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sexta-feira, 3 de julho de 2009

São João da Cruz - Amar a Deus com todo o coração



«Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com todas as tuas forças» Mc 12,28-34

“A força da alma reside nas suas potências, impulsos e faculdades. Se a vontade os volta para Deus e os mantém longe de tudo o que não é Deus, a alma reserva para Ele toda a sua força; ama com todas as suas forças, como o próprio Deus lhe manda. Buscar a si mesmo em Deus é buscar as doçuras e consolações de Deus, e isto é contrário ao puro amor de Deus. É um grande mal ter em vista os bens de Deus e não a Deus mesmo, a oração e o desprendimento.

Há muitos que procuram em Deus as suas próprias consolações e gostos, e desejam que Sua Majestade os encha dos seus favores e dons, mas o número dos que se esforçam por agradar-lhe e oferecer-lhe algo de si mesmos, rejeitando qualquer interesse próprio, é muito pequeno. São poucos os homens espirituais, mesmo entre os que temos por muito avançados na virtude, que conseguem uma perfeita determinação de fazer o bem. Não chegam nunca a renunciar por completo a si mesmos em algum aspecto do espírito do mundo ou da natureza, nem a desprezar aquilo que se pensará ou dirá deles, quando se trata de cumprir, por amor a Jesus Cristo, as obras da perfeição e do desprendimento.

Aqueles que amam só a Deus não caminham nas trevas, por muito pobres e privados de luz que possam ver-se aos próprios olhos. A alma que, no meio das securas e abandonos, conserva sempre a sua atenção e solicitude em servir a Deus poderá sofrer, poderá temer não conseguir, mas, na realidade, oferecerá a Deus um sacrifício de agradável odor (Gn 8, 21)”.

São João da Cruz, Doutor da Igreja
«Avisos e Máximas»
Obras completas, Editorial Monte Carmelo


quarta-feira, 1 de julho de 2009

Chiara Lubich – A Fonte da vida está em ti



«A fonte da vida está em ti.» (Sl 36,10)

“Não foi suficiente para o amor do Pai pronunciar a Palavra com a qual tudo foi criado. Ele quis que a sua própria Palavra assumisse a nossa carne. Deus, o único verdadeiro Deus, fez-se homem em Jesus e trouxe à terra a fonte da vida. A fonte de todo o bem, de todo o ser e de toda a felicidade veio ficar entre nós, para que a tivéssemos, por assim dizer, ao alcance de nossas mãos. «Eu vim para que tenham a vida, e a tenham em abundância», disse Jesus. Ele preencheu de si cada momento e espaço da nossa existência. E quis permanecer conosco para sempre, de modo a ser reconhecido e amado sob as mais diferentes vestes. Às vezes chegamos a pensar: "Como seria bom viver no tempo de Jesus!" Pois bem, o seu amor inventou um modo de permanecer em todos os pontos da Terra. Conforme a sua promessa, Ele se faz presente na Eucaristia. E ali podemos saciar a nossa sede para nutrir e renovar a nossa vida.

«A fonte da vida está em ti.»

Outra fonte de onde extrair a água viva da presença de Deus é o irmão, a irmã. Se nós amamos cada próximo que passa ao nosso lado, especialmente o mais necessitado, não podemos considerá-lo um nosso beneficiado, mas um nosso benfeitor, porque ele nos doa Deus. De fato, amando Jesus nele - «Pois eu estava com fome, estava com sede, eu era estrangeiro, estava na prisão» - recebemos em troca o seu amor, a sua vida, porque Ele mesmo, presente nos nossos irmãos e irmãs, é a nascente para nós.



Uma fonte rica de água é também a presença de Deus dentro de nós. Ele sempre nos fala, e cabe a nós escutar a sua voz que fala na nossa consciência. Quanto mais nos esforçamos em amar a Deus e o próximo, tanto mais a sua voz se torna forte e supera todas as outras. Mas existe um momento privilegiado no qual, como em nenhum outro, podemos gerar a sua presença dentro de nós: é quando rezamos e procuramos aprofundar o nosso relacionamento direto com Ele, que habita no fundo do nosso coração.

É comparado ainda a um profundo lençol d'água que jamais seca, que está sempre à nossa disposição e que pode saciar a nossa sede a cada instante. Bastará fechar por um momento as janelas da alma e recolher-nos para encontrar esse manancial, mesmo estando no mais árido deserto. Até alcançar aquela união com Ele na qual sentimos que não estamos mais sós, e somos dois: Ele em mim e eu n'Ele. Todavia, somos um - por sua graça - como a água e a nascente, a flor e a sua semente.

A Palavra do Salmo nos lembra que somente Deus é a fonte da vida e, por isso, da comunhão plena, da paz e da alegria. Quanto mais nos saciarmos desta fonte, quanto mais vivermos desta água viva que é a sua Palavra, tanto mais nos aproximaremos uns dos outros e viveremos como irmãos e irmãs. Então se realizará, como continua o Salmo: «Quando nos iluminais, vivemos na luz», aquela mesma luz que a humanidade espera.”

Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares
Palavra de vida, Jan de 2002

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Papa João XXIII – Exemplo de sacerdócio para o Ano Sacerdotal



Papa Giovanni XXIII
Nove anos de sacerdócio
Exercícios Espirituais
Martinengo, 19 a 25 de outubro de 1913


“É a sétima vez que me recolho neste lugar santo e agradável para pensar na minha alma. O dever principal que se me impõe é sempre o mesmo: bendizer ao Senhor, que continua a amar-me, preservando-me de quedas graves e confundindo-me no meu nada. Apenas digo ao Senhor: eis-me aqui, disposto a tudo, para as alegrias e também para as dores. ‘Para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro’( FL 1, 21). Pensava pedir que me aliviassem um pouco o peso das minhas ocupações, indicando as que correspondem melhor ao meu temperamento. Mas decidi não fazer nada. Os superiores sabem tudo e isso me basta; sobretudo, se não me perguntarem, evitarei mostrar-lhes as minhas preferências por uma ou outra espécie de ocupações. Continuemos em frente, como sempre me repete o meu padre espiritual, com a cabeça no saco da Providência Divina.

Talvez estes sete anos passados já só signifiquem a abundância por parte de Deus para comigo. Não poderiam, porventura, começar agora os sete anos de escassez? Merecê-los-ia, tendo em conta a minha falta de correspondência a tantas graças. Portanto, que venha de bom grado a escassez purificadora; que venham as amarguras, as humilhações e as dores. Aceitá-las-ei de boa vontade, como prenda da sinceridade dos meus sentimentos de amor a Jesus. Portanto, será para mim uma satisfação aceitar com santo prazer todas as ocasiões, grandes e pequenas, que eu tiver durante o dia de confundir-me, de mortificar o meu amor próprio, sem, de forma alguma, revoltar-me, contente (como o caracol que recolhe – e trabalha fechado em si mesmo – as gotas do orvalho caído do céu). Não me importa que me humilhem, desde que tudo seja para glória de Deus e para meu verdadeiro bem, para santificação do meu espírito. Procurarei viver neste contínuo sentimento da minha pequenez e indignidade, e quando alguma coisa me molestar, serei feliz em repetir”.


Beato Papa João XXIII
Diário da alma, 3ªp., pp.222-223

terça-feira, 19 de maio de 2009

Sobre o juízo dos homens e o amor próprio



“Ó morte, que doce é a tua sentença (Sir 41,2). Para que penso no amanhã? Devo fazer, com toda a diligência do espírito, tudo quanto Deus quer de mim em cada momento, deixando que Ele se preocupe com o futuro.

A idéia dos exames assusta-me; não sei como apresentar-me aos meus professores, a todo o corpo docente reunido, para provar que estudei. E o que fará minha alma, sozinha, pobre pecadora, diante de toda a corte celestial, diante de Jesus, Juiz divino? Os santos tremiam de espanto só ao pensá-lo, escondiam-se nos desertos, e eram santos. Quão louco sou! Tremo quando não há razão e no que deveria preocupar-me, penso pouco. Tenho, pois, que ser mais objetivo. Menos medo dos exames aqui da terra, e mais aplicação para ganhar méritos e fazer boas obras que me suavizem o juízo de Deus.

Porque tanta angústia e preocupação com o êxito? No fundo é tudo por causa da opinião que possam ter acerca da minha pessoa, porque sou escravo do juízo dos homens, escravo do meu amor próprio. Que insensatez! O que me importa o juízo dos homens? Serão eles que hão de premiar-me? Não são para Deus, afinal, todos os meus atos? Tenho de aprender a enfrentar o juízo dos homens, a despreocupar-me, a não deixar que me afete de modo nenhum, porque, no futuro desempenho do ministério sacerdotal, me verei obrigado, com freqüência, a contrariá-lo e a desafiá-lo, se quiser fazer algum bem. ‘Se tratasse de agradar aos homens, não agradaria a Deus’, dizia São Paulo.

O meu pai espiritual insiste em que, durante os santos Exercícios, me ocupe sobretudo do meu amor próprio, do outro eu, pois não serei realmente grande, nem útil para nada, enquanto não me despojar por completo de mim mesmo. O amor próprio. Que problema, se bem pensarmos. Quem terá conseguido definir em que consiste? Que filósofo se terá ocupado dele? E é a questão mais importante que trazemos entre as mãos, uma questão decisiva. E quem pensa nisso? Contudo, Jesus Cristo – e estou a vê-lo nas meditações destes dias – nos seus ensinamentos, mais não fez do que indicar-nos como havemos de lutar, na prática, contra esse inimigo mortal que corrompe todas as nossas ações.


É uma exposição, um conjunto doutrinal admirável, que me dá o que pensar; embora não seja a primeira vez que o ouço, mostra-me certos aspectos que me parecem novos, revela-me certos aprofundamentos desconhecidos e maravilhosos. Mas – e aqui aumenta o espanto – a vida de Jesus, considerada sob esse aspecto, é uma revolução em toda a linha, uma contradição dos modos de ver, sentir, raciocinar, mesmo das pessoas piedosas e realmente boas.

Quanto a nós, ou somos santos de todo, esforçando-nos por alcançar o terceiro grau de humildade, isto é, querer padecer e ser menosprezado, ou não somos nada: com o primeiro grau, as lições de Jesus quase ficam sem fruto e o amor próprio só aparentemente é anulado. É essa a conclusão. Mas então, o que ando a fazer se nem sequer alcancei o primeiro grau da humildade?

Amável Jesus, prostro-me aos vossos pés, certo de que sabereis realizar aquilo que nem sequer sou capaz de imaginar. Quero servir-vos até onde quiseres, custe o que custar, sob pena de qualquer sacrifício. Não sei fazer nada; não sei humilhar-me; a única coisa que sei dizer-vos e vos digo firmemente é: quero humilhar-me, quero amar a humilhação, a falta de atenções que o meu próximo tiver para comigo; lanço-me de olhos fechados, de boa vontade, no mar de desprezos, sofrimentos e abjeções a que vos agrade sujeitar-me. Sinto repugnância em vos dizer, sinto angústia no coração, mas prometo isso a Vós. Quero sofrer, quero ser desprezado por vosso amor. Não sei o que vou fazer, nem sequer acredito em mim mesmo, mas não desisto de o querer com toda a força da minha alma: padecer e ser desprezado por teu amor”.


Seminarista Angelo Giuseppe Roncalli (Papa João XXIII)
Diário de uma alma, (2ª parte, no Seminário de Roma)


sábado, 28 de março de 2009

A Voz do silêncio



"A Voz do silêncio

Introversão

É de todo necessário a volta ao interior, entrar dentro de nós mesmos, para que Deus nasça na alma. Urge alcançar um forte impulso de recolhimento, recolher e introduzir todas as nossas potências, inferiores e superiores, e trocar a dispersão pela concentração, pois, como dizem, a união faz a força. Quando um atirador pretende um golpe certeiro no branco, fecha um olho para fixar melhor com o outro. Assim também quem quer conhecer algo a fundo necessita que todos os seus sentidos convirjam a um mesmo ponto a fim de dirigi-los ao centro da alma de onde saíram.

Ao encontro do Senhor

Assim, nos teremos disposto para sair ao encontro do Senhor. Saiamos agora e avancemos por cima de nós mesmos até Deus. É necessário renunciar a todo querer, desejar ou atuar próprio. Nada mais que a intenção pura e desnuda de buscar só a Deus, sem o mínimo desejo de buscar-se a si mesmo nem coisa alguma que possa redundar em seu proveito. Com vontade plena de ser exclusivamente para Deus, de conceder-lhe a morada mais digna, a mais íntima a fim de que Ele nasça e leve a cabo a sua obra em nós, sem impedimento algum.

Com efeito, para que haja fusão entre duas coisas é necessário que uma seja paciente e a outra se comporte como agente. Unicamente quando o olho está limpo é que poderá ver um quadro pregado na parede ou qualquer outro objeto. Isso seria impossível se houvesse outra pintura gravada na retina. O mesmo ocorre com o ouvido: enquanto um ruído lhe ocupa, está impedido de captar outro. Como conclusão, o recipiente é tanto mais útil quanto mais puro e vazio.

A isto se referia Santo Agostinho quando disse: “Esvazia-te para seres preenchido, sai para entrar”. E em outro lugar: “Oh, tu, alma nobre, nobre criatura, porque buscas fora a quem está plena e manifestadamente dentro de ti? És partícipe da natureza divina, porque então escravizar-te às criaturas?”.


Vazio e plenitude

Se de tal modo o homem preparasse a sua morada, o fundo da alma, Deus o preencheria sem dúvida alguma, se lhe daria em abundância. Romperiam-se os céus para preencher o vazio.

A nossa natureza tem horror ao vazio, dizem. Então, quanto seria contrário ao Criador e à sua justiça, abandonar uma alma assim disposta! Escolhe pois um dos dois: calar, tu, e falar Deus ou falar, tu, para que Ele se cale. Deves fazer silêncio.

Então, será outra vez pronunciada a Palavra que tu poderás entender e nascer: Deus na alma. Em troca, tens por certo que se tu insistires em falar, nunca ouvirás a sua Voz. Manter nosso silêncio, aguardando a escuta do Verbo é o melhor serviço que lhe podemos prestar. Se saíres de ti completamente, Deus de novo se te dará em plenitude. Porque à medida que tu sais, Ele entra. Nem mais nem menos.

Silêncio da alma

A esse sossego do espírito se refere o cântico da Missa que começa: “Quando um sossegado silêncio tudo envolvia” (Sb 18, 14). Em pleno silêncio, toda a criação calava na mais alta paz da meia noite. Então, oh Senhor, a Palavra onipotente deixou seu Trono para acampar em nossa tenda (Liturgia de Natal). Será então, no ponto culminante, no apogeu do silêncio, quando todas as coisas ficaram submersas na calma, somente então, se fará sentir a realidade desta Palavra. Porque, se queres que Deus fale, faz falta que tu cales. Para que Ele entre, todas as coisas deverão ter saído”.


Johannes Tauler, O.P. (Juan Tauler/1300-1361)
Instituciónes, Temas de oración


quarta-feira, 25 de março de 2009

O Silêncio



“O silêncio tem uma dupla maneira de se impor a nós: provém da nossa pobreza ou brota de uma plenitude. Frequentemente é necessário que o silêncio nos chegue através do sentimento de nossa pobreza. Isto acontece muito simplesmente quando nos damos conta de que não somos capazes de pronunciar a palavra como se deveria. Jesus se mostrou severo em confronto com as palavras inúteis pronunciadas pelo fiel com leviandade (cf. Mt 12, 36). A palavra foi dada ao homem para dar testemunho da Palavra de Deus, para dar graças, bendizer e adorar a Deus. Ao invés disso, nossas palavras tornaram-se uma das ocasiões mais fáceis para ofender a Deus, para ferir os irmãos e assim, faltar com a caridade, infringir a lei do amor. Uma certa discrição no falar é sinal de que somos conscientes disto e de que desejamos sinceramente não pronunciar outras palavras senão aquelas que chegaram à maturidade em nosso coração. Um tal silêncio provém, antes de tudo, de um vazio em nós, mas de um vazio lucidamente vivido e aceito.

Mas existe um outro silêncio: aquele que brota de uma plenitude que existe em nós. Santo Isaac, o sírio, escrevia: «Esforça-te, antes de tudo, por calar-te. Disto nascerá em nós o que nos conduzirá ao silêncio. Que Deus te conceda, então, de sentir o que nasce do silêncio. Se fazes assim, levantar-se-á em ti uma luz que não sei explicar. Da ascese do silêncio nasce no coração, com o tempo, um prazer que impele o corpo a permanecer pacientemente na paz. E vêm as lágrimas abundantes, primeiro no sofrimento, depois no êxtase. O coração, então, sente o que discerne no profundo da contemplação maravilhosa».


Este silêncio é já oração ou, segundo ainda Santo Isaac, «linguagem dos séculos vindouros». O silêncio testemunha a plenitude da vida de Deus em nós, plenitude que deve renunciar a toda palavra humana para exprimi-la de maneira adequada. Por um certo tempo, somente as palavras da Bíblia conseguem ainda expressá-la um pouco, mas depois chega o momento, no qual somente o silêncio pode dar conta da extraordinária riqueza que nos foi dado descobrir no nosso coração.

É este um silêncio que se impõe com doçura e com força ao mesmo tempo, mas de dentro para fora. A oração torna-se lei de si mesma. Ela faz compreender quando é necessário calar e quando é necessário falar. É puríssimo louvor, e ao mesmo tempo, uma assombrosa irradiação. Um silêncio assim jamais fere alguém. Ele estabelece ao redor do silencioso uma zona de paz e de quietude, na qual Deus pode ser percebido como presente, de maneira irresistível. «Guarda o teu coração na paz», dizia São Serafim de Sarov, «e uma multidão ao teu redor será salva».

Louf, A., La voie cistercienne, 97-98.


sábado, 21 de março de 2009

A Vida Interior



“Jesus, nos Evangelhos, é o Divino Semeador, que por todos os caminhos vai derramando os tesouros de amor de um Coração ávido de aproximar dos homens a Verdade e a Vida. Transmite, às almas e à Igreja, essa chama, dom de seu Amor, difusão de sua Vida, expressão de sua Verdade, reflexo de sua Santidade. Que essa chama chegue até as almas que, com todo o zelo e ardor, se expõem pela atividade em seus trabalhos, com o perigo de não serem, antes de tudo, almas de vida interior, e que talvez algum dia, amarguradas por fracassos inexplicáveis em aparência ou por graves danos em seus espíritos, possam sentir a tentação de abandonar a luta e recolherem-se em suas tendas cheias de abatimento. Que todos possam compreender a necessidade de sua vida não ser apenas piedosa, mas profundamente interior, a fim de que seu zelo ganhe eficácia, dando inúmeros frutos e perfumando tudo e todos com o Espírito de Cristo, que lhes dará a sua Paz inalterável, a qual, embora através de quaisquer provas, por mais duras que possam ser, será sempre a sua fiel companhia.

“Eu vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10). Estas palavras são tão precisas como luminosa é a parábola da videira e dos sarmentos com que o Mestre clareia esta verdade. Com que insistência quer gravar no coração de suas almas o princípio fundamental de que só Ele, Jesus, é a VIDA, e que para participar desta vida e comunicá-la aos demais, é preciso ser um imitador seu, mediante uma vida interior com Ele. Quem aceitar a honra de colaborar com Jesus na transmissão desta vida divina às almas, deve refletir que são apenas canais ligados à essa Fonte única, para tomar dela a vida a ser distribuída. Que as almas se ocupem das obras juntamente com a prática da vida interior, a fim de que possam agir e saber sempre que Jesus é o único princípio da Vida. Eis aqui a enorme importância da vida interior, a única que pode fazer das obras exteriores um ministério frutuoso e pleno de amor e serviço aos irmãos.



Mas o que é vida interior?

A vida interior, também chamada vida contemplativa, é o caminho que a alma trilha dentro de si mesma em busca da intimidade com Cristo e de viver no seu amor; vida interior essa, que vai infundindo na alma a graça santificante que a transfigura em doação e amor a Deus e a todos os irmãos, em uma incessante imitação de Cristo Amor.

A vida interior visa entre muitas outras coisas, estimular as almas que preferem o descanso ao trabalho; fortificar as almas adormecidas no egoísmo que fomenta a inatividade; sacudir a indiferença dos indolentes, induzir a uma quietude interior que permita ouvir a Voz do Senhor e a fazer a sua Vontade, livrar das perturbações provenientes do orgulho e vaidade por obras realizadas; ajudar aos esforços que a alma faz para adquirir as virtudes; conduzir o caminho para Deus.

Os caminhos de Deus levam ao selo da sabedoria e da bondade e, por isso mesmo, o caminho das almas entregues à vida interior é verdadeiramente maravilhoso. Quando essas almas sabem oferecer-se a Deus e por amor a Deus nessa vida interior, a pena que lhes produz o privar-se de Deus em obséquio das obras de Deus, é verdadeiramente grande. Essa pena tem a sua paga, porque graças a ela desaparecem os perigos de dissipação, amor próprio e afeições desordenadas; também as faz mais reflexivas e fomenta nelas a prática da presença de Deus, porque a alma encontra na graça do momento presente a Jesus vivente, que se oferece oculto na obra que realiza, trabalhando com ela e sustentando-a.

O trabalho da vida interior é importantíssimo porque não aperfeiçoa a alma em uma profissão determinada mas em sua própria formação. O esforço constante em dominar-se a si mesma para trabalhar pelos irmãos, pela Igreja e pela glória de Deus é o ideal da alma que quer adquirir a vida interior e dar muitos frutos no mundo junto a seus irmãos. E para consegui-lo, a alma põe todo o seu esforço em estar sempre unida a Jesus em uma vida interior de intimidade e amor ao Salvador”.


D. Jean-Baptiste Gustave Chautard
L’âme de tout Apostolat


quinta-feira, 12 de março de 2009

É preciso passar pelo deserto



"Na Quaresma, o Espírito sempre nos convida a entrar no deserto.

O nosso deserto deve ser de solidão interior, exterior ou ambas, de desapego de coisas e pessoas, fatos ou tempos. É fundamental e necessário ir ao deserto que é estar só em si mesmo para uma escuta mais profunda da voz do Senhor. Sentir o sol forte do dia até a exaustão e o frio cortante das longas noites que nos faz encolher como que querendo abraçar o próprio ser.

Em cada difícil passo sobre a areia escaldante, nossa respiração deve ser sentida. Nosso coração acelerado nos sinalizará que estamos vivos, que algo em nós pulsa e que não estamos mortos. A cada passada, não deverá brotar lamento em nossos lábios; somente a gratidão nos fará levantar novamente os pés para dar um passo após o outro.

Lembranças são bem-vindas, porém não podem nos prender, quando a saudade é maior que a realidade que nos cerca. Então é hora de fazermos uma escolha: passado, presente ou futuro? O passado não será transformado, é bagagem que temos que carregar no percurso da nossa viagem; no presente estamos vivos, agora neste momento é o nosso tempo; o futuro é incerto, não nos pertence. Não devemos olhar as pegadas, como surpreendidos pelo tanto que já andamos, mas devemos olhar para frente, focar nos desafios que teremos de enfrentar. Tomar consciência do hoje com esperança de vida no amanhã, esse é o grande segredo de sermos perseverantes, de não titubearmos e de sairmos do deserto sobreviventes profundamente transformados.

Nosso horizonte deverá ser nosso objetivo, nada de perder tempo fantasiando oásis, coqueiros e lagos paradisíacos. Tenhamos um foco, uma meta e sigamos em frente sempre independente da escaldante areia sob os pés ou do ar gelado das noites.


Nesta jornada somos convidados a nos desapegar ou nos livrar dos pesos, das malas, pacotes, pertences excessivos. No início da viagem com toda certeza estaremos equipados com tudo aquilo que imaginamos precisar... coisas supérfluas. A intenção é que consigamos nos desprender. Conforme caminhamos perceberemos que tudo de que necessitamos para chegar vitoriosos a nosso destino está dentro de nós mesmos e não fora. Porém, até aquilo que levamos dentro deve ser selecionado e, de certa forma, purificado. Se atravessarmos o véu de luz completamente nus então a jornada terá valido a pena.

A tentação virá: – Você podia ter ficado em casa! – Volte, desista, ainda há tempo! – Pare um pouco e descanse, deite só um pouquinho, durma! – Você não vai conseguir! – Não se desapegue; você sentirá fome, sede, frio!

Porém, não podemos nos esquecer de que quem nos convidou para entrarmos no deserto não foi ninguém mais que o Espírito Santo. Ele segue conosco e em nós agindo quando permitimos.

Ser provado não é fraqueza ou quer dizer que estamos tão pecaminosos que precisamos da prova. É sim, a imensa e inigualável oportunidade que o Espírito nos reserva de manifestarmos nossa fé, nossa adesão e fidelidade a Deus. Assim como Jesus, também nós poderemos sair não só vencedores do deserto, mas transformados para melhor servir e amar a Deus e aos irmãos".


Pe. Luís Erlin, Missionário


quarta-feira, 11 de março de 2009

Oração do Deserto: Leva-me ao deserto Contigo, Senhor!



“Leva-me ao deserto Contigo, Senhor!
Escutarei o silêncio que fala
e a Palavra que ressoa.
Me sentirei preparado para a missão,
para assim oferecer-me até desgastar-me
Contigo e por Ti, meu Senhor.
Por que vás a um deserto, Jesus?
Que Te trazem a areia e as montanhas
sem alimento nem nada com que Te sustentar?

O deserto fala
quando o mundo cala.
Faz o corpo e a fé fortes e resistentes
ante tantas coisas que os debilitam.
Leva-me Contigo ao deserto, Senhor,
porque sem sentir necessidade de estar
na aridez desta terra desértica,
também aqui e agora sou tentado:
pelo afã de ter,
pelo desejo do poder,
pela ambição de ser adorado.


Contigo no deserto, Senhor,
serei fiel até o final.
Me prepararei para a dureza da cruz,
sairei vitorioso frente ao mal.
Romperei com aquelas tentações
que me perseguem como se fossem
minha própria sombra.
Dá-me, Senhor, força para triunfar sobre elas.
Concede-me a valentia necessária
para demonstrar-Te minha fidelidade e minha entrega.

Quero estar Contigo no deserto, Senhor,
com Deus Fortaleza,
com Deus Salvação,
com Deus Poderoso,
com Deus Santo,
com Deus, Único Deus.
Quero subir Contigo, Senhor,
para celebrar Tua Páscoa.
Amém”.

Padre Javier Leoz



terça-feira, 10 de março de 2009

Recolhimento interior



“ Se alguém quiser seguir-Me, diz o Senhor, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-Me” Mt 16, 24

“Para isso tem que buscar que o pensamento se aquiete. Não é possível que os olhos se movam continuamente de um lado para o outro, para cima e para baixo, e vejam com nitidez os objetos. Somente quando se fixa o olhar, a visão é clara. Do mesmo modo, é impossível que a mente de um homem que se deixa levar pelas infinitas preocupações deste mundo, contemple clara e estavelmente a verdade.

Quem não está sujeito pelos laços do matrimônio se vê turbado por ambições, impulsos desenfreados e amores loucos; a quem já tem sobre si o vínculo conjugal, não lhe faltam um tumulto de inquietudes: se não tem filhos, o desejo de tê-los; se os tem, a preocupação de educá-los; o cuidado de sua mulher e da casa; o governo de seus empregados; a tensão que os negócios trazem consigo; as rixas com os vizinhos; os pleitos nos tribunais; os riscos do comércio; as fadigas da agricultura. Cada dia que amanhece traz consigo particulares cuidados para a alma. E cada noite, herdeira das preocupações do dia, inquieta o ânimo com os mesmos pensamentos.


Há um só caminho para libertar-se desses afãs: isolar-se. Mas esta separação não consiste em estar fisicamente fora do mundo, senão em aliviar o ânimo de seus laços com as coisas temporais, estando desprendido da pátria, da casa, das propriedades, dos amigos, das posses, da vida, dos negócios, das relações sociais, do conhecimento das ciências humanas, a fim de preparar-se para receber no coração as impressões profundas e duradouras do ensinamento divino.

Esta preparação se alcança despojando o coração do que o monopoliza por causa de um hábito mau e muito enraizado. Não é possível escrever sobre a cera se não se apagam os caracteres precedentes; tampouco se podem imprimir na alma os ensinamentos divinos, se antes não desaparecem os hábitos que ali estavam.

O recolhimento procura grandes vantagens. Adormece nossas paixões e outorga à razão a possibilidade de arrancá-las completamente. Como se pode vencer as feras senão domando-as? Assim, a ambição, a ira, o medo e a ansiedade, paixões nocivas da alma, quando se acalmam com a paz privando-lhes de contínuos estímulos, podem ser derrotadas mais facilmente”.


São Basílio Magno
Epístola 11, 2-4


segunda-feira, 9 de março de 2009

Quaresma: penitência é ato de amor



“Todas as maiores religiões do mundo conhecem o efeito purificante do jejum e da penitência Desde os tempos de outrora o homem tem entendido sua necessidade desta purificação.

Quaresma é um tempo de fazer limpeza interior. É um tempo de preparação para abrir nossos corações ao Amor, Jesus. Não é fácil segui-Lo. A vereda em que Ele caminha é muito estreita e íngreme e nós preferimos ir de carro numa rodovia... Não temos vontade de ir ao céu à pé, seguindo um Homem descalço... Assim, nós precisamos da Quaresma para treinar nossos músculos espirituais para subir montanhas, pois Ele nos chama a auges desconhecidos e significantes.

Precisamos da Quaresma para lubrificarmos as fechaduras enferrujadas de nossas almas, para que as chaves do amor, da compaixão e do serviço possam abrir facilmente, de novo, as portas de nossos corações. Precisamos da Quaresma para lavar toda a sujeira e renovar esta imagem de Deus que somos nós.

A penitência é um ato de amor. Sem amor não há penitência. Penitência quer dizer ser esbanjador de amor, no sentido do pai, na parábola do filho pródigo... Eu vejo meu irmão sofrendo, logo, faço tudo para aliviá-lo, como samaritano. Levo-o à estalagem do meu coração, ou ao hospital, e faço todo o necessário para cuidar das suas feridas e do seu sofrimento. Então, concluído isso, começo a pensar nos ladrões que reduziram aquele homem ao estado em que o encontrei. E em meu coração ouço a voz do Senhor: ‘Ame os inimigos’. Digo a mim mesmo: ‘Eu nem sei o nome daquelas pessoas. Nem sei de onde vieram nem pra onde vão. O que posso fazer por eles, pela penitência?’.


Ouvimos no noticiário a respeito de um povo refugiado e sofrido. Nós que pertencemos a Cristo podemos espiar os pecados dos que são responsáveis por esta catástrofe. Meu irmão é faminto...Posso comer até me saciar? Meu irmão dorme na lama...Posso dormir numa casa confortável? O Mestre não tinha aonde reclinar a cabeça...Meu irmão sofre dores...Posso recuar aquela dor que me faz parte da vida, que vem das dificuldades de viver em comunidade ou em matrimônio ou na vizinhança, ou no trabalho? Todos nós nos irritamos uns com os outros, às vezes...Posso reagir com raiva ao que me irrita ou, de repente, posso me lembrar daquela mulher que está dando à luz um filho na sujeira de uma favela e posso agüentar, com amor, o que está me irritando.

Há algo misterioso neste mundo que não podemos sondar. Mas quando eu amo o suficiente para oferecer meu corpo pelo outro, mesmo que de modo pequeno, tal como dormir no chão, ou comer só um pouco por um tempo, ou aceitar os desgostos e as mortificações que vem ao meu caminho, então alguma coisa realmente acontece...

Entre as mais misteriosas palavras que o Senhor deixou para nós, cristãos, estão estas: ‘Maiores milagres que Eu realizei, vocês vão realizar’. Esse é o milagre maior: que eu, completamente desconhecido naquela favela, ficando escondido num canto do Canadá, por meio de aceitar mortificações permitidas a mim, por meu diretor espiritual e as que vêm a mim pelas circunstanciais da vida, posso ajudar aquela mulher na favela. Como a tenho ajudado, não sei. Somente o amor sabe...E o Amor é Deus.

Se eu estou pronto para entrar no reino da fé porque amo o Senhor que me deu a fé, então ajudo aquele povo sofrido, onde Cristo sofre neles. Isto é o poder estranho da penitência e mortificação: ‘Carregai os fardos uns dos outros’.

Por outro lado, posso espiar por eles, que têm causado os sofrimentos dos outros. Posso espiar também por meus próprios pecados.

Deus é Misericordioso. Ele não está permitindo a espiação por motivo de temor, mas sim por amor, muito amor”.

Serva de Deus Catherine de Hueck Doherty
Fundadora de Madonna House


sábado, 3 de janeiro de 2009

Um só Espírito




“A mensagem de esperança que o contemplativo lhe oferece é que, entenda você ou não, Deus o ama, está presente em você, habita em você, o chama, salva-o e lhe oferece um entendimento e uma luz que você jamais encontrou em livros nem ouviu em palestras ou sermões. O contemplativo nada tem a lhe dizer que não seja reafirmar e dizer que, se ousar penetrar no seu próprio silêncio interior e arriscar dividir a solidão encontrada com outros solitários que buscam a Deus por seu intermédio, realmente recuperará a luz e a capacidade de entender o que está além das palavras e além das explicações, porque está próxima demais para ser explicada: é a união íntima, na profundeza de seu próprio coração, do espírito de Deus e do seu próprio eu particular, de forma que você e Ele são, em verdade, um só Espírito.”

Thomas Merton, Carta a Dom Francis Decroix, de 21 de agosto de 1967, publicada em The Hidden Ground of Love.


terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Sobre o ascetismo e a quietude




EVAGRIUS PONTICUS

Evagrius Ponticus (345-399) é um dos primeiros escritores espirituais sobre o ascetismo na tradição ascética cristã. Ele observou de perto os Padres do Deserto e viveu seus últimos anos como um deles. Sua influência foi significativa em João Cassiano, pois foi através desse último que o Ocidente conheceu a espiritualidade do deserto.

O "Esboço dos Ensinamentos sobre Ascetismo e Quietude na Vida Solitária” é um catálogo de práticas ascéticas. O objetivo prático é o que a tradição Cristã do Oriente chama "quietude" ao estado de serenidade e o "vazio", que é o fruto da solidão: "Pois a prática da quietude é cheia de alegria e beleza". Por conseguinte, a quietude é igualmente o fruto e a prática, o fim e os meios. E os meios são as práticas ascéticas que ele recomenda neste ensaio.

“Você deseja abraçar esta vida de solidão
e buscar as bênçãos da quietude?
Então, abandone todo o tipo de cuidado,
livre-se dos apegos às coisas materiais,
da dominação das paixões e desejos
de modo que, como um estranho a tudo isso,
você possa atingir a verdadeira serenidade.
Pois somente se elevando sobre estas coisas
pode o homem atingir a vida de quietude.”



“The Desert Fathers”, traduzido do Latim com Introdução por Helen Waddel, p. 26-39. London: Constable, 193; Ann Arbor: University of Michigan Press, 1957.