quinta-feira, 16 de abril de 2009

Papa Bento XVI faz 82 anos “procurando levar os homens a Deus”



Vaticano

O Papa faz 82 anos “procurando levar os homens a Deus”

VATICANO, 16 Abr. 09 / 10:56 am (ACI) - O Papa Bento XVI completa esta quinta-feira 82 anos, “procurando levar os homens a Deus”, conforme explicou o Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sede, o Pe. Federico Lombardi, SJ.

O Pontífice celebra seus 82 anos no Palácio Apostólico de Castel Gandolfo, a poucos quilômetros de Roma, onde transcorre um breve período de descanso depois dos ritos de Semana Santa.

O Pe. Lombardi expressou sua felicitação ao Papa manifestando o desejo de que “possa continuar exercendo durante muitos anos seu ministério, que é um ministério profundo de ajuda aos homens e mulheres para encontrar a Deus”.

“O centro de sua preocupação é levar aos homens a Deus e Deus aos homens através de um grande amor pessoal por Cristo”, disse o Pe. Lombardi; e assinalou que “apesar da atitude crítica necessária ao redor de tantos aspectos negativos da cultura ou da mentalidade de hoje, no fundo, a mensagem que quer dar é uma mensagem de amor, uma mensagem para o bem do ser humano e que é a reconciliação com Deus e com todos os habitantes da terra”.


Joseph Aloysius Ratzinger, nome de batismo de Bento XVI, nasceu em Marktl am Inn (Bavária, Alemanha) em 16 de abril de 1927. Desde 1946 a 1951, ano em que foi ordenado sacerdote (29 de junho) e iniciava sua atividade de professor, estudou filosofia e teologia na universidade de Munique e na escola superior de Filosofia e Teologia de Freising. Em 1953, se doutora em Teologia com a dissertação "Povo e casa de Deus na doutrina da Igreja de Santo Agostinho". Quatro anos depois obtinha a cadeira com seu trabalho sobre "A Teologia da História de São Boaventura".


Depois de conseguir o cargo de Dogmática e Teologia Fundamental na escola superior de Filosofia e Teologia de Freising, prosseguiu o ensino em Bonn, de 1959 a 1969, Münster de 1963 a 1966 e Tubinga, de 1966 a 1969. Neste último ano passou a ser catedrático de Dogmática e História do Dogma na Universidade de Regensburgo e vice-presidente da mesma universidade. Em 1962 contribuiu uma notável contribuição no Concílio Vaticano II como consultor teológico do Cardeal Joseph Frings, Arcebispo de Colônia.


O Papa Paulo VI o nomeou Arcebispo de Munique em 24 de março de 1977 e o criou Cardeal em 27 de junho de 1977. Em 1981, o Papa João Paulo II o nomeou Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Foi também Presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e da Pontifícia Comissão Teológica Internacional e Decano do Colégio Cardinalício.

Em 19 de abril de 2005, no segundo dia do conclave, foi eleito Papa.


Em uma entrevista concedida a Rádio Vaticano a propósito do aniversário, o Padre Lombardi destacou que em apenas um ano “o Papa esteve na América, nos Estados Unidos, nas Nações Unidas. Esteve na Austrália para a Jornada Mundial da Juventude. Na França e, finalmente, em África, faz poucas semanas”.

“Percorreu quatro continentes em um ano e todas estas viagens foram notáveis pela acolhida, pela eficácia com que sua mensagem foi recebida também por parte de públicos completamente distintos do ponto de vista cultural e de sua situação. Por isso diria que o Papa viveu a dimensão universal de seu ministério de forma extremamente eficaz, no curso deste ano”, assinalou.


Momentos difíceis

Sobre os momentos delicados e difíceis neste último ano de Pontificado, o Padre Lombardi considerou discussões com motivo da remissão da excomunhão aos quatro bispos ordenados por Marcel Lefebvre e o caso Williamson.

“Como o viveu o Papa? Vêmo-lo com a Carta que ele mesmo escreveu aos Bispos de todo o mundo, que é um documento extraordinário, um documento muito pessoal, intenso, em que vemos como ele confronta uma situação de tensão dentro da Igreja e também em relação com a cultura circunstante. Confronta-a substancialmente colocando novamente em claro as prioridades de seu pontificado, reconduzir aos homens a Deus e Deus aos homens, e destacando os critérios evangélicos com os quais tomou esta iniciativa da remissão da excomunhão, como um gesto de misericórdia, inspirando-se nas palavras do Evangelho: reconcilie-se com seu irmão. Diria que nos deu um testemunho muito intenso como homem de fé, como pastor que guia a Igreja com critérios de pura fé e grande caridade e responsabilidade espiritual em relação com o povo de Deus e da humanidade de hoje”, indicou.


Deus o abençoe, Papa Bento!


Fonte: Acidigital

PAPA BENTO XVI – Aniversário com presente


Aniversário de Bento XVI: exposição na sua casa natal

Bento XVI completa 82 anos, e em vários lugares do mundo, organizam-se comemorações e eventos. Um deles, de modo especial, está a realizar-se justamente na casa onde nasceu, em Marktl am Inn, na Baviera: uma exposição que revela os aspectos “domésticos” de Joseph Ratzinger.

A mostra é intitulada «Onde estou verdadeiramente em casa: a pátria e o Papa Bento XVI», e é dedicada especificamente ao significado do conceito de “pátria” para o Papa.

A casa natal de Joseph Ratzinger foi comprada por uma Fundação, logo após a sua eleição, em Abril de 2005, e transformada em museu. Nesta mostra, os visitantes podem ver documentos escritos por ele e pelo seu irmão Georg, além de conhecer episódios da sua infância, revelados pelos habitantes da comunidade.


Fonte: Agência Ecclesia


OITAVA DA PÁSCOA – Dies Domini – O Dia que o Senhor fez!



“Este é o dia que o Senhor fez. Exultemos e alegremo-nos nele.” Salmo 118, 24

Dies Domini

“Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom,
porque eterna é a sua misericórdia.
Diga a casa de Israel:
eterna é a sua misericórdia.
A mão do Senhor fez prodígios,
a mão do Senhor foi magnífica.
Não morrerei, mas hei de viver
para anunciar as obras do Senhor”.

Salmo 118, 1-2; 16-17


«Este é o dia que o Senhor fez» (Sl 118,24). Lembrai-vos do estado do mundo no princípio: «As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas. Deus disse: 'Faça-se a luz'. E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz e às trevas noite» (Gn 1,2s). Este é o dia que o Senhor fez. É o dia de que fala o apóstolo Paulo: «Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor» (Ef 5,8).

Não era Tomé um homem, um dos discípulos, um homem da multidão, por assim dizer? Os seus irmãos disseram-lhe: «Vimos o Senhor». E ele: «Se eu não tocar, se não meter o meu dedo no seu lado, não acreditarei». Os evangelistas trazem-te a novidade, e tu não acreditas? O mundo acreditou e um discípulo não acreditou? Ainda não tinha chegado esse dia que o Senhor fez; as trevas estavam ainda sobre o abismo, nas profundezas do coração humano, que estava nas trevas. Que venha, pois, Este que é o sinal do dia, que Ele venha e que diga com paciência, com doçura, sem cólera, Ele que cura: «Vem! Vem, toca aqui e acredita. Tu declaraste: 'Se não tocar, se não meter o meu dedo, não acreditarei'. Vem, toca, põe o teu dedo e não sejas incrédulo, mas crente. Eu conheço as tuas feridas, guardei para ti a minha cicatriz».


Aproximando a sua mão, o discípulo pode plenamente completar a sua fé. Qual é, com efeito, a plenitude da fé? Não acreditar que Cristo é somente Homem, não acreditar também que Cristo é somente Deus, mas sim acreditar que Ele é Homem e Deus. Assim, o discípulo ao qual o seu Salvador deu a tocar os membros do seu corpo e as suas cicatrizes exclamou: «Meu Senhor e meu Deus». Ele tocou o Homem, reconheceu Deus. Tocou a Carne, voltou-se para a Palavra, porque «a Palavra fez-se carne e habitou entre nós» (Jo 1,14). A Palavra suportou que a sua carne fosse suspensa na cruz; a Palavra suportou que a sua carne fosse colocada no túmulo. A Palavra ressuscitou na sua carne, mostrou-a aos olhos dos seus discípulos, prestou-se a ser tocada pelas suas mãos. Eles tocaram, e eles exclamaram: «Meu Senhor e meu Deus!». Este é o Dia que o Senhor fez!”.

Dos sermões de Santo Agostinho, Bispo e Doutor da Igreja


quarta-feira, 15 de abril de 2009

OITAVA DA PÁSCOA - Felizes os que Nele procuram abrigo


“Felizes os que Nele procuram abrigo” (Sl 2, 12)

“Bem-aventurado seja Aquele que, para me permitir ocultar-me ‘nas fendas do rochedo’ (Cant 2, 14), deixou que lhe perfurassem as mãos, os pés e o lado. Bem-aventurado Aquele que se abriu por completo a mim, a fim de que eu pudesse ‘penetrar no admirável santuário’ (Sl 41, 5) e ‘abrigar-me na sua tenda’ (Sl 26, 5). Este rochedo é um refúgio, doce lugar de repouso para as pombas, e os orifícios escancarados das chagas que tem por todo o corpo oferecem o perdão aos pecadores e concedem a graça aos justos. É morada segura, irmãos, “torre sólida contra o inimigo” (Sl 60, 4). É preciso habitar nessa morada por meio da meditação amante e constante nas chagas de Cristo Nosso Senhor, da busca do Crucificado na fé e no amor, da busca daquele que é abrigo seguro para a nossa alma, abrigo contra a veemência da carne, as trevas deste mundo, os assaltos do demônio. A proteção desse Santuário sobrepõe-se a todas as vantagens deste mundo.

Entra pois neste rochedo, esconde-te, refugia-te no Crucificado. O que é a chaga do lado de Cristo, senão a porta aberta da arca para os que serão preservados do dilúvio? Mas a Arca de Noé era apenas um símbolo; isto é a realidade; já não se trata de salvar a vida mortal, mas de receber a imortalidade.

É, pois, razoável que a pomba de Cristo, a sua amiga formosa (Cant 2, 13-14), cante hoje os louvores do Amado com alegria. Da memória ou da imitação da Paixão, da meditação das suas santas chagas, como das fendas do rochedo, a sua voz dulcíssima ressoa sempre aos ouvidos do Esposo (Cant 2, 14)”.

Beato Guerric d'Igny, Abade Cisterciense
Sermão IV para os Ramos

domingo, 12 de abril de 2009

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO – CRISTO RESSUSCITOU- SURREXIT DOMINUS VERE! ALLELUIA!

Feliz e Santa Páscoa!
Surrexit Dominus vere! Alleluia!



Cristo ressuscitou!

Irmãos e filhos: escutai! Nós somos testemunhas desse fato! Somos a voz que se perpetua, ano após ano, na história; somos a voz que se difunde em círculos sempre mais amplos no mundo; somos a voz que repete o testemunho irrefragável daqueles que por primeiro o viram com os próprios olhos e o tocaram com as próprias mãos, e verificaram a novidade e a realidade do fato triunfante sobre os esquemas de toda experiência natural; somos os transmissores, de uma geração para outro, de um povo para outro, da mensagem de vida da ressurreição de Cristo. Somos a voz da Igreja, para isso fundada, para isso difundida na humanidade, para isso militante, para isso viva e esperançosa, para isso pronta a confirmar com o próprio sangue a própria palavra: ressuscitou! Cristo ressuscitou!

O fato da ressurreição de Cristo tem que ver, sim, com a sua história, que é o Evangelho, tem que ver com sua vida, que se manifestou humana e divina, viva na Pessoa do Verbo de Deus; mas tem que ver igualmente com nós mesmos. Em Jesus Cristo se realiza um desígnio de Deus; o mistério, guardado em segredo por séculos, da redenção da humanidade, revelou-se; em Cristo nós somos salvos. Em Cristo se concentram os nossos destinos, em Cristo se resolvem os nossos dramas, em Cristo se explicam as nossas dores, em Cristo se perfilam as nossas esperanças.


Não é um fato isolado a ressurreição do Senhor; é um fato que tem que ver com toda a humanidade; por Cristo estende-se ao mundo, tem uma importância cósmica! E é maravilhoso: aquele prodigioso acontecimento reverbera sobre cada homem vindo a este mundo com efeitos diversos e dramáticos; reveste toda árvore genealógica da humanidade; Cristo é o novo Adão, que infunde na frágil, na mortal circulação da vida humana natural um princípio vital novo; inefável, mas real, um princípio de purificadora regeneração, um germe de imortalidade, uma relação de comunhão existencial com Ele, Cristo, até participar com Ele, no fluxo do seu Espírito Santo, da própria vida do infinito Deus, que em virtude sempre de Cristo podemos chamar bem-aventuradamente: Pai nosso!"

Servo de Deus Papa Paulo VI
Da Mensagem pascal, 1964

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO - Tudo é novo! Cristo ressuscitou!



“Dia da Ressurreição: um solene princípio!
Acendamos a nossa luz neste dia de festa!
Abracemo-nos uns aos outros!
Voltemo-nos, ó irmãos,
mesmo para aqueles que nos odeiam,
não somente a quem, por amor,
tenha feito ou sofrido alguma coisa por nós!
Relevemos tudo, por causa da Ressurreição.
E perdoemo-nos uns aos outros!

Ontem, eu fui crucificado com Cristo,
Hoje, sou glorificado juntamente com Ele!
Ontem, eu morri com Ele; hoje fomos nós dois vivificados!
Ontem eu fui sepultado juntamente com Cristo;
Hoje, eu e Ele ressurgimos!

Tragamos, portanto, ofertas Àquele que padeceu e ressuscitou por nós! Pensais vós, talvez, que eu esteja me referindo a ouro ou prata ou tecidos e pedras reluzentes e preciosas. Matéria corruptível que provém da terra e sobre a terra é destinada a permanecer, além do mais em propriedade de gente malvada e escrava do mundo e do seu príncipe. Eu digo, ao invés, que devemos oferecer a Deus totalmente a nós mesmos: esta é a oferta que lhe agrada e que convém!


Procuremos ser como Cristo, já que também Cristo tornou-se um de nós!
Procuremos nos tornar divinos por meio dele, já que Ele mesmo, por nós, tornou-se Homem!

Ele tomou o pior sobre si para nos conceder o melhor: fez-se pobre para que nós, graças à sua pobreza, nos tornássemos ricos; assumiu o aspecto de servo, para que obtivéssemos a liberdade; desceu ao mais baixo, para que nós fôssemos elevados ao mais alto; sofreu a tentação, para que nós conseguíssemos vencê-la; deixou-se desprezar, para nos dar a glória; morreu, para trazer-nos a salvação; subiu ao céu, para atrair a si aqueles que jazem na terra, depois de terem caído por causa do pecado.

Cada um, portanto, doe tudo, ofereça tudo em sacrifício Àquele que nos deu a si mesmo para a nossa redenção! O maior dom que podemos oferecer-lhe será exatamente aquele de nos doar-lhe totalmente a nós mesmos, depois de termos compreendido o significado de tal Mistério e de nos ter dado conta que tudo Ele realizou por nós!”

São Gregório Nazianzeno, Bispo e Doutor da Igreja

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO - Hino a Cristo, nossa Páscoa



“Ó Mística Exultação! Ó Espiritual Festa! Ó Páscoa Divina!
Do céu Tu desces à terra e da terra, de novo, Tu sobes ao céu!
Ó salvação de todas as coisas! Ó solenidade de todo o cosmo!
Ó alegria do universo, sua honra, festim de delícias!

Por ti, a morte foi destruída e a vida foi difundida sobre todos os seres. Foram abertas as portas do céu! Por ti foram destruídos os infernos e suas correntes foram quebradas! Os habitantes na mansão dos mortos ressuscitam e se unem aos coros celestes!

Ó Páscoa Divina!
Por ti a grande sala nupcial tornou-se cheia: todos trazem a veste nupcial! Ó Páscoa! Por ti não mais se apagam as lâmpadas das almas, mas todos recebem o fogo espiritual da graça, alimentado pelo Corpo, pelo Espírito e pelo óleo de Cristo!



A ti invocamos, ó Cristo, Deus soberano, Rei eterno. Estende as tuas mãos imensas sobre a tua Santa Igreja e sobre o teu povo santo, eternamente teu: protege-o, guarda-o, combate por ele! Submete todos os inimigos, vencendo com a tua potência invisível também os adversários invisíveis como venceste as potências que nos eram hostis!

Ergue também hoje os teus troféus sobre nós e dá-nos a graça de entoar com Moisés o hino da vitória, porque tua é a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém”

Dos cristãos da Ásia Menor do século II

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO - Nele estamos todos presentes



“Cristo, primícias da nova criação, depois de ter vencido a morte, ressuscitou e sobe para o Pai como oferenda magnífica e esplendorosa, como as primícias do gênero humano, renovado e incorruptível. Podemos considerá-lo o símbolo do feixe das primícias da colheita que o Senhor Deus exigiu a Israel que oferecesse no Templo (Lv 23,9). O que representa este sinal?

Podemos comparar o gênero humano às espigas de um campo, que nascem da terra, ficam à espera de crescer e, depois de amadurecerem, são apanhadas pela morte. Era por isso que Cristo dizia aos Seus discípulos: «Não dizeis vós que, dentro de quatro meses, chegará o tempo da ceifa? Pois bem, Eu digo-vos: erguei os olhos e vede. Os campos estão brancos para a ceifa. O ceifeiro já recebe o salário e recolhe o fruto para a vida eterna» (Jo 4,35-36). Ora, Cristo nasceu entre nós, nasceu da Virgem Santa como as espigas brotam da terra. Aliás, não hesita em dizer de si próprio que é o grão de trigo: «Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto.» Deste modo, ofereceu-se por nós ao Pai, à maneira de um feixe e como primícias da terra.



Porque a espiga de trigo, como aliás nós próprios, não pode ser considerada isoladamente. Vêmo-la num feixe, constituído por numerosas espigas de uma mesma braçada. Cristo Jesus é único, mas aparece-nos como um feixe, e constitui efetivamente uma espécie de braçada, no sentido em que contém em si todos os crentes, em união espiritual, evidentemente. Se assim não fosse, como poderia São Paulo escrever: «Com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar lá nos céus» (Ef 2,6)? Com efeito, uma vez que se fez um de nós, nós formamos com Ele um mesmo corpo (Ef 3, 6). Aliás, é Ele quem dirige estas palavras a Seu Pai: «Que todos sejam um como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti» (Jo 17,21). O Senhor constitui, pois, as primícias de toda humanidade, que está destinada a ser armazenada nos celeiros do céu”.

São Cirilo de Alexandria, Bispo e Doutor da Igreja
Do Comentário sobre o Livro dos Números

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO - A paz que é fruto do Espírito do Ressuscitado



“O coração de cada cristão deve representar a Igreja católica, dado que o próprio Espírito faz de toda a Igreja, e de cada um dos seus membros, Templo de Deus (1Cor 3,16).

Assim como opera a unidade na Igreja que, se entregue a si própria, se dividiria em numerosas parcelas, assim também torna una a alma, apesar dos seus diversos gostos e das suas faculdades, das suas tendências contraditórias.

Assim como dá a paz à multiplicidade das nações que estão, por natureza, em discórdia umas com as outras, assim também submete a alma a uma gestão ordenada, estabelecendo a razão e a consciência como soberanas sobre os aspectos inferiores da nossa natureza.



E tenhamos a certeza de que estas duas operações do nosso divino Consolador dependem uma da outra. Enquanto os cristãos não procurarem a unidade e a paz interiores no seu próprio coração, a Igreja não viverá em paz e unidade no seio deste mundo que a rodeia.

Pela Ressurreição nos é doada a santa Paz do Ressuscitado, caminho de unidade e amor. É algo em que faremos bem em meditar na hora presente, porque nos equilibrará as esperanças e nos dissipará as ilusões; não podemos esperar ter paz em nós se estivermos em guerra fora de nós. Meditemos na paz que é fruto do Espírito do Ressuscitado”.

Dos sermões do Cardeal John Henry Newman

sexta-feira, 10 de abril de 2009

TRÍDUO PASCAL – SEXTA-FEIRA SANTA E SÁBADO SANTO


Tríduo Pascal - Sábado Santo - A Angústia de uma Ausência -
Oração do Sábado Santo



”No breviário romano, a liturgia do sagrado Tríduo Pascal é estruturada com um cuidado particular; a Igreja, na sua oração, quer, por assim dizer, transferir-nos para a realidade da paixão do Senhor e, indo além das palavras, para o centro espiritual do que aconteceu. Se quiséssemos delinear brevemente a oração litúrgica do Sábado Santo, seria preciso falar sobretudo do efeito de paz profunda que dela emana. Cristo penetrou no ocultamento (Verborgenheit), mas ao mesmo tempo, justamente no coração da escuridão impenetrável, ele penetrou na segurança (Geborgenheit), ou melhor, ele se tornou a segurança última. Agora se tornou verdadeira a palavra ousada do salmista: mesmo que eu quisesse me esconder no inferno, tu lá estarias também. E quanto mais percorremos essa liturgia, mais percebemos brilhar nela, como uma aurora da manhã, as primeiras luzes da Páscoa. Se a Sexta-feira Santa põe diante dos nossos olhos a figura desfigurada do transpassado, a liturgia do Sábado Santo se refere muito mais à imagem da cruz que era cara à Igreja antiga: a cruz cercada por raios luminosos, sinal, a um só tempo, da morte e da ressurreição.


O Sábado Santo nos remete, assim, a um aspecto da piedade cristã que talvez tenha-se perdido ao longo do tempo. Quando, na oração, olhamos para a cruz, vemos muitas vezes nela apenas um sinal da paixão histórica do Senhor no Gólgota. A origem da devoção à cruz, porém, é diferente: os cristãos rezavam voltados para o Oriente para exprimir sua esperança de que Cristo, o sol verdadeiro, surgiria na história, para expressar, portanto, sua fé no retorno do Senhor. A cruz está, num primeiro momento, estreitamente ligada a essa orientação da oração; ela é representada, por assim dizer, como uma insígnia que o rei hasteará em sua vinda; na imagem da cruz, a ponta avançada do cortejo já chegou até o meio daqueles que rezam. Para o cristão antigo, a cruz é portanto sobretudo sinal da esperança. Ela não implica tanto uma referência ao Senhor passado, mas ao Senhor que está para vir. Certamente, era impossível esquivar-se da necessidade intrínseca de que, com o passar do tempo, o olhar se dirigisse também para o evento que havia ocorrido: contra qualquer fuga para o espiritual, contra qualquer deturpação da encarnação de Deus, era preciso que se defendesse a prodigalidade inimaginável do amor de Deus, que, por amor à mísera criatura humana, tornou-se ele mesmo um homem, e que homem! Era preciso defender a santa estultice do amor de Deus, que não escolheu pronunciar uma palavra de força, mas percorrer o caminho da impotência, para pôr o nosso sonho de poder na berlinda e vencê-lo a partir de dentro.

Mas, dessa forma, acaso não esquecemos um pouco demais da conexão entre cruz e esperança, da unidade entre o Oriente e a direção da cruz, entre passado e futuro que existe no cristianismo? O espírito da esperança que emana das orações do Sábado Santo deveria penetrar novamente todo o nosso ser cristãos. O cristianismo não é apenas uma religião do passado, mas, em não menor medida, também do futuro; sua fé é também ao mesmo tempo esperança, já que Cristo não é apenas o morto e o ressuscitado, mas também aquele que está por vir.


Ó Senhor, ilumina as nossas almas com este mistério da esperança, para que reconheçamos a luz que irradiou da tua cruz; concede-nos que como cristãos caminhemos voltados para o futuro, ao encontro do dia da tua vinda. Amém.

ORAÇÃO

Senhor Jesus Cristo, na escuridão da morte fizeste luz; no abismo da solidão mais profunda habita agora para sempre a proteção poderosa de Teu amor; em meio ao Teu ocultamento, podemos já cantar o aleluia dos salvos. Concede-nos a humilde simplicidade da fé, que não se deixa desviar quando Tu nos chamas nas horas da escuridão, do abandono, quando tudo parece problemático; concede-nos, neste tempo no qual se combate uma luta mortal ao teu redor, luz suficiente para não te perder; luz suficiente para que possamos dá-la a todos aqueles que precisam ainda mais dela. Faz brilhar o mistério da Tua alegria pascal, como aurora da manhã, nos nossos dias; concede-nos que possamos realmente ser homens pascais em meio ao Sábado Santo da história. Concede-nos que por meio dos dias luminosos e obscuros deste tempo possamos sempre com espírito jubiloso nos encontrar em caminho, rumo à Tua glória futura. Amém”.

Cardeal Joseph Ratzinger
“A Angústia de uma Ausência: Três Meditações Sobre o Sábado Santo”

Tríduo Pascal - Sábado Santo - O amor manifestado na cruz



“Aquele que por nós tornou-se semelhante a nós, dizia a Deus, seu Pai: ‘Não a minha, mas a tua vontade’ (Lc 22,42), querendo Ele, que era Deus por natureza, realizar como homem a vontade do Pai.

Se Ele se entregou livremente à Paixão e à morte, como se fosse culpado, fazendo-se responsável por nós, os que verdadeiramente merecíamos sofrer até a morte, é claro que Ele no amou mais que a si mesmo! É óbvio que escolheu, enquanto mais que bom, os ultrajes no momento requerido pela economia da nossa salvação; preferiu-os às honras devidas à sua própria glória, segundo a sua natureza divina.

A pérfida serpente destilou o seu veneno mediante a desobediência dos primeiros criados, nossos primeiros pais, e eles morreram por causa do pecado. Então, o nosso Senhor e Deus, por seu amor para conosco, foi elevado sobre a preciosa cruz. Tendo o lado traspassado, dá-nos a vida eterna, através da nuvem do Espírito Santo.

Quem conhece o mistério da cruz e do sepulcro, conhece também as razões essenciais de todas as coisas criadas”.

Dos Escritos de São Máximo, o Confessor,
Abade do século VII



“Atenção para a afirmação profundíssima: quem conhece o mistério da cruz do Senhor, isto é, quem compreendeu que a cruz é o modo como Deus age no mundo, é o próprio critério de Deus, passa a ter uma compreensão profunda de todas as coisas, pois passa a compreender tudo com a lógica de Deus, que subverte toda lógica humana”.

D.Henrique Soares da Costa
Bispo Titular de Acufida e Auxiliar de Aracaju

Tríduo Pascal - Sábado Santo - Eia Mater, Fons Amoris: Stabat Mater Dolorosa



A Virgem das Dores é o Tabernáculo dos Sagrados Mistérios, a Porta do Coração chagado de Cristo, a Mestra do silêncio, a Mãe da nossa alegria. No Sábado Santo, quando a Igreja permanece unida à Virgem na espera da Ressurreição, os filhos devem estar imersos no silêncio da Mãe, devem estar a seu lado com o amoroso propósito de consolar Mãe tão terna e excelsa.

“Stabat Mater” - Caminho de união à Virgem das Dores na Paixão

O belíssimo “Stabat Mater”, do latim “Estava a Mãe”, é um hino, mais precisamente uma seqüência, católica do século XIII atribuído a Jacopone de Todi, apesar da questão ser controversa. Tal oração, que tem início com as palavras “Stabat Mater dolorosa” - “Estava a Mãe dolorosa” - medita sobre os sofrimentos de Maria, Mãe de Jesus, durante a Crucifixão e a Paixão de Cristo. A oração é recitada de maneira facultativa durante a Missa em memória de Nossa Senhora das Dores (15 de setembro) e as suas partes formam os hinos latinos da própria festa. Antes da Reforma litúrgica, era utilizada no ofício da Sexta-feira da semana da Paixão (Nossa Senhora das setes dores - sexta-feira precedente ao Domingo de Ramos). É um Hino muito popular, sobretudo, porque acompanha o rito da Via-Sacra, uma estrofe para cada estação, e a procissão da Sexta-feira Santa, sendo um canto muito amado pelos fiéis, assim como por inteiras gerações de músicos. O Stabat Mater, é um forte remédio para todos que, com uma disposição mais plena de fé, se aproximam da Paixão de Cristo a fim de consolar a Mãe cheia de dores em sua solidão, a Mãe, Fonte de amor.


"Estava a Mãe dolorosa
Junto da Cruz, lacrimosa
Vendo o Filho que pendia.

A sua alma agoniada
Se partia atravessada
No gládio da profecia.

Oh! Quão triste e aflita
Estava a Virgem bendita,
A Mãe do Filho Unigênito.

Quanta angústia não sentia
Mãe piedosa, quando via
As penas do Filho seu.

Quem não chora, vendo isto,
Contemplando a Mãe do Cristo
Num suplício tão enorme?

Quem haverá que resista,
Se a Mãe assim contrista,
Padecendo com seu Filho?

Por culpa de sua gente,
Viu a Jesus inocente
Aos flagelos submisso.

Viu seu Filho muito amado
Que morria abandonado,
Entregando o seu espírito.

Faze, ó Mãe, fonte de amor,
Que eu sinta a força da dor,
Para contigo chorar.

Faze arder meu coração,
Do Cristo Deus na paixão,
Para que o possa agradar.



Ó Santa Mãe, dá-me isto:
Trazer as chagas do Cristo
Gravadas no coração.

Do teu Filho, que por mim
Se entrega a uma morte assim,
Divide as penas comigo.

Oh! Dá-me, enquanto viver,
Com o Cristo compadecer,
Chorando sempre contigo.

Junto da Cruz quero estar,
Para assim me associar
Ao martírio do teu pranto.

Virgem das virgens, preclara,
Jamais me sejas avara,
Dá-me contigo chorar.

Traga em mim do Cristo a morte,
Da Paixão seja eu consorte,
Suas chagas celebrando.

Por elas seja eu rasgado,
Pela Cruz inebriado,
No sangue do Filho nutrido.

No Juízo, ó Virgem, consegue
Às chamas não ser entregue
Quem por ti é defendido.

Quando do mundo eu partir,
Dá-me, ó Cristo, conseguir,
Por tua Mãe, a vitória.

Quando o meu corpo morrer,
Possa a alma merecer
Do Reino celeste a glória.

Amém".

Tríduo Pascal - Sábado Santo - Eu creio! Mas ajuda a minha pouca fé!


«Eu creio! Mas ajuda a minha pouca fé!» cf. Mc 9, 14-29

“Expulsa a dúvida da tua alma, nunca hesites em dirigir a Deus a tua oração, dizendo: «Como posso eu rezar, como posso ser escutado, depois de ter ofendido a Deus tantas vezes?» Não raciocines dessa maneira; volta-te de todo o coração para o Senhor, e reza-lhe com total confiança. Conhecerás então a extensão da sua misericórdia; verás que, longe de te abandonar, Ele cumulará os desejos do teu coração. Porque Deus não é como os homens, que nunca se esquecem do mal; n’Ele não há ressentimentos, mas uma terna compaixão para com as suas criaturas. Assim, pois, purifica o teu coração de todas as vaidades do mundo, do mal e do pecado, e reza ao Senhor. Tudo obterás, se rezares com total confiança.

Se, porém, a dúvida tomar o teu coração, as tuas súplicas não serão ouvidas. Aqueles que duvidam de Deus são almas dúplices; nada obtêm daquilo que pedem. Quem duvida, a menos que se converta, dificilmente será ouvido e salvo. Assim, pois, purifica a tua alma da dúvida, reveste-te da fé, porque a fé é poderosa, e crê firmemente que Deus escutará todas as tuas súplicas. E, se Ele tardar um pouco a ouvir a tua oração, não te deixes arrastar pela dúvida por não teres obtido imediatamente aquilo que pedes; esse atraso destina-se a fazer-te crescer na fé. Não cesses, pois, de pedir aquilo que desejas. Não te permitas duvidar, pois a dúvida é perniciosa e insensata, roubando a fé a muitos, incluindo os mais firmes. A fé é forte e poderosa; tudo promete e tudo obtém; a dúvida, que é falta de confiança, tudo mina”.

Hermas,
"O Pastor"

Tríduo Pascal - Sábado Santo - Um Deus tão grande, que sofre por amor!



“O Filho de Deus desceu à terra por compaixão pelo gênero humano. Sim, padeceu os nossos sofrimentos ainda antes de ter sofrido na cruz, antes mesmo de ter tomado a nossa carne. Se não tivesse sofrido, não teria vindo dividir conosco a vida humana. Primeiro Ele padeceu, depois desceu.

Mas, que paixão é esta que Ele sofreu por nós? É a paixão do amor. E o próprio Pai, o Deus do universo, lento para a ira e grande no amor, será que não sofre, também Ele, de algum modo? Ou será que tu ignoras que quando se ocupa das coisas humanas, Ele sofre uma paixão humana? Ele sofre uma paixão de amor!

Com efeito, no deserto, o Senhor teu Deus te levou, como um homem leva o próprio filho. Como o Filho de Deus levou os nossos sofrimentos, assim Deus nos leva no nosso caminho.

Nem mesmo o Pai é impassível. Quando lhe suplicamos, Ele tem piedade e se compadece, experimenta algo da paixão de amor, experimenta ‘ternuras’ que a soberana majestade pareceria não lhe permitir”.

Orígenes, Presbítero
Das Homilias sobre Ezequiel

Tríduo Pascal - Sábado Santo – O amor de Cristo foi mais poderoso na morte


«Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito» (Jo 3,16).

“Este Filho único «foi oferecido», não porque os seus inimigos tenham prevalecido, mas porque assim «aprouve ao Senhor» (Is 53, 10-11). «Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» (Jo 13,1). O fim, é a morte aceite por aqueles que Ele ama; eis o fim de toda a perfeição, o fim do amor perfeito, porque «ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15,13).

Este amor de Cristo foi mais poderoso na morte de Cristo do que o ódio dos seus inimigos; o ódio apenas pôde fazer o que o amor lhe permitia. Judas, ou os inimigos de Cristo, entregaram-no à morte, devido a um terrível ódio. O Pai entregou o seu Filho, e o Filho entregou-se a si mesmo por amor (Rm 8,32; Ga 2,20). O amor não é porém culpado de traição; é inocente, mesmo quando Cristo morre por amor. Porque só o amor pode impunemente fazer o que lhe apraz. Só o amor pode forçar a Deus e, como Ele, guiar-nos. Foi o amor que o fez descer dos céus e o pôs na cruz, que fez jorrar o sangue de Cristo pela remissão dos pecados, num ato tão inocente quanto salutar. Qualquer ação de graças pela salvação do mundo é devida ao amor, portanto. E o amor incita-nos, a amar a Cristo”.

Balduíno de Ford, Abade Cisterciense
O Sacramento do altar, II, 1

Tríduo Pascal - Sexta-feira Santa - Eis o teu Rei, ó cristão!



“Eis o teu Rei (Zc 9,9), acerca do qual Jeremias nos fala nos seguintes termos: Ninguém há semelhante a Vós, Senhor! Vós sois grande! Grande e poderoso é o Vosso nome. Quem Vos não temerá, Rei dos povos?” (Jr 10,6-7).

“Deste Rei diz-nos o Apocalipse: ‘Sobre o seu manto e sobre a sua coxa, um nome está escrito: Rei dos reis e Senhor dos senhores’ (Ap 19,16). O seu manto são as faixas; a sua coxa é a carne. Em Nazaré, onde tomou carne, foi coroado como que com um diadema; em Belém, foi envolvido em faixas como que de púrpura real. Tais foram as primeiras insígnias da sua realeza. E foi contra estas insígnias que se encarniçaram os seus inimigos, para assinalar a vontade que tinham de lhe retirar a realeza; no decurso da Paixão, despojaram-no das suas vestes, a sua carne foi trespassada com pregos. Ou melhor, foi nessa altura que lhe foi dado o complemento das suas insígnias reais: já tinha a coroa e a púrpura, recebeu o cetro quando, ‘carregando às costas a cruz, saiu para o lugar chamado Crânio’ (Jo 19,17). Então, nas palavras de Isaías, teve ‘a soberania sobre os seus ombros’ (9,5); e diz a Carta aos Hebreus: ‘Vemos, porém, coroado de honra e glória aquele Jesus que por um pouco tempo foi feito inferior aos anjos, em virtude de ter padecido a morte’ (Hb 2,9).



Eis, pois, o teu rei, que vem a ti, para te dar a felicidade. Vem na mansidão, para se fazer amar, e não no poder, para se fazer temer. Vem sentado num burrinho. As virtudes próprias dos reis são a justiça e a bondade. Assim, o teu Rei é justo: ‘Retribuirá a cada um conforme o seu procedimento’ (Mt 16,27). É manso; é ‘o teu Redentor’ (Is 54,5). E também é pobre; como diz o Apóstolo Paulo, ‘despojou-se a si mesmo, tomando a condição de servo’ (Fl 2,7).

No paraíso terrestre, Adão recusou-se a servir o Senhor; então, o Senhor tomou a forma de escravo, fez-se servo do escravo, a fim de que o escravo já não corasse por servir o Senhor. Fez-se igual aos homens; ‘tornando-se semelhante aos homens’ (Fl 2,7). É pobre, Ele que ‘não tem onde reclinar a cabeça’ (Mt 8,20), até ao momento em que, ‘inclinando a cabeça’ na cruz, ‘entregou o espírito’ (Jo, 19,30)”.

Dos Sermões de Santo Antônio de Pádua, Doutor da Igreja

Tríduo Pascal - Sexta-feira Santa - Jesus Cristo se entregou por inteiro às dores e à morte



“Tudo é perfeito no sacrifício de Jesus: o amor que o inspira e a liberdade com que o executa. Perfeito também no dom oferecido: Jesus Cristo se oferece a si mesmo.

Jesus Cristo se oferece a si mesmo e de maneira total: alma e corpo ficam esgotados, quebrantados, de tanta dor. Não existe dor desconhecida por Nosso Senhor. Ao ler o Evangelho com atenção, vê-se que os sofrimentos de Jesus Cristo de tal modo foram dispostos que alcançaram todos os membros de seu sagrado corpo, e que todas as fibras de seu coração ficaram esgarçadas na ingratidão das turbas, no desamparo dos seus e nas dores de sua Santíssima Mãe, e que sua alma bendita sofreu tantas afrontas e humilhações quantas podem pesar sobre um homem. Cumpriu-se literalmente em Jesus Cristo aquele vaticínio da profecia de Isaías: 'Como pasmaram muitos à vista de ti; não tinha aparência do que era...ele não tinha beleza, nem formosura...por isso não fizemos caso dele...nós o reputamos como um leproso'.

Após sofrer a indizível agonia do Horto das Oliveiras começa para Nosso Senhor a série de humilhações e padecimentos que mal podemos descrever. Denunciado no beijo de um dos discípulos, preso pela soldadesca como um facínora, levam-no à casa do sumo sacerdote. Ali, entre as muitas acusações falsas proferidas contra Ele, Jesus 'calava-se'. Só abre a boca para proclamar que é o Filho de Deus: 'Vós o dizeis, Eu o sou'. Esta é a mais solende das confissões sobre a divindade de Jesus Cristo: Jesus, Rei dos mártires, morre por confessar sua divindade, e todos os mártires darão a vida pela mesma causa.

Pedro, cabeça dos apóstolos, seguira ao longe seu Divino Mestre; prometera-lhe não o abandonar jamais. Pobre Pedro! Negou Jesus três vezes. Sem dúvidas, esta foi uma das maiores provações por que passou nosso Divino Salvador naquela espantosa noite.


Os soldados que vigiam Jesus o injuriam e o maltratam, e não resistindo àquele olhar tão doce, vendam-lhe os olhos por escárnio, dão-lhe insolentes bofetadas e ainda se atrevem a sujar de modo vil com sua imunda saliva o rosto adorável, espelho em que se contemplam a si os anjos, com deleite indizível.

Depois disso, narra-nos o Evangelho como à alvorada reconduziram Jesus ante o sumo sacerdote, arrastando-o de tribunal em tribunal. E ainda que fosse a Sabedoria Eterna, Herodes o trata como louco, Pilatos dá ordens de açoitá-lo, os algozes golpeiam sem piedade a inocente vítima, cujo corpo se converte rapidamente em chaga viva. Apesar de tudo, a desumana flagelação não bastava àqueles homens, que de humano nada tinham: cravam na cabeça de Jesus uma coroa de espinhos e o enchem de insultos e zombarias.


O covarde governador romano percebe que saciará o ódio dos judeus, caso vissem Cristo em tão lastimoso estado; apresenta-o às turbas e lhes diz: 'Eis aqui o homem!', 'Ecce Homo!'. Contemplemos neste momento o Divino Mestre em meio a um oceano de afrontas e dores, e pensemos também que o Pai no-lo apresenta e nos diz: 'Vede o meu Filho, o resplendor de minha glória, a quem feri pelo crime de meu povo...'.

Jesus ouve a gritaria do populacho furioso, que o troca por um bandido, e como paga de tantos benefícios feitos, exigem sua morte: 'Crucifica-o, crucifica-o!'. Pronunciada a sentença de morte, Jesus Cristo, tomando a pesada cruz sobre os ombros, dirige-se ao Calvário.

Quantas dores ainda o aguardam: a presença de sua Mãe, a quem professa tão perfeito amor e cuja imensa aflição ele conhece melhor que ninguém, o despojo dos vestidos, a perfuração dos pés e das mãos, e a sede abrasadora! Mais ainda, as burlas e sarcasmos de ódio de seus mortais inimigos: 'Ó tu, que destróis o templo de Deus, e reedificas em três dias, salva-te a ti mesmo e creremos em ti...Ele salvou outros, a si mesmo não se pode salvar'. Finalmente, o abandono de seu Pai, a cuja santa vontade sempre atendera: 'Pai! Porque me abandonaste?'.


Verdadeiramente bebeu o calix até o sarro, e cumpriu, sem faltar vírgula nem detalhe algum, tudo quanto Dele estava vaticinado. Por isso, realizadas as profecias, esgotando até o fundo o calix de todas as dores e humilhações, pôde exalar seu 'Tudo está consumado'. Sim, em verdade, 'tudo se consumou', só falta pôr sua alma nas mãos do Pai: 'E, inclinando a cabeça, rendeu o espírito'.

A Igreja, ao ler-nos nos dias da Semana Santa o relato da Paixão, interrompe-o neste passo para adorar a Deus em silêncio. Seguindo seu exemplo, prosternemo-nos reverentes e adoremos ao Crucificado que acaba de expirar; verdadeiramente é Filho de Deus: verdadeiro Deus de Deus verdadeiro. Sobretudo, na Sexta-feira Santa, tomemos parte na adoração solene da Cruz, para reparar, conforme quer a Igreja, as inúmeras ofensas que os inimigos infligiram à Divina Vítima. Enquanto se realiza a comovente cerimônia, põe a Igreja na boca do Salvador inocente censuras em tom de lamento triste; elas se aplicam diretamente ao povo deicida; nós podemos escutá-los em um sentido inteiramente espiritual que despertarão em nossas almas vivos sentimentos de compunção: 'Povo meu, que te fiz eu? Em que te contristei? Responde-me! Que mais podia eu fazer que o não fizesse? Fui eu quem te plantou como a mais formosa das videiras; e tu só me causaste amargor, minha sede mitigaste com vinagre, e com uma lança trespassaste o lado do teu Salvador... Eu, por amor de ti, flagelei o Egito com os seus primogênitos; e tu entregaste-me à morte depois de me flagelares! Eu tirei-te do Egito, submergi a Faraó no Mar Vermelho; e tu entregaste-me aos príncipes dos sacerdotes! Eu a tua frente abri o mar; e tu abriste-me com a lança o coração! Eu fui adiante de ti numa coluna de nuvem; e tu conduziste-me ao pretório de Pilatos! Eu alimentei-te com o maná no deserto: e tu feriste-me a cabeça com bofetadas e açoites!... Eu dei-te o cetro real; e tu colocaste-me na cabeça uma coroa de espinhos! Eu elevei-te em grandeza e poder; e tu suspendeste-me no patíbulo da cruz!'.


Estas queixas de um Deus padecendo pelos homens devem mover nossos corações; unamo-nos a tal obediência cheia de amor que o levou até o sacrifício da cruz: 'Feito obediente até a morte, e morte de cruz'. Digamos-lhe: 'Ó Divino Redentor, que tanto sofreste por nosso amor! De hoje em diante vos prometemos fazer o que pudermos para não mais pecar; fazei, por vossa graça, que, morrendo, ó Mestre adorado, a tudo que é pecado e apego ao pecado e à criatura, vivamos unicamente para Vós'.

Porque, como diz São Paulo: o amor de Cristo nos constrange; consideramos nós que, se um morreu por todos, todos, pois, morreram; e que Cristo morreu por todos a fim de que os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles”.

Beato Columba Marmión
“Jesus Cristo em seus mistérios”

Tríduo Pascal - Sexta-feira Santa - O Pão que Eu darei é a minha carne



“E o pão que eu darei é a minha carne que entrego pela vida do mundo”.

“Morro por todos para vivificar a todos por mim mesmo; fiz da minha carne resgate da carne de todos. A morte morrerá na minha morte, reerguendo-se comigo a natureza do homem que estava prostrada. Para isso me conformei a vós, fiz-me homem, filho de Abraão, para em tudo me assemelhar aos irmãos (cf. Rm 8,29).

Compreendendo o que Cristo nos dissera, São Paulo nos diz por sua vez: ‘Assim como as crianças participam do sangue e da carne, também Ele, a fim de quebrar com a sua morte o poder daquele que tem o império da morte, isto é, o diabo’ (Hb 2,14). Não haveria outro meio de derrubar aquele que tem o império da morte, e a própria morte, se o Cristo não se entregasse por nós; um para resgate de muitos, e um que estava acima de todos. Por causa disto no Salmo Ele se oferece por nós a Deus Pai, qual hóstia imaculada, dizendo: ‘Não quiseste sacrifício nem oblação, mas me formaste um corpo. Holocaustos e vítimas expiatórias não te agradaram; disse então: eis que venho. No cabeçalho do livro está escrito de mim, decidi cumprir a tua vontade, ó meu Deus’ (Sl 39, 7-9). Como o sangue de touro e de bodes ou as cinzas de novilhas não bastassem para expiar os pecados, nem a imolação de animais pudesse arruinar o poder da morte, o próprio Cristo se propõe sofrer os castigos por todos. ‘Em suas chagas fomos salvos’ (Is 53,5), diz o profeta, ‘Ele levou nossos pecados sobre seu próprio corpo até a cruz’ (1Pd 2,24). Foi crucificado por todos e por causa de todos, para que, morrendo um sobre a cruz, todos vivessem nele. A morte não podia dominar, nem a corrupção prevalecer, sobre aquele que era por natureza a Vida.


Vejamos nas palavras do próprio Cristo como Ele ofereceu sua carne pela vida do mundo: ‘Pai santo, guarda-os” (Jo 17,11); e ainda: ‘Eu me santifico por eles’ (Jo 17,19). Ele diz que se santifica, não mediante uma purificação da alma ou do espírito, tal como nos devemos santificar; nem por uma simples participação no Espírito Santo, pois nele o Espírito estava por natureza, Ele era, é, e será sempre, Santo. Diz porém que se ‘santifica’ significando que se consagra e se oferece como hóstia santa em santo odor de suavidade. Santificava-se ou, conforme a lei, era chamado santo tudo que se oferecia sobre o altar. Por conseguinte, o Cristo deu seu próprio corpo pela vida de todos, e fez, por Ele, habitar de novo a vida em nós. Desde que o Verbo vivificante de Deus habitou a carne, transformou-a em seu próprio bem, isto é, em vida, e, inteiramente unido a ela em inefável união, tornou-a vivificante assim como Ele o é por natureza. O corpo de Cristo vivifica os que dele participam, pois expele a morte quando está nos mortais, já que em si tem a causa extintora de toda corrupção”.

São Cirilo de Alexandria
Comentário a Jo 6,52