sábado, 14 de novembro de 2009

CAMINHO ESPIRITUAL - AO ENCONTRO DO SENHOR




AO ENCONTRO DO SENHOR

Temos que nos dispor para sair ao encontro do Senhor. Saiamos agora para fora e avancemos por cima de nós mesmos até Deus. É preciso renunciar a todo querer, desejar o atuar próprio. Nada mais que a intenção pura e desnuda de buscar só a Deus, sem o mínimo desejo de buscar-se a si próprio nem coisa alguma que possa redundar em seu proveito. Com vontade plena de ser exclusivamente para Deus, de conceder-lhe a morada mais digna, a mais íntima para que Ele nasça ali e leve a cabo sua obra em nós, sem sofrer impedimento algum.

Com efeito, para que duas coisas se fundam é necessário que uma seja paciente e a outra se comporte como agente. Unicamente quando o olho está limpo é que poderá ver um quadro pendurado na parede ou qualquer outro objeto. Impossível seria se houvesse outra pintura gravada na retina. O mesmo ocorre com o ouvido: enquanto um ruído lhe ocupa, está impedido de captar outro. Como conclusão, o recipiente é tanto mais útil quanto mais puro e vazio.

A esse sossego do espírito se refere o cântico da Missa que começa: “Quando um sossegado silêncio tudo envolvia” (Sb 18, 14). Em pleno silêncio, toda a criação calava na mais alta paz da meia noite. Então, oh Senhor, a Palavra onipotente deixou seu Trono para acampar em nossa tenda (Liturgia de Natal). Será então, no ponto culminante, no apogeu do silêncio, quando todas as coisas ficaram submersas na calma, somente então, se fará sentir a realidade desta Palavra. Porque, se queres que Deus fale, faz falta que tu cales. Para que Ele entre, todas as coisas deverão ter saído”.

A isto se referia Santo Agostinho quando dizia: "Esvazia-te para seres preenchida, sai para entrar". E em outro lugar: "Oh tu, alma nobre, nobre criatura, por que buscas fora a Quem está plena y manifestamente dentro de ti? És partícipe da natureza divina".


Johannes Tauler OP (Juan Tauler/1300-1361)
Instituciones, Temas de oración, CI 9


domingo, 8 de novembro de 2009

Beata Teresa de Calcutá – Uma grande santidade começa aprendendo-se a arte da delicadeza




«A santidade começa com a atenção aos outros»


Os cristãos são como luz para os outros, para todos os homens do mundo inteiro. Se somos cristãos, temos de ser semelhantes a Cristo.

Se quereis aprendê-la, a arte da delicadeza far-vos-á cada vez mais semelhantes a Cristo, pois o Seu coração era humilde e Ele estava sempre atento às carências dos homens. Uma grande santidade começa por essa atenção aos outros; para ser bela, a nossa vocação deve estar cheia dessa atenção. Por onde Jesus passou, fez o bem. E a Virgem Maria em Caná só pensou nas necessidades dos outros e em comunicá-las a Jesus.

Um Cristão é um tabernáculo de Deus vivo. Ele criou-me, Ele escolheu-me, Ele veio habitar-me, porque precisava de mim. Agora que sabeis quanto Deus vos ama, o que há de mais natural para vós do que passar o resto da vossa vida a resplandecer desse amor? Ser Cristo é amar como somos amados, como Cristo nos amou.


Bem-aventurada Teresa de Calcutá
Fundadora das Missionárias da Caridade
“A Gift for God”


Madre Teresa de Calcutá – Escutar no silêncio



ESCUTAR NO SILÊNCIO

Escuta em silêncio. Porque o teu coração transborda com um milhão de coisas, tu não podes escutar nele a voz de Deus. Mas assim que te pões à escuta da voz de Deus no teu coração pacificado, ele enche-se de Deus. Isso requer muitos sacrifícios. Se pensamos que queremos rezar, temos de nos preparar para isso. Sem desfalecimento. Não são senão as primeiras etapas em direção à oração, mas se não as concluímos com determinação, nunca alcançaremos a última etapa, a presença de Deus.

É por isso que a aprendizagem deve ser feita desde o início: colocar-se à escuta da voz de Deus no seu coração; e, no silêncio do coração, Deus põe-se a falar. Depois, da plenitude do coração sobe o que a boca deve dizer. Aí opera-se a fusão. No silêncio do coração, Deus fala e tu só tens que escutar. Depois, uma vez que o teu coração entra em plenitude, porque ele se encontra repleto de Deus, repleto de amor, repleto de compaixão, repleto de fé, compete à tua boca pronunciar-se.

Lembra-te, antes de falares, que é necessário escutar e só então, das profundezas de um coração aberto, podes falar e Deus entende-te.


Beata Teresa de Calcutá
Fundadora das Irmãs Missionárias da Caridade
“No Greater Love”


Teresa de Calcutá – Rezar no silêncio



REZAR NO SILÊNCIO

«Passou a noite a orar a Deus. Quando nasceu o dia, convocou os discípulos e escolheu doze dentre eles» (Lc 6,12)

Precisamos de encontrar Deus, e não é na agitação nem no barulho que poderemos encontrá-Lo. Deus é o amigo do silêncio.

Em que tamanho silêncio não crescem as árvores, as flores e a erva! Em que tamanho silêncio não se movem as estrelas, a lua e o sol! Não é nossa missão dar Deus aos pobres dos casebres? Não um Deus morto, mas um Deus vivo e que ama. Quanto mais recebermos na oração silenciosa, mais podemos dar na nossa vida ativa.

Precisamos de silêncio para sermos capazes de tocar as almas. O essencial não é o que dizemos, mas o que Deus nos diz e o que diz através de nós. Todas as palavras que dissermos serão vãs se não vierem do mais íntimo; as palavras que não transmitem a luz de Cristo aumentam as trevas.

Os nossos progressos na santidade dependem de Deus e de nós próprios, da graça de Deus e da própria vontade que temos de ser santos. Temos de assumir o compromisso vital de atingir a santidade. «Quero ser santo» significa: quero desligar-me de tudo o que não é Deus, quero despojar o coração de todas as coisas criadas, quero viver na pobreza e no despojamento, quero renunciar à minha vontade, às minhas inclinações, caprichos e gostos, e tornar-me o dócil servo da vontade de Deus.


Beata Teresa de Calcutá
Fundadora das Irmãs Missionárias da Caridade
“Something Beautiful for God”


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

CANONIZAÇÃO/CANONIZACIÓN São Rafael Arnáiz Barón – O silêncio




CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

SÃO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN

O silêncio

“Das coisas que nos consolam na vida monástica, uma delas é o silêncio.

Sobretudo, há certas horas em que o silêncio se impõe pela necessidade; precisa-se dele; é o consolo do trapista; é o refúgio do aflito e desconsolado; é o recreio do que está alegre, e faz a felicidade do enamorado de Deus.

No silêncio é onde o monge encontra o bálsamo de suas dores e de suas, algumas vezes, desolações; no silêncio monacal é onde a alma que goza de Deus esconde suas delícias; no silêncio se ama melhor a Deus; com o silêncio o sofrimento é mais eficaz; no silêncio é onde muitas vezes se encontra o consolo que não podem dar as criaturas.

Que formoso e agradável é o silêncio!
Como ajuda a alma a buscar a Deus!
E como, uma vez que a Deus se encontrou, nos ajuda a conservá-lo e a não profanar sua presença!

Alguns dias, a alma de certo trapista encontra sua felicidade em conservar seu silêncio. Este trapista não trocaria de lugar com ninguém pois o que para o mundo é uma penitência, para ele é o seu céu na terra.

Quando lentamente transcorrem as horas da noite, dessa noite que o monge utiliza para rezar diante de Deus, quando toda a natureza dorme e a escuridão convida a alma ao recolhimento e à oração, quando nessas horas serenas esse fradezinho se aproxima do altar de Deus e recebe em seu coração o Autor da noite, ao Deus que fez os céus cobertos de estrelas, então, quando a alma se encontra rodeada de paz por fora e de luz por dentro, quando a escuridão envolve o Mosteiro e divinos resplendores iluminam o coração, então é quando se precisa do silêncio.

O sol, como que envergonhado de perturbar a paz da noite, vai aparecendo pouco a pouco no horizonte; uma tênue neblina rodeia o que há na paisagem; a Criação vai despertando, tudo vai se inundando de luz pouco a pouco; a Igreja do convento tem uma janela por cima do Altar Maior, e por esta janela entra a luz; esta luz suave do amanhecer fere e acaricia a imagem da Virgem Maria, chega até o Sacrário e entra no Coro.

Já se pode ler claramente nos grandes livros. À medida que a luz que Deus envia ao mundo cada manhã vai tomando tudo, a alma do monge vai se inundando também de alegria, de paz, de agradecimento ao Senhor que é tão bom com o homem. Então, quando tudo começa a viver, quando os pássaros aturdem com seus cantos, quando o sossego da oração é trocado pelos instrumentos de trabalho manual, quando o monge começa sua jornada, quem sabe se a padecer, então a alma deste homem, dando-se conta de que a vida sobre a terra é luta, de que ainda está no desterro, eleva seu coração sobre todas as coisas, pede auxílio a Deus, a quem oferece as obras do dia, se abraça à cruz de cada dia e, com o pensamento na Virgem, se refugia no silêncio, nesse silêncio que lhe ajuda a conservar a oração da noite. E nesse silêncio, oferece a Deus, umas vezes o suor de sua fronte, outras o frio, e sempre seu trabalho, seja qual for.

Que formoso é esse silêncio do trapista durante o seu trabalho!...A alma se dilata ao abismar-se na grandeza de Deus, manifestada nos céus embaixo do qual esse monge trabalha.

A Criação inteira está sujeita à mão do homem; tudo canta as glórias de Deus, os trigos, as flores, os montes e o céu, tudo é um concerto sublime de harmonia; nada falta e nada sobra; tudo o que Deus faz está feito.

A alma deste trapista algumas vezes está na terra, e outras está no céu bendizendo a Deus, mas sempre em silêncio. Embora algumas vezes, silêncio esse interrompido para cantar à Virgem, e eu conheço um desses casos”.


São Rafael Arnáiz Barón
Vida y Escritos del Beato Fray María Rafael Arnáiz Barón
Meditações de um Trapista, pp.306-308


CANONIZAÇÃO/CANONIZACIÓN Rafael Arnáiz Barón – O olhar fixo no Senhor




CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

SÃO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN


O olhar fixo n’Ele

“Agora compreendo muito bem esse caminho tão estreito que assinala São João da Cruz, e que está entre outros dois, nos quais diz: oração, contemplação, consolos espirituais, dons da terra, dons do céu, etc. Pois bem, entre esses dois caminhos, está o que eu digo e que somente diz, nada... nada... nada...

Que difícil é chegar a isso. E para nós que andamos nos princípios, que fácil é equivocar-se, e quantas vezes queremos encontrar a Deus onde não está. E quando cremos haver lhe encontrado, nos encontramos com nós mesmos..., mas não há que desanimar, tudo permite Deus para o bem da alma, e sem conhecer o fracasso, não se saboreia o êxito, e antes de aproximar-se de Deus não há mais remédio a não ser despojar-se de tudo e permanecer no nada, como diz São João da Cruz.

Pois bem, nada de novo te digo, e que Deus me perdoe o querer tratar coisas tão altas quando ainda sem saber engatinhar, já quero voar... Esse tem sido meu pecado e continua sendo...

Que importa se estamos acima ou abaixo, perto ou longe de Deus? Dirijamos a Ele nossos olhares e unamo-nos para louvar-lhe, uns na vida monástica, outros nas missões, outros no mundo, uns de uma maneira e outros de outra. Que importa? É Ele que plenifica tudo e se nos olhamos uns aos outros, perdemos tempo... Muito formosa é às vezes a criatura, mas sua visão nos distrai do Criador.

Devemos seguir com o olhar fixo n’Ele, quer estejamos entre santos quer entre pecadores... Nós não somos nada; nada valemos, nem para nada servimos quando estamos distraídos e não fazemos caso do Senhor. Não percamos, então, tempo, e se com um pequeno sacrifício, com uma oração ou com um ato de amor, agradamos ao Senhor, então que possamos dizer, que pelo menos temos servido para algo, que é para dar a Ele maior glória. Essa deve ser nossa única ocupação e nosso único desejo”.


São Rafael Arnáiz Barón
Carta de 23 de julho de 1934 a sua tia, Duquesa de Maqueda.
Obras Completas, Monte Carmelo; pp.223-238

SÃO RAFAEL ARNÁIZ/ SAN RAFAEL ARNÁIZ – OCULTO EM DEUS/ OCULTO EN DIOS




CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

SÃO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN


14 de dezembro de 1936 - 25 anos
Mi cuaderno - San Isidro

”Um dos encantos, melhor dizendo, consolos da vida monacal, é o estar oculto aos olhares do mundo. Isto o compreenderá quem gostar de meditar na vida de Cristo. Para dedicar-se a uma arte, para aprofundar-se em uma ciência, o espírito necessita solidão e isolamento, necessita recolhimento e silêncio. Agora, para a alma enamorada de Deus, para a alma que já não vê mais arte nem mais ciência que a vida de Jesus, para a alma que encontrou na terra o tesouro escondido, o silêncio não lhe basta, nem seu recolhimento em solidão. É necessário ocultar-se de todos, é necessário ocultar-se com Cristo, buscar um lugar na terra onde não cheguem os olhares profanos do mundo, e alí estar a sós com seu Deus.

O segredo do Rei como que se mancha e perde o brilho ao ser revelado. Esse segredo do Rei há que se ocultar para que ninguém o veja. Esse segredo que muitos crêem ser comunicações divinas e consolos sobrenaturais, esse segredo do Rei que invejamos nos Santos, se reduz muitas vezes a uma Cruz.

Não coloquemos a luz debaixo de uma vasilha, nos diz Jesus no Evangelho. Divulguemos as grandezas de Deus. Façamos chegar ao coração de nossos irmãos os tesouros de graças que Deus derrama abundantemente sobre nós. Divulguemos aos quatro ventos nossa fé, enchamos o mundo de gritos de entusiasmo por termos um Deus tão bom. Não nos cansemos de pregar seu Evangelho e dizer a todos que nos queiram ouvir, que Cristo morreu amando aos homens, cravado em um madeiro. Que morreu por mim, por ti, por eles... E se nós deveras lhe amamos, não lhe ocultemos, não ponhamos a luz que pode iluminar a outros, debaixo de uma vasilha.

Mas em troca, bendito Jesus, levemos, bem dentro e sem que ninguém se inteire, esse divino segredo... Esse segredo que Tu dás às almas que mais te querem... Essa pequenina parte de tua Cruz, de tua sede, de teus espinhos.

Ocultemos no último lugar da terra nossas lágrimas, nossas penas e nossos desconsolos. Não enchamos o mundo de tristes gemidos, nem levemos a ninguém nem a mais pequenina parte de nossas aflições.

Sejamos egoístas para sofrer e generosos na alegria. Façamos a felicidade dos que nos rodeiam e não turvemos o ambiente com caras tristes quando Deus nos mande alguma prova.

Ocultemo-nos para estar com Jesus na Cruz. Não busquemos mitigação à dor no consolo das criaturas, pois estaremos fazendo duas coisas que não são ruins, mas que não são perfeitas. Primeiro, ao deixar a Deus pelo que não é Deus, pois não é consolo seu o que Dele não vem, e se Ele não quer dá-lo, ao buscar fora Dele, perdemos a Ele, e também perdemos muitas vezes o mérito do sofrimento. Segundo, em nosso egoísmo, fazemos ou pelo menos queremos fazer participantes aos demais, do nosso sofrimento, para assim aliviar-nos, e conseguirmos com isso alívio fictício e falso, pois se te dói um dente, te seguirá doendo quer o digas ou não.

Em resumo, quase sempre é um ato de egoísmo e também falta de humildade, dar importância ao nosso sofrimento, como se por ser nosso fosse importante. Em troca, não buscando nada nas criaturas e sim tudo em Deus, se chega a amar a Cruz, mas a Cruz a sós e escondido... Na Cruz, ocultos com Deus e longe dos homens.

Ocultemos nossa vida, se nossa vida é penar. Ocultemos o sofrer, se o sofrer nos causa pena. Ocultemo-nos com Cristo para só a Ele fazer-lhe partícipe do que, pensando bem, só é Dele: o segredo da Cruz.

Aprendamos de uma vez, meditando em sua vida, em sua Paixão e em sua morte, que só há um caminho para se chegar a Ele..., o caminho da Santa Cruz”.


São Rafael Arnáiz Barón
Vida y Escritos del Beato Fray María Rafael Arnáiz Barón
Mi cuaderno, pp.374-376

CANONIZAÇÃO/CANONIZACIÓN RAFAEL ARNÁIZ – FOTOS OFICIAIS

SÃO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN

CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009


FOTOS OFICIAIS DA CANONIZAÇÃO



CLIQUE NA IMAGEM


São Rafael Arnáiz rogai por nós!

San Rafael Arnáiz ruega por nosotros!


CANONIZAÇÃO/CANONIZACIÓN São Rafael Arnáiz Barón – Palavras do Papa Bento XVI ao canonizar o Irmão Rafael




CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

SÃO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN


Palavras de SS. o Papa Bento XVI ao canonizar o Irmão Rafael

“À figura do jovem que apresenta a Jesus o seu desejo de ser algo mais do que um bom cumpridor dos deveres que impõe a lei, retornando ao Evangelho de hoje, faz de reflexo da Luz o Irmão Rafael, hoje canonizado, falecido aos vinte e sete anos como Oblato na Trapa de San Isidro de Dueñas.

Ele também era de uma família abastada e, como ele mesmo disse, de “alma um pouco sonhadora”, cujos sonhos porém não se desvaneceram diante do apego aos bens materiais e a outras metas que a vida do mundo propõe às vezes com grande insistência. Ele disse sim à proposta de seguir Jesus, de maneira imediata e decidida, sem limites nem condições. Deste modo, iniciou um caminho que, a partir do momento em que se deu conta no Mosteiro de que “não sabia rezar”, o levou em poucos anos ao ápice da vida espiritual, que ele retrata com grande simplicidade e maturidade em numerosos escritos.

O Irmão Rafael, ainda muito próximo de nós, continua a oferecer-nos com o seu exemplo e as suas obras um percurso atrativo, especialmente para os jovens que não se conformam com pouco, mas que aspiram à plena verdade, à mais indizível alegria, que se alcançam através do amor de Deus.

“Vida de amor... Está aqui a única razão de viver”, diz o novo Santo. E insiste: “Do amor de Deus nasce tudo”. Que o Senhor ouça benigno uma das últimas orações de São Rafael Arnáiz, quando lhe entregava toda a sua vida, suplicando: “Toma-me a mim e doa-Te a Ti ao mundo”. Que se doe para reanimar a vida interior dos cristãos de hoje. Que se doe para que os seus Irmãos da Trapa e os centros monásticos continuem a ser esse farol que faz descobrir o íntimo anseio de Deus que Ele pôs em cada coração humano”.


Papa Bento XVI
Homilia da Canonização
Roma, 11 de outubro de 2009

VÍDEO DA CANONIZAÇÃO/VÍDEO DE LA CANONIZACIÓN de São Rafael Arnáiz Barón



CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

SÃO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN






“Os santos aceitam o convite exigente, e põem-se com humilde docilidade no seguimento das pegadas de Cristo crucificado e ressuscitado. Sua perfeição, na lógica da fé, às vezes humanamente incompreensível, consiste em não ser o centro de si mesmos, mas em escolher o ir contra a corrente, vivendo segundo o Evangelho”.


Papa Bento XVI
Homilia da Canonização
Roma, 11 de outubro de 2009



CANONIZAÇÃO/CANONIZACIÓN San Rafael Arnáiz Barón – A mensagem de um jovem Trapista




CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

SÃO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN

A mensagem de um jovem Trapista

Domingo, 11 de outubro tem lugar, em Roma, uma cerimônia de canonização presidida pelo Papa, na qual serão propostos como modelos aos católicos de todo o mundo 5 novos santos: Zygmunt Szczesny Felinski, Marie de la Croix; Damián de Veuster; Francisco Coll y Guitart e Rafael Arnáiz Barón, mais conhecido como “o Irmão Rafael”.

Neste escrito, vou referir-me somente a este último. Se me permitem uma recordação pessoal, direi que quando tinha só 18 anos li os escritos do “Irmão Rafael” e fiquei profundamente impressionado por seu testemunho de fé. Digamos, para começar, que o Irmão Rafael é um dos autores de escritos espirituais e místicos mais profundos do século passado. Não me parece exagerado dizer que cabe situar sua figura e sua obra na mesma linha de nossos grandes místicos do século XVI, como Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz.

Sua condição de místico está refletida em uma de suas frases: “Quisera ser santo e que não o saiba ninguém”. Santa Teresa de Jesus viveu aquele famoso “só Deus basta”. O Irmão Rafael centrará seu ideal nas palavras: “Só Deus”, expressão de sua vocação mística, testemunho de quem jogou em sua vida uma só carta: só Deus. E esta radicalidade fica expressa em sua escolha: seria monge trapista. É sabido que a Trapa é um ramo da Ordem do Cister que se caracteriza pelo rigor e a grande austeridade da vida monástica.

Rafael Arnáiz não teve precisamente uma vida fácil. Nasceu em 9 de abril de 1911, em Burgos e morreu aos 27 anos, em 26 de abril de 1938, em seu querido Mosteiro de San Isidro de Dueñas, vítima de uma dolorosa enfermidade. Educado em uma família profundamente cristã, Rafael estudou Arquitetura em Madri. Possuía um temperamento artístico notável e era muito aficcionado à fotografia. Mas em sua vida se impôs sobretudo o chamado de Cristo e não duvidou em deixar tudo.

Em 1934 ingressou no Mosteiro Trapista de San Isidro de Dueñas, na Diocese de Palencia, com vontade de consagrar-se a Deus. Mas ali lhe esperava a grande cruz de sua vida. Pouco tempo depois de haver ingressado, contraiu uma diabetes sacarina, que o fez interromper seus estudos e lhe obrigou a sair do Mosteiro por três vezes. Não pôde chegar a ser ordenado sacerdote e quis permanecer na condição de oblato, e por isso é chamado, com toda razão, “o Irmão Rafael”, porque assim assumiu permanecer. Ele queria desaparecer ante o mundo e ser só de Deus.

É conhecida a afirmação do grande teólogo Karl Rahner, segundo a qual os cristãos do futuro ou serão místicos ou não serão nada. A condição de místico está radicada sobretudo em uma experiência íntima, profunda e sumamente autêntica do Mistério de Deus e de seu amor, que é sua natureza mais íntima e que, de tão pleno, flui até todas as
criaturas. Os místicos são as grandes testemunhas da fé.

João Paulo II propôs a este jovem monge trapista como modelo de vida cristã aos jovens na Jornada Mundial da Juventude, de Santiago de Compostela (1989). Já se pensa em propor também sua vida e seu testemunho com motivo da próxima Jornada Mundial da Juventude de Madri (2011). E me parece que lhe podemos recomendar já os frutos do X Aplec de l’Esperit, organizado pela juventude cristã das Dioceses catalãs e que celebraremos pela primeira vez em nossa cidade de Terrassa, em 22 de maio de 2010.


+D.Josep Àngel Saiz Meneses - Bispo de Terrassa
Revistaecclesia
Do Blog Irmão Rafael Arnáiz, OCSO


CANONIZAÇÃO/CANONIZACIÓN Rafael Arnáiz Barón – Familiarizar-se com a mística




CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

SÃO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN


Navegar mar adentro

A figura do Irmão Rafael é um convite para que nos familiarizemos com a “mística”; quer dizer, com o caminho que Deus traça para que as almas cheguem à união íntima com Ele.

Temos a sorte de viver na Espanha, que é provavelmente a nação com maior tradição mística da Igreja Católica. Rafael Arnáiz traz a nossos dias o melhor da herança da mística espanhola; mas o faz com uma forma de expressão própria do século XX. Sua figura se torna atraente por sua jovialidade, seu sentido de humor, sua pluma privilegiada, seus exemplos pertos… Por isso… Percamos o “medo” da mística!

Não a vejamos como algo distante e inalcançável para nós. Pelo menos, em certa medida, todos estamos envoltos nela! Marchemos sem medo, “navegando mar adentro”, no oceano do Mistério de Deus misericordioso, Pai, Filho e Espírito Santo. Assim, entenderemos o texto de São Paulo aos Efésios: “Que Cristo habite pela fé em vossos corações, para que, arraigados e cimentados no amor, possais compreender com todos os santos qual é a largura e o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede a todo conhecimento, para que sejais plenificados com toda a Plenitude de Deus” (Ef 3, 17-19).


De la Carta Pastoral a los Jóvenes III, 6
BUSCAD EL ROSTRO DE DIOS
Do Blog Irmão Rafael Arnáiz, OCSO

CANONIZAÇÃO/CANONIZACIÓN São Rafael Arnáiz Barón – Diante do Sacrário




CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

SÃO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN


Diante do Sacrário

“Uma multidão de Sacrários existem na terra, mas somente um Deus, que é Jesus Sacramentado. Consoladora verdade que faz estar tão unidos o monge em seu Coro, o missionário em terra de infiéis e o secular em sua paróquia. Não há distâncias, nem há idades. Ao pé do Sacrário estamos todos perto. Deus nos une. Peçamos a Ele, por mediação de Maria, que algum dia no céu, possamos contemplar a esse Deus que por amor ao homem se oculta sob as espécies do pão e do vinho. Assim seja.

Diante do Sacrário, quantas vezes me ponho diante de Ti, oh, Senhor! Meus primeiros sentimentos são de vergonha, Senhor. Mas depois, oh, Deus, que bom sois!, depois de ver-me a mim, vejo a Vós, e então ao contemplar vossa misericórdia que não me rechaça, minha alma se consola e é feliz. Pensar que vos ofendi e apesar disso me amais e me permitis estar em vossa presença sem que vossa justa ira me aniquile. Senhor, dá-me as lágrimas de David para chorar minhas culpas, mas ao mesmo tempo, dá-me um coração grande, muito grande, para com ele poder corresponder um pouquinho, embora seja muito pouquinho, ao imenso amor que me tendes.

Diante do Sacrário, Senhor, não sei que faço aqui. Nada, pois nada sei fazer. Senhor, não sei que faço aqui, mas estou contigo. Isso me basta e eu sei que estais aqui, diante de mim”.


Irmão Rafael Arnáiz
Escritos sueltos(85)-297;(36)-85
Do Blog Irmão Rafael Arnáiz, OCSO


São Rafael Arnáiz Barón – A mística do Beato Rafael Arnáiz




CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

SÃO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN


A mística do Irmão Rafael Arnáiz


“A mística do Irmão Rafael flui e reflui por todos os poros de sua pessoa, não somente quando escreve, pensa e compõe, mas também quando esboça, desenha e pinta. Traduzindo plasticamente seus sentimentos mais profundos com seu espírito e sensibilidade de artista, nos pintará, já não só o «monte da perfeição», rematado pela Cruz, mas «o cervo correndo com insaciáveis ânsias de Deus»: sua «busca de amores, passando por fortes e fronteiras» e, sobretudo, «a alma na cruz» que, em frase paulina, significa a plena identificação com Cristo e que, começando por uma coroa de espinhos a seus pés, termina com o dardo da transverberação da mais alta mística.

Nesse sentido, nos deixou preciosas interpretações feitas a pincel ou a simples pena, traduzindo as palavras dos salmos ou explicando plasticamente as poesias mais elevadas de São João da Cruz em estampas de alto valor extraordinário e místico. Assim, teremos: «Estrangeiro sou na terra» (Sl 118, 19), «Que se prostre ante Ti a terra inteira» (Sl 65. 4), «Escolhi o caminho da verdade» (Sl 118, 30). É o que nos expressa o Irmão Rafael quando, por força da sua experiência mística, plasma em estampas as canções de São João da Cruz”.


Fray Mª Alberico Feliz Carvajal, OCSO
Vida y Escritos del Beato Fray María Rafael Arnáiz Barón
Introducción, p.52
Do Blog Irmão Rafael Arnáiz, OCSO


São Rafael Arnáiz Barón e São João da Cruz – San Rafael Arnáiz y San Juan de La Cruz




São Rafael Arnáiz Barón

CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009


São Rafael Arnáiz e São João da Cruz

“Sabemos que o Cântico de São João da Cruz é sua obra predileta e, além disso, reflexa fielmente a sua própria alma, pois o cantou e o viveu nos momentos decisivos de sua existência. O Cântico é a oração de um místico poeta que vive do amor de Deus e, por isso, é o poema mais completo e mais próximo de sua experiência. Na realidade, tomado em seu conjunto, tem muito de autobiografia espiritual. O amor que anima a vida inteira de São João da Cruz e inspira seus escritos assume no Cântico toda a força de uma vocação e de uma paixão.

Nesse sentido, alguém de muita autoridade, ao estudar «a experiência do Irmão Rafael à luz dos ensinamentos de São João da Cruz», disse:

«Ao querer comparar estas duas almas (São João da Cruz e o Irmão Rafael), ao tratar de explicar este encontro que se deu entre elas, tem que ter em conta a fortíssima paixão de Deus, que ambos padeceram e que é o segredo de suas vidas entregues. Sem dúvida, essa paixão foi vivida e manifestada com seus próprios matizes existenciais em cada um deles. Cada alma é uma alma. Mas com uma paixão cravada como um dardo no coração de um e de outro, e que é o que provoca o dinamismo vital em suas respectivas vidas.

São João da Cruz foi um de seus grandes amigos. Um de seus guias espirituais. O mais citado em seus escritos. Com ele sintonizou maravilhosamente sua alma endeusada. Ambos foram peregrinos do Absoluto. Sofreram a paixão de Deus. Paixão de amor e de dor. Paixão mística. Só Deus! Só Deus!, foi seu grito na noite. É o pessoal e o social que todos padecemos e que talvez nos acovarde, como um sinal de luz que Deus, por meio de Rafael, nos regala para despertar nossa pobreza de fé, de esperança e de amor. Nada e Tudo. Só Deus!» (Jiménez Duque, B., Espiritualidad del Hermano Rafael, pp.75,85, na Semana de Espiritualidade do Irmão Rafael, Monasterio Cisterciense de San Isidro de Dueñas, Palencia, 1984)”.


Fray Mª Alberico Feliz Carvajal, OCSO
Vida y Escritos del Beato Fray María Rafael Arnáiz Barón
Introducción, pp.52-53
Do Blog Irmão Rafael Arnáiz, OCSO


Irmão/Hermano Rafael Arnáiz Barón – Papel encontrado em um dos bolsos da sua túnica quando morreu




CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

São Rafael Arnáiz Barón


Papel encontrado em um dos bolsos da sua túnica, quando morreu o Irmão Rafael Arnáiz Barón

Ao morrer o jovem Monge Trapista, Frei Maria Rafael Arnáiz Barón, em um dos bolsos de seu hábito, escrito com lápis e muito desgastado, os monges encontraram, um pequeno papel, um capítulo de faltas:


• Subir escada batendo pé [Marcado].
• Não fazer saudação no Capítulo [Marcado].
• Correr sem respeito na Igreja [Marcado].
• Gestos durante o grande silêncio [Marcado]
• Voltar a cabeça na Missa [Marcado].
• Gestos falados com um professo [Marcado].
• Não obedecer imediatamente à campainha [Marcado].
• Equivocar-me no Coro, não fazer prostração [Marcado].
• Dar mostras externas de impaciência [Marcado].
• Perder tempo trabalho [Marcado].
• Perder tempo olhar janelas [Marcado].
• Perder tempo intervalos [Marcado].
• Acenar exageradamente como leigo [Marcado].
• Descuidado com quarto da enfermaria.
• Descuidado com fazer ruído na escada
e com as portas.
• Distrair-me no Coro e não fazer a tempo
as inclinações.


Vida y Escritos del Beato Fray María Rafael Arnáiz Barón
Pp.603-604
Do Blog Irmão Rafael Arnáiz, OCSO


domingo, 25 de outubro de 2009

São Bernardo de Claraval, doce poeta de Nossa Senhora



São Bernardo de Claraval, doce poeta de Nossa Senhora

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 21 de outubro de 2009 (ZENIT.org) - Oferecemos, a seguir, o texto completo da catequese pronunciada hoje pelo Papa Bento XVI, durante a Audiência geral com os peregrinos procedentes do mundo inteiro, na Praça de São Pedro.

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Queridos irmãos e irmãs,

Hoje, eu gostaria de falar sobre São Bernardo de Claraval, chamado de “o último dos Padres” da Igreja, porque no século XII, mais uma vez, ele renovou e fez presente a grande teologia dos padres.

Não conhecemos em detalhe os anos da sua juventude; sabemos, contudo, ele nasceu em 1090 em Fontaines, na França, em uma família numerosa e discretamente acomodada. Ainda muito jovem, dedicou-se ao estudo das chamadas artes liberais – especialmente da gramática, retórica e dialética – na Escola dos Canônicos da Igreja de Saint-Vorles, em Châtillon-sur-Seine, e amadureceu lentamente a decisão de entrar na vida religiosa.

Por volta dos 20 anos, entrou em Cîteaux (Cister), uma fundação monástica nova, mais ágil com relação dos antigos e veneráveis mosteiros de então e, ao mesmo tempo, mais rigorosa na prática dos conselhos evangélicos. Alguns anos mais tarde, em 1115, Bernardo foi enviado por Santo Estêvão Harding, terceiro Abade de Cister, a fundar o Mosteiro de Claraval (Clairvaux). O jovem Abade, com somente 25 anos, pôde aqui afinar sua própria concepção da vida monástica e empenhar-se em traduzi-la à prática. Observando a disciplina de outros mosteiros, Bernardo falou com decisão da necessidade de uma vida sóbria e comedida, tanto à mesa como na indumentária e nos edifícios monásticos, recomendando a sustentação e o cuidado dos pobres. Entretanto, a comunidade de Claraval era cada vez mais numerosa e multiplicava suas fundações.

Nessa mesma época, antes de 1130, Bernardo empreendeu uma vasta correspondência com muitas pessoas, tanto importantes como de modestas condições sociais. Às muitas cartas deste período, é preciso acrescentar os numerosos Sermões, como também Sentenças e Tratados. Destaca-se também, nesses anos, a grande amizade de Bernardo com Guilherme, Abade de Saint-Thierry, e com Guilherme de Champeaux, uma das figuras mais importantes do século XII.

De 1130 em diante, começou a ocupar-se de muitas e graves questões da Santa Sé e da Igreja. Por este motivo, teve de sair mais frequentemente do seu mosteiro, inclusive fora da França. Fundou também alguns mosteiros femininos e foi protagonista de um vivo epistolário com Pedro o Venerável, Abade de Cluny, sobre quem falei na última quarta-feira.

Ele dirigiu seus escritos polêmicos sobretudo contra Abelardo, um grande pensador que iniciou uma nova forma de fazer teologia, introduzindo o método dialético-filosófico na construção do pensamento teológico. Outra frente contra a qual Bernardo lutou foi a heresia dos Cátaros, que desprezavam a matéria e o corpo humano, desprezando, por conseguinte, o Criador. Ele, no entanto, sentiu-se no dever de defender os judeus, condenando os cada vez mais difundidos brotos de anti-semitismo. Por este último aspecto de sua ação apostólica, algumas décadas mais tarde, Epharim, Rabino de Bonn, dedicou a Bernardo uma vibrante homenagem. Nesse mesmo período, o santo Abade escreveu suas obras mais famosas, como os celebérrimos Sermões sobre o Cântico dos cânticos.

Nos últimos anos da sua vida – ele faleceu em 1153 –, Bernardo teve de limitar as viagens, ainda que sem interrompê-las totalmente. Aproveitou para revisar definitivamente o conjunto das Cartas, dos Sermões e dos Tratados. Vale a pena mencionar um livro bastante particular, que ele terminou precisamente nesse período, em 1145, quando um aluno seu, Bernardo Pignatelli, foi eleito Papa com o nome de Eugênio III. Nessa circunstância, Bernardo, em qualidade de pai espiritual, escreveu a esse filho espiritual o texto De Consideratione, que contém ensinamentos para poder ser um bom Papa. Nesse livro, que continua sendo uma leitura conveniente para os papas de todos os tempos, Bernardo não indica somente como ser um bom papa, mas expressa também uma profunda visão do mistério da Igreja e do mistério de Cristo, que se resolve, no final, com a contemplação do mistério de Deus uno e trino: “Deveria prosseguir ainda a busca desse Deus que ainda não foi bastante buscado – escreve o santo Abade –, mas talvez se possa buscar e encontrar mais facilmente coma oração que com a discussão. Terminemos, portanto, aqui o livro, mas não a busca” (XIV, 32: PL 182, 808).


Eu gostaria de deter-me somente em dois aspectos centrais da rica doutrina de Bernardo: estes se referem a Jesus Cristo e a Maria Santíssima, sua Mãe. Sua solicitude pela íntima e vital participação do cristão no amor de Deus em Jesus Cristo não traz orientações novas no status científico da teologia. Mas, de forma mais decidida que nunca, o Abade de Claraval configura o teólogo com o contemplativo e o místico.

Só Jesus – insiste Bernardo, frente às complexas reflexões dialéticas do seu tempo – é “mel na boca, cântico no ouvido, júbilo no coração” (mel in ore, in aure melos, in corde iubilum). Daqui provém o título, atribuído a ele pela tradição, de Doctor mellifluus: seu louvor a Jesus Cristo “se derrama como o mel”.

Nas extenuantes batalhas entre nominalistas e realistas – duas correntes filosóficas da época –, o Abade de Claraval não se cansa de repetir que só há um nome que conta, o de Jesus Nazareno. “Árido é todo alimento da alma – confessa – se não for tocado por este óleo; é insípido se não for temperado com este sal. O que escreves não tem sabor para mim, se não leio nele Jesus”. E conclui: “Quando discutes ou falas, nada tem sabor para mim, se não sinto ressoar o nome de Jesus” (Sermões em Cantica Canticorum XV, 6: PL 183,847). Para Bernardo, de fato, o verdadeiro conhecimento de Deus consiste na experiência pessoal, profunda, de Jesus Cristo e do seu amor. E isso, queridos irmãos e irmãs, vale para todo cristão: a fé é, antes de mais nada, um encontro pessoal e íntimo com Jesus; é fazer a experiência da sua proximidade, da sua amizade, do seu amor, e somente assim se aprende a conhecê-lo cada vez mais, a amá-lo e segui-lo cada vez mais. Que isso possa acontecer com cada um de nós!

Em outro célebre sermão do domingo dentro da oitava da Assunção, o santo Abade descreveu em termos apaixonados a íntima participação de Maria no sacrifício redentor do seu Filho: “Ó santa Mãe – exclama –, verdadeiramente uma espada transpassou tua alma! (...) Até tal ponto a violência da dor transpassou tua alma, que com razão podemos te chamar mais que mártir, porque em ti a participação na paixão do Filho superou muito em intensidade os sofrimentos físicos do martírio” (14: PL 183,437-438).

Bernardo não hesita: "per Mariam ad Iesum": através de Maria somos conduzidos a Jesus. Ele confirma com clareza a subordinação de Maria a Jesus, segundo os fundamentos da mariologia tradicional. Mas o corpo do Sermão documenta também o lugar privilegiado da Virgem na economia da salvação, dada sua particularíssima participação como Mãe (compassio) no sacrifício do Filho. Não por acaso, um século e meio depois da morte de Bernardo, Dante Alighieri, no último canto da “Divina Comédia”, colocará nos lábios do Doutor melífluo a sublime oração a Maria: “Virgem Mãe, filha do teu Filho/ humilde e mais alta criatura / término fixo do eterno conselho...” (Paraíso 33, vv. 1ss.).

Estas reflexões, características de um enamorado de Jesus e de Maria, como São Bernardo, provocam ainda hoje, de forma saudável, não somente os teólogos, mas todos os crentes. Às vezes se pretende resolver as questões fundamentais sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo com as únicas forças da razão. São Bernardo, ao contrário, solidamente fundado na Bíblia e nos Padres da Igreja, recorda-nos que sem uma profunda fé em Deus, alimentada pela oração e pela contemplação, por uma relação íntima com o Senhor, nossas reflexões sobre os mistérios divinos correm o risco de serem um vão exercício intelectual e perdem sua credibilidade. A teologia reenvia à “ciência dos santos” a sua intuição dos mistérios do Deus vivo, a sua sabedoria, dom do Espírito Santo, que são ponto de referência do pensamento teológico.

Junto a Bernardo de Claraval, também nós devemos reconhecer que o homem busca melhor e encontra mais facilmente Deus “com a oração que com a discussão”. No final, a figura mais verdadeira do teólogo continua sendo a do apóstolo João, que apoiou sua cabeça no coração do Mestre.

Eu gostaria de concluir estas reflexões sobre São Bernardo com as invocações a Maria, que lemos em sua bela homilia: “Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que seu nome nunca se afaste de teus lábios, jamais abandone teu coração; e para alcançar o socorro da intercessão dela, não negligencies os exemplos de sua vida. Seguindo-a, não te transviarás; rezando a Ela, não desesperarás; pensando nela, evitarás todo erro. Se Ela te sustenta, não cairás; se Ela te protege, nada terás a temer; se Ela te conduz, não te cansarás; se Ela te é favorável, alcançarás o fim” (Hom. II super “Missus est”, 17: PL 183, 70-71).


Papa Bento XVI
Audiência Geral de 21 de outubro de 2009


Não se pode fazer teologia sem experiência de Cristo, afirma Bento XVI



Não se pode fazer teologia sem experiência de Cristo

O Papa dedica a audiência geral ao santo Abade Bernardo de Claraval

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 21 de outubro de 2009 (ZENIT.org) - “Para Bernardo, o verdadeiro conhecimento de Deus consiste na experiência pessoal, profunda, de Jesus Cristo e do seu amor. E isso, queridos irmãos e irmãs, vale para todo cristão”, afirmou hoje o Papa Bento XVI.

O Pontífice dedicou a catequese de hoje, dentro do ciclo de escritores cristãos do primeiro milênio, a São Bernardo de Claraval (1090-1153), Abade cisterciense conhecido como “Doutor melífluo”, pela doçura com que falava de Jesus Cristo.

Este santo escritor foi uma importante figura da Europa medieval, que manteve contato com importantes personalidades do seu tempo e que é reconhecido como “último Padre da Igreja”.

O Papa sublinhou que, mais que ter aberto novos caminhos na teologia, São Bernardo “configura o teólogo com o contemplativo e o místico”, em uma época de duras disputas entre duas importantes correntes teológicas, o nominalismo e o realismo.

“Só Jesus – insiste Bernardo, frente às complexas reflexões dialéticas do seu tempo – é ‘mel na boca, cântico no ouvido, júbilo no coração’”, explicou o Papa.

“O Abade de Claraval não se cansa de repetir que só há um nome que conta, o de Jesus Nazareno”, acrescentou.

Seu exemplo recorda hoje que “a fé é um encontro pessoal e íntimo com Jesus; é fazer a experiência da sua proximidade, da sua amizade, do seu amor, e somente assim se aprende a conhecê-lo cada vez mais, a amá-lo e segui-lo cada vez mais”.

“Que isso possa acontecer com cada um de nós!”, desejou o Papa.

As reflexões deste santo abade “provocam ainda hoje, de forma saudável, não somente os teólogos, mas todos os crentes”, que, às vezes, pretendem “resolver as questões fundamentais sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo com as únicas forças da razão”.

“São Bernardo, ao contrário, solidamente fundado na Bíblia e nos Padres da Igreja, recorda-nos que sem uma profunda fé em Deus, alimentada pela oração e pela contemplação, por uma relação íntima com o Senhor, nossas reflexões sobre os mistérios divinos correm o risco de serem um vão exercício intelectual e perdem sua credibilidade”.

“No final, a figura mais verdadeira do teólogo continua sendo a do apóstolo João, que apoiou sua cabeça no coração do Mestre”, sublinhou o Papa.

Enamorado de Nossa Senhora

Outro dos pontos sobressalentes do pensamento de São Bernardo é sua veneração a Nossa Senhora, sobre quem ele escreveu importantes sermões e orações. Sobretudo, ele se centrou na importância de Maria ao ter acompanhado seu Filho na Paixão.

“Bernardo não hesita: ‘per Mariam ad Iesum’: através de Maria somos conduzidos a Jesus”, afirmou o Papa.

Em seus escritos, o santo “confirma com clareza a subordinação de Maria a Jesus, segundo os fundamentos da mariologia tradicional”, mas “documenta também o lugar privilegiado da Virgem na economia da salvação”.

Bento XVI concluiu sua catequese citando uma belíssima homilia do santo: “Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que seu nome nunca se afaste de teus lábios, jamais abandone teu coração; e para alcançar o socorro da intercessão dela, não negligencies os exemplos de sua vida”.

“Seguindo-a, não te transviarás; rezando a Ela, não desesperarás; pensando nela, evitarás todo erro. Se Ela te sustenta, não cairás; se Ela te protege, nada terás a temer; se Ela te conduz, não te cansarás; se Ela te é favorável, alcançarás o fim”.


Papa Bento XVI
Audiência Geral de 21 de outubro de 2009