terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Santa Escolástica



Festa dia 10 de fevereiro

O nome de Santa Escolástica, irmã de São Bento, nos leva para o século V, para o primeiro mosteiro feminino ocidental, fundamentado na vida em comum, conceito introduzido na vida dos monges por ele. Foi o primeiro a orientar para servir a Deus não "fugindo do mundo" através da solidão ou da penitência itinerante, como os monges orientais, mas vivendo em comunidade duradoura e organizada, e dividindo rigorosamente o próprio tempo entre a oração, trabalho ou estudo e repouso.

Escolástica e Bento são irmãos gêmeos e nasceram em Núrcia, região central da Itália, em 480. Eram filhos de nobres. O pai Eupróprio ficou viúvo quando eles nasceram, pois a esposa morreu durante o parto. Ainda jovem, Escolástica se consagrou a Deus com o voto de castidade, antes mesmo do irmão, que estudava retórica em Roma. Mais tarde, Bento fundou o mosteiro de Monte Cassino, criando a Ordem dos monges beneditinos.

Escolástica, inspirada por ele, fundou um mosteiro, de irmãs, com um pequeno grupo de jovens consagradas. Estava criada a Ordem das beneditinas, ramo feminino da Ordem, que recebeu este nome em homenagem ao irmão, seu grande incentivador e que elaborou as Regras da comunidade.

São muito poucos os dados da vida de Escolástica, e foram escritos quarenta anos depois de sua morte, pelo o Santo Papa Gregório Magno, que era um beneditino. Ele recolheu alguns depoimentos de testemunhas vivas para o seu livro "Diálogos" e escreveu sobre ela apenas como uma referência na vida de Bento, mais como uma sombra do grande irmão, pai dos monges ocidentais.

Nesta página expressiva contou que, mesmo vivendo em mosteiros próximos, os dois irmãos só se encontravam uma vez por ano, para manterem o espírito de mortificação e elevação da experiência espiritual. Isto ocorria na Páscoa e numa propriedade do mosteiro do irmão.

Por volta do ano 543, Escolástica vai ao encontro de seu irmão acompanhada por um pequeno grupo de irmãs. Bento chega também acompanhado por alguns discípulos e passam todo o dia conversando sobre Deus, assuntos espirituais e a Igreja.

Ao entardecer, Bento, muito rigoroso às Regras, se levanta e diz à irmã que era hora de se despedirem: “Adeus, irmã. Até o ano que vem”. Mas Escolástica pediu que ficasse para passarem a noite, todos juntos, conversando sobre Deus e rezando: “Irmão meu, suplica Escolástica, não vá. Passemos todos a noite falando das coisas de Deus”. Bento responde que deveria ir para não quebrar as regras: “Que dizes,Escolástica? Ignoras que não posso passar a noite fora da clausura do mosteiro?”. Ela insiste mas o irmão, que estranha esta atitude, se mantém irredutível.

Santa Escolástica não responde mais e se cala. Baixa a cabeça, junta as mãos, fecha os olhos e em recolhimento se põe a rezar ao Senhor fervorosamente. Em segundos o claro céu escurece totalmente e uma enorme e forte tempestade se forma com inúmeros raios, estrondosos trovões e uma copiosa chuva como nunca ninguém havia visto em todas aquelas paragens.

São Bento, atônito, olha para a irmã e esta lhe pergunta: “Não vais, irmão?”. E ele responde apenas: “Que fizeste, irmã, que fizeste?”. Escolástica lhe fala docemente: “Eu te pedi com insistência e não me escutaste. Então, pedi a Deus e Ele me escutou imediatamente. Irmão meu, Deus preferiu o amor à regra”.

Assim vencido, Bento ficou e os dois irmãos conversaram sobre as coisas de Deus durante toda a noite. No dia seguinte o sol apareceu, eles se despediram e cada grupo voltou para o seu mosteiro. Essa seria a última vez que os dois se veriam.

Três dias depois, em seu mosteiro, enquanto rezava olhando para o céu, Bento viu a alma de sua irmã entrar no paraíso em forma de pomba. Mandou buscar o corpo de sua santa irmã e o colocou na sepultura que havia preparado para si. Ela morreu em 10 de fevereiro de 547, quarenta dias antes que seu venerado irmão Bento. Escolástica foi considerada a primeira monja beneditina e santa pela Igreja, que escolheu o dia de sua morte para a sua festa e homenagens litúrgicas.


Santa Escolástica, rogai por nós!


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Beato Rafael - ¡Sólo Dios!


SÓ DEUS E EU!

Silêncio nos lábios
Cânticos no coração
Alma que vive de amores
De sonhos e de esperanças…
Alma que vive de Deus.

Alma que olha ao longe…
Longe, muito longe do mundo
Passando a vida em silêncio...
Cantando no coração.

Uma Trapa...
Um mosteiro…
Um homem…
Só Deus e eu!

Passam rápidos os dias
E neles se vai a vida…
Sonhamos com o passado
Esperamos o que há de vir.
A alma olha ao longe
Buscando a única vida
Que espera seja melhor...

Uma Trapa...
Um mosteiro...
Um homem...
Só Deus e eu!



¡SÓLO DIOS Y YO!

Silencio en los labios
Cantares en el corazón
Alma que vive de amores
De sueños y de esperanzas...
Alma que vive de Dios.

Alma que mira a lo lejos…
Lejos, muy lejos del mundo
Pasando la vida en silencio...
Cantando en el corazón.




Una Trapa…
Un monasterio...
Un hombre…
¡Sólo Dios y yo!

Pasan rápidos los días
En ellos se va la vida…
Soñamos en lo pasado
Esperamos lo que ha de llegar.
El alma mira a lo lejos
Buscando la única vida
Y que espera sea mejor...

Una Trapa…
Un monasterio...
Un hombre…
¡Sólo Dios y yo!

Beato Rafael Arnáiz Baron

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Beato Rafael Arnáiz Barón



Rafael Arnáiz Barón nasceu em Burgos em 9 de abril de 1911. Estudava Arquitetura em Madri quando se sentiu chamado por Deus e, renunciando ao brilhante futuro que lhe era oferecido, ingressou no Mosteiro Cisterciense de San Isidro de Dueñas, em Palencia, no dia 15 de janeiro de 1934. Ali se entregou com alegria e generosidade a Deus na vida monástica, a qual amava de modo especial.

No entanto, em pouco tempo, um implacável diabete, que constituiu o crisol do seu caminho de fé, arrebatou a sua existência quando tinha somente 27 anos. Sua doença elevou seu espírito às alturas, levando-o a se apaixonar sempre mais por Cristo e a segui-Lo fielmente "agarrado" a sua cruz com muito amor e carinho; cruz essa que considerava tudo no caminho para Deus.

Sua fama de santidade se estendeu rapidamente e seus numerosos escritos, de uma profundidade espiritual realmente sublime, são acolhidos e pedidos por toda parte. O Papa João Paulo II o propôs como modelo dos jovens de todo o mundo em 19 de agosto de 1989, em Santiago de Compostela, e proclamou-o Beato em 27 de setembro de 1992. Em 7 de dezembro último, o Papa Bento XVI aprovou o milagre que levará o Hermano Rafael Arnáiz aos altares.

Oração:

Ó Deus, que fizestes do Beato Rafael um discípulo preclaro na ciência da Cruz de Cristo, concedei-nos que, por seu exemplo e intercessão, vos amemos acima de todas as coisas e, seguindo o caminho da Cruz com o coração dilatado, consigamos participar da alegria pascal. Por Cristo nosso Senhor. Amém.

Caso obtenha algum favor pela intercessão do Beato Rafael, favor comunicá-lo ao seguinte endereço:

Causa del Beato Rafael
Monasterio de San Isidro
34200 Venta de Baños, Palencia
España

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Buscar a Deus



Não rezes a Deus olhando o céu; olha para dentro de ti!

Não busques a Deus longe de ti, mas em ti mesmo!

Não peças a Deus o que te falta; busca-o tu mesmo e Deus buscará contigo porque Ele já te deu como promessa e como meta para que tu próprio o alcances.

Não reproves a Deus por tua desgraça; sofre com Ele e Ele sofrerá contigo. E se há dois em uma mesma dor, se sofre menos.

Não exijas de Deus que te governe com milagres; governa-te tu mesmo com responsável liberdade, amando e servindo, e Deus estará te guiando desde dentro e sem que saibas como.

Não peças a Deus que te responda quando falas com Ele; responde Tu a Ele porque Ele te falou primeiro e se queres seguir ouvindo o que falta, escuta o que Ele já te disse.

Não peças a Deus que te liberte desconhecendo a liberdade que já te deu; anima-te a conhecer e viver tua liberdade e saberás que isso só foi possível porque Deus te quer livre.

Não peças a Deus que te ame enquanto tiveres medo de amar e de saber-te amado. Ama-O, tu, e saberás que se há calor é porque houve fogo, e que se tu podes amar é porque Ele te amou primeiro!

Santo Agostinho

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

São João Crisóstomo



"Nenhum ato de virtude pode ser grande, se dele não se segue também um proveito para os outros. Assim, pois, por mais que passes o dia inteiro em jejum, ou por mais que durmas sobre o chão duro e comas cinzas e suspires continuamente, se não fazes o bem aos outros, não fazes nada de grande".

São João Crisóstomo


domingo, 1 de fevereiro de 2009

O Pão dos anjos




Oração de São Tomás de Aquino, Doutor da Igreja

"O pão dos anjos, o pão do caminhante, o verdadeiro pão dos filhos de Deus"


“Deus todo poderoso e eterno, eis que me aproximo do Sacramento do Teu Filho único, nosso Senhor Jesus Cristo. Doente, venho ao Médico de Quem depende a minha vida; manchado, venho à Fonte da Misericórdia; cego, venho ao Foco da Luz eterna; pobre e desprovido de tudo, venho ao Senhor do céu e da terra.

Imploro, pois, a Tua imensa, a Tua inesgotável generosidade, a fim de que Te dignes curar as minhas enfermidades, lavar as minhas manchas, iluminar a minha cegueira, cumular a minha indigência, cobrir a minha nudez; e que, assim, eu possa receber o Pão dos anjos (Sl 77,25), o Rei dos reis, o Senhor dos senhores (1Tm 6,15), com toda a reverência e humildade, com toda a contrição e devoção, com toda a pureza e fé, com toda a firmeza de propósito e retidão de intenção que a salvação da minha alma requer.

Concede-me, suplico-Te, que não receba apenas o Sacramento do Corpo e Sangue do Senhor, mas toda a força e eficácia desse Sacramento. Deus cheio de doçura, concede-me que receba tão bem o Corpo do Teu Filho único, nosso Senhor Jesus Cristo, esse Corpo material que Ele recebeu da Virgem Maria, que mereça ser incorporado no Seu Corpo místico e contado entre os Seus membros.

Pai cheio de amor, concede-me que esse Filho bem amado que me preparo para receber agora da forma velada que convém ao meu estado de peregrino, eu possa um dia contemplar de rosto descoberto e para a eternidade, Ele que, sendo Deus, vive e reina contigo, na Unidade do Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém”.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Santa Teresa D’Ávila - Ditos



“Só o amor dá valor a todas as coisas”.

“A oração de intimidade com Deus não é outra coisa senão um morrer quase total a todas as coisas do mundo para alegrar-se só em Deus”.

“Não acrediteis ter progredido na perfeição, se não vos julgardes piores que todos e se não desejais ser tratados como os últimos”.

“Não há melhor meio para se chegar à perfeição do que a Comunhão freqüente”.

“Uma pessoa caminha mais para Deus quando deixa de desculpar-se do que ouvindo dez sermões. Não se desculpando, começa a adquirir a liberdade interior e a não se preocupar se dizem dela bem ou mal”.

“Todos os danos provem de não nos conhecermos devidamente”.

“Desde que me trato com menos cuidado e delicadeza, passo muito melhor”.

“É grandíssima vantagem para uma alma que se dá à oração tratar com os que deveras servem a Deus”.

“As inspirações de Deus estão unidas à obediência”.

“Procurai viver sempre no silêncio e na esperança”.

“O Senhor nos ama mais do que nós amamos a nós mesmos”.

Santa Teresa d'Ávila,
Monja Carmelita e Doutora da Igreja

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Utilidade do silêncio



Ante o maravilhoso espetáculo da natureza, experimenta-se facilmente a utilidade do silêncio, um bem que hoje é cada vez mais raro. As numerosas oportunidades de relação e de informação que a sociedade moderna oferece correm o risco em muitas ocasiões de tirar espaço ao recolhimento, até fazer que as pessoas sejam incapazes de estar consigo próprias, de refletir e rezar. Na realidade, só no silêncio o homem consegue escutar no íntimo da consciência a voz de Deus, que verdadeiramente lhe faz livre. E as férias podem ajudar a redescobrir e cultivar esta indispensável dimensão interior da existência humana.

Maria Santíssima é modelo perfeito de escuta de Deus, que fala ao coração humano. Dirijamo-nos a ela, falemos com Ela. Que Maria ajude-nos a perceber na beleza da criação um reflexo da glória divina, e nos alente a buscar com todas nossas energias o cume espiritual da santidade.

Santo Padre João Paulo II


sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Maria, Mãe do Amor



Esta Mãe do Amor Formoso pode aliviar teu coração de todo escrúpulo e de todo amor servil. Entrega-te a Ela e o teu coração Ela abrirá e alargará para correr pelo caminho dos mandamentos do Seu Filho, com a santa liberdade dos filhos de Deus. Passarás a olhar a Deus como teu Bondoso Pai, tratando de agradar-Lhe incessantemente, e com Ele conversarás confidentemente, à semelhança de um filho com Seu Pai. Se por acaso o ofenderes, humilha-te diante Dele, pede-Lhe perdão confiantemente e humildemente, e estenderás simplesmente a mão, e te levantarás amorosamente sem perturbação nem inquietação, para continuar a caminhar para Ele, nosso Pai e nosso Amor.

São Luis Maria Grignon de Montfort
Tvd, n.215


terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Conversei com Ele?



É possível que esta palavra te assuste: meditação. Recorda-te livros de capas pretas e vermelhas, ruídos de suspiros ou de rezas como cantilenas rotineiras... Mas isso não é meditação. Meditar é considerar, contemplar que Deus é Pai, e tu, seu filho, necessitado de muita ajuda; e depois dar-Lhe graças por tudo que já te concedeu e por tudo o que ainda te dará.

Procura-O no teu exame diário:
Deixei passar alguma hora sem falar com meu Pai-Deus?
Conversei com Ele, com amor de filho?

O único meio de conhecer Jesus é chegar ao trato com Ele! NEle encontrarás sempre um Pai, um Amigo, um Conselheiro e um Colaborador para todas as atividades nobres da tua vida cotidiana.

E, com o trato íntimo, nascerá o Amor.

“Fica conosco, porque escureceu...” Foi eficaz a oração de Cléofas e do seu companheiro.

Que pena se tu e eu não soubéssemos “deter” Jesus que passa!

Que dor, se não Lhe pedimos que fique!


São José Maria Escrivá
Sulco, 671


domingo, 11 de janeiro de 2009

Queima, arranca, consome



Desapega o meu coração de tudo,
a fim de ficar livre
para que nada o impeça de Te ver.
Queima a minha vontade,
abaixa o meu orgulho,
Ó Tu, tão humilde de coração.
Enfim, educa o meu para Ti
a fim de que possa ser a Tua morada amada,
para que venhas repousar nele,
e conversar comigo numa união ideal.
Que este pobre coração não seja
senão um com o Teu Divino Coração.
E para isso queima, arranca,
consome tudo o que Te desagrada.

Beata Elizabeth da Trindade, ocd


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Consolo antes do martírio



São Thomas More, pouco antes de seu martírio, consola a sua filha dizendo-lhe:

“Nada pode me acontecer que Deus não queira. E tudo o que Ele quer, por muito mau que nos pareça, é na realidade o melhor”


Santo Tomás Moro, poco antes de su martirio, consuela a su hija diciéndole:

“Nada puede pasarme que Dios no quiera.Y todo lo que EL quiere, por muy malo que nos parezca, es en realidad lo mejor.”


Carta da prisão; cf. Liturgia das Horas, III, Ofício das Leituras, 22 de junho.

Carta de prisión; cf. Liturgia de las Horas, III, Oficio de lectura 22 junio.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Talvez não saibamos amar



“Talvez não saibamos o que é amar, e não me surpreenderei muito, porque amar não está no maior gosto, senão na maior determinação de desejar em tudo a Deus e procurar enquanto pudermos não ofender-lhe”.


"Quizás no sabemos qué es amar, y no me espantaré mucho; porque no está en el mayor gusto, sino en la mayor determinación de desear en todo a Dios y procurar en cuanto pudiéremos, no ofenderle".

Santa Teresa de Jesús, ocd
Monja Carmelita e Doutora da Igreja


terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Como valorizar a humildade?



Lucas 14, 1.7-14

E sucedeu um sábado que Jesus foi à casa de um dos chefes dos fariseus (...) Observando como os convidados elegiam os primeiros postos, disse-lhes uma parábola: “Quando fores convidado por alguém a uma boda, não te ponhas no primeiro posto, não seja que tenha sido convidado por ele outro mais distinguido que tu, e vindo o que vos convidou a ti e a ele, diga: ‘Deixa o lugar para ele’”. (...) Disse também ao que lhe havia convidado: “Quando deres um banquete, chama os pobres, os feridos, os coxos, os cegos; e serás ditoso, porque não te podem corresponder, e serás recompensado na ressurreição dos justos”.

O começo do Evangelho de hoje nos ajuda a corrigir uma discriminação muito difundida entre os cristãos. Acabou-se por fazer dos fariseus o protótipo de todos os vícios: hipocrisia, falsidade, os inimigos de Jesus. Com estes significados negativos, o termo fariseu e o adjetivo farisaico entraram no vocabulário de nossa língua e de muitas outras. Tal idéia dos fariseus não é correta. Entre eles havia certamente muitos elementos que responderam a esta imagem, e é com eles com quem Cristo se choca duramente. Mas não todos eram assim. Nicodemos, que foi ter com Jesus de noite e que mais tarde o defendeu no Sinédrio, era um fariseu (Cf. João 3,1: 7, 50ss). Fariseu era também Paulo antes da conversão, e era certamente pessoa sincera e diligente, ainda que mal iluminada. Fariseu era Gamaliel, que defendeu os apóstolos ante o Sinédrio (Cf. Atos 5, 34ss).

As relações de Jesus com eles não foram, portanto, só conflitantes. Alguns, como neste caso, também o convidam a comer em sua casa. Estes convites por parte de fariseus são tanto mais dignos de destacar enquanto que eles sabem muito bem que não será o fato de convidá-lo a sua própria casa o que impede a Jesus de dizer o que pensa. Também em nosso caso Jesus aproveita a ocasião para corrigir alguns desvios e levar adiante sua obra de evangelização. Durante a refeição, aquele sábado, Jesus ofereceu dois ensinamentos importantes: um dirigido aos convidados, outro ao anfitrião.

Ao senhor da casa, Jesus diz: «Quando deres uma ceia, não chames teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos...». Assim fez ele mesmo, Jesus, quando convidou ao grande banquete do Reino pobres, afligidos, mansos, famintos, perseguidos (as categorias de pessoas enumeradas nas Bem-aventuranças).

Mas é sobre o que Jesus diz aos convidados onde queria deter-me esta vez. «Quando fores convidado por alguém a uma boda, não te ponhas no primeiro lugar...». Jesus não pretende dar conselhos de boa educação. Tampouco trata de alentar o sutil cálculo de quem se põe no último lugar, com a secreta esperança de que o anfitrião lhe faça um gesto de subir mais para cima. A parábola aqui pode levar a um engano, se não se pensa de que banquete e de que senhor está falando Jesus.

O banquete é o mais universal do Reino e o senhor é Deus. Na vida, quer dizer Jesus, elege o último lugar, tenta fazer felizes os demais mais que a ti mesmo; sê modesto ao valorizar seus méritos, deixa que sejam os demais os que os reconheçam, não tu («ninguém é bom juiz em sua própria casa»), e já desde esta vida Deus te exaltará. Exaltar-te-á em sua graça, far-te-á subir na lista de seus amigos e dos verdadeiros discípulos de seu Filho, que é o único que verdadeiramente conta.

Exaltar-te-á também na estima dos demais. É um fato surpreendente, mas certo. Não é só Deus que «se inclina para o humilde, mas ao soberbo conhece desde longe» (Sal 137, 6); o homem faz o mesmo, independentemente do fato de que seja mais ou menos crente. A modéstia, quando é sincera e não afetada, conquista, faz a pessoa amada, sua companhia desejada, sua opinião apreciada. A verdadeira glória foge de quem a persegue e persegue a quem a foge.

Vivemos em uma sociedade que tem necessidade extrema de voltar a escutar esta mensagem evangélica sobre a humildade. Correr a ocupar os primeiros postos, talvez passando, sem escrúpulos, sobre as cabeças dos demais, a competitividade exasperada, são características por todos suplicadas e por todos, lamentavelmente, seguidas. O Evangelho tem um impacto sobre o social, até quando fala de humildade e modéstia.


Padre Raniero Cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia
Do original italiano publicado por «Famiglia Cristiana».
Tradução realizada por Zenit


domingo, 4 de janeiro de 2009

Concede-me, Senhor




Que eu chegue a Ti, Senhor,
por um caminho seguro e reto;
caminho que não se desvie
nem na prosperidade nem na adversidade,
de tal forma que eu te dê graças
nas horas prósperas e nas adversas,
conserve a paciência,
não me deixando exaltar pelas primeiras
nem abater pelas outras.

Que nada me alegre ou entristeça,
exceto o que me conduza a Ti
ou que de Ti me separe.

Que eu não deseje agradar
nem receie desagradar senão a Ti.
Tudo o que passa torne-se
desprezível a meus olhos
por tua causa, Senhor,
e tudo o que Te diz respeito me seja caro,
mas Tu, meu Deus, mais do que o resto.

Qualquer alegria sem Ti me seja
totalmente fastidiosa,
e nada eu deseje fora de Ti.
Qualquer trabalho, Senhor,
feito por Ti me seja agradável
e insuportável todo aquele
de que estiveres ausente.

Concede-me a graça
de erguer continuamente,
fielmente, o coração a Ti
e que, quando eu caia,
me arrependa.
Torna-me, Senhor meu Deus,
obediente, pobre e casto;
paciente, sem reclamação;
humilde, sem fingimento;
alegre, sem dissipação;
triste, sem abatimento;
reservado, sem rigidez;
activo, sem leviandade;
animado pelo temor, sem desânimo;
sincero, sem duplicidade;
fazendo o bem sem presunção;
corrigindo o próximo sem altivez;
edificando-o com palavras e exemplos,
sem nenhuma falsidade.

Dá-me, Senhor Deus,
um coração vigilante,
que nenhum pensamento curioso
arraste para longe de Ti;
um coração nobre
que nenhuma afeição indigna debilite;
um coração recto
que nenhuma intenção equívoca desvie;
um coração firme,
que nenhuma adversidade abale;
um coração livre,
que nenhuma paixão subjugue.

Concede-me, Senhor meu Deus,
uma inteligência que Te conheça,
uma vontade que Te busque,
uma sabedoria que Te encontre,
uma vida que te agrade,
uma perseverança que Te espere com
confiança e uma confiança que
plenamente Te possua, enfim.
Amém.

S. Tomás de Aquino

sábado, 3 de janeiro de 2009

Um só Espírito




“A mensagem de esperança que o contemplativo lhe oferece é que, entenda você ou não, Deus o ama, está presente em você, habita em você, o chama, salva-o e lhe oferece um entendimento e uma luz que você jamais encontrou em livros nem ouviu em palestras ou sermões. O contemplativo nada tem a lhe dizer que não seja reafirmar e dizer que, se ousar penetrar no seu próprio silêncio interior e arriscar dividir a solidão encontrada com outros solitários que buscam a Deus por seu intermédio, realmente recuperará a luz e a capacidade de entender o que está além das palavras e além das explicações, porque está próxima demais para ser explicada: é a união íntima, na profundeza de seu próprio coração, do espírito de Deus e do seu próprio eu particular, de forma que você e Ele são, em verdade, um só Espírito.”

Thomas Merton, Carta a Dom Francis Decroix, de 21 de agosto de 1967, publicada em The Hidden Ground of Love.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Solenidade de Santa Maria


CELEBRADA EM 1º DE JANEIRO




Deus vos salve, filha de Deus Pai!
Deus vos salve, mãe de Deus Filho!
Deus vos salve, esposa do Espírito Santo!
Deus vos salve, sacrário da Santíssima Trindade!

MATINAS

Agora, lábios meus dizei e anunciai
os grandes louvores
da Virgem, Mãe de Deus

Sede em meu favor,
Virgem soberana,
Livrai-me do inimigo
com vosso valor.

Glória seja ao Pai,
ao Filho e ao Amor também,
que é um só Deus
em pessoas três,
agora e sempre e
sem fim. Amém.

Hino

Deus vos salve,
Virgem Senhora do mundo
rainha dos céus,
e das virgens, Virgem.

Estrela da manhã
Deus vos salve,
cheia de graça divina,
formosa e louçã.
Dai pressa, Senhora,
Em favor do mundo
Pois Vos reconhecem
Como defensora

Deus vos nomeou
desde a eternidade
para a mãe do Verbo
com o qual criou

Terra, mar e céus,
e vos escolheu,
quando Adão pecou,
por esposa de Deus.

Deus a escolheu
e, já muito antes,
em seu tabernáculo
morada lhe deu.

Ouvi, Mãe de Deus,
minha oração.
Toquem em vosso peito
os clamores meus.

Santa Maria, rainha dos céus, mãe de nosso Senhor Jesus Cristo, senhora do mundo, que a nenhum pecador desamparais e nem desprezais, ponde, senhora, em mim os olhos de vossa piedade e alcançai de vosso amado Filho o perdão de todos os meus pecados, para que eu, que agora venero com devoção vossa Santa e Imaculada Conceição, mereça na outra vida alcançar o prêmio da bem-aventurança, pelo merecimento de vosso bendito Filho Jesus Cristo, nosso Senhor, que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina para sempre. Amém.

Do Ofício da Imaculada

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Sobre o ascetismo e a quietude




EVAGRIUS PONTICUS

Evagrius Ponticus (345-399) é um dos primeiros escritores espirituais sobre o ascetismo na tradição ascética cristã. Ele observou de perto os Padres do Deserto e viveu seus últimos anos como um deles. Sua influência foi significativa em João Cassiano, pois foi através desse último que o Ocidente conheceu a espiritualidade do deserto.

O "Esboço dos Ensinamentos sobre Ascetismo e Quietude na Vida Solitária” é um catálogo de práticas ascéticas. O objetivo prático é o que a tradição Cristã do Oriente chama "quietude" ao estado de serenidade e o "vazio", que é o fruto da solidão: "Pois a prática da quietude é cheia de alegria e beleza". Por conseguinte, a quietude é igualmente o fruto e a prática, o fim e os meios. E os meios são as práticas ascéticas que ele recomenda neste ensaio.

“Você deseja abraçar esta vida de solidão
e buscar as bênçãos da quietude?
Então, abandone todo o tipo de cuidado,
livre-se dos apegos às coisas materiais,
da dominação das paixões e desejos
de modo que, como um estranho a tudo isso,
você possa atingir a verdadeira serenidade.
Pois somente se elevando sobre estas coisas
pode o homem atingir a vida de quietude.”



“The Desert Fathers”, traduzido do Latim com Introdução por Helen Waddel, p. 26-39. London: Constable, 193; Ann Arbor: University of Michigan Press, 1957.