quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

NATAL DE NOSSO SENHOR – A própria Criança nos faz perceber Quem é



NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO

«A própria Criança nos faz perceber Quem é»

“Na oração de quietude, o Senhor começa por nos mostrar que nos ouve e que nos concede o Seu Reino, a fim de que possamos verdadeiramente bendizê-Lo e santificar o Seu nome e de que incitemos todos os homens e mulheres a fazer o mesmo. É qualquer coisa de sobrenatural e que não podemos alcançar pelos nossos esforços, por mais que façamos.

Com efeito, aqui, a alma mergulha na paz ou, melhor dito, o Senhor envolve-a nela com a Sua presença, tal como fez com o justo Simeão. Então, todas as potências da alma se apaziguam e ela compreende, com um tipo de compreensão muito diferente daquele que nos vem por meio dos sentidos exteriores, que está muito perto do seu Deus e que, por um pouco, conseguiria chegar a ser, pela união, uma só coisa com Ele. Não que O veja com os olhos do corpo nem com os da alma; o justo Simeão também não viu, exteriormente, mais do que o augusto Pobrezinho e, pelos panos que O envolviam e pelo pequeno número dos que Lhe faziam cortejo, poderia tê-Lo tomado pelo filho de pessoas pobres, mais do que pelo Filho do Pai celeste. Mas a própria Criança o fez perceber Quem era.

Aqui, é da mesma maneira que a alma compreende; ainda assim, apreende-o de forma menos clara, porque ainda não percebe como é que compreende. Sabe apenas que se encontra no Reino ou, pelo menos, perto do Rei que deve dar-lho, e é presa de um tão grande respeito, que não ousa pedir-Lhe nada”.


Santa Teresa de Jesus
Caminho da Perfeição, cap.31-33, p.814


NATAL DE NOSSO SENHOR – O Verbo era Deus... O Verbo fez-se carne!



NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO

«Natividade, segundo a carne, de Nosso Senhor, Deus e Salvador Jesus Cristo»

«O Verbo era Deus...
O Verbo fez-se carne»

Escutai, pastores, o som das trombetas…
O Verbo foi gerado, Deus manifestou-se ao mundo!
E vós, filhas de reis,
entrai na alegria da Mãe de Deus (Sl 44,10).
Povos, digamos: “Bendito sejas,
nosso Deus recém-nascido, glória a ti!”

A Virgem, que não conhece homem (Lc 1,34),
deu ao mundo a alegria,
a tristeza ancestral acabou.
Hoje, o Incriado foi gerado,
aquele que o mundo não pode conter entra no mundo.
Hoje, a alegria manifestou-se aos homens;
hoje o erro foi lançado no abismo.
Povos, digamos: “Bendito sejas,
nosso Deus recém-nascido, glória a ti!”

Pastores, cantai o Mestre que nasceu em Belém…,
aquele que resgata o mundo.
Eis que a maldição de Eva foi anulada,
graças àquele que nasceu da Virgem…
“Batamos palmas em aclamações” (Sl 46,2);
formemos um coro com os anjos.
O Senhor nasceu da Virgem Maria
para “levantar os que tinham caído
e erguer os abatidos” (Sl 144,14),
aqueles que gritam com fé:“Bendito sejas,
nosso Deus recém-nascido, glória a ti!”

O Autor da Lei encarnou sob a Lei (Gl 4,4),
o Filho intemporal nasceu da Virgem,
o Criador do universo está deitado no presépio.
Aquele que o Pai gera eternamente, sem mãe nos céus,
nasceu da Virgem, sem pai sobre a terra.
Povos, digamos: “Bendito sejas,
nosso Deus recém-nascido, glória a ti!”

Na verdade, a alegria acaba de nascer no estábulo.
Hoje os coros angélicos rejubilam;
todas as nações celebram a Virgem imaculada;
o nosso antepassado Adão dança de alegria,
porque hoje nasceu o Salvador.
Povos, digamos: “Bendito sejas,
nosso Deus recém-nascido, glória a ti!”


S. Romano, o Melódio
Hino 13 sobre a Natividade
Fontes Cristãs, 110, Ed. Cerf, Paris


NATAL DE NOSSO SENHOR – Ó Emmanuel! Rei da Paz!



NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
SOLENIDADE COM OITAVA
25 DE DEZEMBRO

«Ó Emmanuel! Rei da Paz!»

“Ó Emmanuel! Rei da Paz! Finalmente, hoje chegais a Jerusalém, a cidade que escolhestes; pois, é nela que está o vosso Templo. Em breve, encontrareis, nesta cidade, vossa Cruz e vosso Sepulcro; e o dia chegará em que estabelecereis junto a ela o vosso temível tribunal. Agora, chegais na cidade de Davi e de Salomão sem qualquer ruído, sem qualquer brilho. Jerusalém é apenas um local de passagem, rumo a Belém.

Todavia, Maria, vossa Mãe, e José, seu esposo, não a atravessam sem subir ao Templo, para oferecer ao Senhor suas preces e homenagens. E assim, pela primeira vez, o oráculo do Profeta Ageu se cumpre. Ele havia anunciado que a glória do segundo Templo seria maior do que a do primeiro.

O Templo possui, efetivamente, neste momento, uma Arca da Aliança bem preciosa, diferente daquela de Moisés, mas, sobretudo, incomparável a qualquer outro santuário, pela dignidade d´Aquele que está guardado em seu interior. É o próprio Legislador que está aqui, e não apenas uma mesa de pedra, sobre a qual a Lei se encontra gravada. Logo, a Arca viva do Senhor desce os degraus do Templo, e se dispõe a partir para Belém, onde a chamam outros oráculos”.

Dom Guéranger
L´année Liturgique


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

SÃO JOÃO DA CRUZ – Senhor, dai-me fixar os olhos em Vós!



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«Senhor, dai-me fixar os olhos em Vós!»

“A viva esperança em Vós, ó Deus, confere à alma tanta vivacidade e ânimo, e tanta elevação às coisas da vida eterna, que toda coisa da terra, em comparação a tudo quanto espera alcançar no céu, lhe parece murcha, seca e morta, como na verdade é, e de nenhum valor.

Fazei, ó Senhor, que em virtude dessa esperança eu me despoje completamente de todas as vestes e costumes do mundo, tirando o coração de tudo isto, sem nada esperar do mundo, vivendo vestido unicamente de esperança da vida eterna...

Dai-me erguer os olhos para olhar-vos a Vós só, sem esperar bem algum de qualquer outra parte. Como os olhos da escrava estão postos nas mãos de sua senhora, assim se fixem os meus em Vós, Senhor Deus, até que tenhais misericórdia de mim que espero em Vós.

Dai-me fixar sempre em Vós os olhos sem ver outra coisa. Fazei-me não querer outra paga para o meu amor senão Vós só, e então, vos agradarei tanto que alcançarei de Vós tanto quanto espero”.


São João da Cruz
Noite II, 21, 6-8


SÃO JOÃO DA CRUZ – Ó Senhor, põe-me como selo sobre teu coração!



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«Ó Senhor, põe-me como selo sobre teu coração!»

“Ó Senhor, ‘ponde-me como selo sobre vosso coração, como selo sobre vosso braço, porque o amor – o ato e as obras de amor – é forte como a morte, e o zelo do amor é tenaz como o inferno’. Fazei, ó Senhor, que, de modo algum, busque eu consolação e gosto em Vós ou em qualquer coisa criada. Nem ande também a desejar mercês, pois já as recebi grandíssimas. Seja todo o meu cuidado dar-vos gosto e servir-vos de algum modo, ainda que isto me custasse muito, pelo que mereceis, e em agradecimento das misericórdias de Vós recebidas.

Deus e Senhor meu, quantas almas estão sempre a buscar em Vós consolo e gosto, graças e mercês! E quão poucas pretendem agradar-vos e oferecer-vos algo à própria custa, deixando de lado seu interesse!

Amado meu, para mim todas as coisas ásperas e trabalhosas, e para Vós todo o suave e saboroso!”


São João da Cruz
Noite II, 19,4; Ditos, 2, 52


SÃO JOÃO DA CRUZ – Ó Deus meu, fazei minha alma enamorada de Vós!



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«Ó Deus meu, fazei minha alma bem enamorada de Vós!»

“Porquanto, para buscar-Vos, ó Deus meu, se requer um coração despojado e forte, livre de todos os males e bens que não são puramente Deus, ajudai-me a não colher as flores que encontrar pelo caminho, isto é, a não admitir os gostos, contentamentos e deleites que se me apresentarem nesta vida e que poderiam impedir-me a passagem.

Não apegarei meu coração às riquezas e vantagens que me oferecer o mundo; não aceitarei os prazeres da carne nem tampouco prestarei atenção aos gostos e consolações do espírito, para que nada disto me detenha na busca de meus amores, ó Deus meu, pelos montes das virtudes e dos trabalhos. E a fim de que tal me seja possível, fazei minha alma bem enamorada de Vós, que vos estime sobre todas as coisas, confiando em vosso amor e auxílio”.


São João da Cruz
Cântico 3, 5.8


SÃO JOÃO DA CRUZ – Tender exclusivamente para a honra e a glória de Deus!



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«Tender exclusivamente para a honra e a glória de Deus!»

Primeiramente: tenha sempre a alma o desejo contínuo de imitar a Cristo em todas as coisas, conformando-se à sua vida que deve meditar para sabre imitá-la, e agir em todas as circunstâncias como ele próprio agiria.

Em segundo lugar, para bom poder fazer isto, se lhe for oferecida aos sentidos alguma coisa de agradável que não tenda exclusivamente para a honra e a glória de Deus, renuncie e prive-se dela pelo amor de Jesus Cristo, que, durante a sua vida, jamais teve outro gosto, nem outra coisa quis senão fazer a vontade do Pai, a que chamava sua comida e manjar. Por exemplo: se acha satisfação em ouvir coisas em que a glória de Deus não está interessada, rejeite esta satisfação e mortifique a vontade de ouvir. Se tem prazer em olhar objetos que não levam a Deus, afaste este prazer e desvie os olhos. Igualmente nas conversações e em qualquer outra circunstância, deve fazer o mesmo. Em uma palavra, proceda deste modo, na medida do possível, em todas as operações dos sentidos; no caso de não ser possível, basta que a vontade não queira gozar desses atos que lhe vão na alma. Desta maneira há de deixar logo mortificados e vazios de todo o gosto, e como às escuras. E com este cuidado, em breve aproveitará muito.

Para mortificar e pacificar as quatro paixões naturais que são gozo, esperança, temor e dor, de cuja concórdia e harmonia nascem inumeráveis bens, trazendo à alma grande merecimento e muitas virtudes, o remédio universal é o seguinte:

Procure sempre inclinar-se não ao mais fácil, senão ao mais difícil. Não ao mais saboroso, senão ao mais insípido. Não ao mais agradável, senão ao mais desagradável. Não ao descanso, senão ao trabalho. Não ao consolo, mas à desolação. Não ao mais, senão ao menos. Não ao mais alto e precioso, senão ao mais baixo e desprezível. Não a querer algo, e sim a nada querer. Não a andar buscando o melhor das coisas temporais, mas o pior; enfim, desejando entrar por amor de Cristo na total desnudez, vazio e pobreza de tudo quanto há no mundo.

Abrace de coração essas práticas, procurando acostumar a vontade a elas. Porque se de coração as exercitar, em pouco tempo achará nelas grande deleite e consolo, procedendo com ordem e discrição.

O homem espiritual deve:

1.º Agir em seu desprezo e desejar que os outros o desprezem.

2.º Falar contra si e desejar que os outros também o façam.

3.º Esforçar-se por conceber baixos sentimentos de sua própria pessoa e desejar que os outros pensem do mesmo modo.


São João da Cruz
Subida do Monte Carmelo I, Cap XIII, §3-7; 9


SÃO JOÃO DA CRUZ – ELE, O ESPOSO, TE AMA!



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«ELE, O ESPOSO, TE AMA!»

«O Esposo está com eles» Mt 9, 14-17

“Uma pessoa que ama outra e que lhe faz bem ama-a e faz-lhe bem segundo as suas qualidades, segundo as suas propriedades pessoais. É assim que age o teu Esposo, que em ti reside enquanto onipotente: ama-te e faz-te bem segundo a Sua onipotência.

Infinitamente Sábio, Ele ama-te e faz-te bem segundo a extensão da Sua sabedoria.
Infinitamente Bom, Ele ama-te e faz-te bem segundo a extensão da Sua bondade.
Infinitamente Santo, Ele ama-te e faz-te bem segundo a extensão da Sua santidade.
Infinitamente Justo, Ele ama-te e concede-te as Suas graças segundo a extensão da Sua justiça.
Infinitamente Misericordioso, Clemente e Compassivo, Ele faz-te experimentar a Sua clemência e a Sua compaixão.
Forte, Delicado, Sublime em Seu ser, Ele ama-te de maneira forte, delicada e sublime.
Infinitamente Puro, ama-te segundo a extensão da Sua pureza.
Soberanamente Verdadeiro, ama-te segundo a extensão da Sua verdade.
Infinitamente Generoso, ama-te e cumula-te de graças, segundo a extensão da Sua generosidade, sem qualquer interesse pessoal e visando apenas fazer-te bem.
Soberanamente Humilde, ama-te com humildade soberana e com soberana estima.

Eleva-te até Si, a ti Se descobre alegremente, com uma face cheia de graça, nesta via dos conhecimentos que te dá. E tu ouve-Lo dizer-te: «Sou teu e por ti; alegro-me por ser o que sou, a fim de Me dar a ti e de ser teu para sempre».

Quem poderá exprimir o que sentes, alma bem-aventurada, vendo-te amada a este ponto, vendo-te tida por Deus em semelhante estima?”


São João da Cruz
Chama Viva do Amor, 3, 6

SÃO JOÃO DA CRUZ – É no silêncio da alma que Ele se faz ouvir



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

«É no silêncio da alma que Ele se faz ouvir»

O Pai celeste disse uma única palavra: é o Seu Filho. Disse-a eternamente e num eterno silêncio. É no silêncio da alma que Ele se faz ouvir.

Falai pouco e não vos metais em assuntos sobre os quais não fostes interrogados.

Não vos queixeis de ninguém; não façais perguntas ou, se for absolutamente necessário, que seja com poucas palavras.

Procurai não contradizer ninguém e não vos permitais uma palavra que não seja pura.

Quando falardes, que seja de modo a não ofender ninguém e não digais senão coisas que possais dizer sem receio diante de toda a gente.

Tende sempre paz interior assim como uma atenção amorosa para com Deus e, quando for necessário falar, que seja com a mesma calma e a mesma paz.

Guardai para vós o que Deus vos diz e lembrai-vos desta palavra da Escritura: "O meu segredo é meu" (Is 24,16)...

Para avançar na virtude, é importante calar-se e agir, porque falando as pessoas distraem-se, ao passo que, guardando o silêncio e trabalhando, as pessoas recolhem-se.

A partir do momento em que aprendemos com alguém o que é preciso para o avanço espiritual, não é preciso pedir-lhe que diga mais nem que continue a falar, mas pôr mãos às obras, com seriedade e em silêncio, com zelo e humildade, com caridade e desprezo de si mesmo.

Antes de todas as coisas, é necessário e conveniente servir a Deus no silêncio das tendências desordenadas, bem como da língua, a fim de só ouvir palavras de amor.


São João da Cruz
Conselhos e Máximas

SÃO JOÃO DA CRUZ – São João da Cruz e a Subida do Monte Carmelo



SÃO JOÃO DA CRUZ
14 DE DEZEMBRO

« São João da Cruz e a Subida do Monte Carmelo»

São João da Cruz, o grande místico e poeta espanhol, nasceu em Fontiveros, nas proximidades de Ávila, na Espanha, no ano de 1542. Filho de pais pobres e tendo ele mesmo conhecido prematuramente a orfandade paterna, a fome e as demais inseguranças que atingiam os pobres de sua época, soube transformar todo esse “material humano” em húmus fertilíssimo do qual brotou toda a sua obra e espiritualidade, lida e cultivada em todos os recantos do mundo.

Apropriando-se de símbolos mais do que expressivos, o santo espanhol expressa a relação do ser humano com Deus, ou a tentativa dessa relação-aproximação, por meio de elementos da natureza, entre outros:

A NOITE ( NOITE ESCURA),
O FOGO (CHAMA VIVA DE AMOR),
A ÁQUA (CÂNTICO ESPIRITUAL),
O MONTE (SUBIDA DO MONTE CARMELO)

Homem de grande sensibilidade, abertura de coração e generosidade, João da Cruz soube apoderar-se do melhor da literatura e da mística de sua época, produzindo assim uma obra ímpar e insubstituível. Mantendo os pés bem plantados na realidade castelhana de seu tempo, sorveu dos versos populares, da literatura de cordel, dos cantores de feiras e mercados, o estilo com o qual plasmou seus versos e sonetos.

Uma de suas obras mais densas é, sem dúvida alguma, a Subida do Monte Carmelo. Nesta obra o autor vai comentando e descrevendo, parte por parte, qual o itinerário que o ser humano deve percorrer para chegar a Deus. A Subida ao Monte é a meta principal e final da perfeição, sabendo-se que para atingir-se tal finalidade, o ser humano deverá passar por situações de escuridão, trevas, privações... É o caminho árduo proposto pelo místico espanhol, que não engana com facilidades aquelas pessoas que queiram verdadeiramente fazer uma profunda experiência de Deus.

Nenhum viajante, ao partir, carrega uma mochila pesada demais, porque senão as suas forças poderiam faltar-lhe brevemente. Ainda mais quando alguém se propõe a subir uma montanha, deve mais ainda, tornar-se leve e ágil para a escalada, sabendo que o excesso de “coisas”que leva consigo, podem tornar-se empecilho para a missão.

Pensamentos, sentimentos, gostos próprios, são exemplos das “coisas” que podem dificultar nossa ascensão ao cume do monte da perfeição. Daí a necessidade do esvaziamento do “negar-se a si mesmo” – ‘quem não renunciar a si mesmo...’ – para se chegar ao TUDO QUE É DEUS.

A caridade, como nos descreve 1 Cor.13,4-7 é o parâmetro para avaliarmos se esse esvaziamento, essa humildade e caridade de fato acontecem em nossas vidas. Não querer nada para si mesmo, eis a norma, mas querer tudo para os demais.

Num mundo de competição, ganância e desvalorização da vida humana como tal, num mundo mercantilizado como o que vivemos, parece impossível se chegar a viver esse ideal pregado por São João da Cruz. No entanto, ontem como hoje, o cristão que esteja verdadeiramente revestido de fé, esperança e caridade, poderá sim trilhar esse caminho árduo e estreito e chegar ao cume da perfeição aonde, como diz João da Cruz, “AQUI JÁ NÃO EXISTE CAMINHO”, ele já não se faz necessário, porque O PRÓPRIO DEUS HABITA NESSE “MONTE”E ELE É O CAMINHO.


Frei Osmar Vieira Branco O.Carm.


domingo, 13 de dezembro de 2009

ADVENTO – 3º DOMINGO – Te entregarei o amor do meu coração



DOMINGO III DO ADVENTO

«Oferecer-Te-ei por inteiro a minha alma que Tu resgataste, entregar-Te-ei o amor do meu coração»

Tu, que por mim fizeste tão grandes e belas coisas, que me obrigaste a ficar ao Teu serviço para sempre, que Te darei eu por tão grandes benefícios? Que louvores, que ações de graças poderia oferecer-Te, ainda que me gastasse mil vezes? O que sou eu, pobre criatura, em comparação Contigo, que és a minha abundante redenção? Assim, pois, oferecer-Te-ei por inteiro a minha alma que Tu resgataste, entregar-Te-ei o amor do meu coração. Sim, transporta a minha vida em Ti, leva-me toda inteira em Ti e, encerrando-me em Ti, faz com que eu seja uma única coisa Contigo.

Ó amor, o teu ardor divino abriu-me o doce coração do meu Jesus. Ó coração fonte de doçura, coração transbordante de bondade, coração superabundante de caridade, coração de onde corre, gota a gota, a benevolência, coração cheio de misericórdia, coração tão amado, peço-te que absorvas todo o meu coração em ti. Pérola preciosíssima do meu coração, convida-me para o Teu festim que dá vida; serve-me os vinhos da consolação, a fim de que as ruínas do meu espírito se encham da Tua caridade divina, e de que a abundância do Teu amor supra a pobreza e a miséria da minha alma.

Ó coração amado acima de todas as coisas, tem piedade de mim. Suplico-Te que a doçura da Tua caridade dê coragem ao meu coração. Que, pela Tua bondade, as entranhas da Tua misericórdia se comovam a meu favor; porque os meus deméritos são numerosos, e nulos são os meus méritos. Meu Jesus, que o mérito da Tua morte preciosa, que foi o único que teve o poder de compensar a dívida universal, me redima de todo o mal que eu fiz; que ele me atraia a Ti, de maneira tão poderosa que, totalmente transformada pela força do Teu amor divino, eu encontre graça a Teus olhos. E concede-me, querido Jesus, que Te ame, só a Ti em todas as coisas, que a Ti me ligue com fervor, que espere em Ti e não coloque limites à minha esperança.


Santa Gertrudes de Helfta
Esercizi Spirituali, 7


ADVENTO – 3º DOMINGO – Coisa alguma pode distrair de Vós quem age só por Vós



DOMINGO III DO ADVENTO


«Coisa alguma pode distrair de Vós quem age só por Vós»


Deus meu, parece-me que coisa alguma pode distrair de Vós quem age só por Vós, sempre na Vossa santa presença, sob Vosso olhar divino que penetra o mais íntimo da alma. Mesmo no meio do mundo, pode ouvir-nos o coração silencioso que quer ser só Vosso.

Tudo está na intenção com que podemos santificar as mínimas coisas, transformar as ações mais comuns da vida em ações divinas! A alma que vive unida a Vós, Deus meu, só pratica atos sobrenaturais, e as coisas mais banais, longe de separá-la, aproximam-na cada vez mais de Vós.


Beata Elizabeth da Trindade
Cartas 38; 261


ADVENTO – 3º DOMINGO – A Esperança da Vida Nova em Cristo



DOMINGO III DO ADVENTO

«A Esperança da Vida Nova em Cristo»

Afugenta, Senhor, com a luz diurna de tua sabedoria,
as trevas noturnas de nossa mente,
para que, iluminados por Ti,
te sirvamos com espírito renovado e puro.

A chegada do sol representa para os mortais
o início de seu trabalho;
Adorne, Senhor, em nossas almas uma mansão
em que possa continuar aquele dia
que não conhece o ocaso.

Faze que saibamos contemplar em nós
mesmos a vida da ressurreição,
e que nada possa separa nossas
mentesde teus deleites.

Imprime em nós, Senhor,
por nossa constante adesão a Ti,
o selo daquele dia que não depende
do movimento solar.

Cada dia te estreitamos em nossos braços
e te recebemos em nosso corpo por meio de
teus sacramentos; faze que sejamos dignos
de experimentar em nossa pessoa,
a ressurreição que esperamos.

Pela graça do batismo trazemos escondido
em nosso corpo o tesouro que tu nos deste;
que este mesmo tesouro vá crescendo na
mesa dos teus sacramentos;
faze que nos alegremos de teus dons.

Temos em nós, Senhor, o teu memorial,
recebido de tua mesa espiritual;
dá-nos que alcancemos sua realidade
plena, na renovação futura.

Pedimos-te, Senhor, que aquela
beleza espiritual que tua vontade imortal
faz brotar na mesma mortalidade nos faça
compreender nossa própria beleza.

Tua crucifixão, ó Salvador Nosso,
foi o término de tua vida mortal;
faz que crucifiquemos nossa mente
a fim de obter a vida espiritual.

Que tua ressurreição, ó Jesus,
faça crescer em nós o homem espiritual;
que a visão de teus sinais sacramentais,
nos ajude a conhecê-la.

Tuas disposições divinas, ó Salvador Nosso,
são figura do mundo espiritual
faze que nos movamos nele,
como homens espirituais.

Não prives, Senhor, a nossa mente
de tua manifestação espiritual,
e não separe de nós
o calor de tua suavidade.

A mortalidade latente em nosso corpo
derrama em nós a corrupção;
que a aspersão de teu amor espiritual
apague em nossos corações
os efeitos da mortalidade.

Concede-nos, Senhor, que caminhemos com presteza
para a nossa pátria definitiva
e que, como Moisés, do cume do monte,
possamos desde agora contemplá-la pela fé.


Santo Efren, o Sírio
Sermo 3, De fine et admonitione 2. 4-5:
Opera, edição Lamy 3, 216-222


ADVENTO – 3º DOMINGO – Ó Senhor, conduzi-me à posse de Vossa bem-aventurança



DOMINGO III DO ADVENTO

«Ó Senhor, dai-me pensamentos espirituais e conduzi-me a posse de Vossa bem-aventurança»

“Ó Senhor, não sou luz para mim mesmo: olho posso ser; luz, não. Que vale ter olhos perfeitos e abertos, quando falta a luz? A Vós elevo meu clamor e digo: sereis a luz de minha lâmpada, ó Senhor; com vossa Luz, ó Senhor, iluminareis minhas trevas. De minha parte, sou só trevas. Vós, ao contrário, sois luz que expulsa as trevas e me ilumina. Não de mim me vem a luz: só em Vós tenho luz.

Os sábios e prudentes deste mundo julgam-se luz e são trevas! E porque são trevas e se julgam luz, não podem ser iluminados. Mas os que são trevas, e trevas confessam ser, mantêm-se pequenos e não querem engrandecer-se, são humildes e não soberbos. Conhecem-se a si mesmos, louvam-Vos, ó Senhor, e não se desviam do caminho que conduz à salvação. Louvando-Vos, invocam-Vos e são libertados de seus inimigos.

Senhor, Deus Pai Onipotente, com sinceridade de coração, dirijo-me a Vós, tanto quanto me permite a minha pequenez, dou-vos alegremente vivíssimas e copiosas graças, implorando com toda a alma Vossa extraordinária bondade de acolher benevolamente minhas súplicas: com Vosso poder, expulsai de meus atos e pensamentos o inimigo, aumentai em mim a fé, governai-me a mente, dai-me pensamentos espirituais e conduzi-me a posse de Vossa bem-aventurança”.


Santo Agostinho
Sermo 67, 8-10


ADVENTO – 3º DOMINGO – Sejamos um edifício firme, invulnerável às tempestades



DOMINGO III DO ADVENTO

«Sejamos um edifício firme, invulnerável às tempestades»

O batismo de João é um batismo com o Espírito Santo e com o fogo (Lc 3, 16). Se fores santo, serás batizado no Espírito; se pecador, mergulharás no fogo. E assim, um mesmo batismo se tornará condenação e fogo para os indignos e pecadores, enquanto os santos, que se convertem ao Senhor com toda fé, receberão a graça do Espírito Santo e a salvação.

Ora, aquele que batiza com o Espírito Santo e com o fogo tem a pá em sua mão; limpará a sua eira e recolherá o trigo em seu celeiro; a palha, porém, ele a queimará num fogo inextinguível. Quero descobrir por que razão nosso Senhor tem a pá em sua mão, e que vento é esse que ao soprar dispersa a palha leve, enquanto o grão de trigo, mais pesado, se junta num só lugar; com efeito, sem vento não se pode separar a palha do trigo.

Suponho que por vento podemos entender as tentações que, num grupo indistinto de fiéis, fazem ver que uns são palha e outros trigo. Quando tua alma foi vencida por alguma tentação, não é que ela te tenha transformado em palha, mas porque já eras palha, isto é, leviano e incrédulo, a tentação revelou a tua natureza latente. Quando, ao contrário, suportas a prova com coragem, não é a tentação que te faz fiel e paciente; ela apenas traz à tona a virtude de paciência e fortaleza que em ti estava escondida. “Pensas, diz o Senhor, que falando-te assim eu teria outra intenção que não fosse a de manifestar tua justiça?” E, em outro lugar: Eu te afligi e despojei, a fim de conhecer o que tinhas no coração (cf. Dt 8, 2).

Do mesmo modo, a tempestade não deixa de pé o edifício construído sobre a areia; se queres, pois, edificar, edifica sobre a rocha. Quando se levantar a tempestade, o que estiver fundado sobre a rocha não ruirá, mas o que estiver sobre a areia vacilará, provando que não estava bem fundado. Por isso, antes que a tempestade comece, antes que os ventos levantem e as correntes intumesçam, enquanto tudo ainda está em silêncio, dediquemos todo nosso empenho às fundações do edifício, edifiquemos nossa casa com as pedras firmes e variadas dos preceitos de Deus. E assim, quando a perseguição recrudescer e o terrível furacão se levantar contra os cristãos, mostremos ter nosso edifício construído sobre a rocha que é Cristo Jesus.

Se alguém, no entanto, negar a Cristo – o que não aconteça – saiba que não o negou no momento em que foi visto negando, mas que as sementes e as raízes de sua negação já eram antigas. Naquele instante, apenas veio a lume e se tornou conhecido o que havia em seu interior. Roguemos, pois, ao Senhor, para que sejamos um edifício firme, invulnerável às tempestades, fundado sobre a rocha que é nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual sejam dadas a glória e o império, pelos séculos dos séculos. Amém.


Orígenes, Presbítero
In Lucam, Homilia 26, 3-5
Sources Chrétiennes 87


ADVENTO – 3º DOMINGO – Crer no excessivo amor de Deus



DOMINGO III DO ADVENTO


«Crer no excessivo amor de Deus para conosco»


Quando é o homem capaz de crer ‘no excessivo amor de Deus para com ele’, deste se pode dizer o que foi dito de Moisés: ‘Era inabalável na fé como se tivesse visto o invisível’.

Ó Senhor, jamais me detenha eu nos gostos e sentimentos; pouco me importe o sentir-Vos ou não Vos sentir, pouco me importe que me deixe glória ou sofrimento. Creio no Vosso amor.

Quanto mais provada, mais cresce a fé, porque sabe ir além de todos os obstáculos, para repousar no seio do amor infinito que só pode fazer obras de amor. A esta alma totalmente vigilante em sua fé podeis, ó Mestre, dizer-lhe no íntimo a palavra que dirigistes um dia a Maria Madalena: ‘Vai em paz, a tua fé te salvou’.


Beata Elizabeth da Trindade
1, Retiro 6,1


ADVENTO – 3º DOMINGO – Que o seu Advento se realize todos os dias em nós



DOMINGO III DO ADVENTO

«Que o seu Advento se realize todos os dias em nós para que possamos dizer: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim»

Está escrito sobre João: “Uma voz grita no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitar as suas veredas”. Mas o que vem a seguir diz respeito exclusivamente ao Senhor, nosso Salvador. Porque não foi João quem “aplanou os vales”, mas o Senhor, nosso Salvador.

Considere cada um o que era antes de ter fé; e constatará que era um vale profundo, a pique, mergulhado nos abismos. Mas veio o Senhor Jesus, e enviou o Espírito Santo em seu lugar; foi então que “os vales foram aplanados”. Foram aplanados com as boas obras e os frutos do Espírito Santo. A caridade não deixa subsistir em ti vale algum e, se possuíres a paz, a paciência e a bondade, para além de deixares de ser vale, também começarás a ser montanha de Deus.

“As montanhas e as colinas serão abaixadas”. Nestas montanhas e nestas colinas abaixadas, podemos ver os poderes inimigos que se erguiam contra os homens. Com efeito, para que os vales de que falamos sejam aplanados, os poderes inimigos, as montanhas e as colina s, terão de ser abaixados.

Mas vejamos se a profecia seguinte, que diz respeito ao advento de Cristo, se realizou. Com efeito, o texto diz em seguida: “E todos os caminhos tortuosos serão endireitados”. Todos nós éramos tortuosos – pelo menos se estivermos a falar do que éramos e não daquilo que somos hoje – e a vinda de Cristo que se realizou na nossa alma endireitou tudo quanto era tortuoso.

Rezemos para que o seu advento se realize todos os dias em nós, e para que possamos dizer: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20).


Orígenes, Presbítero
In Lucam, Homilia 22, 1-3
Sources Chrétiennes 87


ADVENTO – 3º DOMINGO – O amor que deseja a face do Amado



DOMINGO III DO ADVENTO

«O amor que deseja a face do Amado»

Vendo o mundo oprimido pelo temor, Deus procura continuamente chamá-lo com amor, convidá-lo com a sua graça, segurá-lo com a caridade, abraçá-lo com afeto. Por isso, purifica com o castigo do dilúvio a terra que se tinha inveterado no mal; chama Noé para gerar um mundo novo; encoraja-o com palavras afetuosas, concede-lhe sua confiante amizade, o instrui com bondade acerca do presente e anima-o com sua graça a respeito do futuro. E já não se limita a dar-lhe ordens, mas tomando parte no seu trabalho, encerra na arca toda aquela descendência que havia de perdurar por todos os tempos, para que esta aliança de amor acabasse com o temor da servidão esse conservasse na comunhão de amor o que fora salvo com a comunhão de esforços.

Por esse motivo chama Abraão dentre os pagãos, engrandece seu nome, torna-o pai dos crentes, acompanha-o em sua viagem, protege-o entre os estrangeiros, cumula-o de bens, exalta-o com vitórias, dá-lhe a garantia de suas promessas, livra-o das injúrias, torna-se seu hóspede, maravilha-o com o nascimento de um filho que ele já não podia esperar. Tudo isso a fim de que, cumulado de tantos benefícios, atraído pela grande doçura da caridade divina, aprendesse a amar a Deus e não mais temê-lo, a honrá-lo com amor e não com medo.

Por isso também consola em sonhos a Jacó quando fugia, desafia-o para um combate em seu regresso e na luta aperta-o nos braços, para que não temesse, porém, amasse o instigador do combate. Por isso ainda, chama Moisés na própria língua e fala-lhe com afeto paterno, convidando-o a ser o libertador de seu povo.

Em todos esses fatos que relembramos, de tal modo a chama da caridade divina inflamou o coração dos homens e o inebriamento do amor de Deus penetrou os seus sentidos que, cheios de afeto, começaram a desejar ver a Deus com os olhos do corpo. Deus, que o mundo não pode conter, como o olhar limitado do homem o abrangeria? Mas, o que deve ser, o que é possível, não é a regra do amor. O amor ignora as leis, não tem regra, desconhece medida. O amor não desiste perante o impossível, não desanima diante das dificuldades. O amor, se não alcança o que deseja, chega a matar o que ama; vai para onde é atraído, e não para onde deveria ir. O amor gera o desejo, cresce com ardor e pretende o impossível. E que mais? O amor não poderia deixar de ver o que ama. Por isso todos os santos consideravam pouca coisa toda recompensa , enquanto não vissem a Deus. Por isso mesmo, o amor que deseja ver a Deus, vê-se impelido, para além de todo raciocínio, pelo fervor da piedade. Por isso Moisés se atreve a dizer: “Se encontrei graça na vossa presença, mostrai-me o vosso rosto” (Ex 33,13.18). Por isso, diz também o Salmista: “Não me escondais a vossa face” (Sl 26,9). Por isso, enfim, até os próprios pagãos, no meio de seus erros, modelaram ídolos, para poderem ver com seus próprios olhos o objeto de seu culto.


São Pedro Crisólogo, Bispo de Ravena
Sermo 147: PL, 52, 594-595