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quarta-feira, 31 de março de 2010

SEMANA SANTA- 2ª-FEIRA – Espalhar o perfume da compaixão nos pés de Cristo



SEGUNDA -FEIRA DA SEMANA SANTA

Evangelho segundo S. João 12,1-11


«Espalhar o perfume da compaixão nos pés de Cristo»

Já vos falei dos dois perfumes espirituais: o da contrição, que se estende a todos os pecados — é simbolizado pelo perfume que a pecadora espalhou nos pés de Jesus: «toda a casa ficou cheia desse cheiro»; há também o da devoção que consolida todas as mercês de Deus... Mas há um perfume que ultrapassa de longe estes dois; chamar-lhe-ei o perfume da compaixão. Compõe-se, com efeito, dos tormentos da pobreza, das angústias em que vivem os oprimidos, das inquietudes da tristeza, das faltas dos pecadores, em resumo, de toda a dor dos homens, mesmo dos nossos inimigos. Estes ingredientes parecem indignos e, contudo, o perfume em que entram é superior a todos os outros. É um bálsamo que cura: «Felizes os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia» (Mt 5,7).

Assim, um grande número de misérias reunidas sob um olhar compassivo são as essências preciosas... Feliz a alma que cuidou de aprovisionar estes aromas, de neles espalhar o óleo da compaixão e de os pôr a ferver no fogo da caridade! Quem é, no vosso entender, «o homem feliz que tem piedade e empresta os seus bens» (Sl 111,5), inclinado à compaixão, pronto a socorrer o seu próximo, mais contente com dar do que com receber? Quem é esse homem que perdoa facilmente, resiste à cólera, não permite a vingança, e em todas as coisas olha como suas as desgraças dos outros? Quem quer que seja essa alma impregnada do orvalho da compaixão, de coração transbordante de piedade, que se dá inteira a todos, que não é, ela mesma, senão um vaso rachado onde nada é invejosamente guardado, essa alma, tão morta para si mesma que vive unicamente para os outros, tem a felicidade de possuir esse terceiro perfume que é o melhor. As suas mãos destilam um bálsamo infinitamente precioso (cf. Ct 5,5), que não se esgotará na adversidade e que os lumes da perseguição não conseguirão secar. É que Deus lembrar-se-á sempre dos seus sacrifícios.


São Bernardo de Claivaux
Sermão 12 sobre o Cântico dos Cânticos

domingo, 7 de março de 2010

Quaresma - Esforcemo-nos em progredir todos os dias, porque é avançando na virtude que veremos a Deus




«Esforcemo-nos em progredir todos os dias, porque é avançando na virtude que veremos a Deus»


«Que cada um se examine agora para saber em que estado está, e esforcemo-nos em progredir todos os dias, porque é avançando na virtude que veremos o Deus dos deuses, na Sião celeste. É sobretudo neste tempo que nos devemos aplicar em viver na pureza; durante este tempo, digo, em que é concedido à fragilidade humana um número de dias certos mas curtos, para que ela não desanime. Porque se nos é dito a toda a hora: 'levai uma vida pura', quem não se desencorajaria de a conseguir? Ora, somos convidados neste tempo de pouca dura a reparar as negligências do resto do ano, e a viver de maneira a que no resto do tempo, se veja brilhar as marcas desta santa quarentena na nossa conduta.

Esforcemo-nos então, meus irmãos, em passar este tempo em exercícios piedosos, e em restaurar as nossas armas espirituais. De fato, nesta época do ano, parece que todo o universo, com o Salvador à frente, caminha como um exército contra o inimigo. Bem-aventurados os que terão combatido com valentia sob tal governo.»


São Bernardo de Clairvaux
Sermão VII para a Quaresma
Editiones Cistercienses

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR - Oferecei vosso Filho, ó Virgem Santa, apresentai ao Senhor o bendito fruto de vosso seio



APRESENTAÇÃO DO SENHOR
02 DE FEVEREIRO
FESTA


«Oferecei vosso Filho, ó Virgem Santa, apresentai ao Senhor o bendito fruto de vosso seio. Oferecei a Hóstia Santa e Agradável a Deus, pela reconciliação de todos nós»


“Oferecei vosso Filho, ó Virgem Santa, apresentai ao Senhor o bendito fruto de vosso seio. Oferecei a Hóstia Santa e Agradável a Deus, pela reconciliação de todos nós. Certamente aceitará Deus Pai a nova oblação, a preciosíssima vítima de quem Ele próprio disse: ‘Eis o meu dileto Filho em quem pus minhas complacências’.

Também eu, Senhor, voluntariamente vos oferecerei meu sacrifício, já que voluntariamente vos oferecestes, não por necessidade vossa mas para minha salvação. Só duas pobres coisas tenho, ó Senhor: meu corpo e minha alma. Quem me dera vo-los oferecer dignamente, em sacrifício de louvor!

Melhor, muito melhor para mim oferecer-me a Vós do que ser abandonado a mim mesmo. Se ficar só, agita-se minha alma. Mas assim que me ofereço a Vós com plena submissão, exulta em Vós meu espírito. Não quereis, ó Senhor, minha morte; e não vos ofereceria eu, de bom grado, minha vida? É, de fato, minha vida, hóstia que aplaca vossa ira, hóstia que vos agrada, hóstia viva”.


São Bernardo de Claraval
In Purificazione B.V. Mariae, 3, 2-3
Sermoni per le feste della Madonna, Ed. Paoline, Roma, 1970

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

SOLENIDADE DA SANTA MÃE DE DEUS – A humildade encanta a Deus



MARIA, SANTA MÃE DE DEUS
SOLENIDADE
01 DE JANEIRO


«A humildade encanta a Deus»


"Existe uma humildade tão grande e maravilhosa como a sua, em meio a tanta pureza e inocência, com uma consciência tão limpa de pecado e tão cheia de graça? De onde te vem, oh ditosa mulher, essa humildade tão incomparável? Bem merece que o Senhor se fixe nela, que o Rei fique prisioneiro de sua beleza, e que com seu delicado perfume atraia a seu tálamo ao que vive no Seio eterno do Pai! Observa quanta harmonia existe entre o canto de nossa Virgem e o canto nupcial; não podia ser de outra maneira: seu seio foi o tálamo do Esposo. Escuta a Maria no Evangelho: Se fixou em sua humilde escrava. E escuta-a no canto dos esposos: Enquanto o rei estava em seu leito, meu nardo desprendia seu perfume. O nardo é uma planta muito pequena e muito reconfortante, por isso simboliza admiravelmente a humildade, cujo aroma e formosura encantaram a Deus".


São Bernardo de Claraval
Obras completas de San Bernardo, p. 371
En la Asunción de Santa María, 4
Ed. Monjes Cistercienses de España


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

IMACULADA CONCEIÇÃO - Que por Vós seja-nos concedido ir ao Filho, ó Mãe da Salvação!




IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA

SOLENIDADE
08 DE DEZEMBRO


Que por Vós seja-nos concedido ir ao Filho, ó Mãe da Salvação!

“Que por Vós, Maria, seja-nos concedido ir ao Filho, ó Bendita, que encontrastes graça, que gerastes a vida e sois a Mãe da Salvação! Por vossa mediação, acolha-nos quem por vós se deu a nós, pecadores.

Vossa integridade compense diante dele a culpa da nossa corrupção e vossa humildade, tão agradável a Deus, alcance perdão para nossa vaidade.

Vossa grande caridade cubra a multidão dos nossos pecados e vossa gloriosa fecundidade nos alcance fecundidade de méritos.

Senhora, Medianeira e Advogada nossa, reconciliai-nos com vosso Filho! Recomendai-nos a Ele e a Ele apresentai-nos.

Pela graça que encontrastes, pelo privilégio que merecestes, pela Misericórdia que gerastes, fazei, ó Bendita, que quem, graças a Vós, dignou-se tornar-se participante da nossa enfermidade e miséria, graças ainda à vossa intercessão, faça-nos participantes da sua glória e bem-aventurança”.


São Bernardo de Claraval
In Adventu Domini, 2, 5: Opera omnia, Edit cisterc.


domingo, 29 de novembro de 2009

ADVENTO – 1º DOMINGO – É necessária a Vossa presença, ó Cristo!



DOMINGO I DO ADVENTO

«É necessária a Vossa presença, ó Cristo! »

“É necessária a Vossa vinda a todos os homens, ó nosso Salvador!

É necessária a Vossa presença, ó Cristo!

Vinde, pela Vossa imensa bondade! Habitai em nós pela fé e iluminai nossa cegueira. Ficai conosco e ajudai nossa enfermidade.

Colocai-Vos ao nosso lado, protegendo e defendendo nossa fragilidade. Se estiverdes em nós, quem poderá enganar-nos? Que não poderemos em Vós que nos confortais? Se estiverdes conosco, quem contra nós?

Justamente para isto viestes ao mundo: a fim de que, habitando em nós, conosco e por nós, colocando-Vos ao nosso lado, ilumineis nossas trevas, alivieis nossos cansaços, afastei de nós os perigos”.


São Bernardo de Clairvaux
De Adventu Domini, 7, 2

domingo, 25 de outubro de 2009

São Bernardo de Claraval, doce poeta de Nossa Senhora



São Bernardo de Claraval, doce poeta de Nossa Senhora

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 21 de outubro de 2009 (ZENIT.org) - Oferecemos, a seguir, o texto completo da catequese pronunciada hoje pelo Papa Bento XVI, durante a Audiência geral com os peregrinos procedentes do mundo inteiro, na Praça de São Pedro.

***

Queridos irmãos e irmãs,

Hoje, eu gostaria de falar sobre São Bernardo de Claraval, chamado de “o último dos Padres” da Igreja, porque no século XII, mais uma vez, ele renovou e fez presente a grande teologia dos padres.

Não conhecemos em detalhe os anos da sua juventude; sabemos, contudo, ele nasceu em 1090 em Fontaines, na França, em uma família numerosa e discretamente acomodada. Ainda muito jovem, dedicou-se ao estudo das chamadas artes liberais – especialmente da gramática, retórica e dialética – na Escola dos Canônicos da Igreja de Saint-Vorles, em Châtillon-sur-Seine, e amadureceu lentamente a decisão de entrar na vida religiosa.

Por volta dos 20 anos, entrou em Cîteaux (Cister), uma fundação monástica nova, mais ágil com relação dos antigos e veneráveis mosteiros de então e, ao mesmo tempo, mais rigorosa na prática dos conselhos evangélicos. Alguns anos mais tarde, em 1115, Bernardo foi enviado por Santo Estêvão Harding, terceiro Abade de Cister, a fundar o Mosteiro de Claraval (Clairvaux). O jovem Abade, com somente 25 anos, pôde aqui afinar sua própria concepção da vida monástica e empenhar-se em traduzi-la à prática. Observando a disciplina de outros mosteiros, Bernardo falou com decisão da necessidade de uma vida sóbria e comedida, tanto à mesa como na indumentária e nos edifícios monásticos, recomendando a sustentação e o cuidado dos pobres. Entretanto, a comunidade de Claraval era cada vez mais numerosa e multiplicava suas fundações.

Nessa mesma época, antes de 1130, Bernardo empreendeu uma vasta correspondência com muitas pessoas, tanto importantes como de modestas condições sociais. Às muitas cartas deste período, é preciso acrescentar os numerosos Sermões, como também Sentenças e Tratados. Destaca-se também, nesses anos, a grande amizade de Bernardo com Guilherme, Abade de Saint-Thierry, e com Guilherme de Champeaux, uma das figuras mais importantes do século XII.

De 1130 em diante, começou a ocupar-se de muitas e graves questões da Santa Sé e da Igreja. Por este motivo, teve de sair mais frequentemente do seu mosteiro, inclusive fora da França. Fundou também alguns mosteiros femininos e foi protagonista de um vivo epistolário com Pedro o Venerável, Abade de Cluny, sobre quem falei na última quarta-feira.

Ele dirigiu seus escritos polêmicos sobretudo contra Abelardo, um grande pensador que iniciou uma nova forma de fazer teologia, introduzindo o método dialético-filosófico na construção do pensamento teológico. Outra frente contra a qual Bernardo lutou foi a heresia dos Cátaros, que desprezavam a matéria e o corpo humano, desprezando, por conseguinte, o Criador. Ele, no entanto, sentiu-se no dever de defender os judeus, condenando os cada vez mais difundidos brotos de anti-semitismo. Por este último aspecto de sua ação apostólica, algumas décadas mais tarde, Epharim, Rabino de Bonn, dedicou a Bernardo uma vibrante homenagem. Nesse mesmo período, o santo Abade escreveu suas obras mais famosas, como os celebérrimos Sermões sobre o Cântico dos cânticos.

Nos últimos anos da sua vida – ele faleceu em 1153 –, Bernardo teve de limitar as viagens, ainda que sem interrompê-las totalmente. Aproveitou para revisar definitivamente o conjunto das Cartas, dos Sermões e dos Tratados. Vale a pena mencionar um livro bastante particular, que ele terminou precisamente nesse período, em 1145, quando um aluno seu, Bernardo Pignatelli, foi eleito Papa com o nome de Eugênio III. Nessa circunstância, Bernardo, em qualidade de pai espiritual, escreveu a esse filho espiritual o texto De Consideratione, que contém ensinamentos para poder ser um bom Papa. Nesse livro, que continua sendo uma leitura conveniente para os papas de todos os tempos, Bernardo não indica somente como ser um bom papa, mas expressa também uma profunda visão do mistério da Igreja e do mistério de Cristo, que se resolve, no final, com a contemplação do mistério de Deus uno e trino: “Deveria prosseguir ainda a busca desse Deus que ainda não foi bastante buscado – escreve o santo Abade –, mas talvez se possa buscar e encontrar mais facilmente coma oração que com a discussão. Terminemos, portanto, aqui o livro, mas não a busca” (XIV, 32: PL 182, 808).


Eu gostaria de deter-me somente em dois aspectos centrais da rica doutrina de Bernardo: estes se referem a Jesus Cristo e a Maria Santíssima, sua Mãe. Sua solicitude pela íntima e vital participação do cristão no amor de Deus em Jesus Cristo não traz orientações novas no status científico da teologia. Mas, de forma mais decidida que nunca, o Abade de Claraval configura o teólogo com o contemplativo e o místico.

Só Jesus – insiste Bernardo, frente às complexas reflexões dialéticas do seu tempo – é “mel na boca, cântico no ouvido, júbilo no coração” (mel in ore, in aure melos, in corde iubilum). Daqui provém o título, atribuído a ele pela tradição, de Doctor mellifluus: seu louvor a Jesus Cristo “se derrama como o mel”.

Nas extenuantes batalhas entre nominalistas e realistas – duas correntes filosóficas da época –, o Abade de Claraval não se cansa de repetir que só há um nome que conta, o de Jesus Nazareno. “Árido é todo alimento da alma – confessa – se não for tocado por este óleo; é insípido se não for temperado com este sal. O que escreves não tem sabor para mim, se não leio nele Jesus”. E conclui: “Quando discutes ou falas, nada tem sabor para mim, se não sinto ressoar o nome de Jesus” (Sermões em Cantica Canticorum XV, 6: PL 183,847). Para Bernardo, de fato, o verdadeiro conhecimento de Deus consiste na experiência pessoal, profunda, de Jesus Cristo e do seu amor. E isso, queridos irmãos e irmãs, vale para todo cristão: a fé é, antes de mais nada, um encontro pessoal e íntimo com Jesus; é fazer a experiência da sua proximidade, da sua amizade, do seu amor, e somente assim se aprende a conhecê-lo cada vez mais, a amá-lo e segui-lo cada vez mais. Que isso possa acontecer com cada um de nós!

Em outro célebre sermão do domingo dentro da oitava da Assunção, o santo Abade descreveu em termos apaixonados a íntima participação de Maria no sacrifício redentor do seu Filho: “Ó santa Mãe – exclama –, verdadeiramente uma espada transpassou tua alma! (...) Até tal ponto a violência da dor transpassou tua alma, que com razão podemos te chamar mais que mártir, porque em ti a participação na paixão do Filho superou muito em intensidade os sofrimentos físicos do martírio” (14: PL 183,437-438).

Bernardo não hesita: "per Mariam ad Iesum": através de Maria somos conduzidos a Jesus. Ele confirma com clareza a subordinação de Maria a Jesus, segundo os fundamentos da mariologia tradicional. Mas o corpo do Sermão documenta também o lugar privilegiado da Virgem na economia da salvação, dada sua particularíssima participação como Mãe (compassio) no sacrifício do Filho. Não por acaso, um século e meio depois da morte de Bernardo, Dante Alighieri, no último canto da “Divina Comédia”, colocará nos lábios do Doutor melífluo a sublime oração a Maria: “Virgem Mãe, filha do teu Filho/ humilde e mais alta criatura / término fixo do eterno conselho...” (Paraíso 33, vv. 1ss.).

Estas reflexões, características de um enamorado de Jesus e de Maria, como São Bernardo, provocam ainda hoje, de forma saudável, não somente os teólogos, mas todos os crentes. Às vezes se pretende resolver as questões fundamentais sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo com as únicas forças da razão. São Bernardo, ao contrário, solidamente fundado na Bíblia e nos Padres da Igreja, recorda-nos que sem uma profunda fé em Deus, alimentada pela oração e pela contemplação, por uma relação íntima com o Senhor, nossas reflexões sobre os mistérios divinos correm o risco de serem um vão exercício intelectual e perdem sua credibilidade. A teologia reenvia à “ciência dos santos” a sua intuição dos mistérios do Deus vivo, a sua sabedoria, dom do Espírito Santo, que são ponto de referência do pensamento teológico.

Junto a Bernardo de Claraval, também nós devemos reconhecer que o homem busca melhor e encontra mais facilmente Deus “com a oração que com a discussão”. No final, a figura mais verdadeira do teólogo continua sendo a do apóstolo João, que apoiou sua cabeça no coração do Mestre.

Eu gostaria de concluir estas reflexões sobre São Bernardo com as invocações a Maria, que lemos em sua bela homilia: “Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que seu nome nunca se afaste de teus lábios, jamais abandone teu coração; e para alcançar o socorro da intercessão dela, não negligencies os exemplos de sua vida. Seguindo-a, não te transviarás; rezando a Ela, não desesperarás; pensando nela, evitarás todo erro. Se Ela te sustenta, não cairás; se Ela te protege, nada terás a temer; se Ela te conduz, não te cansarás; se Ela te é favorável, alcançarás o fim” (Hom. II super “Missus est”, 17: PL 183, 70-71).


Papa Bento XVI
Audiência Geral de 21 de outubro de 2009


Não se pode fazer teologia sem experiência de Cristo, afirma Bento XVI



Não se pode fazer teologia sem experiência de Cristo

O Papa dedica a audiência geral ao santo Abade Bernardo de Claraval

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 21 de outubro de 2009 (ZENIT.org) - “Para Bernardo, o verdadeiro conhecimento de Deus consiste na experiência pessoal, profunda, de Jesus Cristo e do seu amor. E isso, queridos irmãos e irmãs, vale para todo cristão”, afirmou hoje o Papa Bento XVI.

O Pontífice dedicou a catequese de hoje, dentro do ciclo de escritores cristãos do primeiro milênio, a São Bernardo de Claraval (1090-1153), Abade cisterciense conhecido como “Doutor melífluo”, pela doçura com que falava de Jesus Cristo.

Este santo escritor foi uma importante figura da Europa medieval, que manteve contato com importantes personalidades do seu tempo e que é reconhecido como “último Padre da Igreja”.

O Papa sublinhou que, mais que ter aberto novos caminhos na teologia, São Bernardo “configura o teólogo com o contemplativo e o místico”, em uma época de duras disputas entre duas importantes correntes teológicas, o nominalismo e o realismo.

“Só Jesus – insiste Bernardo, frente às complexas reflexões dialéticas do seu tempo – é ‘mel na boca, cântico no ouvido, júbilo no coração’”, explicou o Papa.

“O Abade de Claraval não se cansa de repetir que só há um nome que conta, o de Jesus Nazareno”, acrescentou.

Seu exemplo recorda hoje que “a fé é um encontro pessoal e íntimo com Jesus; é fazer a experiência da sua proximidade, da sua amizade, do seu amor, e somente assim se aprende a conhecê-lo cada vez mais, a amá-lo e segui-lo cada vez mais”.

“Que isso possa acontecer com cada um de nós!”, desejou o Papa.

As reflexões deste santo abade “provocam ainda hoje, de forma saudável, não somente os teólogos, mas todos os crentes”, que, às vezes, pretendem “resolver as questões fundamentais sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo com as únicas forças da razão”.

“São Bernardo, ao contrário, solidamente fundado na Bíblia e nos Padres da Igreja, recorda-nos que sem uma profunda fé em Deus, alimentada pela oração e pela contemplação, por uma relação íntima com o Senhor, nossas reflexões sobre os mistérios divinos correm o risco de serem um vão exercício intelectual e perdem sua credibilidade”.

“No final, a figura mais verdadeira do teólogo continua sendo a do apóstolo João, que apoiou sua cabeça no coração do Mestre”, sublinhou o Papa.

Enamorado de Nossa Senhora

Outro dos pontos sobressalentes do pensamento de São Bernardo é sua veneração a Nossa Senhora, sobre quem ele escreveu importantes sermões e orações. Sobretudo, ele se centrou na importância de Maria ao ter acompanhado seu Filho na Paixão.

“Bernardo não hesita: ‘per Mariam ad Iesum’: através de Maria somos conduzidos a Jesus”, afirmou o Papa.

Em seus escritos, o santo “confirma com clareza a subordinação de Maria a Jesus, segundo os fundamentos da mariologia tradicional”, mas “documenta também o lugar privilegiado da Virgem na economia da salvação”.

Bento XVI concluiu sua catequese citando uma belíssima homilia do santo: “Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que seu nome nunca se afaste de teus lábios, jamais abandone teu coração; e para alcançar o socorro da intercessão dela, não negligencies os exemplos de sua vida”.

“Seguindo-a, não te transviarás; rezando a Ela, não desesperarás; pensando nela, evitarás todo erro. Se Ela te sustenta, não cairás; se Ela te protege, nada terás a temer; se Ela te conduz, não te cansarás; se Ela te é favorável, alcançarás o fim”.


Papa Bento XVI
Audiência Geral de 21 de outubro de 2009


Se eu não tiver a caridade, nada sou. Dilatai-vos no amor.



Se eu não tiver a caridade, nada sou. Dilatai-vos no amor.

Eu e o Pai, diz o Filho, viremos a ele, isto é, ao homem santo, e faremos nele a nossa morada (Jo 14, 23). A ele, isto é, ao homem santo. Penso que também o Profeta não falou de outro céu quando disse: Vós habitais na morada santa, ó louvor de Israel (cf. Sl 21, 4: Vulgata). E o Apóstolo afirma claramente: Cristo habita em vossos corações, pela fé (Ef 3, 17).

Não é de admirar que o Senhor Jesus tenha prazer em habitar nesse céu. Para criá-lo, Ele não disse simplesmente: “Faça-se”, como às demais criaturas. Mas lutou para conquistá-lo, morreu para redimi-lo. Por isso, depois de ter sofrido, afirmou com mais ardor: Eis o lugar do meu repouso para sempre, eu fico aqui: este é o lugar que preferi (Sl 131 [132], 14). Feliz da alma à qual se diz: Vem, minha amada; colocarei em ti o meu trono (cf. Ct 2, 10.13: Vulgata).

Por que, agora, te entristeces, ó minh’alma, e gemes no meu peito? (Sl 41 [42], 6). Pensas que também em ti não poderás encontrar um lugar para o Senhor? E que lugar em nós será digno de sua glória e suficiente para sua majestade? Quem me dera merecesse pelo menos adorá-lo no lugar em que colocou seus pés! Quem me dera pudesse ao menos agarrar-me no mínimo às pegadas de alguma alma santa que Ele escolheu por sua herança (Sl 32 [33], 12)! Oxalá Ele se digne infundir em minha alma o óleo de sua misericórdia, de modo que também eu possa dizer: De vossos mandamentos corro a estrada, porque vós me dilatais o coração (Sl 118 [119], 32). Então poderei, talvez, também eu, mostrar em mim mesmo, se não um grande cenáculo preparado, em que Ele possa sentar-se à mesa com seus discípulos, pelo menos um lugar onde possa reclinar a cabeça.

Depois é necessário que a alma cresça e se dilate, para ser capaz de Deus. Ora, sua medida é seu amor, como diz o Apóstolo: Dilatai-vos no amor (cf. 2Cor 6, 13). De fato, embora a alma, sendo espírito, não ocupe uma extensão corporal, contudo a graça lhe concede o que lhe foi negado pela natureza. Cresce e se estende, mas espiritualmente. Cresce e aumenta, até chegar ao estado de adulto, até chegar à estatura de Cristo em sua plenitude (Ef 4, 13). Cresce até se tornar um templo santo no Senhor (Ef 2, 21).

Calcule-se, pois, a grandeza de cada alma pela medida de sua caridade: a que tem muita é grande, a que tem pouca é pequena, a que não tem nenhuma é nada, como diz São Paulo: Se eu não tiver caridade, nada sou (1Cor 13, 2).


São Bernardo de Clairvaux, Abade
Sermo 27, 8-10 in Cantica Canticorum
(Editiones Cistercienses 1, 187-189)
(Dos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos)


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

SÃO BERNARDO DE CLARAVAL - Amo porque amo!



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

Hoje é memória litúrgica do grande Bernardo de Claraval, Abade cisterciense, Doutor da Igreja. Apaixonado pelo Cristo, devotíssimo da Virgem Maria, filho fidelíssimo da Igreja, mestre nas Sagradas Escrituras, monge exemplar! Bernardo é conhecido como Doutor Melífluo, pois seu coração e suas palavras são doces como o mel. O seu Comentário ao Cântico dos Cânticos, é puro mel... Mel que vem da doçura do coração de Deus!

D.Henrique Soares da Costa


“O amor basta-se a si mesmo, em si e por sua causa encontra satisfação. É seu mérito, seu próprio prêmio. Além de si mesmo, o amor não exige motivo nem fruto. Seu fruto é o próprio ato de amar. Amo porque amo, amo para amar!

Grande coisa é o amor, contanto que vá a seu Princípio, volte à sua Origem, mergulhe em sua Fonte, sempre beba donde corre sem cassar.

De todos os movimentos da alma, sentidos e afeições, o amor é o único com que pode a criatura, embora não condignamente, responder ao Criador e, por sua vez, dar-lhe outro tanto. Pois quando Deus ama não quer outra coisa senão ser amado, já que ama para ser amado; porque sabe que serão felizes pelo amor aqueles que o amarem.

O amor do Esposo, ou melhor, o Esposo-amor somente procura a resposta do amor e a fidelidade. Seja permitido à amada responder ao Amor! Por que a esposa - e esposa do Amor – não deveria amar? Por que não seria amado o Amor?

É justo que, renunciando a todos os outros sentimentos, única e totalmente se entregue ao amor, aquela que há de corresponder a ele, pagando amor com amor. Pois mesmo que se esgote toda no amor, que é isto diante da perene corrente do amor do outro?

Certamente não corre com igual abundância o caudal do amante e do Amor, da alma e do Verbo, da esposa e do Esposo, do Criador e da criatura; há entre eles mesma diferença que entre o sedento e a fonte.

E então? Desaparecerá por isto e se esvaziará de todo a promessa da desposada, o desejo que suspira, o ardor da que a ama, a confiança da que ousa, já que não pode de igual para igual correr com o gigante, rivalizar a doçura com o mel, a brandura com o cordeiro, a alvura com o lírio, a claridade com o sol, a caridade com aquele que é a caridade?

Não. Mesmo amando menos, por ser menor, se a criatura amar com tudo o que é, haverá de dar tudo. Por esta razão, amar assim é unir-se em matrimônio, porque não pode amar deste modo e ser menos amada, de sorte que no consenso dos dois haja íntegro e perfeito casamento. A não ser que alguém duvide ser amado primeiro e muito mais pelo Verbo”.


São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor

Sermo 83, 4-6 in Opera Omnia

(Editiones Cistercienses 2, 300-302)

SÃO BERNARDO - Se eu não tiver a caridade, nada sou



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

Se eu não tiver a caridade, nada sou


“Eu e o Pai, diz o Filho, «viremos a ele», isto é, ao homem santo, «e faremos nele a nossa morada» (Jo 14, 23). A ele, isto é, ao homem santo. Penso que também o Profeta não falou de outro céu quando disse: «Vós habitais na morada santa, ó louvor de Israel» (cf. Sl 21, 4: Vulgata). E o Apóstolo afirma claramente: «Cristo habita em vossos corações, pela fé» (Ef 3, 17).

Não é de admirar que o Senhor Jesus tenha prazer em habitar nesse céu. Para criá-lo, ele não disse simplesmente: «Faça-se», como às demais criaturas. Mas lutou para conquistá-lo, morreu para redimi-lo. Por isso, depois de ter sofrido, afirmou com mais ardor: «Eis o lugar do meu repouso para sempre, eu fico aqui: este é o lugar que preferi» (Sl 131 [132], 14). Feliz da alma à qual se diz: «Vem, minha amada; colocarei em ti o meu trono» (cf. Ct 2, 10.13: Vulgata).

«Por que, agora, te entristeces, ó minh’alma, e gemes no meu peito?» (Sl 41 [42], 6). Pensas que também em ti não poderás encontrar um lugar para o Senhor? E que lugar em nós será digno de sua glória e suficiente para sua majestade? Quem me dera merecesse pelo menos adorá-lo no lugar em que colocou seus pés! Quem me dera pudesse ao menos agarrar-me no mínimo às pegadas de alguma alma santa que «ele escolheu por sua herança» (Sl 32 [33], 12)! Oxalá ele se digne infundir em minha alma o óleo de sua misericórdia, de modo que também eu possa dizer: «De vossos mandamentos corro a estrada, porque vós me dilatais o coração» (Sl 118 [119], 32). Então poderei, talvez, também eu, mostrar em mim mesmo, se não um grande cenáculo preparado, em que Ele possa sentar-se à mesa com seus discípulos, pelo menos um lugar onde possa reclinar a cabeça.

Depois é necessário que a alma cresça e se dilate, para ser capaz de Deus. Ora, sua medida é seu amor, como diz o Apóstolo: «Dilatai-vos no amor» (cf. 2Cor 6, 13). De fato, embora a alma, sendo espírito, não ocupe uma extensão corporal, contudo a graça lhe concede o que lhe foi negado pela natureza. Cresce e se estende, mas espiritualmente. Cresce e aumenta, até «chegar ao estado de adulto, até chegar à estatura de Cristo em sua plenitude» (Ef 4, 13). Cresce até se tornar «um templo santo no Senhor» (Ef 2, 21).

Calcule-se, pois, a grandeza de cada alma pela medida de sua caridade: a que tem muita é grande, a que tem pouca é pequena, a que não tem nenhuma é nada, como diz São Paulo: «Se eu não tiver caridade, nada sou» (1Cor 13, 2)”.


São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Sermo 27, 8-10 in Cantica Canticorum
(Editiones Cistercienses 1, 187-189)

SÃO BERNARDO - Espalhar o perfume da compaixão nos pés de Cristo



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

«Espalhar o perfume da compaixão nos pés de Cristo»

“Já vos falei dos dois perfumes espirituais: o da contrição, que se estende a todos os pecados — é simbolizado pelo perfume que a pecadora espalhou nos pés de Jesus: «toda a casa ficou cheia desse cheiro»; há também o da devoção que consolida todas as mercês de Deus. Mas há um perfume que ultrapassa de longe estes dois; chamar-lhe-ei o perfume da compaixão.

Compõe-se, com efeito, dos tormentos da pobreza, das angústias em que vivem os oprimidos, das inquietudes da tristeza, das faltas dos pecadores, em resumo, de toda a dor dos homens, mesmo dos nossos inimigos. Estes ingredientes parecem indignos e, contudo, o perfume em que entram é superior a todos os outros. É um bálsamo que cura: «Felizes os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia» (Mt 5,7).

Assim, um grande número de misérias reunidas sob um olhar compassivo são as essências preciosas. Feliz a alma que cuidou de aprovisionar estes aromas, de neles espalhar o óleo da compaixão e de os pôr a ferver no fogo da caridade! Quem é, no vosso entender, «o homem feliz que tem piedade e empresta os seus bens» (Sl 111,5), inclinado à compaixão, pronto a socorrer o seu próximo, mais contente com dar do que com receber? Quem é esse homem que perdoa facilmente, resiste à cólera, não permite a vingança, e em todas as coisas olha como suas as desgraças dos outros? Quem quer que seja essa alma impregnada do orvalho da compaixão, de coração transbordante de piedade, que se dá inteira a todos, que não é, ela mesma, senão um vaso rachado onde nada é invejosamente guardado, essa alma, tão morta para si mesma que vive unicamente para os outros, tem a felicidade de possuir esse terceiro perfume que é o melhor. As suas mãos destilam um bálsamo infinitamente precioso (cf. Ct 5,5), que não se esgotará na adversidade e que os lumes da perseguição não conseguirão secar. É que Deus lembrar-se-á sempre dos seus sacrifícios”.

São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Sermones sobre el Cantar de los Cantares, 12
Obras completas, BAC, Madrid, 1987

SÃO BERNARDO - Três amores inevitáveis



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

Dom Bernardo Bonowitz, formado em Letras Clássicas no Columbia College de Nova York, em 1970, é Abade do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente (PR). É conhecido internacionalmente por seus artigos e livros sobre São Bernardo, Thomas Merton e Jean Armand de Rance. É ainda autor de vários livros sobre espiritualidade monástica.

“São Bernardo de Claraval considera que todo ser humano, ao longo de sua vida, se depara com três amores «inevitáveis»: o amor por si mesmo, o amor pelo outro e o amor a Deus. O caminho ascético que unifica esses três amores é um caminho para a construção da identidade pessoal de cada um.

Como um de seus mestres, S. Agostinho, Bernardo sempre viu a realidade como algo pessoal e relacional – poderíamos dizer, ele sempre experimentou o elo com a realidade como um elo de amor. O mundo das coisas, e mesmo o mundo da natureza, interessavam-lhe pouco. O que o cativava era a vivência por parte do ser humano de três amores «inevitáveis». Para Bernardo, há três amores inevitáveis porque há três pessoas com as quais estamos sempre e inescapavelmente em relação: eu mesmo, o outro e Deus. Nenhuma destas relações pode ser sacrificada, nenhuma delas deveria ser preferida à outra. É uma questão de se viver cada uma destas relações na verdade, e, de fato, cada uma destas relações tem um tipo particular de verdade e pede um tipo particular de ascese.

Comecemos com a relação eu-eu, que para S. Bernardo é sempre o ponto de partida. Para ele é claro que todos os nossos relacionamentos são altamente influenciados pela nossa experiência de nós mesmos. Todas as nossas outras experiências pessoais são filtradas através da experiência que temos de nós mesmos. É por isto que uma experiência purificada de si mesmo – uma experiência de nós mesmos na verdade – é tão inestimável. Até que atinjamos a verdade sobre nós mesmos, jamais tocaremos a verdade de nosso próximo, nem a verdade de Deus.

Quais são as práticas que nos levam à verdade de nós mesmos, a ser presentes a nós mesmos «em espírito e verdade»? Há muitos textos nos quais S. Bernardo insta seus monges a praticarem certa austeridade física e muitos aonde ele os encoraja a não se desanimarem por causa dos rigores da vida monástica. Mas de fato, para Bernardo, a ascese que conduz ao encontro com o eu tal como ele genuinamente é, é a «interioridade». Seu conselho mais básico para aqueles que querem «se encontrar» é de fazer tudo para não fugirem de si mesmos. Podemos ver isto como o centro do voto monástico de estabilidade. Alguns monges tem a estabilidade na sua cela (cartuxos), outros no claustro do mosteiro (cistercienses), alguns permanecem na sua comunidade de profissão até a sua morte, e outros vão a qualquer mosteiro da ordem para o qual sejam enviados, mas em todos estes casos, o propósito da estabilidade é o de unir-se a si mesmo.

S. Gregório Magno descreveu famosamente a S. Bento como o homem que «habitavit secum» – que vivia consigo mesmo – e esta não é uma tarefa fácil ou automática. Estar presente a si mesmo normalmente gera desconforto e o desejo de se tirar férias do conhecimento de si mesmo. Entretanto, como já foi dito, o objetivo primeiro de todas as práticas monásticas é a experiência da própria verdade. Concretamente, como chegar lá? Através das práticas de silêncio e solidão, através da leitura de textos sagrados e da oração. Acima de tudo, através da recusa de abandonar a si mesmo através da «curiositas». Cada xeretada desnecessária fora de nós mesmos é uma distração que freia e que torna menos efetivo o processo de se ir ao encontro da própria verdade. Vocês poderiam perguntar: «E o que dizer da minha responsabilidade para com meu próximo e a sociedade?» Nós dois, Bernardos, respondemos em uníssono: «Paciência». Isto fica para mais tarde.

O primeiro motivo pelo qual nos submetemos a uma disciplina e deixamos a distração de lado como estilo de vida é para nos conhecer a nós mesmos como somos – nobres e vis, capazes de tudo (mysterium sanctitatis et iniquitatis) – e de descobrir que este conhecimento é salvífico – porque é o Cristo espelhando-se em todos os cantos de nosso ser interior”.


Dom Bernardo Bonowitz
Abade do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo
Trechos da palestra proferida na PUC-SP em 05 de março de 2009

SÃO BERNARDO - Viremos a ele e nele faremos a nossa morada



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

"Viremos a ele e nele faremos a nossa morada"

"«O Pai e eu, dizia o Filho, viremos a casa dele, quer dizer, a casa do homem que é santo, e iremos morar junto dele». E eu penso que era deste céu que o profeta falava quando dizia: «Tu habitas entre os santos, tu, a glória de Israel» (Sl 21,4 Vulg). E o apóstolo Paulo dizia claramente: «Pela fé, Cristo habita nos nossos corações» (Ef 3,17). Não é, pois, de surpreender que Cristo se deleite em habitar nesse céu. Enquanto que para criar o céu visível lhe bastou falar, para adquirir esse outro teve de lutar, morreu para o resgatar. É por isso que, depois de todos os seus trabalhos, tendo realizado o seu desejo, Ele diz: «Eis o lugar do meu repouso para sempre, é ali a morada que eu tinha escolhido» (Sl 131,14).

Agora, portanto, «por que te desolares, ó minha alma, e gemeres sobre mim?» (Sl 41,6). Pensas que podes também encontrar em ti um lugar para o Senhor? Que lugar em nós é digno de tal glória? Que lugar chegaria para receber a sua majestade? Poderei ao menos adorá-lo nos lugares onde se detiveram os seus passos? Quem me concederá ao menos poder seguir o rastro de uma alma santa «que Ele tenha escolhido para seu domínio»? (Sl 31,12)

Possa Ele dignar-se derramar na minha alma a unção da sua misericórdia, para que também eu seja capaz de dizer: «Corro pelo caminho das tuas vontades, porque alargaste o meu coração» (Sl 118,32). Poderei talvez, também eu, mostrar-lhe em mim, senão «uma grande sala toda preparada, em que Ele possa comer com os seus discípulos» (Mc 14,15), pelo menos «um lugar em que Ele possa repousar a cabeça» (Mt 8,20)”.

São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Sermo 27, 8-10
Oeuvres mystiques de Saint Bernard , Paris, Seuil, 1953

SÃO BERNARDO - Senhor, que queres Tu que eu faça?



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

“Senhor, que queres Tu que eu faça?”

"São Paulo, convertido, tornou-se o instrumento da conversão do mundo. Muitos são aqueles que ele converteu a Deus pela sua pregação quando, outrora, vivia ainda na carne mas já não segundo a cerne. Hoje ainda, vivendo em Deus uma vida mais feliz, ele não deixa de trabalhar pela conversão dos homens pelo seu exemplo, a sua oração, a sua doutrina. Sua conversão é útil aos que lhe celebram a memória porque o pecador recebe uma esperança de perdão que o incita à penitência; ou quem já está convertido encontra o modelo de uma conversão perfeita. Como desesperar, seja qual for a enormidade das nossas faltas, quando ouvimos dizer que “Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor” (Act 9,1), foi subitamente transformado em vaso de eleição? Quem ousaria de dizer, sob o peso do seu pecado: “Eu não posso levantar-me para levar uma vida melhor”, quando, na própria estrada em que o seu coração estava totalmente cheio de veneno, o perseguidor encarniçado se tornou subitamente o mais fiel pregador? Só por si, esta conversão ilustra de forma magnífica a misericórdia de Deus e o poder da sua graça.

Eis então o modelo perfeito de conversão. “O meu coração está pronto, Senhor, o meu coração está pronto” (Sl 107,2). “Que queres que eu faça?” (Act 9,6). Palavras breves, mas tão plenas, vivas, eficazes e dignas de serem atendidas! Como se encontra tão pouca gente nesta disposição de obediência perfeita, que tenha renunciado à sua vontade a ponto de que mesmo o seu coração já não lhe pertence. Como se encontram tão poucos que, momento a momento, procurem não o que eles próprios querem mas o que Deus quer e lhe digam : “Que queres tu que eu faça?”

São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Sermón 1º en la Conversión de San Pablo, 1
Obras completas, BAC, Madrid, 1987


SÃO BERNARDO - Vai sentar-te no último lugar!



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

Vai sentar-te no último lugar!

“Se o conhecimento de nós mesmos gera o temor de Deus, e o conhecimento de Deus o amor de Deus, a ignorância de nós mesmos produz o orgulho, e a ignorância de Deus conduz ao desespero. O orgulho se enraíza na ignorância de nós mesmos, uma vez que um pensamento falso e enganador nos leva a imaginar-nos melhores do que somos. Porque o orgulho, raiz de todo pecado, consiste em sermos, aos nossos próprios olhos, maiores do que somos aos olhos de Deus, e na verdade.

Se soubéssemos claramente em que lugar Deus coloca cada um de nós, deveríamos conformar-nos a esta verdade, sem jamais nos colocarmos acima ou abaixo de tal lugar. Mas, na vida presente, os decretos de Deus estão envoltos em sombras e sua vontade, oculta: ninguém pode saber se é digno de amor ou desagrado. Por isto, é mais acertado, segundo o conselho da própria Verdade, escolher o último lugar, de onde irá tirar-nos, com honra para nós, a fim de dar-nos um lugar melhor. Isto é mais conveniente do que escolher um lugar elevado, do qual tenhamos de descer envergonhados.

Se passamos por uma porta cuja trave é muito baixa, podemos abaixar-nos quanto quisermos sem nada recear; mas se acaso nos erguemos, ainda que de um dedo apenas, acima da porta, bateremos com a cabeça. Assim não devemos temer um excesso de humildade, mas recear e detestar o menor movimento de presunção. Não vos compareis, nem aos que são maiores, nem aos que vos são inferiores, nem aos outros, nem a ninguém. Que podeis saber a respeito? Este homem, que vos parece o mais vil e o mais miserável de todos, cuja vida criminosa e particularmente repugnante vos horroriza, pensais poder desprezá-lo; não apenas em comparação convosco, que imaginais viver na sobriedade, na justiça e na piedade, mas também em comparação com todos os criminosos, como se fosse necessariamente o pior dentre eles. Tendes a certeza de que não estará um dia num lugar melhor que o vosso, e de que já não seja, desde agora, melhor aos olhos de Deus?

Por conseguinte, Deus não quis que tomássemos um lugar médio, nem mesmo o penúltimo; ele disse: «Vai sentar-te no último lugar!» (Lc 14, 10), a fim de estares sozinho no derradeiro lugar. Pois então não pensarás, já não digo em te julgares melhor, mas nem mesmo em te comparares com quem quer que seja. Eis o grande mal que resulta da ignorância de si mesmo: o orgulho, origem de todo pecado”.

São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Sermo 37, 6-7 super Cantica in Opera Omnia
(Edit. Cisterc. t. 2, 12-13)

SÃO BERNARDO – Vinde a Mim pelo caminho da humildade



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

«Para ir para onde eu vou, vós sabeis o caminho»

«Eu sou o caminho, a verdade e a vida»

“O caminho que conduz à verdade é a humildade. A humildade é o sofrimento; a verdade é o fruto do sofrimento. Tu poderás perguntar-me: como é que sabes que Ele fala de humildade, se apenas diz: «Eu sou o caminho»? Porém é Ele mesmo que responde quando acrescenta: «aprendei de mim que sou manso e humilde de coração» (Mt 11,29). Ele apresenta-se portanto como exemplo de humildade e de mansidão. Se tu o imitares, não andarás nas trevas mas terás a luz da vida (Jo 8, 12). O que é a luz da vida senão a verdade? Ela ilumina todo o homem que vem a este mundo (Jo 1,9); ela mostra-lhe a verdadeira vida.

Eu vejo o caminho, é a humildade; eu desejo o fruto, é a verdade. Mas que fazer se a estrada é demasiado difícil para que eu possa chegar até onde desejo? Escutai a Sua resposta: «Eu sou o caminho, quer dizer o viático que te sustentará ao longo desta estrada». Àqueles que se enganam e não conhecem o caminho, Ele exclama: «Sou eu que sou o caminho»; àqueles que duvidam e não acreditam: «Sou eu que sou a verdade»; aos que já estão em marcha mas se fatigam: «Eu sou a vida».

Escutai ainda isto: «Eu te bendigo Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste isto – esta verdade secreta - aos sábios e aos inteligentes, quer dizer aos orgulhosos, e as revelaste aos pequeninos, quer dizer aos humildes» (Lc 10,21) . Escutai a verdade a falar àqueles que a procuram: «Vinde a mim, vós que me desejais e sereis saciados com os meus frutos» (Ecl 24,19) e ainda «Vinde a mim, vós todos os que sofreis e tombais sob o peso do vosso fardo que eu vos aliviarei» ( Mt 11, 28). Vinde, diz Ele. Mas para onde? Até mim, a Verdade. Por onde? Pelo caminho da humildade”.

São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Tratado sobre los grados de humildad y soberbia
Obras completas, BAC, Madrid, 1987

sábado, 1 de agosto de 2009

São Bernardo - Ó minha alma, volta ao Verbo para seres transformada por Ele!



“Ó meu Deus, que não poderia eu, confiante, ousar Convosco, cuja nobre imagem e luminosa semelhança sei que trago em mim? Por que deveria eu temer tão alta Majestade, quando posso confiar na nobreza de minha origem? Ajudai-me a conservar a integridade de minha natureza com a inocência da vida! Ensinai-me a embelezar e honrar, com virtudes e afetos dignos, a Celeste Imagem que trago em mim.

Ó minha alma, volta ao Verbo para seres transformada por Ele, para te tornares igual a Ele na caridade! Se amares perfeitamente, desposar-te-ei com Ele. Haverá coisa mais feliz do que esta conformidade? Haverá coisa mais desejável do que o amor pelo qual tu, minha alma, te aproximas espontânea e confiantemente do Verbo, a Ele constantemente adoras, a Ele familiarmente interrogas e consultas em todas as coisas, tão capaz de entender quanto audaz em desejar?

Este é verdadeiramente contrato de espiritual e santo matrimônio! É o amplexo! Sim, é verdadeiramente amplexo porque um idêntico querer e não querer faz de dois um só espírito”.

São Bernardo de Claraval
In Cantica Cant. 83, 1-3
Oeuvres mystiques de Saint Bernard, Paris, 1953

sábado, 30 de maio de 2009

PENTECOSTES – Vigiar no Espírito Santo




Solenidade de Pentecostes
31 de maio

“Temos de estar vigilantes e atentos à obra da salvação que se realiza em nós, porque é com admirável subtileza e com a delicadeza de uma arte divina que o Espírito Santo realiza continuamente esta obra no mais íntimo do nosso ser. Que esta unção que tudo nos ensina não nos seja retirada sem que tenhamos consciência disso, e que a sua vinda não nos apanhe desprevenidos. Pelo contrário, convém-nos estar permanentemente atentos, com o coração totalmente aberto, para recebermos esta bênção generosa do Senhor. Em que disposições quer o Espírito encontrar-nos? “Sede como os servos que esperam o seu senhor, quando ele regressa das núpcias”. Ele nunca regressa de mãos vazias da mesa celeste, mas com todas as alegrias que esta prodigaliza.

Temos, pois, de velar, e de velar em todo o momento, porque nunca sabemos a que horas virá o Espírito, nem a que horas voltará a partir. O Espírito vai e vem (Jo 3, 8); e se, graças à Sua presença, nos mantemos de pé, quando Ele se retira caímos inevitavelmente, mas sem nos magoarmos, porque o Senhor nos sustenta com a sua mão. E o Espírito não cessa de comunicar esta alternância de presença e ausência aos que são espirituais, ou antes, àqueles que tem a intenção de se tornar espirituais. É por isso que os visita de madrugada, pondo-os em seguida subitamente à prova”.


São Bernardo de Claraval, Abade Cisterciense e Doutor
Sermones sobre el Cantar de los Cantares, 17, 2
Obras completas, BAC, Madrid, 1987



quarta-feira, 27 de maio de 2009

MÊS DE MARIA – Sobre a necessidade de recorrer à Santíssima Virgem



“Se as tempestades das tentações se levantam, se cais no escolho das tristezas, eleva teus olhos à Estrela do Mar: invoca a Maria!
Se te golpeiam as ondas da soberba, da maledicência, da inveja, olha a Estrela: invoca a Maria!
Se a cólera, a avareza, a sensualidade de teus sentidos querem afundar a barca de teu espírito, que teus olhos procurem essa Estrela: invoca a Maria!
Se ante a recordação desconsoladora de teus muitos pecados e da severidade de Deus, te sentes ir até o abismo do desalento ou do desespero, lança um olhar para a Estrela: invoca a Mãe de Deus!
Em meio aos perigos, às tuas angústias, às tuas dúvidas, pensa em Maria, invoca a Maria!
O pensar nela e o invocá-la sejam duas coisas que não se afastem nunca nem de teu coração nem de teus lábios. E para estar mais seguro de sua proteção não te esqueças de imitar os seus exemplos.
Seguindo-a não te perderás no caminho!
Implorando a Ela não te desesperarás!
Pensando Nela não te extraviarás!
Se Ela te tem nas mãos não poderás afundar. Debaixo de seu manto nada há que temer. Sob a sua guia não haverá cansaço e com o seu favor chegarás felizmente ao Porto da Pátria Celestial! Amém!”


São Bernardo de Claraval, Doutor da Igreja
Obras Completas, BAC, Madrid, 1953, t. II, PP. 205-206