domingo, 14 de março de 2010

Quaresma - Manifestemos a bondade do Senhor



Manifestemos a bondade do Senhor

Considera de onde te vem a existência, a respiração, a inteligência, a sabedoria, e, acima de tudo, o conhecimento de Deus, a esperança do reino dos céus e a contemplação da glória que, no tempo presente, é ainda imperfeita com num espelho e em enigma, mas que um dia haverá de ser mais plena e mais pura. Considera de onde te vem a graça de seres filho de Deus, herdeiro com Cristo e, falando com mais ousadia, de teres também sido elevado à condição divina. De onde e de quem vem tudo isso?

Ou ainda, - se quisermos falar de coisas menos importantes e que podemos ver com os nossos olhos – quem te concedeu a felicidade de contemplar a beleza do céu, o curso do sol, a órbita da lua, a multidão dos astros e aquela harmonia e ordem que se manifestam em tudo isso como uma lira afinada?

Quem te deu as chuvas, as lavouras, os alimentos, as artes, a morada, as leis, a sociedade, a vida tranqüila e civilizada, a amizade e a alegria da vida familiar?

De onde te vem poderes dispor dos animais, os domésticos para teu serviço e os outros para teu alimento?
Quem te constituiu senhor e rei de todas as coisas que há na face da terra?

E, porque não é possível enumerar uma a uma todas as coisas, pergunto finalmente: quem deu ao homem tudo aquilo que o torna superior a todos os outros seres vivos?

Porventura não foi Deus? Pois bem, agora, o que Ele te pede em compensação por tudo, e acima de tudo, não é o teu amor para com Ele e para com o próximo? Sendo tanto e tão grande os dons que recebemos ou esperamos dele, não lhe oferecer nem mesmo esta única retribuição que pede que é o amor? E se Ele, embora sendo Deus e Senhor, não se envergonha de ser chamado nosso Pai, poderíamos nós fechar o coração aos nossos irmãos?

De modo algum, meus irmãos e amigos, de modo algum sejamos maus administradores dos bens que nos foram concedidos pela graça divina, a fim de não ouvirmos a repreensão de Pedro: “Envergonhai-vos, vós que vos apoderais do que não é vosso; imitai a justiça de Deus e assim ninguém será pobre”.

Não nos procuremos em acumular e conservar riquezas, enquanto outros padecem necessidade, para não merecermos aquelas duras e ameaçadoras palavras do profeta Amós: Tomai cuidado, vós que andais dizendo: “Quando passará o mês para vendermos; o sábado, para abrirmos nosso celeiros?” (cf. Am 8,5).

Imitemos aquela excelsa e primeira lei de Deus, que faz chover sobre os justos e os pecadores e faz o sol igualmente levantar-se para todos; que oferece aos animais que vivem na terra a extensão dos campos, as fontes, os rios e as florestas; que dá às aves a amplidão dos céus, e os animais aquáticos, a vastidão das águas; que proporciona a todos, liberalmente, os meios necessários para a sua subsistência, sem restrições, sem condições, sem fronteiras; que põe tudo em comum, à disposição de todos eles, com abundância e generosidade, de modo que nada falte a ninguém. Assim procede Deus para com as suas criaturas, a fim de conceder a cada um os bens de que necessita segundo a sua natureza e dignidade, e manifestar a todos a riqueza da sua bondade.


São Gregório de Nazianzo
Oratio 14, De pauperum amoré,
23-24:pp.35,889-890

Quaresma - Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso



Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso

Se a nossa caridade fosse acompanhada de compaixão e de pena, não daríamos tanta atenção aos defeitos do próximo, de acordo com a palavra que diz: “A caridade cobre uma multidão de pecados” (1Pe 4,8) e também: “A caridade não se atarda no mal, desculpa tudo” (1Co, 13,5.7).

Por isso, se tivéssemos caridade, essa mesma caridade cobriria toda a falta e nós seríamos como os santos quando vêem os defeitos dos homens. Será então que os santos são cegos a ponto de não verem os pecados? Mas haverá quem deteste tanto o pecado como os santos? E, contudo, eles não odeiam o pecador, não o julgam, não o evitam. Pelo contrário, compadecem-se dele, exortam-no, consolam-no, tratam-no como a um membro doente; fazem tudo para o salvar.

Quando uma mãe tem um filho deficiente, não se afasta dele com horror mas tem gosto em vesti-lo bem e em tudo fazer para o embelezar. É assim que os santos protegem sempre o pecador e se ocupam dele para o corrigirem no momento oportuno, para o impedirem de prejudicar outrem e, assim, para eles próprios progredirem na caridade de Cristo.

Adquiramos, pois, também nós, a caridade; adquiramos a misericórdia para com o próximo, para nos defendermos da terrível maledicência, do julgamento e do desprezo. Prestemos socorro uns aos outros, como se fossem os nossos próprios membros… Porque “somos membros uns dos outros”, diz o apóstolo Paulo (Rm 12,5); “se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele” (1Co 12,27). Numa palavra, tende cuidado, cada qual à sua maneira, em permanecer unidos uns aos outros. Porque, quanto mais unido se está ao próximo, tanto mais se está unido a Deus.


São Doroteu de Gaza, Monge
Instruções, IV, 76

Quaresma – A pureza é a misericórdia do coração para com o universo inteiro



«A pureza é a misericórdia do coração para com o universo inteiro»

Não procures distinguir o homem digno do que não o é. Que a teus olhos todos os homens sejam iguais para os amares e os servires da mesma forma. Poderás assim levá-los a todos ao bem. Não partilhou o Senhor a mesa dos publicanos e das mulheres de má vida, sem afastar de Si os indignos? Do mesmo modo, concederás, tu, benefícios iguais e honras iguais ao infiel, ao assassino, tanto mais que também ele é teu irmão, pois participa da única natureza humana.

Aqui está, meu filho, um mandamento que te dou: que a misericórdia pese sempre mais na tua balança, até ao momento em que sentires em ti a misericórdia que Deus tem para com o Mundo.

Quando percebe o homem que atingiu a pureza do coração? Quando considerar que todos os homens são bons, e nem um lhe apareça impuro e maculado. Então, em verdade ele é puro de coração (Mt 5,8).

O que é esta pureza? Em poucas palavras, é a misericórdia do coração para com o universo inteiro. E o que é a misericórdia do coração? É a chama que o inflama por toda a criação, pelos homens, pelos pássaros, pelos animais, pelos demônios, por todo o ser criado. Quando o homem pensa neles, quando os olha, sente os olhos encherem-se das lágrimas de uma profunda, de uma intensa piedade que lhe aperta o coração, e que o torna incapaz de ouvir, de ver, de tolerar o erro ou a aflição, mesmo ínfimos, sofridos pelas criaturas. É por isso que na oração acompanhada por lágrimas devemos sempre pedir tanto pelos seres desprovidos de fala como pelos inimigos da verdade, como ainda pelos que a maltratam, para que sejam salvos e purificados. No coração do homem nasce uma compaixão imensa e sem limites, à imagem de Deus.


Santo Isaac, o Sírio
Discursos ascéticos, 1ª série, n.º 81

Quaresma – A misericórdia leva ao perfeito amor



A misericórdia leva ao conhecimento de Deus e ao perfeito amor os que dela se enamoram

“Não te prendas às suspeitas nem às pessoas que te levam a te escandalizares com certas coisas. Porque aqueles que, de uma forma ou de outra, se escandalizam com as coisas que lhes acontecem, quer as tenham querido quer não, ignoram o caminho da paz que, pelo amor, leva ao conhecimento de Deus os que dela se enamoram.

Não tem ainda o perfeito amor aquele que é ainda afetado pelo temperamento dos outros, que, por exemplo, ama uns e detesta outros, ou que umas vezes ama e outras detesta a mesma pessoa pelas mesmas razões.

O perfeito amor não despedaça a única e mesma natureza dos homens só porque eles têm temperamentos diferentes mas, tendo em consideração essa natureza, ama de igual forma todos os homens.

Ama os virtuosos como amigos e os maus, embora sejam inimigos, fazendo-lhes bem, suportando-os com paciência, aceitando o que vem deles, não tomando em consideração a malícia, chegando mesmo a sofrer por eles em se oferecendo uma ocasião.

Assim, fará deles amigos, se tal for possível. Pelo menos, será fiel a si mesmo; mostra sempre os seus frutos a todos os homens, de igual modo. O Nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, mostrando o amor que tem por nós, sofreu pela humanidade inteira e deu a esperança da ressurreição a todos de igual forma, embora cada um, com as suas obras, atraia sobre si a glória ou o castigo”.


S. Máximo, o Confessor, Monge e teólogo
Centúria 1 sobre o amor, na Filocalia

quinta-feira, 11 de março de 2010

Quaresma - A Atração do Senhor




«A Atração do Senhor»


Atrai-me, Senhor, para que me liberte do que me escraviza
Atrai-me, Senhor, e que possa viver mais Contigo
Atrai-me, Senhor, e que escute tua voz com mais nitidez
Atrai-me, Senhor, para submergir-me na Páscoa
Atrai-me, Senhor, e compartilhe eu Contigo a tua hora
Atrai-me, Senhor, e assim descubra a grandeza de tua obra
Atrai-me, Senhor, e que sejas Tu, meu ímã e minha força
Atrai-me, Senhor, e que volte daquilo que me debilita
Atrai-me, Senhor, e que sinta o calor de tua Palavra
Atrai-me, Senhor, e compreenda a necessidade de ser salvo
Atrai-me, Senhor, e tira-me do lodo que me arrasta
Atrai-me, Senhor, e me empurra para subir Contigo a Jerusalén
Atrai-me, Senhor, e assim não fique perdido
Atrai-me, Senhor, quero um pouco de tua vida
Atrai-me, Senhor, pois necessito de mais fé e maior esperança
Atrai-me, Senhor, e faz-me descobrir o Rosto de Deus
Atrai-me, Senhor, e se escapo -
Não duvides - sou recuperável:
Torpe para as coisas do Pai
Rápido para as que o mundo oferece
Frágil para reter-Te como ao melhor amigo
Confiante com aqueles que não o são tanto.
E, se vês que eu resisto, Senhor, que te custa atrair-me?
Não me percas de vista, embora eu me afaste
Pois, por muito longe que eu me encontre,
Sigo crendo que Teu Olho alcança tudo
E tudo invade.
Amém.


Padre Javier Leoz
Site Javier Leoz

Quaresma - Um caminho por descobrir



«Quaresma: um caminho por descobrir»


A Quaresma é uma calçada até uma instância superior. Em si mesma não tem fim. Imagine que nos metêssemos em um simples caminho e, depois de caminhar e caminhar, fosse um esforço que não conduzisse a nenhum lugar?

Gosto de pensar que a Quaresma é uma grande sala cinematográfica onde os crentes vamos contemplando os gestos e escutando as palavras de Cristo, meditando sua vida e acompanhándo-Lhe no deserto para chegar ao final da projeção com o TRIUNFO PASCAL.

Para viver esse Mistério somos convidados com o símbolo da cinza a olhar com outros olhos a realidade que nos rodeia. A despojar-nos de toda roupagem que, talvez, tenha convertido nossa vida em um permanente carnaval, apresentando-nos ante o mundo com um disfarce que nos colore exteriormente mas que nos deixa frios por dentro.

A QUARESMA É UM SE VOLTAR PARA DEUS

É um se voltar a um ótimo grau de “galanteio” com Deus. Considerar que não somos tão donos e tão reis de nossa história como pensamos. Que só Deus tem palavras que definitivamente nos fazem pensar e sonhar com uma salvação total para nosso mundo. “Vou voltar para meu pai e dizer-lhe: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti”. (Lc 15,18)

A QUARESMA NOS OFERECE UM NÚMERO DE TELEFONE

É um tempo para deixar-nos buscar por Deus. De sentar-nos à beira da praia (silêncio) e sentir como Deus nos vai buscando, nos quer como somos, e que nos aceita tal e qual somos. No céu há sempre um número de telefone disponível para escutar e para falar. É o número da fidelidade de Deus que nunca falha. Enquanto muitos cristãos conectaram o atendimento automático, fazendo ouvidos surdos a pessoas ou dramas que nos rodeiam, Deus sempre tem uma linha livre para fazer-nos entender e compreender que sua misericórdia não conhece nenhum limite e que só espera a nossa confiança. “Tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vos concederá” (Jo 15,16)

A QUARESMA É TER PULSO FIRME CONSIGO MESMO

Habituados a uma permanente pressa, subidas e descidas, idas e vindas, escassamente temos tempo para uma reflexão profunda sobre como vai nossa vida e para onde se dirige. Quando alguém topa com uma bolha de silêncio e de contemplação (isso é também a quaresma) sente o contraste entre o bom e o mau, o positivo e o negativo, e um chamado a abandonar o que nos impede de ser fiés ao chamado do Senhor. Para conseguir isto, sem dúvida, é preciso uma boa dose de fortaleza e pulso firme conosco mesmos com tantos vícios em obras e palavras. A CONVERSÃO será a resultante desse pulso firme com a fragilidade que levamos dentro de nós mesmos. Não se pode ir ao Domingo de Páscoa com “tudo o que eu sempre fui e portanto não mudarei”. “Convertei-vos e crêde no Evangelho” (Mc 1,14ss)


Padre Javier Leoz
Site Javier Leoz

Quaresma - Se te fazes coração, Jesus brotará em ti




«Se te fazes coração, Jesus brotará em ti»


Se dás sem esperar,
O Coração de Cristo vibrará em ti
Se perdoas sem contar as vezes que o fazes
O Coração de Cristo habitará em ti
Se alegras aos outros, embora estejas chorando
O Coração de Cristo te consolará
Se sorris a quantos te rodeiam
O Coração de Cristo te acompanhará
Se levantas a quem cai
O Coração de Cristo te sustentará
Se ajudas ao necessitado
O Coração de Cristo te socorrerá
Se te afanas pela verdade
O Coração de Cristo te defenderá
Se lutas pela justiça
O Coração de Cristo será a tua mão
Se estás inconformado ante a realidade
O Coração de Cristo te animará
Se foges da mediocridade
O Coração de Cristo te aperfeiçoará
Se trabalhas pelo bem
O Coração de Cristo te abençoará
Se promoves o amor autêntico
O Coração de Cristo te amará
Se não ficas à margem das dificuldades
O Coração de Cristo te atrairá
Se és valente e decidido
O Coração de Cristo te fortalecerá
Se choras com o que chora
O Coração de Cristo te dirá bem-aventurado!
Se amas, inclusive a quem não te estima,
O Coração de Cristo te recompensará
Se vives com Deus e com os demais
Viverás no Centro do Coração de Jesus.


Padre Javier Leoz
Site Javier Leoz

domingo, 7 de março de 2010

Quaresma - Uma esperança inabalável em Sua Misericórdia




«Uma esperança inabalável em Sua Misericórdia»


«Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo» (Jl 3,5; Rm 10,13). Quanto a mim, não apenas O invoco mas, antes de tudo, creio na Sua grandeza. Não é pelos seus presentes que persevero nas minhas súplicas: é que Ele é a Vida verdadeira e n'Ele respiro; sem Ele não há movimento nem progresso.

Não é tanto pelos laços de esperança: é pelos laços de amor que sou atraído. Não é dos dons: é do Doador que tenho perpétua nostalgia. Não é à glória que aspiro: é ao Senhor glorificado que quero abraçar. Não é de sede da vida que constantemente me consumo,
é da lembrança d'Aquele que dá a vida.

Não é pelo desejo de felicidade que suspiro, que do mais profundo do meu coração rompo em soluços: é porque anelo por Aquele que a prepara. Não é o repouso que procuro, é a face d'Aquele que aquietará o meu coração suplicante. Não é por causa do festim nupcial que feneço, é pelo anseio do Esposo.

Na esperança certa do Seu poder apesar do fardo dos meus pecados, creio, com uma esperança inabalável, que, confiando-me na mão do Todo-Poderoso, não somente obterei o perdão mas que O verei em pessoa, graças à Sua misericórdia e à Sua piedade
e que, conquanto justamente mereça ser proscrito, herdarei o Céu.


S.Gregório de Narek
O Livro das Orações, 12, 1

Quaresma – Deus acompanha-nos e sustenta-nos passo a passo nas provações




"O senhor ampara todos os que caem e reergue todos os combalidos"

Deus é Amor. Essa é a certeza mais inabalável que deve guiar a nossa vida, mesmo quando a dúvida nos assalta diante de grandes calamidades naturais, diante da violência de que a humanidade é capaz, diante dos nossos insucessos e fracassos, diante dos sofrimentos que nos afligem pessoalmente.

Que Deus é Amor, Ele mesmo nos demonstrou e continua a fazê-lo de mil modos: dando-nos a criação, a vida (e todo bem a ela vinculado), a redenção por meio do seu Filho, a possibilidade da santificação por meio do Espírito Santo.

Deus nos manifesta o seu Amor sempre: está próximo a cada um de nós, acompanhando-nos e sustentando-nos passo a passo nas provações da vida. Isso nos é confirmado pelo Salmo de onde foi tirada esta Palavra de Vida, que fala da insondável grandeza de Deus, do seu esplendor, do seu poder e, ao mesmo tempo, da sua ternura e da sua imensa bondade. Ele é capaz de façanhas prodigiosas e, ao mesmo tempo, é um pai repleto de atenções, e mais dedicado do que uma mãe.

"O senhor ampara todos os que caem e reergue todos os combalidos"

De quando em quando todos nós temos de enfrentar situações difíceis, dolorosas, quer na nossa vida pessoal, quer nos relacionamentos com os outros. E às vezes constatamos toda a nossa fragilidade.

Encontramo-nos diante de muros de indiferença e de egoísmo. Sentimo-nos de mãos atadas diante de acontecimentos que parecem superar as nossas forças.

E quantas circunstâncias dolorosas cada um tem de enfrentar na vida! Quanta necessidade de que um Outro se preocupe com elas! Pois bem, nesses momentos a Palavra de Vida pode nos socorrer.

Jesus deixa que experimentemos a nossa incapacidade, certamente não com a intenção de nos desencorajar, mas para fazer-nos experimentar o extraordinário poder da sua graça, que se manifesta justamente quando parece que as nossas forças não vão resistir, a fim de nos ajudar a entender melhor o seu amor. Porém, com uma condição: que tenhamos uma total confiança Nele, como uma criancinha confia na sua mãe; um abandono ilimitado, que nos faz sentir nos braços de um Pai que nos ama assim como nós somos. E para Ele tudo é possível.

E nem mesmo a consciência dos nossos erros nos pode bloquear, porque Deus, sendo amor, nos levanta toda vez que caímos, como fazem o pai e a mãe com o seu filhinho.

"O senhor ampara todos os que caem e reergue todos os combalidos"

Apoiados nesta certeza, podemos lançar Nele qualquer preocupação, qualquer problema, conforme o convite das Escrituras: “Lançai sobre ele toda a vossa preocupação, pois Ele é quem cuida de vós”.

Também para nós, no início do Movimento, quando a pedagogia do Espírito Santo nos ensinava a dar os primeiros passos no caminho do amor, “lançar toda preocupação no Pai” era coisa de todos os dias e de várias vezes ao dia.

Lembro que eu dizia que não podemos segurar na mão uma brasa, mas logo a jogamos fora, pois do contrário ela queima. Assim também, com a mesma rapidez, lançávamos no Pai toda preocupação. E não lembro de nenhuma preocupação que Ele não tenha resolvido, quando lançada no seu coração.

Mas não é sempre fácil crer, e crer no seu amor.

Durante este mês esforcemo-nos por viver assim em todas as situações, mesmo nas mais intrincadas. Assistiremos vez por vez à intervenção de Deus, que nunca nos abandona, mas cuida de nós. Experimentaremos uma força jamais conhecida, capaz de liberar em nós aptidões novas e imprevistas.


Chiara Lubich
Palavra de vida Julho de 2005

Quaresma – Senhor, para não retroceder, necessito do vosso constante auxílio




«Senhor, para não retroceder, necessito do vosso constante auxílio»


“Ó Senhor de minha alma e meu Sumo Bem! Por que não quereis que a alma, quando se decide a amar-vos, fazendo o que está em suas mãos, isto é, abandonando tudo para se entregar ao vosso amor, não tenha logo o gozo de atingi-lo em grau perfeito? Disse mal. Deveria queixar-me de nós e perguntar porque não o queremos? Com efeito, se desde o início não gozamos de tão alta dignidade, a culpa é toda nossa, pois se possuíssemos com perfeição o vosso amor, teríamos com ele todas as espécies de bens! Mas, ó Senhor, somos tão mesquinhos e tardios em nos darmos inteiramente a Vós, que jamais acabamos de nos dispor. O resultado é que, assim como não nos resolvemos a dar tudo de uma vez, também, ó Senhor, não se nos dá duma vez este tesouro.

Ó meu Deus, fazei-me a grande misericórdia de ajudar-me e dai-me a coragem de procurar com todas as forças este bem. Se perseverar, Vós que a ninguém vos negais, pouco a pouco, ir-me-eis habilitando o ânimo para sair vitoriosa. Estou persuadida de que, se com vossa graça me esforçar por chegar ao cume da perfeição, entrarei no céu não sozinha, mas levando comigo muitas almas, como bom capitão, a quem Vós, Senhor, confiastes um grande exército. Mas, para não retroceder, necessito de muitíssima coragem e do vosso constante auxílio”.


Santa Teresa de Jesus
Obras Completas, Vida, 11, 1-4

Quaresma - É necessário que Ele cresça e eu diminua




«É necessário que Ele cresça e eu diminua (Jo 3,29)»


Era uma vez um servo fiel de um grande senhor. O castelo do senhor contemplava um tempestuoso canal que separava seus domínios das terras de uma linda senhora. O servo, que cuidava dos arquivos do senhor, havia encontrado um antigo pergaminho que provava que ele, o servo, e não o senhor, era o verdadeiro e legítimo herdeiro da propriedade.

O servo amava secretamente a bela senhora. Ele a havia conhecido certa vez quando acompanhara o senhor numa de suas visitas a ela. Quando encontrou o extraordinário pergaminho, o servo resolveu que, no momento oportuno, não só iria reivindicar sua legítima herança, como também iria pedir a senhora em casamento. Pois, agora, estaria no mesmo nível social que ela, e ela não iria desprezá-lo.

Uma tarde ele ouviu dizer que a senhora vinha a caminho, pelo canal, para uma visita ao senhor. Esta seria a sua oportunidade. Quando ela chegasse, ele retiraria o documento das obras de sua veste e reclamaria tanto a herança como a mão da senhora.

Quando o dia já caminhava para o fim, o servo acompanhou o senhor até as margens do canal, e juntos passeavam sobre o quebra-mar, enquanto aguardavam a chegada do barco da senhora. Surgiu, porém, uma grande tempestade, e o barco foi apanhado pela chuva e pelos ventos adversos. Uma enorme escuridão recaiu sobre o mar e a praia. Receando que o barco não pudesse encontrar o caminho através da escuridão, o senhor ordenou que acendessem uma fogueira que servisse de farol. Nada, porém, queria pegar fogo. A pesada chuva havia encharcado tudo o que pudesse servir de material combustível. Não havia material algum que pudesse inflamar-se, nem musgo seco, nem raspa de madeira para iniciar uma chama.

Temendo que a senhora chegasse a se afogar na tempestade, o servo puxou o pergaminho, única esperança e prova do seu futuro, e o acendeu. O barqueiro avistou a chama, dirigiu o barco no rumo certo através da escuridão, e o trouxe com segurança até o atracadouro.

A senhora desembarcou e atirou-se nos braços do senhor, rendida de amor. O servo ouviu a voz do senhor, que cumprimentava a senhora com palavras temas de amor ardente. Seu coração sobrepujando o próprio infortúnio, rejubilou-se com a felicidade da mulher que amava, e com a felicidade do senhor, a quem servia com lealdade e a quem amava como amigo. Vieram-lhe à mente as palavras de João Batista: "O amigo do esposo, que está presente e o ouve, é tomado de alegria à voz do esposo. Essa é a minha alegria e ela é completa" (Jo 3,29).

No íntimo do coração, o servo criou o brasão de sua verdadeira nobreza, inscrito com as palavras de João: "É necessário que ele cresça e eu diminua" (Jo. 3,29).

Mesmo antes de ser a de João Batista, esta foi a história de São José. É a história de cada um de nós. Ninguém que ame de verdade jamais aprisiona sua amada sob seu jugo. Afasta-se dela; sai de sua vida, se necessário, para que ela se tome o que foi chamada por Deus para ser.

O anjo esclarece José sobre o divino mistério que se opera em Maria: "José - diz ele - Deus, o Altíssimo, pelo poder de seu Espírito, tomou Maria como esposa e formou-lhe um filho em seu ventre. Em respeito à tua bem-amada Maria, deixe-a viver a fase mais nobre de si mesma! Deixa-a fruir seu profundo relacionamento com o Senhor Deus e ela ser-te-á mais preciosa ainda!".

A resposta a tudo isso no coração de José deve ter sido um alegre: "É necessário que ele cresça e que eu diminua". José afasta-se de Maria. Consente em ficar de lado para que ela possa tomar-se em toda a sua plenitude aquela pessoa que Deus desejava que ela fosse: a esposa do Espírito Santo e a mãe de uma obra divina de amor, juntando toda a humanidade no amor. E, além disso, maravilha do amor de Deus, apesar de tudo, José recebe Maria como sua e, com ela, recebe também a Deus! "José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu chamarás com o nome de Jesus (Mt 1,20). Como esposo de sua mãe, terás o privilégio de pai de lhe dar o nome. Aceitá-lo-ás como teu filho, uma vez que aceitarás a mãe dele como esposa".

A isto, a resposta dentro do coração de José deve ter sido um alegre: "Sim, é preciso que eu diminua; não preciso, porém, desaparecer de sua vida!".Deixando, respeitosamente Maria ser ela própria, o carinhoso amor de José para com ela tornou-se mais rico ainda ao aceita-la. De boa vontade concordou viver com ela em celibato. Em seu reverente amor, respeitou-a como esposa do Senhor Deus, e aceitou a condição de que ela permanecesse sempre virgem. "Embora eu precise diminuir, ainda assim terei a felicidade de continuar a amá-la e de viver em seu amor" .

Uma vez que o amor deseja que a pessoa amada seja na verdade mais ela própria, que o verdadeiro amor de si mesmo só se encontra na comunhão com o Senhor, todo amor deve ter o espírito celibatário: profunda reverência com a pessoa amada, como pertencente ao Senhor! Mais cedo ou mais tarde aquele que ama terá de enfrentar a realidade de que o Senhor entrou na vida da pessoa que amamos; e todo verdadeiro amigo deverá dizer: "É necessário que ele cresça e que eu diminua.

Pois somente o Senhor Deus poderá satisfazer o coração humano. Em todo o coração existem profundezas infinitas que nenhum amigo humano poderá preencher, profundezas que somente Deus poderá preencher. Levando isso em consideração, esposos e esposas cristãos entendem o que Paulo quer dizer quando fala que eles provavelmente desejarão abster-se ocasionalmente das relações conjugais, por mútuo consentimento, a fim de se entregarem à oração (l Cor 7,5).

O que todo amigo cristão deseja acima de tudo para a pessoa amada é comunhão com o Senhor. A pessoa a quem amo, a esposa, o esposo, o amigo, pertencem, antes de tudo, ao Senhor. E, neste sentido, sou apenas o amigo do noivo. Somente ele é esposo de todo o coração humano. Ele deve crescer, enquanto devo diminuir.

Se não aprender esta lição logo no início de meu amor para com alguém, seguramente irei aprendê-lo quando eu mesmo for chamado para o Senhor na hora da morte. Para encontrar-me com ele, e para ficar plenamente unido com ele na glória, deverei separar-me de todos aqueles a quem amo. Quando morrer, deverei deixar a esposa, o esposo, os filhos, os amigos, a propriedade, o poder e as conquistas, até mesmo o próprio corpo. Somente quando tiver deixado tudo, poderei receber seu abraço total, para o qual fui criado.

Para testemunhar tal fato, de que o Senhor é o verdadeiro esposo de toda pessoa humana, algumas pessoas não esperam até que a morte os force a deixar todas as coisas. No celibato consagrado, abandonam tudo no início da juventude, de maneira que toda a vida e todas as energias fiquem canalizadas para o Senhor, o esposo, único capaz de satisfazer o coração humano.

Da mesma forma, porém, que José, embora ficasse diminuído, recebia Maria novamente do Senhor para ser amada carinhosamente e estimada como esposa, assim também celibatário recebe muitas pessoas para amar, conduzindo a missão do amor universal e sendo intermediário do próprio amor de Deus. Todo aquele que entregar ao Senhor o lugar central de seu amor, será mais rico ainda em seu amor para com as outras pessoas. E todo aquele que, na ora a morte, abandonar tudo para ficar com o Senhor, receberá novamente, através do Senhor, todos aqueles a quem amara sadiamente.

Mesmo que, no grande entrelaçamento da união pelo amor (CI2,2), ficarmos envolvidos na mais profunda amizade com algumas pessoas em detrimento de outras, é sempre o Senhor Jesus que estará mais próximo de cada um de nós, mais perto de cada um do que a esposa ou o esposo ou qualquer outro ente querido. Se nós conseguirmos nos amar uns aos outros com o coração dele mesmo, isto somente acontecerá porque ele é o verdadeiro esposo de todos os corações.


Paul Hinnesbusch, O.P.
O Ministério da Amizade
Ed. Paulus

Quaresma - Purificai-me, ó Senhor




«Pequena é a casa de minha alma, para que possais entrar: aumentai-a! Purificai-me, ó Senhor!»


“Pequena é a casa de minha alma, para que possais entrar: aumentai-a. Toda em ruínas! Reformai-a. Há coisas que ofendem vossos olhos. Bem o sei e o confesso. Mas quem a purificará? A quem clamarei senão a Vós? Purificai-me, ó Senhor, de meus pecados ocultos, e afastai vosso servo dos pecados alheios. Creio, e por isso, falo. Senhor, bem o sei: já não vos confessei meus pecados, Deus meu, e Vós já não perdoastes a impiedade do meu coração? Não disputo convosco que sois a Verdade, nem quero enganar-me: temo que se engane minha iniqüidade. Portanto, não disputo convosco, porque, se considerardes as minhas culpas, Senhor, quem poderá subsistir?

No entanto, deixai-me falar diante de vossa misericórdia, eu, terra e cinza! No entanto, deixai-me falar, porque é à vossa misericórdia que falo e não a um homem que se ri de mim... Voltar-vos-eis e tereis misericórdia de mim”.


Santo Agostinho
Confissões, I, 5,6;6,7

Quaresma – A contrição perfeita, desejada por Deus



« A contrição perfeita »

Que é a contrição perfeita?

Contrição é uma dor da alma e um detestar os pecados cometidos. Deve acompanhá-la o propósito, quer dizer, uma firme vontade de emendar a vida e de não mais pecar. Para que a contrição seja legítima, deve ser interna e estar na alma, isto é‚ que não seja uma mera expressão feita com os lábios e sem reflexão: isto seria apenas contrição de boca.

Não é necessário manifestar exteriormente a contrição interna por meio de suspiros, lágrimas, etc. Tudo isto pode ser sinal de contrição, não é, porém, sua essência. A essência da contrição está na alma, na vontade, em afastar-se deveras do pecado e converter-se para Deus.

Além disto, a contrição deve ser geral, quer dizer, deve estender-se a todos os pecados cometidos ou, pelo menos, a todos os mortais. Deve, finalmente, ser sobrenatural e não meramente natural, pois esta nada aproveita.

Segue-se que a contrição, como todo o bem, deve proceder de Deus e da sua graça, e, com a graça de Deus, desenvolver-se na alma. Porém, não tenhas receio; basta que a peças, basta que tenhas boa vontade e te arrependas por algum motivo legítimo, sobrenatural, e Deus te dará a graça necessária.

Se o motivo se funda na natureza ou somente na razão (por exemplo, nos danos temporais, na vergonha, doença, etc.), é muito fácil que a dor seja puramente natural e sem mérito; porém, se o motivo da contrição é alguma verdade da Fé, por exemplo: o inferno, o purgatório, o céu, Deus, etc., então a contrição é legítima, sobrenatural.

E esta contrição legítima e sobrenatural pode, por sua vez, ser de duas classes: perfeita e imperfeita; e com isto temos chegado a nossa matéria da contrição perfeita. Em poucas palavras, contrição perfeita é a contrição que procede de amor; imperfeita, a que procede do temor de Deus.

É contrição perfeita quando procede de amor perfeito a Deus. Pois bem, o nosso amor a Deus é perfeito quando o amamos porque Ele é em Si infinitamente perfeito, formoso e bom (amor de benevolência), e porque nos mostrou de uma maneira tão admirável o seu amor (amor de agradecimento).

É imperfeito o amor de Deus quando o amamos porque esperamos alguma coisa d’Ele. De modo que, com o amor imperfeito, pensamos sobretudo nos dons; com o perfeito, na bondade do doador; com o amor imperfeito, amamos mais os dons; com o perfeito amamos mais o doador, e isto não tanto pelos seus dons como pelo amor e bondade que nos dons se manifesta.

Do amor nasce a contrição. Será, pois, perfeita a contrição se nos arrependermos dos pecados por amor perfeito de Deus, quer seja de benevolência quer de agradecimento. Será imperfeita se nos arrependermos dos pecados por temor de Deus, porque pelo pecado perdemos a recompensa de Deus, o Céu, e merecemos seu castigo, o inferno ou o purgatório.

Na contrição imperfeita, fixamo-nos principalmente em nós e nas desgraças que, segundo a Fé nos ensina, nos acarretou o pecado. Na contrição perfeita, fixamo-nos sobretudo em Deus, na sua grandeza, na sua formosura, amor e bondade, vendo quanto o pecado O ofende, e que foi o pecado que Lhe ocasionou tantos sofrimentos e dores para nos redimir. Na contrição perfeita, não queremos unicamente o nosso bem, senão o bem de Deus.

Como se exercita a contrição perfeita?

Hás de pressupor que a contrição perfeita é graça e grande graça do amor e misericórdia de Deus; e, se assim é, hás, portanto, de pedi-la com instância. Porém, não te contentes com fazê-lo somente quanto trates de excitar a contrição, porque o desejo de alcançá-la deve ser um dos mais ardentes anseios de tua alma. Pede-a, pois, dizendo: Senhor, dai-me a graça do perfeito arrependimento, da perfeita contrição dos meus pecados. E Deus não te faltará com a sua graça, se tiveres boa vontade.

Posto isto, repara como poderás facilmente conseguir a contrição perfeita. Põe-te diante de um crucifixo, na igreja ou na casa de tua habitação, ou senão imagina que o tens diante de ti, e, chorando de compaixão à vista das feridas do Senhor, pensa uns momentos com fervor: Quem é este que está pendente da Cruz e sofrendo nela?

É Jesus, meu Deus e Salvador. Que sofre? As mais terríveis dores no corpo, tem-no ensangüentado e coberto de feridas; a alma, tem-na lacerada pelas dores e afrontas. Por que sofre tudo isso? Pelos pecados dos homens e… também pelos meus pecados; em meio de suas amarguradas dores, também pensa em mim, também sofre por mim, também quer expiar os meus pecados. Entretanto, deixa que o sangue redentor do Salvador, quente ainda, caia sobre ti, gota a gota, e pergunta a ti mesmo como tens correspondido ao teu Salvador, tão atormentado por ti.

Pensa um momento, recorda teus pecados, e esquece-te, se quiseres, do Céu, do inferno, e arrepende-te principalmente porque são eles que a tão miserando estado reduziram o teu Salvador; promete-lhe que não tornarás a crucificá-Lo com mais pecados e, por fim, reza, pausadamente e com fervor, acompanhando com sentimento interno, as palavras, a fórmula da contrição.

Esta oração ou fórmula pode ser diversa e ainda pode cada um servir-se para ela de suas próprias palavras. No fim do livrinho, encontrarás algumas; contudo juntarei aqui uma bastante vulgar:

“Senhor meu e Deus meu: pesa-me, do mais íntimo do coração, de todos os pecados de minha vida, porque com eles tenho merecido que a vossa divina Justiça me castigasse na vida e na eternidade; porque tenho correspondido ao vosso amor com tanta ingratidão, sendo como Sois o meu maior benfeitor; porém, sobretudo, porque com eles Vos tenho ofendido a Vós, meu bem supremo e digno de todo o amor. Proponho firmemente emendar-me e não mais pecar. Dai-me, meu Jesus, a graça para cumpri-lo. Amém.”

Três porquês contém esta oração, e a cada porquê acompanha um motivo de contrição, primeiro da imperfeita, depois da perfeita; pois, da imperfeita se passa mais facilmente para a perfeita e é por isto conveniente unir as duas espécies de contrição. Em outras palavras, convém que se excite em primeiro lugar a contrição imperfeita e depois a perfeita. Dize, pois:

1-“Porque com eles, tenho merecido…” Isto é ainda contrição imperfeita.

2-“Porque tenho correspondido…” Esta vai já se aproximando da contrição perfeita e até se reduz a ela; porque, se deveras sinto ter correspondido com ingratidão e com pecados ao amor e bondade de Deus, necessariamente hei de querer ressarcir com amor esta ingratidão; e o sentir por amor a ofensa do benfeitor, a quem até agora se desconhecia, é já contrição perfeita, contrição de caridade para com Deus.

3-“Porém, sobretudo, porque com eles Vos tenho ofendido…”

Se voltares a ler o capítulo I, entenderás o que isto significa e, entendendo-o, verás mais claramente expressado aqui o amor perfeito e a contrição perfeita. Para consegui-lo mais facilmente, podes acrescentar, mentalmente ou por palavras, o que segue: “porém, sobretudo, porque com eles Vos tenho ofendido a Vós, meu bem supremo e digno de todo o amor. Salvador meu que, por meus pecados, morrestes na Cruz”.

Depois vem o propósito: “Proponho…” — Porém, padre, dir-me-ás talvez — para outros, será isso muito fácil, mas para mim, é coisa muito difícil, quase impossível.— Parece-te isso? Pois não o julgues tal.

Além disso, muitas vezes pode-se exprimir com poucas palavras o amor mais ardente e a mais profunda contrição, atendendo só ao sentido e ao motivo (o amor de Deus). Por exemplo, com estas jaculatórias: “Deus meu e meu tudo!”; “Meu Jesus, misericórdia!”; “Ó meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas!”; “Meu Deus, compadecei-Vos de mim pecador!” E…

“Pequei,
Já minha alma
Sua culpa confessa;
Mil vezes me pesa
De tanta maldade.
Mil vezes me pesa
De haver, obstinado,
Teu peito rasgado,
Ó suma Bondade!”

Mas antes de tudo, é verdade que, para a contrição perfeita, se requer mais do que para a imperfeita, que é a de que se necessita para a Confissão. Contudo, porém, ajudado com a graça de Deus, pode qualquer um alcançar a contrição perfeita, bastando que deveras a deseje, porque a verdadeira contrição está na vontade e não no sentimento.

Finalmente, se tão soberanos efeitos obra Deus pela contrição perfeita, sinal é de que Ele quer que a excitemos e de que Ele nos ajudará a consegui-la.

Que precioso é o estado de graça!

A graça não adorna somente a alma, mas invade-a e penetra-a toda, e transforma-a em uma nova criatura, em filha de Deus e herdeira do céu. Além disso, faz com que todas as obras e trabalhos do cristão sejam meritórios para o Céu; a graça é a varinha mágica que tudo converte em ouro, porém em ouro de méritos celestiais.


Padre Johann von den Driesch
Sacerdote da Arquidiocese de Colônia
A Contrição Perfeita - uma chave de ouro para o céu
Tip. São Francisco, Bahia, 1913

Quaresma - Fazei descer ao meu coração a água das lágrimas




«Fazei descer ao meu coração a água das lágrimas para que não me afaste de Vós»


“Pequei, Senhor! Tende piedade de mim, pobre pecador. Fazei descer ao meu coração a água das lágrimas e do arrependimento sincero, a fim de que possa eu purificar minha alma de suas culpas, antes que me afaste de Vós.

Dai-me, Senhor, a vossa graça e vossa misericórdia, que me sejam de ornamento e esplendor, a fim de poder agradar-vos.

Dai-me, Senhor, boa vontade e perseverança, a fim de que me renove constantemente em vosso serviço e em vosso louvor”.


Beato Jan Van Ruysbroeck, o “Admirável”
Oeuvres de Ruysbroeck l’Admirable, vol I,p.198
Vromant, Bruxelas, 1922

Quaresma – Somos pós sim, mas pós amados




« Somos pós sim, mas pós amados »


O itinerário quaresmal, pondo como seu fundamento a onipotência do amor de Deus, o seu absoluto senhorio sobre todas as criaturas, que se traduz em indulgência infinita, animada por constante e universal vontade de vida. De fato, perdoar alguém equivale a dizer-lhe: não quero que tu morras, mas que vivas; desejo sempre e só o teu bem.

Esta certeza absoluta apoiou Jesus durante os quarenta dias transcorridos no deserto da Judéia, depois do batismo recebido de João no Jordão. Aquele longo tempo de silêncio e de jejum foi para Ele um abandonar-se completamente ao Pai e ao seu desígnio de amor; foi ele mesmo um "batismo", isto é, uma "imersão" na sua vontade, e neste sentido uma antecipação da Paixão e da Cruz. Adentrar-se no deserto e permanecer nele por muito tempo, sozinho, significava expor-se voluntariamente aos assaltos do inimigo, o tentador que fez cair Adão e por cuja inveja a morte entrou no mundo (cf. Sb 2, 24); significava travar com ele a batalha em campo aberto, desafiá-lo sem outras armas a não ser a confiança ilimitada no amor onipotente do Pai. Basta-me o teu amor, alimento-me com a tua vontade (cf. Jo 4, 34): esta convicção habitava na mente e no coração de Jesus durante aquela sua "quaresma". Não foi um ato de orgulho, um empreendimento titânico, mas uma escolha de humildade, coerente com a Encarnação e com o batismo no Jordão, em continuidade com a obediência ao amor misericordioso do Pai, que "amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho único" (Jo 3, 16).

O Senhor Jesus fez tudo isto por nós. Fez para nos salvar, e ao mesmo tempo para nos mostrar o caminho para o seguir. De fato, a salvação é dom, é graça de Deus, mas para fazer efeito na minha existência exige o meu consentimento, um acolhimento demonstrado nos fatos, ou seja, na vontade de viver como Jesus, de caminhar atrás d'Ele. Seguir Jesus no deserto quaresmal é por conseguinte condição necessária para participar na sua Páscoa, no seu "êxodo". Adão foi afastado do Paraíso terrestre, símbolo da comunhão com Deus; agora, para voltar a esta comunhão e portanto à verdadeira vida, a vida eterna, é preciso atravessar o deserto, a prova da fé. Não sozinhos, mas com Jesus! Ele – como sempre – precedeu-nos e já venceu o combate contra o espírito do mal. Eis o sentido da Quaresma, tempo litúrgico que todos os anos nos convida a renovar a opção de seguir Cristo pelo caminho da humildade para participar na sua vitória sobre o pecado e sobre a morte.

Nesta perspectiva, compreende-se também o sinal penitencial das Cinzas, que são impostas sobre a cabeça de quantos iniciam com boa vontade o itinerário quaresmal. Essencialmente é um gesto de humildade, que significa: reconheço-me por aquilo que sou, uma criatura frágil, feita de terra e destinada à terra, mas também feita à imagem de Deus e destinada a Ele. Pó, sim, mas amado, plasmado pelo seu amor, animado pelo seu sopro vital, capaz de reconhecer a sua voz e de lhe responder; livre e, por isto, também capaz de lhe desobedecer, cedendo à tentação do orgulho e da auto-suficiência. Eis o pecado, doença mortal que muito depressa começou a poluir a terra abençoada que é o ser humano. Criado à imagem do Santo e do Justo, o homem perdeu a própria inocência e agora só pode voltar a ser justo graças à justiça de Deus, a justiça do amor que – como escreve São Paulo – "se manifesta por meio da fé em Cristo" (Rm 3, 22). Inspirei-me nestas palavras do Apóstolo para a minha Mensagem, dirigida a todos os fiéis por ocasião desta Quaresma: uma reflexão sobre o tema da justiça à luz das Sagradas Escrituras e do seu cumprimento em Cristo.

Também nas leituras bíblicas da Quarta-Feira de Cinzas está muito presente o tema da justiça. Em primeiro lugar, a página do profeta Joel e o Salmo responsorial – o Miserere – formam um díptico penitencial, que evidencia como na origem de cada injustiça material e social existe aquilo que a Bíblia denomina "iniquidade", ou seja o pecado, que consiste fundamentalmente numa desobediência a Deus, quer dizer, numa falta de amor. "Reconheço – confessa o Salmista – de verdade as minhas culpas / o meu pecado está sempre diante de mim. / Contra Vós apenas é que eu pequei / pratiquei o mal perante os vossos olhos" (Sl 50 [51] 5-6). Portanto, o primeiro ato de justiça consiste em reconhecer a própria iniquidade e admitir que ela está arraigada no "coração", no próprio cerne da pessoa humana. Os "jejuns", os "prantos" e as "lamentações" (cf. Jl 2, 12) e cada expressão penitencial tem valor aos olhos de Deus, só se for sinal de corações sinceramente arrependidos. Também o Evangelho, tirado do "sermão da montanha", insiste sobre a exigência de praticar a própria "justiça" – esmola, oração e jejum – não diante dos homens, mas unicamente aos olhos de Deus, que "vê o segredo" (cf. Mt 6, 1-6.16-18). A verdadeira "recompensa" não é a admiração dos outros, mas a amizade com Deus e a graça que dela deriva, uma graça que confere paz e força de realizar o bem, de amar até quem não merece, de perdoar quem nos ofendeu.

A segunda leitura, o apelo de Paulo a deixar-se reconciliar com Deus (cf. 2 Cor 5, 20), contém um dos célebres paradoxos paulinos, que remete toda a reflexão sobre a justiça ao mistério de Cristo. São Paulo escreve: "Aquele que não havia conhecido o pecado – ou seja, o seu Filho que se fez homem – Deus O fez pecado por nós, para que nele nos tornássemos justiça de Deus" (2 Cor 5, 21). No Coração de Cristo, isto é, no âmago da sua Pessoa divino-humana, desenrolou-se de maneira decisiva e definitiva todo o drama da liberdade. Deus levou às extremas consequências o seu desígnio de salvação, permanecendo fiel ao seu amor, mesmo à custa de entregar o seu Filho unigênito à morte, e morte de Cruz. Como escrevi na Mensagem quaresmal, "é aqui que se descerra a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana... Graças à ação de Cristo, podemos entrar na justiça "maior", que é a do amor (cf. Rm 13, 8-10)".

Estimados irmãos e irmãs, a Quaresma amplia o nosso horizonte, orienta-nos para a vida eterna. Estamos em peregrinação nesta terra, "não temos aqui uma cidade permanente, mas vamos em busca da futura" (Hb 13, 14). A Quaresma faz compreender a relatividade dos bens desta terra e assim torna-nos capazes de fazer as renúncias necessárias, livres para realizar o bem. Abramos a terra à luz do Céu, à presença de Deus no meio de nós.
Amém!


Papa Bento XVI
Missa de imposição das Cinzas
17 de fevereiro de 2010

Quaresma - Tempo de deserto




«Tempo de Quaresma! Tempo de deserto!»


“Ó Senhor Jesus, que, no limiar de vossa vida pública, retirastes-vos ao deserto, atraí todos os homens ao recolhimento, começo de conversão e salvação. Deixando a casa de Nazaré e vossa dulcíssima Mãe, quisestes experimentar a solidão, as vigílias, a fome; e ao tentador que vos propunha a prova dos milagres, respondestes com a firmeza da palavra eterna, que é prodígio da graça celeste.

Tempo de Quaresma!

Ó Senhor! Não permitais, não permitais que acorramos às cisternas fendidas (Jr 2, 13), nem que imitemos o servo infiel, a virgem imprudente; não permitais que o gozo dos bens da terra torne insensível nosso coração ao clamor dos pobres, dos doentes, dos orfãozinhos e dos inumeráveis irmãos que ainda hoje padecem falta do mínimo necessário para o alimento, veste e teto para a família”


Papa João XXIII
Breviario di Papa Giovanni, p.91

Quaresma - Esforcemo-nos em progredir todos os dias, porque é avançando na virtude que veremos a Deus




«Esforcemo-nos em progredir todos os dias, porque é avançando na virtude que veremos a Deus»


«Que cada um se examine agora para saber em que estado está, e esforcemo-nos em progredir todos os dias, porque é avançando na virtude que veremos o Deus dos deuses, na Sião celeste. É sobretudo neste tempo que nos devemos aplicar em viver na pureza; durante este tempo, digo, em que é concedido à fragilidade humana um número de dias certos mas curtos, para que ela não desanime. Porque se nos é dito a toda a hora: 'levai uma vida pura', quem não se desencorajaria de a conseguir? Ora, somos convidados neste tempo de pouca dura a reparar as negligências do resto do ano, e a viver de maneira a que no resto do tempo, se veja brilhar as marcas desta santa quarentena na nossa conduta.

Esforcemo-nos então, meus irmãos, em passar este tempo em exercícios piedosos, e em restaurar as nossas armas espirituais. De fato, nesta época do ano, parece que todo o universo, com o Salvador à frente, caminha como um exército contra o inimigo. Bem-aventurados os que terão combatido com valentia sob tal governo.»


São Bernardo de Clairvaux
Sermão VII para a Quaresma
Editiones Cistercienses

Quaresma - Pai, tende piedade e misericórdia de nós, porque estamos sem a verdadeira luz




«Pai, tende piedade e misericórdia de nós, porque estamos cegos e sem a verdadeira luz»


“Pequei, Senhor, tende piedade de mim! Perdoai, ó Pai, perdoai a esta miserável e ingrata ante as infinitas graças recebidas de Vós. Confesso e que vossa bondade me conserve vossa esposa, apesar de vos ter sido sempre infiel com meus defeitos. Pequei, Senhor, tende piedade de mim!

E tu, que fazes, ó minha alma? Não sabes que está Deus continuamente olhando-te? Saibas que, aos olhos de Deus, jamais te poderás esconder, pois nada lhe é oculto. Acaba, de uma vez, com as tuas iniquidades e desperta-te.

Ó Deus eterno, ó piedoso e misericordioso Pai, tende piedade e misericórdia de nós, porque estamos cegos, e sem a verdadeira luz, sobretudo eu, pobre miserável. Ó Vós, verdadeiro Sol, entrai em minha alma e enchei-a de vossa Luz. Dissipai-lhe as trevas e trazei-lhe a Luz; destruí-lhe o gelo do amor-próprio e infundi-lhe o fogo de vossa caridade”.


Santa Catarina de Sena
Orações e Elevações, Pp.97.87.100-101
Preghiere Ed Elevazioni, Taurisano, Roma