quinta-feira, 9 de abril de 2009

Tríduo Pascal - Quinta-feira Santa -A Agonia do Getsemani



“Na agonia do Getsemani, Jesus Cristo, que não exagera, declara aos Apóstolos que sua alma “está triste até a morte”. Oh, abismo insondável! Um Deus, Poder e Glória infinitos,“começou a sentir temor, angústias e tristeza”. O Verbo Encarnado conhecia todos os sofrimentos que sobre Ele iam descarregar-se naquelas longas horas da Paixão; esta visão produzia em sua natureza sensível o efeito que uma simples criatura poderia sentir ante um remédio intragável – viam sua alma e divindade, de forma claríssima, todos os pecados dos homens, os ultrajes à santidade e ao amor infinito de Deus.


Carregara todas as iniqüidades, como que revestira-se delas e sentira sobre si o peso da cólera da justiça divina: “Sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e a abjeção da plebe”. De antemão sabia que o sangue derramar-se-ia em vão para muitos homens, e este pensamento levava ao cúmulo a amargura da sua alma santíssima. Mas, como vimos, Jesus Cristo tudo aceitou. Agora se levanta, sai do Horto, e vai ao encontro de seus inimigos e de sua paixão”.

Beato Columba Marmion
“Jesus Cristo em seus mistérios”

Tríduo Pascal - Quinta-feira Santa - Na Agonia do Horto, Jesus aceita consolo do anjo



A Agonia do horto: aceitando o consolo do anjo, Jesus aceitava antecipadamente nossos consolos

“Por meio da tríplice oração de sua agonia, Jesus quis manifestar, com sua tristeza de morte diante do pecado do mundo, na véspera da quinta-feira, antes do começo de sua paixão externa, a disposição santíssima desta humanidade, sua oferenda como vítima, verbalizada já na ceia, pelos pecadores. Embora experimentasse um medo natural pelos sofrimentos, os suplícios e a morte sangrenta, se oferecia em um ato de livre e voluntária obediência à vontade salvífica do Pai para consumar a obra da Redenção. Foi nesse momento que – segundo o Evangelho de São Lucas – o Anjo Consolador apareceu a Jesus para fortalecê-lo (Lc 22,43). Propondo-lhe considerações que podiam diminuir sua tristeza e fortalecer as potências inferiores de sua alma, o Anjo não ensinou a Cristo como um mestre que ilumina a um discípulo. Cristo não ignorava os pensamentos propostos pelo Anjo, mas sua razão superior os tomava em consideração sem permitir a suas potências inferiores receber consolação alguma; o Anjo lhe apareceu de maneira sensível, humana, e lhe falou exteriormente.


Cristo quis receber este consolo como um dom do Pai, e o recebeu com gratidão, respeito e humildade. Este consolo não tinha por única finalidade ou por efeito dispensá-lo de sofrer pela salvação do mundo, mas, ao contrário, de ajudá-lo. Isto é muito bem mostrado no Evangelho de S. Lucas, segundo o qual a aparição consoladora é seguida pela «agonia», uma oração mais intensa, e pelo suor de sangue. Mais profundamente, este consolo não significava que Cristo houvesse tido necessidade do auxílio angélico – o Criador dos Anjos podia fazer descer do céu doze legiões de Anjos (Mt 26,53), mas que lhe pareceu necessário ser fortalecido com vistas à nossa consolação, da mesma maneira que esteve triste por nossa causa - propter nos tristis, propter nos confortatus – disse o Venerável Beda, seguido por São Boaventura.

Ao aceitar este consolo por nós, e em nosso nome, Jesus mostrava a realidade de sua humanidade e da debilidade humana que lhe reconhecia a Epístola aos Hebreus. Na aceitação, por nós e a nosso favor, do consolo angélico, Jesus antecipadamente queria significar que aceitaria nossos consolos para consolar-nos. Não só nos fazia merecedores de poder consolá-lo, mas também, por generosidade a nosso respeito, faz de nós seus consoladores para consolar-nos em nossos momentos de desolação.

Ao rezar por si mesmo, Jesus agonizante manifestava a vontade salvífica do Pai a respeito de nós. «Não a minha vontade, minha vontade espontânea de morrer, mas a tua vontade sobre mim, vontade pela salvação do mundo». Podemos dizer, pois, com São Tomás de Aquino, que sua oração por si mesmo era também oração pelos outros; e o santo acrescenta: «todo homem que pede a Deus um bem para empregá-lo em benefício dos outros não ora por si mesmo, mas também pelos demais». A vontade de Cristo de ser consolado é, portanto, vontade consoladora, longe de ser sinal de egoísmo. A fim de consolar-nos Nele, quer ser consolado por nós. Para fortalecer-nos quis ser fortalecido por um Anjo”.


Bertrand de Margerie, S.J.
Histoire doctrinal du culte au Coeur de Jesús

Tríduo Pascal - Quinta-feira Santa - Oração: Água viva para lavar Teus pés


A humildade de um Bispo

“Possas tu reservar-me, a mim também, ó Jesus, o cuidado de lavar teus pés, que sujaste enquanto caminhavas em mim! Possas tu apresentar-me, para que eu as lave, as manchas de teus pés, que prendi a teus passos por minha conduta! Mas onde encontrarei a água viva com a qual poderia lavar teus pés? Não tenho água, mas tenho lágrimas. Possa eu, lavando teus pés com elas, purificar-me a mim mesmo! Como fazer para que tu possas dizer de mim: 'Muitos pecados lhe são perdoados, porque ele muito amou'. Confesso que minha dívida é mais considerável, mas que muita coisa me foi perdoada, a mim que fui arrancado ao barulho das querelas do fórum e às terríveis responsabilidades da administração pública para ser chamado ao sacerdócio. Temo, pois, ser considerado um ingrato se amo menos, quando muito me foi perdoado.

Digna-te, pois, vir, Senhor Jesus, a este túmulo que sou! Lava-me com tuas próprias lágrimas, porque em meus olhos demasiado secos não encontro lágrimas suficientes para poder lavar minhas faltas. Se chorar por mim, estarei salvo. Se sou digno de tuas lágrimas, estarei livre do mau odor de todas as minhas faltas. Se eu for digno de que chores nem que seja um pouco, tu haverás de chamar-me para fora do túmulo deste corpo, dizendo: 'Vem para fora!'.

Vela, Senhor, sobre teu presente; tem sobre tua custódia o dom que me fizeste apesar de minha resistência! Eu sabia que não era digno de ser chamado ao episcopado, porque eu me tinha entregado totalmente a este mundo. É por tua graça que sou o que sou. E sou, sem a menor dúvida, o mínimo de todos os bispos e o mais pobre em méritos. Mas uma vez que também eu empreendi algum trabalho por tua santa Igreja, encarrega-te dos frutos deste trabalho. Não permitas que se perca, agora que é ele sacerdote, aquele que chamaste ao sacerdócio quando ainda estava perdido. E acima de tudo, permite-nos saber partilhar do fundo do coração a aflição daqueles que pecam. E esta a virtude suprema, pois está escrito: 'Não te rejubilarás sobre os filhos de Judá no dia de sua ruína e não farás grandes discursos no dia de sua tribulação'. Cada vez que se trata do pecado de alguém que caiu, que eu seja o primeiro a compadecer dele! Possa eu, em vez de me derramar em invectivas com orgulho, de preferência gemer e chorar, de tal modo que ao chorar o outro, chore também a mim mesmo, dizendo: Tamar é mais justa do que eu!”.

Santo Agostinho
Sur Ia Pénitence, II, 8, 67-73

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Quarta-feira Santa - O Sacrifício de Cristo



“Se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo é o nosso Sumo Sacerdote e o seu precioso corpo é o nosso sacrifício, que Ele ofereceu no altar da cruz para a salvação de todos os homens.

O Sangue derramado por nossa redenção não era de novilhos e bodes como na antiga Lei, mas do inocentíssimo cordeiro Cristo Jesus, nosso Salvador. O templo onde nosso Sumo Sacerdote ofereceu o sacrifício não era feito por mãos humanas, mas edificado unicamente pelo poder de Deus. Porque Ele derramou seu sangue diante do mundo, que é na verdade o templo construído só pela mão de Deus.

Este templo tem duas partes: uma é a terra que agora habitamos; a outra ainda é desconhecida por nós mortais. Jesus Cristo ofereceu seu primeiro sacrifício aqui na terra quando padeceu a morte crudelíssima. Em seguida, revestido da nova veste da imortalidade, com seu próprio sangue entrou no Santo dos Santos, isto é, no céu, onde apresentou diante do trono do Pai celeste aquele sangue de valor infinito, que derramara uma vez para sempre por todos os homens cativos do pecado.

Este sacrifício é tão agradável e aceito por Deus que, logo ao vê-lo, não pode deixar de compadecer-se de nós e derramar a sua misericórdia sobre todos os que estão verdadeiramente arrependidos.


É, além disso, um sacrifício eterno. Não é oferecido apenas uma vez cada ano como acontecia entre os judeus, mas cada dia para o nosso consolo, e ainda mais, a cada hora e a cada momento, para nosso conforto e nossa alegria. Por isso o Apóstolo acrescenta: Obtendo uma eterna redenção (Hb 9,12).

Deste santo e eterno sacrifício, participam todos os que experimentaram a verdadeira contrição e arrependimento dos pecados cometidos, e tomaram a inabalável resolução de não mais voltar aos vícios antigos e de perseverar com firmeza no caminho das virtudes a que se consagraram.

É o que ensina São João com estas palavras: Meus filhinhos, escrevo isto para que não pequeis. No entanto, se alguém pecar, temos junto ao Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro (1Jo 2,1-2)”.


São João Fisher, Bispo e mártir
Dos Comentários sobre os Salmos

Quarta-feira Santa - DE PASSIONE DOMINI



"Irmãos, ficai alertas, de modo que os mistérios deste tempo não sejam estéreis em vós. Temos uma bênção copiosa; trazei vasilhas limpas. Apresentai-vos com espírito fervoroso, com os sentidos despertos, com afetos sóbrios e com uma consciência limpa para receber estas graças tão extraordinárias. Urge para vós não apenas o sentido particular de vida que tendes professado, mas a prática de toda a Igreja, da qual sois filhos. Todos os cristãos, nesta semana, atuam de forma contrária ou acima ao habitual, enquanto praticam a piedade, vestem-se com modéstia, dão sinais de humildade e permanecem muito circunspectos. Desse modo todos querem unir-se a Cristo paciente. Vivemos a Paixão do Senhor, que também hoje faz tremer a terra, quebra as rochas, abre as tumbas. Tudo o fez por nós, e daí nos vêm os frutos de salvação e a vida do espírito. Observa como Ele o fez, e O verás manso e humilde de coração. Humilharam-no, negando-lhe tudo. Acusaram-no de blasfemo e de falsos crimes, e Ele nada respondeu. O vimos totalmente desfigurado. Longe de ser o mais belo dos homens, era desprezado entre os homens, como um leproso; o último do mundo, o homem das dores, o ferido e humilhado por Deus".


São Bernardo de Claraval
Dos Sermões litúrgicos

Quarta-feira Santa - Lázaro, vem para fora!



“Lázaro, sai para fora! Deitado no túmulo, ouviste este chamamento imperioso. Haverá voz mais sonora do que a do Verbo? Então, vieste para fora, tu que estavas morto, e não apenas há quatro dias, mas há muito tempo. Ressuscitaste com Cristo, caíram-te as ataduras.

Agora, não voltes a cair na morte; não voltes a juntar-te aos que habitavam nos túmulos; não te deixes abafar pelas ataduras dos teus pecados. É que talvez não pudesses voltar a ressuscitar. Poderias acaso retirar da morte deste mundo a ressurreição de todos, no final dos tempos?

Que o chamamento do Senhor te ressoe, pois, aos ouvidos! Não te feches aos ensinamentos e aos conselhos do Senhor. Se estavas cego e mergulhado em trevas no túmulo, abre os olhos para não te afundares no sono da morte. Na luz do Senhor, contempla a luz; no Espírito de Deus, fixa o teu olhar no Filho. Se acolheres a Palavra, concentrarás na tua alma todo o poder de Cristo, que cura e ressuscita. Não receies sofrer para conservares a pureza do teu batismo e abre no coração os caminhos que te fazem ascender ao Senhor. Conserva cuidadosamente o ato de libertação que recebeste por pura graça.

Sejamos luz, como os discípulos aprenderam a sê-lo Daquele que é a grande Luz: ‘Vós sois a luz do mundo’ (Mt 5,14). Sejamos luminárias no mundo, erguendo bem alto a Palavra da vida, sendo poder de vida para os outros. Partamos em busca de Deus, em busca Daquele que é a primeira e a mais pura das luzes”.


Dos Sermões de São Gregório de Nazianzo,
Bispo e Doutor da Igreja

terça-feira, 7 de abril de 2009

Terça-feira Santa - A Semana Santa



“Na tragédia da Paixão, consuma-se a nossa própria vida e toda a história humana. A Semana Santa não pode reduzir-se a uma simples recordação, porque é a consideração do mistério de Jesus Cristo, que se prolonga em nossas almas; o cristão está obrigado a ser alter Christus, ipse Christus, outro Cristo, o próprio Cristo. Pelo Batismo, todos fomos constituídos sacerdotes da nossa própria existência, para oferecer vítimas espirituais, que sejam agradáveis a Deus por Jesus Cristo, para realizar cada uma de nossas ações em espírito de obediência à vontade de Deus, e assim perpetuarmos a missão do Deus Homem.

Por contraste, essa realidade nos leva a deter-nos nas nossas desditas, nos nossos erros pessoais. É uma consideração que não nos deve desanimar nem colocar-nos na atitude cética de quem renunciou às grandes esperanças, porque o Senhor reclama-nos tal como somos, para que participemos da sua vida, para que lutemos por ser santos.

A santidade: quantas vezes pronunciamos esta palavra como se fosse um som vazio! Para muitos, chega a ser um ideal inacessível, um lugar comum da ascética, mas não um fim concreto, uma realidade viva. Não pensavam assim os primeiros cristãos, que usavam os nomes dos santos para se chamarem entre si, com toda a naturalidade e com grande freqüência: Todos os santos vos saúdam, saudai a todos os santos em Cristo Jesus.

Situados agora perante o momento do Calvário, em que Jesus já morreu e ainda se não manifestou a glória do seu triunfo, temos uma excelente ocasião para examinarmos os nossos desejos de vida cristã, de santidade; para reagirmos com um ato de fé perante as nossas fraquezas e, confiantes no poder de Deus, fazermos o propósito de depositar amor nas coisas do nosso dia-a-dia. A experiência do pecado tem que nos conduzir à dor, a uma decisão mais amadurecida e mais profunda de ser fiéis, de nos identificarmos deveras com Cristo, de perseverar custe o que custar nessa missão sacerdotal que Ele confiou a todos os seus discípulos sem exceção, e que nos impele a ser sal e luz do mundo.


O pensamento da morte de Cristo traduz-se num convite para que nos situemos com absoluta sinceridade perante os nossos afazeres diários e tomemos a sério a fé que professamos. A Semana Santa não pode, pois, ser um parêntesis sagrado no contexto de um viver motivado exclusivamente por interesses humanos; deve ser uma ocasião de adentrar nas profundezas do Amor de Deus, para assim podermos mostrá-lo aos homens, com a palavra e com as obras.

A vida, a própria alma, é o que o Senhor nos pede. Se somos fátuos, se nos preocupamos apenas com a nossa comodidade pessoal, se encaramos a existência dos outros e inclusive do mundo por referência exclusiva a nós mesmos, não temos o direito de nos chamarmos cristãos e de nos considerarmos discípulos de Cristo. A entrega tem que se realizar com obras e com verdade, não apenas com a boca. O amor a Deus convida-nos a levar a cruz a pulso, a sentir também sobre nós o peso da humanidade inteira, e a cumprir, dentro das circunstâncias próprias do estado e do trabalho de cada um, os desígnios ao mesmo tempo claros e amorosos da vontade do Pai. Na passagem que comentamos, Jesus prossegue: E aquele que não carrega a sua cruz e me segue, também não pode ser meu discípulo (Lc 14, 27).

Temos que aceitar a vontade de Deus sem medo, precisamos formular sem vacilações o propósito de edificar toda a nossa vida de acordo com o que nossa fé nos ensina e exige. Não há dúvida de que encontraremos luta, sofrimento e dor, mas, se possuímos uma fé verdadeira, nunca nos consideraremos infelizes: mesmo com penas e até com calúnias, seremos felizes, com uma felicidade que nos impelirá a amar os outros e a fazê-los participar da nossa alegria sobrenatural”.

São José Maria Escrivá
É Cristo que passa 96, 97

Terça-feira Santa - A minha vez de servir



«Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos. Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.» Mc 10,32-45.

“O homem tinha sido criado para servir o seu criador. Haverá coisa mais justa, que servir Aquele que nos pôs no mundo, sem o qual não teríamos existência? E haverá coisa mais feliz que servi-Lo, pois que servi-Lo, é reinar? Mas o homem disse ao seu Criador: «Não servirei» (Jr 2,20). «Então servir-te-ei Eu», disse o Criador ao homem. «Senta-te, servir-te-ei, lavar-te-ei os pés».

Sim, Cristo, «servo bom e fiel» (Mt 25,21), Tu foste verdadeiramente servo, servo em fé e verdade, em paciência e constância. Sem tibieza, lançaste-Te, qual gigante que corre, na via da obediência (Sl 18,6); sem fingimento, deste-nos sobretudo, depois de tantos cansaços, a tua própria vida; maltratado, inocente, humilhaste-Te e não abriste a boca (Is 53,7). Está escrito e é verdade: «O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou e não agiu conforme os seus desejos, será castigado com muitos açoites» (Lc 12,47). Mas, pergunto-vos, que ações dignas deixou por cumprir este servo? Que omitiu Ele do que devia ter feito?

«Fez tudo bem feito», dizem aqueles que observavam a sua conduta; «fez ouvir os surdos e falar os mudos» (Mc 7,37). Pois se cumpriu todas as ações que são dignas de recompensa, como sofreu então tanta indignidade? Ofereceu as costas ao chicote, recebeu uma quantidade inimaginável de chicotadas atrozes, por todo o lado o seu sangue correu. Foi interrogado no meio de opróbrios e de tormentos, como escravo ou malfeitor que é submetido a interrogatórios para que lhe seja arrancada a confissão de um crime. Ó detestável orgulho do homem que desdenha servir, a quem tão só humilha o máximo exemplo da servidão do seu próprio Deus!


Sim, meu Senhor, pois muito sofreste Tu a servir-me; seria justo e equitativo que de agora em diante tivesses repouso, e que o teu servo, por seu turno, te servisse agora; chegou a sua vez. Venceste, Senhor, este servo rebelde; estendo as mãos para que a Ti as ligues, curvo a cabeça para receber o teu jugo. Permite que Te sirva. Recebe-me como teu servo para sempre, ainda que servo inútil se não tiver em mim a tua graça; envia-a pois do teu santo céu, para que me assista nos meus trabalhos (Sb 9,10)”.

Beato Guerric d'Igny
Abade Cisterciense

Terça-feira Santa - Servos anônimos somos: cumprimos o nosso dever apenas



“Sê sempre fiel nas pequenas coisas, pois nelas reside a nossa força. Para Deus, nada é pequeno. A seus olhos nada tem pouco valor. Para Ele, todas as coisas são infinitas. Deves pôr fidelidade nas coisas mais mínimas, não pela virtude que lhes é própria, mas por essa coisa maior que é a vontade de Deus – e que, eu própria, respeito infinitamente.

Não procures realizar ações espetaculares. Devemos renunciar deliberadamente ao desejo de contemplar o fruto do nosso labor, devemos apenas fazer o que podemos, o melhor que pudermos, e deixar o resto nas mãos de Deus. O que importa, é a dádiva que fazes de ti mesmo, o grau de amor que pões em cada ação que realizas. Não te permitas desencorajar face aos fracassos, se deste de fato o teu melhor. Recusa também a glória sempre que sejas bem sucedido.

Oferece tudo a Deus na mais profunda gratidão. Se te sentires abatido, isso é sinal de orgulho que mostra o quanto acreditas nas tuas forças. Deixa de te preocupar com o que as pessoas pensam. Sê humilde e nunca mais coisa alguma te importunará. O Senhor ligou-me aqui, ao lugar onde estou; é Ele quem me desligará de onde estou. Servos anônimos é o que somos: cumprimos o nosso dever apenas”.


Beata Teresa de Calcutá
Fundadora das Missionárias da Caridade
Não há amor maior

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Segunda-feira Santa - O Deus que pede é o Deus que dá sem medida



“Deus pede Isaac a Abraão. Que prova! A fé de Abraão, aqui, chega quase que ao absurdo! Mas, ele foi em frente e ‘estendeu a mão, empunhando a faca para sacrificar o filho’.

Pensemos um pouco: Deus tinha o direito de pedir isso a Abraão? Deus tem o direito de nos provar, de tantas vezes nos pedir coisas que não compreendemos bem? Tem o direito de pedir fé e confiança diante dos percalços da vida? Poderíamos responder dizendo simplesmente que “sim”, porque Ele é Deus; deu-nos tudo e pode pedir-nos o que desejar. Mas, não é essa a resposta que a Palavra de Deus nos indica. Ele nos pode pedir, certamente, e nós devemos dar, com certeza, porque Ele mesmo, o nosso Deus, nos deu tudo! Ele, que pede que Abraão lhe sacrifique o filho único e amado, é o mesmo Deus que, como diz São Paulo, ‘não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós!’ Eis o grande mistério: Deus, no seu amor por nós – primeiro pelo povo de Israel, descendência de Abraão, e, depois, por toda a humanidade, com a qual Ele deseja formar o novo povo, que é a Igreja – Deus, no seu amor por nós, entregou à morte o seu Filho único, o Amado, o Justo e Santo, aquele no qual Ele coloca todo o seu bem-querer. Não é assim que Ele no-lo apresenta no Monte Tabor? ‘Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!’. É este Filho que será entregue à morte. O Evangelho de São Lucas nos diz que, precisamente nesta ocasião, Jesus transfigurado falava com Moisés e Elias ‘sobre a sua partida, isto é, a sua morte, que iria se consumar em Jerusalém’ (Lc 9,31). E no Evangelho de São Marcos, o próprio Jesus, ao descer da montanha, ‘ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos’. Eis a mensagem: sobre o Monte Tabor, com o Transfigurado envolto em glória, paira a sombra da paixão, da morte do Filho amado e único, que o Deus de Abraão entregará por nós até o fim. Ao filho de Abraão, a Isaac, Deus poupou no último momento; não poupará, contudo, o seu próprio Filho!



Isso nos revela a dimensão do amor de Deus, da sua paixão pela humanidade, do seu compromisso salvífico em nosso favor! Ele pode nos pedir tudo e nós deveríamos dar-lhe tudo, porque, ainda que não compreendamos, Ele deseja somente o nosso bem, a nossa vida, a nossa salvação. Somos preciosos a seus olhos! Eis o que afirma o Apóstolo: ‘Se Deus é por nós, quem será contra nós? Deus que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria tudo juntamente com ele? Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus, que os declara justos? Quem condenará? Jesus Cristo, que morreu, mais ainda, que ressuscitou, e está à direita de Deus, intercedendo por nós?’ Eis, pois, a dimensão e a profundidade, a largura e a altura do amor de Deus por nós!

Deixemo-nos, portanto, tocar no nosso coração; convertamo-nos! Abramo-nos para o Senhor! Arrependamo-nos de nossas indiferenças, de nossa frieza, de nosso fechamento! Tenhamos vergonha de tanta incredulidade e desconfiança de Deus, simplesmente porque não entendemos seu modo de agir! Que Santo Abraão, nosso pai na fé, e a Santíssima Virgem Maria, nossa Mãe na fé, intercedam por nós para uma verdadeira conversão quaresmal. E que, realizando com generosidade e amor, as práticas quaresmais, cheguemos às alegrias da Páscoa e contemplemos nos santos mistérios da Liturgia, a face do Cristo glorificado!”.

D. Henrique Soares da Costa
Bispo Titular de Acufida e Auxiliar de Aracaju




“Como se aproximam os dias mais importantes que originaram os sacramentos da nossa salvação, devemos dedicar maior cuidado para purificar nossos corações e entregar-nos mais cuidadosamente aos exercícios das virtudes. Quanto mais sublime é a festa, tanto mais preparado deve estar aquele que vai participar dela.

Perscrute cada um sua consciência e se apresente diante de si mesmo para a censura do próprio julgamento. Veja cada um, na intimidade do seu coração, se encontra aquela paz que é dada pelo Cristo!”

Papa São Leão Magno

sábado, 4 de abril de 2009

O amor é o caminho para Deus



“Reinar no céu não é outra coisa que aderir a Deus e a todos os santos mediante o amor, com uma só vontade. Por isso, ama a Deus mais que a ti mesmo e começarás a obter tudo quanto queres possuir perfeitamente no céu. Coloca-te de acordo com Deus e com os homens – desde que esses não se separem de Deus – e já começarás a reinar com Deus e com todos os bem-aventurados.

Na medida em que agora estiveres em harmonia com a vontade divina e dos irmãos, Deus e todos os santos estarão de acordo com as tuas vontades. Queres reinar no céu? Ama a Deus e aos homens como deves e merecerás ser aquilo que desejas para ti mesmo.


Não poderás possuir perfeitamente esse amor se não esvaziares teu coração de qualquer outro amor egoísta e descentralizador de Deus. Eis por que aqueles que enchem o próprio coração do amor a Deus e ao próximo têm como única vontade aquela de Deus – ou aquela de um outro homem, desde que esta não seja contrária à vontade de Deus.

Já que esses são fiéis na oração, na recordação do céu e na fixação do próprio pensamento em tais realidades, é para eles um prazer desejar o Senhor, falar daquele a quem amam, escutar falar dele, pensar nele. Alegram-se com quem está alegre, choram com quem se encontra aflito, têm compaixão dos infelizes, repartem os bens com os pobres. Enfim, amam os outros como a si próprios. Sim, verdadeiramente, toda lei e os profetas estão contidos nos dois mandamentos do amor (Mt 22,40)”.


Das Cartas de Santo Anselmo de Canterbury,
Monge, Bispo e Doutor da Igreja


Papa convoca Ano Sacerdotal



Papa convoca «Ano Sacerdotal» para próximo 19 de junho

Proclamará o Santo Cura de Ars como Padroeiro de todos os sacerdotes do mundo

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 16 de março de 2009 (ZENIT)- O Papa convocou um Ano Sacerdotal, por ocasião do 150º aniversário da morte do Santo Cura de Ars, a quem proclamará como Padroeiro de todos os sacerdotes do mundo, segundo deu hoje a conhecer a Santa Sé em um comunicado.

O Papa fez este anúncio durante a audiência concedida aos participantes da Plenária da Congregação para o Clero, e esta o divulgou posteriormente em um comunicado, no qual detalha algumas das iniciativas postas em andamento por ocasião deste ano jubilar sacerdotal.

O tema escolhido para o Ano Sacerdotal é o de «Fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote». Está previsto que o Papa o abra com uma celebração de Vésperas, em 19 de junho, solenidade do Sagrado Coração de Jesus e Dia de Santificação Sacerdotal, «em presença da relíquia do Cura de Ars trazida pelo Bispo de Belley-Ars», Dom Guy Claude Bagnard, segundo informa a Santa Sé.


O encerramento será celebrado justamente um ano depois, com um «Encontro Mundial Sacerdotal» na Praça de São Pedro.

Durante este Ano jubilar, está prevista a publicação de um «Diretório para os Confessores e Diretores Espirituais», assim como de uma «recopilação de textos do Papa sobre os temas essenciais da vida e da missão sacerdotais na época atual».

O objetivo deste ano é, segundo expressou o próprio Papa hoje aos membros da Congregação para o Clero, «ajudar a perceber cada vez mais a importância do papel e da missão do sacerdote na Igreja e na sociedade contemporânea».

Outro tema importante no qual se quer incidir, segundo o comunicado da Congregação, é a «necessidade de potenciar a formação permanente dos sacerdotes ligando-a à dos seminaristas».


Fonte: Zenit


sexta-feira, 3 de abril de 2009

Oração de Quaresma


“Treina-me, Senhor!
Quero estar preparado, por Ti e contigo,
para que a dureza da cruz não me surpreenda,
e que longe de assustar-me,
veja nela um expoente e porta-voz de tua glória.
Quero manter-me em forma,
para não perder o ritmo da fé e para que
não se apague o brilho de minha esperança.
Porque temo que se Tu não vais comigo,
o mal se aproveite de qualquer brecha e
penetre no mais fundo de minhas entranhas.

Treina-me, Senhor!
Quero jogar contigo a grande partida da Páscoa;
agora, com a cor arroxeada da penitência,
mas logo, na alvorada da Ressurreição,
com a cor branca do triunfo da Vida.
Sim, Senhor, quero que nestes 40 dias
me ensines a olhar o céu, me indiques
como entregar-me aos meus irmãos,
me recordes que,
na sobriedade e não na abundância,
está a riqueza e a felicidade de meus anos.

Treina-me, Senhor!
Que possa voltar dos caminhos equivocados
e que, prostrando-me diante de Ti,
possa dizer sem temor nem vergonha alguma:
pequei, não mereço ser contado entre os teus,
‘trata-me como a um de teus servos diaristas’.

Treina-me, Senhor!
Preciso correr,
recuperar o estilo de um autêntico crente
e falar-te com orações que nascem no silêncio.
Escutar palavras que curam e salvam.
Corrigir condutas e comportamentos,
atitudes e esquecimentos
que me afastaram de Ti faz tempo.

Treina-me, Senhor!
E faz que esta Santa Quaresma
seja uma oportunidade para aproximar-me de tudo isso.
Amém.”


Padre Javier Leoz


quinta-feira, 2 de abril de 2009

João Paulo II: quatro anos no Céu!



“Peregrino do amor, assim podemos definir o que foi o Papa João Paulo II. O Papa que mais viajou pelo mundo, visitando todos os povos foi um instrumento permanente do Amor de Deus, exemplo de dedicação e amor ao Evangelho. Hoje, dia 4 de abril de 2009, completam-se 4 anos do falecimento de João Paulo II”. Grupo de oração jovem João Paulo II


“Quando penso no mundo,
que se desvanece e morre
pela falta de Cristo;
quando penso no caos profundo
em que se despenca
a inquieta e cega humanidade
pela falta de Cristo;
quando me encontro
com a força da juventude
apática e destroçada
na própria primavera da vida
pela falta de Cristo,
não posso sufocar as queixas
de meu coração.
Quisera multiplicar-me, dividir-me,
para escrever, pregar,
ensinar Cristo.
E do espírito mesmo do meu espírito
brota contundente e único grito:

Minha vida por Cristo!”

Papa João Paulo II




Os «milagres» de João Paulo II

Imediatamente depois da morte de João Paulo II começaram a se conhecer supostas curas e «milagres» nos quais o falecido Papa haveria intercedido em vida. Para aprofundar estes episódios Andrea Tornielli, vaticanista do jornal «Il Giornale», realizou uma investigação recolhida no livro «Os milagres do Papa Wojtyla» («I miracoli di Papa Wojtyla», Piemme), publicado a princípios do verão. Nesta entrevista concedida a Zenit, aborda o conteúdo de suas páginas:

Quais e quantos são os milagres atribuídos à intercessão de João Paulo II que se relatam no livro?

Andrea Tornielli: Descrevo amplamente oito, mas cito mais. Trata-se dos testemunhos que surgiram imediatamente depois do falecimento de João Paulo II. Em alguns casos, trata-se de relatos dos quais eu tinha conhecimento desde há tempo, mas dos que me havia pedido que não escrevesse em vida do pontífice.

Quem são as testemunhas dos «milagres»?

Andrea Tornielli: Na maior parte dos casos os interessados diretamente ou seus familiares. Em um caso, no de um judeu norte-americano curado, a testemunha é o arcebispo Stanislaw Dziwisz, que durante quatro décadas foi secretário de Karol Wojtyla.


Por que escrever um livro assim sobre João Paulo II? Não está antecipando o processo de beatificação?

Andrea Tornielli: De maneira alguma. Meu trabalho se trata de indicações de graças ocorridas enquanto o Papa Wojtyla estava ainda com vida e portanto não podem ser utilizadas no processo, que como é sabido toma em consideração supostos milagres ocorridos pela intercessão do servo de Deus após sua morte. O que tentei fazer, reunindo estes testemunhos, é fazer ver quantas vezes em torno ao Papa e graças à sua oração de intercessão as pessoas recebiam graças. Intencionalmente escrevi um capítulo ao final do livro narrando episódios similares sucedidos em outros Papas em odor de santidade.


João Paulo II era consciente dos acontecimentos extraordinários dos que foi portador?

Andrea Tornielli: Era, porque às vezes percebia algo que ocorria; outras vezes porque comunicavam a ele em seguida, agradecendo-o. Mas ordenava sempre a todos que não falassem, que permanecessem em silêncio. E sobretudo sublinhava que os milagres e as graças as fazia o Senhor, não o Papa. Este rogava só para que as petições das pessoas que sofriam fossem escutadas.

Independentemente dos sucedidos extraordinários, o pontificado de João Paulo II influiu de maneira determinante em eventos históricos, e não só na queda do muro de Berlim. Não acredita?

Andrea Tornielli: Foi um papado que atravessou o último quarto do século XX e introduziu a Igreja no terceiro milênio. Estou de acordo em que a influência que teve nos acontecimentos históricos não há que vinculá-la só à queda do muro de Berlim (ainda que nesse caso o Papa originário da Polônia teve sua contribuição determinante): pensemos, por exemplo, no gesto profético da visita à mesquita de Damasco em maio de 2001, poucos meses antes do 11 de setembro. Era como se indicasse com antemão o caminho a seguir.

Fonte: Zenit


“Somente o que é construido sobre Deus, sobre o amor, é durável. Não tenham medo de ser santos!”


Papa João Paulo II


quarta-feira, 1 de abril de 2009

Como São Francisco passou uma Quaresma



“Ao verdadeiro Servo de Deus, São Francisco, já que em certas coisas foi como um segundo Cristo dado ao mundo para salvação dos povos, quis Deus Pai fazê-lo, em muitos aspectos de sua vida, conforme e semelhante a seu Filho Jesus Cristo, como aparece no venerável colégio dos doze companheiros, no admirável mistério das sagradas chagas e no jejum contínuo da santa quaresma, que realizou da seguinte maneira:

Em certa ocasião, achando-se São Francisco, no último dia de carnaval, junto ao lago de Perusa, na casa de um devoto seu, onde havia passado a noite, sentiu a inspiração de Deus de ir passar a quaresma em uma ilha do dito lago. São Francisco pediu, então, a este devoto seu, por amor a Cristo, que lhe levasse em seu barco a uma ilha do lago totalmente desabitada e que o fizesse na noite de quarta-feira de cinzas, sem que ninguém se desse conta. Assim o fez pontualmente o homem, pela grande devoção que tinha a São Francisco, e lhe levou à ilha. São Francisco não levou consigo mais que dois pãezinhos. Depois de chegarem à ilha e o amigo já estar pronto para voltar para casa, São Francisco lhe pediu encarecidamente que não contasse a ninguém o seu paradeiro e que não voltasse para buscá-lo até a quinta-feira santa. E com isso, partiu o homem, deixando São Francisco a sós.


Como não havia na ilha habitação alguma onde pudesse se alojar, entrou em um canto de largura muito estreita, onde as sarças e os arbustos formavam uma espécie de cabana. E neste lugar se pôs a rezar e a contemplar as coisas celestiais. Ali esteve toda a quaresma sem comer outra coisa que a metade de um daqueles pãezinhos, como pode comprovar, na quinta-feira santa, aquele mesmo amigo ao ir buscá-lo. Dos dois pequenos pães, achou um inteiro e a metade do outro. Acredita-se que São Francisco o comeu apenas por respeito ao jejum de Cristo bendito, que jejuou quarenta dias e quarenta noites, sem tomar nenhum alimento material. Assim, comendo aquele meio pão, afastou de si o veneno da vanglória e jejuou a exemplo de Cristo, quarenta dias e quarenta noites.

Mais tarde, naquele lugar onde São Francisco havia feito tão admirável abstinência, Deus realizou, por seus méritos, muitos milagres, pelo que muitas pessoas começaram a construir casas e viver ali.

Em pouco tempo, se formou na ilha uma aldeia boa e grande. Há também ali, um Convento dos irmãos que se chama o ‘Convento da ilha’. Hoje em dia, os homens e mulheres dessa aldeia veneram com grande devoção aquele lugar em que São Francisco passou a dita quaresma.

Em louvor de Cristo bendito. Amém.”


Do Florilégio de São Francisco


terça-feira, 31 de março de 2009

É preciso ouvir a Voz de Deus



Chiara Lubich, a Fundadora dos Focolares, afirma que não é difícil tentar discernir qual é a vontade de Deus...

É preciso ouvir a Voz de Deus

“É preciso ouvirmos bem dentro de nós uma voz delicada, que muitas vezes sufocamos, e que se torna quase imperceptível. Mas, se a ouvirmos bem: é a voz de Deus. Ela diz-nos que aquele é o momento de ir estudar, ou de ajudar quem tem necessidade, ou de trabalhar, ou de vencer uma tentação, ou de cumprir um dever de cristão ou de cidadão. Convida-nos a dar atenção a alguém que nos fala em nome de Deus, ou a enfrentar com coragem situações difíceis. Temos que a ouvir. Não façamos calar essa Voz, ela é o tesouro mais precioso que possuímos. Sigamo-la!”


“A pena não sabe o que deverá escrever.
O pincel não sabe o que deverá pintar.
Do mesmo modo, quando
Deus se serve de uma criatura
para fazer surgir na Igreja uma sua obra,
ela não sabe aquilo que deve fazer.
É um instrumento.
E os instrumentos de Deus
em geral têm uma característica:
a pequenez, a fragilidade...
'a fim de que nenhuma criatura
se possa vangloriar diante de Deus’.
Enquanto o instrumento se move
nas mãos de Deus, Ele o forma com
mil expedientes dolorosos e alegres.
Assim torna-o sempre mais idôneo
para o trabalho que deve fazer.
Até que, pode dizer com autoridade:
eu nada sou, Deus é tudo”.


Dos escritos de Chiara Lubich


segunda-feira, 30 de março de 2009

Dai-me, Senhor, um coração puro!



5º Domingo da Quaresma - Ano B : Jn 12,20-33

Salmo 50, 3-4; 12-15; 18-19

“Tende piedade de mim, ó meu Deus, misericórdia! Na imensidão de vosso amor,purificai-me, cancelai o meu pecado! Lavai-me todo inteiro do pecado e apagai completamente a minha culpa!
Cria em mim, ó Deus, um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido. Ó Senhor, não me afasteis da vossa face, nem retireis de mim o vosso Espírito! Devolve-me a alegria de ser salvo, e confirmai-me com espírito generoso! Ensinarei vossos caminhos aos que erram e a Vós voltarão os pecadores.
Pois não Vos agrada o sacrifício e, se vos ofereço holocaustos, não os aceitais. Sacrifício para Deus é um espírito contrito; não desprezais, ó Deus, um coração contrito e humilhado”.

Cria em mim, ó Deus, um coração puro (Sl 50, 12)

«Grava-me como um selo em teu coração, porque o amor é forte como a morte» (Ct 8,6). Forte como a morte é o amor porque o amor de Cristo é a morte da morte. Da mesma forma, o amor com que amamos a Cristo é, também ele, forte como a morte, porque constitui, à sua maneira, uma morte: uma morte que põe fim à vida velha, em que os vícios são abolidos e as obras mortas são abandonadas. De fato, o amor que temos a Cristo – mesmo estando longe de igualar aquele que Cristo tem por nós – é à imagem e semelhança do seu. Cristo, de fato, «amou-nos primeiro» (1Jo 4,19) e, através do exemplo que nos deu, tornou-se para nós um selo, a fim de que nos tornemos conformes à sua imagem.



É por isso que Ele nos diz: «Grava-me como um selo em teu coração», como se dissesse: «Ama-me como Eu te amo. Guarda-me no teu espírito, na tua memória, no teu desejo, nos teus suspiros, nos teus gemidos, nos teus soluços. Lembra-te, homem, de que natureza te criei: de quanto te preferi às outras criaturas, de que dignidade de enobreci, de que glória e de que honra te coroei e como te fiz pouco inferior aos anjos e como tudo coloquei sob os teus pés (Sl 8,6-7). Lembra-te, não apenas de tudo o que fiz por ti, mas ainda de tudo aquilo que, de fato, suportei da tua parte, em sofrimento e desprezo. E vê se não és injusto para comigo, não me amando. Quem, de fato, te amou como Eu? Quem te criou, se não Eu? Quem te resgatou, se não Eu?»



Senhor, arranca de mim este coração de pedra, este coração gelado, este coração incircunciso. E dá-me um coração novo, um coração de carne, um coração puro (Ez 36,26). Tu, que purificas o coração e que amas o coração puro, vem possuir e habitar o meu coração; envolve-o e enche-o, Tu que ultrapassas tudo o que sou e que me és mais interior e íntimo do que eu mesmo. Tu, o modelo da beleza e o selo da santidade, confirma o meu coração à tua imagem, marca o meu coração com a tua misericórdia, Deus do meu coração, meu refúgio e minha herança para sempre (Sl 72,26)”.


Balduíno de Ford, Abade Cisterciense
Homilia X, sobre Ct 8, 6


sábado, 28 de março de 2009

A Voz do silêncio



"A Voz do silêncio

Introversão

É de todo necessário a volta ao interior, entrar dentro de nós mesmos, para que Deus nasça na alma. Urge alcançar um forte impulso de recolhimento, recolher e introduzir todas as nossas potências, inferiores e superiores, e trocar a dispersão pela concentração, pois, como dizem, a união faz a força. Quando um atirador pretende um golpe certeiro no branco, fecha um olho para fixar melhor com o outro. Assim também quem quer conhecer algo a fundo necessita que todos os seus sentidos convirjam a um mesmo ponto a fim de dirigi-los ao centro da alma de onde saíram.

Ao encontro do Senhor

Assim, nos teremos disposto para sair ao encontro do Senhor. Saiamos agora e avancemos por cima de nós mesmos até Deus. É necessário renunciar a todo querer, desejar ou atuar próprio. Nada mais que a intenção pura e desnuda de buscar só a Deus, sem o mínimo desejo de buscar-se a si mesmo nem coisa alguma que possa redundar em seu proveito. Com vontade plena de ser exclusivamente para Deus, de conceder-lhe a morada mais digna, a mais íntima a fim de que Ele nasça e leve a cabo a sua obra em nós, sem impedimento algum.

Com efeito, para que haja fusão entre duas coisas é necessário que uma seja paciente e a outra se comporte como agente. Unicamente quando o olho está limpo é que poderá ver um quadro pregado na parede ou qualquer outro objeto. Isso seria impossível se houvesse outra pintura gravada na retina. O mesmo ocorre com o ouvido: enquanto um ruído lhe ocupa, está impedido de captar outro. Como conclusão, o recipiente é tanto mais útil quanto mais puro e vazio.

A isto se referia Santo Agostinho quando disse: “Esvazia-te para seres preenchido, sai para entrar”. E em outro lugar: “Oh, tu, alma nobre, nobre criatura, porque buscas fora a quem está plena e manifestadamente dentro de ti? És partícipe da natureza divina, porque então escravizar-te às criaturas?”.


Vazio e plenitude

Se de tal modo o homem preparasse a sua morada, o fundo da alma, Deus o preencheria sem dúvida alguma, se lhe daria em abundância. Romperiam-se os céus para preencher o vazio.

A nossa natureza tem horror ao vazio, dizem. Então, quanto seria contrário ao Criador e à sua justiça, abandonar uma alma assim disposta! Escolhe pois um dos dois: calar, tu, e falar Deus ou falar, tu, para que Ele se cale. Deves fazer silêncio.

Então, será outra vez pronunciada a Palavra que tu poderás entender e nascer: Deus na alma. Em troca, tens por certo que se tu insistires em falar, nunca ouvirás a sua Voz. Manter nosso silêncio, aguardando a escuta do Verbo é o melhor serviço que lhe podemos prestar. Se saíres de ti completamente, Deus de novo se te dará em plenitude. Porque à medida que tu sais, Ele entra. Nem mais nem menos.

Silêncio da alma

A esse sossego do espírito se refere o cântico da Missa que começa: “Quando um sossegado silêncio tudo envolvia” (Sb 18, 14). Em pleno silêncio, toda a criação calava na mais alta paz da meia noite. Então, oh Senhor, a Palavra onipotente deixou seu Trono para acampar em nossa tenda (Liturgia de Natal). Será então, no ponto culminante, no apogeu do silêncio, quando todas as coisas ficaram submersas na calma, somente então, se fará sentir a realidade desta Palavra. Porque, se queres que Deus fale, faz falta que tu cales. Para que Ele entre, todas as coisas deverão ter saído”.


Johannes Tauler, O.P. (Juan Tauler/1300-1361)
Instituciónes, Temas de oración