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domingo, 14 de março de 2010

Chiara Lubich – Dois anos sem Chiara




Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares

14 de março de 2008
14 de março de 2010


“A ARTE DE AMAR

O amor que Deus
colocou nos nossos corações
não faz distinções,
é um amor dirigido a todos.

Não admite discriminações
entre o simpático ou o antipático,
o instruído ou o ignorante,
o amigo ou o inimigo...
Todos devem ser amados.

Mas existe uma medida nesse amor:
amar o próximo como a si mesmo.
Colocar o próximo no nosso mesmo nível.
Isto deve ser atuado ao pé da letra.

O amor cristão não é o do mundo,
onde muitas vezes amamos
porque somos amados...

O amor cristão é o primeiro a amar,
não espera ser amado.
Como Jesus, que morreu na cruz por nós.
Deu-nos a vida, por primeiro.

Esta é a grande arte de amar:
Amar todos.
Amar como a si mesmo.
Ser os primeiros a amar.

Existe ainda um modo típico e
prático para atuar este amor:
é "fazer-se um" com o próximo.
Sofrer com quem sofre,
alegrar-se com quem se alegra,
carregar os pesos dos outros.
Viver, num certo sentido, o outro;
como Jesus que, sendo Deus,
se tornou homem, por amor.

"Fazer-se um" com todos,
em tudo, exceto no pecado.
Viver o outro, viver os outros.

Este é um grande ideal”.


Chiara Lubich
Focolares


Chiara Lubich – Jesus convida-nos a ter o mesmo amor sem limites do Pai



Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares

14 de março de 2008
14 de março de 2009


Jesus convida-nos a ter o mesmo amor sem limites do Pai

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado» (Lc 15,32)

Esta frase se encontra no final da chamada parábola do filho pródigo - que certamente você conhece - e quer revelar-nos a grandeza da misericórdia de Deus. Ela conclui todo um capítulo do Evangelho de Lucas, no qual Jesus narra outras duas parábolas para ilustrar o mesmo assunto.

Lembra-se do episódio da ovelha desgarrada, em que o dono do rebanho procura aquela que se perdera, deixando as outras noventa e nove no deserto?

Lembra-se também da história da dracma perdida e da alegria da mulher que, após encontrá-la, chama as amigas e as vizinhas para se alegrarem com ela?

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado»

Estas palavras são um convite que Deus dirige a você, e a todos os cristãos, para rejubilar-se com ele, para festejar e participar da sua alegria pela volta do homem pecador que antes estava perdido e depois foi encontrado. E, na parábola, são estas as palavras dirigidas pelo pai ao filho mais velho que havia compartilhado toda a sua vida mas que, após um dia de trabalho duro, se recusa a entrar em casa, onde se festeja a volta de seu irmão.

O pai vai ao encontro do filho fiel - assim como foi ao encontro do filho perdido - e procura convencê-lo. Mas é evidente o contraste entre os sentimentos do pai e os sentimentos do filho mais velho: de um lado o pai, com seu amor sem limites e com sua grande alegria, da qual gostaria que todos participassem; do outro lado o filho, cheio de desprezo e de ciúmes de seu irmão, que ele não reconhece mais como irmão. Com efeito, falando dele, diz: "Este teu filho, que devorou teus bens".

O amor e a alegria do pai pelo filho que voltou evidenciam ainda mais o rancor do outro, rancor que indica um relacionamento frio - diríamos até falso - com o próprio pai. A este filho importa o trabalho, o cumprimento do seu dever; mas ele não ama o pai como um verdadeiro filho. Ao contrário, mais parece que lhe obedece como a um patrão.

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado»

Com estas palavras Jesus denuncia um perigo em que também você pode incorrer: viver apenas para ser uma "pessoa de bem", baseando sua vida na busca da perfeição e criticando os irmãos "menos perfeitos" que você. Na verdade, se você estiver "apegado" à perfeição, construirá o seu ego, ficará cheio de si mesmo, cheio de admiração pela própria pessoa. Será como o filho que permaneceu em casa, e que enumera ao pai os seus méritos: "Há tantos anos que eu te sirvo e jamais transgredi um só dos teus mandamentos".

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado»

Com estas palavras, Jesus censura aquela atitude segundo a qual a relação com Deus estaria fundamentada apenas na observância dos mandamentos, porque essa observância não é suficiente. Disso também a tradição judaica está bem consciente.

Nesta parábola Jesus põe em evidência o Amor divino, mostrando como Deus, que é Amor, dá o primeiro passo em direção ao homem sem levar em consideração se ele merece ou não; Deus quer que o homem se abra a ele para poder estabelecer uma autêntica comunhão de vida. Naturalmente, como você pode entender, o maior obstáculo diante de Deus-Amor é justamente a vida daqueles que acumulam ações, obras, enquanto Deus quer simplesmente o seu coração.

"Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado"

Com estas palavras, Jesus convida você a ter, diante do homem pecador, o mesmo amor sem limites que o Pai tem para com ele. Jesus o convida a não julgar segundo a sua própria medida o amor que o Pai tem para com qualquer pessoa. Convidando o filho mais velho a compartilhar a sua alegria pelo filho encontrado, o Pai pede também a você uma mudança de mentalidade: na prática, você deve acolher como irmãos e irmãs também aqueles homens e mulheres pelos quais nutriria apenas sentimentos de desprezo e de superioridade. Isto provocará em você uma verdadeira conversão, porque o purifica da sua convicção de ser "mais perfeito", evita que você caia na intolerância religiosa e o faz acolher como puro dom do amor de Deus a salvação que Jesus lhe proporcionou.


Chiara Lubich
Palavra de vida, Março de 2001
Focolares

Chiara Lubich – Deus deseja a misericórdia e não o sacrifício



Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares

14 de março de 2008
14 de março de 2010


«Ide, pois, aprender o que significa: 'Desejo a misericórdia e não o sacrifício'.» (Mt 9,13)

A atitude de Jesus era tão nova diante da mentalidade comum que, muitas vezes, por assim dizer, escandalizava as pessoas de bem. Como aconteceu quando ele convidou Mateus a segui-lo e depois foi almoçar com ele. Mateus era um cobrador de impostos. Por causa do seu ofício, o povo não só não gostava dele mas o considerava um pecador público, um inimigo a serviço do Império Romano.

Por que - questionam os fariseus - Jesus come com um pecador? Não é melhor manter distância de certas pessoas? Essa pergunta torna-se para Jesus uma ocasião de explicar que ele quer ir ao encontro justamente dos pecadores, assim como um médico vai ao encontro dos doentes; e ele conclui dizendo aos fariseus que procurem estudar o significado da palavra de Deus pronunciada no Antigo Testamento pelo profeta Oséias: "Desejo a misericórdia e não o sacrifício".

Por que Deus quer de nós a misericórdia? Porque deseja que sejamos como ele. Devemos assemelhar-nos a ele assim como os filhos se assemelham ao pai e à mãe. Ao longo de todo o Evangelho, Jesus nos fala do amor do Pai para com os bons e os maus, para com os justos e os pecadores. Deus ama cada um, não faz distinções e não exclui ninguém. Se ele tem alguma preferência, é por aqueles que, aparentemente, menos merecem ser amados, como é o caso do filho pródigo da parábola. "Sede misericordiosos - explica Jesus - como vosso Pai é misericordioso": esta é a perfeição.

«Ide, pois, aprender o que significa: 'Desejo a misericórdia e não o sacrifício'.»

Também hoje Jesus dirige a cada um de nós o convite: "Ide, pois, aprender…" Mas, ir para onde? Quem poderá nos ensinar o que significa ser misericordioso? Uma única pessoa: só ele, Jesus, que foi à procura da ovelha perdida, que perdoou aos que o tinham traído e crucificado, que deu sua vida pela nossa salvação. Para aprendermos a ser misericordiosos como o Pai, perfeitos como ele, precisamos olhar para Jesus, que é a plena revelação do amor do Pai. Ele disse: "Quem me viu, viu o Pai".

«Ide, pois, aprender o que significa: 'Desejo a misericórdia e não o sacrifício'.»

Por que a misericórdia e não o sacrifício? Porque o amor é o valor absoluto que dá sentido a todo o resto, também ao culto, também ao sacrifício. Com efeito, o sacrifício mais agradável a Deus é o amor concreto para com o próximo, que encontra a sua expressão mais alta na misericórdia.

Misericórdia que ajuda a ver sempre novas as pessoas com as quais vivemos a cada dia, na família, na escola, no trabalho, sem nos lembrarmos mais dos seus defeitos, dos seus erros; que não nos leva a julgar mas a perdoar as injustiças sofridas. Mais ainda: a esquecê-las.

O nosso sacrifício não consistirá tanto em fazer longas vigílias e jejuns, dormir no chão, mas em acolher sempre no nosso coração qualquer um que passe ao nosso lado, seja ele bom ou mau.

Foi isso que fez um senhor que trabalhava no setor de recepção e caixa de um hospital. O seu povoado tinha sido inteiramente incendiado pelos seus "inimigos". Um belo dia viu chegar um homem com um parente doente. Pelo seu sotaque descobriu logo que se tratava de um dos "inimigos". Ele estava assustado; não queria revelar a sua identidade para não ser mandado embora. O caixa não lhe pediu os documentos e lhe ajudou, apesar de ter que se esforçar para superar o ódio que há tempo remoía dentro dele. Nos dias seguintes teve a possibilidade de dar-lhe assistência em diversas ocasiões. No último dia de internação o "inimigo" foi pagar a conta e disse ao caixa: "Preciso lhe confessar uma coisa que você não sabe". E ele: "Desde o primeiro dia sei quem é você". "E por que você me ajudou, se eu sou um 'inimigo' seu?"

Assim como aconteceu com ele, também para nós a misericórdia nasce do amor que sabe sacrificar-se por quem quer que seja, conforme o exemplo de Jesus, que chegou ao ponto de dar a vida por todos.


Chiara Lubich
Palavra de vida, Junho de 2002
Focolares

Chiara Lubich – Sede bondosos e compassivos uns para com os outros



Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares

14 de março de 2008
14 de março de 2010


«Sede bondosos e compassivos, uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Cristo» (Ef 4,32)

É um programa de vida concreto e essencial. Só ele já bastaria para criar uma sociedade diferente, mais fraterna, mais solidária. Ele faz parte de um amplo projeto que o Apóstolo propõe aos cristãos da Ásia Menor. Naquela comunidade foi alcançada a paz entre judeus e gentios, os dois povos até então divididos que representavam a humanidade. A unidade, doada por Cristo, deve ser sempre reavivada e traduzida em comportamentos sociais concretos, inteiramente inspirados pelo amor mútuo. Daí a razão por que Paulo dá estas orientações sobre como devemos nos relacionar:

«Sede bondosos e compassivos, uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Cristo»

“Sede bondosos…”: ser bom, querer o bem do outro. É “fazer-nos um” com ele, aproximar-nos dele estando completamente vazios de nós mesmos, dos nossos interesses, das nossas idéias, dos muitos preconceitos que ofuscam o nosso olhar, para tomar sobre nós os seus pesos, suas necessidades, seus sofrimentos, para compartilhar as suas alegrias.

É entrar no coração daqueles que encontramos para entender a sua mentalidade, sua cultura, suas tradições e, de certo modo, fazê-las nossas; para entender realmente aquilo de que estão precisando e saber colher os valores que Deus derramou no coração de cada pessoa. Numa palavra: viver por quem está ao nosso lado.

“Sede compassivos…”: a compaixão. Acolher o outro tal como ele é; não como gostaríamos que fosse: com um caráter diferente, com as mesmas idéias políticas nossas, com as nossas convicções religiosas e sem os tais defeitos ou modos de fazer que tanto nos incomodam. Não. É preciso dilatar o coração e torná-lo capaz de acolher a todos na sua diversidade, com os seus limites e misérias.

“… perdoando-vos mutuamente": o perdão. Ver o outro sempre novo. Mesmo nas convivências mais agradáveis e serenas, na família, na escola, no trabalho, nunca faltam os momentos de atrito, as divergências, os desencontros. Às vezes se chega a não falar mais um com o outro, ou a evitar-se, isso quando não se estabelece no coração um verdadeiro ódio contra os que têm um ponto de vista diferente. A conquista mais forte e exigente é procurar ver cada dia o irmão e a irmã como se fossem novos, novíssimos, esquecendo-se completamente das ofensas recebidas e cobrindo tudo com o amor, com uma anistia total do nosso coração, imitando desta forma Deus, que perdoa e esquece.

E enfim, alcançamos a paz verdadeira e a unidade quando vivemos a bondade, a compaixão e o perdão não apenas como pessoas isoladamente, mas em conjunto, na reciprocidade.

E assim como acontece numa fogueira, onde as brasas são sufocadas pela cinza se não forem remexidas, da mesma forma as relações com os outros podem ser sufocadas pela cinza da indiferença, da apatia, do egoísmo, se não reavivarmos de tempo em tempo os propósitos de amor mútuo, os relacionamentos com todos.

«Sede bondosos e compassivos, uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Cristo»

Essas atitudes precisam ser traduzidas em fatos, em ações concretas.

O próprio Jesus demonstrou o que é o amor quando curou os doentes, quando saciou a fome das multidões, quando ressuscitou os mortos, quando lavou os pés dos discípulos. Fatos, fatos: isso é amar.

Lembro de uma mãe de família africana: viu a própria filha Rosângela perder um dos olhos, vítima da agressividade de um garoto que a feriu com um pedaço de pau e ainda continuava caçoando dela. Nem o pai nem a mãe do menino tinham pedido desculpas pelo acontecido. O silêncio, a falta de relacionamento com essa família a deixavam angustiada. “Fique tranqüila – dizia Rosângela, que já tinha perdoado –, ainda tive sorte: pelo menos posso ver com o outro olho!”

“Um dia, de manhã – conta a mãe de Rosângela –, a mãe daquele garoto mandou me chamar porque estava passando mal. A minha primeira reação foi: ‘Essa não! Ela tem tantos outros vizinhos, e agora vem pedir ajuda logo a mim, depois de tudo o que seu filho fez conosco!’.

Mas na hora me lembrei de que o amor não tem barreiras. Corri até a sua casa. Ela abriu a porta e desmaiou nos meus braços. Levei-a para o hospital e lá fiquei até que os médicos a atendessem. Depois de uma semana, quando ela teve alta, veio até em casa para me agradecer. Procurei acolhê-la de todo o coração. Consegui perdoá-la. Agora o relacionamento se recompôs. Ou melhor, começou totalmente novo”.

Podemos preencher também o nosso dia com serviços concretos, humildes e inteligentes, expressões do nosso amor. Veremos crescer ao nosso redor a fraternidade e a paz.


Chiara Lubich
Palavra de vida, Agosto 2006
Focolares

Chiara Lubich – Jesus viveu por amor, irradiando amor, doando amor, trazendo a lei do amor



Chiara Lubich
Fundadora dos Focolares

14 de março de 2008
14 de março de 2010


Jesus viveu por amor, irradiando amor, doando amor, trazendo a lei do amor

"Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14,6)

Talvez não exista nos Evangelhos uma definição mais elevada e mais completa de Jesus do que esta, a de que Ele, Jesus, dá de si mesmo. É uma síntese da sua missão e da sua identidade. E ela é comunicada a nós, para que possamos encontrar nele o caminho mais seguro, o único que leva ao Pai. Com efeito, o versículo se conclui com as palavras: "Ninguém vai ao Pai senão por mim". Com as suas palavras Jesus nos revela aquilo que Ele é em si mesmo, e o que Ele é para cada homem e mulher desta terra.

«Eu sou o caminho, a verdade e a vida»

De que modo Jesus nos revela que Ele é a verdade? Dando testemunho da verdade com a sua vida e seu ensinamento. "Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade" (Jo 18,37). Nós vivemos de acordo com a verdade, nós somos verdade, na medida em que somos a Palavra de Jesus. Mas, se Jesus é o caminho enquanto é a verdade, também é o caminho enquanto é vida para nós. "Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância" (Jo 10,10). Quando nos nutrimos dele feito Pão na Eucaristia, bem como quando nos nutrimos de sua Palavra, Cristo cresce em nós.

E para que esta vida que existe em nós não se apague, nós, por nossa vez, devemos comunicá-la do único modo que Jesus nos ensinou: oferecendo-a como um dom aos nossos próximos.

«Eu sou o caminho, a verdade e a vida»

"Preparai o caminho do Senhor" (Lc 3,4), gritava o Batista no deserto de Judá, fazendo eco ao profeta Isaías. E aí está Aquele que se apresenta como o Senhor-Caminho, como Deus feito homem para que tenhamos acesso ao Pai por meio de sua humanidade.
Mas, qual foi o caminho usado por Jesus?

Sendo Filho de Deus, que é Amor, Jesus veio a esta terra por amor, viveu por amor, irradiando amor, doando amor, trazendo a lei do amor, e morreu por amor. Depois, ressuscitou e subiu ao Céu, realizando o seu plano de amor. Pode-se dizer que o caminho percorrido por Jesus tem um só nome: amor. E que nós, para segui-lo, devemos caminhar por esse caminho: o caminho do amor.

Mas, o amor que Jesus viveu e que Ele trouxe é um amor especial, único. Não é filantropia, nem simplesmente solidariedade ou benevolência, nem mesmo apenas amizade ou afeto; nem sequer é somente não-violência. É algo de excepcional, de divino: é o próprio amor que arde em Deus. Jesus nos deu uma chama daquele infinito incêndio, um raio daquele imenso sol: amor divino aceso no nosso coração pelo batismo e pela fé, alimentado pelos outros sacramentos, que é um dom de Deus mas que pede toda a nossa parte, a nossa correspondência.

Devemos fazer frutificar esse amor. De que modo? Amando. Não somos plenamente cristãos sem esta nossa contribuição segura. Amando, seguiremos Jesus-Caminho e seremos, como Ele, caminho até o Pai, para muitos de nossos irmãos e irmãs. E seremos cristãos mais convincentes se vivermos juntos este mandamento do amor que Jesus nos deu.

Embora ainda não exista a plena unidade entre nós, entre todos os seguidores de Jesus, podemos demonstrar o amor recíproco com a vida. Com isto temos a possibilidade de ver realizada uma promessa de Jesus: "Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome - que alguns Padres da Igreja interpretam 'no meu amor' - ali estou eu no meio deles" (Mt 18,20).

Nós, cristãos, podemos gozar desde já deste dom da presença de Jesus, por exemplo entre um católico e um anglicano, entre uma ortodoxa e uma metodista, entre um valdense e um armênio. Jesus no meio dos seus! Desse modo será Ele a dizer ao mundo que ainda não o conhece: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida".

Neste mês, sejamos também mais conscientes de que, acima de tudo, a unidade dos cristãos é uma graça e que, portanto, é preciso pedir esse dom. Contemos com a oração feita em conjunto, porque Jesus disse: "Se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus" (Mt 18,19).


Chiara Lubich
Palavra de vida, Janeiro de 2001
Focolares

Quaresma – A pureza é a misericórdia do coração para com o universo inteiro



«A pureza é a misericórdia do coração para com o universo inteiro»

Não procures distinguir o homem digno do que não o é. Que a teus olhos todos os homens sejam iguais para os amares e os servires da mesma forma. Poderás assim levá-los a todos ao bem. Não partilhou o Senhor a mesa dos publicanos e das mulheres de má vida, sem afastar de Si os indignos? Do mesmo modo, concederás, tu, benefícios iguais e honras iguais ao infiel, ao assassino, tanto mais que também ele é teu irmão, pois participa da única natureza humana.

Aqui está, meu filho, um mandamento que te dou: que a misericórdia pese sempre mais na tua balança, até ao momento em que sentires em ti a misericórdia que Deus tem para com o Mundo.

Quando percebe o homem que atingiu a pureza do coração? Quando considerar que todos os homens são bons, e nem um lhe apareça impuro e maculado. Então, em verdade ele é puro de coração (Mt 5,8).

O que é esta pureza? Em poucas palavras, é a misericórdia do coração para com o universo inteiro. E o que é a misericórdia do coração? É a chama que o inflama por toda a criação, pelos homens, pelos pássaros, pelos animais, pelos demônios, por todo o ser criado. Quando o homem pensa neles, quando os olha, sente os olhos encherem-se das lágrimas de uma profunda, de uma intensa piedade que lhe aperta o coração, e que o torna incapaz de ouvir, de ver, de tolerar o erro ou a aflição, mesmo ínfimos, sofridos pelas criaturas. É por isso que na oração acompanhada por lágrimas devemos sempre pedir tanto pelos seres desprovidos de fala como pelos inimigos da verdade, como ainda pelos que a maltratam, para que sejam salvos e purificados. No coração do homem nasce uma compaixão imensa e sem limites, à imagem de Deus.


Santo Isaac, o Sírio
Discursos ascéticos, 1ª série, n.º 81

Quaresma – A misericórdia leva ao perfeito amor



A misericórdia leva ao conhecimento de Deus e ao perfeito amor os que dela se enamoram

“Não te prendas às suspeitas nem às pessoas que te levam a te escandalizares com certas coisas. Porque aqueles que, de uma forma ou de outra, se escandalizam com as coisas que lhes acontecem, quer as tenham querido quer não, ignoram o caminho da paz que, pelo amor, leva ao conhecimento de Deus os que dela se enamoram.

Não tem ainda o perfeito amor aquele que é ainda afetado pelo temperamento dos outros, que, por exemplo, ama uns e detesta outros, ou que umas vezes ama e outras detesta a mesma pessoa pelas mesmas razões.

O perfeito amor não despedaça a única e mesma natureza dos homens só porque eles têm temperamentos diferentes mas, tendo em consideração essa natureza, ama de igual forma todos os homens.

Ama os virtuosos como amigos e os maus, embora sejam inimigos, fazendo-lhes bem, suportando-os com paciência, aceitando o que vem deles, não tomando em consideração a malícia, chegando mesmo a sofrer por eles em se oferecendo uma ocasião.

Assim, fará deles amigos, se tal for possível. Pelo menos, será fiel a si mesmo; mostra sempre os seus frutos a todos os homens, de igual modo. O Nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, mostrando o amor que tem por nós, sofreu pela humanidade inteira e deu a esperança da ressurreição a todos de igual forma, embora cada um, com as suas obras, atraia sobre si a glória ou o castigo”.


S. Máximo, o Confessor, Monge e teólogo
Centúria 1 sobre o amor, na Filocalia

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A santidade é simples - Parte I



A santidade é simples-Parte I

«Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade, graça e fidelidade» Sl 24, 10

Sede perfeitos, sede santos, nos diz a todos sem exceção o Senhor. Sabia bem Deus a quem dava este preceito, pois somos suas criaturas, obra de suas mãos: ‘Tuas mãos me fizeram e me plasmaram’ (Jó 10, 8). Embora as condições humanas sejam tão diversas, Deus não faz nenhuma exceção e nos diz a todos igualmente: Sede santos. Se em meio a tão diversas situações como nos encontramos, Deus, Sabedoria por essência, nos manda a todos ser santos sem fazer distinção, não há de ser a santidade tão difícil como à primeira vista parece.

Se os santos são poucos é porque a maior parte dos cristãos não tem um conhecimento exato da santidade. ‘As vias do Senhor são todas misericórdia e verdade’ (Sl 24, 10). Somente por falta de uma segura convicção de que são estes unicamente os caminhos de Deus, é que muitas almas não chegam à santidade.

As misericórdias do Senhor são sem número e Ele as derramou sem medida nos caminhos por onde Ele mesmo nos manda caminhar para ir até Ele.

Deus é Verdade. Seu Reino está fundado na verdade, só pode reinar nas almas que andam em verdade. Andar em verdade quer dizer estimar a santidade pelo que ela é e não pelo que imaginamos que seja. Assim não pareceria a muitos tão difícil alcançá-la.

Estejamos certos de que nesses formosos caminhos de santidade, traçados pelas paternais mãos de Deus, cheios todos de luz, de misericórdia e de verdade, não há as dificuldades que parece haver. Somos nós que os fazemos difíceis por não conhecê-los bem. Se se conhecesse com todos os seus atrativos, então os santos seriam coisa comum. Especialmente entre religiosos que vivem em um estado mais propício à santidade e também entre os leigos que não vivem segundo as máximas do mundo, senão que colocam acima de tudo os seus interesses eternos, buscando a Deus e sua justiça.

Por que não é assim? Por que são tão poucas as pessoas cheias do Espírito de Deus, junto às quais se respira santidade? O que falta a tantas almas boas para que exalem esse perfume celestial e atraiam a todos os que se aproximam, levando-os a Deus? O que lhes falta se são tão boas que não se sabe o que mais desejar nelas? O que lhes falta é que o Senhor as tenha feito gostar das ternuras de seu amor, que as tenha admitido às intimidades ocultas, inexplicáveis, que transformam e divinizam a pobre criatura que, ao ver-se tão amada por Deus, não lhe sobra mais que a admiração e o silêncio, desejo ardente de que todos provem estas divinas delícias, uma vez que depois já não lhe apetecem outras coisas e logo perde o gosto por tudo o mais.

Almas boas, almas santas!...Todas as que sentem ânsias de Deus, da perfeição, de ir adiante nos caminhos do Senhor. Almas santas sois pois por tais os tem o Coração de Jesus. Mas Ele sofre por não poder estreitá-los contra seu peito, fazê-los experimentar seus abraços divinos. E não pode. Se encontra detido por vossa pusilanimidade.

Deste Fogo Divino está encarregada a Virgem Maria de distribuí-lo e comunicá-lo às almas. Quanto não deverá sofrer esta Mãe de amor e misericórdia ao ver quão pouco é o que impede a tantas almas o ser incendiadas e por esse Fogo abrasadas e transformadas em Jesus, seu Divino Filho?

Senhor, permita que, em união com Maria, me compadeça de tua dor na sede de amor que te consome! Quanto sofres pelas almas! E só pelas más, mas também pelas boas, pelas que são teu povo escolhido.


J. Pastor
“La Santidad es amor”
Libro I, pp. 21-24
Eds.Anaya, Salamanca, 1973

(Continua)

A santidade é simples - Parte II



A santidade é simples-Parte II


O QUE PEDE O SENHOR

O que pede Jesus às almas? Amor! ‘Se alguém me ama, meu Pai o amará e viremos a ele e nele faremos nossa morada’ (Jo 14, 23).

Se me amas... Eis aqui a única condição que nos pede o Senhor para sermos amados e visitados por Ele, para vir a nossa alma e estabelecer nela a sua morada. Isso é a verdadeira santidade: união com Deus. E esta união só se realiza amando. Amor é a única coisa que o Senhor nos pede para poder realizá-la.

A maior parte das pessoas boas e também dos religiosos, se fixam mais no acidental da santidade que no essencial, que é esta união da alma com Deus. Bem entendida esta verdade, se simplifica sumamente e se faz mais fácil o trabalho da própria santificação. Quanto trabalha e que pouco se adianta quem que não dá a esta verdade a importância que merece e se dedica a obras exteriores, trabalhos, fadigas e penas. Esses meios nem sempre são necessários para se chegar ao fim que se busca: a santidade.

Na teoria, todos sabem e dizem que é assim. Mas na prática, são muito poucos os que conhecem e entendem que a santidade é coisa tão íntima e secreta que alguém pode ser santo e muito santo sem que nada apareça de extraordinário em seu exterior.

A maioria das pessoas, embora piedosas, quando ouvem falar que alguém é ‘um santo’, se sentem movidas pelo desejo de vê-lo, e o observam para comprovar se, como os demais, come, dorme e fala. Que mentirosos são os homens em seus louvores! ‘Como um sopro são os homens; uma mentira os filhos dos homens’ (Sl 61, 10). Coisa boa é ver e desejar, conhecer e viver com pessoas santas. Mas a maior parte que tem este desejo, o tem por carecer de um conhecimento exato do que é a santidade. É uma curiosidade inútil pois de nada lhes servirá; e bem o demonstram as suas obras depois de satisfeito seu desejo.

Se estivéssemos convencidos de que a santidade é algo espiritual, interior, íntimo, como é a união de nossa alma com Deus, não haveria tanto afã como há por estas exterioridades e por querer medir, segundo estas, a maior ou menor santidade.

Quão bom e necessário é pedir a miúdo ao Senhor que nos mostre seus caminhos e nos ensine os meios que a ele conduzem: ‘Mostra-me, Senhor, os teus caminhos; adestra-me em tuas sendas’ (Sl 24, 4). Quantos poderiam voar pela via do amor e ser logo admitidos às intimidades do Senhor, se se despojassem dessas idéias errôneas. Quão bom e quão agradável seria a Deus que todos disséssemos frequentemente, do mais fundo do coração: Senhor, me bastam vossos divinos ensinamentos, os exemplos que por Vós mesmo e por vossos santos me haveis dado para conhecer o caminho que hei de seguir para santificar-me. Bastam-me os infinitos prodígios que fizestes para atrair-me ao vosso amor. Permanecestes escondido sob a cortina da fé nas humilhações de vossa Paixão e Morte no Sacramento do altar, nas ocultas operações de vossa graça na santificação das almas.

Já fizestes bastante, já nos destes provas suficientes de vosso amor que nos obriguem a amá-Lo.

Já creio, Jesus meu, creio em vosso amor por mim e vos amo com todo o meu coração. Eu vos amo e quero amar-vos, servir-vos e adorar-vos em ‘espírito e verdade’, tomando por guia vosso Santo Evangelho e por companheiros de meu caminho a Fé e o Amor.

A Fé e o Amor descobrirão então grandes prodígios, sem necessidade de ir buscá-los longe. Assistindo a Missa, em menos de meia hora, se realizarão ante nossos olhos os mais estupendos prodígios que possa fazer um Deus. À voz de uma pobre criatura, descerá o Verbo Eterno do mais alto dos céus para morrer misticamente outra vez, como sobre o Calvário, Vítima de nossos pecados, para fazer-se nosso alimento e permanecer em sua prisão de amor, e ser nosso companheiro, nosso guia, nossa luz no difícil caminho da vida.


J. Pastor
“La Santidad es amor”
Libro I, pp. 21-24
Eds.Anaya, Salamanca, 1973

(Continua)

A santidade é simples - Parte III



A santidade é simples-Parte III


DISPONHAMOS A ALMA

Quando deixar a matéria do corpo, nosso espírito, livre de erro e mentira, conhecerá tal como é em Deus em verdade; então, veremos quanto nos equivocamos em julgar segundo as aparências ou conforme o sentir humano. Conheceremos então, quanta diferença haverá no grau de santidade entre aqueles a quem vimos praticar o que todos praticam, entre aqueles que levaram uma vida de sacrifícios, que moraram na mesma casa ou na mesma religião.

Abramos os olhos porque, todavia, ainda há tempo; mas esse tempo é curto. A graça não nos falta e não falta a ninguém. Está em nossas mãos se quisermos. Que não se diga de nós o que disse o Apóstolo São João: ‘A luz resplandece em meio às trevas e as trevas não Lhe receberam’ (Jo 1, 5). Todos os que andam em erro andam em trevas. Deus manda sua Luz não para iluminar somente alguns, mas para todo homem que vem a este mundo. Recebamo-la, pelo menos nós, seu povo escolhido. Que não se aplique a nós essa amarga repreensão do Apóstolo: ‘veio a sua própria casa e os seus não o receberam’(Jo 1, 11).

Receber ao Senhor é abrir os olhos e aceitar a verdade. Uma vez recebida a verdade, Deus está em sua casa. As coisas espirituais se hão de julgar segundo o espírito e não segundo os sentidos. A fé nos levará até Deus. E Ele, que nada deseja tanto quanto revelar-nos estes mistérios de amor e de verdade, logo dirá com sua voz criadora às trevas que obscurecem nossa alma: ‘Faça-se a Luz’ (Gn 1, 3). E tudo ficará iluminado ante nossos olhos e se nos apresentarão em seguida as coisas sob um aspecto muito
diferente.

O que a nós pertence no trabalho de nossa santificação é dispor nossa alma para a união com Deus. Este trabalho não é tão difícil como parece, se se entende bem. A muitos parece muito difícil por acreditarem que é preciso fazer muito, e por isso desanimam e não conseguem entregar-se a ele com a generosidade necessária. Mas não é assim. Em vez de ter que acrescentar ao que fazíamos, tem que ir tirando os impedimentos para que Deus possa fazer o que fazíamos. Pois aqui se fala daqueles que já praticam obras boas e daqueles em que não há nada grave que se tire.

Não tenhamos medo. Jesus é Bom, quer amor e deixa cada um seguir as suas inclinações, suas tendências e atrativos naturais e adquiridos.

Suave é o Senhor em sua obra. Em nada violentará a nossa vontade. Embora nos queira todos para si, o fará com uma suavidade tal que apenas nos daremos conta de que é a sua mão divina que opera em nós.

O que Ele quer é que em tudo o que façamos vamos pouco a pouco suprimindo o defeituoso, o imperfeito; e isso o Espírito do Senhor nos irá mostrando à medida que façamos a nossa parte.


J. Pastor
“La Santidad es amor”
Libro I, pp. 21-24
Eds.Anaya, Salamanca, 1973

sábado, 14 de novembro de 2009

A VIDA INTERIOR




A VIDA INTERIOR

“Nossa Senhora do Monte Carmelo é a Patrona da vida interior, a Virgem que nos afasta da multidão e nos leva docemente até esses cumes onde o ar é mais puro, o céu mais claro, Deus está mais próximo e nas que transcorre a vida de intimidade com Deus.

Segundo São Gregório Magno, a vida contemplativa e a vida eterna não são duas coisas diferentes, mas uma só realidade; uma é a aurora, a outra o meio-dia. A vida contemplativa é o principio da dita eterna, seu sabor antecipado. Que a Rainha do céu nos conceda, pois, a graça de compreender o estreito vínculo que une essas duas vidas para viver aqui embaixo como se estivéssemos já no céu.

Uma alma interior é uma alma que encontrou a Deus no fundo de seu coração e que vive sempre com Ele.

Deus está no fundo da alma, mas está ali escondido. A vida interior é como uma eclosão de Deus na alma.

Mantenhamo-nos no centro de nossa alma, nesse ponto preciso de onde podemos vigiar todos os seus movimentos, para detê-los ou dirigi-los, segundo o caso. Vivamos ou de Deus ou para Deus, mas repitamos a nós mesmos que não se age de todo para Deus senão quando já não se faz absolutamente nada para nós mesmos. Se age então porque Deus o quer, quando Ele quer e como Ele quer, por estar sempre unidos no fundo com Aquele de quem não somos mais que um ditoso instrumento.

Duas coisas fazem falta para chegar à perfeição e à íntima união com Deus: tempo e paz.

O que dá valor aos atos reflexivos do homem é a união com Deus pela caridade. Quanto mais profunda é essa intimidade, mais valor de eternidade tem seus frutos.

Uma alma cujo olhar interior, afetuoso e humilde, está sempre fixo em Deus, obtém Dele quanto quer.

Entre uma alma recolhida, desligada de tudo, e Deus, não há nada. A união se realiza por si mesma. É imediata.

O tempo passa; sempre se ama a Deus muito pouco e muito tarde.

Que delicado és em teus afetos, Deus meu! Tens em conta o que de legitimamente pessoal há em nós, e tratas a alma que amas como se no mundo não houvesse outra coisa a não ser ela e Tu.

Crer é comungar com a ciência de Deus: Ele vê; nós cremos em sua Palavra de testemunho.

Na fé, Deus fala; pela esperança, Deus ajuda; na caridade, Deus se dá, Deus preenche.

Elevemo-nos então, até Deus constantemente. Deixemos na terra a terra. Vivamos menos nos demais e mais em nós mesmos, mas o mais possível, senão em Deus, pelo menos perto Dele.

Quando no fundo de vossas almas ouvirdes duas vozes contraditórias, convém que escuteis geralmente a que fala mais baixo. Em todo caso, essa é a que pede mais sacrifícios. E tem tanto valor o sofrimento bem entendido! Desliguemo-nos e aproximemo-nos de Deus”.


Robert de Langeac, PSS
(Abade Augustin Delage, PSS)
“La vida oculta en Dios”


CAMINHO ESPIRITUAL - AO ENCONTRO DO SENHOR




AO ENCONTRO DO SENHOR

Temos que nos dispor para sair ao encontro do Senhor. Saiamos agora para fora e avancemos por cima de nós mesmos até Deus. É preciso renunciar a todo querer, desejar o atuar próprio. Nada mais que a intenção pura e desnuda de buscar só a Deus, sem o mínimo desejo de buscar-se a si próprio nem coisa alguma que possa redundar em seu proveito. Com vontade plena de ser exclusivamente para Deus, de conceder-lhe a morada mais digna, a mais íntima para que Ele nasça ali e leve a cabo sua obra em nós, sem sofrer impedimento algum.

Com efeito, para que duas coisas se fundam é necessário que uma seja paciente e a outra se comporte como agente. Unicamente quando o olho está limpo é que poderá ver um quadro pendurado na parede ou qualquer outro objeto. Impossível seria se houvesse outra pintura gravada na retina. O mesmo ocorre com o ouvido: enquanto um ruído lhe ocupa, está impedido de captar outro. Como conclusão, o recipiente é tanto mais útil quanto mais puro e vazio.

A esse sossego do espírito se refere o cântico da Missa que começa: “Quando um sossegado silêncio tudo envolvia” (Sb 18, 14). Em pleno silêncio, toda a criação calava na mais alta paz da meia noite. Então, oh Senhor, a Palavra onipotente deixou seu Trono para acampar em nossa tenda (Liturgia de Natal). Será então, no ponto culminante, no apogeu do silêncio, quando todas as coisas ficaram submersas na calma, somente então, se fará sentir a realidade desta Palavra. Porque, se queres que Deus fale, faz falta que tu cales. Para que Ele entre, todas as coisas deverão ter saído”.

A isto se referia Santo Agostinho quando dizia: "Esvazia-te para seres preenchida, sai para entrar". E em outro lugar: "Oh tu, alma nobre, nobre criatura, por que buscas fora a Quem está plena y manifestamente dentro de ti? És partícipe da natureza divina".


Johannes Tauler OP (Juan Tauler/1300-1361)
Instituciones, Temas de oración, CI 9


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

CANONIZAÇÃO/CANONIZACIÓN Rafael Arnáiz Barón – O olhar fixo no Senhor




CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

SÃO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN


O olhar fixo n’Ele

“Agora compreendo muito bem esse caminho tão estreito que assinala São João da Cruz, e que está entre outros dois, nos quais diz: oração, contemplação, consolos espirituais, dons da terra, dons do céu, etc. Pois bem, entre esses dois caminhos, está o que eu digo e que somente diz, nada... nada... nada...

Que difícil é chegar a isso. E para nós que andamos nos princípios, que fácil é equivocar-se, e quantas vezes queremos encontrar a Deus onde não está. E quando cremos haver lhe encontrado, nos encontramos com nós mesmos..., mas não há que desanimar, tudo permite Deus para o bem da alma, e sem conhecer o fracasso, não se saboreia o êxito, e antes de aproximar-se de Deus não há mais remédio a não ser despojar-se de tudo e permanecer no nada, como diz São João da Cruz.

Pois bem, nada de novo te digo, e que Deus me perdoe o querer tratar coisas tão altas quando ainda sem saber engatinhar, já quero voar... Esse tem sido meu pecado e continua sendo...

Que importa se estamos acima ou abaixo, perto ou longe de Deus? Dirijamos a Ele nossos olhares e unamo-nos para louvar-lhe, uns na vida monástica, outros nas missões, outros no mundo, uns de uma maneira e outros de outra. Que importa? É Ele que plenifica tudo e se nos olhamos uns aos outros, perdemos tempo... Muito formosa é às vezes a criatura, mas sua visão nos distrai do Criador.

Devemos seguir com o olhar fixo n’Ele, quer estejamos entre santos quer entre pecadores... Nós não somos nada; nada valemos, nem para nada servimos quando estamos distraídos e não fazemos caso do Senhor. Não percamos, então, tempo, e se com um pequeno sacrifício, com uma oração ou com um ato de amor, agradamos ao Senhor, então que possamos dizer, que pelo menos temos servido para algo, que é para dar a Ele maior glória. Essa deve ser nossa única ocupação e nosso único desejo”.


São Rafael Arnáiz Barón
Carta de 23 de julho de 1934 a sua tia, Duquesa de Maqueda.
Obras Completas, Monte Carmelo; pp.223-238

SÃO RAFAEL ARNÁIZ/ SAN RAFAEL ARNÁIZ – OCULTO EM DEUS/ OCULTO EN DIOS




CANONIZAÇÃO 11 DE OUTUBRO DE 2009

SÃO RAFAEL ARNÁIZ BARÓN


14 de dezembro de 1936 - 25 anos
Mi cuaderno - San Isidro

”Um dos encantos, melhor dizendo, consolos da vida monacal, é o estar oculto aos olhares do mundo. Isto o compreenderá quem gostar de meditar na vida de Cristo. Para dedicar-se a uma arte, para aprofundar-se em uma ciência, o espírito necessita solidão e isolamento, necessita recolhimento e silêncio. Agora, para a alma enamorada de Deus, para a alma que já não vê mais arte nem mais ciência que a vida de Jesus, para a alma que encontrou na terra o tesouro escondido, o silêncio não lhe basta, nem seu recolhimento em solidão. É necessário ocultar-se de todos, é necessário ocultar-se com Cristo, buscar um lugar na terra onde não cheguem os olhares profanos do mundo, e alí estar a sós com seu Deus.

O segredo do Rei como que se mancha e perde o brilho ao ser revelado. Esse segredo do Rei há que se ocultar para que ninguém o veja. Esse segredo que muitos crêem ser comunicações divinas e consolos sobrenaturais, esse segredo do Rei que invejamos nos Santos, se reduz muitas vezes a uma Cruz.

Não coloquemos a luz debaixo de uma vasilha, nos diz Jesus no Evangelho. Divulguemos as grandezas de Deus. Façamos chegar ao coração de nossos irmãos os tesouros de graças que Deus derrama abundantemente sobre nós. Divulguemos aos quatro ventos nossa fé, enchamos o mundo de gritos de entusiasmo por termos um Deus tão bom. Não nos cansemos de pregar seu Evangelho e dizer a todos que nos queiram ouvir, que Cristo morreu amando aos homens, cravado em um madeiro. Que morreu por mim, por ti, por eles... E se nós deveras lhe amamos, não lhe ocultemos, não ponhamos a luz que pode iluminar a outros, debaixo de uma vasilha.

Mas em troca, bendito Jesus, levemos, bem dentro e sem que ninguém se inteire, esse divino segredo... Esse segredo que Tu dás às almas que mais te querem... Essa pequenina parte de tua Cruz, de tua sede, de teus espinhos.

Ocultemos no último lugar da terra nossas lágrimas, nossas penas e nossos desconsolos. Não enchamos o mundo de tristes gemidos, nem levemos a ninguém nem a mais pequenina parte de nossas aflições.

Sejamos egoístas para sofrer e generosos na alegria. Façamos a felicidade dos que nos rodeiam e não turvemos o ambiente com caras tristes quando Deus nos mande alguma prova.

Ocultemo-nos para estar com Jesus na Cruz. Não busquemos mitigação à dor no consolo das criaturas, pois estaremos fazendo duas coisas que não são ruins, mas que não são perfeitas. Primeiro, ao deixar a Deus pelo que não é Deus, pois não é consolo seu o que Dele não vem, e se Ele não quer dá-lo, ao buscar fora Dele, perdemos a Ele, e também perdemos muitas vezes o mérito do sofrimento. Segundo, em nosso egoísmo, fazemos ou pelo menos queremos fazer participantes aos demais, do nosso sofrimento, para assim aliviar-nos, e conseguirmos com isso alívio fictício e falso, pois se te dói um dente, te seguirá doendo quer o digas ou não.

Em resumo, quase sempre é um ato de egoísmo e também falta de humildade, dar importância ao nosso sofrimento, como se por ser nosso fosse importante. Em troca, não buscando nada nas criaturas e sim tudo em Deus, se chega a amar a Cruz, mas a Cruz a sós e escondido... Na Cruz, ocultos com Deus e longe dos homens.

Ocultemos nossa vida, se nossa vida é penar. Ocultemos o sofrer, se o sofrer nos causa pena. Ocultemo-nos com Cristo para só a Ele fazer-lhe partícipe do que, pensando bem, só é Dele: o segredo da Cruz.

Aprendamos de uma vez, meditando em sua vida, em sua Paixão e em sua morte, que só há um caminho para se chegar a Ele..., o caminho da Santa Cruz”.


São Rafael Arnáiz Barón
Vida y Escritos del Beato Fray María Rafael Arnáiz Barón
Mi cuaderno, pp.374-376

domingo, 25 de outubro de 2009

Se eu não tiver a caridade, nada sou. Dilatai-vos no amor.



Se eu não tiver a caridade, nada sou. Dilatai-vos no amor.

Eu e o Pai, diz o Filho, viremos a ele, isto é, ao homem santo, e faremos nele a nossa morada (Jo 14, 23). A ele, isto é, ao homem santo. Penso que também o Profeta não falou de outro céu quando disse: Vós habitais na morada santa, ó louvor de Israel (cf. Sl 21, 4: Vulgata). E o Apóstolo afirma claramente: Cristo habita em vossos corações, pela fé (Ef 3, 17).

Não é de admirar que o Senhor Jesus tenha prazer em habitar nesse céu. Para criá-lo, Ele não disse simplesmente: “Faça-se”, como às demais criaturas. Mas lutou para conquistá-lo, morreu para redimi-lo. Por isso, depois de ter sofrido, afirmou com mais ardor: Eis o lugar do meu repouso para sempre, eu fico aqui: este é o lugar que preferi (Sl 131 [132], 14). Feliz da alma à qual se diz: Vem, minha amada; colocarei em ti o meu trono (cf. Ct 2, 10.13: Vulgata).

Por que, agora, te entristeces, ó minh’alma, e gemes no meu peito? (Sl 41 [42], 6). Pensas que também em ti não poderás encontrar um lugar para o Senhor? E que lugar em nós será digno de sua glória e suficiente para sua majestade? Quem me dera merecesse pelo menos adorá-lo no lugar em que colocou seus pés! Quem me dera pudesse ao menos agarrar-me no mínimo às pegadas de alguma alma santa que Ele escolheu por sua herança (Sl 32 [33], 12)! Oxalá Ele se digne infundir em minha alma o óleo de sua misericórdia, de modo que também eu possa dizer: De vossos mandamentos corro a estrada, porque vós me dilatais o coração (Sl 118 [119], 32). Então poderei, talvez, também eu, mostrar em mim mesmo, se não um grande cenáculo preparado, em que Ele possa sentar-se à mesa com seus discípulos, pelo menos um lugar onde possa reclinar a cabeça.

Depois é necessário que a alma cresça e se dilate, para ser capaz de Deus. Ora, sua medida é seu amor, como diz o Apóstolo: Dilatai-vos no amor (cf. 2Cor 6, 13). De fato, embora a alma, sendo espírito, não ocupe uma extensão corporal, contudo a graça lhe concede o que lhe foi negado pela natureza. Cresce e se estende, mas espiritualmente. Cresce e aumenta, até chegar ao estado de adulto, até chegar à estatura de Cristo em sua plenitude (Ef 4, 13). Cresce até se tornar um templo santo no Senhor (Ef 2, 21).

Calcule-se, pois, a grandeza de cada alma pela medida de sua caridade: a que tem muita é grande, a que tem pouca é pequena, a que não tem nenhuma é nada, como diz São Paulo: Se eu não tiver caridade, nada sou (1Cor 13, 2).


São Bernardo de Clairvaux, Abade
Sermo 27, 8-10 in Cantica Canticorum
(Editiones Cistercienses 1, 187-189)
(Dos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos)


SANTA TERESA DE JESUS - Quem Vos ama de verdade vai por um caminho seguro



FESTA 15 DE OUTUBRO

Memória


Quem Vos ama de verdade vai por um caminho seguro

“Oh, Senhor meu, como mostrais que sois poderoso! Não é preciso buscar razões para o que quereis, porque, acima de toda razão natural, fazeis todas as coisas tão possíveis que levais a entender sem nenhuma dúvida que basta amar-Vos de verdade e abandonar com sinceridade tudo por Vós para que, Senhor meu, torneis tudo fácil. Cabe dizer neste ponto que fingis trabalho em Vossa lei; porque não vejo, Senhor, nem sei como é estreito o caminho que leva a Vós. Vejo que é caminho real, e não vereda; caminho pelo qual vai com segurança quem de verdade entra nele. Muito longe estão os recifes e despenhadeiros onde cair, porque as ocasiões também o estão. Senda, e senda ruim, e caminho difícil, considero ser o que de um lado tem um vale muito profundo onde cair e do outro um despenhadeiro. A um mero descuido, os que vão por aí caem e se despedaçam.

Quem Vos ama de verdade, Bem meu, vai seguro por um caminho amplo e real, longe do despenhadeiro, entrada na qual, ao primeiro tropeço, Vós, Senhor, dais a mão; não se perde, por uma queda e nem mesmo por muitas, quem tiver amor a Vós, e não às coisas do mundo. Quem assim é percorre o vale da humildade. Não posso entender o que temem as pessoas diante do caminho da perfeição. O Senhor, por quem é, nos mostra quão falsa é a segurança dos que seguem os costumes do mundo sem se darem conta dos manifestos perigos aí existentes, e que a verdadeira segurança está em fazer esforços para avançar no caminho de Deus. Ponhamos os olhos Nele e não tenhamos medo que esse Sol de Justiça conheça ocaso, pois Ele não nos deixará andar nas trevas para a perdição se não O tivermos deixado antes.

Não se teme andar entre leões – parecendo que cada um quer levar um pouco – leões que são as honras, deleites e contentamentos semelhantes do mundo, enquanto, no caminho da perfeição, o mal infunde temor até de insetos. Mil vezes me espanto e dez mil vezes gostaria de chorar copiosamente e clamar a todos, tornando pública minha grande cegueira e maldade, para ajudar as pessoas de alguma maneira a abrirem os olhos. Que Aquele que pode, pela Sua Bondade, abra-lhes os olhos, e não permita que os meus voltem a ficar cegos. Amém.”.


Santa Teresa de Jesus
Livro da vida, Cap.XXXV

sábado, 22 de agosto de 2009

PORQUE A SANTIDADE É AMOR - Parte I



Parte I

«Sem mim nada podeis fazer» (Jo 15,5b)


A todos os homens Nosso Senhor dirige estas palavras: « Sem Mim nada podeis fazer » - mas de uma forma muito particular a quantos trabalham na própria santificação.

Na ordem natural, o homem pode agir sem Deus, quer dizer, sem Sua graça e Seu amor, embora jamais sem Seu concurso. Mas na ordem sobrenatural sua impotência é absoluta! Nada, absolutamente nada que seja proveitoso para sua alma e meritório para a vida eterna pode fazer a criatura sem que Deus, com Sua graça, esteja agindo com ela. Como nos assegura o Apóstolo S. Paulo « nem mesmo podemos, pronunciar devidamente o nome do Senhor Jesus, nem conceber sequer um bom pensamento ».

O homem é limitado em todas as coisas; não pode conseguir tudo o que pretende nem fazer tudo o que quer. Necessita sempre de algo ou de alguém em suas empresas. Às vezes isso lhe parece muito pesado e por isso gostaria de livrar-se do jugo de sua impotência. Sofre, se aborrece e se desgosta por ter de submeter-se a essa lei que se opõe à sua altivez e à sua soberba.

Mas quão distintamente pensa e sente a alma humilde que busca a santidade! Isso mesmo que para o homem orgulhoso é tão pesado e aborrecido, para ela é o mais doce dos consolos, por ser uma prenda do divino Amor.

A alma que deveras quer e busca a santidade « já tem algo do que busca » – nos diz Santo Agostinho. Ela já possui a graça santificante, o mais precioso de todos os bens, graça que é a « prenda ou o germe » da felicidade eterna. Por ela, participamos da própria natureza divina (cf. 2Pd 1,3-5). Buscando com a santidade ao Deus da santidade e doador de todo o bem, a alma procurará aumentar este tesouro incessantemente.

A GRAÇA ATUAL – Mas para isto a alma necessita, a cada instante, de outra graça: que Deus esteja agindo nela. Pois « sem Ele a alma nada pode fazer ». Doce e preciosa necessidade que nos obriga, para podermos amá-la ainda mais! Para viver na região do sobrenatural é mister, além da « graça santificante » – que nos dá todo o mecanismo da vida sobrenatural – a graça « atual » que põe esse mecanismo em movimento. É luz que Deus comunica à alma, em cada caso, para iluminar suas trevas, impulso que ele imprime à vontade para movê-la até que se torne ação. Essa graça « atual » é uma participação do próprio poder de Deus para que possamos ir chegando à perfeita semelhança com Ele, de modo que a alma assim em graça possa dizer que começa a « deificar-se » na terra; e o santo chega à deificação ou semelhança acabada no céu, quando todos nós seremos semelhantes a Ele (cf. Jo 3,2).

E como Deus é todo amor - « Deus charitas est » - a santidade consiste em deixar que Deus aja em nós e nós fiquemos, ao fim, como que transformados n’Ele. Eis por que « a santidade é amor ». Porque todos seus atos, mesmo os mais insignificantes, implicam certo trato amoroso com Deus, uma especial relação de intimidade com Ele, já que unicamente Ele é quem pode dar valor e mérito ao que fazemos.

J. Pastor
“La Santidad es amor”
Libro I, pp.16-17

(Continua)

PORQUE A SANTIDADE É AMOR - Parte II



Parte II

«Sem mim nada podeis fazer» (Jo 15,5b)


A criatura sozinha – mesmo depois de elevada à vida da graça –, sem uma nova graça « atual » em cada caso ou situação, nada pode fazer além dos limites do natural. E isto não é suficiente para santificar-nos. Deus, mandando-nos « ser santos e fazer sempre obras dignas da vida eterna », de certo modo obrigou-Se a vir Ele mesmo cumprir esses atos em nós, a unir-se à nossa débil vontade para mantê-la firme em seus propósitos. Deus obrigou-Se a nos dar força para que possamos ir adiante, sem desfalecer sob o peso de nossa fraqueza e nas lutas que temos de sustentar contra tantos inimigos.

Já pensaste, tu que desejas e buscas a santidade e que procuras fazer tudo por Deus, que enquanto estás fazendo isso - ou mesmo quando tão somente o pensas e o desejas - que Deus está contigo de um modo especial para dar-te Sua graça e se inclina para ti para que por Ele possas querer, desejar e executar tudo isso? Não o duvides, alma que suspiras pela santidade: quantas vezes sinceramente desejas a Deus ou praticas um ato bom, Deus está contigo, e te dá como um acréscimo de Si mesmo, cumprindo tudo em ti - « Cumpre tudo em todos » (Ef. 1,23).

Quando desejas mortificar-te ou quando tu modificas as tuas inclinações ou satisfações naturais, quando sofres, quando te imolas e calas, quando te sacrificas pelo bem dos outros ou padeces perseguições, oferecendo tudo ao Senhor; quando, por outra parte, recebes os sacramentos, procuras cumprir bem teus deveres, quando te humilhas e te arrependes depois de uma falta e continuas adiante, sem desanimar nem perder a paz; quando procuras que outros façam o mesmo, não só esses bons atos em si, mas também outros atos indiferentes como o falar, o recrear-se, o comer, o dormir etc.; se cuidas de purificar tua intenção, despojando-te do olhar humano e de todo interesse pessoal e buscas só a vontade de Deus e Sua glória, todos esses atos são sobrenaturais, pertencem àquela região onde sozinho tu não podes subir. O Senhor teve de vir em tua ajuda com uma graça « atual ». Assim, deves sempre invocar o auxílio divino com o olhar interior de tua alma voltado para Deus, purificando a intenção. Ao fazer apenas isto, obrigamos o paternal amor de Deus a inclinar-se para nós, suas pobres criaturas, a colher-nos em Seus braços, a elevar-nos acima do puramente natural e comunicar-nos algo de Seu ser divino, de Sua grandeza, de Seu poder, de Sua perfeição, de Sua luz e formosura. Quanto mais continuados e cumpridos com generoso amor sejam estes atos, a união com Deus se fará também mais íntima e habitual. Todos os homens estamos na presença de Deus, mas a alma não se aproxima d’Ele senão em proporção aos progressos que faz na caridade.

«NÃO TEMAIS» - Também se vê quão equivocadas andam tantas pobres almas que pensam que a santidade somente pode ser conseguida à força dos braços, com uma luta sem trégua nem descanso. Não! O Senhor, como Pai terno que é, não exige tanto; conhece nossa debilidade e por isso no Santo Evangelho não faz mais que repetir-nos a cada momento: « tende confiança »..., « não temais ». E ao fim de sua vida, para afiançar-nos ainda mais na confiança e assegurar-nos de Sua ajuda e proteção, acrescenta: « Eu estarei convosco » (Mt 18,20). Não deveis temer. Ficarei convosco para ajudar-vos, quando me chamardes, no trabalho de vossa santificação. E não só para ajudar-vos, mas também para vir, Eu mesmo, a vós pela Eucaristia, para levar a cabo essa grande obra que nunca conseguiríeis concluir sem Mim.

J. Pastor
“La Santidad es amor”
Libro I, pp.16-17

(Continua)

PORQUE A SANTIDADE É AMOR - Parte III



Parte III

«Sem mim nada podeis fazer» (Jo 15,5b)


A alma que ama a Deus pode, se quer, sempre, em tudo o que faz, diz e pensa, fazer com que Deus se una mais a ela, gozar de Seus abraços, do carinho de seu Deus. O Senhor, satisfeito do amor de Sua amada, sente-se como impelido e obrigado por esses pequenos cuidados e desejo de comprazer-se, inclinar para ela, estreitá-la contra Seu peito, infundir-lhe Seu amor e depois tomar assento estável em sua alma: « Nele estabeleceremos morada » (Jo 14,23b). Tudo isso – nos consola repeti-lo – é produzido apenas por um só ato sobrenatural, ainda que o menor, com maior ou menor eficácia, proporcional não ao mérito especial das obras, mas à força com as quais a intensidade do amor as eleva às alturas.

Assim, a santidade é toda obra de amor. « O bem sobrenatural de um só indivíduo supera o bem natural de todo o universo ». Supõe mais amor... A razão é clara: quando a criatura vive e age sobrenaturalmente, está unida a Deus, que lhe comunica algo de Seu divino ser e poder, e Ele mesmo age nela: « Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim » (Gl 2,20). « Não eu, mas a graça de Deus que está comigo » (1Cor 15, 10).

Mas para isto é necessário que nossas obras tenham sempre algo de seiva da divina videira, Jesus, nosso Salvador, ao Qual, como « ramos », estamos unidos. Quando o profeta Davi pronunciou aquela enfática expressão: « Eu declarei: vós sois deuses » (Sl 82[81], 6), certamente deve ter visto os homens sob o influxo da graça divina que os transforma e os possibilita « assimilar ao seu Criador ».

Quem poderia dizer quantos mistérios de amor encerra a graça que nos deifica! É necessária toda uma eternidade para agradecê-los... Se agora o compreendêssemos, morreríamos oprimidos sob o peso de tanto amor de nosso Deus para conosco.

« EU SOU A VIDEIRA E VÓS OS RAMOS » - Repete-me, Senhor, sem cessar, estas palavras que tanto me consolam: « sem mim nada podereis fazer ». Que gozo encontra minha alma em pensar que quando pratico o bem Tu estás sempre comigo para dar-lhe a vida, a eficácia, o valor! Assim facilmente me convenço de como pode sair algo de bom deste ser miserável e enfermo. Porque és Tu, centro de minha vida, Quem comunica algo de Tua vida divina e lhe dás o vigor, o movimento. Agora entendo por que algumas vezes seres pobres e débeis terem podido realizar coisas grandes, capazes de encher de assombro aos que não podiam entender a causa - por não saberem ir além dos limites naturais nos quais sustentavam toda sua grandeza e fortaleza.

Entendo por que tantas almas chegaram aos suplícios e à morte tão felizes; por que tantos jovens na flor de seus anos se entregam a uma vida de penitência e, renunciando ao mundo e aos prazeres que o mundo lhes oferece, perseveram até à morte lutando e triunfando generosamente contra as paixões e o pecado.

O mistério de todos estes prodígios é que Deus mora neles e os sustenta com a força sobrenatural de Sua graça: « Eu sou a videira e vós os ramos » (Jo 15,5), disse Jesus. Que união mais íntima podemos imaginar de Deus com nossa alma? Esta união supõe « certa comunicação de natureza » ¸ porque o tronco e os ramos formam uma só planta e recebem a mesma seiva das raízes. É preciso que a influência divina se difunda na alma para que possa conservar e aumentar suas energias e agir sobrenaturalmente.

J. Pastor
“La Santidad es amor”
Libro I, pp.16-17

(Continua)

PORQUE A SANTIDADE É AMOR - Parte IV



Parte IV

«Sem mim nada podeis fazer» (Jo 15,5b)


Quem, senão Ele, sustentou de pé, sem desfalecer, junto à Cruz do Filho moribundo, a mais terna de todas as mães, sem sentimentos de vingança ou de queixa contra os verdugos ou contra o céu? Não era, acaso, Maria uma criatura? Sim. Mas a união tão íntima e perfeitíssima que tinha com a Videira, da qual Ela também era um « ramo », e a perfeição e plenitude com que recebia Sua seiva, eram sua força – e podia dizer: « Para mim, a vida é Cristo » (Fl 1,21). « A mesma força que sustentava o Filho na Cruz sustentava a Mãe ao pé da Cruz », tranqüila e serena em sua profunda desolação.

« Sem mim nada podeis fazer! » Isto é o que eu quero, Senhor: não poder fazer nada senão contigo. Ter que fazer tudo unido a Ti, para que assim a glória de tudo o que faço seja só Tua, eterna origem de onde todo bem procede. « Sem mim nada podeis fazer! ». Logo, tudo o que os homens fazem sem Deus, embora aparente ser algo, ser grande, é um « nada », pois assim o chama a Eterna Verdade. Não há dúvida. Um « nada » é tudo o que o homem consegue fazer sem seu Deus, todas as obras puramente naturais - ainda que não sejam más - nas quais Deus não tem outra parte além do Seu concurso indispensável como Criador e conservador, independente da vontade da criatura, que às vezes direta ou indiretamente queria ainda subtrair-Lhe, como se isto lhe fosse possível.

Ao contrário, a alma que busca sua santificação se alegra e se oferece com rendida entrega a essa vontade suprema de Deus, pela qual unicamente é movida e quer agir, inclinando, desse modo, o próprio Deus a tomar parte de seu trabalho pela ação « graça atual », fazendo-o sobrenatural e meritório.

A santidade é amor e é obra de amor, que supõe e reclama sempre amor. Amor grande, terno, da parte de Deus, havendo-se Ele mesmo obrigado a realizá-la nas almas que se submetem ao domínio do Seu amor. Amor também da parte da alma, pois este delicioso « render-se » ao amoroso império de seu Deus em tudo o que faz não é outra coisa senão um movimento produzido pelo Amor na alma, Amor que a lança ao mundo sobrenatural onde a « santidade » se realiza.

J. Pastor
“La Santidad es amor”
Libro I, pp.16-17