terça-feira, 8 de dezembro de 2009

IMACULADA CONCEIÇÃO – Câmara nupcial do Espírito, cidade do Deus vivo




IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA

SOLENIDADE
08 DE DEZEMBRO


Câmara nupcial do Espírito, cidade do Deus vivo

Hoje sopraram as brisas anunciadoras da alegria universal. Dá louvores, ó céu! Fica feliz, ó terra! (Is 49, 13). Que a natureza inteira exulte: vem ao mundo a ovelha pela qual o pastor revestirá o cordeiro e rasgará as túnicas da antiga mortalidade! Celebremos uma festa para a Mãe de Deus.

Canta, ó Ana estéril, tu que não mais dais à luz! Explode de alegria e dá vivas, tu que já não tens as dores do parto! (Is 54, 1).

Regozija-te, Joaquim, pois de tua filha, nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado. Seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, isto é, da salvação do universo, Deus Forte (Is 9, 5).

Se o menino é Deus, como não será Mãe de Deus aquela que o põe no mundo? “Quem não reconhece a Santíssima Virgem como Mãe de Deus, está separado da divindade”. Não é minha esta afirmação, mas ela me pertence; recebi-a como preciosa herança teológica de meu pai, Gregório, o Teólogo. Hoje é o começo da salvação para o mundo, porque no rebanho do Senhor nasce a Mãe de Deus, da qual quis nascer o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Hoje o Criador de todas as coisas, o Verbo divino, compôs um cântico novo, saído do coração do Pai, para ser escrito com uma pluma pelo Espírito, que é a linguagem de Deus.

Filha digna de Deus, beleza da natureza humana, reabilitação de Eva, nossa primeira mãe, Filha sempre virgem que pudeste conceber sem a intervenção humana, pois aquele que geraste tem um Pai eterno. Filha da raça humana que carregaste nos braços o Criador.

De fato, és mais preciosa que toda a criação, pois somente contigo o Criador partilhou as primícias de nossa humanidade. Sua carne foi feita de tua carne, seu sangue, do teu sangue; Deus se alimentou do teu leite, teus lábios tocaram os lábios de Deus. Na presciência da tua dignidade, o Deus do universo te amou; como te amou, te predestinou, e nos últimos tempos te chamou à existência e te estabeleceu mãe para dar à luz um Deus e alimentar seu próprio Filho, o Verbo. Por todo o teu ser és a câmara nupcial do Espírito, a cidade do Deus vivo, toda bela e próxima de Deus, alegrada pelas torrentes do rio que são as ondas dos carismas do Espírito.

Virgem cheia da graça divina, templo santo de Deus, teu adorno não é de ouro nem de pedras mortas, mas é o Espírito quem te confere um esplendor bem maior que o do ouro. Como jóia tens a pérola mais preciosa, a chama da divindade: Cristo.

Deus Santo é o Pai que, em seu desígnio, quis que se cumprisse em ti o mistério que predestinara antes dos séculos.

Santo e Forte é o Filho unigênito de Deus, que te fez nascer para nascer de ti como Filho único de uma Virgem Mãe, primogênito de uma multidão de irmãos, semelhante a nós e participante, por teu intermédio, de nossa carne e de nosso sangue.

Santo e Imortal é o Espírito de toda santidade, que pelo orvalho de sua divindade te resguardou do fogo divino, que a sarça ardente de Moisés prefigurava. Amém! Amém!

Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo, bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre (Lc 1, 28.42), Jesus Cristo, o Filho de Deus. A ele, a glória pelos séculos dos séculos.


São João Damasceno
Homilia 6 in Nativitate Beatæ Mariæ Virginis, 4-12


IMACULADA CONCEIÇÃO – Maria, Estrela da esperança, Mãe nossa, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco




IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA


SOLENIDADE
08 DE DEZEMBRO

Maria, Estrela da esperança, Mãe nossa, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco

Com um hino do século VIII/IX, portanto com mais de mil anos, a Igreja saúda Maria, a Mãe de Deus, como « Estrela do mar »: Ave maris stella. A vida humana é um caminho. Rumo a qual meta? Como achamos o itinerário a seguir? A vida é como uma viagem no mar da história, com frequência enevoada e tempestuosa, uma viagem na qual perscrutamos os astros que nos indicam a rota. As verdadeiras estrelas da nossa vida são as pessoas que souberam viver com retidão. Elas são luzes de esperança. Certamente, Jesus Cristo é a luz por antonomásia, o sol erguido sobre todas as trevas da história. Mas, para chegar até Ele precisamos também de luzes vizinhas, de pessoas que dão luz recebida da luz d'Ele e oferecem, assim, orientação para a nossa travessia. E quem mais do que Maria poderia ser para nós estrela de esperança? Ela que, pelo seu « sim », abriu ao próprio Deus a porta do nosso mundo; Ela que Se tornou a Arca da Aliança viva, onde Deus Se fez carne, tornou-Se um de nós e estabeleceu a sua tenda no meio de nós (cf. Jo 1,14).

Por isso, a Ela nos dirigimos: Santa Maria, Vós pertencíeis àquelas almas humildes e grandes de Israel que, como Simeão, esperavam «a consolação de Israel» (Lc 2,25) e, como Ana, aguardavam a «libertação de Jerusalém» (Lc 2,38). Vós vivíeis em íntimo contacto com as Sagradas Escrituras de Israel, que falavam da esperança, da promessa feita a Abraão e à sua descendência (cf. Lc 1,55). Assim, compreendemos o santo temor que Vos invadiu, quando o anjo do Senhor entrou nos vossos aposentos e Vos disse que daríeis à luz Àquele que era a esperança de Israel e o esperado do mundo.

Por meio de Vós, através do vosso «sim», a esperança dos milênios havia de se tornar realidade, entrar neste mundo e na sua história. Vós Vos inclinastes diante da grandeza desta missão e dissestes «sim». «Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). Quando, cheia de santa alegria, atravessastes apressadamente os montes da Judéia para encontrar a vossa parente Isabel, tornastes-Vos a imagem da futura Igreja, que no seu seio, leva a esperança do mundo através dos montes da história. Mas, a par da alegria que difundistes pelos séculos, com as palavras e com o cântico do vosso Magnificat, conhecíeis também as obscuras afirmações dos profetas sobre o sofrimento do servo de Deus neste mundo.

Sobre o nascimento no presépio de Belém brilhou o esplendor dos anjos que traziam a boa nova aos pastores, mas, ao mesmo tempo, a pobreza de Deus neste mundo era demasiado palpável. O velho Simeão falou-Vos da espada que atravessaria o vosso coração (cf. Lc 2,35), do sinal de contradição que vosso Filho haveria de ser neste mundo. Depois, quando iniciou a atividade pública de Jesus, tivestes de Vos pôr de lado, para que pudesse crescer a nova família, para cuja constituição Ele viera e que deveria desenvolver-se com a contribuição daqueles que tivessem ouvido e observado a sua palavra (cf. Lc 11,27s).

Apesar de toda a grandeza e alegria do primeiro início da atividade de Jesus, Vós, já na Sinagoga de Nazaré, tivestes de experimentar a verdade da palavra sobre o «sinal de contradição» (cf. Lc 4,28s). Assim, vistes o crescente poder da hostilidade e da rejeição que se ia progressivamente afirmando à volta de Jesus até à hora da cruz, quando tivestes de ver o Salvador do mundo, o herdeiro de David, o Filho de Deus morrer como um falido, exposto ao escárnio, entre os malfeitores. Acolhestes então a palavra: «Mulher, eis aí o teu filho» (Jo 19,26). Da cruz, recebestes uma nova missão. A partir da cruz ficastes mãe de uma maneira nova: mãe de todos aqueles que querem acreditar no vosso Filho Jesus e segui-Lo.

A espada da dor trespassou o vosso coração. Tinha morrido a esperança? Ficou o mundo definitivamente sem luz, a vida sem objetivo? Naquela hora, provavelmente, no vosso íntimo tereis ouvido novamente a palavra com que o anjo tinha respondido ao vosso temor no instante da anunciação: «Não temas, Maria!» (Lc 1,30). Quantas vezes o Senhor, o vosso Filho, dissera a mesma coisa aos seus discípulos: Não temais! Na noite do Gólgota, Vós ouvistes outra vez esta palavra. Aos seus discípulos, antes da hora da traição, Ele tinha dito: «Tende confiança! Eu venci o mundo» (Jo 16,33). «Não se turve o vosso coração, nem se atemorize» (Jo 14,27). «Não temas, Maria!» Na hora de Nazaré, o anjo também Vos tinha dito: «O seu reinado não terá fim» (Lc 1,33). Teria talvez terminado antes de começar? Não; junto da cruz, na base da palavra mesma de Jesus, Vós tornastes-Vos mãe dos crentes. Nesta fé que, inclusive na escuridão do Sábado Santo, era certeza da esperança, caminhastes para a manhã de Páscoa. A alegria da ressurreição tocou o vosso coração e uniu-Vos de um novo modo aos discípulos, destinados a tornar-se família de Jesus mediante a fé. Assim Vós estivestes no meio da comunidade dos crentes, que, nos dias após a Ascensão, rezavam unanimemente pedindo o dom do Espírito Santo (cf. At 1,14) e o receberam no dia de Pentecostes. O «reino» de Jesus era diferente daquele que os homens tinham podido imaginar. Este «reino» iniciava naquela hora e nunca mais teria fim. Assim, Vós permaneceis no meio dos discípulos como a sua Mãe, como Mãe da esperança.

Santa Maria, Mãe de Deus, Mãe nossa, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco. Indicai-nos o caminho para o seu reino! Estrela do mar, brilhai sobre nós e guiai-nos no nosso caminho!


Papa Bento XVI
Carta Encíclica Spe Salvi 49-50
30 de Novembro do ano 2007


IMACULADA CONCEIÇÃO - Encantadoramente Imaculada!



IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA

SOLENIDADE
08 DE DEZEMBRO


Encantadoramente Imaculada!

Dentro do Advento, no 8 de dezembro, celebra-se a Concepção Imaculada de Maria, a Virgem. Trata-se de uma solenidade que calha bem neste tempo de preparação para o Natal do Senhor. Imaculada Concepção de Maria! O povo de Deus crê com todas as suas fibras que a Santa Virgem Maria, por ter sido escolhida por Deus para mãe do Cordeiro Imaculado que tira o pecado do mundo, fora, por força da paixão, morte e ressurreição do seu Filho, preservada desde o primeiro momento de sua existência humana, daquela solidariedade no pecado que envolve a nossa raça humana e a que chamamos “pecado original”.

Em Maria, a Virgem, não há aquela quebradura interior que todos nós experimentamos: aquele fechamento tão profundo para Deus, fechamento que aparece como desconfiança, às vezes como teimosia em fazer do nosso jeito, em descaso, falta de piedade, soberba, orgulho, e tantos outros vícios que sufocam a nossa liberdade e ferem o nosso coração. Nela não há aquele fechamento para os outros, que se manifesta em tantas e tão diversificadas formas de egoísmo: falta de compaixão, orgulho, sensualidade, frieza, ganância, maledicência, ira, ciúme, inveja... a lista é deveras extensa... Não! Na Mãe do Senhor não há sombra disso: Deus, o Pai, pelos méritos do Filho bendito, preservou-a de toda lama, de toda mácula! Da lama, Deus em Cristo nos arranca; pela lama, Deus em Cristo, sequer permitiu que a Virgem fosse tocada! Ela é aquela inimiga visceral da serpente: sem acordo, sem pacto sem trégua: ela é a Mulher do Gênesis, do Evangelho, do Apocalipse, em guerra de morte contra a antiga Serpente (cf. Gn 3,15; Jo 2,4; 19, 26; Ap 12,1.3s). Ela é aquela a quem Gabriel, chama com que com um nome novo, ao saudá-la: “Alegra-te, Cheia de Graça!” ou “Alegra-te, ó tu que tens o favor de Deus!”, ou “Alegra-te, Muito Favorecida, Agraciada!” ou “Alegra-te, tu que Foste e Permaneces Repleta da Graça Divina!” – as palavras de Gabriel podem ser traduzidas com toda esta riqueza de expressões e sentidos... afirmando a mesma realidade espantosa: na Virgem de Nazaré a graça de Deus, o favor de Deus, o amor de Deus habitou como em nenhuma criatura! – Em ti, Virgem Maria, não há o menor espaço para a “des-graça” do pecado! Deus, o Pai, pode dizer de ti: “Como és bela, minha amada, como és bela! És toda bela, minha amada, e não tens um só defeito!” (Ct 4,1.7).

Desde a antiguidade, os Santos Padres e Doutores da Igreja, contemplando este mistério tão grande, chamam a Virgem de “Toda Santa”! Toda Santa, toda inundada da graça que Deus nos dá em Cristo, toda santificada pela santidade de Cristo Jesus! Por isso, a Missa da Imaculada começa com as palavras de Isaías, colocadas pela Virgem Igreja na boca da Virgem Maria: “Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas jóias!” (Is 61,10).

A Imaculada! Que sonho! A Virgem Santíssima é imagem viva, sonho vivo, testemunho fiel daquilo que Cristo realiza em nós, pobre e frágil humanidade: Aquele que preservou sua Mãe do pecado, do pecado miserável nos arranca; Aquele que fez de sua Mãe a Primeira Redimida, primeira a ser salva (só Jesus salva, e salvou sua Mãe de modo admirável!), salva toda a humanidade e tira o pecado do mundo!

Maria, a Virgem! Maria, a Imaculada! Sonho lindo de Deus, sonho lindo do que deve ser a humanidade! A Imaculada! Quando a gente vê o mundo ferido, a humanidade angustiada, meio perdida... quando ligamos a televisão e vemos a violência dos traficantes, os descaminhos de tantos jovens, a terrível solidão no seio das famílias... quando vemos tanta feiúra: a guerra, a fome, a injustiça, as crises, a solidão, a morte... quando a gente vê tudo isso... e pensa na Imaculada (beleza, candura, pureza, paz, ternura, sorriso e encanto de Deus), então, tem a certeza que esse mundo tem jeito, que Deus não esquece de nós e, de tal modo nos purifica pelo seu Filho, que seremos todos imaculados (cf. Ef 1,4).

Maria, a Virgem, a Imaculada desde a concepção! Pensar em ti é tomar novo respiro e crer que Deus pode fazer em nós maravilhas: pode nos renovar, pode revigorar este mundo cansado e purificar sempre de novo nosso coração manchado... Imaculada: beleza de Deus, ternura de Deus, maravilha de Deus, sorriso de Deus, sonho lindo de Deus! Imaculada desde a conceição... doce aurora que anuncia o Dia – Jesus Cristo, nosso Deus, Aquele que celebraremos no Natal e acolheremos na Glória!

Imaculada! Hoje e sempre, Imaculada! Encantadoramente, Imaculada!


Dom Henrique Soares da Costa
Bispo Titular de Acúfica e Auxiliar de Aracaju


IMACULADA CONCEIÇÃO - Queres saber se Ela é a Virgem Santa?



IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA

SOLENIDADE
08 DE DEZEMBRO


Queres saber se Ela é a Virgem Santa?


São Filipe Néri era, freqüentemente, consultado pelos Bispos para o reconhecimento da autenticidade dos místicos. A prática da humildade e da obediência permitia-lhe testar com infalibilidade os falsos místicos, pois o demônio é orgulhoso e independente. Num dia, do ano de 1560, os Cardeais estavam divididos quanto à veracidade das visões de uma religiosa. Solicitaram, então, a opinião de Felipe. Ao vê-la chegar, ele a olhou calorosamente, e disse-lhe:

-Mas, não é a senhora que desejo ver; desejo ver a santa!
-Mas eu sou a santa, Padre!
-Ah! A senhora é a santa? Obrigado.
Ele virou-se para os Cardeais e disse:
-Isto não vem de Deus...

Noutra ocasião, um de seus penitentes confiou-lhe que a Virgem Santa costumava visitá-lo à noite, em seu quarto, e que isto o deixava pleno de alegria e de luz! Então, Felipe lhe disse:

-Ouça, a próxima vez que ela vier, cuspa-lhe no rosto.

Na noite seguinte, a aparição surgiu e lhe falou sobre Deus. Lembrando-se, porém, da promessa que fizera a seu Diretor espiritual, o rapaz começou a cuspir no rosto da visão. Esta desapareceu, imediatamente, envolta em uma nuvem de enxofre.

Na mesma noite, ele despertou e viu o quarto cheio de luz, com uma nova aparição a lhe sorrir. Desta vez, ela não estava sentada na cama, mas encontrava-se mais afastada e, como o jovem tencionava cuspir, novamente, a visão lhe disse:

-Pode cuspir, se você quiser.

Ele não conseguiu atingi-la porque ela não estava perto dele, mas a figura o felicitou porque ele havia obedecido a seu diretor espiritual.

Disse-lhe, então, o Padre Felipe Néri:

-Efetivamente, é a Virgem Maria!


São Felipe Neri
Trecho de L´Etoile Notre Dame nº 148

domingo, 6 de dezembro de 2009

ADVENTO – 2º DOMINGO – SENHOR, VINDE À MINHA ALMA!




DOMINGO II DO ADVENTO


SENHOR, VINDE À MINHA ALMA!

“Tendo eu consciência dos meus pecados, de que me adianta, Senhor, que venhais, se não vierdes à minha alma, se não voltardes ao meu espírito, se Vós, ó Cristo, não viveis em mim e não falais comigo? É a mim que deveis vir, é por mim que deverá realizar-se o vosso Advento. O vosso segundo Advento, Senhor, acontecerá no fim do mundo, quando pudermos dizer: ‘O mundo está crucificado para mim e eu para o mundo’.

Fazei, ó Senhor, que no fim do mundo, eu me encontre tal como será minha vida no céu. Então, para mim, realizar-se-á a presença da sabedoria, a presença da virtude, da justiça e da redenção. De fato Vós, ó Cristo, morrestes uma só vez pelos pecados do povo, a fim de resgatar, cada dia, o povo dos seus pecados”.


Santo Ambrósio
Comentário ao Evangelho de S.Lucas, X, 7-8


ADVENTO – 2º DOMINGO – Convosco, ó Deus, alegro-me e regozijo-me!




DOMINGO II DO ADVENTO


Convosco, ó Deus, alegro-me e regozijo-me!

“Eia, pois, ó alma formosíssima entre todas as criaturas, que tanto desejas saber o lugar onde está teu Amado, a fim de o buscares e a Ele te unires! Já te foi dito que és tu mesma o aposento onde Ele mora e o recôndito e esconderijo em que se oculta. Nisso tenho motivo de grande contentamento e alegria, vendo que todo o meu Bem e esperança se encontram tão perto de mim, a ponto de estar dentro de mim, ou, melhor dizendo, não posso estar sem Ele.

Que mais há de querer, ou buscar fora de mim, se tenho dentro de mim, minhas riquezas e meus deleites, minha satisfação, meu reino, isto é, meu Amado a quem desejo ardentemente? Convosco, ó meu Deus, alegro-me e me regozijo no meu recolhimento interior! Aqui vos desejo, adoro-vos, sem ir procurar-vos fora de mim, porque me distrairei, me cansarei, sem poder encontrar-vos nem gozar com maior segurança, nem mais depressa, nem mais perto do que dentro de mim”.


São João da Cruz
Cântico 1, 7-8

ADVENTO – 2º DOMINGO – Fica conosco, Senhor!




DOMINGO II DO ADVENTO


Fica conosco, Senhor!

“Ficai conosco, Senhor, porque chega a noite. Estou na noite do pecado e a luz da salvação só pode vir de Vós. Ficai, Senhor, comigo, porque sou pecador e estou desanimado ao ver tantas imperfeições que, a toda hora e a todo instante, continuamente cometo diante de Vós. Vós estais em mim; e diante de Vós, em Vós, da manhã à noite, a cada momento, cometo imperfeições.

Foi uma das coisas que contribuíram, por muito tempo, a impedir-me de procurar-vos em mim mesmo para adorar-vos e para pôr-me aos vossos pés. Faltava-me a coragem, ao perceber-vos tão dentro de mim, tão junto de minhas misérias, tão junto de minhas inumeráveis imperfeições”.


Beato Charles de Foucauld
Sulle feste dell’anno, Op. Sp., p.311

ADVENTO – 2º DOMINGO – Vejam-te meus olhos!



DOMINGO II DO ADVENTO


Vejam-te meus olhos!

Jesus bendito, minha esperança, meu desejo, meu amor, tenho uma coisa para te dizer, uma coisa a teu respeito, um assunto cheio de dor e de miséria.

Tu que és o Verbo, Unigênito do Pai que não foi gerado, tornado carne por mim, Palavra saída do coração do Pai, Palavra que Deus proferiu uma só vez (cf. Hb 9,26), Palavra pela qual «nos últimos dias» (Hb 1,2) o teu Pai celeste me falou, digna-te escutar, Tu, ó Palavra de Deus, a palavra que desejos abundantes fazem sair do meu coração!

Escuta e vê: a minha alma fica triste e toda perturbada quando me dizem cada dia: «Onde está o teu Deus?» (Sl 41,4). Não tenho nada a responder, receio que não estejas aí, não sinto a tua presença.

O meu coração arde, desejo ver o meu Senhor. Onde estão, na verdade, a minha paciência e a minha constância? És Tu o Senhor meu Deus e, eu, o que vou fazer? Procuro-te e não te encontro; desejo-te e não te vejo; corro atrás de ti e não te agarro. Qual é a minha força, para que possa suportar?Até onde posso resistir? Há alguma coisa mais triste do que a minha alma? Algo mais miserável? Algo mais provado? Acreditas, meu Amor, que a minha tristeza se mudará em alegria quando te vir (Jo 16,20)?...

«Fala, Senhor, que o teu servo escuta» (1Sm 3,9). Que eu possa escutar o que Tu dizes em mim, Senhor meu Deus. Dize à minha alma: «Sou a tua salvação!» (Sl 84,9; 34,3) Dize mais, Senhor, e fala de forma a que eu te ouça: «Meu filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu» (Lc 15,31). Ah! Verbo de Deus Pai! é isso que eu queria ouvir.


Hildebrando, Monge Cisterciense do século XIII
“Opúsculo Sobre a Contemplação”

ADVENTO – 2º DOMINGO – O Filho do Homem vem à nossa procura



DOMINGO II DO ADVENTO


O Filho do Homem vem à nossa procura

“Imaginai a desolação de um pobre pastor cuja ovelha se tresmalhou. Em todos os campos vizinhos só ouve a voz dessa infeliz que, tendo abandonado o grosso do rebanho, corre nas florestas e pelas colinas, passa pelas partes mais densas dos bosques e pelos silvados, lamentando-se e gritando com todas as forças e não podendo resolver-se a voltar sem ter encontrado a sua ovelha e a ter trazido para o redil.

Aqui está o que o Filho de Deus fez assim que os homens se desviaram pela sua desobediência à direção do seu Criador. Ele desceu à terra e não rejeitou nem cuidados nem fadigas para nos restabelecer no estado de que tínhamos decaído. É o que Ele faz ainda todos os dias com aqueles que se afastaram Dele pelo pecado. Ele segue-os, por assim dizer, não cessando de os chamar até que os tenha reposto no caminho da salvação. E seguramente, se não fizesse isso, vós sabeis o que seria feito de nós depois do primeiro pecado mortal: ser-nos-ia impossível retornar. É preciso que seja Ele a fazer tudo primeiro, que nos dê a sua graça, que nos procure, que nos convide a termos piedade de nós mesmos, sem o que não sonharíamos nunca em pedir-lhe misericórdia.

O ardor com que Deus nos procura é sem dúvida um efeito de uma enorme misericórdia. Mas a doçura que acompanha este zelo indica uma bondade ainda mais admirável. Não obstante o desejo extremo que Ele tem de nos fazer voltar, nunca usa de violência, não usa para isso senão os caminhos da doçura. Em toda a história do Evangelho não vejo nenhum pecador que tenha sido convidado à penitência a não ser por ternura e por benefícios”.


São Cláudio de la Colombière
Dos Sermões

ADVENTO – 2º DOMINGO – Um desígnio de amor



DOMINGO II DO ADVENTO


Um desígnio de amor

“Nenhum homem viu a Deus nem o conheceu, mas Ele mesmo se manifestou. Manifestou-se pela fé, pois só a ela é concedida a visão de Deus. O Senhor e Criador do universo, Deus, que fez todas as coisas e as dispôs em ordem, não só amou os homens, mas também foi paciente com eles. Deus sempre foi, é e será o mesmo: benigno e bom, isento de ira, veraz; só Ele é bom. E quando concebeu seu grande e inefável desígnio, só o comunicou a seu Filho.

Enquanto mantinha oculto e em reserva seu plano de sabedoria, parecia abandonar-nos e esquecer-se de nós. Mas, quando revelou por seu Filho amado e manifestou o que havia preparado desde o princípio, ofereceu-nos tudo ao mesmo tempo: participar de seus benefícios, ver e compreender. Quem de nós poderia jamais esperar tamanha generosidade?

Tendo Deus, portanto, tudo disposto em Si mesmo com o seu Filho, deixou-nos, até estes últimos tempos, seguir nossos impulsos desordenados, desviados do caminho reto pelos maus prazeres e paixões. Não que Ele tivesse algum gosto com nossos pecados; tolerando-os, não aprovava aquele tempo de iniqüidade, mas preparava este tempo de justiça.

Assim, convencidos de termos sido, naquele período, indignos da vida em razão de nossas obras, tornemo-nos agora dignos dela pela bondade de Deus. E depois de mostrar nossa incapacidade de entrar pelas próprias forças no Reino de Deus, nos tornemos capazes disso pelo poder divino”.


Epístola a Diogneto, 8
Texto do século III

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

ADVENTO – Chiara Lubich: acima de tudo, revesti-vos do amor



Acima de tudo, revesti-vos do amor

«Mas, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição.»

Estas palavras são decisivas para a nossa vida e o nosso testemunho no mundo. Para explicar a conduta do cristão, Paulo gosta muito de empregar a imagem das vestes que o seguidor de Cristo deve usar. E também aqui, na Carta aos Colossenses, ele compara as virtudes, que devem tomar lugar no nosso coração, a muitas peças de roupa. São elas: a misericórdia, a bondade, a humildade, a mansidão, a paciência, o suportar, o perdão.

Mas, "acima de tudo, revesti-vos do amor" - afirma Paulo, quase que imaginando o amor como uma cintura que une tudo e dá um perfeito caimento ao vestuário. Portanto, é necessário o amor porque para um cristão não basta ser bom, misericordioso, humilde, manso, paciente... Ele deve amar os irmãos e as irmãs.

Mas alguém poderá questionar: amar não é, por acaso, ser bons, misericordiosos, pacientes, saber perdoar? Sim, mas não é só isso.

O amor foi-nos ensinado por Jesus e amar consiste em dar a vida pelos outros. O ódio tira a vida dos outros ("quem odeia é homicida"), o amor lhes dá a vida. Somente morrendo a si mesmo pelos outros é que cada cristão possui o amor. E se ele tem o amor - diz Paulo -, será perfeito, e todas as suas demais virtudes alcançarão a perfeição.

«Mas, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição.»

Certamente alguns de nós podem ter uma boa disposição para com os irmãos e as irmãs, perdoando e suportando. Mas, se observarmos bem, aquilo que frequentemente nos falta pode ser justamente o amor. Mesmo com as mais santas intenções, a natureza nos leva a nos fecharmos em nós mesmos e, conseqüentemente, quando amamos os outros, usamos meias medidas.

Porém não somos cristãos se agirmos unicamente assim. É preciso elevar o nosso coração à tensão máxima. Diante de cada próximo que encontramos durante o dia (na família, no trabalho, em toda parte), devemos dizer a nós mesmos: "Coragem, responda a Deus; é o momento de amar, com um amor tão grande que põe em jogo também a vida".

«Mas, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo de perfeição.»

Esta Palavra do Apóstolo convida-nos, portanto, a examinar até que ponto nossa vida cristã é animada pelo amor, o qual, como vínculo de perfeição, é a ligação que nos leva à mais alta unidade com Deus e entre nós.

Agradeçamos, então, ao Senhor por ter derramado em nossos corações o seu amor, que nos torna sempre mais capazes de escutar, de identificar-nos com os problemas e com as preocupações dos nossos próximos; de partilhar com eles o pão, as alegrias e as dores; de derrubar certas barreiras, que ainda nos dividem; de deixar de lado certas atitudes de orgulho, de rivalidade, de inveja, de ressentimento por eventuais ofensas recebidas; de superar a terrível tendência à crítica negativa; de sair do nosso isolamento egoísta para colocar-nos à disposição de quem está em necessidade ou na solidão; de construir, por toda parte, a unidade que Jesus deseja.

É esta a contribuição que nós, cristãos, podemos dar à paz mundial e à fraternidade entre os povos, especialmente nos momentos mais trágicos da história.


Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares
Palavra de vida, Dez de 2001

ADVENTO – Chiara Lubich: Esforçar-nos para entrar pela porta estreita



Esforçar-nos para entrar pela porta estreita

«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir» (Lc 13, 24)

Várias vezes, Jesus comparou o Paraíso a uma festa de casamento, a uma reunião de família à volta da mesa. De fato, na nossa experiência humana, são estes os melhores momentos e os mais serenos. Mas quantos entrarão no Paraíso, quantos se sentarão na “sala do banquete”?

É a pergunta que, um dia, alguém dirige a Jesus: “Senhor, são poucos os que se salvam?”. Como já tinha feito outras vezes, Jesus vai para além da discussão e coloca cada um diante da decisão que deve tomar. Convida-o a entrar na casa de Deus.

Mas isso não é fácil. A porta para entrar é estreita e fica aberta por pouco tempo. Na verdade, para seguir Jesus é necessário renegar-se, renunciar – pelo menos espiritualmente – a si mesmo, às coisas, às pessoas. Mais ainda: é preciso pegar na cruz, como Ele fez. Um caminho difícil, sem dúvida, mas que todos – com a graça de Deus – podem percorrer.

«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

É mais fácil entrar pela “porta larga” e pelo “caminho espaçoso” de que Jesus fala noutro lugar, mas esse caminho pode conduzir à “perdição”. Neste nosso mundo secularizado, saturado de materialismo, de consumismo, de hedonismo, de vaidades, de violência, tudo parece ser permitido. Tende-se a satisfazer todas as exigências, a ceder a todos os compromissos para atingir a felicidade.

Mas nós sabemos que só se obtém a verdadeira felicidade amando. E também que a renúncia é a condição necessária para o amor. É preciso sermos podados para dar bons frutos. É preciso morrermos a nós mesmos para viver. É a lei de Jesus, um Seu paradoxo. A mentalidade corrente invade-nos como a enchente de um rio e nós devemos ir contra a corrente: saber renunciar, por exemplo, à avidez de possuir, à rivalidade preconcebida, à difamação do adversário. Mas também realizar o nosso trabalho com honestidade e generosidade, sem lesar os interesses dos outros. Saber discernir aquilo que se pode ver na televisão ou aquilo que se pode ler, etc.

«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

Para quem se deixa levar por uma vida fácil e não tem a coragem de enfrentar o caminho proposto por Jesus, abre-se um futuro triste. Também isto é mencionado no Evangelho. Jesus fala-nos do sofrimento daqueles que serão deixados de fora. Não bastará vangloriarmo-nos de pertencer a uma certa religião ou contentarmo-nos com um cristianismo de tradição. É inútil dizermos: “Comemos e bebemos contigo...”. A salvação é, antes de mais, uma dádiva de Deus, mas que cada um deve conquistar com esforço.

Será duro ouvir dizer: “(Não vos conheço), não sei de onde sois”. Será solidão, desespero, absoluta falta de relacionamentos, o desgosto enorme de ter tido a possibilidade de amar e de já não poder amar. Um tormento do qual não se vê o fim porque nunca terá fim: “pranto e ranger de dentes”.

Jesus avisa-nos porque deseja o nosso bem. Não é Ele que fecha a porta. Somos nós que nos fechamos ao Seu amor. Ele respeita a nossa liberdade.

«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir»

Se a porta larga conduz à perdição, a porta estreita abre-se de par em par à verdadeira felicidade. Depois de cada Inverno desponta a Primavera. Sim, devemos viver com prontidão a renúncia que o Evangelho exige, pegar todos os dias na nossa cruz. Se soubermos sofrer com amor, em unidade com Jesus que assumiu todas as nossas dores, experimentaremos um paraíso antecipado.

Foi assim também para Roberto, quando esteve na última audiência do processo contra quem tinha causado a morte do pai, quatro anos antes. Depois da sentença de condenação, o autor do atropelamento, juntamente com a mulher e o pai, mostrava-se muito deprimido. “Gostaria de me aproximar daquele homem, vencendo o orgulho que me dizia que não; fazer-lhe sentir que estava com ele”.

Mas a irmã disse-lhe: “São eles que nos devem pedir desculpa...”. Roberto convence-a e, juntos, vão ter com a família “adversária”: “Se isto puder aliviar o vosso espírito, saibam que não temos nenhum rancor para convosco”. Apertam as mãos uns dos outros com força. “Sinto-me invadido pela felicidade: soube aproveitar a ocasião para olhar para o sofrimento dos outros, esquecendo o meu”.


Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares
Palavra de vida, Ago de 2004

domingo, 29 de novembro de 2009

ADVENTO – 1º DOMINGO – Vinde a nós, Senhor!



DOMINGO I DO ADVENTO

«Vinde a nós, Senhor!»

“Aguardamos o aniversário de Vosso nascimento, ó Jesus e, segundo Vossa promessa, vê-lo-emos logo. Fazei que, elevando-se nosso espírito acima desse mesmo, se lance, louco de alegria, ao Vosso encontro, Senhor, Vós que vindes com ardor impaciente, desejoso de contemplar o futuro.

Vinde a nós, Senhor, mesmo antes do Vosso Advento! Antes de aparecerdes ao mundo inteiro, vinde visitar-nos, no íntimo da alma. Vinde agora visitar-nos neste tempo entre o primeiro e o último advento, afim de que não nos seja inútil Vossa primeira vinda e não nos condene a última.

Com Vossa vinda atual, procurais corrigir nossa soberba e conformar-nos com Vossa humildade manifestada na primeira vinda. Então podereis transformar nosso humilde corpo, tornando-o semelhante ao Vosso glorioso, quando aparecerdes no último dia.

Suplicamo-vos ardentemente: preparai-nos para obtermos esta visita pessoal, que nos confere à graça do primeiro advento e nos promete a glória do fim dos tempos. Porque Vós, Senhor, amais a misericórdia e a verdade, conferir-nos-eis a graça e a glória; a graça, por Vossa misericórdia, e a glória na verdade.”


Beato Guerric d'Igny, Abade Cisterciense
De Adventu Domini, 2,3

ADVENTO – 1º DOMINGO – É necessária a Vossa presença, ó Cristo!



DOMINGO I DO ADVENTO

«É necessária a Vossa presença, ó Cristo! »

“É necessária a Vossa vinda a todos os homens, ó nosso Salvador!

É necessária a Vossa presença, ó Cristo!

Vinde, pela Vossa imensa bondade! Habitai em nós pela fé e iluminai nossa cegueira. Ficai conosco e ajudai nossa enfermidade.

Colocai-Vos ao nosso lado, protegendo e defendendo nossa fragilidade. Se estiverdes em nós, quem poderá enganar-nos? Que não poderemos em Vós que nos confortais? Se estiverdes conosco, quem contra nós?

Justamente para isto viestes ao mundo: a fim de que, habitando em nós, conosco e por nós, colocando-Vos ao nosso lado, ilumineis nossas trevas, alivieis nossos cansaços, afastei de nós os perigos”.


São Bernardo de Clairvaux
De Adventu Domini, 7, 2

ADVENTO – 1º DOMINGO – Vós vos tornastes pequeno, para elevar o homem!




DOMINGO I DO ADVENTO

«Vós vos tornastes pequeno, para elevar o homem! »

“Ó Sumo e Eterno Bem, quem nos levou, Deus infinito, a iluminar com a luz da Vossa verdade a mim, vossa criatura finita? Vós! A causa sois Vós, Fogo de Amor, porque foi sempre o amor que nos moveu e move a nos criar à Vossa imagem e semelhança, a fazer-nos misericórdia, comunicando infinitas e incomensuráveis graças às vossas criaturas racionais.

Ó Bondade sobre toda bondade! Só Vós sois sumamente Bom! Mandastes o Verbo do Vosso Unigênito Filho a conviver conosco. Qual foi a causa? O amor, porque nos amastes antes de existirmos.

Ó Bem, ó Eterna Grandeza, Vós vos abaixastes e vos tornastes pequeno, para elevar o homem. De qualquer lado a que me volte não encontro mais que o abismo e fogo da Vossa Caridade”.


Santa Catarina de Sena
Diálogo, 134, pp. 364-365

ADVENTO – 1º DOMINGO – Permanecer no Reino de Cristo




DOMINGO I DO ADVENTO

Permanecer no Reino de Cristo

«O Reino de Deus está dentro de vós», diz o Senhor. Apressa-te portanto a preparar o coração para este Esposo, a fim de que Ele se digne vir a ti e habitar em ti. Porque Ele disse: «Quem me ama guardará a minha palavra; então viremos até ele e nele estabeleceremos a nossa morada» (Jo 14,23). Dá, pois, lugar a Cristo e nega a entrada a tudo o mais. Se possuíres a Cristo, és rico, e só Ele te bastará. Ele velará por ti, a tudo proverá, de modo a que não tenhas de recorrer aos homens. Porque os homens mudam muito e facilmente faltam, enquanto «Cristo permanece eternamente» (Jo 12, 34); Ele dá-nos firme assistência até ao fim.

Não ponhas portanto grande confiança no homem, que é frágil e mortal, ainda que nos seja útil e muito querido. Não te entristeças demasiado se te decepcionar ou te contradisser. Os que hoje estão contigo poderão amanhã estar contra ti e vice-versa, pois os homens mudam como o vento. Põe portanto toda a tua confiança em Deus. Que Ele seja o teu temor e o teu amor. Ele responderá por ti e fará o que for melhor.

«Não tens aqui em baixo morada permanente» (Heb 13, 14). Onde estiveres, és «estrangeiro e peregrino» (Heb 11,13). A paz vir-te-á da tua união íntima a Cristo.


Thomas de Kempis
Imitação de Cristo
Livro II, Cap.1, 2-3

ADVENTO – 1º DOMINGO – Dar a Deus o lugar principal




DOMINGO I DO ADVENTO

«Dar a Deus o lugar principal»

Aquele que a si próprio se preza não pode amar a Deus; mas aquele que a si não se preza, devido às riquezas superiores da caridade divina, esse ama a Deus. É por isso que tal homem nunca procura a própria glória, mas a de Deus; porque o que a si mesmo se preza procura a glória própria. Aquele que preza a Deus ama a glória do seu Criador. É, de facto, próprio das almas profundas e amigas de Deus procurar constantemente a glória de Deus em todos os mandamentos cumpridos, e ter regozijo na própria humilhação. Porque a Deus convém a glória em razão da Sua grandeza, e ao homem, a humilhação; deste modo se torna o homem próximo de Deus. Se assim agirmos, regozijando-nos com a glória do Senhor, a exemplo do santo João Baptista, pôr-nos-emos então a dizer continuamente: «É preciso que ele cresça e que eu diminua» (Jo 3,30).

Conheço alguém que ama tanto a Deus, ainda que muito se lamente por não O amar como quereria, que a alma lhe arde ininterruptamente no desejo de em si próprio e nos seus gestos ver Deus glorificado, e de se ver a si mesmo como não tendo existência própria. Esse homem não sabe o que é, ainda que o elogiemos, em palavras; porque no seu grande desejo de humilhação não pensa na dignidade própria. Executa os serviços divinos como fazem os padres, mas na sua extrema disposição de amor para com Deus aniquila a recordação da sua própria dignidade no mais profundo da sua caridade para com Deus, enterrando em pensamentos humildes a glória que daí tiraria. Assume-se sempre como um mero servo inútil; o seu desejo de humilhação de alguma maneira lhe exclui a dignidade própria. Eis o que devemos fazer, nós também, de forma a nos afastarmos de toda a honra, de toda a glória, fazendo jus à riqueza transbordante do amor d'Aquele que tanto nos amou.


Diádoco de Foticeia, Bispo
Sobre a perfeição espiritual, 12-15

ADVENTO – 1º DOMINGO – Erguei-vos, porque aproxima-se a vossa redenção




DOMINGO I DO ADVENTO

«Erguei-vos e levantai a cabeça, porque aproxima-se a vossa redenção»

"Então, todas as árvores da floresta saltarão de alegria diante do Senhor, porque Ele vem para julgar a terra" (Sl 95,12-13). O Senhor veio uma primeira vez e virá de novo. Veio uma primeira vez "sobre as núvens" (Mt 26,64) na sua Igreja. Que núvens o trouxeram? Os apóstolos, os pregadores... Veio uma primeira vez trazido pelos seus pregadores e encheu toda a terra. Não ponhamos resistência à sua primeira vinda se não queremos temer a segunda...

Que deve pois fazer o cristão? Aproveitar este mundo mas não o servir. Em que consiste isso? "Possuir como se não se possuisse". É o que diz S. Paulo: "Irmãos, o tempo é breve... Desde já, aqueles que choram seja como se não chorassem, os que são felizes, como se o não fossem, os que compram, como se nada possuissem, os que tiram proveito deste mundo, como se não se aproveitassem dele. Porque este mundo, tal como o vemos, vai passar. Quereria ver-vos livres de toda a preocupação" (1Co 7,29-32). Quem está livre de toda a preocupação espera com segurança a vinda do seu Senhor. Será que se ama o Senhor quando se receia a sua vinda? Meus irmãos, não nos envergonhamos disso? Amamo-lo e receamos a sua vinda? Amamo-lo verdadeiramente ou amamos mais os nossos pecados? Odiemos então os nossos pecados e amemos Aquele que há-de vir...

"Todas as árvores da foresta rejubilarão à vista do Senhor", porque Ele veio uma primeira vez... Veio uma primeira vez e regressará para julgar a terra; então encontrará cheios de alegria os que tiverem acreditado na sua primeira vinda.


Santo Agostinho
Bispo de Hipona e Doutor da Igreja
Discurso sobre o Salmo 95