobre esta bem-aventurança?

Na Bíblia, a palavra misericórdia se apresenta com dois significados fundamentais: o primeiro indica a atitude da parte mais forte (na aliança, Deus mesmo) para com a parte mais fraca e se expressa habitualmente no perdão das infidelidades e das culpas; o segundo indica a atitude para com a necessidade do outro e se expressa nas chamadas obras de misericórdia. (Neste segundo sentido, o termo se repete com freqüência no livro de Tobias). Existe, por assim dizer, uma misericórdia do coração e uma misericórdia das mãos.

Na vida de Jesus resplandecem as duas formas. Ele reflete a misericórdia de Deus para com os pecadores, mas se comove também ante todos os sofrimentos e necessidades humanas, intervém para dar de comer à multidão, curar os enfermos, libertar os oprimidos. Dele o evangelista diz: «Tomou sobre si nossas fraquezas e carregou nossas enfermidades» (Mt 8, 17).

Em nossa bem-aventurança, o sentido que prevalece é certamente o primeiro, o do perdão e da remissão dos pecados. Nós o deduzimos pela correspondência entre a bem-aventurança e sua recompensa: «Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia», entende-se que é ante Deus, que perdoará seus pecados. A frase: «Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso», se explica imediatamente com «perdoai e sereis perdoados» (Lc 6, 36-37).

É conhecida a acolhida que Jesus reserva aos pecadores no Evangelho e a oposição que isso lhe causou por parte dos defensores da lei, que o acusavam de ser «um comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores» (Lc 7, 34). Uma das falas historicamente melhor testemunhadas de Jesus é: «Não vim para chamar os justos, mas os pecadores» (Mc 2, 17). Sentindo-se por Ele acolhidos e não julgados, os pecadores o escutavam com agrado.

Um Deus que se alegra em ter misericórdia

Jesus justifica sua conduta para com os pecadores dizendo que assim atua o Pai celestial. A seus detratores recorda a palavra de Deus nos profetas: «Misericórdia quero, e não sacrifícios» (Mt 9, 13). A misericórdia para com a infidelidade do povo, a hesed, é o traço mais sobressalente do Deus da Aliança e enche a Bíblia de um extremo a outro.

Um salmo o repete em forma de ladainha, explicando com ela todos os eventos da história de Israel: «Porque eterna é sua misericórdia» (Sal 136). Ser misericordiosos se apresenta assim como um aspecto essencial do ser «à imagem e semelhança de Deus». «Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36) é uma paráfrase do famoso: «Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo» (Lv 19, 2).

Mas o mais surpreendente acerca da misericórdia de Deus, é que Ele experimenta alegria em ter misericórdia. Jesus conclui a parábola da ovelha perdida dizendo: «Haverá mais alegria no céu por um só pecador que se converta que por noventa e nove justos que não tenham necessidade de conversão» (Lc 15, 7). A mulher que encontrou o dracma perdido grita a suas amigas: «Alegrai-vos comigo». Na parábola do filho pródigo, também a alegria transborda e se converte em festa, banquete.

Não se trata de um tema isolado, mas profundamente enraizado na Bíblia. Em Ezequiel, Deus diz: «Eu não me alegro na morte do malvado, mas (me alegro!) em que o malvado se converta de sua conduta e viva» (Ez 33, 11). Miquéias diz que Deus «se alegra em ter misericórdia» (Mi 7, 18), isto é, experimenta gozo ao fazê-lo.

Mas por que - surge a questão - uma ovelha deve contar, na balança, como todas as demais juntas, e importar mais, precisamente porque escapou e criou mais problemas? Eu encontrei uma explicação convincente no poeta Charles Péguy. Aquela ovelha - como o filho menor -, ao extraviar-se, fez o coração de Deus tremer. Deus temeu perdê-la para sempre, ver-se obrigado a condená-la e privar-se dela eternamente. Este medo fez brotar a esperança em Deus, e a esperança, uma vez realizada, provocou a alegria e a festa. «Toda penitência do homem é a coroação de uma esperança de Deus» (Ch. Péguy, Il portico del mistero Della seconda virtù). É uma linguagem figurada, como tudo que falamos de Deus, mas contém uma verdade. Nos homens, a condição que torna a esperança possível é o fato de que não conhecemos o futuro, e por isso o esperamos. Em Deus, que conhece o futuro, a condição é que não quer (e, em certo sentido, não pode) realizar o que deseja sem nossa permissão. A liberdade humana explica a existência da esperança em Deus.

O que dizer então das noventa e nove ovelhas bem comportadas e do filho maior? Não existe nenhuma alegria no céu por eles? Vale a pena viver toda a vida como bons cristãos? Recordemos o que responde o Pai ao filho maior: «Filho, tu sempre estás comigo e tudo o que é meu é teu» (Lc 15, 31). O erro do filho maior está em considerar que ter ficado sempre em casa e ter compartilhado tudo com o Pai não é um privilégio imenso, mas um mérito; ele se comporta como mercenário, mais que como filho (isso deveria ser uma alerta para todos nós, que, por estado de vida, nos encontramos na mesma situação que o filho maior!).

Sobre este ponto, a realidade foi melhor que a própria parábola. Na verdade, o filho mais velho - o Primogênito do Pai, o Verbo -, não ficou na casa paterna; Ele partiu para «uma região distante» para buscar o filho menor, isto é, a humanidade caída; foi Ele quem lhe reconduziu a casa, quem lhe procurou vestes e lhe preparou um banquete para participar, em cada Eucaristia.

Em uma novela sua, Dostoievski descreve uma cena que tem todo o ambiente de uma imagem real. Uma mulher do povo tem em seus braços a sua criança de poucas semanas, quando esta - pela primeira vez, diz ela - lhe sorri. Compungida, ela faz o sinal da cruz e a quem lhe pergunta o por que desse gesto, ela responde: «Assim como uma mãe é feliz quando nota o primeiro sorriso de seu filho, assim se alegra Deus cada vez que um pecador se ajoelha e lhe dirige uma oração com todo o coração» (F. Dostoevskij, L'Idiota).

Nossa misericórdia, causa ou efeito da misericórdia de Deus?

Jesus diz «Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia»; e no Pai Nosso nos faz rezar: «Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido». Diz também: «Se não perdoais os homens, tampouco vosso Pai perdoará vossas ofensas» (Mt 6, 5). Estas frases poderiam levar a pensar que a misericórdia de Deus para conosco é um efeito de nossa misericórdia para com os outros, e que é proporcional a ela.

Se assim fosse, no entanto, estaria completamente invertida a relação entre graça e boas obras, e se destruiria o caráter de pura gratuidade da misericórdia divina solenemente proclamado por Deus ante Moisés: «Realizarei graça a quem quiser fazer graça e terei misericórdia de quem quiser ter misericórdia» (Ex 33, 19).

Devemos, então, ter misericórdia porque recebemos misericórdia, não para receber misericórdia; mas é preciso ter misericórdia, senão a misericórdia de Deus não terá efeito em nós e nos será retirada, como o senhor da parábola a retirou ao servo impiedoso. A graça «previne» sempre e é ela a que cria o dever: «Como o Senhor vos perdoou, perdoai-vos também vós», escreve São Paulo aos Colossenses (Col 3, 13).

Experimentar a misericórdia divina

Se a misericórdia divina está no início de tudo e é ela a que exige e torna possível a misericórdia de uns para com os outros, então o mais importante para nós é ter uma experiência renovada da misericórdia de Deus. Nós estamos nos aproximando da Páscoa e esta é a experiência pascal por excelência.

O escritor Franz Kafka tem uma novela titulada «O Processo». Nela, fala de um homem que um dia, sem que ninguém saiba por que, é declarado em detenção, ainda que continue com sua vida costumeira e seu trabalho de modesto empregado. Começa uma extenuante busca para conhecer os motivos, o tribunal, as imputações, os procedimentos. Mas ninguém sabe dizer-lhe nada; só que existe verdadeiramente um processo contra ele. Até que um dia chegam para levá-lo à execução da sentença. No curso do sucesso se vai conhecendo que haveria, para este homem, três possibilidades: a absolvição autêntica, a absolvição aparente e a prorrogação. A absolvição aparente e a prorrogação, contudo não resolveriam nada; serviriam só para manter o imputado em uma incerteza mortal por toda a vida. Na absolvição autêntica, ao contrário, «as atas processuais devem ser completamente suprimidas, desaparecem totalmente do processo, não só a acusação, mas também o processo e até a sentença se destroem, tudo é destruído». Mas destas absolvições autênticas, tão suspiradas, não se sabe da existência de nenhuma; há só rumores ao respeito, nada mais que «belíssimas lendas». A obra conclui assim como todas as do autor: algo que se entrevê de longe, se persegue com afã como um pesadelo noturno, mas sem possibilidade alguma de alcançá-lo.

Na Páscoa, a liturgia da Igreja nos transmite a incrível notícia de que a absolvição autêntica existe para o homem, não é só uma lenda, algo belíssimo, mas inalcançável. Jesus destruiu «a acusação que havia contra nós; e a suprimiu pregando-a na cruz» (Col 2, 14). Destruiu tudo. «Nenhuma condenação pesa já para os que estão em Cristo Jesus» (Rm 8, 1). Nenhuma condenação! De nenhum tipo! Para os que crêem em Cristo Jesus!

Em Jerusalém havia uma piscina milagrosa e o primeiro que se jogava dentro, quando as águas se agitavam, ficava curado (v. Jo 5, 2 ss). No entanto a realidade, também aqui, é infinitamente maior que o símbolo. Da cruz de Cristo brotou a fonte de água e sangue, e não um só, mas todos os que se ajoelham dentro saem curados.

Depois do batismo, esta piscina milagrosa é o sacramento da Reconciliação, e esta última meditação desejaria servir precisamente como preparação para uma boa confissão pascal. Uma confissão «fora de série», ou seja, diferente das acostumadas, na qual permitamos de verdade ao Paráclito «convencer-nos do pecado». Poderíamos tomar como espelho as bem-aventuranças meditadas na Quaresma, começando agora e repetindo juntos a expressão tão antiga e tão bela:

Kyrie eleison! Senhor, tende piedade de nós!


«Bem-aventurados os puros de coração»: Senhor, reconheço toda a impureza e a hipocrisia que há em meu coração, talvez, a dupla vida que levo ante Vós e ante os outros. Kyrie eleison!

«Bem-aventurados os mansos»: Senhor, eu vos peço perdão pela impaciência e pela violência oculta que existe dentro de mim, pelos juízos temerários, o sofrimento que provoquei às pessoas a meu redor... Kyrie eleison!

«Bem-aventurados os que têm fome»: Senhor, perdoai minha indiferença para com os pobres e os famintos, minha contínua busca de comodidade, meu estilo de vida aburguesado... Kyrie eleison!

«Bem-aventurados os misericordiosos»: Senhor, freqüentemente pedi e recebi rapidamente a vossa misericórdia, sem dar-me conta do preço que ela vos custou! Com freqüência fui o servo perdoado que não sabe perdoar. Kyrie eleison!

Há uma graça especial quando não é só o indivíduo, mas toda a comunidade a que se põe ante Deus nesta atitude penitencial. De uma experiência profunda da misericórdia de Deus se sai renovados e cheios de esperança: «Deus, rico de misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, estando nós mortos por causa de nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo» (Ef 2, 4-5).

Procuremos identificar, em nossas relações com os outros, aquela que pareça mais necessitada de receber o óleo da misericórdia e da reconciliação, e a invoquemos silenciosamente, com abundância, pela Páscoa. Unamo-nos a nossos irmãos ortodoxos, que na Páscoa não se cansam de cantar:

«É o dia da Ressurreição!
Irradiamos gozo pela festa,
Abracemo-nos todos.
Digamos irmão também a quem nos odeia,
Perdoemos tudo por amor à Ressurreição»


Frei Raniero Cantalamessa
Cantalamessa.org

Quaresma - Manifestemos a bondade do Senhor



Manifestemos a bondade do Senhor

Considera de onde te vem a existência, a respiração, a inteligência, a sabedoria, e, acima de tudo, o conhecimento de Deus, a esperança do reino dos céus e a contemplação da glória que, no tempo presente, é ainda imperfeita com num espelho e em enigma, mas que um dia haverá de ser mais plena e mais pura. Considera de onde te vem a graça de seres filho de Deus, herdeiro com Cristo e, falando com mais ousadia, de teres também sido elevado à condição divina. De onde e de quem vem tudo isso?

Ou ainda, - se quisermos falar de coisas menos importantes e que podemos ver com os nossos olhos – quem te concedeu a felicidade de contemplar a beleza do céu, o curso do sol, a órbita da lua, a multidão dos astros e aquela harmonia e ordem que se manifestam em tudo isso como uma lira afinada?

Quem te deu as chuvas, as lavouras, os alimentos, as artes, a morada, as leis, a sociedade, a vida tranqüila e civilizada, a amizade e a alegria da vida familiar?

De onde te vem poderes dispor dos animais, os domésticos para teu serviço e os outros para teu alimento?
Quem te constituiu senhor e rei de todas as coisas que há na face da terra?

E, porque não é possível enumerar uma a uma todas as coisas, pergunto finalmente: quem deu ao homem tudo aquilo que o torna superior a todos os outros seres vivos?

Porventura não foi Deus? Pois bem, agora, o que Ele te pede em compensação por tudo, e acima de tudo, não é o teu amor para com Ele e para com o próximo? Sendo tanto e tão grande os dons que recebemos ou esperamos dele, não lhe oferecer nem mesmo esta única retribuição que pede que é o amor? E se Ele, embora sendo Deus e Senhor, não se envergonha de ser chamado nosso Pai, poderíamos nós fechar o coração aos nossos irmãos?

De modo algum, meus irmãos e amigos, de modo algum sejamos maus administradores dos bens que nos foram concedidos pela graça divina, a fim de não ouvirmos a repreensão de Pedro: “Envergonhai-vos, vós que vos apoderais do que não é vosso; imitai a justiça de Deus e assim ninguém será pobre”.

Não nos procuremos em acumular e conservar riquezas, enquanto outros padecem necessidade, para não merecermos aquelas duras e ameaçadoras palavras do profeta Amós: Tomai cuidado, vós que andais dizendo: “Quando passará o mês para vendermos; o sábado, para abrirmos nosso celeiros?” (cf. Am 8,5).

Imitemos aquela excelsa e primeira lei de Deus, que faz chover sobre os justos e os pecadores e faz o sol igualmente levantar-se para todos; que oferece aos animais que vivem na terra a extensão dos campos, as fontes, os rios e as florestas; que dá às aves a amplidão dos céus, e os animais aquáticos, a vastidão das águas; que proporciona a todos, liberalmente, os meios necessários para a sua subsistência, sem restrições, sem condições, sem fronteiras; que põe tudo em comum, à disposição de todos eles, com abundância e generosidade, de modo que nada falte a ninguém. Assim procede Deus para com as suas criaturas, a fim de conceder a cada um os bens de que necessita segundo a sua natureza e dignidade, e manifestar a todos a riqueza da sua bondade.


São Gregório de Nazianzo
Oratio 14, De pauperum amoré,
23-24:pp.35,889-890

Quaresma - Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso



Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso

Se a nossa caridade fosse acompanhada de compaixão e de pena, não daríamos tanta atenção aos defeitos do próximo, de acordo com a palavra que diz: “A caridade cobre uma multidão de pecados” (1Pe 4,8) e também: “A caridade não se atarda no mal, desculpa tudo” (1Co, 13,5.7).

Por isso, se tivéssemos caridade, essa mesma caridade cobriria toda a falta e nós seríamos como os santos quando vêem os defeitos dos homens. Será então que os santos são cegos a ponto de não verem os pecados? Mas haverá quem deteste tanto o pecado como os santos? E, contudo, eles não odeiam o pecador, não o julgam, não o evitam. Pelo contrário, compadecem-se dele, exortam-no, consolam-no, tratam-no como a um membro doente; fazem tudo para o salvar.

Quando uma mãe tem um filho deficiente, não se afasta dele com horror mas tem gosto em vesti-lo bem e em tudo fazer para o embelezar. É assim que os santos protegem sempre o pecador e se ocupam dele para o corrigirem no momento oportuno, para o impedirem de prejudicar outrem e, assim, para eles próprios progredirem na caridade de Cristo.

Adquiramos, pois, também nós, a caridade; adquiramos a misericórdia para com o próximo, para nos defendermos da terrível maledicência, do julgamento e do desprezo. Prestemos socorro uns aos outros, como se fossem os nossos próprios membros… Porque “somos membros uns dos outros”, diz o apóstolo Paulo (Rm 12,5); “se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele” (1Co 12,27). Numa palavra, tende cuidado, cada qual à sua maneira, em permanecer unidos uns aos outros. Porque, quanto mais unido se está ao próximo, tanto mais se está unido a Deus.


São Doroteu de Gaza, Monge
Instruções, IV, 76