segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

SAGRADA FAMÍLIA – A família é uma graça de Deus, que deixa transparecer o que Ele próprio é: Amor



SAGRADA FAMÍLIA
FESTA
27 DE DEZEMBRO

«A família é uma graça de Deus, que deixa transparecer o que Ele próprio é: Amor»

Queridos irmãos e irmãs!

Neste domingo, que segue o Natal do Senhor, celebramos com alegria a Santa Família de Nazaré. O contexto é o mais adequado, porque o Natal é por excelência a festa da família. Demonstram-no tantas tradições e costumes sociais, especialmente o hábito de se reunir todos, precisamente em família, para as refeições festivas e para os bons votos e troca dos dons; e, como não frisar que nestas circunstâncias, o mal-estar e o sofrimento causados por certas feridas familiares são amplificados?

Jesus quis nascer e crescer numa família humana; teve a Virgem Maria como mãe e José que lhe fez de pai; eles cresceram-no e educaram-no com imenso amor. A família de Jesus merece deveras o título de "santa", porque está totalmente absorvida pelo desejo de cumprir a vontade de Deus, encarnada na adorável presença de Jesus. Por um lado, é uma família como todas e, como tal, é modelo de amor conjugal, de colaboração, de sacrifício, de entrega à divina Providência, de laboriosidade e de solidariedade, em suma, de todos aqueles valores que a família guarda e promove, contribuindo de modo primordial para formar o tecido de cada sociedade. Mas, ao mesmo tempo, a Família de Nazaré é única, diversa de todas, pela sua singular vocação ligada à missão do Filho de Deus. Precisamente com esta sua unicidade ela indica a cada família, em primeiro lugar às famílias cristãs, o horizonte de Deus, a primazia doce e exigente da sua vontade, a perspectiva do Céu para o qual somos destinados. Por tudo isto hoje damos graças a Deus, mas também à Virgem Maria e a São José, que com tanta fé e disponibilidade cooperaram para o desígnio de salvação do Senhor.

Sem dúvida, a família é uma graça de Deus, que deixa transparecer o que Ele próprio é: Amor. Um amor totalmente gratuito, que sustenta a fidelidade ilimitada, mesmo nos momentos de dificuldade e desencorajamento. Estas qualidades encarnam-se de modo eminente na Sagrada Família, na qual Jesus veio ao mundo e foi crescendo e se foi enchendo de sabedoria, com os cuidados amorosos de Maria e com a tutela fiel de São José.

Queridas famílias, não deixeis que o amor, a abertura à vida e os vínculos incomparáveis que unem o vosso lar se desvirtuem. Pedi por isto constantemente ao Senhor, rezai juntos, para que os vossos propósitos sejam iluminados pela fé e enaltecidos pela graça divina no caminho rumo à santidade. Deste modo, com a alegria do vosso compartilhar todo o amor, dareis ao mundo um maravilhoso testemunho de quanto a família é importante para o ser humano e para a sociedade. O Papa está ao vosso lado, pedindo sobretudo ao Senhor por quantos em cada família têm mais necessidade de saúde, de trabalho, de conforto e de companhia.

Recomendo-vos a todos à nossa Mãe do céu, à Santíssima Virgem Maria. Confiemos ao Senhor cada família, sobretudo as mais provadas pelas dificuldades da vida e pelas chagas da incompreensão e da divisão. O Redentor, que nasceu em Belém, conceda a todas as famílias a serenidade e a força para caminhar unidas pelas vias do bem.


Santo Padre Bento XVI
Angelus, 28/12/2008


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

NATAL DE NOSSO SENHOR – Ó Verbo Eterno, Doce Menino de Belém!



NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO


«Ó Verbo Eterno, Doce Menino de Belém»

“Ó Doce Menino de Belém, fazei que eu possa aproximar-me, com toda a alma, deste profundo mistério do Natal. Infundi no coração dos homens aquela paz que eles procuram, talvez com tanta dificuldade e que só Vós podeis dar. Ajudai-nos a conhecer-nos melhor e a vivermos fraternalmente como filhos do mesmo Pai. Descobri vossa beleza, vossa santidade, vossa pureza. Despertai em nosso coração o amor e o reconhecimento pela vossa infinita bondade. Uni a todos na caridade, e dai-nos a vossa paz celeste.

Ó Verbo Eterno do Pai, Filho de Deus e de Maria, renovai no misterioso íntimo das almas o prodígio admirável de vosso nascimento! Revesti de imortalidade os filhos de vossa redenção; inflamai-os de caridade, unificai todos no vínculo de vosso Corpo Místico, a fim de que vossa vinda traga a alegria verdadeira, a paz segura, a eficaz fraternidade dos indivíduos e dos povos. Amém, amém!”


Beato Papa João XXIII
Breviário, pp.38, 384

NATAL DE NOSSO SENHOR – Ó Amor, nascestes para mim!



NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO


«Ó Amor, nascestes para mim!»

“Ó Amor, sumo e transformado! Ó Visão divina! Ó Inefável! Ó Jesus Cristo, dar-me-eis a conhecer que nascestes por mim! Oh, como é glorioso compreendê-lo! Na verdade, que delícia o ver e compreender que nascestes para mim! A certeza que nos vem da Encarnação é a mesma que nos dá o Natal: nasce pelo mesmo motivo por que se encarnou. Ó admirável, quão admirável são as obras que fizestes para nós!”


Beata Ângela de Foligno
Il Libro della B.Angela III, pp.244-245

NATAL DE NOSSO SENHOR – Ó Senhor, como agradecer o vosso amor?



NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO

«Ó Senhor, como agradecer o vosso amor?»


“Ó Senhor, como louvar, como agradecer o vosso amor? Tanto me amastes que por meu amor vos fizestes no tempo, Vós que fizestes os tempos; e no mundo, tínheis menos idade que muitos de vossos servos, vós que sois mais antigo que o mundo; e vos tornastes homem, Vós que fizestes o homem. Fostes criatura de Mãe criada, e fostes levado pelas mãos formadas por Vós mesmo; e sugastes em um seio que Vós mesmo cumulastes; e chorastes como criança, na manjedoura, Vós que sois o Verbo, sem o qual é muda a eloquência humana”.


Santo Agostinho
Sermo 188, 2

NATAL DE NOSSO SENHOR – Foi para nós que nasceu o Menino, o Deus Eterno!



NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO

«Foi para nós que nasceu o Menino, o Deus de antes de todos os séculos»


«Hoje a Virgem dá à luz o Eterno
e a terra oferece uma gruta ao Inacessível.
Cantam-n'O os anjos e os pastores,
e com a estrela os magos põem-se a caminho,
porque Tu nasceste para nós,
pequeno Menino. Deus eterno!
Deus de antes de todos os séculos!»


São Romano, o Melódio
Kontakion, 10, In diem Nativitatis Christi, Prooemium: SC 110, 50

NATAL DE NOSSO SENHOR – O significado transcendente que o Natal esconde e manifesta




NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO

«O significado transcendente que o Natal esconde e manifesta»

“O Natal é uma Festa que permanece. Dizemos isto referindo-nos ao influxo que esta celebração litúrgica deve exercer em nossos espíritos, deixando neles uma grata e especial recordação não apenas nas vicissitudes passageiras do tempo, como também nos acontecimentos inseridos no curso de nossa vida, que por circunstâncias especiais deixaram gravada alguma recordação no nosso espírito. O Natal, como uma fonte ainda viva de pensamento e de estímulo pedagógico, moral e religioso, permanece e deve permanecer como o dia que não escurece, mas que difunde sua luz inclusive no tempo posterior à sua data cronológica.

No Natal há que se pensar algumas vezes. Assim o fizeram os pastores que foram as primeiras testemunhas do nascimento de Jesus, ao serem convocados pelo anjo para comprovar o acontecimento. Foram a Belém, encontraram Jesus, com Maria e José e, na volta, "contaram o que lhes havia sido dito acerca do Menino. E quantos os ouviam —observa o Evangelho de São Lucas—, se maravilhavam pelo que lhes diziam os pastores" (Lc 2, 17-18). Assim, podemos dizer, o Evangelho começa a ser noticia, a difundir-se discreta e secretamente, e a contribuir na formação dessa consciência popular messiânica que acolherá, logo, a pregação de João Batista, o Precursor, e depois a do mesmo Cristo.

Mas outra circunstância muito clara nos exorta a pensar novamente no fato do Nascimento, evocado pela festa litúrgica, para descobrir o sentido, o significado transcendente que esconde e manifesta. O Natal tem um conteúdo próprio secreto, que se descobre só a quem o busca. Pensemos na Virgem Maria, no êxtase de sua alma limpíssima, já bem consciente do mistério de sua divina maternidade (cf. Lc 1, 28, ss.) e absorta totalmente na meditação do quanto se sucedia nela e ao seu redor.

Diz o Evangelho de São Lucas também, como conclusão da narração referente à noite do acontecimento natalício: "Maria guardava tudo isto e meditava em seu coração" (2. 19). Esta atitude de recolhimento, de reflexão e de meditação da Virgem nos é narrada também em outra passagem evangélica que é como uma conclusão do relato evangélico sobre os primeiros anos, até os 12, do Menino Jesus: "Sua Mãe —conclui São Lucas—, conservava todas estas coisas em seu coração" (2, 51).

Desta maneira nos é oferecido o primeiro exemplo de vida contemplativa na história evangélica; e o exemplo é encantador e magistral.

Sim, a presença de Cristo no mundo é uma Luz que o ilumina mas não sem o diafragma do mistério; um mistério que reclama de cada um de nós atenção e estudo. A Revelação não é somente um fato sensível e exterior; é uma Revelação encoberta pelo invólucro da parábola (cf. Mt 13, 13). Vê quem quer ver, vê quem olha, vê quem quer penetrar no sentido e nos fins da Revelação. Revelação que em seu conteúdo divino não tem confins e justifica por isso o esforço contemplativo dos fiéis, a quem o Mestre divino dirá: "Ditosos vossos olhos porque vêem e vossos ouvidos porque ouvem" (Mt 13, 16).

Por isso, se queremos que o Natal tenha uma influência positiva e eficaz, não o podemos classificar entre os momentos passageiros de nossa vida espiritual, senão como o que deve permanecer!

O Natal deve permanecer, sobretudo, como um acontecimento determinante de nossa consciência religiosa: o Verbo de Deus se fez homem!, e isto é um acontecimento que deve sustentar nosso modo de pensar e de viver. Ser cristãos não é, pois, coisa secundária, discutível e volúvel; não é uma ideologia subjetiva e adaptável a correntes facultativas da mentalidade histórica ou ambiental. É a Verdade que felizmente transfigura e vivifica, "A Verdade os fará livres" (Jo 8, 32). Sim, o presépio nos põe de joelhos ante o mistério da Encarnação, mistério de humildade infinita, mas mistério de glória infinita para Cristo e de salvação para nós (cf. Fl 2, 1-11).

O Natal deve permanecer, além disso, como escola: o exemplo do presépio não esgota seus ensinamentos em uma lição passageira de ingênua maravilha e de poesia pastoral; o presépio é um espelho da vida concebida segundo o Evangelho, na qual não se apagaram as energias para fazer obras nem os valores da atividade humana, senão que de forma muito melhor são doados energias e valores comprometidos por um esforço total de amor humilde.

Portanto, procuremos recordar o Natal como um ponto de partida, uma linha que quer ser trajetória no caminho de uma autêntica vida cristã”.

Papa Paulo VI
Audiência Geral, 28/12/1977

NATAL DE NOSSO SENHOR – Cristo desceu dos céus, correi para Ele!



NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO


«Tu, que maravilhosamente criaste o homem, mais
maravilhosamente ainda restabeleceste a sua dignidade»

Jesus Cristo nasceu, rendei-Lhe glória!
Cristo desceu dos céus, correi para Ele!
Cristo está sobre a terra, exaltai-O!
“Cantai ao Senhor, terra inteira.
Alegria no céu; terra, exulta de alegria!” (Sl 96,1.11).

Do céu, ele vem habitar no meio dos homens;
estremecei de temor e de alegria:
de temor, por causa do pecado;
de alegria, por causa da nossa esperança.

Hoje, as sombras se dissipam
e a luz se eleva sobre o mundo;
como outrora no Egito envolto em trevas,
hoje uma coluna de fogo ilumina Israel.

O povo, que estava sentado nas trevas da ignorância,
contempla hoje essa imensa luz do verdadeiro
conhecimento porque “o mundo antigo desapareceu,
todas as coisas são novas” (2 Cor 5,17).

A letra recua, o espírito triunfa (Rm 7,6);
a prefiguração passa, a verdade aparece (Cl 2,17).

Aquele que nos deu a existência
quer também inundar-nos de felicidade;
essa felicidade que o pecado nos havia feito
perder, a encarnação do Filho nos devolve…

Tal é esta solenidade:
saudamos hoje a vinda de Deus ao meio dos
homens para que possamos, não chegar
mas regressar para junto de Deus;
a fim de que nos despojemos do homem velho
e nos revistamos do Homem novo (Cl 3,9),
a fim de que, mortos em Adão,
vivamos em Cristo (1 Cor 15,22)…

Celebremos pois este dia, cheios de uma alegria divina,
não mundana, mas uma verdadeira alegria celeste.

Que festa, este mistério de Cristo!
Ele é a minha plenitude, o meu novo nascimento.


S. Gregório Nazianzeno
Sermão 38 para a Natividade


NATAL DE NOSSO SENHOR – Ó Divino Jesus, por nós abandonaste o céu!



NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO

«Ó Divino Jesus, por nós abandonaste o céu!»

O VIVEIRO DO MENINO JESUS

Para os pobres exilados da terra,
Nosso Criador criou os pássaros,
Que vão gorjeando sua prece
Tanto nos vales como nas colinas.

As crianças alegres, saltitantes,
Escolhem suas aves preferidas
E as aprisionam dentro das gaiolas,
Que com douradas grades são construídas.

Ó Jesus, irmãozinho nosso,
Por nós abandonaste o lindo céu,
Mas, aqui nesta terra, o Teu viveiro
É o Carmelo, ó divino Infante!

Não é dourada, não, nossa gaiola,
Mas, assim mesmo, nós a amamos muito.
Não podemos mais voar, isto sabemos,
Nos bosques e planícies sob o azul.

Os bosques e arvoredos deste mundo
Não podem mais, Jesus, nos contentar.
Na solidão profunda do convento,
Tão somente a Ti vamos cantar.

Tua linda mãozinha nos atrai,
Menino de carícias encantadas.
Ó divino Jesus, o Teu sorriso
É que sempre cativa as avezinhas!...

Toda alma que for simples e pura
Aqui realiza o seu sonho de amor.
E, mesmo sendo tímida pombinha,
Não mais precisa temer o abutre.

Levado pelas asas da oração,
Vê-se subir o coração ardente,
Como leve e sonora cotovia
Que, cantando, se eleva nos espaços

Aqui dentro se escutam os trinados
Do rouxinol, do alegre pintassilgo
Que, nas gaiolas, ó Jesus Menino,
Vão cantando Teu nome com gorjeios.

As avezinhas cantam sem parar,
Porque sua vida não as preocupa.
Com um grãozinho de alpiste se contentam
E não precisam nunca plantar nada.

Como elas nós também, neste viveiro
De Tua boa mão tudo ganhamos.
E somente uma coisa é necessária:
Sempre Te amar, Menino divinal!

Também nós entoamos Teus louvores,
Unidas aos espíritos celestes.
E sabemos que os anjos, todos eles,
Amam, no céu, as aves do Carmelo.

Para enxugar o pranto, meu Jesus,
Que Te fazem verter os pecadores,
Tuas aves repetem Teus encantos
e, cantando, Te ganham corações.

Um dia, já bem longe deste mundo,
Após terem ouvido o Teu chamado,
Todas as aves deste Teu viveiro
Baterão suas asas rumo ao céu.

Então, entre as falanges encantadas
De Querubins pequenos, jubilosos,
Ó divino Infante, Teus louvores
Nós cantaremos todas lá no céu.


Santa Teresa do Menino Jesus
Introdução às Poesias – 24 - Poesia 43
Obras Completas de Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face


NATAL DE NOSSO SENHOR – Silenciar para que o Verbo nascido seja pronunciado em nós



NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO

«Silenciar para que o Verbo nascido seja pronunciado em nós»

"«Quando tudo estava envolvido em profundo silêncio, o teu Verbo todo-poderoso desceu.» (Sb 18,14-15) É deste Verbo que se trata hoje... Qual é então o lugar em que Deus vem pronunciar a sua Palavra e gerar o seu Filho? O coração em que tal nascimento deve cumprir-se há de guardar uma grande pureza, viver uma intensa vida interior, um profunda união com Deus. Se não se dispersar com o exterior mas permanecer recolhido, unido a Deus no mais profundo do seu ser, aí Deus escolhe habitar.

Como cooperar para este nascimento, para esta inspiração misteriosa do Verbo? Como
merecer que ele se realize em nós? Temos que nos aplicar a isso através de imagens ou de pensamentos acerca de Deus? Podemos apressar este novo nascimento de Deus em nós? Ou será melhor, pelo contrário, esvaziarmo-nos de qualquer pensamento, de qualquer palavra, de qualquer ação e de qualquer imagem e postarmo-nos diante de Deus no silêncio total para O deixarmos agir em nós?... A própria Palavra respondeu: "Foi no meio do silêncio que uma palavra secreta me foi dirigida." (Jb 4,16)

Recolhe-te pois, se o podes fazer; esquece tudo na tua oração; liberta-te das imagens de que estás cheio. Quanto mais esqueceres o resto, mais és capaz de receber esta Palavra que é para ti tão misteriosa... Evita pois a atividade e os pensamentos que te agitam, porque eles impedem a paz interior. Para que Deus fale o seu Verbo em nós, é preciso que nós mesmos estejamos na paz e no silêncio. Assim, Ele pode fazer-nos ouvir a sua Palavra - Ele próprio se fala em nós.

No Natal festejamos um triplo nascimento. O primeiro e mais sublime nascimento é o do Filho único gerado pelo Pai celeste na essência divina, sendo nisso distinto das pessoas. O segundo nascimento é o que se deu numa mãe que na fecundidade guardou a pureza absoluta da sua castidade virginal. O terceiro é aquele pelo qual Deus, todos os dias, à mesma hora, nasce em verdade, espiritualmente, pela graça e pelo amor, numa alma boa.

Para que seja possível este terceiro nascimento, permitamo-nos apenas a procura simples e pura de Deus, e abdiquemos de qualquer outro desejo que não nos seja próprio, tendo apenas como única vontade a de Lhe pertencermos, de Lhe darmos lugar da maneira mais digna e elevada, em total intimidade com Ele, para que possa realizar a sua obra, para que possa nascer em nós sem o menor obstáculo. Por isso nos diz Santo Agostinho : «Esvazia-te para que possas ficar completo; sai para que possas entrar», e diz ainda noutro texto: «Ó tu, alma nobre, nobre criatura, porque procuras fora de ti o que está em ti próprio, tão inteiro, da maneira mais verdadeira e manifesta? E, pois que participas da natureza divina, porque te hás-de importar com as coisas criadas, que tens tu a ver com elas?» Se o homem preparasse assim um lugar no mais profundo do seu ser, Deus, sem dúvida, seria obrigado a ocupá-lo e completamente; o próprio céu romper-se-ia para o fazer. Deus não pode deixar as coisas vazias; tal seria contrário à sua natureza, à sua justiça.

É por isso que deves calar-te; o Verbo deste nascimento poderá então ser pronunciado em ti e poderás ouvi-lo. Mas fica certo de que, se quiseres falar, Ele calar-se-á. A melhor maneira de servirmos o Verbo é calarmo-nos e escutarmo-Lo. Portanto, se saíres por completo de ti próprio, Deus entrará completo em ti; o quanto de ti próprio tu saíres, será o quanto Ele em ti entrará, nem mais, nem menos.


Johannes Tauler, O.P. (Juan Tauler)
Místico Dominicano do século XIV
Sermão para a celebração do Natal


NATAL DE NOSSO SENHOR – Hoje nasceu o Verbo Encarnado



NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO

«Hoje nasceu o Verbo Encarnado»

"Este dia é um dia muito feliz para Ti, Senhor, que te alegrou com a gozosa noticia de teu Filho que nasceu da estirpe de David enquanto homem, teu Filho formosíssimo e totalmente igual a Ti, até o ponto de que quem vê a Ele te vê a Ti. Que por esse dia e desde esse dia pereça o dia de meu nascimento e deixe de existir o dia de minha concepção, porque nele nasceu teu Filho e veio ao mundo para que sua formosa figura e sua encantadora presença elimine a deformidade do gênero humano. Por esse dia, Senhor piedoso, e por tua Obra maravilhosa, nasceu para Ti; e por teu Dom misericordioso nasceu para nós, a fim de que ao mirar sua Figura nos reconciliemos contigo e Tu te compadeças de nós".


John of Ford, Abade Cisterciense
Sermones sobre el Cantar de los Cantares, sermón 35, p. 67


NATAL DE NOSSO SENHOR – A própria Criança nos faz perceber Quem é



NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO

«A própria Criança nos faz perceber Quem é»

“Na oração de quietude, o Senhor começa por nos mostrar que nos ouve e que nos concede o Seu Reino, a fim de que possamos verdadeiramente bendizê-Lo e santificar o Seu nome e de que incitemos todos os homens e mulheres a fazer o mesmo. É qualquer coisa de sobrenatural e que não podemos alcançar pelos nossos esforços, por mais que façamos.

Com efeito, aqui, a alma mergulha na paz ou, melhor dito, o Senhor envolve-a nela com a Sua presença, tal como fez com o justo Simeão. Então, todas as potências da alma se apaziguam e ela compreende, com um tipo de compreensão muito diferente daquele que nos vem por meio dos sentidos exteriores, que está muito perto do seu Deus e que, por um pouco, conseguiria chegar a ser, pela união, uma só coisa com Ele. Não que O veja com os olhos do corpo nem com os da alma; o justo Simeão também não viu, exteriormente, mais do que o augusto Pobrezinho e, pelos panos que O envolviam e pelo pequeno número dos que Lhe faziam cortejo, poderia tê-Lo tomado pelo filho de pessoas pobres, mais do que pelo Filho do Pai celeste. Mas a própria Criança o fez perceber Quem era.

Aqui, é da mesma maneira que a alma compreende; ainda assim, apreende-o de forma menos clara, porque ainda não percebe como é que compreende. Sabe apenas que se encontra no Reino ou, pelo menos, perto do Rei que deve dar-lho, e é presa de um tão grande respeito, que não ousa pedir-Lhe nada”.


Santa Teresa de Jesus
Caminho da Perfeição, cap.31-33, p.814


NATAL DE NOSSO SENHOR – O Verbo era Deus... O Verbo fez-se carne!



NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO

«Natividade, segundo a carne, de Nosso Senhor, Deus e Salvador Jesus Cristo»

«O Verbo era Deus...
O Verbo fez-se carne»

Escutai, pastores, o som das trombetas…
O Verbo foi gerado, Deus manifestou-se ao mundo!
E vós, filhas de reis,
entrai na alegria da Mãe de Deus (Sl 44,10).
Povos, digamos: “Bendito sejas,
nosso Deus recém-nascido, glória a ti!”

A Virgem, que não conhece homem (Lc 1,34),
deu ao mundo a alegria,
a tristeza ancestral acabou.
Hoje, o Incriado foi gerado,
aquele que o mundo não pode conter entra no mundo.
Hoje, a alegria manifestou-se aos homens;
hoje o erro foi lançado no abismo.
Povos, digamos: “Bendito sejas,
nosso Deus recém-nascido, glória a ti!”

Pastores, cantai o Mestre que nasceu em Belém…,
aquele que resgata o mundo.
Eis que a maldição de Eva foi anulada,
graças àquele que nasceu da Virgem…
“Batamos palmas em aclamações” (Sl 46,2);
formemos um coro com os anjos.
O Senhor nasceu da Virgem Maria
para “levantar os que tinham caído
e erguer os abatidos” (Sl 144,14),
aqueles que gritam com fé:“Bendito sejas,
nosso Deus recém-nascido, glória a ti!”

O Autor da Lei encarnou sob a Lei (Gl 4,4),
o Filho intemporal nasceu da Virgem,
o Criador do universo está deitado no presépio.
Aquele que o Pai gera eternamente, sem mãe nos céus,
nasceu da Virgem, sem pai sobre a terra.
Povos, digamos: “Bendito sejas,
nosso Deus recém-nascido, glória a ti!”

Na verdade, a alegria acaba de nascer no estábulo.
Hoje os coros angélicos rejubilam;
todas as nações celebram a Virgem imaculada;
o nosso antepassado Adão dança de alegria,
porque hoje nasceu o Salvador.
Povos, digamos: “Bendito sejas,
nosso Deus recém-nascido, glória a ti!”


S. Romano, o Melódio
Hino 13 sobre a Natividade
Fontes Cristãs, 110, Ed. Cerf, Paris


NATAL DE NOSSO SENHOR – Ó Emmanuel! Rei da Paz!



NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO

«Ó Emmanuel! Rei da Paz!»

“Ó Emmanuel! Rei da Paz! Finalmente, hoje chegais a Jerusalém, a cidade que escolhestes; pois, é nela que está o vosso Templo. Em breve, encontrareis, nesta cidade, vossa Cruz e vosso Sepulcro; e o dia chegará em que estabelecereis junto a ela o vosso temível tribunal. Agora, chegais na cidade de Davi e de Salomão sem qualquer ruído, sem qualquer brilho. Jerusalém é apenas um local de passagem, rumo a Belém.

Todavia, Maria, vossa Mãe, e José, seu esposo, não a atravessam sem subir ao Templo, para oferecer ao Senhor suas preces e homenagens. E assim, pela primeira vez, o oráculo do Profeta Ageu se cumpre. Ele havia anunciado que a glória do segundo Templo seria maior do que a do primeiro.

O Templo possui, efetivamente, neste momento, uma Arca da Aliança bem preciosa, diferente daquela de Moisés, mas, sobretudo, incomparável a qualquer outro santuário, pela dignidade d´Aquele que está guardado em seu interior. É o próprio Legislador que está aqui, e não apenas uma mesa de pedra, sobre a qual a Lei se encontra gravada. Logo, a Arca viva do Senhor desce os degraus do Templo, e se dispõe a partir para Belém, onde a chamam outros oráculos”.

Dom Guéranger
L´année Liturgique


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

SÃO JOÃO DA CRUZ – Senhor, dai-me fixar os olhos em Vós!



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«Senhor, dai-me fixar os olhos em Vós!»

“A viva esperança em Vós, ó Deus, confere à alma tanta vivacidade e ânimo, e tanta elevação às coisas da vida eterna, que toda coisa da terra, em comparação a tudo quanto espera alcançar no céu, lhe parece murcha, seca e morta, como na verdade é, e de nenhum valor.

Fazei, ó Senhor, que em virtude dessa esperança eu me despoje completamente de todas as vestes e costumes do mundo, tirando o coração de tudo isto, sem nada esperar do mundo, vivendo vestido unicamente de esperança da vida eterna...

Dai-me erguer os olhos para olhar-vos a Vós só, sem esperar bem algum de qualquer outra parte. Como os olhos da escrava estão postos nas mãos de sua senhora, assim se fixem os meus em Vós, Senhor Deus, até que tenhais misericórdia de mim que espero em Vós.

Dai-me fixar sempre em Vós os olhos sem ver outra coisa. Fazei-me não querer outra paga para o meu amor senão Vós só, e então, vos agradarei tanto que alcançarei de Vós tanto quanto espero”.


São João da Cruz
Noite II, 21, 6-8


SÃO JOÃO DA CRUZ – Ó Senhor, põe-me como selo sobre teu coração!



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«Ó Senhor, põe-me como selo sobre teu coração!»

“Ó Senhor, ‘ponde-me como selo sobre vosso coração, como selo sobre vosso braço, porque o amor – o ato e as obras de amor – é forte como a morte, e o zelo do amor é tenaz como o inferno’. Fazei, ó Senhor, que, de modo algum, busque eu consolação e gosto em Vós ou em qualquer coisa criada. Nem ande também a desejar mercês, pois já as recebi grandíssimas. Seja todo o meu cuidado dar-vos gosto e servir-vos de algum modo, ainda que isto me custasse muito, pelo que mereceis, e em agradecimento das misericórdias de Vós recebidas.

Deus e Senhor meu, quantas almas estão sempre a buscar em Vós consolo e gosto, graças e mercês! E quão poucas pretendem agradar-vos e oferecer-vos algo à própria custa, deixando de lado seu interesse!

Amado meu, para mim todas as coisas ásperas e trabalhosas, e para Vós todo o suave e saboroso!”


São João da Cruz
Noite II, 19,4; Ditos, 2, 52


SÃO JOÃO DA CRUZ – Ó Deus meu, fazei minha alma enamorada de Vós!



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«Ó Deus meu, fazei minha alma bem enamorada de Vós!»

“Porquanto, para buscar-Vos, ó Deus meu, se requer um coração despojado e forte, livre de todos os males e bens que não são puramente Deus, ajudai-me a não colher as flores que encontrar pelo caminho, isto é, a não admitir os gostos, contentamentos e deleites que se me apresentarem nesta vida e que poderiam impedir-me a passagem.

Não apegarei meu coração às riquezas e vantagens que me oferecer o mundo; não aceitarei os prazeres da carne nem tampouco prestarei atenção aos gostos e consolações do espírito, para que nada disto me detenha na busca de meus amores, ó Deus meu, pelos montes das virtudes e dos trabalhos. E a fim de que tal me seja possível, fazei minha alma bem enamorada de Vós, que vos estime sobre todas as coisas, confiando em vosso amor e auxílio”.


São João da Cruz
Cântico 3, 5.8


SÃO JOÃO DA CRUZ – Tender exclusivamente para a honra e a glória de Deus!



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«Tender exclusivamente para a honra e a glória de Deus!»

Primeiramente: tenha sempre a alma o desejo contínuo de imitar a Cristo em todas as coisas, conformando-se à sua vida que deve meditar para sabre imitá-la, e agir em todas as circunstâncias como ele próprio agiria.

Em segundo lugar, para bom poder fazer isto, se lhe for oferecida aos sentidos alguma coisa de agradável que não tenda exclusivamente para a honra e a glória de Deus, renuncie e prive-se dela pelo amor de Jesus Cristo, que, durante a sua vida, jamais teve outro gosto, nem outra coisa quis senão fazer a vontade do Pai, a que chamava sua comida e manjar. Por exemplo: se acha satisfação em ouvir coisas em que a glória de Deus não está interessada, rejeite esta satisfação e mortifique a vontade de ouvir. Se tem prazer em olhar objetos que não levam a Deus, afaste este prazer e desvie os olhos. Igualmente nas conversações e em qualquer outra circunstância, deve fazer o mesmo. Em uma palavra, proceda deste modo, na medida do possível, em todas as operações dos sentidos; no caso de não ser possível, basta que a vontade não queira gozar desses atos que lhe vão na alma. Desta maneira há de deixar logo mortificados e vazios de todo o gosto, e como às escuras. E com este cuidado, em breve aproveitará muito.

Para mortificar e pacificar as quatro paixões naturais que são gozo, esperança, temor e dor, de cuja concórdia e harmonia nascem inumeráveis bens, trazendo à alma grande merecimento e muitas virtudes, o remédio universal é o seguinte:

Procure sempre inclinar-se não ao mais fácil, senão ao mais difícil. Não ao mais saboroso, senão ao mais insípido. Não ao mais agradável, senão ao mais desagradável. Não ao descanso, senão ao trabalho. Não ao consolo, mas à desolação. Não ao mais, senão ao menos. Não ao mais alto e precioso, senão ao mais baixo e desprezível. Não a querer algo, e sim a nada querer. Não a andar buscando o melhor das coisas temporais, mas o pior; enfim, desejando entrar por amor de Cristo na total desnudez, vazio e pobreza de tudo quanto há no mundo.

Abrace de coração essas práticas, procurando acostumar a vontade a elas. Porque se de coração as exercitar, em pouco tempo achará nelas grande deleite e consolo, procedendo com ordem e discrição.

O homem espiritual deve:

1.º Agir em seu desprezo e desejar que os outros o desprezem.

2.º Falar contra si e desejar que os outros também o façam.

3.º Esforçar-se por conceber baixos sentimentos de sua própria pessoa e desejar que os outros pensem do mesmo modo.


São João da Cruz
Subida do Monte Carmelo I, Cap XIII, §3-7; 9


SÃO JOÃO DA CRUZ – ELE, O ESPOSO, TE AMA!



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«ELE, O ESPOSO, TE AMA!»

«O Esposo está com eles» Mt 9, 14-17

“Uma pessoa que ama outra e que lhe faz bem ama-a e faz-lhe bem segundo as suas qualidades, segundo as suas propriedades pessoais. É assim que age o teu Esposo, que em ti reside enquanto onipotente: ama-te e faz-te bem segundo a Sua onipotência.

Infinitamente Sábio, Ele ama-te e faz-te bem segundo a extensão da Sua sabedoria.
Infinitamente Bom, Ele ama-te e faz-te bem segundo a extensão da Sua bondade.
Infinitamente Santo, Ele ama-te e faz-te bem segundo a extensão da Sua santidade.
Infinitamente Justo, Ele ama-te e concede-te as Suas graças segundo a extensão da Sua justiça.
Infinitamente Misericordioso, Clemente e Compassivo, Ele faz-te experimentar a Sua clemência e a Sua compaixão.
Forte, Delicado, Sublime em Seu ser, Ele ama-te de maneira forte, delicada e sublime.
Infinitamente Puro, ama-te segundo a extensão da Sua pureza.
Soberanamente Verdadeiro, ama-te segundo a extensão da Sua verdade.
Infinitamente Generoso, ama-te e cumula-te de graças, segundo a extensão da Sua generosidade, sem qualquer interesse pessoal e visando apenas fazer-te bem.
Soberanamente Humilde, ama-te com humildade soberana e com soberana estima.

Eleva-te até Si, a ti Se descobre alegremente, com uma face cheia de graça, nesta via dos conhecimentos que te dá. E tu ouve-Lo dizer-te: «Sou teu e por ti; alegro-me por ser o que sou, a fim de Me dar a ti e de ser teu para sempre».

Quem poderá exprimir o que sentes, alma bem-aventurada, vendo-te amada a este ponto, vendo-te tida por Deus em semelhante estima?”


São João da Cruz
Chama Viva do Amor, 3, 6