Mostrando postagens com marcador Ascese. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ascese. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

SÃO BERNARDO DE CLARAVAL - Amo porque amo!



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

Hoje é memória litúrgica do grande Bernardo de Claraval, Abade cisterciense, Doutor da Igreja. Apaixonado pelo Cristo, devotíssimo da Virgem Maria, filho fidelíssimo da Igreja, mestre nas Sagradas Escrituras, monge exemplar! Bernardo é conhecido como Doutor Melífluo, pois seu coração e suas palavras são doces como o mel. O seu Comentário ao Cântico dos Cânticos, é puro mel... Mel que vem da doçura do coração de Deus!

D.Henrique Soares da Costa


“O amor basta-se a si mesmo, em si e por sua causa encontra satisfação. É seu mérito, seu próprio prêmio. Além de si mesmo, o amor não exige motivo nem fruto. Seu fruto é o próprio ato de amar. Amo porque amo, amo para amar!

Grande coisa é o amor, contanto que vá a seu Princípio, volte à sua Origem, mergulhe em sua Fonte, sempre beba donde corre sem cassar.

De todos os movimentos da alma, sentidos e afeições, o amor é o único com que pode a criatura, embora não condignamente, responder ao Criador e, por sua vez, dar-lhe outro tanto. Pois quando Deus ama não quer outra coisa senão ser amado, já que ama para ser amado; porque sabe que serão felizes pelo amor aqueles que o amarem.

O amor do Esposo, ou melhor, o Esposo-amor somente procura a resposta do amor e a fidelidade. Seja permitido à amada responder ao Amor! Por que a esposa - e esposa do Amor – não deveria amar? Por que não seria amado o Amor?

É justo que, renunciando a todos os outros sentimentos, única e totalmente se entregue ao amor, aquela que há de corresponder a ele, pagando amor com amor. Pois mesmo que se esgote toda no amor, que é isto diante da perene corrente do amor do outro?

Certamente não corre com igual abundância o caudal do amante e do Amor, da alma e do Verbo, da esposa e do Esposo, do Criador e da criatura; há entre eles mesma diferença que entre o sedento e a fonte.

E então? Desaparecerá por isto e se esvaziará de todo a promessa da desposada, o desejo que suspira, o ardor da que a ama, a confiança da que ousa, já que não pode de igual para igual correr com o gigante, rivalizar a doçura com o mel, a brandura com o cordeiro, a alvura com o lírio, a claridade com o sol, a caridade com aquele que é a caridade?

Não. Mesmo amando menos, por ser menor, se a criatura amar com tudo o que é, haverá de dar tudo. Por esta razão, amar assim é unir-se em matrimônio, porque não pode amar deste modo e ser menos amada, de sorte que no consenso dos dois haja íntegro e perfeito casamento. A não ser que alguém duvide ser amado primeiro e muito mais pelo Verbo”.


São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor

Sermo 83, 4-6 in Opera Omnia

(Editiones Cistercienses 2, 300-302)

SÃO BERNARDO - Se eu não tiver a caridade, nada sou



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

Se eu não tiver a caridade, nada sou


“Eu e o Pai, diz o Filho, «viremos a ele», isto é, ao homem santo, «e faremos nele a nossa morada» (Jo 14, 23). A ele, isto é, ao homem santo. Penso que também o Profeta não falou de outro céu quando disse: «Vós habitais na morada santa, ó louvor de Israel» (cf. Sl 21, 4: Vulgata). E o Apóstolo afirma claramente: «Cristo habita em vossos corações, pela fé» (Ef 3, 17).

Não é de admirar que o Senhor Jesus tenha prazer em habitar nesse céu. Para criá-lo, ele não disse simplesmente: «Faça-se», como às demais criaturas. Mas lutou para conquistá-lo, morreu para redimi-lo. Por isso, depois de ter sofrido, afirmou com mais ardor: «Eis o lugar do meu repouso para sempre, eu fico aqui: este é o lugar que preferi» (Sl 131 [132], 14). Feliz da alma à qual se diz: «Vem, minha amada; colocarei em ti o meu trono» (cf. Ct 2, 10.13: Vulgata).

«Por que, agora, te entristeces, ó minh’alma, e gemes no meu peito?» (Sl 41 [42], 6). Pensas que também em ti não poderás encontrar um lugar para o Senhor? E que lugar em nós será digno de sua glória e suficiente para sua majestade? Quem me dera merecesse pelo menos adorá-lo no lugar em que colocou seus pés! Quem me dera pudesse ao menos agarrar-me no mínimo às pegadas de alguma alma santa que «ele escolheu por sua herança» (Sl 32 [33], 12)! Oxalá ele se digne infundir em minha alma o óleo de sua misericórdia, de modo que também eu possa dizer: «De vossos mandamentos corro a estrada, porque vós me dilatais o coração» (Sl 118 [119], 32). Então poderei, talvez, também eu, mostrar em mim mesmo, se não um grande cenáculo preparado, em que Ele possa sentar-se à mesa com seus discípulos, pelo menos um lugar onde possa reclinar a cabeça.

Depois é necessário que a alma cresça e se dilate, para ser capaz de Deus. Ora, sua medida é seu amor, como diz o Apóstolo: «Dilatai-vos no amor» (cf. 2Cor 6, 13). De fato, embora a alma, sendo espírito, não ocupe uma extensão corporal, contudo a graça lhe concede o que lhe foi negado pela natureza. Cresce e se estende, mas espiritualmente. Cresce e aumenta, até «chegar ao estado de adulto, até chegar à estatura de Cristo em sua plenitude» (Ef 4, 13). Cresce até se tornar «um templo santo no Senhor» (Ef 2, 21).

Calcule-se, pois, a grandeza de cada alma pela medida de sua caridade: a que tem muita é grande, a que tem pouca é pequena, a que não tem nenhuma é nada, como diz São Paulo: «Se eu não tiver caridade, nada sou» (1Cor 13, 2)”.


São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Sermo 27, 8-10 in Cantica Canticorum
(Editiones Cistercienses 1, 187-189)

SÃO BERNARDO - Espalhar o perfume da compaixão nos pés de Cristo



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

«Espalhar o perfume da compaixão nos pés de Cristo»

“Já vos falei dos dois perfumes espirituais: o da contrição, que se estende a todos os pecados — é simbolizado pelo perfume que a pecadora espalhou nos pés de Jesus: «toda a casa ficou cheia desse cheiro»; há também o da devoção que consolida todas as mercês de Deus. Mas há um perfume que ultrapassa de longe estes dois; chamar-lhe-ei o perfume da compaixão.

Compõe-se, com efeito, dos tormentos da pobreza, das angústias em que vivem os oprimidos, das inquietudes da tristeza, das faltas dos pecadores, em resumo, de toda a dor dos homens, mesmo dos nossos inimigos. Estes ingredientes parecem indignos e, contudo, o perfume em que entram é superior a todos os outros. É um bálsamo que cura: «Felizes os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia» (Mt 5,7).

Assim, um grande número de misérias reunidas sob um olhar compassivo são as essências preciosas. Feliz a alma que cuidou de aprovisionar estes aromas, de neles espalhar o óleo da compaixão e de os pôr a ferver no fogo da caridade! Quem é, no vosso entender, «o homem feliz que tem piedade e empresta os seus bens» (Sl 111,5), inclinado à compaixão, pronto a socorrer o seu próximo, mais contente com dar do que com receber? Quem é esse homem que perdoa facilmente, resiste à cólera, não permite a vingança, e em todas as coisas olha como suas as desgraças dos outros? Quem quer que seja essa alma impregnada do orvalho da compaixão, de coração transbordante de piedade, que se dá inteira a todos, que não é, ela mesma, senão um vaso rachado onde nada é invejosamente guardado, essa alma, tão morta para si mesma que vive unicamente para os outros, tem a felicidade de possuir esse terceiro perfume que é o melhor. As suas mãos destilam um bálsamo infinitamente precioso (cf. Ct 5,5), que não se esgotará na adversidade e que os lumes da perseguição não conseguirão secar. É que Deus lembrar-se-á sempre dos seus sacrifícios”.

São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Sermones sobre el Cantar de los Cantares, 12
Obras completas, BAC, Madrid, 1987

SÃO BERNARDO - Três amores inevitáveis



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

Dom Bernardo Bonowitz, formado em Letras Clássicas no Columbia College de Nova York, em 1970, é Abade do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente (PR). É conhecido internacionalmente por seus artigos e livros sobre São Bernardo, Thomas Merton e Jean Armand de Rance. É ainda autor de vários livros sobre espiritualidade monástica.

“São Bernardo de Claraval considera que todo ser humano, ao longo de sua vida, se depara com três amores «inevitáveis»: o amor por si mesmo, o amor pelo outro e o amor a Deus. O caminho ascético que unifica esses três amores é um caminho para a construção da identidade pessoal de cada um.

Como um de seus mestres, S. Agostinho, Bernardo sempre viu a realidade como algo pessoal e relacional – poderíamos dizer, ele sempre experimentou o elo com a realidade como um elo de amor. O mundo das coisas, e mesmo o mundo da natureza, interessavam-lhe pouco. O que o cativava era a vivência por parte do ser humano de três amores «inevitáveis». Para Bernardo, há três amores inevitáveis porque há três pessoas com as quais estamos sempre e inescapavelmente em relação: eu mesmo, o outro e Deus. Nenhuma destas relações pode ser sacrificada, nenhuma delas deveria ser preferida à outra. É uma questão de se viver cada uma destas relações na verdade, e, de fato, cada uma destas relações tem um tipo particular de verdade e pede um tipo particular de ascese.

Comecemos com a relação eu-eu, que para S. Bernardo é sempre o ponto de partida. Para ele é claro que todos os nossos relacionamentos são altamente influenciados pela nossa experiência de nós mesmos. Todas as nossas outras experiências pessoais são filtradas através da experiência que temos de nós mesmos. É por isto que uma experiência purificada de si mesmo – uma experiência de nós mesmos na verdade – é tão inestimável. Até que atinjamos a verdade sobre nós mesmos, jamais tocaremos a verdade de nosso próximo, nem a verdade de Deus.

Quais são as práticas que nos levam à verdade de nós mesmos, a ser presentes a nós mesmos «em espírito e verdade»? Há muitos textos nos quais S. Bernardo insta seus monges a praticarem certa austeridade física e muitos aonde ele os encoraja a não se desanimarem por causa dos rigores da vida monástica. Mas de fato, para Bernardo, a ascese que conduz ao encontro com o eu tal como ele genuinamente é, é a «interioridade». Seu conselho mais básico para aqueles que querem «se encontrar» é de fazer tudo para não fugirem de si mesmos. Podemos ver isto como o centro do voto monástico de estabilidade. Alguns monges tem a estabilidade na sua cela (cartuxos), outros no claustro do mosteiro (cistercienses), alguns permanecem na sua comunidade de profissão até a sua morte, e outros vão a qualquer mosteiro da ordem para o qual sejam enviados, mas em todos estes casos, o propósito da estabilidade é o de unir-se a si mesmo.

S. Gregório Magno descreveu famosamente a S. Bento como o homem que «habitavit secum» – que vivia consigo mesmo – e esta não é uma tarefa fácil ou automática. Estar presente a si mesmo normalmente gera desconforto e o desejo de se tirar férias do conhecimento de si mesmo. Entretanto, como já foi dito, o objetivo primeiro de todas as práticas monásticas é a experiência da própria verdade. Concretamente, como chegar lá? Através das práticas de silêncio e solidão, através da leitura de textos sagrados e da oração. Acima de tudo, através da recusa de abandonar a si mesmo através da «curiositas». Cada xeretada desnecessária fora de nós mesmos é uma distração que freia e que torna menos efetivo o processo de se ir ao encontro da própria verdade. Vocês poderiam perguntar: «E o que dizer da minha responsabilidade para com meu próximo e a sociedade?» Nós dois, Bernardos, respondemos em uníssono: «Paciência». Isto fica para mais tarde.

O primeiro motivo pelo qual nos submetemos a uma disciplina e deixamos a distração de lado como estilo de vida é para nos conhecer a nós mesmos como somos – nobres e vis, capazes de tudo (mysterium sanctitatis et iniquitatis) – e de descobrir que este conhecimento é salvífico – porque é o Cristo espelhando-se em todos os cantos de nosso ser interior”.


Dom Bernardo Bonowitz
Abade do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo
Trechos da palestra proferida na PUC-SP em 05 de março de 2009

SÃO BERNARDO - Viremos a ele e nele faremos a nossa morada



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

"Viremos a ele e nele faremos a nossa morada"

"«O Pai e eu, dizia o Filho, viremos a casa dele, quer dizer, a casa do homem que é santo, e iremos morar junto dele». E eu penso que era deste céu que o profeta falava quando dizia: «Tu habitas entre os santos, tu, a glória de Israel» (Sl 21,4 Vulg). E o apóstolo Paulo dizia claramente: «Pela fé, Cristo habita nos nossos corações» (Ef 3,17). Não é, pois, de surpreender que Cristo se deleite em habitar nesse céu. Enquanto que para criar o céu visível lhe bastou falar, para adquirir esse outro teve de lutar, morreu para o resgatar. É por isso que, depois de todos os seus trabalhos, tendo realizado o seu desejo, Ele diz: «Eis o lugar do meu repouso para sempre, é ali a morada que eu tinha escolhido» (Sl 131,14).

Agora, portanto, «por que te desolares, ó minha alma, e gemeres sobre mim?» (Sl 41,6). Pensas que podes também encontrar em ti um lugar para o Senhor? Que lugar em nós é digno de tal glória? Que lugar chegaria para receber a sua majestade? Poderei ao menos adorá-lo nos lugares onde se detiveram os seus passos? Quem me concederá ao menos poder seguir o rastro de uma alma santa «que Ele tenha escolhido para seu domínio»? (Sl 31,12)

Possa Ele dignar-se derramar na minha alma a unção da sua misericórdia, para que também eu seja capaz de dizer: «Corro pelo caminho das tuas vontades, porque alargaste o meu coração» (Sl 118,32). Poderei talvez, também eu, mostrar-lhe em mim, senão «uma grande sala toda preparada, em que Ele possa comer com os seus discípulos» (Mc 14,15), pelo menos «um lugar em que Ele possa repousar a cabeça» (Mt 8,20)”.

São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Sermo 27, 8-10
Oeuvres mystiques de Saint Bernard , Paris, Seuil, 1953

SÃO BERNARDO - Senhor, que queres Tu que eu faça?



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

“Senhor, que queres Tu que eu faça?”

"São Paulo, convertido, tornou-se o instrumento da conversão do mundo. Muitos são aqueles que ele converteu a Deus pela sua pregação quando, outrora, vivia ainda na carne mas já não segundo a cerne. Hoje ainda, vivendo em Deus uma vida mais feliz, ele não deixa de trabalhar pela conversão dos homens pelo seu exemplo, a sua oração, a sua doutrina. Sua conversão é útil aos que lhe celebram a memória porque o pecador recebe uma esperança de perdão que o incita à penitência; ou quem já está convertido encontra o modelo de uma conversão perfeita. Como desesperar, seja qual for a enormidade das nossas faltas, quando ouvimos dizer que “Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor” (Act 9,1), foi subitamente transformado em vaso de eleição? Quem ousaria de dizer, sob o peso do seu pecado: “Eu não posso levantar-me para levar uma vida melhor”, quando, na própria estrada em que o seu coração estava totalmente cheio de veneno, o perseguidor encarniçado se tornou subitamente o mais fiel pregador? Só por si, esta conversão ilustra de forma magnífica a misericórdia de Deus e o poder da sua graça.

Eis então o modelo perfeito de conversão. “O meu coração está pronto, Senhor, o meu coração está pronto” (Sl 107,2). “Que queres que eu faça?” (Act 9,6). Palavras breves, mas tão plenas, vivas, eficazes e dignas de serem atendidas! Como se encontra tão pouca gente nesta disposição de obediência perfeita, que tenha renunciado à sua vontade a ponto de que mesmo o seu coração já não lhe pertence. Como se encontram tão poucos que, momento a momento, procurem não o que eles próprios querem mas o que Deus quer e lhe digam : “Que queres tu que eu faça?”

São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Sermón 1º en la Conversión de San Pablo, 1
Obras completas, BAC, Madrid, 1987


SÃO BERNARDO - Vai sentar-te no último lugar!



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

Vai sentar-te no último lugar!

“Se o conhecimento de nós mesmos gera o temor de Deus, e o conhecimento de Deus o amor de Deus, a ignorância de nós mesmos produz o orgulho, e a ignorância de Deus conduz ao desespero. O orgulho se enraíza na ignorância de nós mesmos, uma vez que um pensamento falso e enganador nos leva a imaginar-nos melhores do que somos. Porque o orgulho, raiz de todo pecado, consiste em sermos, aos nossos próprios olhos, maiores do que somos aos olhos de Deus, e na verdade.

Se soubéssemos claramente em que lugar Deus coloca cada um de nós, deveríamos conformar-nos a esta verdade, sem jamais nos colocarmos acima ou abaixo de tal lugar. Mas, na vida presente, os decretos de Deus estão envoltos em sombras e sua vontade, oculta: ninguém pode saber se é digno de amor ou desagrado. Por isto, é mais acertado, segundo o conselho da própria Verdade, escolher o último lugar, de onde irá tirar-nos, com honra para nós, a fim de dar-nos um lugar melhor. Isto é mais conveniente do que escolher um lugar elevado, do qual tenhamos de descer envergonhados.

Se passamos por uma porta cuja trave é muito baixa, podemos abaixar-nos quanto quisermos sem nada recear; mas se acaso nos erguemos, ainda que de um dedo apenas, acima da porta, bateremos com a cabeça. Assim não devemos temer um excesso de humildade, mas recear e detestar o menor movimento de presunção. Não vos compareis, nem aos que são maiores, nem aos que vos são inferiores, nem aos outros, nem a ninguém. Que podeis saber a respeito? Este homem, que vos parece o mais vil e o mais miserável de todos, cuja vida criminosa e particularmente repugnante vos horroriza, pensais poder desprezá-lo; não apenas em comparação convosco, que imaginais viver na sobriedade, na justiça e na piedade, mas também em comparação com todos os criminosos, como se fosse necessariamente o pior dentre eles. Tendes a certeza de que não estará um dia num lugar melhor que o vosso, e de que já não seja, desde agora, melhor aos olhos de Deus?

Por conseguinte, Deus não quis que tomássemos um lugar médio, nem mesmo o penúltimo; ele disse: «Vai sentar-te no último lugar!» (Lc 14, 10), a fim de estares sozinho no derradeiro lugar. Pois então não pensarás, já não digo em te julgares melhor, mas nem mesmo em te comparares com quem quer que seja. Eis o grande mal que resulta da ignorância de si mesmo: o orgulho, origem de todo pecado”.

São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Sermo 37, 6-7 super Cantica in Opera Omnia
(Edit. Cisterc. t. 2, 12-13)

SÃO BERNARDO – Vinde a Mim pelo caminho da humildade



20 de agosto

Solenidade no Calendário Litúrgico Cisterciense

«Para ir para onde eu vou, vós sabeis o caminho»

«Eu sou o caminho, a verdade e a vida»

“O caminho que conduz à verdade é a humildade. A humildade é o sofrimento; a verdade é o fruto do sofrimento. Tu poderás perguntar-me: como é que sabes que Ele fala de humildade, se apenas diz: «Eu sou o caminho»? Porém é Ele mesmo que responde quando acrescenta: «aprendei de mim que sou manso e humilde de coração» (Mt 11,29). Ele apresenta-se portanto como exemplo de humildade e de mansidão. Se tu o imitares, não andarás nas trevas mas terás a luz da vida (Jo 8, 12). O que é a luz da vida senão a verdade? Ela ilumina todo o homem que vem a este mundo (Jo 1,9); ela mostra-lhe a verdadeira vida.

Eu vejo o caminho, é a humildade; eu desejo o fruto, é a verdade. Mas que fazer se a estrada é demasiado difícil para que eu possa chegar até onde desejo? Escutai a Sua resposta: «Eu sou o caminho, quer dizer o viático que te sustentará ao longo desta estrada». Àqueles que se enganam e não conhecem o caminho, Ele exclama: «Sou eu que sou o caminho»; àqueles que duvidam e não acreditam: «Sou eu que sou a verdade»; aos que já estão em marcha mas se fatigam: «Eu sou a vida».

Escutai ainda isto: «Eu te bendigo Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste isto – esta verdade secreta - aos sábios e aos inteligentes, quer dizer aos orgulhosos, e as revelaste aos pequeninos, quer dizer aos humildes» (Lc 10,21) . Escutai a verdade a falar àqueles que a procuram: «Vinde a mim, vós que me desejais e sereis saciados com os meus frutos» (Ecl 24,19) e ainda «Vinde a mim, vós todos os que sofreis e tombais sob o peso do vosso fardo que eu vos aliviarei» ( Mt 11, 28). Vinde, diz Ele. Mas para onde? Até mim, a Verdade. Por onde? Pelo caminho da humildade”.

São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor
Tratado sobre los grados de humildad y soberbia
Obras completas, BAC, Madrid, 1987

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Imitação de Cristo – Obter a liberdade de coração



"Da pura e completa renúncia de si mesmo para obter liberdade de coração”

Jesus: Filho, deixa-te a ti, e achar-me-ás a mim. Despe tua vontade e teu amor-próprio, e sempre tirarás lucro. Porque, logo que te entregares a mim sem reservas, se te acrescentará a graça

A alma: Senhor, em que devo renunciar-me, e quantas vezes?

Jesus: Sempre e a toda hora tanto no muito como no pouco. Nada excetuo, mas quero te achar despojado de tudo. De outra sorte, como poderás ser meu e eu teu, se não estiveres, exterior e interiormente, desapegado de toda vontade própria? Quanto mais prontamente isso fizeres, tanto melhor te acharás, e quanto mais pleno e sincero for teu sacrifício, tanto mais me agradarás e maior lucro terás.

Alguns há que se entregam a mim, mas com alguma reserva, porque não têm plena confiança em Deus, e por isso tratam de prover as próprias necessidades. Outros, a princípio, tudo oferecem, mas depois, combatidos pela tentação, volvem-se novamente às próprias comodidades, e eis por que quase não progridem nas virtudes. Estes nunca chegarão à verdadeira liberdade do coração puro, nem à graça de minha doce familiaridade, enquanto não renunciarem de todo a si mesmos, oferecendo-se em cotidiano sacrifício a Deus, sem o que não há nem pode haver união deliciosa comigo.

Muitas vezes te disse e agora te torno a dizer: deixa-te, renuncia a ti mesmo, e gozarás grande paz interior. Dá tudo por tudo, não busques, não reclames coisa alguma, persevera, pura e simplesmente, em mim, e me possuirás. Terás livre o coração e as trevas não te poderão oprimir. A isto te aplica, isto pede, isto deseja: ser despojado de todo amor próprio, para que possas seguir nu a Jesus desnudado, morrer a ti mesmo e viver eternamente. Então se dissiparão todas as vãs imaginações, penosas perturbações e supérfluos cuidados. Logo também desaparecerá o temor demasiado, e morrerá o amor desordenado."

Thomas de Kempis
Imitação de Cristo
Livro III, Cap. 37

Santa Clara de Assis - O amor esponsal em Clara



Festa 11 de agosto

“O amor esponsal em Clara”

“Santa Clara fez-se esposa do Senhor dos senhores porque se sentiu profundamente afeiçoada pelo Seu irrestrito amor. Por divina inspiração, Clara renunciou a todos os outros amores possíveis para poder entregar-se inteiramente ao único esposo Jesus Cristo. Em outras palavras, com todas as fibras do seu coração, procurou evitar que ‘toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo’(RSC 10,6) desviassem o seu coração do único necessário: Jesus Cristo. Assim, conservando o seu corpo casto e virginal, sem nada de próprio, acolhe Jesus no claustro de seu seio. Por conseguinte, Clara revive espiritualmente o mistério da mãe do Senhor, que humildemente dispôs-se à ação transformadora do Espírito Santo e tornou-se efetivamente a mãe do Filho do altíssimo Pai.

Clara retrai-se do corre-corre da ‘cidade’ e recolhe-se no santuário de sua alma para ali, na mais pessoal e individual solidão, encontrar-se a sós com o Amado. No tálamo do seu coração, no silêncio dos sentidos e do intelecto deixa-se enlevar tanto pelo amor do Amado, ou melhor, do Amante, que todo o seu afeto, amor, carinho, atenção e serviço às suas Irmãs, aos pobres e doentes são manifestações concretas de sua uniformidade com o Espírito de Cristo.

Parte da Segunda Carta de Santa Clara a Santa Inês de Praga:

‘Agradeço ao Doador da graça, do qual cremos que procedem toda dádiva boa e todo dom perfeito (Tg 1,17), pois adornou-a com tantos títulos de virtude e a fez brilhar em sinais de tanta perfeição, para que, feita imitadora atenta do Pai perfeito (cf. Mt 5,48), mereça ser tão perfeita que seus olhos não vejam em você nada de imperfeito (cf. Sl 138,16).

É essa perfeição que vai uni-la ao próprio Rei no tálamo celeste, onde se assenta glorioso sobre um trono estrelado. Desprezando o fausto de um reino da terra, dando pouco valor à proposta de um casamento imperial, você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrimônio.

Veja como por você ele (o Cristo pobre) se fez desprezível e siga-o, sendo desprezível por ele neste mundo. Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens (Sl 44,3), feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz. Se você sofrer com Ele, com Ele vai reinar’ (Fontes Franciscanas e Clarianas)”.

Cit.por franciscanos.org

sábado, 1 de agosto de 2009

São Pedro Julião Eymard – A via do amor



Festa 02 de agosto

A via do amor

O dom de si mesmo é uma meta difícil, mas S.Pedro Julião Eymard mostra às almas o caminho para se chegar até aí, o caminho do amor.

“O discípulo de Cristo pode chegar à perfeição cristã por duas vias. A primeira é a lei do dever: mediante o laborioso exercício das virtudes se vai progressivamente ao amor, que é o vínculo da perfeição. Esta via é uma via longa e trabalhosa, e por ela poucos chegam à perfeição pois, depois de haver subido durante algum tempo pela montanha de Deus, muitos param pelo caminho.

A segunda via é mais curta e mais nobre: é a via do amor. Antes de agir, o discípulo começa a estimar e a amar. O amor segue ao conhecimento e por ele se lança em tudo, como a águia até o cimo da montanha onde o amor tem a sua morada. E ali, como a águia real, contempla o sol do amor para conhecer bem a sua beleza e sua potência.

O amor, eis aqui o primeiro ponto de partida da vida cristã. O amor é o ponto de partida de Deus até sua criatura, de Jesus Cristo até o homem. Nada mais justo, então, que seja também o do homem até Deus. Mas, antes de ser ponto de partida, é necessário que o amor de Jesus Cristo seja um ponto de profundo recolhimento de todas as faculdades do homem, uma escola onde aprender a conhecer a Jesus. E especialmente na oração, a alma conhece Jesus e Ele se revela a ela”.

São Pedro Julião Eymard
La Eucaristía y la vida cristiana

Santo Afonso Maria de Ligório - Agradar a Deus



Festa 01 de agosto

Agradar a Deus

‘Filii hujus saeculi sapientiores filiis lucis’: bem que nos podemos chamar filhos da luz, porque Deus nos fez compreender que nada importa tanto no mundo como entregar-nos totalmente a Deus.

Meus diletíssimos, nós que somos servos de um Senhor tão bom e tão grande, se temos uma fé viva, devemos esforçar-nos por agradar a este Senhor, e cuidar de avançar sempre mais na sua amizade e na sua graça.

Sabe-se que alguém age por Deus se, quando faz alguma coisa, ou pretende fazer, e não o pode fazer, ou deve deixar para depois porque a obediência manda outra coisa, se então não se perturba, mas faz o que é mandado pela obediência, com a mesma alegria com que faria qualquer outra coisa também por Deus.

Quando aquilo que faz, o faz com espírito e com fervor, para agradar a Deus e para dar gosto a Deus; quando não se espanta nem recua diante das dificuldades que encontra, nem deixa de agir por causa do sofrimento ou das fadigas; então verdadeiramente age por Deus, e não por inclinação ou pelo amor próprio.

Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo e Doutor
“Manoscritti inediti”; “Sentimenti di Monsignore”

Santo Afonso Maria de Ligório - Amor total a Cristo



Festa 01 de agosto

Amor total a Cristo

“É belo amar Jesus Cristo de todo o coração. Mas quão pouco são aqueles homens que verdadeiramente nutrem em seu coração um tal afeto. Por isso vemos, com a experiência, que o amor de muitos, e não me engano se digo que da maioria, não só dos cristãos mas até das pessoas chamadas a uma vida santa e perfeita, é feito apenas de palavras, e pouco ou quase nada de atos como deveria ser.

Que significa amar? Que significa amar a Deus de todo o coração? Em se tratando de um simples cristão, significa que observe pontualmente todos os dez mandamentos de Deus, além de observar a lei de Deus e da Igreja. Em se tratando daqueles que buscam a santidade, que procuram tornarem-se santos, significa que observem pontualmente os preceitos que requisita este caminho; que busquem se manter em contínuo recolhimento interior seja em qualquer lugar, em qualquer ação; que não falem em tempo de silêncio, nem nos lugares de silêncio; significa receberem com humildade as correções que lhe forem feitas, especialmente se vierem de Superiores e que se vença e não desobedeça voluntariamente; significa que devem pelo menos suportar as contrariedades do dia a dia com paciência e sem irritar-se e, se possível, caminhar para amar os desprezos, como os santos os amaram; significa que devem amar a mortificação interna e externa ou que ao menos suportem o que Deus lhe manda; significa que devem ser como um pouco de argila nas Mãos do Oleiro Divino”.

Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo e Doutor
“Manoscritti inediti”; “Sentimenti di Monsignore”

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Santo Inácio de Loyola – O amor é o critério da sua vida espiritual



Festa 31 de julho

S. Inácio - O Discernimento a partir da caridade.

“O peso da alma é o amor”. Assim escrevia S. Inácio a um antigo colega da universidade de Paris dando-nos a chave do seu itinerário interior e do próprio carisma da Companhia de Jesus. 450 anos depois da sua morte, Inácio de Loyola, continua a ser reconhecido na Igreja como o grande especialista do discernimento. O que é talvez menos conhecido é a importância dada por S. Inácio ao amor como critério do discernimento afetivamente livre. Segundo os Exercícios Espirituais o desejo de viver em reciprocidade com Jesus, “Eterno Senhor de todas as coisas”, sintetiza-se no exercício de “Contemplação” que é capaz de “alcançar o Amor”. S. Inácio une assim a “ação” com a “Contemplação” (ser alcançado pelo Amor).

“Sair do próprio amor” para abraçar o amor de Cristo foi, para S. Inácio, tal como é hoje para todos os que continuam a seguir a sua espiritualidade, o processo que leva cada homem a ver o “Mundo” para além do “mundo” do seu próprio eu, abandonando-se nas mãos do Pai, na confiança de que só o Seu amor basta.”Dá-me o Teu amor e a Tua graça que isto me basta” dizia S. Inácio. O amor é para S. Inácio o critério averiguador da verdade do discernimento, a condição de possibilidade da autêntica liberdade humana. Para S. Inácio, não é possível reduzir o amor a uma experiência sentimental, intimista ou platônica. O amor é Deus. E Deus é “ativo”, “habita”, “trabalha” em todas as coisas. S. Inácio experimentou este amor e, foi este amor que lhe permitiu encontrar “Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus”. O amor verdadeiro é operativo, concreto, eficaz. Cresce, tende para o “mais”. O importante é libertar o amor de toda a afetividade egoísta, de toda a desordem. Já não se trata de viver apenas para evitar o pecado; trata-se de “amar para poder viver na liberdade” e na “discrição da caridade” colocando “toda a confiança com verdadeira fé e intenso amor no Seu Criador e Senhor”. Sem amor nada fazia sentido, nada podia ser discernido. Não fazia sentido viver em pobreza. A pobreza escolhe-se por amor a Cristo pobre. Não fazia sentido a obediência. O amor é a alma da obediência dizia o P. Pedro Arrupe referindo-se a S. Inácio. Não fazia sentido a Castidade. A castidade sem amor é inútil. Nada sem amor fazia sentido para S. Inácio.


O P. Gonçalves da Câmara a quem S. Inácio contou algumas memórias autobiográficas deixou-nos este traço do perfil de S. Inácio: “Sempre é mais inclinado ao amor. Todo ele parece amor”. O “magistério” de S. Inácio em socorrer os famintos de Roma durante a grande fome de 1538, em proteger e defender os hebreus espoliados dos seus próprios bens, em socorrer os mendigos, em ajudar as prostitutas sem as obrigar a uma vida religiosa forçada nos conventos como era próprio de então, em dar apoio ás mulheres desprotegidas, permite-nos conhecer a grandeza da sua caridade apostólica. A amizade com o Senhor e a amizade com os mais pobres encontram-se unidas na sua experiência mística. Se a experiência do amor de Cristo levava Inácio à prática da caridade como a forma mais elevada de praticar a justiça, esse mesmo amor moveu-o a agir em todas as outras aéreas da vida com o esforço de um sacerdócio erudito, capaz de dialogar com a cultura do seu tempo, combater as heresias e ajudar a transformar a Igreja a partir de dentro do próprio amor. Para S. Inácio a “Maior Glória de Deus” e o “serviço dos homens” coincide no exercício apostólico de quem, dentro e não fora da Igreja, procura “fazer tudo como se dependesse de si, sabendo que tudo depende de Deus”.

S. Inácio amava o mundo e cada ser humano na sua inteireza como ele próprio se sentiu continuamente amado pelo Senhor. Por ser tão amado pelo Senhor fez do amor o critério da sua vida espiritual, do seu governo apostólico, de todas as suas decisões convidando “todos os que aspiram a mais” a viver na liberdade de quem, pondo “mais amor nas obras do que nas palavras” é capaz de “em tudo amar e servir”. É que o mundo, para S. Inácio não é só o cenário onde Deus se revela. O mundo é revelação de Deus. E o discernimento é a capacidade de descobrir os sinais de Deus a partir da caridade.

Pe.Carlos Carneiro, SJ
Cit.por companhia-jesus.pt

Santo Inácio de Loyola – Tomai minha liberdade



Festa 31 de julho

Santo Inácio de Loyola foi o Fundador da Companhia de Jesus (Jesuítas) em 1534. Sua conversão se dá após ser ferido em combate e tendo que se recuperar em casa. Como homem ativo que era, sente dificuldades em permanecer deitado durante sua convalescência e somente encontra algum alívio nas leituras. Acaba absorvido por leituras espirituais, como a vida de Cristo e a biografia de santos. Após sua recuperação, decide fazer uma peregrinação ao Santuário de Montserrat e depois passar um tempo de recolhimento em Manresa, onde inicia os escritos dos Exercícios espirituais, os quais são um importante e seguro guia para a iniciação das almas na vida contemplativa. Os Exercícios espirituais indicam o caminho para a alma seguir até a união com Deus.


"Tomai, Senhor e recebei
toda a minha liberdade, minha memória,
meu entendimento e toda minha vontade
Tudo que tenho e possuo
Vós me destes com amor,e a Vós,
Senhor, vos devolvo com gratidão.
Tudo é vosso;
dispõe de tudo segundo vossa vontade
Dai-me somente o vosso amor e vossa graça,
que isto me basta sem que te peça outra coisa.
Dai-me vosso Amor e Graça,
que elas me bastam."


Exercícios Espirituais 234

Santo Inácio, rogai por nós!



Santo Inácio de Loyola – Os Exercícios Espirituais, uma experiência para encontrar o Deus Vivo



Festa 31 de julho

Exercícios Espirituais

Os Exercícios Espirituais são uma experiência que Santo Inácio iniciou para ajudar outras pessoas a encontrarem-se com um Deus que não está mudo e que não vive distante, lá acima na abóbada celeste. Um encontro forte, vivo, pessoal, que compromete a quem segue generosamente essa ginástica espiritual e que o leva a entender e experimentar que Jesus ressuscitado chama a colaborar com a missão que Ele mesmo teve: levar a Boa Nova. Os Exercícios são um benéfico terremoto interior.

Ainda que Inácio estivesse se restabelecendo da ferida na perna provocada por uma bala de canhão, durante a defesa de Pamplona contra os franceses, teve uma série de experiências interiores que sacudiram energicamente sua vida e foram levando-o a encontrar-se com uma verdade gozosa: quem decide ouvir ao Senhor, pode escutar sua voz, chegar a conhecer, por meio do discernimento, a vontade de Deus e tomar as decisões importantes seguindo o impulso do Espírito. Esta mesma experiência é a que Inácio partilha com seus companheiros de estudo, quando lhes dá os Exercícios Espirituais. Todos eles também perceberam, por meio destas práticas, que eram capazes de ouvir a Deus, que podiam crescer em liberdade, seguir radicalmente a Cristo, amar a Deus inseridos num mundo, a um Deus que vive, trabalha e ama no mundo. Desde então, os Exercícios Espirituais, o método que Inácio descreveu tão cuidadosamente, são a base da formação dos jovens jesuítas e nosso ministério mais típico.

O Livro dos Exercícios, composto na alvorada do Renascimento e na época da Reforma, deveria ter caído de moda há muito tempo. Ao contrário, conserva sua atualidade plenamente. Porque na vida concreta de cada dia, os Exercícios ajudam a reler pessoalmente toda a obra da salvação, para descobrir a vontade amorosa da divina Majestade sobre cada um de nós, por meio do Senhor Jesus, sob a moção sensível do Espírito e, quando reconhecemos a sua ação seguindo os ensinamentos dos Exercícios, isto nos impulsiona a encarnar por meio da eleição que o inspira, o maior serviço, que atualiza hoje em nossa vida, a Obra de Cristo. Os Exercícios Espirituais ajudam também a formar cristãos alimentados por uma experiência pessoal de Deus e capazes, ao mesmo tempo, de distanciar-se dos falsos absolutos das ideologias e sistemas, para comprometer-se com o esforço apostólico único da promoção integral - espiritual, social e cultural - do homem e da humanidade. Deles obtemos uma vida no Espírito mais vigorosa, um amor cada vez mais pessoal ao Filho, que carrega sua cruz, e um desejo mais encarnado de poder "em tudo amar e servir".

Peter Hans Kolvenbach, S.J., Prepósito Geral
Jesuitas.org

Santo Inácio de Loyola – Espiritualidade Inaciana



Festa 31 de julho

Espiritualidade Inaciana

O centro da Espiritualidade Inaciana são os Exercícios Espirituais que Santo Inácio. Inácio, em sua caminhada espiritual foi anotando num livrinho como Deus ia se revelando em vários momentos marcantes de sua vida. Essa experiência de Deus gerou uma espiritualidade singular na Igreja que é característica dos jesuítas, religiosos, sacerdotes e leigos, que descobriram na espiritualidade inaciana um caminho eficaz no seguimento de Jesus.

Assim como toda espiritualidade cristã, ela está centrada na pessoa de Jesus e na Palavra de Deus. Mas por outro lado, toda espiritualidade nasce de uma experiência pessoal de Deus e traz para vida da Igreja sempre um novo matiz. A espiritualidade inaciana tem alguns traços próprios, como por exemplo o ser "contemplativo na ação", o "buscar e encontrar Deus em todas as coisas", o fazer tudo para "a maior Glória de Deus", o "princípio e fundamento", o "discernimento inaciano", "o maior serviço", "o bem mais universal", o "sentir com a Igreja", o "exame de consciência diário", a "aplicação dos sentidos", etc. Todas essas expressões para serem entendidas precisam ser vivenciadas a partir dos Exercícios Espirituais (EE).

Os EE podem ser feitos na vida cotidiana, onde o exercitante sob a orientação de um diretor espiritual não precisa deixar seus afazeres e ir para uma casa de retiros. Como pode também qualquer pessoa fazê-la em oito, ou em trinta dias, dependendo de sua disponibilidade de tempo. Os Jesuítas durante o período da formação fazem o retiro de trinta dias pelo menos duas vezes e, a cada ano fazem um de oito dias como forma de voltar as fontes da espiritualidade que os anima, inspira e determina o seguimento de Jesus e o serviço que eles prestam à Igreja.

Jesuitas.org

quinta-feira, 30 de julho de 2009

São Pedro Crisólogo – Servos inúteis que, livres, servirão somente a Deus



30 DE JULHO

«Livre em face do universo, o homem servirá somente a Deus»

“Assim também vós: quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: Somos servos inúteis! (Lc 17, 10). Assim também vós? Mas onde está a semelhança? Não haverá antes diferença, e grande diferença? O homem não deverá a Deus senão o que pode dever a um homem? É evidente que não! A relação das situações não é a mesma, o fundamento da obrigação é diferente, o compromisso da pessoa é inteiramente diverso. Deus fez o homem existir, Deus mandou-o nascer, Deus lhe deu a vida, Deus lhe dá o conhecimento. Deus lhe fez presente do tempo, dividindo-o em épocas, que lhe concede em vista da sua glória. Deus fez do homem uma criatura aberta à honra, colocou-o à frente dos animais, e colocou-o como senhor da terra inteira, segundo a lei que pronunciou e o tempo que estabeleceu. E como esses dons originais se haviam perdido, Deus os restabeleceu de novo, amplificando-os até a divindade, elevando-os até o céu. Desde homem, a quem ele dera a terra como morada, fez um cidadão do céu.

Assim, o homem poderá conservar, em sua nova condição agora garantida, tudo o que perdera em sua incerta liberdade. Assim, finalmente, livre em face do universo, o homem servirá somente a Deus. Esse serviço, que o homem devia ao Autor do seu primeiro estado e da sua própria existência, ele o deve agora, segundo o Apóstolo, porque Deus o adquiriu, porque Deus o resgatou: «De fato, fostes comprados, e por preço muito alto!» (1Cor 6, 20). «Não vos torneis, pois, escravos de seres humanos» (1Cor 7, 23).

«Senhor», diziam os discípulos, «até os demônios nos obedecem por causa do teu nome» (Lc 10, 17). Mas Jesus os acalma: «Não vos alegreis porque os espíritos se submetem a vós. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos nos céus» (Lc 10, 20). E para que o orgulho deles não lhes retirasse o que haviam ganho com seus esforços, para que evitassem atribuírem a si o que haviam obtido de Deus, Jesus os convida, por meio de uma comparação, à humildade, mãe de toda ciência verdadeira: «Se alguém de vós tem um servo que trabalha a terra ou cuida dos animais, quando ele volta do campo, lhe dirá: Vem depressa para a mesa?» (Lc 17, 7).

Após os trabalhos realizados e o testemunho de múltiplos milagres, os apóstolos se haviam julgado, a si próprios, servos de grande utilidade. Eles esqueciam o peso da terra, do barro de que seus corpos eram feitos. Sua inutilidade, que eles não enxergavam, a traição de Judas tornará manifesta. Ainda mais: Pedro o renega, João foge, todos o abandonam. Então, contemplamos, sozinho, o único no qual subsiste, o único do qual procede a utilidade do servo”.

São Pedro Crisólogo, Bispo e Doutor
Sermo 162(Patrologia Latina 52)

sábado, 25 de julho de 2009

A Luz de Cristo



“A fim de receber no coração a Luz de Cristo, é preciso, tanto quanto possível, desligar-se de todos os objetos visíveis. Tendo antes purificado a alma pela contrição e as boas obras, e cheios de fé em Cristo Crucificado, tendo fechado os olhos de carne, o homem deve mergulhar o espírito no coração para chamar o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo; então, na medida de sua assiduidade e fervor para com o Bem Amado, ele encontra no Nome invocado consolo e doçura, o que o incita a buscar um conhecimento mais elevado.

Quando por meio de tais exercícios o espírito se enraíza no coração, a Luz de Cristo vem brilhar no interior, iluminando a alma com sua divina claridade, como diz o profeta Malaquias: ‘Mas para vós, que temeis seu Nome, o sol de justiça brilhará, que tem a cura em seus raios’ (Mal. l 3:20). Esta luz é também a vida, segundo a Palavra do Evangelho ‘De todo ser Ele era a vida, e a vida era a luz dos homens’ (João 1:4).

Quando o homem contempla dentro de si esta Luz eterna, ele esquece tudo o que é carnal, esquece-se a si mesmo e deseja se esconder nas profundezas da terra para não ser privado deste Bem único, Deus”.

São Serafim de Sarov
Extrato das “Instruções Espirituais”
Saint Séraphim – l’Ange de Sarov
Par Valentine Zander – Editions Bénédictines

Sede misericordiosos como o vosso Pai é Misericordioso



“Não te prendas às suspeitas nem às pessoas que te levam a te escandalizares com certas coisas. Porque aqueles que, de uma forma ou de outra, se escandalizam com as coisas que lhes acontecem, quer as tenham querido quer não, ignoram o caminho da paz que, pelo amor, leva ao conhecimento de Deus os que dela se enamoram.

Não tem ainda o perfeito amor aquele que é ainda afetado pelo temperamento dos outros, que, por exemplo, ama uns e detesta outros, ou que umas vezes ama e outras detesta a mesma pessoa pelas mesmas razões. O perfeito amor não despedaça a única e mesma natureza dos homens só porque eles têm temperamentos diferentes mas, tendo em consideração essa natureza, ama de igual forma todos os homens. Ama os virtuosos como amigos e os maus, embora sejam inimigos, fazendo-lhes bem, suportando-os com paciência, aceitando o que vem deles, não tomando em consideração a malícia, chegando mesmo a sofrer por eles em se oferecendo uma ocasião. Assim, fará deles amigos, se tal for possível. Pelo menos, será fiel a si mesmo; mostra sempre os seus frutos a todos os homens, de igual modo. O Nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, mostrando o amor que tem por nós, sofreu pela humanidade inteira e deu a esperança da ressurreição a todos de igual forma, embora cada um, com as suas obras, atraia sobre si a glória ou o castigo”.

S. Máximo, o Confessor, Monge e teólogo
Centúria 1 sobre o amor, na Filocalia